Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
12 de fevereiro de 2006
JAYWALKING V2.0 (correcção)
Afinal, há semáforos para peões em Berlim. Só que única e exclusivamente nos cruzamentos principais e mais complicados; o grosso das ruas não os têm de todo.
TURISMO METROPOLITANO
O metro berlinense é das poucas coisas que tenho realmente tido oportunidade de ver, nos vai-vens constantes entre o hotel numa Alexanderplatz em extensivas obras de renovação (parece o Porto durante a construção do metro, Lisboa durante as obras da Expo) e o centro nevrálgico do festival na Potsdamer Platz (a zona oriental depois da Expo, repleta de edifícios modernos, cromados, vistosos). Já conheço os cantos à Marlene-Dietrich-Platz, ao Theater am Potsdamer Platz reconvertido para a ocasião em Berlinale Palast, ao centro de imprensa no hotel Grand Hyatt, aos restaurantes da zona (que não são muitos nem muito interessantes), ao CinemaxX Potsdamer Platz, e entre projecções e textos (e os horários bizarros de refeições dos alemães, que almoçam a horas em que estou a ver filmes e jantam às seis da tarde uma coisinha leve, com o resultado de que às nove da noite estão os restaurantes a fechar), o tempo não tem sobrado para o resto. Berlim, ela própria, ainda me é bastante desconhecida. E tenho uma queixa a fazer à BVG, empresa que gere o metro: porque carga d'água é que, na estação de Zoologischer Garten, só se acede ao cais U2 direcção Pankow através de uma única saída, sem correspondência com o átrio central nem as outras saídas? Antes que eu o percebesse perdi ali 10 minutos à procura de um acesso que estava sinalizado mas, evidentemente, não existia.
A CIDADE DOS PLANTÍGRADOS
Berlim pulula com ursos. O urso é o símbolo da cidade, visível em alguns emblemas públicos e num sem-número de anúncios e cartazes - e é também o símbolo do Festival de Cinema de Berlim, que atribui anualmente o Urso de Ouro e cujo logotipo representa um urso peludo de pé. Espalhados por Berlim estão ursos coloridos recortados em tamanho real, perfeitos para os transeuntes fotografarem aproveitando o bom tempo, frio e seco, que hoje, finalmente, fez a sua aparição.
10 de fevereiro de 2006
MOEDA
É muito ágradável viajar para um país onde, partilhando a mesma moeda oficial, conseguimos ter a noção do que estamos a pagar por relação ao nosso próprio país. E para o qual não precisamos de ir ao banco trocar dinheiro nem estar sempre a fazer conversões mentais.
JAYWALKING
Uma das coisas mais surpreendentes em Berlim é a absoluta ausência de passadeiras de peões nas ruas. Toda a gente atravessa onde bem entender, mesmo em frente dos carros eléctricos se for preciso - confesso que, num país que é conhecido pela sua organização meticulosa, esta ausência me parece um tanto ou quanto fora de carácter.
AH COMO É BOM ASSIM ACORDAR
Acordar no 32º andar do Park Inn Berlin-Alexanderplatz e ver o topo da Fernsehturm primeiro invisível por entre o nevoeiro e, depois, a "bola" central coberta de neve, e depois olhar para os topos de todos os prédios, novos e velhos, da enorme praça da antiga Berlim Leste, e vê-los brancos com a neve que caiu durante a noite.
U BHF ALEXANDERPLATZ
Na estação antiga, as linhas U2, U5 e U8 cruzam-se em plataformas sobrepostas, como uma cruz que vai em direcções diferentes. Os comboios das linhas U5 e U8 são modernos, articulados, amarelos forte. Os comboios da linha U2 são mais antigos. Mas o som da voz que anuncia a próxima estação é exactamente igual ao que se ouve no metro de Lisboa. E os elevadores que fazem a ligação entre os dois pisos da estação e a superfície são tão lentos como os do metro de Lisboa.
9 de fevereiro de 2006
EFEITO DE ESTUFA
Ontem, chovia. Hoje de manhã, fazia sol. A meio da tarde, nevava. Agora, chove outra vez. O que vale é que continua um frio de rachar.
CADÊ O REVISOR?
Tanto falamos nós do sistema de bilhética do nosso metro que é uma surpresa chegar a Berlim e encontrar um metropolitano que, literalmente, confia nos seus passageiros: não há barreiras de espécie nenhuma, o passageiro compra o bilhete, valida-o numa máquina e acede ao cais sem atravessar nenhuma barreira ou encontrar nenhum controle. Claro que a coisa abre completamente o flanco aos penduras. Mas eles parecem não se importar muito com isso.
8 de fevereiro de 2006
U-BAHN
Acreditem ou não, a linha de metropolitano que apanho na Alexanderplatz para ir para a Berlinale, na Potzdamer Platz, a sete estações (antigas, patuscas, mais sobre isso noutra polaroid) de distância é a linha... U2. E, por acaso, passa pela estação do Jardim Zoológico (não vos diz nada?).
ICH BIN EIN BERLINER
Do meu quarto de hotel tenho uma vista magnífica sobre a Alexanderplatz iluminada de noite, com a Fernsehturm - a célebre torre de rádio e televisão - mesmo em frente. E as obras de renovação a continuarem mesmo à entrada do hotel.
