Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
5 de fevereiro de 2006
O JARDIM DOS ESQUILOS
A última memória destas férias em São Francisco, apenas algumas horas antes de embarcar no vôo de regresso a Lisboa via Londres: uma visita ao Jardim Botânico situado no Golden Gate Park, um pequeno oásis de calma bem no meio do trânsito louco da zona do Presidio, mesmo à beirinha da via rápida que leva à ponte Golden Gate, que só aqui e ali se ouve por entre o verde, os patos, os pardais. Onde há um jardim zen japonês e pequenos trilhos de terra onde o visitante se pode deixar perder na certeza de que regressa sempre ao ponto de partida — e onde os esquilos pululam em quantidades assinaláveis à espera que algum visitante mais simpático lhes atire uma avelã ou uma noz que traga no bolso, chegando até ao limite desavergonhado de fazer pose para as câmaras fotográficas.
4 de fevereiro de 2006
CASA
Vazia e fria, depois de duas semanas noutra cidade. Por três dias apenas, antes de arrancar para Berlim, desta vez em trabalho.
3 de fevereiro de 2006
KYOTO
Se alguém que me estiver a ler passar por São Francisco até dia 26, faça a fineza de não perder a extraordinária exposição de arte japonesa produzida em Kyoto no século XVIII, "Traditions Unbound", patente no Museu de Arte Asiática (no antigo edifício da biblioteca municipal, na Larkin, mesmo à esquina da Market, em frente à grandiosa Câmara Municipal e ao lado da nova biblioteca pública municipal, que é um exemplo para qualquer cidade). São exemplares da milenar arte de pintar ~em painéis, biombos e pergaminhos requintadamente trabalhados, com tintas, caligrafia, folha de prata ou oura e pergaminho aplicados sobre luxuosos painéis de seda ou portas deslizantes de papel de arroz. Uma lição de delicadeza e elegância, mesmo a tempo do Ano Novo Chinês.
HONDA SHADOW SPIRIT
Há, evidentemente, muitas maneiras de se ver uma cidade, mas garanto-vos que uma das mais invulgares é vê-la como a tenho visto nos últimos dias, como passageiro de uma motocicleta. O que, numa cidade que é parcialmente plana (Mission, Market, SoMa, Financial District, Wharves) e a partir de uma certa zona uma sucessão de altos e baixos (Nob Hill, Chinatown, Russian Hill, Pacific Heights), tem o seu quê de aventura, mas também permite abarcar a verdadeira dimensão desta metrópole de quase um milhão de habitantes onde os arranha-céus se condensam no centro financeiro da baixa, deixando tudo o resto a casas ou edifícios de habitação que nunca ultrapassam os quatro andares. É isso que é agradável em São Francisco: fora da baixa, vê-se sempre o céu. Excepto, claro, quando chove.
ALGODÃO DOCE
Ver os bancos de nevoeiro a esvoaçarem sobre São Francisco como se fossem nuvens é algo de mágico: envolver o topo dos arranha-céus em fumo branco espesso, esconder as colinas do outro lado da baía de São Francisco por trás de uma cortina opaca, tintar de branco muito sujo a noite enluarada e translúcida. O David diz-me que esta coabitação de nevoeiro com sol luminoso é típica de São Francisco (e, de caminho, diz também que é "leather weather" perfeito). Gosto deste aspecto de algodáo doce que desce sobre a cidade.
2 de fevereiro de 2006
CONSUMISMO DESENFREADO
Recomendação aos bibliófilos de passagem: vale a pena dar um salto à livraria Aardvark Books, na esquina da Market com a Church, especializada em livros em segunda mão e restos de colecção a preços reduzidos. Como a arrumação está razoavelmente bem feita, dá para uma pessoa se perder à procura de coisas.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
AZUL ESTRUMPFE
São Francisco está cheia de casas antigas de madeira, a que eles chamam "vitorianas" por razões mais ou menos evidentes, de fachada estreita e dois ou três andares - algumas estão repartidas em dois ou três apartamentos e muitas delas mantêm os esquemas de cor com que foram originalmente pintadas, ou foram repintadas com esquemas que respeitam essa estética. Uma dessas casas, na esquina da Market com a Duboce, onde está instalado um centro de informação e recursos dedicado à comunidade homossexual e transsexual, foi, contudo, inteiramente pintada a um azul forte e muito moderno que deixou os apreciadores da arquitectura clássica muito agastados, passando a denominar o dito edifício de "Smurf Center" - "Centro Estrumpfe" - porque o azul em questão é o mesmo da cor da pele dos Estrumpfes.
