Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
31 de janeiro de 2006
PEQUENA MEDITAÇÃO
Quando estou de férias, tenho tendência a dormir menos do que em horário normal de trabalho. Isto é estranho porque a tendência seria para dormir mais.
ATM
As caixas multibanco americanas (conhecidas por ATM - "automatic teller machines") têm todas as funcionalidades das caixas multibanco portuguesas, com uma diferença importante. Onde o sistema português é, como o nome indica, uma rede "multi-banco" onde é indiferente se quem levanta dinheiro é ou não cliente do banco desde que pertença a um banco da rede, nos EUA a rede só é "multi-banco" em termos de funcionalidade. Cada banco opera as suas próprias caixas, e qualquer cliente de qualquer banco pode levantar dinheiro em qualquer caixa - mas, se levantar dinheiro numa caixa que não pertence ao seu banco, tem de pagar uma taxa de transacção (habitualmente de $1.50, pouco mais de €1), taxa que desaparece se for cliente do banco onde está a levantar dinheiro. Não sei se estão a ver o que isto pode significar para um banco e para a bolsa do consumidor médio.
30 de janeiro de 2006
PONTES
Toda a gente sabe que São Francisco tem a ponte Golden Gate, a "gémea" da nossa ponte 25 de Abril, vermelha e tudo, que faz a ligação da enorme península que é São Francisco com o resto do estado da Califórnia e, mais prosaicamente, com o condado (já suburbano) de Marin. Mas há uma outra ponte, uns quantos quilómetros mais abaixo, que é, se quiserem, o equivalente da nossa Vasco da Gama, inclusive no tamanho: a Bay Bridge (literalmente, ponte da Baía). A equivalência é literal: acede-se à Golden Gate, vindo de São Francisco, por entre o verde que rodeia a zona do Presidio (Monsanto, se quiserem) e na margem Norte, antes de virar para Sausalito, há um miradouro que dá uma vista extraordinária para a baía; à Bay acede-se pelo meio do trânsito citadino e a travessia termina por entre o bulício suburbano de Oakland. Só que a Golden Gate pode ser atravessada a pé, pelas laterais para isso pensadas de raiz; é ver os turistas (e não só japoneses) parados a cada poucos metros com as câmaras na mão.
TiVo
Imaginem o que é terem uma caixinha mágica que vos permite gravar tudo o que vocês quiserem da televisão para ver depois, eliminando todos os anúncios, guardando apenas o programa, sem precisarem de cassettes, DVDs ou o que quer que seja. Isso existe aqui; chama-se "digital video recorder" - porque é um disco rígido com uma capacidade assombrosa - , mas é mais conhecido pela marca TiVo, uma de duas companhias (a outra chama-se ReplayTV) que têm o quase monopólio do sistema, que está ligado pela internet a um guia de TV permanentemente actualizado. Liga-se o televisor e ele fornece informação sobre o programa que está a dar, quando começou e até que horas está a dar, quem entra, quem dirige, quando foi feito, em que canal está a dar e o que vai passar a seguir.
Só é pena que a televisão americana tenha tão pouco em que valha a pena usá-lo.
Só é pena que a televisão americana tenha tão pouco em que valha a pena usá-lo.
SCION xB
Um dos automóveis mais estranhos que se pode ver nas ruas de São Francisco é o Scion xB. Não perguntem exactamente qual é a atracção de uma combinação de miniatura de brincar, táxi londrino e Mini, sobretudo num país que adora banheiras, porque eu não a consigo detectar e os meus amigos locais também não a percebem. Mas ele existe. E não se vê assim tão pouco como isso.
NÃO CAI NEVE EM SÃO FRANCISCO
Parece que está a nevar em Lisboa. E eu que vi neve pela primeira vez há dois dias, em Yreka: grandes flocos a flutuarem em direcção ao chão, como uma chuva em câmara lenta de algodão. Aqui em São Francisco está como Lisboa estava há pouco mais de uma semana: ameno e encoberto, ameaçando chuva a espaços.
29 de janeiro de 2006
PEQUENO GUIA DE COMPRAS
Umas calças Levi's custam em Lisboa qualquer coisa como €80. Em São Francisco, dependendo das lojas, entre $30 e $40 (€24 a €32).
A ARTE DA GORJETA
Nos EUA, a gorjeta obedece a regras específicas e pré-definidas. Num restaurante, a gorjeta que se deixa ao empregado deve ser equivalente a 15% da conta - se partirmos do princípio que estamos a pagar uma conta de 15 dólares, deveremos deixar mais um de gorjeta para o empregado (gorjeta que pode ser incluída no talão do cartão de crédito ou separadamente em dinheiro). O que ninguém diz é o que se faz quando não estamos satisfeitos com o serviço prestado. Hoje, à saída do pequeno-almoço (ou, melhor, do "brunch" reforçado que passa por pequeno-almoço aos fins-de-semana) num restaurante local que estava de tal modo a abarrotar que tivemos de esperar 15 minutos por uma mesa, em que a comida foi pouco menos que indiferente e o serviço praticamente inexistente, o David chegou-se ao gerente do restaurante e fez questão de lhe dizer que não tencionava voltar a pôr lá os pés. Aparentemente, o senhor não fez muito bem ideia do que responder. Eu não deixei gorjeta e o David também não, mas o Jack quis deixar algum dinheiro porque o empregado não tinha culpa da incompetência do gerente.
UNITED ARTISTS STONESTOWN
A experiência americana de ir ao cinema, descubro, não é afinal tão diferente da portuguesa pré-multiplex. O United Artists Stonestown Twin é um cinema dos anos 60 ou 70 que fica no bairro de (adivinharam) Stonestown, junto a um grande centro comercial ancorado por uma loja Macy's e outra Nordstrom (armazéns tipo Cortefiel ou Corte Inglés), mas é-lhe claramente anterior. São duas salas gémeas de 450 lugares num edifício separado com estacionamento próprio, bilhetes por computador e um ar de sala-estúdio que pertence a outra era do cinema - a projecção e o som são bons, mas nada do outro mundo; o átrio alcatifado rodeado por portas de vidro acede às duas salas e às casas de banho; a bilheteira fica do lado de fora, não há arrumadores na sala nem porteiro (entra-se depois de comprar os bilhetes). Claro que não poderiam faltar as proverbiais pipocas e doces e refrigerantes (juro que a cola mais pequena é meio litro de gasosa), o que é curioso para um cinema que exibe nas duas salas, em sessões desfasadas, "O Segredo de Brokeback Mountain" e passa os trailers do filme palestiniano "Paradise Now", "Memórias de uma Gueixa", "Os Produtores" e do mais recente James Ivory, "The White Countess" - e não tem cadeiras modernas com recipientes para bebidas mas sim cadeiras de cinema forradas a tecido esverdeado, como antigamente. Lá dentro, contudo, a sala é uma barbaridade: pensem no velho Londres (quando era só uma sala)... não, risquem isso: pensem no actual Londres, tripliquem-lhe o comprimento, dobrem-lhe (pelo menos) o pé direito e imaginem um King mais bafiento. Ou, para quem mora no Porto, imaginem um Nun'Álvares ao cubo. Ou seja: desenganem-se se achavam que só há multiplexes nos States. Eles também têm cinemas com personalidade.
28 de janeiro de 2006
ANCORA
No intervalo da "Oprah", anúncio ao disco dos Il Divo. "O presente perfeito para o Dia dos Namorados", dizem eles. E eu que pensava que eles estavam livres da praga.
DIAS DE CÃO
Kelsey e Shadow são os dois cães - melhor, as duas cadelas - do Michael. Shadow é preta, luzidia, enérgica, frenética, activa, brincalhona. Pega na sua bola de ténis quase desfeita e persegue toda a gente para brincar com ela, está sempre a correr corredor acima corredor abaixo. Kelsey, mais velha, é castanha, discreta, muito digna. Não anda atrás de ninguém e fica à espera que a venham tratar bem, na sua grande almofada ao canto da sala, mas de vez em quando, quando ninguém está a ver, faz-se à festa. De vez em quando, as duas mostram a dentuça arreganhada uma à outra e engalfinham-se de brincadeira na carpete da sala. E gostam muito de lamber. Sobretudo quando temos as mãos a cheirar a comida.
I-5
325 milhas (pouco menos de 500km) separam São Francisco de Yreka, no Norte da Califórnia, terra de veados e ursos e montanhas que é também a verdadeira "heartland America" que vota Bush, caça ao fim de semana e está mais próxima do homem da fronteira do que os urbanos sofisticados que habitam as cidades costeiras. 325 milhas (vezes dois, ida e volta, em 24 horas) feitas inteiramente em auto-estrada de visita relâmpago a um amigo do David, responsável pela manutenção das locomotivas e de alguns quilómetros de linha férrea regional na Yreka Western Railway. 325 milhas que desenham, sem precisar de palavras, a dimensão desmedida e desmesurada deste país-continente, com montanhas majestosas de cumes cobertos de neve rodeados de nuvens altas mesmo ao lado de auto-estradas de três faixas impecavelmente sinalizadas e percorridas pelos enormes camiões articulados que nos habituámos a ver nos filmes.
325 milhas ao longo das quais se define a cultura automóvel deste país demasiado grande e demasiado individualista para ser percorrido de outra maneira. A intervalos regulares, passamos por "rest areas" - áreas de repouso onde apenas há estacionamento, casas de banho, telefones públicos e bancos para descansar, mas nada de serviços - e, a intervalos muito mais regulares, sempre ao lado da estrada, "plazas" ou "landings" ou "courts" repletos de lojas, restaurantes, serviços, hotéis. Denny's Diner, Taco Bell, Black Bear Diner, Casa Ramos (restaurante mexicano), Hilton Garden Inn, Days Inn, Travelodge, Best Western, KFC, McDonald's, Raley's, Safeway, JC Penney, Wendy's, Olive Pit, Pizza Hut (mas poucos Starbucks). Umas atrás das outras atrás das outras, até fazerem parte da paisagem. Até tudo isto, e a própria auto-estrada, ser ela própria uma paisagem tão válida e tão americana como as montanhas majestosas. Até os carros - parte marcas asiáticas que conhecemos com modelos que nem sempre temos cá, parte marcas americanas com modelos que nunca cá vimos - serem eles próprios quase habitantes a tempo inteiro deste universo.
325 milhas ao longo das quais se define a cultura automóvel deste país demasiado grande e demasiado individualista para ser percorrido de outra maneira. A intervalos regulares, passamos por "rest areas" - áreas de repouso onde apenas há estacionamento, casas de banho, telefones públicos e bancos para descansar, mas nada de serviços - e, a intervalos muito mais regulares, sempre ao lado da estrada, "plazas" ou "landings" ou "courts" repletos de lojas, restaurantes, serviços, hotéis. Denny's Diner, Taco Bell, Black Bear Diner, Casa Ramos (restaurante mexicano), Hilton Garden Inn, Days Inn, Travelodge, Best Western, KFC, McDonald's, Raley's, Safeway, JC Penney, Wendy's, Olive Pit, Pizza Hut (mas poucos Starbucks). Umas atrás das outras atrás das outras, até fazerem parte da paisagem. Até tudo isto, e a própria auto-estrada, ser ela própria uma paisagem tão válida e tão americana como as montanhas majestosas. Até os carros - parte marcas asiáticas que conhecemos com modelos que nem sempre temos cá, parte marcas americanas com modelos que nunca cá vimos - serem eles próprios quase habitantes a tempo inteiro deste universo.
