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18 de dezembro de 2005

PEROLA

É uma canção escrita no feminino, por uma cantora/compositora da qual há muito não tenho notícias (e que Peter Gabriel revelou ao mundo quando a foi buscar para fazer as vezes de Sinéad O'Connor na sua digressão Secret World de 1992/93). Mas, se olharmos para o que "Pearl" exprime de universal, está aqui muito do que eu próprio tenho andado (e ainda estou) a viver ao longo de 2005. And David will understand.

Humility on Bleecker Street
exposed my faults until I'm left defeated
it's been three years into this relationship
this is longer than I ever could commit

but I feel
I'm near
but I feel
my fear

I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl

there are no role models in rock'n'roll
no women who could have it all
the long career, the man, the happy family
and here I stand and God I do demand it

and I feel
I'm near
but I feel
my fear

I'm standing at the edge of another precipice in life
gotta face my steppenwolf
gotta drag you through the mud
when I get there I will see myself
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl

it's dark in here
don't know who I am
memories come
I'm wading through the moon
evil side
wants to drag me down
will power
God, please give me some
(I'm hanging onto hope now)

I'm standing at the edge of another precipice in life
baggage from my family
going back to therapy
I will kneel, be humble, tow the weight
I will look for strength within
I will be a better woman
hang in there baby, I'm the grain of sand
becoming the pearl.


— Paula Cole, "Pearl", in "Amen" (Imago/Warner Bros., 1999)

17 de dezembro de 2005

RELATORIO DE PROGRESSO

Ao fim de 24 horas, o paciente confirma que a garganta está já significativamente menos inflamada, mas o grosso da inflamação desviou-se agora para as mucosas nasais, que, desde o primeiro espirro de consequência esta tarde, já começa a dar sinais de bloqueio.

16 de dezembro de 2005

ILUSAO DE OPTICA

Descendo a Rua de Campolide em direcção a Sete Rios, a paisagem em movimento dos edifícios tapa o S do letreiro luminoso do Sana Malhoa Hotel.

14 de dezembro de 2005

POLAROID: LICEAIS EM CAFE EM TRES MOVIMENTOS

movimento I
O café está cheio. Três meninas chamam insistentemente o sr. Lopes para ele chegar à mesa; a empregada acaba por compreender que uma delas quer trocar uma nota em moedas.

movimento II
Numa mesa com quatro ou cinco liceais, dois deles insistem em falar de uma única maneira: muito alto.

movimento III
Uma jovem cumprimenta os amigos numa mesa, sem reparar na bengala do senhor idoso sentado na mesa de trás, que atira para o chão, entornando o copo de água sobre a mesa e o chão sem sequer dar por isso antes do senhor, gritando "menina!", lhe chamar a atenção para o incidente.

13 de dezembro de 2005

POBRE HOMEM

Algumas coisas houve que me fizeram imensa confusão em todo este triste episódio do ex-combatente que se atirou a Mário Soares em Barcelos no domingo. Toda a gente foi lesta em condenar, com inteira razão, a lamentável agressão ao candidato, o comportamento menos digno do homem — mas passou quase despercebido o facto de Mário Soares, ou alguém da sua "entourage", ter tratado o homem logo a seguir, com uma condescendência que me pareceu quase chocante, de "atrasado mental", "é um pobre homem" (não percebi a quem os gritos de populares femininas de "fascista, fascista" eram dirigidos, mas presumo que ao agressor). Depois, o bruá mediático que se gerou à volta do episódio quase obscureceu que, em períodos bem mais duros da história portuguesa, Mário Soares se aguentou à bronca em situações bem piores do que esta — e, contudo, quem visse as reportagens pensaria (como eu a princípio pensei) que o candidato teria sido ameaçado com uma arma ou agredido selvaticamente (em vez disso, foi apenas um murro no braço). Finalmente, a condenação quase unânime da acção do homem relegou-o para um papel quase de "maluquinho de serviço" — talvez por ele ter um exemplar do jornal "O Crime" nas mãos, ninguém se interessou em saber quem era o agressor, o que o levava a protestar daquela maneira contra Mário Soares. O episódio serviu apenas para unir todos os candidatos e para elevar o perfil do candidato — para quem, a julgar pelas sondagens, a atenção não podia ter surgido em melhor altura. Mas não consigo deixar de pensar que havia aqui uma história humana, daquelas que os noticiários tanto gostam de explorar e que, desta vez, não exploraram.