POR FALAR EM CARAVAGGIO
Há um "outdoor" delicioso que pulula pelos quiosques de venda de jornais de São Francisco, protestando contra o declínio da qualidade da educação escolar contemporânea (como podem ver, não é só no nosso cantinho à beira-mar plantado...). Por cima de um quadro de Caravaggio, escreve-se: "There isn't enough art in our schools. No wonder people think Caravaggio is a guy on The Sopranos."
SEMÁFOROS
Em São Francisco, os sinais de trânsito não são nada como os nossos. Os semáforos não estão localizados à entrada do cruzamento mas sim à saída, pelo que os condutores param antes de entrar no cruzamento; e é possível virar à direita num sinal vermelho se houver uma tabuleta a indicá-lo junto ao semáforo. As ruas estão identificadas em placas presas a postes em cada esquina, ou em inscrições gravadas no cimento das esquinas dos passeios. Quem conduz pode ver, antes de cada cruzamento, uma grande placa verde que indica qual a rua que se vai cortar a seguir.
BOA EDUCAÇÃO
Passeando pela baixa de São Francisco, também conhecida como Financial District pela profusão de bancos ali existentes, ouço uma sirene de nevoeiro que tanto pode ser um alarme de incêndio como um barco na baía como uma fábrica a chamar para o almoço. Surpreendida pelo meu desconhecimento, uma senhora que passa, cabelo louro platinado, puxando uma mala de viagem, diz-me com um sorriso "não se rale, é só a sirene do meio-dia de terça-feira".
1 de fevereiro de 2006
HIGIENE
Todas as casas de banho públicas em que entrei até hoje em São Francisco, de lojas, cinemas, restaurantes, o que se quiser, têm água quente corrente, papel higiénico e coberturas de sanita, sabão líquido e toalhas de papel com fartura.
TAMBÉM TU, BRUTUS
Há uma loja da Zara em São Francisco, na Post, junto ao "centro comercial ao ar livre" que é a praça Union Square, na distinta vizinhança da H&M, Macy's, Levi's, Nike, Disney, Borders...
STARBUCKS
É capaz de ser complicado explicar o conceito de um café "gourmet", mas digamos que o Starbucks é o que o Caffe di Roma gostava de ser, a um tempo café "continental" de luxo com ambição a tertúlia e café de esquina aberto a todos. Há, literalmente, um a cada esquina de São Francisco, sempre com um sem-número de mesinhas de madeira com cadeiras e um ambiente acolhedor e convivial com música suave a tocar. Os americanos tomam café às toneladas (às canecas e não às chávenas; para eles, a bica não existe, ou se existe chama-se "espresso" e é servido em copinhos de papel e custa o mesmo que um café normal, ou seja, é escandalosamente caro e geralmente não presta para nada) e portanto faz todo o sentido que haja uma casa de cafés como o Starbucks, que propõe cafés elaboradíssimos (eu também ainda não consegui perceber o que é um "cinnamon dolce latte", a não ser que é um café com leite que leva canela e sei lá mais o quê e não sabe nada mal) a preços que, para a bolsa deles, nem são especialmente caros (a média é $3, ou seja, €2.50 - em Londres o mesmo tamanho fica por £3, tirem as vossas conclusões).
(Claro que, depois, há os bolinhos para acompanhar. Isso complica um bocado as coisas.)
No entanto, é curioso como, das minhas visitas ao Starbucks do Castro (ao fundo da rua onde estou hospedado, igualmente conhecido por Bearbucks ou Starbears por razões plantígradas que não vêm aqui ao caso), ou mesmo a outros Starbucks pela cidade, se contam pelos dedos o número de pessoas que estão, efectivamente, ali com alguém. A maior parte traz o portátil, o jornal da manhã, um livro, e senta-se numa das mesinhas com o seu café (entregue num copo alto de cartão plastificado ou plástico cartonado, semelhante aos dos refrigerantes de "fast food", que permite beber por uma pequena abertura na tampa, impedindo que o café arrefeça ou se entorne) e o seu bolo (entregue num saquinho de papel pardo, tudo muito higiénico). Mas também há quem encontre ali amigos do bairro ou pessoal conhecido e fique na conversa à volta do cafézinho ou nas poucas e acanhadas mesinhas da esplanada. Esse espírito de bairro, contudo, existe mais no Starbucks do Castro no que noutros da cidade e tem tudo a ver com o sítio.
(Claro que, depois, há os bolinhos para acompanhar. Isso complica um bocado as coisas.)