26 de janeiro de 2006
É A CULTURA, ESTÚPIDO
Absolutamente a não perder: o Museu da Diáspora Africana, um edifício recente de extraordinária arquitectura com uma fachada aberta à cidade, à esquina das ruas Mission e 3rd, perto dos jardins Yerba Buena, do hotel Marriott com a sua "lounge" com vista para a cidade, do multiplex Metreon e do Museu de Arte Moderna da cidade. Na exposição do terceiro andar, sobre a qual podem saber mais aqui, há uma quantidade extraordinária de grande arte moderna, como os falsos frontispícios de Glenn Ligon, "Narratives", e uma instalação assombrosa de Mildred Howard, "Open House", com um esqueleto de casa inteiramente construído em facas de cozinha. Não há bilhete de entrada: apenas um autocolante que se cola no casaco e se retira quando se sai.
À VONTADE DO FREGUÊS
Os americanos são, objectivamente e sem intenção de ofender, uns alarves. Alarves no sentido em que comem muito. Mesmo muito. É isso que torna a relação quantidade/preço vantajosa para o consumidor local, que pode perfeitamente pagar $10 (€8) por um prato principal. Só que o prato principal deles a $10 tem facilmente 50% a mais de comida do que o nosso prato principal a €8.
Um bom exemplo. O pequeno almoço é aqui uma refeição mais reforçada do que em Portugal. A nossa torrada e galão não os convence minimamente. Encomendar pequeno-almoço num café ou num diner implica, logo para começar, uma caneca de café acabado de fazer (que podemos pedir para voltar a encher sem pagar mais por isso). O sumo de laranja fica à discrição do cliente, mas há muito quem peça. Depois, a "pièce de resistance": uma pratada de comida que, por exemplo, ontem consistia de duas fatias grandes de pão "sourdough" (uma espécie de pão tigre local) torrado, dois ovos mexidos (que podem ser estrelados ou cozidos consoante o cliente desejar), duas fatias de bacon (ou duas salsichas) e batatas fritas (que podem ser substituidas por legumes ou aros de cebola ou outra coisa qualquer). Quase um almoço às dez da manhã pela módica quantia de $8.50, ou seja, €7.
Outro bom exemplo. Um almoço leve num café da Castro - pensei eu quando pedi uma sanduíche de peito de galinha. Mentira: cada metade da sanduíche trazia um autêntico bife de frango grelhado em fatias grossas de pão caseiro. E mesmo só uma fatia de pizza comprada para comer à mão numa tasca qualquer tem o dobro de uma das fatias que comemos à mesa do Pizza Hut. (Pizza Hut que, acreditem ou não, aqui praticamente não há. Nas minhas viagens por São Francisco, ainda não encontrei um único Pizza Hut e conto pelos dedos os McDonald's e KFC que vi.) Um almoço dificilmente ficará por menos de $15 a $20 sem sobremesa, mas chega e sobra para alimentar uma pessoa de bom físico durante um dia inteiro.
Um bom exemplo. O pequeno almoço é aqui uma refeição mais reforçada do que em Portugal. A nossa torrada e galão não os convence minimamente. Encomendar pequeno-almoço num café ou num diner implica, logo para começar, uma caneca de café acabado de fazer (que podemos pedir para voltar a encher sem pagar mais por isso). O sumo de laranja fica à discrição do cliente, mas há muito quem peça. Depois, a "pièce de resistance": uma pratada de comida que, por exemplo, ontem consistia de duas fatias grandes de pão "sourdough" (uma espécie de pão tigre local) torrado, dois ovos mexidos (que podem ser estrelados ou cozidos consoante o cliente desejar), duas fatias de bacon (ou duas salsichas) e batatas fritas (que podem ser substituidas por legumes ou aros de cebola ou outra coisa qualquer). Quase um almoço às dez da manhã pela módica quantia de $8.50, ou seja, €7.
Outro bom exemplo. Um almoço leve num café da Castro - pensei eu quando pedi uma sanduíche de peito de galinha. Mentira: cada metade da sanduíche trazia um autêntico bife de frango grelhado em fatias grossas de pão caseiro. E mesmo só uma fatia de pizza comprada para comer à mão numa tasca qualquer tem o dobro de uma das fatias que comemos à mesa do Pizza Hut. (Pizza Hut que, acreditem ou não, aqui praticamente não há. Nas minhas viagens por São Francisco, ainda não encontrei um único Pizza Hut e conto pelos dedos os McDonald's e KFC que vi.) Um almoço dificilmente ficará por menos de $15 a $20 sem sobremesa, mas chega e sobra para alimentar uma pessoa de bom físico durante um dia inteiro.
MUNI
O outro lado do serviço de transportes públicos de São Francisco, para lá dos eléctricos históricos que fazem o serviço entre a esquina da Market com a Castro e Fishermen's Wharf, é o metro subterrâneo (ou, enfim, semi-subterrâneo; pelo menos a linha J faz parte do percurso à superfície junto a Dolores Park) que passou agora a fechar às dez da noite devido a obras de beneficiação. O David diz-me que parte do célebre primeiro filme de George Lucas, "THX-1138", foi filmado na linha MUNI subterrânea antes de ela abrir ao público e talvez isso explique (embora eu não veja o filme há anos) porque carga d'água toda a arquitectura e ambiente do metro me parece tão anos 70, tão estilizado e frio e desconfortável. O metro tem linhas designadas por letras e as composições em circulação são anunciadas por uma voz feminina incorpórea que, através do sistema de som das estações, informa o tempo que ainda temos de esperar pelos próximos comboios, quais as linhas que servem, quantas carruagens trazem. Quase sempre, apanho comboios de uma única carruagem que vêm cheios a abarrotar, em estações iluminadas a luz fluorescente brutalmente fria, com os cais a servirem ambas as direcções colocados entre as duas linhas e as escadas de acesso no centro dos cais.
Pormenor curioso: não há, nem no metro, nem nos eléctricos históricos, nem nos autocarros, bilheteiras com empregados. Os passageiros ou têm passe ou pagam no momento o bilhete, inserindo o dinheiro na máquina automática, após o que, nos autocarros/eléctricos, o condutor/revisor lhes passa para a mão o "transfer", ou seja, o bilhete que dará acesso a viajar na rede de transportes públicos durante cerca de 90 minutos sem ter de pagar novo bilhete.
Pormenor ainda mais curioso: todas as máquinas de bilhetes em qualquer ponto do sistema apenas aceitam "exact change", o valor exacto e preciso da tarifa, e não dão troco de espécie nenhuma. Algumas estações de metro têm máquinas de trocos, mas apenas dão troco de notas de 10 ou 20 dólares. Sem trocos - notas de dólar ou moedas de 25 cêntimos, os célebres "quarters" - não se vai longe no MUNI. É, por isso, habitual ouvir as pessoas, quando pagam uma compra numa loja ou uma refeição num restaurante ou num café, a perguntar se não é possível fornecer parte do troco em "quarters" - "MUNI money".
Pormenor curioso: não há, nem no metro, nem nos eléctricos históricos, nem nos autocarros, bilheteiras com empregados. Os passageiros ou têm passe ou pagam no momento o bilhete, inserindo o dinheiro na máquina automática, após o que, nos autocarros/eléctricos, o condutor/revisor lhes passa para a mão o "transfer", ou seja, o bilhete que dará acesso a viajar na rede de transportes públicos durante cerca de 90 minutos sem ter de pagar novo bilhete.
Pormenor ainda mais curioso: todas as máquinas de bilhetes em qualquer ponto do sistema apenas aceitam "exact change", o valor exacto e preciso da tarifa, e não dão troco de espécie nenhuma. Algumas estações de metro têm máquinas de trocos, mas apenas dão troco de notas de 10 ou 20 dólares. Sem trocos - notas de dólar ou moedas de 25 cêntimos, os célebres "quarters" - não se vai longe no MUNI. É, por isso, habitual ouvir as pessoas, quando pagam uma compra numa loja ou uma refeição num restaurante ou num café, a perguntar se não é possível fornecer parte do troco em "quarters" - "MUNI money".
57 CHANNELS (and nothin' on)
O Boss tinha absolutamente toda a razão. Passo não sei quantos canais de televisão - facilmente 15-20 minutos a mudar de canais a um ritmo razoavelmente rápido - e não encontro um único programa interessante para ver. À excepção do noticiário da BBC internacional apresentado num canal regional, mas não consigo perceber porque raio não consigo ligar o volume do televisor do Michael.
25 de janeiro de 2006
FACTOS TRIVIAIS ABSOLUTAMENTE INÚTEIS #2
Os consumidores americanos podem escolher entre sumo de laranja natural embalado de quatro variedades diferentes: "high pulp", "medium pulp", "low pulp" e "no pulp".
CONTRADIÇÕES
Em São Francisco hã uma quantidade quase obscena de gente sem-abrigo nas ruas. A estação de correios da 18th Street, a dois passos da casa onde o David mora, é conhecida como o "Post Office Hilton" porque o vão triangular da entrada abre espaço para sem-abrigos dormirem ali (e as noites têm sido amenas). Há outras lojas, com outros vãos, onde vejo gente a dormir embrulhada em cobertores. Ontem, enquanto comia uma fatia de pizza, vi dois sem-abrigo, no intervalo de cinco minutos, fazerem-se ao mesmo caixote do lixo à procura de restos, e há sempre, em todas as ruas, um sem-abrigo andrajoso que empurra um carrinho de supermercado cheio de cobertores velhos, sacos de plástico a abarrotar e garrafas de plástico vazias. À sua volta, ninguém repara, ninguém se interessa, todos fingem ignorar. Um placard num autocarro, ensanduichado entre anúncios a filmes e um outro que anuncia que o hospital de St. Mary já atende urgências em 30 minutos, anuncia que 1 em 4 habitantes da zona metropolitana vivem abaixo do limiar de pobreza, e pergunta "se fosse você?".
PEQUENAS DIFERENÇAS DE TERMINOLOGIA E DIMENSÃO
Aquilo que nós conhecemos como "scone" chama-se nos EUA "biscuit", embora seja maior do que um "scone" tradicional, com uma forma mais aparentada ao "muffin". E aquilo a que os americanos chamam "scone" é uma fatia de bolo de forma triangular com cobertura glaceada. E, em qualquer dos casos, são significativamente maiores do que os equivalentes portugueses.
24 de janeiro de 2006
ENQUANTO ISSO, A 10.000 KM DE DISTÂNCIA
Confesso que a única surpresa dos resultados das eleições presidenciais, vistos à distância de dez mil quilómetros, é mesmo a humilhação socialista de ver o candidato que tão veementemente apoiaram ficar vergonhosamente atrás daquele que tudo fizeram para boicotar. Fico contente: Manuel Alegre sempre me pareceu mais presidenciável e Mário Soares traiu ao longo da sua campanha uma dramática ausência de substância que seria de esperar de todos, menos dele. No resto, alguém, independentemente do candidato que apoiasse, alguma vez duvidou de que Cavaco Silva ganharia, por maior ou menor margem, sobretudo face à dramática falta de concorrência?
Bem me parecia que não.
Bem me parecia que não.
