Pesquisa personalizada

10 de janeiro de 2006

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #36

Gente que fica meia hora a conversar na escada a fazer um chavascal.

HMMMMM

Não têm a impressão que os candidatos às presidenciais se comportam como se estivessem em campanha para primeiro-ministro?

9 de janeiro de 2006

POLAROID: GINASIO

A senhora — trintona tardia ou quarentona iniciada; rosto precocemente envelhecido, T-shirt e calças de fato de treino pretas com as ancas a transbordar em pregas — não consegue sentar-se confortavelmente na cadeira da bicicleta. Pergunta-me onde é que se baixa o assento. Indico-lhe a manivela no banco, mas o banco está já na posição mais baixa.

8 de janeiro de 2006

DOMINGO A NOITE

Está frio. As ruas estão cheias de carros estacionados, mas vazias de pessoas e carros em movimento; a maior parte dos restaurantes vazios, as ruas estão apenas cheias de silêncio, entregues aos sem-abrigo que vagueiam em busca de uma portada para dormir ou que já a encontraram e se aninham nos seus cartões e cobertores sujos e velhos, aos polícias de sentinela nesta ou naquela casa ou que fazem o seu giro, das famílias que regressam depois de um jantar de família com crianças ensonadas. As pessoas parecem esconder-se ao domingo à noite, deixando a cidade nas mãos de quem a quiser chamar sua.

6 de janeiro de 2006

POLAROID: AS CRIANÇAS E O METRO

A mãe e a sua menina de 4-5 anos entram na carruagem na estação do Colégio Militar-Luz. Sentam-se, a filha ao colo da mãe, bem agasalhada, agarrada a um guarda-chuva com o qual bate ritmadamente mas descompassadamente no chão ao longo de toda a viagem, como se fosse uma bengala. À saída, no Marquês de Pombal, continuo a ouvir o guarda-chuva a bater no chão enquanto me dirijo para a ligação com a linha amarela.

5 de janeiro de 2006

POLAROID: LOJA DO CIDADAO

Ontem, na Loja do Cidadão dos Restauradores, uma senhora olha para a máquina das senhas, que indica que as senhas A são para informações, impressos, entregas, e as senhas B para entrega de formulários e requerimentos. A senhora tira uma de cada, o número de uma das senhas é chamado, a senhora olha para o quadro e para a senha sem conciliar as duas coisas; vai ao balcão B para perguntar uma coisa e, quando estou a ser atendido, interrompe para esclarecer uma dúvida, no que o funcionário que me atende lhe diz que já a atende porque está com outra pessoa. No interim, a outra senha é chamada. Quando saio, a senhora continua à espera mas está à espera que a chamem de outro guiché, ao lado, que nada tem a ver com a máquina de onde tirou as senhas.

Muitas vezes me pergunto se as pessoas olham verdadeiramente para as coisas enquanto as estão a fazer ou se têm sequer noção delas.

4 de janeiro de 2006

POLAROID: METRO

Muita gente se queixa do novo sistema de bilhética do metro, em tudo semelhante ao de outras cidades europeias com as suas cancelas electrónicas que se abrem à apresentação do cartão ou do bilhete. Parte dos problemas são da responsabilidade do Metropolitano de Lisboa — que parece facilitar a toda a força, sendo mais as estações em que as cancelas estão sempre abertas do que aquelas que exigem a apresentação do bilhete. Mas o facto é que outra parte dos problemas se deve aos utentes — que teimam em querer passar à viva força numa cancela devidamente assinalada com o sinal vermelho (assistido, entre muitas outras vezes, ontem na estação do Rato) e depois ainda resmungam por ela não ter aberto.

2 de janeiro de 2006

GRAFFITI

A revolução é a festa dos deprimidos — graffiti lido na rua de S. Sebastião de Pedreira, em Lisboa.

1 de janeiro de 2006

A PERSISTENCIA DA MEMORIA #15

A varanda da Carla e do Celso dá para um enorme edifício de esquina de acabamentos relativamente modernos na Almirante Reis, mesmo à beirinha do largo do Intendente, que, desde que eu me recordo, só lá teve durante algum tempo uma sapataria e um cartaz a anunciar escritórios que nunca devem ter sido alugados. Esse edifício mantém intacta a velha traça da sua função original: a de cinema, primeiro como um dos clássicos das salas de bairro lisboeta especializadas em prolongamentos de estreia, programas duplos e reposições a preços mais populares, o Lys, até 1973, e depois como sala de estreia modernizada a partir de 1974, o Roxy.

O Roxy tem um especial significado pessoal: morando com os meus pais em pleno Bairro das Colónias, bastavam os 5-10 minutos que levava a descer duas ruas para estar no Roxy e, portanto, tornou-se durante algum tempo (sobretudo em finais dos anos 70, quando a programação de estreia era bastante aceitável, antes de descambar aceleradamente quando a Lusomundo tomou a sala a seu cargo até ao fecho em 1988, coincidindo com a progressiva e acelerada decadência do bairro envolvente) o cinema do bairro. Estava todo ele decorado em tons de amarelo — desde os apliques da fachada aos estofos do interior —, tinha um balcão acanhado e, devido às limitações de espaço da entrada, um bar/foyer no piso inferior, por baixo da plateia, e outro numa saída lateral do balcão. Conhecia-lhe os cantos à casa.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #69

Plantígrado.

(com um obrigado ao clã Lx)

31 de dezembro de 2005

2005

Não tenho nada contra as listas. Não gosto de as organizar por "preferências" — sempre as fiz alfabeticamente. Pistas para explicar o meu 2005:

em discos

AIMEE MANN The Forgotten Arm (SuperEgo/V2/Edel)
BENJAMIN BIOLAY À l'origine (Virgin/EMI)
BLIND ZERO The Night Before and a New Day (Mercury/Universal)
BRIAN ENO Another Day on Earth (Hannibal/Edel)
BRUCE SPRINGSTEEN Devils & Dust (Columbia/Sony BMG)
COCTEAU TWINS Lullabies to Violaine (4AD/Popstock)
CRISTINA BRANCO Ulisses (Emarcy Classics/Universal)
DANIEL LANOIS Belladonna (Anti-/Edel)
ERASURE Nightbird (Mute/EMI)
JUNE TABOR Always (Topic/Megamúsica)
KATE BUSH Aerial (EMI)
THE MOUNTAIN GOATS The Sunset Tree (4AD)
OLD JERUSALEM Twice the Humbling Sun (Bor Land)
RICHARD THOMPSON Front Parlor Ballads (Cooking Vinyl/Farol)
RY COODER Chávez Ravine (Nonesuch/Warner)
TOM ZÉ Estudando o Pagode na Opereta Segregamulher e Amor (Trama/Megamúsica)
VINCENT DELERM Vincent Delerm e Kensington Square (Tôt ou Tard)

em filmes

ALICE de Marco Martins
AVENGE BUT ONLY ONE OF MY TWO EYES de Avi Mograbi
O CASTELO ANDANTE de Hayao Miyazaki
CLEAN de Olivier Assayas
A DESCIDA de Neil Marshall
DE TANTO BATER O MEU CORAÇÃO PAROU de Jacques Audiard
ELIZABETHTOWN de Cameron Crowe
FOLLOWING SEAN de Ralph Arlyck
KING KONG de Peter Jackson
NO DIRECTION HOME: BOB DYLAN de Martin Scorsese
A NOSSA MÚSICA de Jean-Luc Godard
UM PEIXE FORA DE ÁGUA de Wes Anderson
UMA RAPARIGA CHEIA DE SONHOS de Anand Tucker
SARABAND de Ingmar Bergman
SONHOS VENCIDOS de Clint Eastwood
VELHO AMIGO de Chan-Wook Park
WALLACE & GROMIT: A MALDIÇÃO DO COELHOMEM de Nick Park e Steve Box

Bom ano a todos.

30 de dezembro de 2005

POLAROID: PEQUENOS ANUNCIOS

Subindo a avenida da Liberdade do lado esquerdo vindo dos Restauradores, dá-se por pequenos anúncios, escritos à mão em autocolantes de grande dimensão com marcador de feltro em letras de imprensa que traem uma caligrafia de idoso, colados em caixas de derivação ou postes de lâmpada, quase sempre abaixo do nível a que um transeunte normal os leria, todos com a mesma mensagem expressa de maneiras diferentes e com um número de telemóvel impresso no fim.

A mensagem básica é esta: "Professor viúvo procura senhora para relação séria. Dá casa de graça"

29 de dezembro de 2005

SAO SEMPRE OS MESMOS QUE PAGAM A CRISE

Confesso que me causa alguma confusão ouvir na boca das centrais sindicais e dos seus sindicalizados velhos chavões de opressão laboral e luta de classes que me habituei a identificar com a esquerda de tendência socialista e com os "Verões quentes" do pós-25 de Abril mas que, hoje, em pleno século XXI, me parecem razoavelmente referir-se a um outro Portugal. Porque os ouço nas vozes dos representantes dessa classe pequeno-burguesa privilegiada que é a função pública, onde existirão certamente muitos trabalhadores oprimidos com problemas de sobrevivência mas onde existe também uma quantidade de gente que vive muito confortavelmente à conta do burocrático e intrincado sistema de regalias (eu sei, porque tenho duas funcionárias públicas na família que sempre tiveram muito empenho em jogar o jogo do sistema).

É perfeitamente compreensível que a função pública não goste que lhes vão aos ordenados — ninguém gosta. Só que, francamente, há gente que está muito pior do que a função pública e que não consegue recolher nem metade da atenção. Só que, francamente, começa a ser cansativa esta estética da indignação consecutiva da função pública quando a coisa tem um aspecto tão "Sim, Senhor Ministro" em que, realmente, são sempre os mesmos que pagam a crise desde que sejam os outros. Porque, não sei se repararam, o recurso ao crédito disparou, as pessoas cada vez se endividam mais, Portugal vive cada vez mais a prazo. E perante isto, os sindicatos da função pública pedem a intervenção do Presidente da República para proteger o seu sagrado aumentozinho. A mensagem não podia ser mais clara: os outros que paguem a crise, que nós não estamos para isso.

Infelizmente, isso é um clássico português, e não é um exclusivo da função pública.