12 de dezembro de 2005

JOIA

Esta canção tem 20 anos em cima e continua a soar como nada mais no mundo, a um tempo dos anos 80 que a geraram e de um outro tempo que nunca se mediu pelos relógios e cronómetros. Esta música nunca fez parte de nada e continua, hoje, a desafiar aqueles que nela procuram alguma coisa de legível, de simbólico, de significativo. Mas com os Cocteau Twins nunca serviu de nada querer perceber — a resposta sempre esteve em sentir.

11 de dezembro de 2005

ÁRVORE

Há muitos, muitos anos, quando Dezembro começava, os meus pais iam comprar um pinheiro de Natal que colocávamos no canto da sala, junto ao televisor, num vaso de barro com terra em cima de um banco baixo, enchendo a casa com o aroma. Numa tarde, depois, eu e a minha mãe montávamos a árvore com enfeites herdados dos meus irmãos mais velhos e de tempos financeiramente menos desafogados, guardados em duas caixas fechadas na despensa — uma estrela de cartão forrada a prata de chocolate; bolas e lanterninhas de plástico colorido, grinaldas de cores brilhantes, algodão a fingir de flocos de neve, luzes coloridas em forma de estrela guardadas numa caixa de cartão que denunciava a sua origem asiática que acendiam e apagavam a ritmos descontínuos durante toda a noite e dia de Natal. E o presépio montado à volta do vaso de barro, em cima de papel de lustro verde, com um pequeno espelho a fingir de lago, e uma combinação de figuras religiosas e bonecos populares portugueses que a minha mãe ia comprando nas viagens que fazia, nos anos 50 e 60, para ver os jogos do Benfica com o meu pai. A árvore ficava montada até depois do aniversário do meu irmão, no dia de Reis (pratinhos de arroz doce com muita canela em cima da mesa), e só depois era desmanchada.

Hoje, tenho uma pequena árvore verde de plástico e metal que monto em cima de um móvel de CDs na sala de estar, e enfeito com uma estrela suspensa da ponta, algumas grinaldas brancas e douradas e meia dúzia de bolas prateadas. Porque a árvore é o único ritual de Natal que sempre me tocou de alguma maneira e não o quero deixar fugir.

10 de dezembro de 2005

PAGAMENTO

Desço no elevador e saio na 1ª cave do estacionamento do Amoreiras para pagar o parque. Enfio o ticket do estacionamento na máquina num átrio de elevadores vazio de gente. Tiro as moedas do bolso num átrio de elevadores que encheu repentinamente com pessoal que também quer pagar o parque, praticamente empurrando-me para cima da máquina, desde a criancinha que não tem altura para chegar aos botões a quem o pai diz que é mal educado estar em cima das outras pessoas até ao semi círculo de gente com tickets na mão a puxar das carteiras à espera que eu me despache.

9 de dezembro de 2005

PONTE

Pouco antes da hora do almoço, em todas as carruagens de metropolitano menos cheias do que seria normal no dia de hoje, parece haver uma epidemia de bocejos, reflexo do sono que se recuperou na manhã de feriado e voltou a ser encurtado pela solitária sexta-feira de trabalho desirmanado no meio do que poderia (deveria?) ser um fim-de-semana prolongado.

8 de dezembro de 2005

BEM-VINDOS AO SECULO XXI

Esta coluna de Andrew Sullivan na edição desta semana da Time explica muito bem algumas das razões pelas quais alguns são menos iguais do que outros aos olhos daqueles que pregam a palavra de Deus. Lembrei-me de quando Maria Bethânia disse que deixou de frequentar a igreja porque queria acreditar num Deus redentor e compreensivo, um Deus que acolhe, ama e perdoa e não um Deus que recusa e castiga.

7 de dezembro de 2005

DERBY

Pelo meio-dia, o Colombo já fervilhava de adeptos de camisola e cachecol benfiquista. Pela uma da tarde, o metro no Marquês de Pombal ouve um cântico do Manchester United a caminho do estádio da Luz.

6 de dezembro de 2005

EQUILIBRIOS

Uma das coisas que mais me agrada quando ouço música é o facto de um disco nunca me soar igual consoante eu o ouça no CD da sala, no CD do escritório, no discman, no MP3 ou no computador. Isto parece uma verdade de La Palisse ou uma qualquer palermice, mas é absolutamente fascinante perceber como todos eles revelam frequências diferentes, sublinham pontos diferentes da mistura no jogo da equalização e do equilíbrio acústico — às vezes basta apenas ajustar o auscultador para o som ganhar outro corpo. Cada vez mais me convenço que, na realidade, nunca ouvimos o mesmo disco da mesma maneira.