23 de janeiro de 2006
FACTOS TRIVIAIS ABSOLUTAMENTE INÚTEIS #1
Todas as embalagens de comida que vejo à venda aqui trazem uma etiqueta de informação nutricional que diz em letras gordas bem visíveis "nutrition facts". Todas, isto é, à excepção dos frascos de molho Tabasco e de alguns pacotinhos de açúcar branco.
LEÕES MARINHOS
Os leões marinhos vêm apanhar sol para a doca K no cais 39 do porto de São Francisco. O cais 39 (Pier 39 no original) é uma daquelas autênticas "tourist traps" cheias de restaurantes e lojas de souvenirs para gente sem imaginação que faz tudo por obscurecer a fantástica vista da baía, com os terminais dos ferries à direita e a ponte Golden Gate à esquerda, mas felizmente tem um passeio marítimo à volta. Com vista para os leões marinhos que apanham sol na doca K regularmente já há uns quantos anos, em quantidades apreciáveis. A maior parte deles fica ali sossegada a apanhar o sol de inverno como se não fosse nada com eles, mas há uns quantos que resmungam uns com os outros, e outros ainda atiram-se para a água a intervalos regulares. Há um, grande, negro lustroso, imponente, que faz pose, como se estivesse à espera que lhe tirassem fotografias.
MUNI
MUNI é a designação dada ao serviço de transportes públicos municipais de São Francisco (abreviatura de San Francisco Municipal Railway), que funciona em simultâneo como metropolitano subterrâneo e transportes de superfície, com autocarros electrificados e carros eléctricos - estes últimos são absolutamente deliciosos porque, na realidade, ao contrário dos nossos amarelos, não há dois eléctricos iguais a circular na rede da cidade (os eléctricos restringem-se à linha F que vai do cruzamento de Market Street com Castro Street até Fisherman's Wharf, numa viagem que leva cerca de 45 minutos de ponta a ponta). Cada eléctrico pertence a um sistema de eléctricos de uma cidade diferente do mundo (Lisboa não está representada porque os carris são mais estreitos e os amarelos não poderiam transitar aqui) - até agora já viajei em Boston, Turim e Louisville - e todas as paragens têm acessos para deficientes motores. Pormenor curioso: o preço da passagem para quem não tem passe é único - $1.50, cerca de €1.20 - quer se viaje no metro quer nos eléctricos, e o bilhete assim comprado é válido para todas as viagens na rede por cerca de duas horas.
22 de janeiro de 2006
PORTUGAL EM TRÂNSITO
Há surpresas assim: embarcar num vôo transcontinental de Londres para São Francisco e ficar sentado ao lado de duas velhotas portuguesas de Aveiro que mal sabem escrever e não falam uma palavra de inglês. São irmãs e vão visitar o filho de uma delas que é emigrante em São Francisco. A mãe (cabelo apanhado, brincos de ouro) é igual à D. Berta, a senhora que é a porteira náo oficial do prédio onde vivo; a irmã tem dificuldades em mover-se e anda de bengala. Entendem-se no básico mínimo com a tripulação que não fala uma palavra de português, mas claro que não compreendem quando uma delas se levanta para ir à casa de banho no meio de alguma turbulència, com o sinal dos cintos de segurança apertados, e a hospedeira lhe tenta explicar que não é suposta andar por ali a passear com o avião a abanar, dando origem a algunms resmungos por não a deixarem ir à casa de banho. E claro que não compreendem quando lhes passam para as mãos os impressos que têm de preencher para apresentar na alfândega à entrada dos EUA, dizendo logo que não preenchem nada porque têm passaporte visado, mal sabem escrever e se for preciso eles que preencham. Duas velhotas sentadas num avião que conversam como se estivessem à janela da casa delas e, quando não têm nada que fazer, tentam dormir ou rezam num sussurro incómodo com um rosário nas mãos. Duas velhotas rurais de 80 anos que vêm sózinhas para mais longe do que alguma vez a minha mãe sonhou viajar.
MARKET STREET
São Francisco, cidade de colinas como Lisboa? Pois sim: até agora, apenas ruas direitas a perder de vista, ruas e avenidas longas cortadas geometricamente numa grelha que parece nunca mais acabar, percorrida por transportes públicos electrificados (eléctricos e, em vez de autocarros, trolley-carros como antes havia no Porto) que nos transportam da "smalltown" típica que é o bairro de Castro, uma espécie de aldeiazinha cheia de casas baixas, vitorianas, quase suburbanas na sua vivência de bairro (pensem Campo de Ourique), até à baixa urbana onde as grandes lojas e armazéns e os prédios de escritórios de todos os tipos e épocas de arquitectura coexistem sem problemas.
Uma comparação possível: pensem no Castro como a zona da Batalha/Santa Catarina, no Porto, transplantada para uma Londres organizada como a Baixa pombalina, e não estarão muito longe da verdade. Tudo isto no espaço de uma única rua: Market Street, artéria central que vem do Castro até quase à baía.
Uma comparação possível: pensem no Castro como a zona da Batalha/Santa Catarina, no Porto, transplantada para uma Londres organizada como a Baixa pombalina, e não estarão muito longe da verdade. Tudo isto no espaço de uma única rua: Market Street, artéria central que vem do Castro até quase à baía.
21 de janeiro de 2006
CLASSE ECONÓMICA (agora já com acentos)
Tentem ter 1m85 de altura e viajar em classe económica num voo transcontinental que dura quase onze horas.
JET LAG (sem acentos)
Oito da noite em San Francisco, CA. Quatro da manha em Lisboa. Estou a pe ha quase 24 horas, 18 das quase passadas em transito entre aeroportos, check-ins e departure lounges. As primeiras polaroides seguem em breve.
19 de janeiro de 2006
MALAS
Fazer as malas, verificar tudo 2, 3, 4 vezes para garantir que não esquecemos do passaporte, do dinheiro, da carteira, das chaves, do bilhete, dos medicamentos, disto, daquilo, daqueloutro, ter sempre a sensação de que nos estamos a esquecer de qualquer coisa (mesmo quando não estamos)... O stress da véspera de viagem é absolutamente inescapável.
17 de janeiro de 2006
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #2
Em sugestão do João L. para jantar de amigos, rumou o grupinho em direcção ao Da Massimiliano (r. de S. Bento, 312), pequena e acolhedora sala decorada com bom gosto rústico dedicada à genuína cozinha italiana e gerida por nativos da transalpina península, anunciando "novo menu" de inverno na porta. Passado o preâmbulo de estilo literário rococó alambicado, esclareça-se desde já que a coisa saiu para o carote — entre os €20,00 e os €25,00 por pessoa, sem sobremesa, com vinho da casa a copo para apenas parte dos convivas e com muita e alarvamente consumida entrada de primeira água — mas a coisa valeu mesmo a pena.
Enquanto o povo não chegava todo, havia gressinos genuínos italianos na mesa e veio em breve um couvertzinho de chorar por mais composto por queijo fresco, manteiga caseira, azeitonas e pães sortidos que voou num ápice (aquele delicioso pãozinho salgado com a manteiguinha era uma perdição, digo-vos eu). Algumas "crudités" ajudaram a enganar a fome (entre as quais uma bola salgada com atum fresco) antes da chegada dos pratos principais, no meu caso "reginne al gamberi", longas fitas encaracoladas de pasta envoltas num suave molho acompanhados com gambas inteiras cozinhadas no ponto certo, numa dose bem servida. Entre as entradas, a pasta e o café esteve-se muito bem à conversa, com serviçozinho atento e simpático curiosamente de sotaque brasileiro.
Enquanto o povo não chegava todo, havia gressinos genuínos italianos na mesa e veio em breve um couvertzinho de chorar por mais composto por queijo fresco, manteiga caseira, azeitonas e pães sortidos que voou num ápice (aquele delicioso pãozinho salgado com a manteiguinha era uma perdição, digo-vos eu). Algumas "crudités" ajudaram a enganar a fome (entre as quais uma bola salgada com atum fresco) antes da chegada dos pratos principais, no meu caso "reginne al gamberi", longas fitas encaracoladas de pasta envoltas num suave molho acompanhados com gambas inteiras cozinhadas no ponto certo, numa dose bem servida. Entre as entradas, a pasta e o café esteve-se muito bem à conversa, com serviçozinho atento e simpático curiosamente de sotaque brasileiro.
16 de janeiro de 2006
TANTO
É engraçado como algumas canções que nos disseram tanto há muitos anos continuam a dizer-nos muito, hoje. Mas são outro tanto, outro muito.
15 de janeiro de 2006
POLAROID: SUPERMERCADO
Mãe e filha aguardam na fila com o carrinho de compras a sua vez de serem atendidas. A filha, adolescente praticamente da altura da mãe, insiste para que esta a deixe ler a revista que está metida no saco de plástico dentro do carrinho das compras; a mãe recusa-se. Para a tentar convencer, a filha diz "eu leio-te as novidades da novela".
13 de janeiro de 2006
POLAROID: PEQUENO ALMOÇO
Na mesa ao lado, um menino dos seus 4-5 anos e uma menina dos 6-8 anos, com as mochilas em cima da mesa ao seu lado enquanto o pai os tenta convencer a tomar o pequeno almoço, organizam pacientemente a sua colecção de cromos como se mais nada lhes interessasse no mundo — nem o sumo de laranja que o pai os tenta convencer a beber.
12 de janeiro de 2006
ESTATÍSTICA FELINA MATINAL
Número de gatos presente no telhado da arrecadação visível da janela do meu quarto hoje, quinta-feira, 12 de Janeiro, às 09h10 da manhã: sete.
11 de janeiro de 2006
POLAROID
Nome de um produto capilar para senhoras de uma prestigiada marca francesa visto na montra de um cabeleireiro: "Sebo Control"
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Alexandre O'Neill era muito grande.
Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão afiguradamente,
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suiços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.
— in Poesias Completas (Assírio & Alvim, 2000; 2ª ed., 2001); sublinhados meus
Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão afiguradamente,
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suiços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.
— in Poesias Completas (Assírio & Alvim, 2000; 2ª ed., 2001); sublinhados meus
10 de janeiro de 2006
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #36
Gente que fica meia hora a conversar na escada a fazer um chavascal.
HMMMMM
Não têm a impressão que os candidatos às presidenciais se comportam como se estivessem em campanha para primeiro-ministro?
9 de janeiro de 2006
POLAROID: GINASIO
A senhora — trintona tardia ou quarentona iniciada; rosto precocemente envelhecido, T-shirt e calças de fato de treino pretas com as ancas a transbordar em pregas — não consegue sentar-se confortavelmente na cadeira da bicicleta. Pergunta-me onde é que se baixa o assento. Indico-lhe a manivela no banco, mas o banco está já na posição mais baixa.
8 de janeiro de 2006
DOMINGO A NOITE
Está frio. As ruas estão cheias de carros estacionados, mas vazias de pessoas e carros em movimento; a maior parte dos restaurantes vazios, as ruas estão apenas cheias de silêncio, entregues aos sem-abrigo que vagueiam em busca de uma portada para dormir ou que já a encontraram e se aninham nos seus cartões e cobertores sujos e velhos, aos polícias de sentinela nesta ou naquela casa ou que fazem o seu giro, das famílias que regressam depois de um jantar de família com crianças ensonadas. As pessoas parecem esconder-se ao domingo à noite, deixando a cidade nas mãos de quem a quiser chamar sua.