POLAROID: FARMACIA

Aguardo a minha vez para ser atendido na farmácia. Escassos minutos depois da senhora que estava a ser atendida à minha frente sair, o senhor idoso e a filha que estão ainda a ser atendidos pela outra farmacêutica dão pela falta do saco com medicamentos que já estavam prontos para pagar e que foi levado inadvertidamente pela senhora que tinha acabado de sair. Com impecável presença de espírito, a farmacêutica pega imediatamente no telefone para apanhar a senhora ao telemóvel, enquanto a filha do senhor idoso sai porta fora à procura da senhora. Escassos minutos depois, a filha e a senhora aparecem à porta da farmácia — e sim, o saco de medicamentos tinha sido levado pela senhora que estava convencida que eram dela.

28 de dezembro de 2005

ALIVIO

Reencontrar quase intacta a capacidade de engolir após os tormentos causados por uma garganta inflamada é um bálsamo. A garganta inflamada é sempre a primeira manifestação da constipação/gripe que se aproxima e equivale quase sempre a dificuldades em engolir todo e qualquer tipo de alimentos — chegar ao ponto em que já se consegue voltar a engolir (mesmo que ainda com alguma dificuldade) sem que a garganta se incendie e quase quase ao ritmo de degustação normal, ainda por cima depois de quatro dias em dificuldades, é, por isso, uma enormíssima felicidade. É como o velho anúncio dos Cornettos — "e a vida sorri"...

27 de dezembro de 2005

A POLCA E O SOUTIEN

Há aqui uma qualquer ironia paradoxal: quando se está doente, o tempo ora passa demasiado depressa ora se move demasiado devagar. No interim, descobre-se que Oprah Winfrey dedicou um programa inteiro à ciência de como fazer uma mulher sentir-se bem no soutien perfeito (sabiam que existem "bra fitting consultants"? eu também não) e que num programa infantil do canal 2 há quatro animaizinhos que interpretam muito felizes uma "Polca da Minhoca" composta por Evan (irmão de John) Lurie. Depois não digam que televisão não é cultura.

25 de dezembro de 2005

AND THE WINNER IS...

E o prémio da melhor mensagem de Natal enviada via SMS vai para... Jorge Manuel Lopes, com a sua entrada assinada "o terço ateu da mansão JML", que reza "um aprazível usufruto do solstício de Inverno e do novo ciclo solar".

WATERLOO

Passar o Natal com uma amigdalite não é exactamente topo das preferências de qualquer um de nós, creio eu. Louvados sejam, então, para além do bacalhau no vapor com azeite aquecido com alho picado e do chá de limão com mel da Mansão Bardajona, perdão, Barjona de Freitas (o vate, sensibilizado, agradece), os divinos Abba, perfeita abertura de serão via a fetichista caixa das gravações completas.

Nostalgia de outros tempos (e eu recordo-me dos Abba ganharem a Eurovisão com "Waterloo", em 1974, três semanas antes do 25 de Abril)? Reavaliação de uma banda que foi demasiado tempo cantonada na azeiteirice pindérica do "bubblegum" descartável? Admito que possa haver fragmentos de ambas (e quando eles queriam eram verdadeiramente azeiteiros do pior — vide o inqualificável "Fernando" ou o indesculpável "Thank You for the Music"), mas a verdade é só uma — Benny Andersson e Björn Ulvaeus, os dois Bs, tinham um faro imbatível para compôr canções que sempre souberam ser fáceis e contagiantes sem serem estúpidas, e cuja sofisticação era muito maior do que temos o hábito de atribuir a quem anda nisto da pop de consumo rápido e não escondia que andava em perseguição das modas (o disco sound desavergonhado de "Dancing Queen" e "Gimme! Gimme! Gimme!", a tecno-pop de "Under Attack"). Eram, literalmente, umas atrás das outras e, com raras excepções, nenhuma pior do que a anterior.

Os Abba sabiam-na toda e a magia — como trabalhos posteriores a solo do quarteto provaram — só funcionava naquela peculiar combinação alquímica. Numa véspera de Natal que trouxe algumas estimulantes descobertas auditivas, o facto é que os Abba soaram a "comfort food" — aquele prato fácil, simples, rústico que nunca entrará nos guias Michelin mas que teimamos em não desalojar da nossa lista de preferidos. Agora, desculpem-me enquanto vou ali ouvir mais um bocadinho de Abba.

23 de dezembro de 2005

FOUR LITTLE WORDS

Quatro palavrinhas apenas fazem toda a diferença do mundo. É só preciso saber dizê-las: "Gosto muito de ti".

Há, contudo, pessoas a quem custa muito dizê-las. E outras a quem não é fácil ouvi-las.

22 de dezembro de 2005

CHOCOLATE

Percebe-se que o francês é uma língua sensual quando pegamos numa tablete de chocolate no supermercado e lemos em voz alta "chocolat noir dégustation - noir intense aux éclats de cacao".

21 de dezembro de 2005

CIVILIZAÇAO

Não sei se já repararam, mas foi a partir desse país exemplar que é o Reino Unido que se popularizaram uma das mais civilizadas e uma das mais incivilizadas bebidas do mundo: o chá e a cerveja. O equilíbrio é exemplar.

20 de dezembro de 2005

MONUMENTO



Isto, meus senhores e minhas senhoras, acabadinho de ver na sua íntegra (e estamos a falar de três horas e meia em dois DVDs; e nem pensem que, uma vez a máquina em movimento, vão conseguir interromper — porque não vão) é um monumento: cultura pop, ensaio sociocultural, documentário clássico, cinema moderno, montagem, pesquisa, arquivo, História. Ou, apenas, mais um dos singulares destinos americanos que Martin Scorsese tanto gosta de contar — e que só ele sabe contar. "No Direction Home" é uma pedra rolante: vai por aí fora. A nós de segui-la, maravilhados.

18 de dezembro de 2005

PEROLA

É uma canção escrita no feminino, por uma cantora/compositora da qual há muito não tenho notícias (e que Peter Gabriel revelou ao mundo quando a foi buscar para fazer as vezes de Sinéad O'Connor na sua digressão Secret World de 1992/93). Mas, se olharmos para o que "Pearl" exprime de universal, está aqui muito do que eu próprio tenho andado (e ainda estou) a viver ao longo de 2005. And David will understand.

Humility on Bleecker Street
exposed my faults until I'm left defeated
it's been three years into this relationship
this is longer than I ever could commit

but I feel
I'm near
but I feel
my fear

I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl

there are no role models in rock'n'roll
no women who could have it all
the long career, the man, the happy family
and here I stand and God I do demand it

and I feel
I'm near
but I feel
my fear

I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl

it's dark in here
don't know who I am
memories come
I'm wading through the moon
evil side
wants to drag me down
will power
God, please give me some
(I'm hanging onto hope now)

I'm standing at the edge of another precipice in life
baggage from my family
going back to therapy
I will kneel, be humble, tow the weight
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl.


— Paula Cole, "Pearl", in "Amen" (Imago/Warner Bros., 1999)

17 de dezembro de 2005

RELATORIO DE PROGRESSO

Ao fim de 24 horas, o paciente confirma que a garganta está já significativamente menos inflamada, mas o grosso da inflamação desviou-se agora para as mucosas nasais, que, desde o primeiro espirro de consequência esta tarde, já começa a dar sinais de bloqueio.

16 de dezembro de 2005

ILUSAO DE OPTICA

Descendo a Rua de Campolide em direcção a Sete Rios, a paisagem em movimento dos edifícios tapa o S do letreiro luminoso do Sana Malhoa Hotel.

14 de dezembro de 2005

POLAROID: LICEAIS EM CAFE EM TRES MOVIMENTOS

movimento I
O café está cheio. Três meninas chamam insistentemente o sr. Lopes para ele chegar à mesa; a empregada acaba por compreender que uma delas quer trocar uma nota em moedas.

movimento II
Numa mesa com quatro ou cinco liceais, dois deles insistem em falar de uma única maneira: muito alto.

movimento III
Uma jovem cumprimenta os amigos numa mesa, sem reparar na bengala do senhor idoso sentado na mesa de trás, que atira para o chão, entornando o copo de água sobre a mesa e o chão sem sequer dar por isso antes do senhor, gritando "menina!", lhe chamar a atenção para o incidente.

13 de dezembro de 2005

POBRE HOMEM

Algumas coisas houve que me fizeram imensa confusão em todo este triste episódio do ex-combatente que se atirou a Mário Soares em Barcelos no domingo. Toda a gente foi lesta em condenar, com inteira razão, a lamentável agressão ao candidato, o comportamento menos digno do homem — mas passou quase despercebido o facto de Mário Soares, ou alguém da sua "entourage", ter tratado o homem logo a seguir, com uma condescendência que me pareceu quase chocante, de "atrasado mental", "é um pobre homem" (não percebi a quem os gritos de populares femininas de "fascista, fascista" eram dirigidos, mas presumo que ao agressor). Depois, o bruá mediático que se gerou à volta do episódio quase obscureceu que, em períodos bem mais duros da história portuguesa, Mário Soares se aguentou à bronca em situações bem piores do que esta — e, contudo, quem visse as reportagens pensaria (como eu a princípio pensei) que o candidato teria sido ameaçado com uma arma ou agredido selvaticamente (em vez disso, foi apenas um murro no braço). Finalmente, a condenação quase unânime da acção do homem relegou-o para um papel quase de "maluquinho de serviço" — talvez por ele ter um exemplar do jornal "O Crime" nas mãos, ninguém se interessou em saber quem era o agressor, o que o levava a protestar daquela maneira contra Mário Soares. O episódio serviu apenas para unir todos os candidatos e para elevar o perfil do candidato — para quem, a julgar pelas sondagens, a atenção não podia ter surgido em melhor altura. Mas não consigo deixar de pensar que havia aqui uma história humana, daquelas que os noticiários tanto gostam de explorar e que, desta vez, não exploraram.

12 de dezembro de 2005

JOIA

Esta canção tem 20 anos em cima e continua a soar como nada mais no mundo, a um tempo dos anos 80 que a geraram e de um outro tempo que nunca se mediu pelos relógios e cronómetros. Esta música nunca fez parte de nada e continua, hoje, a desafiar aqueles que nela procuram alguma coisa de legível, de simbólico, de significativo. Mas com os Cocteau Twins nunca serviu de nada querer perceber — a resposta sempre esteve em sentir.

