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2 de março de 2006

LISBOA A PE

A caminho da minha consulta anual no oftalmologista, que fica na zona do Bairro das Colónias, perto da Igreja dos Anjos (e é curioso que só depois de eu ter saído do bairro onde nasci e cresci é que tenha mudado para um oftalmologista na minha antiga zona), dou por mim com tempo nas mãos depois do almoço e decido ir a pé da Praça de Londres. Sei que não levará mais de meia hora, é um trajecto que muitas vezes fiz a pé noutros tempos; quer apanhando a Almirante Reis no Areeiro, quer cortando pela Guerra Junqueiro.

Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.

28 de fevereiro de 2006

O NINJA ATRAPALHADO

Em plena rua da Escola Politécnica, a mãe vira-se para trás e chama o filho que se deixou atrasar do grupo, a tentar voltar a prender à volta da cintura da fantasia de ninja a espada de plástico que caiu ao chão. Fossem os ninjas todos assim tão atrapalhados e duvido que as criancinhas quisessem andar fantasiadas de ninja.

GRAFFITI

Visto num andaime na rua Alexandre Herculano, escrito discretamente a marcador preto entre dois cartazes rasgados: "Tem cuidado sff"

27 de fevereiro de 2006

INTERROGAÇAO EXISTENCIAL

Quando os táxis eram pretos com as capotas verdes, não deixou de haver carros pretos. Desde que os táxis são creme, nunca mais se viram carros de cor creme.

26 de fevereiro de 2006

DIFERENÇAS CULTURAIS

Uma coisa que os meus amigos estrangeiros acham muito peculiar em mim é a minha predilecção, sobretudo de Inverno, por uma chávena de leite quente (só consigo bebê-lo frio de Verão). A presença do leite à mesa do pequeno-almoço limita-se ao bulezinho do "creamer", que o mesmo dizer, o leite ou substituto do leite para aclarar o café (de que o café berlinense do meu hotel bem precisava...). Ou então ao pacote de leite no frigorífico para juntar aos flocos — mas sempre frio. O meu leite quente é visto por quase todos os meus amigos estrangeiros como uma coisa horrível.

25 de fevereiro de 2006

PORNOGRAFIA GUSTATIVA

Ele já havia a porno-tikka masala do Natraj. Agora há o porno-cheesecake com bolacha esfarelada e molho de framboesa da Cristina.

24 de fevereiro de 2006

GELDAUTOMAT

Lembram-se quando eu me queixei de ter que pagar uma comissão de levantamento nos multibancos de São Francisco? Pois descobri que os meus levantamentos de dinheiro nos multibancos de Berlim (melhor: nos Geldautomaten, que é como os alemães dizem multibanco, do Deutsche Bank na Potsdamer Platz — que, ainda por cima, não dão talões) foram contabilizados como levantamentos a crédito, com uma taxa de €3,50 por cada levantamento de €50,00 e uma taxa de €5,00 num levantamento de €100,00. E, se acreditar na chamada de capa do Metro de hoje, os levantamentos nos nossos multibancos vão passar a ser pagos também.

23 de fevereiro de 2006

ZOO PALAST

É o outro cinema fora do enfiamento da Potsdamer Platz onde vi filmes no Festival de Berlim — fica mesmo ao lado da célebre "Zoo station" dos U2 (de seu verdadeiro nome Bahnhof Zoologischer Garten). Ao entrar na majestosa sala 1 (mil lugares, cheios a abarrotar quando lá fui), com a sua estrutura redonda, lembrei-me do Apolo 70 mas também do São Jorge, e das salas clássicas de Lisboa que hoje já quase não resistem. Gosto destas fachadas "cegas", antigas, deste estilo marcadamente anos 50, desta grandiosidade pensada para outras eras. Vejam-no aqui.

VOX POPULI

Ouvido na TSF, hoje, no noticiário das oito: uma vendedora do Bulhão acha que isto da gripe das aves é tudo fabricado para lixar os vendedores de frangos, porque dizem que só vai haver vacinas em 2007 e que a gripe chega a Portugal em 2006.

22 de fevereiro de 2006

KINO INTERNATIONAL

Fica na antiga Berlim Leste, na Karl-Marx-Allee, antiga avenida da "nomenklatura" no enfiamento da Alexanderplatz. Arquitecturalmente, é um cinema modelar de um certo modo de pensar as salas de cinema nos anos 50, com os foyers espaçosos de poltronas confortáveis, a decoração revestida a madeira, a sala em anfiteatro de grande dimensão. Vi lá um único filme deste Festival de Berlim, mas fiquei apaixonado pelo décor. Podem vê-lo aqui — e perceberão o meu encanto se fizerem a "3d tour" — mas conseguem ter uma melhor ideia da arquitectura aqui.

21 de fevereiro de 2006

HUMOR BERLINENSE

Há um bar, em Linienstraße 136 (metro U6 Oranienburger Tor), a poucos metros da galeria C/O Berlin onde está a excelente exposição de Annie Leibovitz, que dá pelo requintado nome de The Sharon Stonewall Bar.