7 de janeiro de 2006
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #70
Abespinhado.
(com um especial agradecimento à Marta L.)
(com um especial agradecimento à Marta L.)
6 de janeiro de 2006
POLAROID: AS CRIANÇAS E O METRO
A mãe e a sua menina de 4-5 anos entram na carruagem na estação do Colégio Militar-Luz. Sentam-se, a filha ao colo da mãe, bem agasalhada, agarrada a um guarda-chuva com o qual bate ritmadamente mas descompassadamente no chão ao longo de toda a viagem, como se fosse uma bengala. À saída, no Marquês de Pombal, continuo a ouvir o guarda-chuva a bater no chão enquanto me dirijo para a ligação com a linha amarela.
5 de janeiro de 2006
POLAROID: LOJA DO CIDADAO
Ontem, na Loja do Cidadão dos Restauradores, uma senhora olha para a máquina das senhas, que indica que as senhas A são para informações, impressos, entregas, e as senhas B para entrega de formulários e requerimentos. A senhora tira uma de cada, o número de uma das senhas é chamado, a senhora olha para o quadro e para a senha sem conciliar as duas coisas; vai ao balcão B para perguntar uma coisa e, quando estou a ser atendido, interrompe para esclarecer uma dúvida, no que o funcionário que me atende lhe diz que já a atende porque está com outra pessoa. No interim, a outra senha é chamada. Quando saio, a senhora continua à espera mas está à espera que a chamem de outro guiché, ao lado, que nada tem a ver com a máquina de onde tirou as senhas.
Muitas vezes me pergunto se as pessoas olham verdadeiramente para as coisas enquanto as estão a fazer ou se têm sequer noção delas.
Muitas vezes me pergunto se as pessoas olham verdadeiramente para as coisas enquanto as estão a fazer ou se têm sequer noção delas.
4 de janeiro de 2006
POLAROID: METRO
Muita gente se queixa do novo sistema de bilhética do metro, em tudo semelhante ao de outras cidades europeias com as suas cancelas electrónicas que se abrem à apresentação do cartão ou do bilhete. Parte dos problemas são da responsabilidade do Metropolitano de Lisboa — que parece facilitar a toda a força, sendo mais as estações em que as cancelas estão sempre abertas do que aquelas que exigem a apresentação do bilhete. Mas o facto é que outra parte dos problemas se deve aos utentes — que teimam em querer passar à viva força numa cancela devidamente assinalada com o sinal vermelho (assistido, entre muitas outras vezes, ontem na estação do Rato) e depois ainda resmungam por ela não ter aberto.
2 de janeiro de 2006
GRAFFITI
A revolução é a festa dos deprimidos — graffiti lido na rua de S. Sebastião de Pedreira, em Lisboa.
1 de janeiro de 2006
A PERSISTENCIA DA MEMORIA #15
A varanda da Carla e do Celso dá para um enorme edifício de esquina de acabamentos relativamente modernos na Almirante Reis, mesmo à beirinha do largo do Intendente, que, desde que eu me recordo, só lá teve durante algum tempo uma sapataria e um cartaz a anunciar escritórios que nunca devem ter sido alugados. Esse edifício mantém intacta a velha traça da sua função original: a de cinema, primeiro como um dos clássicos das salas de bairro lisboeta especializadas em prolongamentos de estreia, programas duplos e reposições a preços mais populares, o Lys, até 1973, e depois como sala de estreia modernizada a partir de 1974, o Roxy.
O Roxy tem um especial significado pessoal: morando com os meus pais em pleno Bairro das Colónias, bastavam os 5-10 minutos que levava a descer duas ruas para estar no Roxy e, portanto, tornou-se durante algum tempo (sobretudo em finais dos anos 70, quando a programação de estreia era bastante aceitável, antes de descambar aceleradamente quando a Lusomundo tomou a sala a seu cargo até ao fecho em 1988, coincidindo com a progressiva e acelerada decadência do bairro envolvente) o cinema do bairro. Estava todo ele decorado em tons de amarelo — desde os apliques da fachada aos estofos do interior —, tinha um balcão acanhado e, devido às limitações de espaço da entrada, um bar/foyer no piso inferior, por baixo da plateia, e outro numa saída lateral do balcão. Conhecia-lhe os cantos à casa.
O Roxy tem um especial significado pessoal: morando com os meus pais em pleno Bairro das Colónias, bastavam os 5-10 minutos que levava a descer duas ruas para estar no Roxy e, portanto, tornou-se durante algum tempo (sobretudo em finais dos anos 70, quando a programação de estreia era bastante aceitável, antes de descambar aceleradamente quando a Lusomundo tomou a sala a seu cargo até ao fecho em 1988, coincidindo com a progressiva e acelerada decadência do bairro envolvente) o cinema do bairro. Estava todo ele decorado em tons de amarelo — desde os apliques da fachada aos estofos do interior —, tinha um balcão acanhado e, devido às limitações de espaço da entrada, um bar/foyer no piso inferior, por baixo da plateia, e outro numa saída lateral do balcão. Conhecia-lhe os cantos à casa.
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #69
Plantígrado.
(com um obrigado ao clã Lx)
(com um obrigado ao clã Lx)
31 de dezembro de 2005
2005
Não tenho nada contra as listas. Não gosto de as organizar por "preferências" — sempre as fiz alfabeticamente. Pistas para explicar o meu 2005:
em discos
AIMEE MANN The Forgotten Arm (SuperEgo/V2/Edel)
BENJAMIN BIOLAY À l'origine (Virgin/EMI)
BLIND ZERO The Night Before and a New Day (Mercury/Universal)
BRIAN ENO Another Day on Earth (Hannibal/Edel)
BRUCE SPRINGSTEEN Devils & Dust (Columbia/Sony BMG)
COCTEAU TWINS Lullabies to Violaine (4AD/Popstock)
CRISTINA BRANCO Ulisses (Emarcy Classics/Universal)
DANIEL LANOIS Belladonna (Anti-/Edel)
ERASURE Nightbird (Mute/EMI)
JUNE TABOR Always (Topic/Megamúsica)
KATE BUSH Aerial (EMI)
THE MOUNTAIN GOATS The Sunset Tree (4AD)
OLD JERUSALEM Twice the Humbling Sun (Bor Land)
RICHARD THOMPSON Front Parlor Ballads (Cooking Vinyl/Farol)
RY COODER Chávez Ravine (Nonesuch/Warner)
TOM ZÉ Estudando o Pagode na Opereta Segregamulher e Amor (Trama/Megamúsica)
VINCENT DELERM Vincent Delerm e Kensington Square (Tôt ou Tard)
em filmes
ALICE de Marco Martins
AVENGE BUT ONLY ONE OF MY TWO EYES de Avi Mograbi
O CASTELO ANDANTE de Hayao Miyazaki
CLEAN de Olivier Assayas
A DESCIDA de Neil Marshall
DE TANTO BATER O MEU CORAÇÃO PAROU de Jacques Audiard
ELIZABETHTOWN de Cameron Crowe
FOLLOWING SEAN de Ralph Arlyck
KING KONG de Peter Jackson
NO DIRECTION HOME: BOB DYLAN de Martin Scorsese
A NOSSA MÚSICA de Jean-Luc Godard
UM PEIXE FORA DE ÁGUA de Wes Anderson
UMA RAPARIGA CHEIA DE SONHOS de Anand Tucker
SARABAND de Ingmar Bergman
SONHOS VENCIDOS de Clint Eastwood
VELHO AMIGO de Chan-Wook Park
WALLACE & GROMIT: A MALDIÇÃO DO COELHOMEM de Nick Park e Steve Box
Bom ano a todos.
em discos
AIMEE MANN The Forgotten Arm (SuperEgo/V2/Edel)
BENJAMIN BIOLAY À l'origine (Virgin/EMI)
BLIND ZERO The Night Before and a New Day (Mercury/Universal)
BRIAN ENO Another Day on Earth (Hannibal/Edel)
BRUCE SPRINGSTEEN Devils & Dust (Columbia/Sony BMG)
COCTEAU TWINS Lullabies to Violaine (4AD/Popstock)
CRISTINA BRANCO Ulisses (Emarcy Classics/Universal)
DANIEL LANOIS Belladonna (Anti-/Edel)
ERASURE Nightbird (Mute/EMI)
JUNE TABOR Always (Topic/Megamúsica)
KATE BUSH Aerial (EMI)
THE MOUNTAIN GOATS The Sunset Tree (4AD)
OLD JERUSALEM Twice the Humbling Sun (Bor Land)
RICHARD THOMPSON Front Parlor Ballads (Cooking Vinyl/Farol)
RY COODER Chávez Ravine (Nonesuch/Warner)
TOM ZÉ Estudando o Pagode na Opereta Segregamulher e Amor (Trama/Megamúsica)
VINCENT DELERM Vincent Delerm e Kensington Square (Tôt ou Tard)
em filmes
ALICE de Marco Martins
AVENGE BUT ONLY ONE OF MY TWO EYES de Avi Mograbi
O CASTELO ANDANTE de Hayao Miyazaki
CLEAN de Olivier Assayas
A DESCIDA de Neil Marshall
DE TANTO BATER O MEU CORAÇÃO PAROU de Jacques Audiard
ELIZABETHTOWN de Cameron Crowe
FOLLOWING SEAN de Ralph Arlyck
KING KONG de Peter Jackson
NO DIRECTION HOME: BOB DYLAN de Martin Scorsese
A NOSSA MÚSICA de Jean-Luc Godard
UM PEIXE FORA DE ÁGUA de Wes Anderson
UMA RAPARIGA CHEIA DE SONHOS de Anand Tucker
SARABAND de Ingmar Bergman
SONHOS VENCIDOS de Clint Eastwood
VELHO AMIGO de Chan-Wook Park
WALLACE & GROMIT: A MALDIÇÃO DO COELHOMEM de Nick Park e Steve Box
Bom ano a todos.
30 de dezembro de 2005
POLAROID: PEQUENOS ANUNCIOS
Subindo a avenida da Liberdade do lado esquerdo vindo dos Restauradores, dá-se por pequenos anúncios, escritos à mão em autocolantes de grande dimensão com marcador de feltro em letras de imprensa que traem uma caligrafia de idoso, colados em caixas de derivação ou postes de lâmpada, quase sempre abaixo do nível a que um transeunte normal os leria, todos com a mesma mensagem expressa de maneiras diferentes e com um número de telemóvel impresso no fim.
A mensagem básica é esta: "Professor viúvo procura senhora para relação séria. Dá casa de graça"
A mensagem básica é esta: "Professor viúvo procura senhora para relação séria. Dá casa de graça"
29 de dezembro de 2005
SAO SEMPRE OS MESMOS QUE PAGAM A CRISE
Confesso que me causa alguma confusão ouvir na boca das centrais sindicais e dos seus sindicalizados velhos chavões de opressão laboral e luta de classes que me habituei a identificar com a esquerda de tendência socialista e com os "Verões quentes" do pós-25 de Abril mas que, hoje, em pleno século XXI, me parecem razoavelmente referir-se a um outro Portugal. Porque os ouço nas vozes dos representantes dessa classe pequeno-burguesa privilegiada que é a função pública, onde existirão certamente muitos trabalhadores oprimidos com problemas de sobrevivência mas onde existe também uma quantidade de gente que vive muito confortavelmente à conta do burocrático e intrincado sistema de regalias (eu sei, porque tenho duas funcionárias públicas na família que sempre tiveram muito empenho em jogar o jogo do sistema).
