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23 de janeiro de 2006

FACTOS TRIVIAIS ABSOLUTAMENTE INÚTEIS #1

Todas as embalagens de comida que vejo à venda aqui trazem uma etiqueta de informação nutricional que diz em letras gordas bem visíveis "nutrition facts". Todas, isto é, à excepção dos frascos de molho Tabasco e de alguns pacotinhos de açúcar branco.

LEÕES MARINHOS

Os leões marinhos vêm apanhar sol para a doca K no cais 39 do porto de São Francisco. O cais 39 (Pier 39 no original) é uma daquelas autênticas "tourist traps" cheias de restaurantes e lojas de souvenirs para gente sem imaginação que faz tudo por obscurecer a fantástica vista da baía, com os terminais dos ferries à direita e a ponte Golden Gate à esquerda, mas felizmente tem um passeio marítimo à volta. Com vista para os leões marinhos que apanham sol na doca K regularmente já há uns quantos anos, em quantidades apreciáveis. A maior parte deles fica ali sossegada a apanhar o sol de inverno como se não fosse nada com eles, mas há uns quantos que resmungam uns com os outros, e outros ainda atiram-se para a água a intervalos regulares. Há um, grande, negro lustroso, imponente, que faz pose, como se estivesse à espera que lhe tirassem fotografias.

MUNI

MUNI é a designação dada ao serviço de transportes públicos municipais de São Francisco (abreviatura de San Francisco Municipal Railway), que funciona em simultâneo como metropolitano subterrâneo e transportes de superfície, com autocarros electrificados e carros eléctricos - estes últimos são absolutamente deliciosos porque, na realidade, ao contrário dos nossos amarelos, não há dois eléctricos iguais a circular na rede da cidade (os eléctricos restringem-se à linha F que vai do cruzamento de Market Street com Castro Street até Fisherman's Wharf, numa viagem que leva cerca de 45 minutos de ponta a ponta). Cada eléctrico pertence a um sistema de eléctricos de uma cidade diferente do mundo (Lisboa não está representada porque os carris são mais estreitos e os amarelos não poderiam transitar aqui) - até agora já viajei em Boston, Turim e Louisville - e todas as paragens têm acessos para deficientes motores. Pormenor curioso: o preço da passagem para quem não tem passe é único - $1.50, cerca de €1.20 - quer se viaje no metro quer nos eléctricos, e o bilhete assim comprado é válido para todas as viagens na rede por cerca de duas horas.

22 de janeiro de 2006

PORTUGAL EM TRÂNSITO

Há surpresas assim: embarcar num vôo transcontinental de Londres para São Francisco e ficar sentado ao lado de duas velhotas portuguesas de Aveiro que mal sabem escrever e não falam uma palavra de inglês. São irmãs e vão visitar o filho de uma delas que é emigrante em São Francisco. A mãe (cabelo apanhado, brincos de ouro) é igual à D. Berta, a senhora que é a porteira náo oficial do prédio onde vivo; a irmã tem dificuldades em mover-se e anda de bengala. Entendem-se no básico mínimo com a tripulação que não fala uma palavra de português, mas claro que não compreendem quando uma delas se levanta para ir à casa de banho no meio de alguma turbulència, com o sinal dos cintos de segurança apertados, e a hospedeira lhe tenta explicar que não é suposta andar por ali a passear com o avião a abanar, dando origem a algunms resmungos por não a deixarem ir à casa de banho. E claro que não compreendem quando lhes passam para as mãos os impressos que têm de preencher para apresentar na alfândega à entrada dos EUA, dizendo logo que não preenchem nada porque têm passaporte visado, mal sabem escrever e se for preciso eles que preencham. Duas velhotas sentadas num avião que conversam como se estivessem à janela da casa delas e, quando não têm nada que fazer, tentam dormir ou rezam num sussurro incómodo com um rosário nas mãos. Duas velhotas rurais de 80 anos que vêm sózinhas para mais longe do que alguma vez a minha mãe sonhou viajar.

MARKET STREET

São Francisco, cidade de colinas como Lisboa? Pois sim: até agora, apenas ruas direitas a perder de vista, ruas e avenidas longas cortadas geometricamente numa grelha que parece nunca mais acabar, percorrida por transportes públicos electrificados (eléctricos e, em vez de autocarros, trolley-carros como antes havia no Porto) que nos transportam da "smalltown" típica que é o bairro de Castro, uma espécie de aldeiazinha cheia de casas baixas, vitorianas, quase suburbanas na sua vivência de bairro (pensem Campo de Ourique), até à baixa urbana onde as grandes lojas e armazéns e os prédios de escritórios de todos os tipos e épocas de arquitectura coexistem sem problemas.

Uma comparação possível: pensem no Castro como a zona da Batalha/Santa Catarina, no Porto, transplantada para uma Londres organizada como a Baixa pombalina, e não estarão muito longe da verdade. Tudo isto no espaço de uma única rua: Market Street, artéria central que vem do Castro até quase à baía.

21 de janeiro de 2006

CLASSE ECONÓMICA (agora já com acentos)

Tentem ter 1m85 de altura e viajar em classe económica num voo transcontinental que dura quase onze horas.