11 de dezembro de 2005

ÁRVORE

Há muitos, muitos anos, quando Dezembro começava, os meus pais iam comprar um pinheiro de Natal que colocávamos no canto da sala, junto ao televisor, num vaso de barro com terra em cima de um banco baixo, enchendo a casa com o aroma. Numa tarde, depois, eu e a minha mãe montávamos a árvore com enfeites herdados dos meus irmãos mais velhos e de tempos financeiramente menos desafogados, guardados em duas caixas fechadas na despensa — uma estrela de cartão forrada a prata de chocolate; bolas e lanterninhas de plástico colorido, grinaldas de cores brilhantes, algodão a fingir de flocos de neve, luzes coloridas em forma de estrela guardadas numa caixa de cartão que denunciava a sua origem asiática que acendiam e apagavam a ritmos descontínuos durante toda a noite e dia de Natal. E o presépio montado à volta do vaso de barro, em cima de papel de lustro verde, com um pequeno espelho a fingir de lago, e uma combinação de figuras religiosas e bonecos populares portugueses que a minha mãe ia comprando nas viagens que fazia, nos anos 50 e 60, para ver os jogos do Benfica com o meu pai. A árvore ficava montada até depois do aniversário do meu irmão, no dia de Reis (pratinhos de arroz doce com muita canela em cima da mesa), e só depois era desmanchada.

Hoje, tenho uma pequena árvore verde de plástico e metal que monto em cima de um móvel de CDs na sala de estar, e enfeito com uma estrela suspensa da ponta, algumas grinaldas brancas e douradas e meia dúzia de bolas prateadas. Porque a árvore é o único ritual de Natal que sempre me tocou de alguma maneira e não o quero deixar fugir.

10 de dezembro de 2005

PAGAMENTO

Desço no elevador e saio na 1ª cave do estacionamento do Amoreiras para pagar o parque. Enfio o ticket do estacionamento na máquina num átrio de elevadores vazio de gente. Tiro as moedas do bolso num átrio de elevadores que encheu repentinamente com pessoal que também quer pagar o parque, praticamente empurrando-me para cima da máquina, desde a criancinha que não tem altura para chegar aos botões a quem o pai diz que é mal educado estar em cima das outras pessoas até ao semi círculo de gente com tickets na mão a puxar das carteiras à espera que eu me despache.

9 de dezembro de 2005

PONTE

Pouco antes da hora do almoço, em todas as carruagens de metropolitano menos cheias do que seria normal no dia de hoje, parece haver uma epidemia de bocejos, reflexo do sono que se recuperou na manhã de feriado e voltou a ser encurtado pela solitária sexta-feira de trabalho desirmanado no meio do que poderia (deveria?) ser um fim-de-semana prolongado.

8 de dezembro de 2005

BEM-VINDOS AO SECULO XXI

Esta coluna de Andrew Sullivan na edição desta semana da Time explica muito bem algumas das razões pelas quais alguns são menos iguais do que outros aos olhos daqueles que pregam a palavra de Deus. Lembrei-me de quando Maria Bethânia disse que deixou de frequentar a igreja porque queria acreditar num Deus redentor e compreensivo, um Deus que acolhe, ama e perdoa e não um Deus que recusa e castiga.

7 de dezembro de 2005

DERBY

Pelo meio-dia, o Colombo já fervilhava de adeptos de camisola e cachecol benfiquista. Pela uma da tarde, o metro no Marquês de Pombal ouve um cântico do Manchester United a caminho do estádio da Luz.

6 de dezembro de 2005

EQUILIBRIOS

Uma das coisas que mais me agrada quando ouço música é o facto de um disco nunca me soar igual consoante eu o ouça no CD da sala, no CD do escritório, no discman, no MP3 ou no computador. Isto parece uma verdade de La Palisse ou uma qualquer palermice, mas é absolutamente fascinante perceber como todos eles revelam frequências diferentes, sublinham pontos diferentes da mistura no jogo da equalização e do equilíbrio acústico — às vezes basta apenas ajustar o auscultador para o som ganhar outro corpo. Cada vez mais me convenço que, na realidade, nunca ouvimos o mesmo disco da mesma maneira.

5 de dezembro de 2005

RELATIVO

Martin Gore está a falar dos Depeche Mode (acho eu), mas podia estar a falar de muita gente que eu conheço. Até mesmo da minha família.

precious and fragile things
need special handling
my God what have we done to you
we always tried to share
the tenderest of care
now look what we have put you through

things get damaged
things get broken
I thought we'd manage
but words left unspoken
left us so brittle
there was so little
left to give.


— Depeche Mode, "Precious", in "Playing the Angel" (Mute/EMI, 2005)

3 de dezembro de 2005

O ALGODAO NAO ENGANA

De vez em quando, dá-me para as limpezas — esta tarde, foi a vez do tampo da cómoda do quarto, que estava um caos. Um saco de plástico recebeu uma série de medicamentos fora de prazo (desde anti-alérgicos a Ultra Levur 250). Outro recebeu: embalagens vazias de amostras de perfumes, bilhetes de metro antigos, etiquetas de preço de roupa, clips plásticos de camisas, uma lata de desodorizante vazia, uma esponja de limpar sapatos inutilizada, entre outras coisas. Esta limpeza permitiu-me igualmente reencontrar o passaporte que eu pensava que já não tinha e a chave sobresselente da mala de viagem, perceber que tenho uma boa meia-dúzia de relógios Swatch que já passaram a fase do conserto e outros tantos que ainda estão aí para as curvas e instalar um pequeno pratinho com um pot-pourri do IKEA para dar algum ambiente ao quarto. Acabou-se-me o Polo Sport e o Boss In Motion está a acabar, mas, fora isso, é espantoso como o tampo da cómoda — reduzido aos perfumes e desodorizante, relógios, medicamentos de uso mais regular, utensílios de engraxe de sapatos e lenços de papel — de repente parece vazio. Há quanto tempo mesmo é que eu não o limpava?

1 de dezembro de 2005

WORLD AIDS DAY

Segundo os dados citados hoje pelo Público, apenas 10% dos portugueses infectados com o vírus do HIV o contrairam por relação homossexual, contra 64% por relação heterossexual. Pareceu-me importante sublinhar isto — é mais uma acha para a fogueira da irresponsabilidade nacional.

30 de novembro de 2005

PORTUGAL E ASSIM

Ouve-se os políticos discutir na Assembleia da República o Orçamento de Estado e parece que Portugal está à beira do fim: acusam-se demagogica e mutuamente de irresponsabilidade, de arrastar o país para a pobreza, etc, etc, etc. Mas quem fosse hoje à Fnac Chiado pensaria que os políticos têm de estar a falar de outro país que não Portugal, porque às 10h30 havia já uma visível fila de consumidores prontos a separar-se do seu dinheiro que tanto custou a ganhar para aproveitar os descontos feitos hoje aos possuidores de cartão Fnac. Uma senhora em particular transportava nos braços um imenso número de CDs graváveis, uma outra teclados e ratos ópticos.

Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.

28 de novembro de 2005

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZAO

A TVCabo está desde há largas semanas a realizar uma campanha bastante agressiva de adesão ao serviço Netcabo que já me apanhou duas ou três vezes ao telefone. Sábado à tarde, toca-me a campainha o vendedor da Netcabo, um rapaz dos seus 20 e poucos anos impecável de fato e gravata (no mínimo estranho, em pleno dilúvio), a tentar convencer-me a aderir ao serviço. Até aqui tudo bem; sei que os mocinhos são treinados para serem educados e tentarem dar a volta a clientes mal-humorados, mas o ar sublimemente bovino com que o rapaz continuava a insistir em convencer-me (sem nunca sequer mencionar o plano de preços proposto mas falando da campanha de adesão que oferecia a viagem), depois de eu lhe ter dado a entender repetidas vezes que estava extremamente descontente com o serviço a clientes da TVCabo e que estava muito satisfeito com o meu serviço internet e não queria mudar, é algo de antologia. O rapaz simplesmente não me estava a querer ouvir. Podia ser eu ou outra pessoa mais bem disposta, estou certo que não faria a mínima diferença; ele não estava a ouvir. Tive quase de lhe fechar a porta na cara para o mandar embora.

27 de novembro de 2005

ARCO-IRIS NA VIA RAPIDA

Entre as chuvadas de sábado e o sol e céu azul luminoso a aparecer por trás das nuvens escuras, dois arco-íris perfeitos desenham um arco de cores por sobre a Segunda Circular; um mais difuso e apagado, o outro intenso e forte, a refracção a acabar em plena linha do comboio enquanto uma carruagem passa.

POLAROID: MODELO BONJOUR

Sempre que há uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, o supermercado de bairro onde me costumo abastecer tem sempre representantes da campanha a entregar sacos à entrada. Hoje, com o supermercado bastante mais cheio do que é habitual aos domingos (mesmo contando que é fim do mês), quatro representantes da campanha, com as sweat-shirts brancas e sacos de plástico na mão, estão a afunilar a entrada da loja; um é um senhor dos seus 40 anos, os outros três adolescentes altos e magros que conversam uns com os outros e, pelo menos a mim, não me dão saco absolutamente nenhum. Nas minhas compras, coloco de qualquer maneira no carrinho alguns artigos para deixar à saída.

Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".

À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"

25 de novembro de 2005

TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO

Chegou aquela altura tenebrosa do ano em que os sistemas de som dos centros comerciais começam a tocar em alta rotação "A Todos um Bom Natal" pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras. Tremam.

24 de novembro de 2005

ORA AQUI ESTA ALGUEM QUE SABE O QUE DIZ

"Os políticos portugueses (...) organizam mal a sua vida e os seus tempos. As reuniões são muito demoradas. Admiro muito mais os anglo-saxónicos, que fazem reuniões mais rápidas, discursos muito mais densos, breves e incisivos. Aqui, há colóquios a mais e decisões a menos."

Manuel Alegre, em entrevista hoje ao Público.

O que ele não diz é que não é um exclusivo dos políticos.

23 de novembro de 2005

HUNG UP

Só mesmo Madonna seria capaz de reconverter os Abba num monstro disco-sound capaz de transformar qualquer walkman roufenho numa discoteca ambulante. Ela sabe-a toda.

SAIAM DA FRENTE

Saio do comboio na estação do Marquês de Pombal, vindo do Rato, e tenho de dar um violento encontrão para conseguir sair. As pessoas não saem da frente nem por mais uma.