POLAROID: METRO U2 ZOOLOGISCHER GARTEN-ALEXANDERPLATZ

Um polícia fardado, de mochila às costas e saco de desporto, entra comigo na carruagem de metro na estação de Zoologischer Garten. Espera até que todos se sentem na carruagem meio vazia e o comboio arranque para se sentar, boné na mão, mochila entre as pernas, saco de desporto na lateral do banco. Mastiga discretamente uma pastilha elástica, varrendo a carruagem com o olhar.

POR FALAR EM AEROPORTOS

Berlim pode ser a capital da Alemanha e ter três aeroportos, mas não há carreira regular directa Lisboa-Berlim.

20 de fevereiro de 2006

JET-LAG

É muito estranho aterrar de novo em Lisboa, depois de um mês de ausência (duas semanas de férias em São Francisco a oito horas de distância a menos, quase duas semanas de trabalho em Berlim a uma hora de distância a mais). A sensação primordial é de desfasamento, de desorientação; como se o supermercado onde me avio regularmente, de repente, fosse outro, como se as coisas tivessem mudado imperceptivelmente.

BERLIN TEGEL

Tegel, na orla do centro, é um dos três aeroportos que serve Berlim (os outros dois são Tempelhof, em pleno centro da cidade, e Schönefeld, a 20 km). E é um aeroporto curioso, porque não funciona pela lógica habitual do átrio central a partir do qual se acede às várias portas de embarque; funciona, ao contrário, como uma "península" ou um grupo de "ilhas" interligadas em que o passageiro pode aceder directamente ao seu portão de embarque sem passar por nenhum átrio central. À entrada do aeroporto, um enorme painel anuncia os portões dos vários vôos e basta apenas dirigir-se directamente ao certo para fazer o check-in e embarcar.

19 de fevereiro de 2006

PROGRAMA CULTURAL DE DOMINGO

Passeio do dia: a pé do hotel (Park Inn Berlin-Alexanderplatz) até à Karl-Marx-Allee para fotografar a fabulosa arquitectura do cinema International. Metro: U5 Schillingstraße de retorno a Alexanderplatz para apanhar a linha U8 para Kottbusser Tor, ligar com a U1 para Hallisches Tor e a U6 para Kochstraße, saindo junto à Haus am Checkpoint Charlie (fechada para obras), vendo o Checkpoint Charlie propriamente dito (nao há muito para ver, à excepcao dos vendedores de rua e da sua mercadoria de relíquias da Guerra Fria, que vao de gorros do Exército Vermelho até máscaras de gás russas) e fazendo a Friedrichstraße a pé até Unter den Linden. Aqui, apanho o autocarro 100, que faz o "percurso turístico" (felizmente sem guia) pelo centro de Berlim até ao Zoologischer Garten. Saio, tiro fotografias à fabulosa arquitectura do cinema Zoo Palast e à destruída Gedächtnis-Kirche, relíquia da II Guerra Mundial, e vou a pé até ao Bauhaus-Archiv perto da Kurfürstenstraße. É um edifício lindíssimo, mas a exposicao permanente é pobrezinha para os sete euros que pedem pela entrada. Volto a apanhar o 100 até à Brandenburger Tor, onde retorno a Friedrichstraße e atravesso o Spree para ir almocar a Oranienburger Straße. À saída, atravesso a Tucholskystraße para, na Linienstraße, ir à galeria C/O Berlin ver a magnífica exposicao de retratos de músicos americanos por Annie Leibovitz, "American Music", e meto-me no metro até Potsdamer Platz. Retorno ao "local do crime" onde passei a maior parte dos últimos dez dias em trabalho para ver aquilo que nao tive tempo de ver enquanto o Festival de Berlim decorreu: o extraordinário Berlin Film Museum, com uma arquitectura sumptuosa ocupando três pisos do edifício do Sony Center na Potsdamer Straße e um percurso de visita absolutamente deslumbrante na sua construcao multimedia. Porque, sim, os museus berlinenses estao abertos ao domingo, e têm muita gente.

DISTÂNCIA

Em Berlim, tudo fica mais perto do que parece, como percebi hoje no "dia livre" em que andei a passear pela cidade. É mais directo apanhar o autocarro 148 de Alexanderplatz para a Potsdamerstraße do que o metro (embora, em dia de semana, provavelmente leve um tudo nada mais de tempo). Dá para ir a pé da Alexanderplatz até à zona dos restaurantes em Mitte, Oranienburger Straße, ou apanhar o eléctrico M6, e leva menos tempo do que a volta que tem de se dar no metro (quatro paragens até Stadtmitte, trocar de linha e mais quatro paragens até Oranienburger Tor). Unter den Linden nao tem sequer paragem de metro (vai haver uma em Brandenburger Tor, mas está ainda em construcao) mas nao faz mal, porque há pelo menos duas paragens da linha U6 que nao ficam longe. Tudo isto, também, porque os transportes públicos dos rapazes funcionam - e funcionam mesmo, com aquela pontualidade que associamos habitualmente aos germânicos. É difícil uma pessoa perder-se no sistema de transportes berlinense desde que tenha apanhado as coordenadas básicas. Mas é um facto que também há gente para tudo.

HUMOR BERLINENSE

Lido num reclame à loja Berlin Kaufhaus, em Unter den Linden:

"Good girls go to heaven, bad girls go to Berlin, and the worst girls shop at Berlin Kaufhaus"

Curioso é o facto da Berlin Kaufhaus ser uma loja de souvenirs.