JET LAG (sem acentos)

Oito da noite em San Francisco, CA. Quatro da manha em Lisboa. Estou a pe ha quase 24 horas, 18 das quase passadas em transito entre aeroportos, check-ins e departure lounges. As primeiras polaroides seguem em breve.

19 de janeiro de 2006

MALAS

Fazer as malas, verificar tudo 2, 3, 4 vezes para garantir que não esquecemos do passaporte, do dinheiro, da carteira, das chaves, do bilhete, dos medicamentos, disto, daquilo, daqueloutro, ter sempre a sensação de que nos estamos a esquecer de qualquer coisa (mesmo quando não estamos)... O stress da véspera de viagem é absolutamente inescapável.

17 de janeiro de 2006

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #2

Em sugestão do João L. para jantar de amigos, rumou o grupinho em direcção ao Da Massimiliano (r. de S. Bento, 312), pequena e acolhedora sala decorada com bom gosto rústico dedicada à genuína cozinha italiana e gerida por nativos da transalpina península, anunciando "novo menu" de inverno na porta. Passado o preâmbulo de estilo literário rococó alambicado, esclareça-se desde já que a coisa saiu para o carote — entre os €20,00 e os €25,00 por pessoa, sem sobremesa, com vinho da casa a copo para apenas parte dos convivas e com muita e alarvamente consumida entrada de primeira água — mas a coisa valeu mesmo a pena.

Enquanto o povo não chegava todo, havia gressinos genuínos italianos na mesa e veio em breve um couvertzinho de chorar por mais composto por queijo fresco, manteiga caseira, azeitonas e pães sortidos que voou num ápice (aquele delicioso pãozinho salgado com a manteiguinha era uma perdição, digo-vos eu). Algumas "crudités" ajudaram a enganar a fome (entre as quais uma bola salgada com atum fresco) antes da chegada dos pratos principais, no meu caso "reginne al gamberi", longas fitas encaracoladas de pasta envoltas num suave molho acompanhados com gambas inteiras cozinhadas no ponto certo, numa dose bem servida. Entre as entradas, a pasta e o café esteve-se muito bem à conversa, com serviçozinho atento e simpático curiosamente de sotaque brasileiro.

16 de janeiro de 2006

TANTO

É engraçado como algumas canções que nos disseram tanto há muitos anos continuam a dizer-nos muito, hoje. Mas são outro tanto, outro muito.

15 de janeiro de 2006

POLAROID: SUPERMERCADO

Mãe e filha aguardam na fila com o carrinho de compras a sua vez de serem atendidas. A filha, adolescente praticamente da altura da mãe, insiste para que esta a deixe ler a revista que está metida no saco de plástico dentro do carrinho das compras; a mãe recusa-se. Para a tentar convencer, a filha diz "eu leio-te as novidades da novela".

13 de janeiro de 2006

POLAROID: PEQUENO ALMOÇO

Na mesa ao lado, um menino dos seus 4-5 anos e uma menina dos 6-8 anos, com as mochilas em cima da mesa ao seu lado enquanto o pai os tenta convencer a tomar o pequeno almoço, organizam pacientemente a sua colecção de cromos como se mais nada lhes interessasse no mundo — nem o sumo de laranja que o pai os tenta convencer a beber.

12 de janeiro de 2006

ESTATÍSTICA FELINA MATINAL

Número de gatos presente no telhado da arrecadação visível da janela do meu quarto hoje, quinta-feira, 12 de Janeiro, às 09h10 da manhã: sete.

11 de janeiro de 2006

POLAROID

Nome de um produto capilar para senhoras de uma prestigiada marca francesa visto na montra de um cabeleireiro: "Sebo Control"

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Alexandre O'Neill era muito grande.

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão afiguradamente,
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suiços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.

Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.


— in Poesias Completas (Assírio & Alvim, 2000; 2ª ed., 2001); sublinhados meus

10 de janeiro de 2006

MANCHETE

"Implantes de pénis deixam casais felizes" — in Destak de 10/1/2006

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #36

Gente que fica meia hora a conversar na escada a fazer um chavascal.

HMMMMM

Não têm a impressão que os candidatos às presidenciais se comportam como se estivessem em campanha para primeiro-ministro?

9 de janeiro de 2006

POLAROID: GINASIO

A senhora — trintona tardia ou quarentona iniciada; rosto precocemente envelhecido, T-shirt e calças de fato de treino pretas com as ancas a transbordar em pregas — não consegue sentar-se confortavelmente na cadeira da bicicleta. Pergunta-me onde é que se baixa o assento. Indico-lhe a manivela no banco, mas o banco está já na posição mais baixa.

8 de janeiro de 2006

DOMINGO A NOITE

Está frio. As ruas estão cheias de carros estacionados, mas vazias de pessoas e carros em movimento; a maior parte dos restaurantes vazios, as ruas estão apenas cheias de silêncio, entregues aos sem-abrigo que vagueiam em busca de uma portada para dormir ou que já a encontraram e se aninham nos seus cartões e cobertores sujos e velhos, aos polícias de sentinela nesta ou naquela casa ou que fazem o seu giro, das famílias que regressam depois de um jantar de família com crianças ensonadas. As pessoas parecem esconder-se ao domingo à noite, deixando a cidade nas mãos de quem a quiser chamar sua.