22 de novembro de 2005

POR ONDE ANDA O CHERNE?

A melhor resposta que já encontrei está no artigo que reproduzo em baixo da edição desta semana do Economist.

Whipping the commission into shape
Nov 17th 2005
From The Economist print edition


The beleaguered president of the European Commission


JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Jacques Chirac told him to keep out of the European Union constitutional debate because he was so unpopular in France. Before he took office a year ago, the European Parliament made him reshuffle his commission. A recent cover of a Brussels magazine shows him measuring himself against a wall, and falling far short of the mark set by a noted predecessor, Jacques Delors.

There are two theories over why, as the magazine concludes, “Barroso is no Jacques Delors”. One is that it is his own fault. He sucks up to critics (latest example: offering France EU money for riot-torn areas). He has failed to stop commissioners squabbling (an old-fashioned turf war has broken out between the competition and enterprise chiefs). The second theory blames the circumstances. The defeat of the constitution, the euro area's economic troubles, digestion of ten new members; even the sainted Mr Delors would not have risen above such things. Moreover, Mr Barroso was not the first choice of any big country; he was merely the first whom nobody was ready to veto. Without strong support from at least one big country, and preferably two or three, no commission president has much authority.

But does that mean that Mr Barroso is a failure? Next week he will have been in office for exactly a year, time enough for a preliminary judgment. He has not presented much that is radically new. Instead, he has tried to make the commission more modest, more responsive and more business-like. He wants to enforce existing laws, not to make new ones. There will be fewer flights of fancy. So the proper questions are: has he achieved his aims? And are they the right ones?

Mr Barroso has cut a few metres of red tape (the “bonfire of the directives”, as he called it, is more of a fizzle than a blaze). He has introduced some anti-fraud measures and turned down, though not off, the gusher of new laws. But it is too soon to say if he has been successful. Rather, he has prepared the ground, notably by putting allies into the key jobs. When he took over, Mr Barroso palmed off the French commissioner with the second-level portfolio of transport. He refused demands to give the German an over-arching economics portfolio. And he handed two of the three portfolios in which the commission has the greatest power—trade and the single market—to the British and Irish commissioners (ie, to free-market liberals).

Last week, Mr Barroso completed his appointments by reshuffling the commission's top civil servants (who have sometimes been more powerful than their nominal bosses). The reshuffle has been widely portrayed as a fresh Anglo-Saxon triumph, because a liberal Irishwoman, Catherine Day, got the top job of secretary-general, and a French survivor of the Delors era, François Lamoureux, was sidelined. In fact, the ideological balance within the commission may not change all that much (another Frenchman takes over agriculture and an Austrian trade unionist becomes director-general for enterprise and industry). It should also be conceded that Mr Barroso has not managed to generate much enthusiasm among interest groups, notably big business, that ought to be his natural supporters. But he has at least imposed some authority over the commission.

The more important question is whether he has the right aims. He probably does, if only because any others might have made the EU's identity crisis even worse. Mr Barroso really wants to make the commission more like the EU's civil service. Under Mr Delors, it was more of a super member-state, the one that (in theory) looked after the interests of Europe as a whole. The commission has always been the policy initiator of European integration, but the French and Dutch referendums in the spring have called a halt to that entire process.

The political alliances that underpinned the commission's old role of driver of integration have also changed. Mr Delors depended not only on a close Franco-German alliance, but also on the self-confidence of these countries, which are both now in a defensive funk. In so far as Mr Barroso has a sponsor among the big countries, it is Britain. But Tony Blair has not provided his ally with anything like the support that François Mitterrand and Helmut Kohl gave to Mr Delors.

His modest aims will also prove right if he can sort out the mess that, a decade on, still haunts the EU bureaucracy. In pursuit of ever closer union, Mr Delors and his staff set up ad hoc groups, bypassed chains of command and outsourced tasks to whoever could get them done. The result was lack of control, no accountability—and corruption. The problems remain. The Court of Auditors has just refused to give the EU's accounts its approval, for the 11th year in a row. In one sense, Mr Barroso is still trying to rein in a bureaucracy that got out of control.

In the Berlaymont's bowels

Yet he may find that simple-sounding task quite a challenge. Deep within the Berlaymont building, Eurocrats' reflexes remain what they always were: Franco-German. Many in the commission believe that their power stems from that alliance. Without it, they feel stranded. The battle between Mr Barroso and the Eurocrats may be just beginning. The very notion that the commission can turn into a model bureaucracy may be implausible. Brussels has been a byword for inefficiency and inertia for far too long. It will take a miracle, not a single presidency, to change that image, even if Mr Barroso's broader agenda succeeds.

And because of that, it is far from certain that Mr Barroso will have enough time to solve the commission's biggest problem: its lack of legitimacy. Ironically, the Delors commission was seen as a success even though its performance may have undermined its successors. The danger for Mr Barroso is that he will be seen as unsuccessful, even if his commission lays the foundation of greater legitimacy for those still to come.

LISBOA EM LONDRES

Na carruagem de metro da Northern Line que me leva de Charing Cross Road até Euston, dou por mim a olhar para o casal jovem sentado à minha frente, com uma caixa de transporte de animais no banco ao lado. O saco de plástico que ela tem entre os pés tem os dizeres "Pastelaria Lisboa", e ele mordisca distraidamente um pãozinho de leite português.

20 de novembro de 2005

POLAROID: HAMMERSMITH

São seis e meia da tarde e espero um táxi na praça à saída da estação de Hammersmith. É já noite escura, está muito trânsito, há ainda algumas pessoas à minha frente; a trintona imediatamente à minha frente tem ar de executiva apressada, esperando pacientemente que chegue a sua vez no frio cortante. Um homem, mais alto, aproxima-se dela arrastando uma pequena mala de viagem com rodas, com uma etiqueta de bagagem de porão; conversam um pouco, ele em inglês com evidente sotaque francês. Viro-me para ver se se aproxima algum táxi no meio do trânsito intenso; quando volto, a senhora está de novo sozinha, mas uma mala está ali, em pleno passeio, um pouco afastada. A fila de táxis avança, mas a mala fica no mesmo lugar. Pergunto à senhora à minha frente, "desculpe-me, a mala é sua?". Ela responde-me: "porquê? Tem medo que seja uma bomba?" Não consigo perceber se está a ser irónica ou apenas mal-educada. "Não, só que a mala não estava ali agora mesmo." "É desta senhora à minha frente", diz, apontando para uma jovem inglesa típica, alta e anafada, com três crianças pela mão enquanto desabafa ao telemóvel com alguém conhecido por ter de apanhar um táxi neste trânsito logo a seguir a o carro ter ido abaixo e não ter a certeza de ter de ficar com o carro enquanto a assistência não chegar. A conversa fica por aqui. Pouco depois, o senhor do sotaque francês volta, pega na mala, que tem a etiqueta de bagagem de porão em que tinha reparado pouco antes, e continua a conversar com a executiva apressada como se nada fosse.

19 de novembro de 2005

PEQUENAS IRONIAS ZEN

Porque é que em Lisboa é que tem estado tempo de Londres, com chuva e capacete, quando em Londres tem estado tempo de Lisboa, luminoso e frio?

18 de novembro de 2005

POLAROID: PICCADILLY CIRCUS

Janto com a Ana, em Londres para a Feira de Turismo. Depois, atravessamos Regent Street. No meio de Piccadilly Circus, enquanto esperamos pelo sinal, a Ana decide tirar-me uma fotografia debaixo das luzes de Natal com as personagens de "A Idade do Gelo" e pede-me que lhe tire uma a ela. Enquanto tento acertar com a focagem da digital, um londrino que passa atira-me "And then you're going to want me to take one of you two together, right?" Rimo-nos.

17 de novembro de 2005

TELEGRAMA

Londres fria e solarenga e dispendiosa STOP Computadores sem acentos STOP Hoteis continuam acanhados e escuros e centrais STOP Luzes de Natal por todo o lado STOP

14 de novembro de 2005

LYME REGIS

Em Carcavelos, frente ao hotel Praia-Mar, o pontão da praia é uma língua de betão cinzento que se expõe ao mar revolto que parece agredi-lo com violentas muralhas de espuma branca. Um pouco mais à frente, as ondas batem contra a muralha de pedra branca e as suas pontas mais altas ultrapassam o pequeno parapeito para se abaterem numa pequena zona do passeio da Marginal, encharcando a calçada portuguesa e parte do asfalto da estrada, enquanto os declives de rocha nua se parecem cobrir de espuma de cerveja, branca e gordurosa.

13 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Numa passagem de peões, uma idosa com um saco de supermercado nas mãos aguarda que um carro passe para atravessar. O carro passa devagarinho, incerto se pare ou não, visto que a senhora não se mexe e não dá indicação nenhuma se está a querer atravessar ou à espera de boleia ou de um táxi, mas não pára. Assim que passa, a senhora grita "nem parem! onde é que isto já se viu, nem parem!"

12 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

No metro entre o Rato e o Marquês de Pombal, uma senhora de meia-idade que o cachecol colorido identifica como dirigindo-se para a procissão conversa com a senhora sentada à sua frente como se estivesse em casa em frente ao televisor, criticando "eles" (políticos? edis? funcionários públicos?) naquele tom "a-mim-ninguém-me-engana" que os portugueses tanto gostam de usar.

No noticiário da RTP-1, uns quantos candidatos à Presidência da República passam a vida a comentar as campanhas e as posturas dos outros candidatos em vez de avançarem propostas realmente interessantes para justificarem a sua eleição para lá do seu percurso "que fala por si".

Enquanto isso, Lisboa pára para uma procissão onde coexistem a verdadeira fé (pessoal, privada, intransmissível) e o exibicionismo quase bairrista de uma fé que se apregoa aos sete ventos.

11 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Na reportagem do noticiário da noite da RTP-1 sobre o julgamento de Leonor e João Cipriano, mostrava-se que a família dos réus tinha ficado à porta porque os lugares na sala estavam já todos ocupados por "mirones" que fizeram fila à porta do tribunal de Portimão três horas antes da abertura das portas. E, à saída da sala de audiências, as espectadoras (com todo o aspecto de domésticas e donas-de-casa provincianas, cabelo grisalho apanhado, óculos de beata, casaquinhos de lã) debatiam animadamente entre si a sentença, enquanto, cá fora, uma pequena multidão gritava compassadamente "assassina! assassina!" como quem entoa um cântico de futebol.