É perfeitamente compreensível que a função pública não goste que lhes vão aos ordenados — ninguém gosta. Só que, francamente, há gente que está muito pior do que a função pública e que não consegue recolher nem metade da atenção. Só que, francamente, começa a ser cansativa esta estética da indignação consecutiva da função pública quando a coisa tem um aspecto tão "Sim, Senhor Ministro" em que, realmente, são sempre os mesmos que pagam a crise desde que sejam os outros. Porque, não sei se repararam, o recurso ao crédito disparou, as pessoas cada vez se endividam mais, Portugal vive cada vez mais a prazo. E perante isto, os sindicatos da função pública pedem a intervenção do Presidente da República para proteger o seu sagrado aumentozinho. A mensagem não podia ser mais clara: os outros que paguem a crise, que nós não estamos para isso.
Infelizmente, isso é um clássico português, e não é um exclusivo da função pública.
É perfeitamente compreensível que a função pública não goste que lhes vão aos ordenados — ninguém gosta. Só que, francamente, há gente que está muito pior do que a função pública e que não consegue recolher nem metade da atenção. Só que, francamente, começa a ser cansativa esta estética da indignação consecutiva da função pública quando a coisa tem um aspecto tão "Sim, Senhor Ministro" em que, realmente, são sempre os mesmos que pagam a crise desde que sejam os outros. Porque, não sei se repararam, o recurso ao crédito disparou, as pessoas cada vez se endividam mais, Portugal vive cada vez mais a prazo. E perante isto, os sindicatos da função pública pedem a intervenção do Presidente da República para proteger o seu sagrado aumentozinho. A mensagem não podia ser mais clara: os outros que paguem a crise, que nós não estamos para isso.
Infelizmente, isso é um clássico português, e não é um exclusivo da função pública.
POLAROID: FARMACIA
Aguardo a minha vez para ser atendido na farmácia. Escassos minutos depois da senhora que estava a ser atendida à minha frente sair, o senhor idoso e a filha que estão ainda a ser atendidos pela outra farmacêutica dão pela falta do saco com medicamentos que já estavam prontos para pagar e que foi levado inadvertidamente pela senhora que tinha acabado de sair. Com impecável presença de espírito, a farmacêutica pega imediatamente no telefone para apanhar a senhora ao telemóvel, enquanto a filha do senhor idoso sai porta fora à procura da senhora. Escassos minutos depois, a filha e a senhora aparecem à porta da farmácia — e sim, o saco de medicamentos tinha sido levado pela senhora que estava convencida que eram dela.
28 de dezembro de 2005
ALIVIO
Reencontrar quase intacta a capacidade de engolir após os tormentos causados por uma garganta inflamada é um bálsamo. A garganta inflamada é sempre a primeira manifestação da constipação/gripe que se aproxima e equivale quase sempre a dificuldades em engolir todo e qualquer tipo de alimentos — chegar ao ponto em que já se consegue voltar a engolir (mesmo que ainda com alguma dificuldade) sem que a garganta se incendie e quase quase ao ritmo de degustação normal, ainda por cima depois de quatro dias em dificuldades, é, por isso, uma enormíssima felicidade. É como o velho anúncio dos Cornettos — "e a vida sorri"...
27 de dezembro de 2005
A POLCA E O SOUTIEN
Há aqui uma qualquer ironia paradoxal: quando se está doente, o tempo ora passa demasiado depressa ora se move demasiado devagar. No interim, descobre-se que Oprah Winfrey dedicou um programa inteiro à ciência de como fazer uma mulher sentir-se bem no soutien perfeito (sabiam que existem "bra fitting consultants"? eu também não) e que num programa infantil do canal 2 há quatro animaizinhos que interpretam muito felizes uma "Polca da Minhoca" composta por Evan (irmão de John) Lurie. Depois não digam que televisão não é cultura.
25 de dezembro de 2005
AND THE WINNER IS...
E o prémio da melhor mensagem de Natal enviada via SMS vai para... Jorge Manuel Lopes, com a sua entrada assinada "o terço ateu da mansão JML", que reza "um aprazível usufruto do solstício de Inverno e do novo ciclo solar".
WATERLOO
Passar o Natal com uma amigdalite não é exactamente topo das preferências de qualquer um de nós, creio eu. Louvados sejam, então, para além do bacalhau no vapor com azeite aquecido com alho picado e do chá de limão com mel da Mansão Bardajona, perdão, Barjona de Freitas (o vate, sensibilizado, agradece), os divinos Abba, perfeita abertura de serão via a fetichista caixa das gravações completas.
Nostalgia de outros tempos (e eu recordo-me dos Abba ganharem a Eurovisão com "Waterloo", em 1974, três semanas antes do 25 de Abril)? Reavaliação de uma banda que foi demasiado tempo cantonada na azeiteirice pindérica do "bubblegum" descartável? Admito que possa haver fragmentos de ambas (e quando eles queriam eram verdadeiramente azeiteiros do pior — vide o inqualificável "Fernando" ou o indesculpável "Thank You for the Music"), mas a verdade é só uma — Benny Andersson e Björn Ulvaeus, os dois Bs, tinham um faro imbatível para compôr canções que sempre souberam ser fáceis e contagiantes sem serem estúpidas, e cuja sofisticação era muito maior do que temos o hábito de atribuir a quem anda nisto da pop de consumo rápido e não escondia que andava em perseguição das modas (o disco sound desavergonhado de "Dancing Queen" e "Gimme! Gimme! Gimme!", a tecno-pop de "Under Attack"). Eram, literalmente, umas atrás das outras e, com raras excepções, nenhuma pior do que a anterior.
Os Abba sabiam-na toda e a magia — como trabalhos posteriores a solo do quarteto provaram — só funcionava naquela peculiar combinação alquímica. Numa véspera de Natal que trouxe algumas estimulantes descobertas auditivas, o facto é que os Abba soaram a "comfort food" — aquele prato fácil, simples, rústico que nunca entrará nos guias Michelin mas que teimamos em não desalojar da nossa lista de preferidos. Agora, desculpem-me enquanto vou ali ouvir mais um bocadinho de Abba.
Nostalgia de outros tempos (e eu recordo-me dos Abba ganharem a Eurovisão com "Waterloo", em 1974, três semanas antes do 25 de Abril)? Reavaliação de uma banda que foi demasiado tempo cantonada na azeiteirice pindérica do "bubblegum" descartável? Admito que possa haver fragmentos de ambas (e quando eles queriam eram verdadeiramente azeiteiros do pior — vide o inqualificável "Fernando" ou o indesculpável "Thank You for the Music"), mas a verdade é só uma — Benny Andersson e Björn Ulvaeus, os dois Bs, tinham um faro imbatível para compôr canções que sempre souberam ser fáceis e contagiantes sem serem estúpidas, e cuja sofisticação era muito maior do que temos o hábito de atribuir a quem anda nisto da pop de consumo rápido e não escondia que andava em perseguição das modas (o disco sound desavergonhado de "Dancing Queen" e "Gimme! Gimme! Gimme!", a tecno-pop de "Under Attack"). Eram, literalmente, umas atrás das outras e, com raras excepções, nenhuma pior do que a anterior.
Os Abba sabiam-na toda e a magia — como trabalhos posteriores a solo do quarteto provaram — só funcionava naquela peculiar combinação alquímica. Numa véspera de Natal que trouxe algumas estimulantes descobertas auditivas, o facto é que os Abba soaram a "comfort food" — aquele prato fácil, simples, rústico que nunca entrará nos guias Michelin mas que teimamos em não desalojar da nossa lista de preferidos. Agora, desculpem-me enquanto vou ali ouvir mais um bocadinho de Abba.
23 de dezembro de 2005
FOUR LITTLE WORDS
Quatro palavrinhas apenas fazem toda a diferença do mundo. É só preciso saber dizê-las: "Gosto muito de ti".
Há, contudo, pessoas a quem custa muito dizê-las. E outras a quem não é fácil ouvi-las.
Há, contudo, pessoas a quem custa muito dizê-las. E outras a quem não é fácil ouvi-las.
22 de dezembro de 2005
CHOCOLATE
Percebe-se que o francês é uma língua sensual quando pegamos numa tablete de chocolate no supermercado e lemos em voz alta "chocolat noir dégustation - noir intense aux éclats de cacao".
21 de dezembro de 2005
CIVILIZAÇAO
Não sei se já repararam, mas foi a partir desse país exemplar que é o Reino Unido que se popularizaram uma das mais civilizadas e uma das mais incivilizadas bebidas do mundo: o chá e a cerveja. O equilíbrio é exemplar.
20 de dezembro de 2005
MONUMENTO

Isto, meus senhores e minhas senhoras, acabadinho de ver na sua íntegra (e estamos a falar de três horas e meia em dois DVDs; e nem pensem que, uma vez a máquina em movimento, vão conseguir interromper — porque não vão) é um monumento: cultura pop, ensaio sociocultural, documentário clássico, cinema moderno, montagem, pesquisa, arquivo, História. Ou, apenas, mais um dos singulares destinos americanos que Martin Scorsese tanto gosta de contar — e que só ele sabe contar. "No Direction Home" é uma pedra rolante: vai por aí fora. A nós de segui-la, maravilhados.
19 de dezembro de 2005
18 de dezembro de 2005
PEROLA
É uma canção escrita no feminino, por uma cantora/compositora da qual há muito não tenho notícias (e que Peter Gabriel revelou ao mundo quando a foi buscar para fazer as vezes de Sinéad O'Connor na sua digressão Secret World de 1992/93). Mas, se olharmos para o que "Pearl" exprime de universal, está aqui muito do que eu próprio tenho andado (e ainda estou) a viver ao longo de 2005. And David will understand.
Humility on Bleecker Street
exposed my faults until I'm left defeated
it's been three years into this relationship
this is longer than I ever could commit
but I feel
I'm near
but I feel
my fear
I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl
there are no role models in rock'n'roll
no women who could have it all
the long career, the man, the happy family
and here I stand and God I do demand it
and I feel
I'm near
but I feel
my fear
I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl
it's dark in here
don't know who I am
memories come
I'm wading through the moon
evil side
wants to drag me down
will power
God, please give me some
(I'm hanging onto hope now)
I'm standing at the edge of another precipice in life
baggage from my family
going back to therapy
I will kneel, be humble, tow the weight
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl.
— Paula Cole, "Pearl", in "Amen" (Imago/Warner Bros., 1999)
Humility on Bleecker Street
exposed my faults until I'm left defeated
it's been three years into this relationship
this is longer than I ever could commit
but I feel
I'm near
but I feel
my fear
I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl
there are no role models in rock'n'roll
no women who could have it all
the long career, the man, the happy family
and here I stand and God I do demand it
and I feel
I'm near
but I feel
my fear
I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl
it's dark in here
don't know who I am
memories come
I'm wading through the moon
evil side
wants to drag me down
will power
God, please give me some
(I'm hanging onto hope now)
I'm standing at the edge of another precipice in life
baggage from my family
going back to therapy
I will kneel, be humble, tow the weight
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl.