No entanto, é curioso como, das minhas visitas ao Starbucks do Castro (ao fundo da rua onde estou hospedado, igualmente conhecido por Bearbucks ou Starbears por razões plantígradas que não vêm aqui ao caso), ou mesmo a outros Starbucks pela cidade, se contam pelos dedos o número de pessoas que estão, efectivamente, ali com alguém. A maior parte traz o portátil, o jornal da manhã, um livro, e senta-se numa das mesinhas com o seu café (entregue num copo alto de cartão plastificado ou plástico cartonado, semelhante aos dos refrigerantes de "fast food", que permite beber por uma pequena abertura na tampa, impedindo que o café arrefeça ou se entorne) e o seu bolo (entregue num saquinho de papel pardo, tudo muito higiénico). Mas também há quem encontre ali amigos do bairro ou pessoal conhecido e fique na conversa à volta do cafézinho ou nas poucas e acanhadas mesinhas da esplanada. Esse espírito de bairro, contudo, existe mais no Starbucks do Castro no que noutros da cidade e tem tudo a ver com o sítio.
31 de janeiro de 2006
PEQUENA MEDITAÇÃO
Quando estou de férias, tenho tendência a dormir menos do que em horário normal de trabalho. Isto é estranho porque a tendência seria para dormir mais.
ATM
As caixas multibanco americanas (conhecidas por ATM - "automatic teller machines") têm todas as funcionalidades das caixas multibanco portuguesas, com uma diferença importante. Onde o sistema português é, como o nome indica, uma rede "multi-banco" onde é indiferente se quem levanta dinheiro é ou não cliente do banco desde que pertença a um banco da rede, nos EUA a rede só é "multi-banco" em termos de funcionalidade. Cada banco opera as suas próprias caixas, e qualquer cliente de qualquer banco pode levantar dinheiro em qualquer caixa - mas, se levantar dinheiro numa caixa que não pertence ao seu banco, tem de pagar uma taxa de transacção (habitualmente de $1.50, pouco mais de €1), taxa que desaparece se for cliente do banco onde está a levantar dinheiro. Não sei se estão a ver o que isto pode significar para um banco e para a bolsa do consumidor médio.
30 de janeiro de 2006
PONTES
Toda a gente sabe que São Francisco tem a ponte Golden Gate, a "gémea" da nossa ponte 25 de Abril, vermelha e tudo, que faz a ligação da enorme península que é São Francisco com o resto do estado da Califórnia e, mais prosaicamente, com o condado (já suburbano) de Marin. Mas há uma outra ponte, uns quantos quilómetros mais abaixo, que é, se quiserem, o equivalente da nossa Vasco da Gama, inclusive no tamanho: a Bay Bridge (literalmente, ponte da Baía). A equivalência é literal: acede-se à Golden Gate, vindo de São Francisco, por entre o verde que rodeia a zona do Presidio (Monsanto, se quiserem) e na margem Norte, antes de virar para Sausalito, há um miradouro que dá uma vista extraordinária para a baía; à Bay acede-se pelo meio do trânsito citadino e a travessia termina por entre o bulício suburbano de Oakland. Só que a Golden Gate pode ser atravessada a pé, pelas laterais para isso pensadas de raiz; é ver os turistas (e não só japoneses) parados a cada poucos metros com as câmaras na mão.
TiVo
Imaginem o que é terem uma caixinha mágica que vos permite gravar tudo o que vocês quiserem da televisão para ver depois, eliminando todos os anúncios, guardando apenas o programa, sem precisarem de cassettes, DVDs ou o que quer que seja. Isso existe aqui; chama-se "digital video recorder" - porque é um disco rígido com uma capacidade assombrosa - , mas é mais conhecido pela marca TiVo, uma de duas companhias (a outra chama-se ReplayTV) que têm o quase monopólio do sistema, que está ligado pela internet a um guia de TV permanentemente actualizado. Liga-se o televisor e ele fornece informação sobre o programa que está a dar, quando começou e até que horas está a dar, quem entra, quem dirige, quando foi feito, em que canal está a dar e o que vai passar a seguir.
Só é pena que a televisão americana tenha tão pouco em que valha a pena usá-lo.
Só é pena que a televisão americana tenha tão pouco em que valha a pena usá-lo.
SCION xB
Um dos automóveis mais estranhos que se pode ver nas ruas de São Francisco é o Scion xB. Não perguntem exactamente qual é a atracção de uma combinação de miniatura de brincar, táxi londrino e Mini, sobretudo num país que adora banheiras, porque eu não a consigo detectar e os meus amigos locais também não a percebem. Mas ele existe. E não se vê assim tão pouco como isso.
NÃO CAI NEVE EM SÃO FRANCISCO
Parece que está a nevar em Lisboa. E eu que vi neve pela primeira vez há dois dias, em Yreka: grandes flocos a flutuarem em direcção ao chão, como uma chuva em câmara lenta de algodão. Aqui em São Francisco está como Lisboa estava há pouco mais de uma semana: ameno e encoberto, ameaçando chuva a espaços.
29 de janeiro de 2006
PEQUENO GUIA DE COMPRAS
Umas calças Levi's custam em Lisboa qualquer coisa como €80. Em São Francisco, dependendo das lojas, entre $30 e $40 (€24 a €32).
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