6 de fevereiro de 2006
ENQUANTO ISSO, NO MUNDO REAL
Uma pessoa percebe que regressou a Portugal quando apanha nos noticiários declarações dos funcionários judiciais a justificarem a sua greve de zelo com os maus tratos por parte do governo e dos cidadãos indignados por a Segurança Social cobrar duas vezes as mesmas dívidas.
ETHEL! OUR PLANE IS LEAVING!
Uma pessoa percebe logo quando regressa a Portugal quando apanha, no vôo de Londres, um quarentão de poupa que, por baixo do blusão vermelho Benfica, traz um arrazoado de medalhas sobre uma T-shirt branca que diz à frente "PS Nazaré" e nas costas "Mudança Diferente com João Benavente", deixando ver no antebraço a tatuagem de coração trespassado por uma flecha desenhada a caneta de feltro com "São" escrito, e passa as duas horas a emborcar latas de cerveja. Laurie Anderson já o descrevera em "The Ugly One with the Jewels and Other Stories": é muito triste quando a nossa identidade nacional consegue ser resumida em meia-dúzia de características.
LISBOA
É curioso como, apesar do sol e do azul luminoso do céu que só Lisboa consegue ter, tudo me parece a preto e branco após duas semanas noutra cidade. E mais curioso ainda é perceber como as velhas rotinas se reencontram de modo quase atávico, intuitivo, automático, como lhes regressamos sem verdadeiramente dar por isso.
5 de fevereiro de 2006
O JARDIM DOS ESQUILOS
A última memória destas férias em São Francisco, apenas algumas horas antes de embarcar no vôo de regresso a Lisboa via Londres: uma visita ao Jardim Botânico situado no Golden Gate Park, um pequeno oásis de calma bem no meio do trânsito louco da zona do Presidio, mesmo à beirinha da via rápida que leva à ponte Golden Gate, que só aqui e ali se ouve por entre o verde, os patos, os pardais. Onde há um jardim zen japonês e pequenos trilhos de terra onde o visitante se pode deixar perder na certeza de que regressa sempre ao ponto de partida — e onde os esquilos pululam em quantidades assinaláveis à espera que algum visitante mais simpático lhes atire uma avelã ou uma noz que traga no bolso, chegando até ao limite desavergonhado de fazer pose para as câmaras fotográficas.
4 de fevereiro de 2006
CASA
Vazia e fria, depois de duas semanas noutra cidade. Por três dias apenas, antes de arrancar para Berlim, desta vez em trabalho.
3 de fevereiro de 2006
KYOTO
Se alguém que me estiver a ler passar por São Francisco até dia 26, faça a fineza de não perder a extraordinária exposição de arte japonesa produzida em Kyoto no século XVIII, "Traditions Unbound", patente no Museu de Arte Asiática (no antigo edifício da biblioteca municipal, na Larkin, mesmo à esquina da Market, em frente à grandiosa Câmara Municipal e ao lado da nova biblioteca pública municipal, que é um exemplo para qualquer cidade). São exemplares da milenar arte de pintar ~em painéis, biombos e pergaminhos requintadamente trabalhados, com tintas, caligrafia, folha de prata ou oura e pergaminho aplicados sobre luxuosos painéis de seda ou portas deslizantes de papel de arroz. Uma lição de delicadeza e elegância, mesmo a tempo do Ano Novo Chinês.
HONDA SHADOW SPIRIT
Há, evidentemente, muitas maneiras de se ver uma cidade, mas garanto-vos que uma das mais invulgares é vê-la como a tenho visto nos últimos dias, como passageiro de uma motocicleta. O que, numa cidade que é parcialmente plana (Mission, Market, SoMa, Financial District, Wharves) e a partir de uma certa zona uma sucessão de altos e baixos (Nob Hill, Chinatown, Russian Hill, Pacific Heights), tem o seu quê de aventura, mas também permite abarcar a verdadeira dimensão desta metrópole de quase um milhão de habitantes onde os arranha-céus se condensam no centro financeiro da baixa, deixando tudo o resto a casas ou edifícios de habitação que nunca ultrapassam os quatro andares. É isso que é agradável em São Francisco: fora da baixa, vê-se sempre o céu. Excepto, claro, quando chove.
ALGODÃO DOCE
Ver os bancos de nevoeiro a esvoaçarem sobre São Francisco como se fossem nuvens é algo de mágico: envolver o topo dos arranha-céus em fumo branco espesso, esconder as colinas do outro lado da baía de São Francisco por trás de uma cortina opaca, tintar de branco muito sujo a noite enluarada e translúcida. O David diz-me que esta coabitação de nevoeiro com sol luminoso é típica de São Francisco (e, de caminho, diz também que é "leather weather" perfeito). Gosto deste aspecto de algodáo doce que desce sobre a cidade.
2 de fevereiro de 2006
CONSUMISMO DESENFREADO
Recomendação aos bibliófilos de passagem: vale a pena dar um salto à livraria Aardvark Books, na esquina da Market com a Church, especializada em livros em segunda mão e restos de colecção a preços reduzidos. Como a arrumação está razoavelmente bem feita, dá para uma pessoa se perder à procura de coisas.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
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