9 de novembro de 2005

OS PAIS E A TECNOLOGIA

A minha mãe recebeu de prenda de anos um telefone sem fios para ter na linha fixa, oferecido pelo meu irmão. Hoje à tarde, quando ligo para casa dos meus pais, atendem-me o telefone, mas ignoram completamente a minha voz a chamá-los enquanto discutem um com o outro sobre se o telefone está ou não ligado. Desligo a chamada, cinco minutos depois volto a tentar e, claro, o telefone está impedido.

E assim continuou durante quase quatro horas, até eu receber uma chamada da minha mãe a mandar vir por eu não ter telefonado.

OUTONO

Atravesso a avenida da Liberdade pelo meio de uma vaga de folhas amareladas caídas das árvores, empurradas pelo vento num semicírculo perfeito. O tempo arrefeceu depressa.

7 de novembro de 2005

ATAVISMOS

Um governo que vai alternando entre dois partidos que acabam por não ser mais do que duas faces de uma única moeda; um povo que deixa de ter confiança nos políticos mas não se decide a pô-los fora; uma classe política que se perde em retóricas parlamentares do protesto quando não é a sua vez de estar no governo ou que faz gala de ser do contra porque sabe que nunca lá chegará.

Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

Nem na rasteirice conseguimos ser originais.

6 de novembro de 2005

ALGUMAS PESSOAS NAO FORAM FEITAS PARA TEREM FILHOS

Mãe tardia ou avó precoce? O rosto de quarentona tardia maquilhada, de cabelo pintado em permanente modernaça não engana quanto à idade, o tom de voz enrouquecida também não; o casaco cintado em falso leopardo, as calças de ganga beges, os sapatos pontiagudos de salto grosso contrastam com a T-shirt branca e as calças de ganga do miúdo com menos de dez anos que a acompanha e faz momices, correndo pelo restaurante, rebolando-se no banco, ajoelhando-se ao pé da mala da mãe, passando o máximo de tempo a cansar-se procurando em vão chamar a atenção da mãe. Mas esta, agarrada ao telemóvel onde troca mensagens por sms ou a atender ou a fazer chamadas, limita-se a ir dizendo numa voz muito maternal e colocada "ó João, venha cá e sente-se já à mesa", ou variações sobre esse tema, com o ar enfadado de quem não sabe para que serve um filho, ignorando completamente que a criança apenas está a pedir-lhe "olha para mim".

A METAFISICA DA RESSACA

Detesto tanto acordar ressacado (ou, pior ainda, acordar a meio da noite com uma necessidade irreprimível de chamar o Gregório, figura que me desagrada profundamente) e passar o dia seguinte em modo zombie que me controlo violentamente com a bebida. E, quando não me controlo, arrependo-me de tal maneira que juro para nunca mais.

4 de novembro de 2005

POLAROID: PEQUENO ALMOÇO

À mesa do pequeno almoço no café do costume, tenho na mesa ao lado um grupo de idosas que não fala apenas para si mas para toda a sala, falando das "doenças da visícula" enquanto admiram uma colcha com bordado de frutas.

2 de novembro de 2005

MTV EUROPE MUSIC AWARDS LISBOA 2005

Alguém me explica porque é que ando a ver há vários dias peças enormes nos noticiários televisivos sobre os prémios da MTV em Lisboa, com o tipo de destaque que habitualmente se dá a uma importante notícia social ou política? E porque é que são habitualmente peças deslumbradas em que se perguntam a estrelas pop internacionais com ar enfadado o que é que elas gostam em Portugal? E porque é que anda tudo tão histérico com estarem cá a Shakira e os Coldplay e a Madonna e o Robbie Williams quando eles já cá vieram todos tocar?

E AGORA, A VOSSA ATENÇAO

O serviço normal será retomado já em seguida. Obrigado pela atenção.

Proximizade

Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.

1 de novembro de 2005

SMS POR TELEVISAO INTERPOSTA

Mensagem vista na "barra" em movimento num dos programas de tarde da RTP-1, não me recordo agora do nome: "Se vires esta mensagem vai hoje a casa do tio. É urgente"

31 de outubro de 2005

O POVO E QUEM MAIS ORDENA

Ouvido esta tarde em frente à sede da candidatura do dr. Mário Soares à Presidência da República, nos Restauradores, pela voz de um cavalheiro que não deve ser muito mais novo que ele: "Esse Soares devia era estar num asilo, é que ele devia."

29 de outubro de 2005

MOMENTO ZEN

Um gato preto enroscado em cima do capot de um Volkswagen Golf bordeaux fita-me com os seus olhos verdes quando passo por ele.

FORA DE CONTROLE

Acho bem que se tenha alarme no carro. Já não acho tanta graça — eu e o resto da vizinhança, parece-me — quando os alarmes parecem disparar de livre e espontânea vontade, geralmente a horas muito pouco apropriadas, do género duas da manhã de um dia de semana ou nove da manhã de um fim-de-semana. Nos últimos dias, na minha rua, há um que tem disparado regularmente — e é particularmente irritante, porque dispara uma buzina metronómica durante alguns minutos que pára precisamente quando está a começar a ser um irritante sério... para recomeçar algum tempo depois durante mais alguns minutos.

27 de outubro de 2005

ELIZABETHTOWN

Já estava a desesperar de ver um grande filme (não-animado, entenda-se) nestes últimos meses. Foi hoje. Imperfeito, inacabado, descontrolado — e apenas maior por causa disso. Elizabethtown, de Cameron Crowe, é como a vida: não está, nunca, onde estamos à espera dele. Estreia a 10 de Novembro.

POLAROID: METRO

Na estação do Rato, estão a arranjar as escadas rolantes. Mas, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento desce em vez de subir, obrigando as pessoas a subir a pé o longuíssimo lanço de escadas. Um senhor levanta a questão ao técnico que está a reparar a escada, mas recebe apenas um abanar de cabeça com os braços abertos, como quem diz "tem razão, mas eu não posso fazer nada". Como para ilustrar o problema, chega um casal idoso que se vê forçado a subir a escada — o senhor é cego.

Mais à frente, um jovem não consegue que o seu cartão magnético abra a cancela de entrada. Quando, à terceira tentativa, o consegue, dá um murro no mecanismo enquanto entra.

Quando regresso, algumas horas depois, continuam a arranjar as escadas rolantes. E, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento continua a ser a que desce.

25 de outubro de 2005

MOMENTO

Sentado num banco, numa das centrais da Avenida da Liberdade, faço tempo para uma projecção. Princípio de tarde. Temperatura amena. Brisa leve. Folhas que caem lentamente das árvores onde bolas prateadas estão suspensas . Gente e trânsito que atravessa a rua. O mundo pára, por cinco minutos.

This chord
This water
This son
This daughter
This day
This time
This land
It's all mine

This Calling Bell
This Forge Bell
This Dark Bell
This The Knife Bell
This calling
This burden
This falling
The world's turning

This What I thought I knew
This What I thought was true
This I understood
This In the deep wood
This Ah there I stood a child so fair
This On a certain square
This Down the dirty stairs
This To see the table set
This With golden chairs
This Ah to follow, follow, follow, follow there

This race
And this world
This feeling
And this girl
This revolver
This fire
This I'll hold it up higher, higher, high


— Brian Eno, "This", in "Another Day on Earth" (Hannibal, 2005)

24 de outubro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #35

Ter que programar os canais manualmente no televisor porque a busca automática programa tudo nos números errados.

23 de outubro de 2005

NAO OLHES PARA TRAS (#1000)

Há canções que só o tempo desvenda.

when you're nothing to no one
and you're less than your kin
and you're looking for someone
who won't cling to anything

so you're stuck in some motel
with the sound of her sleeping
don't you feel kind of old now?
well, ain't that a funny thing

I used to wake up early
I used to try to believe
but life seems never ending
when you're young

so you're back on the highway
and there's wind in her hair
and you know that it's no time for thinking
about somebody up there

because you'll turn her to drinking
and you'll lead her to hell
with her Bible beside her
she surely looks like an angel

I used to wake up early
I used to try to believe
but faith is never easy
when you're young

I used to wake up early
now it's hard, hard enough to sleep
but life seems never ending
when you're young.


— Lloyd Cole, "Don't Look Back", in "Lloyd Cole" (Polydor, 1990)

22 de outubro de 2005

LAR DOCE LAR

É tudo muito bonito andar para aí a elogiar a santidade da família, a importância dos laços de sangue e todas essas coisas, mas há uma coisa de que toda a gente se esquece — é que a família não conhece apenas os nossos lados bons, mas também os nossos lados maus. E nunca perde uma oportunidade de no-lo recordar — o que, convenha-se, nem sempre é do melhor tom.

21 de outubro de 2005

O ESTADO DAS COISAS

De um lado, uma mulher que desaparece de livre vontade em busca de qualquer coisa. Do outro, um casal que contempla o suicídio colectivo como única solução para o sobre-endividamento. Cada um que tire as suas conclusões.

19 de outubro de 2005

O JARDIM SECRETO

Apetece lá voltar, sempre que as pessoas são complicadas. E não há, de todo, motivo para que o sejam — a não ser porque o querem.

(Sim, também vale para mim.)

18 de outubro de 2005

AQUI E AGORA

Esta canção desculpa tudo o que de menos bom Cassandra Wilson fez na vida. (E desculpem qualquer coisinha se já vo-la tiver vendido algures nos quase dois anos que este blog já leva.)

did you ever love somebody?
did you ever really care?
did you ever need somebody
just to rub your hair
all the energy we spend on motion
all the circuitry and time
is there any way to feel a body
through fiber optic lines?

everybody's going through the motions
got their heads up or down
no one seems to want to see the other person's eyes
reflect the world go 'round

everybody seems to want to get away to some place
get away from themselves
I got a feeling if they found that some place
they'll want to go some place else

do we really want to go to Mars?
do we ever really want to try?
I got a funny feeling if we get up there
we're gonna stop and wonder why

don't you want to be right here
right now?