— Paula Cole, "Pearl", in "Amen" (Imago/Warner Bros., 1999)
17 de dezembro de 2005
RELATORIO DE PROGRESSO
Ao fim de 24 horas, o paciente confirma que a garganta está já significativamente menos inflamada, mas o grosso da inflamação desviou-se agora para as mucosas nasais, que, desde o primeiro espirro de consequência esta tarde, já começa a dar sinais de bloqueio.
16 de dezembro de 2005
ILUSAO DE OPTICA
Descendo a Rua de Campolide em direcção a Sete Rios, a paisagem em movimento dos edifícios tapa o S do letreiro luminoso do Sana Malhoa Hotel.
14 de dezembro de 2005
POLAROID: LICEAIS EM CAFE EM TRES MOVIMENTOS
movimento I
O café está cheio. Três meninas chamam insistentemente o sr. Lopes para ele chegar à mesa; a empregada acaba por compreender que uma delas quer trocar uma nota em moedas.
movimento II
Numa mesa com quatro ou cinco liceais, dois deles insistem em falar de uma única maneira: muito alto.
movimento III
Uma jovem cumprimenta os amigos numa mesa, sem reparar na bengala do senhor idoso sentado na mesa de trás, que atira para o chão, entornando o copo de água sobre a mesa e o chão sem sequer dar por isso antes do senhor, gritando "menina!", lhe chamar a atenção para o incidente.
O café está cheio. Três meninas chamam insistentemente o sr. Lopes para ele chegar à mesa; a empregada acaba por compreender que uma delas quer trocar uma nota em moedas.
movimento II
Numa mesa com quatro ou cinco liceais, dois deles insistem em falar de uma única maneira: muito alto.
movimento III
Uma jovem cumprimenta os amigos numa mesa, sem reparar na bengala do senhor idoso sentado na mesa de trás, que atira para o chão, entornando o copo de água sobre a mesa e o chão sem sequer dar por isso antes do senhor, gritando "menina!", lhe chamar a atenção para o incidente.
13 de dezembro de 2005
POBRE HOMEM
Algumas coisas houve que me fizeram imensa confusão em todo este triste episódio do ex-combatente que se atirou a Mário Soares em Barcelos no domingo. Toda a gente foi lesta em condenar, com inteira razão, a lamentável agressão ao candidato, o comportamento menos digno do homem — mas passou quase despercebido o facto de Mário Soares, ou alguém da sua "entourage", ter tratado o homem logo a seguir, com uma condescendência que me pareceu quase chocante, de "atrasado mental", "é um pobre homem" (não percebi a quem os gritos de populares femininas de "fascista, fascista" eram dirigidos, mas presumo que ao agressor). Depois, o bruá mediático que se gerou à volta do episódio quase obscureceu que, em períodos bem mais duros da história portuguesa, Mário Soares se aguentou à bronca em situações bem piores do que esta — e, contudo, quem visse as reportagens pensaria (como eu a princípio pensei) que o candidato teria sido ameaçado com uma arma ou agredido selvaticamente (em vez disso, foi apenas um murro no braço). Finalmente, a condenação quase unânime da acção do homem relegou-o para um papel quase de "maluquinho de serviço" — talvez por ele ter um exemplar do jornal "O Crime" nas mãos, ninguém se interessou em saber quem era o agressor, o que o levava a protestar daquela maneira contra Mário Soares. O episódio serviu apenas para unir todos os candidatos e para elevar o perfil do candidato — para quem, a julgar pelas sondagens, a atenção não podia ter surgido em melhor altura. Mas não consigo deixar de pensar que havia aqui uma história humana, daquelas que os noticiários tanto gostam de explorar e que, desta vez, não exploraram.
12 de dezembro de 2005
JOIA
Esta canção tem 20 anos em cima e continua a soar como nada mais no mundo, a um tempo dos anos 80 que a geraram e de um outro tempo que nunca se mediu pelos relógios e cronómetros. Esta música nunca fez parte de nada e continua, hoje, a desafiar aqueles que nela procuram alguma coisa de legível, de simbólico, de significativo. Mas com os Cocteau Twins nunca serviu de nada querer perceber — a resposta sempre esteve em sentir.
11 de dezembro de 2005
ÁRVORE
Há muitos, muitos anos, quando Dezembro começava, os meus pais iam comprar um pinheiro de Natal que colocávamos no canto da sala, junto ao televisor, num vaso de barro com terra em cima de um banco baixo, enchendo a casa com o aroma. Numa tarde, depois, eu e a minha mãe montávamos a árvore com enfeites herdados dos meus irmãos mais velhos e de tempos financeiramente menos desafogados, guardados em duas caixas fechadas na despensa — uma estrela de cartão forrada a prata de chocolate; bolas e lanterninhas de plástico colorido, grinaldas de cores brilhantes, algodão a fingir de flocos de neve, luzes coloridas em forma de estrela guardadas numa caixa de cartão que denunciava a sua origem asiática que acendiam e apagavam a ritmos descontínuos durante toda a noite e dia de Natal. E o presépio montado à volta do vaso de barro, em cima de papel de lustro verde, com um pequeno espelho a fingir de lago, e uma combinação de figuras religiosas e bonecos populares portugueses que a minha mãe ia comprando nas viagens que fazia, nos anos 50 e 60, para ver os jogos do Benfica com o meu pai. A árvore ficava montada até depois do aniversário do meu irmão, no dia de Reis (pratinhos de arroz doce com muita canela em cima da mesa), e só depois era desmanchada.
Hoje, tenho uma pequena árvore verde de plástico e metal que monto em cima de um móvel de CDs na sala de estar, e enfeito com uma estrela suspensa da ponta, algumas grinaldas brancas e douradas e meia dúzia de bolas prateadas. Porque a árvore é o único ritual de Natal que sempre me tocou de alguma maneira e não o quero deixar fugir.
Hoje, tenho uma pequena árvore verde de plástico e metal que monto em cima de um móvel de CDs na sala de estar, e enfeito com uma estrela suspensa da ponta, algumas grinaldas brancas e douradas e meia dúzia de bolas prateadas. Porque a árvore é o único ritual de Natal que sempre me tocou de alguma maneira e não o quero deixar fugir.
10 de dezembro de 2005
PAGAMENTO
Desço no elevador e saio na 1ª cave do estacionamento do Amoreiras para pagar o parque. Enfio o ticket do estacionamento na máquina num átrio de elevadores vazio de gente. Tiro as moedas do bolso num átrio de elevadores que encheu repentinamente com pessoal que também quer pagar o parque, praticamente empurrando-me para cima da máquina, desde a criancinha que não tem altura para chegar aos botões a quem o pai diz que é mal educado estar em cima das outras pessoas até ao semi círculo de gente com tickets na mão a puxar das carteiras à espera que eu me despache.
9 de dezembro de 2005
PONTE
Pouco antes da hora do almoço, em todas as carruagens de metropolitano menos cheias do que seria normal no dia de hoje, parece haver uma epidemia de bocejos, reflexo do sono que se recuperou na manhã de feriado e voltou a ser encurtado pela solitária sexta-feira de trabalho desirmanado no meio do que poderia (deveria?) ser um fim-de-semana prolongado.
8 de dezembro de 2005
BEM-VINDOS AO SECULO XXI
Esta coluna de Andrew Sullivan na edição desta semana da Time explica muito bem algumas das razões pelas quais alguns são menos iguais do que outros aos olhos daqueles que pregam a palavra de Deus. Lembrei-me de quando Maria Bethânia disse que deixou de frequentar a igreja porque queria acreditar num Deus redentor e compreensivo, um Deus que acolhe, ama e perdoa e não um Deus que recusa e castiga.
7 de dezembro de 2005
DERBY
Pelo meio-dia, o Colombo já fervilhava de adeptos de camisola e cachecol benfiquista. Pela uma da tarde, o metro no Marquês de Pombal ouve um cântico do Manchester United a caminho do estádio da Luz.
6 de dezembro de 2005
EQUILIBRIOS
Uma das coisas que mais me agrada quando ouço música é o facto de um disco nunca me soar igual consoante eu o ouça no CD da sala, no CD do escritório, no discman, no MP3 ou no computador. Isto parece uma verdade de La Palisse ou uma qualquer palermice, mas é absolutamente fascinante perceber como todos eles revelam frequências diferentes, sublinham pontos diferentes da mistura no jogo da equalização e do equilíbrio acústico — às vezes basta apenas ajustar o auscultador para o som ganhar outro corpo. Cada vez mais me convenço que, na realidade, nunca ouvimos o mesmo disco da mesma maneira.
5 de dezembro de 2005
RELATIVO
Martin Gore está a falar dos Depeche Mode (acho eu), mas podia estar a falar de muita gente que eu conheço. Até mesmo da minha família.
precious and fragile things
need special handling
my God what have we done to you
we always tried to share
the tenderest of care
now look what we have put you through
things get damaged
things get broken
I thought we'd manage
but words left unspoken
left us so brittle
there was so little
left to give.
— Depeche Mode, "Precious", in "Playing the Angel" (Mute/EMI, 2005)
precious and fragile things
need special handling
my God what have we done to you
we always tried to share
the tenderest of care
now look what we have put you through
things get damaged
things get broken
I thought we'd manage
but words left unspoken
left us so brittle
there was so little
left to give.
— Depeche Mode, "Precious", in "Playing the Angel" (Mute/EMI, 2005)
3 de dezembro de 2005
O ALGODAO NAO ENGANA
De vez em quando, dá-me para as limpezas — esta tarde, foi a vez do tampo da cómoda do quarto, que estava um caos. Um saco de plástico recebeu uma série de medicamentos fora de prazo (desde anti-alérgicos a Ultra Levur 250). Outro recebeu: embalagens vazias de amostras de perfumes, bilhetes de metro antigos, etiquetas de preço de roupa, clips plásticos de camisas, uma lata de desodorizante vazia, uma esponja de limpar sapatos inutilizada, entre outras coisas. Esta limpeza permitiu-me igualmente reencontrar o passaporte que eu pensava que já não tinha e a chave sobresselente da mala de viagem, perceber que tenho uma boa meia-dúzia de relógios Swatch que já passaram a fase do conserto e outros tantos que ainda estão aí para as curvas e instalar um pequeno pratinho com um pot-pourri do IKEA para dar algum ambiente ao quarto. Acabou-se-me o Polo Sport e o Boss In Motion está a acabar, mas, fora isso, é espantoso como o tampo da cómoda — reduzido aos perfumes e desodorizante, relógios, medicamentos de uso mais regular, utensílios de engraxe de sapatos e lenços de papel — de repente parece vazio. Há quanto tempo mesmo é que eu não o limpava?
1 de dezembro de 2005
WORLD AIDS DAY
Segundo os dados citados hoje pelo Público, apenas 10% dos portugueses infectados com o vírus do HIV o contrairam por relação homossexual, contra 64% por relação heterossexual. Pareceu-me importante sublinhar isto — é mais uma acha para a fogueira da irresponsabilidade nacional.
30 de novembro de 2005
PORTUGAL E ASSIM
Ouve-se os políticos discutir na Assembleia da República o Orçamento de Estado e parece que Portugal está à beira do fim: acusam-se demagogica e mutuamente de irresponsabilidade, de arrastar o país para a pobreza, etc, etc, etc. Mas quem fosse hoje à Fnac Chiado pensaria que os políticos têm de estar a falar de outro país que não Portugal, porque às 10h30 havia já uma visível fila de consumidores prontos a separar-se do seu dinheiro que tanto custou a ganhar para aproveitar os descontos feitos hoje aos possuidores de cartão Fnac. Uma senhora em particular transportava nos braços um imenso número de CDs graváveis, uma outra teclados e ratos ópticos.
Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.
Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.
28 de novembro de 2005
O CLIENTE TEM SEMPRE RAZAO
A TVCabo está desde há largas semanas a realizar uma campanha bastante agressiva de adesão ao serviço Netcabo que já me apanhou duas ou três vezes ao telefone. Sábado à tarde, toca-me a campainha o vendedor da Netcabo, um rapaz dos seus 20 e poucos anos impecável de fato e gravata (no mínimo estranho, em pleno dilúvio), a tentar convencer-me a aderir ao serviço. Até aqui tudo bem; sei que os mocinhos são treinados para serem educados e tentarem dar a volta a clientes mal-humorados, mas o ar sublimemente bovino com que o rapaz continuava a insistir em convencer-me (sem nunca sequer mencionar o plano de preços proposto mas falando da campanha de adesão que oferecia a viagem), depois de eu lhe ter dado a entender repetidas vezes que estava extremamente descontente com o serviço a clientes da TVCabo e que estava muito satisfeito com o meu serviço internet e não queria mudar, é algo de antologia. O rapaz simplesmente não me estava a querer ouvir. Podia ser eu ou outra pessoa mais bem disposta, estou certo que não faria a mínima diferença; ele não estava a ouvir. Tive quase de lhe fechar a porta na cara para o mandar embora.
27 de novembro de 2005
ARCO-IRIS NA VIA RAPIDA
Entre as chuvadas de sábado e o sol e céu azul luminoso a aparecer por trás das nuvens escuras, dois arco-íris perfeitos desenham um arco de cores por sobre a Segunda Circular; um mais difuso e apagado, o outro intenso e forte, a refracção a acabar em plena linha do comboio enquanto uma carruagem passa.
POLAROID: MODELO BONJOUR
Sempre que há uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, o supermercado de bairro onde me costumo abastecer tem sempre representantes da campanha a entregar sacos à entrada. Hoje, com o supermercado bastante mais cheio do que é habitual aos domingos (mesmo contando que é fim do mês), quatro representantes da campanha, com as sweat-shirts brancas e sacos de plástico na mão, estão a afunilar a entrada da loja; um é um senhor dos seus 40 anos, os outros três adolescentes altos e magros que conversam uns com os outros e, pelo menos a mim, não me dão saco absolutamente nenhum. Nas minhas compras, coloco de qualquer maneira no carrinho alguns artigos para deixar à saída.
Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".
À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"
Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".
À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"
25 de novembro de 2005
TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO
Chegou aquela altura tenebrosa do ano em que os sistemas de som dos centros comerciais começam a tocar em alta rotação "A Todos um Bom Natal" pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras. Tremam.
24 de novembro de 2005
ORA AQUI ESTA ALGUEM QUE SABE O QUE DIZ
"Os políticos portugueses (...) organizam mal a sua vida e os seus tempos. As reuniões são muito demoradas. Admiro muito mais os anglo-saxónicos, que fazem reuniões mais rápidas, discursos muito mais densos, breves e incisivos. Aqui, há colóquios a mais e decisões a menos."
Manuel Alegre, em entrevista hoje ao Público.
O que ele não diz é que não é um exclusivo dos políticos.
Manuel Alegre, em entrevista hoje ao Público.
O que ele não diz é que não é um exclusivo dos políticos.
23 de novembro de 2005
HUNG UP
Só mesmo Madonna seria capaz de reconverter os Abba num monstro disco-sound capaz de transformar qualquer walkman roufenho numa discoteca ambulante. Ela sabe-a toda.
SAIAM DA FRENTE
Saio do comboio na estação do Marquês de Pombal, vindo do Rato, e tenho de dar um violento encontrão para conseguir sair. As pessoas não saem da frente nem por mais uma.
22 de novembro de 2005
POR ONDE ANDA O CHERNE?
A melhor resposta que já encontrei está no artigo que reproduzo em baixo da edição desta semana do Economist.
Whipping the commission into shape
Nov 17th 2005
From The Economist print edition
The beleaguered president of the European Commission
JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Jacques Chirac told him to keep out of the European Union constitutional debate because he was so unpopular in France. Before he took office a year ago, the European Parliament made him reshuffle his commission. A recent cover of a Brussels magazine shows him measuring himself against a wall, and falling far short of the mark set by a noted predecessor, Jacques Delors.
There are two theories over why, as the magazine concludes, “Barroso is no Jacques Delors”. One is that it is his own fault. He sucks up to critics (latest example: offering France EU money for riot-torn areas). He has failed to stop commissioners squabbling (an old-fashioned turf war has broken out between the competition and enterprise chiefs). The second theory blames the circumstances. The defeat of the constitution, the euro area's economic troubles, digestion of ten new members; even the sainted Mr Delors would not have risen above such things. Moreover, Mr Barroso was not the first choice of any big country; he was merely the first whom nobody was ready to veto. Without strong support from at least one big country, and preferably two or three, no commission president has much authority.
But does that mean that Mr Barroso is a failure? Next week he will have been in office for exactly a year, time enough for a preliminary judgment. He has not presented much that is radically new. Instead, he has tried to make the commission more modest, more responsive and more business-like. He wants to enforce existing laws, not to make new ones. There will be fewer flights of fancy. So the proper questions are: has he achieved his aims? And are they the right ones?
Mr Barroso has cut a few metres of red tape (the “bonfire of the directives”, as he called it, is more of a fizzle than a blaze). He has introduced some anti-fraud measures and turned down, though not off, the gusher of new laws. But it is too soon to say if he has been successful. Rather, he has prepared the ground, notably by putting allies into the key jobs. When he took over, Mr Barroso palmed off the French commissioner with the second-level portfolio of transport. He refused demands to give the German an over-arching economics portfolio. And he handed two of the three portfolios in which the commission has the greatest power—trade and the single market—to the British and Irish commissioners (ie, to free-market liberals).
Last week, Mr Barroso completed his appointments by reshuffling the commission's top civil servants (who have sometimes been more powerful than their nominal bosses). The reshuffle has been widely portrayed as a fresh Anglo-Saxon triumph, because a liberal Irishwoman, Catherine Day, got the top job of secretary-general, and a French survivor of the Delors era, François Lamoureux, was sidelined. In fact, the ideological balance within the commission may not change all that much (another Frenchman takes over agriculture and an Austrian trade unionist becomes director-general for enterprise and industry). It should also be conceded that Mr Barroso has not managed to generate much enthusiasm among interest groups, notably big business, that ought to be his natural supporters. But he has at least imposed some authority over the commission.
The more important question is whether he has the right aims. He probably does, if only because any others might have made the EU's identity crisis even worse. Mr Barroso really wants to make the commission more like the EU's civil service. Under Mr Delors, it was more of a super member-state, the one that (in theory) looked after the interests of Europe as a whole. The commission has always been the policy initiator of European integration, but the French and Dutch referendums in the spring have called a halt to that entire process.
The political alliances that underpinned the commission's old role of driver of integration have also changed. Mr Delors depended not only on a close Franco-German alliance, but also on the self-confidence of these countries, which are both now in a defensive funk. In so far as Mr Barroso has a sponsor among the big countries, it is Britain. But Tony Blair has not provided his ally with anything like the support that François Mitterrand and Helmut Kohl gave to Mr Delors.
His modest aims will also prove right if he can sort out the mess that, a decade on, still haunts the EU bureaucracy. In pursuit of ever closer union, Mr Delors and his staff set up ad hoc groups, bypassed chains of command and outsourced tasks to whoever could get them done. The result was lack of control, no accountability—and corruption. The problems remain. The Court of Auditors has just refused to give the EU's accounts its approval, for the 11th year in a row. In one sense, Mr Barroso is still trying to rein in a bureaucracy that got out of control.
In the Berlaymont's bowels
Yet he may find that simple-sounding task quite a challenge. Deep within the Berlaymont building, Eurocrats' reflexes remain what they always were: Franco-German. Many in the commission believe that their power stems from that alliance. Without it, they feel stranded. The battle between Mr Barroso and the Eurocrats may be just beginning. The very notion that the commission can turn into a model bureaucracy may be implausible. Brussels has been a byword for inefficiency and inertia for far too long. It will take a miracle, not a single presidency, to change that image, even if Mr Barroso's broader agenda succeeds.
And because of that, it is far from certain that Mr Barroso will have enough time to solve the commission's biggest problem: its lack of legitimacy. Ironically, the Delors commission was seen as a success even though its performance may have undermined its successors. The danger for Mr Barroso is that he will be seen as unsuccessful, even if his commission lays the foundation of greater legitimacy for those still to come.
Whipping the commission into shape
Nov 17th 2005
From The Economist print edition
The beleaguered president of the European Commission
JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Jacques Chirac told him to keep out of the European Union constitutional debate because he was so unpopular in France. Before he took office a year ago, the European Parliament made him reshuffle his commission. A recent cover of a Brussels magazine shows him measuring himself against a wall, and falling far short of the mark set by a noted predecessor, Jacques Delors.
There are two theories over why, as the magazine concludes, “Barroso is no Jacques Delors”. One is that it is his own fault. He sucks up to critics (latest example: offering France EU money for riot-torn areas). He has failed to stop commissioners squabbling (an old-fashioned turf war has broken out between the competition and enterprise chiefs). The second theory blames the circumstances. The defeat of the constitution, the euro area's economic troubles, digestion of ten new members; even the sainted Mr Delors would not have risen above such things. Moreover, Mr Barroso was not the first choice of any big country; he was merely the first whom nobody was ready to veto. Without strong support from at least one big country, and preferably two or three, no commission president has much authority.
But does that mean that Mr Barroso is a failure? Next week he will have been in office for exactly a year, time enough for a preliminary judgment. He has not presented much that is radically new. Instead, he has tried to make the commission more modest, more responsive and more business-like. He wants to enforce existing laws, not to make new ones. There will be fewer flights of fancy. So the proper questions are: has he achieved his aims? And are they the right ones?
Mr Barroso has cut a few metres of red tape (the “bonfire of the directives”, as he called it, is more of a fizzle than a blaze). He has introduced some anti-fraud measures and turned down, though not off, the gusher of new laws. But it is too soon to say if he has been successful. Rather, he has prepared the ground, notably by putting allies into the key jobs. When he took over, Mr Barroso palmed off the French commissioner with the second-level portfolio of transport. He refused demands to give the German an over-arching economics portfolio. And he handed two of the three portfolios in which the commission has the greatest power—trade and the single market—to the British and Irish commissioners (ie, to free-market liberals).
Last week, Mr Barroso completed his appointments by reshuffling the commission's top civil servants (who have sometimes been more powerful than their nominal bosses). The reshuffle has been widely portrayed as a fresh Anglo-Saxon triumph, because a liberal Irishwoman, Catherine Day, got the top job of secretary-general, and a French survivor of the Delors era, François Lamoureux, was sidelined. In fact, the ideological balance within the commission may not change all that much (another Frenchman takes over agriculture and an Austrian trade unionist becomes director-general for enterprise and industry). It should also be conceded that Mr Barroso has not managed to generate much enthusiasm among interest groups, notably big business, that ought to be his natural supporters. But he has at least imposed some authority over the commission.