— Cassandra Wilson, "Right Here, Right Now" (Cassandra Wilson/Marvin Sewell) in "Traveling Miles" (Blue Note, 1999)

16 de outubro de 2005

OS MISTERIOS DE ALFRAGIDE

...ou de Carnaxide, ou da Outurela, ou da Portela — vai tudo dar ao mesmo. O que meter pela saída errada da Segunda Circular dá é perceber que há subúrbios lisboetas onde a palavra "sinalização" não é, de todo, conhecida... E não há ninguém que peça às entidades responsáveis para definir melhor "zona comercial"?

12 de outubro de 2005

A EFICACIA DOS 50

A capa da Caras desta semana diz que Teresa Guilherme, aos 50 anos, se sente mais eficaz e divertida. Posto desta maneira, parece um anúncio para um creme anti-rugas.

O DESAPARECIMENTO DA CANETA PRODIGA

Ficou na minha secção de voto, onde a deixei sem dar por isso no domingo à tarde. A Bic Cristal voltou a uso.

POLAROID: METRO

Corro para entrar na carruagem antes que as portas se fechem. A senhora que entra à minha frente pára assim que entra, tenho de forçar um pouco a passagem para não ficar com a mala presa na porta. A senhora pede desculpa educadamente, mas não se mexe um milímetro da posição que adoptou.

10 de outubro de 2005

MARKETING POLITICO (SLIGHT RETURN)

"Por um voto se ganha, por um voto se muda", rezava a frase usada numa das campanhas de marketing destas autárquicas. Pelos vistos, Lisboa não quis mudar e Carrilho perdeu — mas, agora a sério, alguém alguma vez pensou que ele pudesse ganhar? Que disparate! Que disparate!

No resto, tenho a dizer que Portugal não me surpreendeu e continua no seu melhor. Os portugueses também não e continuam no seu melhor.

9 de outubro de 2005

8 de outubro de 2005

MARKETING POLITICO

"Por um voto se ganha, por um voto se muda", rezava a frase usada numa das campanhas de marketing destas autárquicas. Raras vezes uma frase terá sido tão apropriada na sua ambiguidade: é verdade que "por um voto se muda", mas será que se muda "para melhor"?

7 de outubro de 2005

DEBATE

Depois do debate de ontem à noite, na RTP-1, fiquei esclarecido sobre quem tem realmente ideias, projectos e amor por Lisboa.

Fiquei escandalizado com a atitude diletante de Manuel Maria Carrilho, que fala muito de teorias mas não consegue esconder a falta de substância no seu discurso, que parece não estar minimamente preparado para ser presidente da câmara — a sua pose distante é a de quem gosta de teorizar para que os outros ponham em prática as suas visões iluminadas, é a de quem não tem programa e, à boa velha maneira de uma certa esquerda nacional, acha que o ser de esquerda é suficiente para garantir as credenciais.

Fiquei atónito com José Sá Fernandes, que parece não ter arcaboiço para estas cavalarias altas e se refugia em conversas de "medidas corajosas" quando o que os lisboetas querem não é medidas corajosas (aliás, não ouvi nenhumas), é problemas resolvidos (e como é que alguém que diz que Lisboa precisa de gente propõe uma taxa para quem quiser trazer o carro para o centro de Lisboa? como é que alguém que passa a vida a dizer que já há impostos a mais quer introduzir mais um?).

Fiquei desapontado com o nervosismo e insegurança de Carmona Rodrigues, que me parece uma figura simpática e com algum bom senso mas que me pareceu ali a fazer algum frete, que comeu muito por tabela da megalomania d'Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado, e que esteve bem (e com razão) quando diz que o túnel das Amoreiras/Marquês não vai trazer mais carros para dentro de Lisboa. Aliás, o túnel é um problema, é certo, mas ninguém parece recordar que os portugueses são um povo individualista que, mesmo com transportes públicos de melhor qualidade, só à lei da bala é que vai deixar o automóvel próprio em casa.

Sobram Ruben de Carvalho e Maria José Nogueira Pinto, seguros, ele mais pragmático, ela mais teórica, mas ambos com ideias muito claras do que está mal em Lisboa e do que deve e pode ser melhorado. Infelizmente, tudo aponta para que, mais uma vez, a demagogia ganhe à competência. Mas não é surpresa. Já é assim desde o século passado, porque haveria de mudar agora?

POLAROID: CAFE, PEQUENO-ALMOÇO

Duas mesas ao lado, está uma liceal com um telemóvel em cima da mesa, auscultadores ligados a um leitor de MP3, ouvindo música enquanto desenha, debruçada sobre um caderno espiral A4, com um lápis, manchas cinzentas nas margens nas folhas. Na mesa em frente estão três liceais, colegas de turma possivelmente, a tomarem o pequeno-almoço e, sem parar de desenhar nem levantar a cabeça, ela chama uma das três insistentemente, dizendo-lhe que é urgente e precisa muito de falar com ela, ao que a outra responde, agastada, "espera um minuto" enquanto continua a tomar o pequeno-almoço.

6 de outubro de 2005

O REGRESSO DA CANETA PRODIGA

Afinal, a caneta lá estava. Tenho especial preferência por estas canetas transparentes de gel, de tinta preta, Uniball Signo 0.5 made in Japan (by Mitsubishi) — não tenho nada contra as Bic Cristal para escrita normal, diga-se desde já (já a Bic Laranja para escrita fina nunca me convenceu), nem tenho nenhuma especial razão sentimental para ficar contente por recuperar esta. Acontece apenas que me habituei a estas, já há uns largos anos, quer em preto quer em vermelho (dava jeito para rever páginas...), porque raramente a tinta seca e são bastante resistentes.

Tinha-me esquecido dela no café onde costumo tomar o pequeno-almoço, na manhã de terça-feira, em cima da mesa junto à janela, encostada à caixinha plástica dos guardanapos de papel, e só dei pela falta dela já a caminho da casa da minha mãe, para uma sessão de "Mum-sitting" enquanto o meu pai ia a uma consulta médica de rotina. Percebi imediatamente onde é que a tinha deixado e, sem grandes esperanças que ainda estivesse no café, desviei-me para a primeira papelaria que encontrei e comprei uma Bic Cristal.

Hoje, de manhã, quando pagava o galão e a torrada, perguntei se por acaso não teriam encontrado uma caneta — a empregada disse que não tinha ideia mas, em cima do balcão, junto ao cesto dos pacotinhos de açúcar para o café, lá estava ela. Surpresa.

5 de outubro de 2005

DEPOIS DA TEMPESTADE

Aqui há uns meses, dei aqui um toque sobre Nancy Gibbs, da Time, mocinha que é capaz de ser uma escritora absolutamente notável. Na altura, fi-lo a propósito de uma peça sobre o Papa que não consegui reproduzir aqui — agora, volto ao fazê-lo por causa de uma peça que saiu na edição de 3 de Outubro sobre o furacão Rita. Parece-me que explica muito melhor porque é que eu gosto da maneira como ela combina análise, reportagem e opinião num todo eminentemente fluido (com desculpas pela dimensão da peça).

Act Two
Hurricane Rita brings a second cruel assault on the Gulf Coast. How well did we apply Katrina's lessons?
By NANCY GIBBS


«We get to know our hurricanes so well now. We christen them and watch them grow from little tempests way out at sea to big, clumsy storms spilling bright orange rings all over the weather maps. We track them so closely that we fool ourselves into thinking that what we can't control we can at least predict, with all our models and millibars, as though it were not in the very nature of hurricanes to skid and twist and break things. That's worth remembering now as the skies clear and we measure what worked and what didn't, who overreacted, who waited too long, as though someone should have had perfect intelligence about the least predictable of all our natural enemies.

Was any storm ever watched as closely as Rita, Katrina's unwelcome sister come to test the learning curve? There would be nothing normal about her, not after where we've been. Politicians and reporters prowled the operations centers. FEMA rained press releases. Disaster officials positioned supplies every 10 feet across East Texas--truckloads of water and ice, hospital beds, even the microchips to be implanted in dead bodies for identification. Fifty thousand troops were on the ground, as local, state and federal officials strapped themselves together in a life belt of plans and protocols designed to protect both the public and themselves.

And still the ironies blew in one after another. The previous storm was followed by so much human failure that it all but ensured this one would be preceded by failure. Thirty-four elderly people drowned in New Orleans because they didn't leave, and 24 people in Texas burned when they did. People filled their cars with their most precious possessions, only to abandon them on the highway when the traffic stopped and the engines died. President George W. Bush could not win; even before Rita hit, grouchy critics were saying, "Well, of course he'll take care of his home state." And in sad and sodden New Orleans, where army engineers had spent the past three weeks dumping sand and gravel to patch the levees, the debates about rebuilding were drowned in the second wave. "People are just going to be thinking, What's the damn point if this is going to keep happening?" said a New Orleans cop as he surveyed a flooded underpass. Soldiers went out to stare at the waterfall over the levee, and some took pictures--a still life in human limitations.

The culture of blame thrives in this climate, so it was easy to miss the victories. It is no small thing to evacuate the fourth biggest city in the country--not just the willing and mobile but also the old, the sick, the stubborn, women in labor, babies in incubators, criminals in prisons--more than the populations of 15 states, all on the move at once. Some tempers melted in Houston's 100-degree heat, but the effort in its entirety was a pageant in patience and cooperation. In the end, the greatest irony may turn out to be the high cost of good news. It will be days before we know the full scope of the damage, in homes and lives and livelihoods. But if it turns out that for all the disruption, fewer people died, more homes were spared and the destruction was not as bad so officials had feared, they know there is one last price they will pay, a debt that will come due the next time a disaster wanders into view and they once again have to convince people that it is far better to be safe than sorry.

It turns out that you can't drain a city of 2 million people in a day. It's not as if it's a fire drill you can practice, other than on a computer model that will never account for all the brave and stupid and sentimental things people do when their world starts to rattle and pitch. Sound the alarms too soon, and you may disrupt lives for no reason. Wait too long, and you risk losing them.

For officials in cities across the country, newly aware that they had better have some kind of rational evacuation plan in place, Rita taught as much about the challenge of leaving as Katrina taught about staying behind. Los Angeles, sitting on a basket of fault lines, has no plans for a mass evacuation. San Francisco envisions sending residents out across bridges that could crumple. New York City at least has subways that can move 8 million people a day--but those lines are mentioned as a favorite terrorist target.

In Texas, the plan was for about a million people to move out of harm's way. The reality was that two and half times as many hit the roads, and that doesn't count the dogs and cats and goats and hedgehogs evacuating as well. The Texodus came in waves, first on Tuesday from Galveston, the barrier island of 57,000 that takes its hurricanes seriously, then thousands more from coastal towns and hundreds of thousands more from Houston, whose Mayor Bill White urged residents of low-lying areas to get out--now. "Don't wait," he said. "The time for warnings is over." In Matagorda County, sheriff James Mitchell warned parents that if they decided to try to ride out the storm and were caught, they could be charged with child endangerment and their children taken into custody. But for once, the public did not need much convincing. Forecasters couldn't say for sure where Rita was headed, and people weren't in a mood to take chances.

White called what followed the largest mass evacuation in U.S. history. It was also at times the slowest. By Wednesday Rita was a Category 5 hurricane, one of the three meanest storms ever tracked in the Atlantic, moving at about 9 m.p.h. toward her prey, faster than East Texas could run away. Fleeing families were lucky to move a mile in an hour. Soon dead cars lined the roadsides, and the tanker trucks meant to revive them were themselves stuck in traffic or else had the wrong nozzles to fit civilian cars. "They're saying if you have one-eighth of a tank of gas or less, to get off the roads and let other people escape," said Mary Sieger, 62. "But where should people go if they do pull off? There's no gas in the entire city. They can't get home."

Somehow state and city officials could not seem to reverse the southbound lanes until midday Thursday, and even that was remarkable because there was no master scheme for doing it at all. "Contraflow was never in the plan," White tells TIME. "We improvised it." One city official says that was only because of TV images of packed lanes next to empty ones. "They [state officials] were not going to do it," the official says. "It was never part of the plan because they believed that the roads could accommodate the traffic." But that's barely true on a normal day's rush hour, much less during a sudden spasm of survivalism. Governor Rick Perry acknowledged that being stuck in traffic for 12 or 15 hours was bad, but "it sure beats being plucked off a roof by a helicopter." It was a line he was to repeat all day.

After endless hours of getting nowhere on the roads, some families tried to turn back. By then, White was calling cars stuck on highways potential deathtraps. To focus the evacuation, Houston had tried to publish maps of the most vulnerable areas, but the average citizen couldn't understand them or didn't try. "I think people just said, 'Oh, my God, I'm in danger. I'm leaving,'" says Carla Prater, a Texas A&M professor who helped design evacuation plans for the state. "We didn't have time to adjust our plans in accordance with this new factor, the freak-out factor," she tells TIME. Dozens went to hospitals, and several died of heat exhaustion and dehydration in temperatures that could bake the fruit on the trees. White warned on Friday that for those who were not already on their way, it was now too late to go.

For those left behind, there was little to do but stock up and hunker down. At the Houston zoo, geese, ducks and chickens found shelter in one of the men's rooms while the turkeys commandeered a ladies' room. The Siberian tiger section offered sanctuary to some maned wolves and anteaters. "Everyone is secured from everyone else," said spokesman Brian Hill. "There's no danger of any animal taking advantage." Over at the Museum of Fine Arts, a cast of Rodin's sculpture The Walking Man was laid down so it wouldn't fall over and get hurt. At the University of Texas Medical Branch in Galveston, even as the patients were evacuated, researchers combed the hospital's lab where some of the world's most lethal viruses are studied, terminating experiments, storing viruses in locked freezers and fumigating the labs to avoid the chance that something could escape if the building were crushed.

Big storms announce themselves with that famous calm, and people exploited it however they could. Mothers took their kids to the playground to wear them out in the event that they would be locked down for a few days. A case of water was going for $30 at a convenience store, and condoms were a top seller as well. "We needed heroic amounts of food," said David Fine, head of St. Luke's Episcopal Health System, "so we broke into a warehouse to get it." The hospital got permission to pry open the freezer at a McDonald's near Texas Children's Medical Hospital to liberate a huge load of meat patties. The general advice? "Don't ask permission," advised Perry. "Ask forgiveness."

Everywhere across the city and beyond, people imagined the worst, and given what they had been watching night after night on the news, that wasn't hard to do ...

Some Texans felt a gust of guilt and relief in the hours that followed, as Rita wobbled eastward on her path ashore. They knew they did not want to be on the dirty side of a big storm, the eastern wing that tosses tornadoes as she goes. Instead she moved in on the Texas-Louisiana coastline, somehow steering between the major population centers, and managed to avoid most refineries. But Rita was so big and slow, she still caused trouble hundreds of miles in every direction, including Katrina's stomping grounds. In Beaumont, Texas, police patrolled the blacked-out streets in cruisers and on the backs of dump trucks, shotguns ready. "It was really whipping through here last night," said resident Bill Dode. "It was extremely loud, and the house was creaking." Tree branches were poking through some cars' windows and some homes' walls. At one house, a goat was standing on top of a patio table, braying at a window.

In New Orleans, Mayor Ray Nagin, aware that half his population may never return, had urged people to come back, only to have to turn them around again two days later as Rita approached. Watching Rita hover offshore, the Army Corps of Engineers was worried that the levees could not withstand another blow. The pumps were still operating at only 40%, and while the city was basically dry, some streets were pasted together with poison sludge. Six inches of rain, max, they said, but the levees were already overflowing by Friday morning.

Meanwhile, the city recited its lessons like a chastened schoolboy. Buses were waiting at the Convention Center, along with half a million meals and a field hospital, in case the city endured a replay. A new $4.5 million communications system using military satellites was ready in case the phones went out again. But if the city was wiser, so were the people. They were not counting on anyone else to save them this time. In the French Quarter the Deja Vu strip club was open for business, but just about everything else was closed, and everyone was gone, except the cops, the army, the reporters and the looters. New Orleans and out-of-town police confirmed to TIME that numerous looters and carjackers had been arrested in recent days, some carrying guns and impersonating cops. "They're drifting back in," an officer said--and they're hardly the residents Nagin needs to repopulate his near dead city.

But if New Orleans was a vast urban sacrifice to greater knowledge, at least the experience was being studied at every level. The President had planned to go to Texas on Friday, having spent time earlier in the week in Louisiana and Mississippi. Wouldn't he just get in the way?, reporters asked, which may help explain why the White House misplaced the press corps, inadvertently sending it along to San Antonio while Bush decided to head for Colorado to watch the Northern Command coordinate the federal response. As he got a tour of the facility, he finally found his bullhorn moment. When he came across a 9/11 memorial, including a photograph of him atop the rubble at ground zero, he took out his pen and signed it "May God Bless America, George W. Bush."

Given the challenges that face him now, as gas prices jump up three more floors and Congress revolts and the global war on hurricanes threatens to break the budget, the President did get a break from the Rita replay. For all the complaints about Bush's handling of Katrina, it was Texas Senator John Cornyn who noted that "when you dial 911, it doesn't ring at the White House." While federal officials were much more attentive this time, officials in Texas showed they could make the machinery work together. Katrina was a pop quiz for Texas emergency chief Jack Colley, an ex-military man whose office is practically empty except for a few baseball caps, a picture of an old dog and a thick walking stick topped by a pilot's joy stick. He's a man who knows the sheriffs and mayors and agency heads by name. The state has held 150 simulation tests, including a cascading nightmare of a nuclear power leak, a Category 4 hurricane in Corpus Christi and a nuclear terrorist attack. Perry told Bush not to even consider drafting Colley when the Governor thought the President might be in the market for some experienced disaster hands in Washington.

In the state operations center, a former cold war nuclear shelter in Austin, Perry let Colley manage the conference calls. One sheriff wanted to know whether he would be reimbursed for the gasoline he provided to federal agencies. Another said he was overwhelmed with evacuees and was worried about security along the roadways where people with knives were fighting over gas. Perry dealt with the politicians. House majority leader Tom DeLay called for the fourth or fifth time. His district would probably escape the worst, but he wanted to be sure enough National Guard troops had been called up. Homeland Security Secretary Michael Chertoff had been calling four times a day. Bush called four times and by late Saturday had gone home to Austin to see the operation for himself.

One disaster is a test of readiness; a second is a test of character. For those already wearing I SURVIVED KATRINA T shirts, it was a cruel challenge to their resilience. "It feels like it's following us," said a New Orleans evacuee. They were like Israelites in the desert. There was talk of moving ... to another planet. The next best thing, maybe, was Mexico. Some evacuees headed south because it was home, others on the chance that they might have to be gone for a long time, and life on the run would be cheaper there.

Once you've lost everything, there is little left to mourn. More than windows and walls, hope is hard to repair once it is broken. "It's like watching a murder," said a repeat evacuee in Lafayette, La. "The first time is bad. After that, you numb up." But if anything, the storm had the opposite effect on the officials in charge of responding to it. They were anything but numb--rather, aware that something profound had changed in the efforts and expectations. And that this was only the beginning.»
--Reported by Cathy Booth Thomas, Deborah Fowler and Wendy Grossman/Houston, Matthew Cooper/Washington, Hilary Hylton/Austin, Tim Padgett and Amanda Ripley/New Orleans, Adam Pitluk/Beaumont, Sean Scully/Philadelphia and Deirdre van Dyk/New York

4 de outubro de 2005

OS TEMPOS ESTAO MESMO A MUDAR

Isto é uma das mais notáveis peças sociológicas que li nos últimos tempos. Vem na edição desta semana da Economist. (As minhas desculpas pelo link.)

The times they are a changin'. Really

Believe it or not, America is beginning to escape its groundhog decade

«WE'RE told on good authority that history repeats itself, but this is getting ridiculous. The past week has been a giant flashback to the 1960s. On Saturday 100,000 anti-war demonstrators descended on Washington, DC, to chant peacenik slogans and listen to Joan Baez sing “Where have all the flowers gone?” The only thing missing was Abbie Hoffman trying to levitate the Pentagon. And that's not all. PBS broadcast Martin Scorsese's lengthy homage to Bob Dylan, alongside a week of tributes to “the years that shaped a generation” (including a special edition of “Antiques Roadshow”). Both the Rolling Stones and Jane Fonda have dragged their aged limbs on tour.

There have been a few attempts to update things. This time, some anti-war protesters wore T-shirts that read “make levees not war”, while Sir Michael Jagger has penned a song about the evils of neo-conservatism. But for the most part, everybody seems happiest with golden oldies.