The more important question is whether he has the right aims. He probably does, if only because any others might have made the EU's identity crisis even worse. Mr Barroso really wants to make the commission more like the EU's civil service. Under Mr Delors, it was more of a super member-state, the one that (in theory) looked after the interests of Europe as a whole. The commission has always been the policy initiator of European integration, but the French and Dutch referendums in the spring have called a halt to that entire process.
The political alliances that underpinned the commission's old role of driver of integration have also changed. Mr Delors depended not only on a close Franco-German alliance, but also on the self-confidence of these countries, which are both now in a defensive funk. In so far as Mr Barroso has a sponsor among the big countries, it is Britain. But Tony Blair has not provided his ally with anything like the support that François Mitterrand and Helmut Kohl gave to Mr Delors.
His modest aims will also prove right if he can sort out the mess that, a decade on, still haunts the EU bureaucracy. In pursuit of ever closer union, Mr Delors and his staff set up ad hoc groups, bypassed chains of command and outsourced tasks to whoever could get them done. The result was lack of control, no accountability—and corruption. The problems remain. The Court of Auditors has just refused to give the EU's accounts its approval, for the 11th year in a row. In one sense, Mr Barroso is still trying to rein in a bureaucracy that got out of control.
In the Berlaymont's bowels
Yet he may find that simple-sounding task quite a challenge. Deep within the Berlaymont building, Eurocrats' reflexes remain what they always were: Franco-German. Many in the commission believe that their power stems from that alliance. Without it, they feel stranded. The battle between Mr Barroso and the Eurocrats may be just beginning. The very notion that the commission can turn into a model bureaucracy may be implausible. Brussels has been a byword for inefficiency and inertia for far too long. It will take a miracle, not a single presidency, to change that image, even if Mr Barroso's broader agenda succeeds.
And because of that, it is far from certain that Mr Barroso will have enough time to solve the commission's biggest problem: its lack of legitimacy. Ironically, the Delors commission was seen as a success even though its performance may have undermined its successors. The danger for Mr Barroso is that he will be seen as unsuccessful, even if his commission lays the foundation of greater legitimacy for those still to come.
LISBOA EM LONDRES
Na carruagem de metro da Northern Line que me leva de Charing Cross Road até Euston, dou por mim a olhar para o casal jovem sentado à minha frente, com uma caixa de transporte de animais no banco ao lado. O saco de plástico que ela tem entre os pés tem os dizeres "Pastelaria Lisboa", e ele mordisca distraidamente um pãozinho de leite português.
20 de novembro de 2005
POLAROID: HAMMERSMITH
São seis e meia da tarde e espero um táxi na praça à saída da estação de Hammersmith. É já noite escura, está muito trânsito, há ainda algumas pessoas à minha frente; a trintona imediatamente à minha frente tem ar de executiva apressada, esperando pacientemente que chegue a sua vez no frio cortante. Um homem, mais alto, aproxima-se dela arrastando uma pequena mala de viagem com rodas, com uma etiqueta de bagagem de porão; conversam um pouco, ele em inglês com evidente sotaque francês. Viro-me para ver se se aproxima algum táxi no meio do trânsito intenso; quando volto, a senhora está de novo sozinha, mas uma mala está ali, em pleno passeio, um pouco afastada. A fila de táxis avança, mas a mala fica no mesmo lugar. Pergunto à senhora à minha frente, "desculpe-me, a mala é sua?". Ela responde-me: "porquê? Tem medo que seja uma bomba?" Não consigo perceber se está a ser irónica ou apenas mal-educada. "Não, só que a mala não estava ali agora mesmo." "É desta senhora à minha frente", diz, apontando para uma jovem inglesa típica, alta e anafada, com três crianças pela mão enquanto desabafa ao telemóvel com alguém conhecido por ter de apanhar um táxi neste trânsito logo a seguir a o carro ter ido abaixo e não ter a certeza de ter de ficar com o carro enquanto a assistência não chegar. A conversa fica por aqui. Pouco depois, o senhor do sotaque francês volta, pega na mala, que tem a etiqueta de bagagem de porão em que tinha reparado pouco antes, e continua a conversar com a executiva apressada como se nada fosse.
19 de novembro de 2005
PEQUENAS IRONIAS ZEN
Porque é que em Lisboa é que tem estado tempo de Londres, com chuva e capacete, quando em Londres tem estado tempo de Lisboa, luminoso e frio?
18 de novembro de 2005
POLAROID: PICCADILLY CIRCUS
Janto com a Ana, em Londres para a Feira de Turismo. Depois, atravessamos Regent Street. No meio de Piccadilly Circus, enquanto esperamos pelo sinal, a Ana decide tirar-me uma fotografia debaixo das luzes de Natal com as personagens de "A Idade do Gelo" e pede-me que lhe tire uma a ela. Enquanto tento acertar com a focagem da digital, um londrino que passa atira-me "And then you're going to want me to take one of you two together, right?" Rimo-nos.
17 de novembro de 2005
TELEGRAMA
Londres fria e solarenga e dispendiosa STOP Computadores sem acentos STOP Hoteis continuam acanhados e escuros e centrais STOP Luzes de Natal por todo o lado STOP
14 de novembro de 2005
LYME REGIS
Em Carcavelos, frente ao hotel Praia-Mar, o pontão da praia é uma língua de betão cinzento que se expõe ao mar revolto que parece agredi-lo com violentas muralhas de espuma branca. Um pouco mais à frente, as ondas batem contra a muralha de pedra branca e as suas pontas mais altas ultrapassam o pequeno parapeito para se abaterem numa pequena zona do passeio da Marginal, encharcando a calçada portuguesa e parte do asfalto da estrada, enquanto os declives de rocha nua se parecem cobrir de espuma de cerveja, branca e gordurosa.
13 de novembro de 2005
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Numa passagem de peões, uma idosa com um saco de supermercado nas mãos aguarda que um carro passe para atravessar. O carro passa devagarinho, incerto se pare ou não, visto que a senhora não se mexe e não dá indicação nenhuma se está a querer atravessar ou à espera de boleia ou de um táxi, mas não pára. Assim que passa, a senhora grita "nem parem! onde é que isto já se viu, nem parem!"
12 de novembro de 2005
PORTUGAL NO SEU MELHOR
No metro entre o Rato e o Marquês de Pombal, uma senhora de meia-idade que o cachecol colorido identifica como dirigindo-se para a procissão conversa com a senhora sentada à sua frente como se estivesse em casa em frente ao televisor, criticando "eles" (políticos? edis? funcionários públicos?) naquele tom "a-mim-ninguém-me-engana" que os portugueses tanto gostam de usar.
No noticiário da RTP-1, uns quantos candidatos à Presidência da República passam a vida a comentar as campanhas e as posturas dos outros candidatos em vez de avançarem propostas realmente interessantes para justificarem a sua eleição para lá do seu percurso "que fala por si".
Enquanto isso, Lisboa pára para uma procissão onde coexistem a verdadeira fé (pessoal, privada, intransmissível) e o exibicionismo quase bairrista de uma fé que se apregoa aos sete ventos.
No noticiário da RTP-1, uns quantos candidatos à Presidência da República passam a vida a comentar as campanhas e as posturas dos outros candidatos em vez de avançarem propostas realmente interessantes para justificarem a sua eleição para lá do seu percurso "que fala por si".
Enquanto isso, Lisboa pára para uma procissão onde coexistem a verdadeira fé (pessoal, privada, intransmissível) e o exibicionismo quase bairrista de uma fé que se apregoa aos sete ventos.
11 de novembro de 2005
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Na reportagem do noticiário da noite da RTP-1 sobre o julgamento de Leonor e João Cipriano, mostrava-se que a família dos réus tinha ficado à porta porque os lugares na sala estavam já todos ocupados por "mirones" que fizeram fila à porta do tribunal de Portimão três horas antes da abertura das portas. E, à saída da sala de audiências, as espectadoras (com todo o aspecto de domésticas e donas-de-casa provincianas, cabelo grisalho apanhado, óculos de beata, casaquinhos de lã) debatiam animadamente entre si a sentença, enquanto, cá fora, uma pequena multidão gritava compassadamente "assassina! assassina!" como quem entoa um cântico de futebol.
10 de novembro de 2005
9 de novembro de 2005
OS PAIS E A TECNOLOGIA
A minha mãe recebeu de prenda de anos um telefone sem fios para ter na linha fixa, oferecido pelo meu irmão. Hoje à tarde, quando ligo para casa dos meus pais, atendem-me o telefone, mas ignoram completamente a minha voz a chamá-los enquanto discutem um com o outro sobre se o telefone está ou não ligado. Desligo a chamada, cinco minutos depois volto a tentar e, claro, o telefone está impedido.
E assim continuou durante quase quatro horas, até eu receber uma chamada da minha mãe a mandar vir por eu não ter telefonado.
E assim continuou durante quase quatro horas, até eu receber uma chamada da minha mãe a mandar vir por eu não ter telefonado.
OUTONO
Atravesso a avenida da Liberdade pelo meio de uma vaga de folhas amareladas caídas das árvores, empurradas pelo vento num semicírculo perfeito. O tempo arrefeceu depressa.
7 de novembro de 2005
ATAVISMOS
Um governo que vai alternando entre dois partidos que acabam por não ser mais do que duas faces de uma única moeda; um povo que deixa de ter confiança nos políticos mas não se decide a pô-los fora; uma classe política que se perde em retóricas parlamentares do protesto quando não é a sua vez de estar no governo ou que faz gala de ser do contra porque sabe que nunca lá chegará.
Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Nem na rasteirice conseguimos ser originais.
Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Nem na rasteirice conseguimos ser originais.
6 de novembro de 2005
ALGUMAS PESSOAS NAO FORAM FEITAS PARA TEREM FILHOS
Mãe tardia ou avó precoce? O rosto de quarentona tardia maquilhada, de cabelo pintado em permanente modernaça não engana quanto à idade, o tom de voz enrouquecida também não; o casaco cintado em falso leopardo, as calças de ganga beges, os sapatos pontiagudos de salto grosso contrastam com a T-shirt branca e as calças de ganga do miúdo com menos de dez anos que a acompanha e faz momices, correndo pelo restaurante, rebolando-se no banco, ajoelhando-se ao pé da mala da mãe, passando o máximo de tempo a cansar-se procurando em vão chamar a atenção da mãe. Mas esta, agarrada ao telemóvel onde troca mensagens por sms ou a atender ou a fazer chamadas, limita-se a ir dizendo numa voz muito maternal e colocada "ó João, venha cá e sente-se já à mesa", ou variações sobre esse tema, com o ar enfadado de quem não sabe para que serve um filho, ignorando completamente que a criança apenas está a pedir-lhe "olha para mim".
A METAFISICA DA RESSACA
Detesto tanto acordar ressacado (ou, pior ainda, acordar a meio da noite com uma necessidade irreprimível de chamar o Gregório, figura que me desagrada profundamente) e passar o dia seguinte em modo zombie que me controlo violentamente com a bebida. E, quando não me controlo, arrependo-me de tal maneira que juro para nunca mais.
4 de novembro de 2005
POLAROID: PEQUENO ALMOÇO
À mesa do pequeno almoço no café do costume, tenho na mesa ao lado um grupo de idosas que não fala apenas para si mas para toda a sala, falando das "doenças da visícula" enquanto admiram uma colcha com bordado de frutas.
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