Why are the 1960s so difficult to escape? One reason is the sheer size of the baby-boom generation. Giant arboreal slums of boomers now sit at the top of every establishment tree, not least the media. And like all ageing geezers they continue to see the world through the prism of their youths. Listen to Charles Rangel, a black congressman from New York, comparing George Bush to Bull Connor (the notorious white police boss in Birmingham, Alabama); or Jesse Jackson likening the peace protesters to the civil-rights heroine, Rosa Parks; or just about every pundit doing the “Iraq war as Vietnam quagmire” routine.

The other reason why the 1960s are so hard to shake off is that the decade split America down the middle, launching the culture wars that still haunt American politics and redefining America's two great parties. The Democrats became the party of people who regarded the 1960s as an unmitigated good (particularly feminists, blacks and social liberals) while the Republicans regarded the 1960s as an unmitigated evil (particularly white southerners and other “conservatives of the heart”).

This has made for “Groundhog Day” politics. Every election the same arguments appear about draft dodging, the permissive society and so on. Last year, while Iraq burned, American politics fixated on which Swift Boat veteran did what 40 years ago.

Is there really no escape? In fact, last year's election looks like the last hurrah for 1960s politics. John Kerry presumably thought that turning the 2004 election into a referendum on his war service in Vietnam was a slam-dunk, given that he fought heroically while Mr Bush skulked at home. But many voters were less obsessed by the Mekong Delta, and others remembered him as a war protester, not a war hero.

The future of both parties is in the hands of people who want to jettison their 1960s baggage. On the Democrat side, before Mr Kerry reintroduced Vietnam, the Clintonites had spent much of the 1990s distancing themselves from Eugene McCarthy. They demonised black radicals such as Sister Souljah, embraced tough policies on crime and welfare, supported school uniforms and V-chips, and sent American bombers into Bosnia. In her preparation for 2008, Hillary Clinton has taken positions on military force and abortion rights that would have scandalised her younger self. Barack Obama, a possible running mate, is very different from the older black leaders. On the relative merits of liberal and conservative solutions to black poverty—spending more money versus changing the behaviour of the poor—he says: “It's not either/or. It's both/and.”

For their part, the Republicans have been trying to get beyond Richard Nixon's “southern strategy”. Mr Bush has appointed blacks to more senior positions in his administration than any previous president and lavished more attention on wooing black voters. The reason why black Democrats seized on the catastrophe in New Orleans to demonise Mr Bush is not because they really think that he is Bull Connor reincarnated, but because they worry that his strategy of creating a multicultural Republican Party might get somewhere.

The old road is rapidly ageing
More broadly, American society is beginning to make its peace with that divisive decade: it is becoming neither a pro-1960s culture nor an anti-1960s culture but a post-1960s culture. Polls show only 5% of voters objecting to the civil-rights revolution. For all the rage of the culture warriors, most Americans—particularly young ones—put a high premium on “tolerance”. At the same time, they also think that the counter-culture went too far. Very few people decry the nuclear family or urge people to tune in, turn on and drop out.

Society is in a process of repairing itself after the big dislocations of the 1960s, when rates of crime, pre-marital sex and family breakdown began to surge. (The annual number of divorces, for example, more than doubled between the mid-1960s and the mid-1970s.) The figures for teenage pregnancy and abortion are both declining. Crime is down (America now has fewer burglaries per head than Canada), and divorce is beginning to drop, particularly among the college-educated, as the children of divorced parents re-embrace the nuclear family. Most young Americans say they believe in God and love their country.

Mr Dylan remains such an iconic figure not because he embodied the 1960s but because, unlike many of his acolytes, he refused to be defined by the decade. Mr Scorsese makes great play about the way the folk protester infuriated his hard-core fans by going electric. But this was only one of the bard's changes. He distanced himself from his protest songs. He got God in a big way. And in his recent memoirs he boasts that his dream was a “nine-to-five existence, a house on a tree-lined block with a white picket fence, pink roses in the backyard.” That's where the flowers went, Joan.»

3 de outubro de 2005

POLAROID: CORREIOS

Estão cerca de 20 pessoas com senhas à minha frente para ser atendidas. Um dos empregados ao balcão, educada mas decididamente, avisa o senhor de idade que está a ser atendido que não pode ser assim, tem que fazer tudo de uma só vez, há muita gente para atender e não pode estar a perder tempo com quem não sabe o que quer. Entretanto, uma senhora de meia-idade queixa-se para o homem de pé ao seu lado (vizinho provavelmente, já que parece conhecê-lo) de que teve tempo para ir tomar café sem pressas e voltar que ainda não chegou ao seu número, e prossegue para contar a história do assalto de que foi vítima no domingo, que conta em tom de voz suficientemente alto para ser audível por toda a gente que está à espera de ser atendida.

2 de outubro de 2005

POLAROID: AMOREIRAS, CINEMA VIP 1, 2 DE OUTUBRO, 18h30

Na fila à frente da minha, estão sentadas duas senhoras de meia-idade que, apesar de estarem juntas, entram separadamente. Têm aspecto de solteironas que frequentam os Alunos de Apolo, arranjadas com cuidado (uma é negra, de cabelo apanhado, está vestida de saia-e-casaco vermelho; outra é branca, de cabelo loiro pintado, vestida de calças-e-casaco claro), que combinam um filme ao fim da tarde. A loura chegou primeiro e, quando a amiga se senta ao seu lado, com um saco do supermercado na mão, está a abrir uma tablete de chocolate. A partir de meio do filme, começam a conversar uma com a outra em sussurros, por entre risadas que traem a incredulidade quanto ao filme que estão a ver, sem que chius pontuais façam calar o seu evidente descontentamento. A negra sai a meia-hora do fim para ir à casa de banho, amarfanhando o saco de plástico antes de sair, quase tropeçando no degrau da fila quando sai, quase tropeçando no degrau da fila quando entra. Quando o filme termina, saem com dignidade mas rindo-se uma para a outra.

1 de outubro de 2005

LOGBOOK #33: GAIVOTAS

Sesimbra: Ponta da Passagem, sábado, 1 de Outubro, 11h21: 16m, 45 min, 16º C

Está-se bem: resolvida a constipação e a inspecção do carro, a gloriosa estreia em água salgada do regulador Poseidon Jetstream adquirido em segunda mão há um par de meses confirma tudo o que de bom se sabe da veneranda marca sueca. É, além do mais, um reencontro com o grande Vitorino, presença regular nas saídas de sábado de manhã com quem há largos meses não me cruzava, mais a sua câmara digital que apanha ali um caboz escondido numa pequena reentrância dos canais de rocha, aqui um polvozinho a fazer-se à vida. Finalmente, é a Ponta da Passagem no seu melhor, com uma visibilidade simpática na onda dos sete metros (mesmo com o esverdeado da suspensão), muito cardume prateado, muito peixinho a alimentar-se — um passeio de luxo onde sou até recrutado para servir de assistente de fotógrafo, segurando no foco do Vitorino enquanto ele foca a câmara no caboz. O todo enquadrado por verdadeiros tapetes de gaivotas vogando ao sabor das quase inexistentes ondas à entrada do porto de Sesimbra, obrigadas a levantar vôo pela passagem do barco que nos leva em tempo recorde à Ponta, sob um sol quente que é mais de Verão que de Outono.

29 de setembro de 2005

POLAROID: CAFE, PEQUENO-ALMOÇO

Ouvido no café onde costumo tomar o pequeno-almoço.
Teenager 1 geração Morangos com Açúcar, sexo feminino, levantando-se para pedir ao empregado ao balcão: "Olhe, era um croissant com chocolate faxavor."
Teenager 2 geração Morangos com Açúcar, sexo masculino, cabelo louro à surfista, sentado à mesa da qual a teenager 1 se levantou, para teenager 3 geração Morangos com Açúcar: "Croissant com chocolate? Isso faz borbulhas. Olha lá, viste a quantidade de pessoal que estava ontem no McDonald's?"

28 de setembro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #34

Impressoras que, seis meses depois de deixarem de imprimir a cores por razões inexplicáveis, pura e simplesmente deixam de reagir por razões igualmente inexplicáveis. É que vais já ser substituída para não te armares em fina.

PROVINCIANISMO

Maria José Nogueira Pinto tem razão quando acusa Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues de "provincianismo" na opção por Frank Gehry para refazer o Parque Mayer — haveria certamente por cá excelentes arquitectos capazes de apresentar projectos igualmente arrojados. É certo que o Parque Mayer de Gehry não se tornará numa atracção turística como o museu Guggenheim de Bilbau (até porque, como todos sabemos, a maior parte dos portugueses não são nada dados a essa cultura). Mas, se nos recordarmos que o Guggenheim se tornou num pólo revitalizador da cidade, quem sabe se esse provincianismo não será exactamente aquilo de que o Parque Mayer precisa?

27 de setembro de 2005

POLAROID: MAGNOLIA CAFFE, CAMPO PEQUENO, 27 DE SETEMBRO, 10h15

Um cliente particularmente truculento protesta com a empregada de balcão. Primeiro porque o pão com fiambre que pediu vem servido sem guardanapo de papel, directamente em cima do prato. A empregada, sem perceber, ainda pergunta "mas não há guardanapos nas mesas?". Depois, volta com a sanduíche aberta, queixando-se por a manteiga não estar bem barrada. Às vezes, não sei se são os empregados que não sabem o que fazem ou os clientes que são exigentes em demasia.

26 de setembro de 2005

PONTUALIDADE

Comentário ouvido hoje a três mocinhas da geração Morangos com Açúcar: "eu não sei o que é estar lá às oito da manhã".

25 de setembro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #33

Pessoal que, quando vê o seu carro impossibilitado de sair por outro tipo que estacionou mal, desata a buzinar ininterruptamente a ver se o dono aparece. Isto é perfeitamente compreensível durante as horas de expediente. Às duas e meia da manhã, dá vontade de pegar em todo o tipo de objectos que possam fazer mossa, ir à janela e atirá-los ao buzinador em questão, porque por mais simpatia que possa haver para com o seu problema, a maior parte das pessoas que estão a dormir a sono solto não têm culpa nenhuma da questão. Quem estacionou mal não teve civismo nenhum, certamente, mas não se pode dizer que acordar a vizinhança às duas e meia da manhã para poder entrar ou sair com o carro seja um exemplo de civismo.