5 de dezembro de 2005

RELATIVO

Martin Gore está a falar dos Depeche Mode (acho eu), mas podia estar a falar de muita gente que eu conheço. Até mesmo da minha família.

precious and fragile things
need special handling
my God what have we done to you
we always tried to share
the tenderest of care
now look what we have put you through

things get damaged
things get broken
I thought we'd manage
but words left unspoken
left us so brittle
there was so little
left to give.


— Depeche Mode, "Precious", in "Playing the Angel" (Mute/EMI, 2005)

3 de dezembro de 2005

O ALGODAO NAO ENGANA

De vez em quando, dá-me para as limpezas — esta tarde, foi a vez do tampo da cómoda do quarto, que estava um caos. Um saco de plástico recebeu uma série de medicamentos fora de prazo (desde anti-alérgicos a Ultra Levur 250). Outro recebeu: embalagens vazias de amostras de perfumes, bilhetes de metro antigos, etiquetas de preço de roupa, clips plásticos de camisas, uma lata de desodorizante vazia, uma esponja de limpar sapatos inutilizada, entre outras coisas. Esta limpeza permitiu-me igualmente reencontrar o passaporte que eu pensava que já não tinha e a chave sobresselente da mala de viagem, perceber que tenho uma boa meia-dúzia de relógios Swatch que já passaram a fase do conserto e outros tantos que ainda estão aí para as curvas e instalar um pequeno pratinho com um pot-pourri do IKEA para dar algum ambiente ao quarto. Acabou-se-me o Polo Sport e o Boss In Motion está a acabar, mas, fora isso, é espantoso como o tampo da cómoda — reduzido aos perfumes e desodorizante, relógios, medicamentos de uso mais regular, utensílios de engraxe de sapatos e lenços de papel — de repente parece vazio. Há quanto tempo mesmo é que eu não o limpava?

1 de dezembro de 2005

WORLD AIDS DAY

Segundo os dados citados hoje pelo Público, apenas 10% dos portugueses infectados com o vírus do HIV o contrairam por relação homossexual, contra 64% por relação heterossexual. Pareceu-me importante sublinhar isto — é mais uma acha para a fogueira da irresponsabilidade nacional.

30 de novembro de 2005

PORTUGAL E ASSIM

Ouve-se os políticos discutir na Assembleia da República o Orçamento de Estado e parece que Portugal está à beira do fim: acusam-se demagogica e mutuamente de irresponsabilidade, de arrastar o país para a pobreza, etc, etc, etc. Mas quem fosse hoje à Fnac Chiado pensaria que os políticos têm de estar a falar de outro país que não Portugal, porque às 10h30 havia já uma visível fila de consumidores prontos a separar-se do seu dinheiro que tanto custou a ganhar para aproveitar os descontos feitos hoje aos possuidores de cartão Fnac. Uma senhora em particular transportava nos braços um imenso número de CDs graváveis, uma outra teclados e ratos ópticos.

Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.

28 de novembro de 2005

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZAO

A TVCabo está desde há largas semanas a realizar uma campanha bastante agressiva de adesão ao serviço Netcabo que já me apanhou duas ou três vezes ao telefone. Sábado à tarde, toca-me a campainha o vendedor da Netcabo, um rapaz dos seus 20 e poucos anos impecável de fato e gravata (no mínimo estranho, em pleno dilúvio), a tentar convencer-me a aderir ao serviço. Até aqui tudo bem; sei que os mocinhos são treinados para serem educados e tentarem dar a volta a clientes mal-humorados, mas o ar sublimemente bovino com que o rapaz continuava a insistir em convencer-me (sem nunca sequer mencionar o plano de preços proposto mas falando da campanha de adesão que oferecia a viagem), depois de eu lhe ter dado a entender repetidas vezes que estava extremamente descontente com o serviço a clientes da TVCabo e que estava muito satisfeito com o meu serviço internet e não queria mudar, é algo de antologia. O rapaz simplesmente não me estava a querer ouvir. Podia ser eu ou outra pessoa mais bem disposta, estou certo que não faria a mínima diferença; ele não estava a ouvir. Tive quase de lhe fechar a porta na cara para o mandar embora.

27 de novembro de 2005

ARCO-IRIS NA VIA RAPIDA

Entre as chuvadas de sábado e o sol e céu azul luminoso a aparecer por trás das nuvens escuras, dois arco-íris perfeitos desenham um arco de cores por sobre a Segunda Circular; um mais difuso e apagado, o outro intenso e forte, a refracção a acabar em plena linha do comboio enquanto uma carruagem passa.

POLAROID: MODELO BONJOUR

Sempre que há uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, o supermercado de bairro onde me costumo abastecer tem sempre representantes da campanha a entregar sacos à entrada. Hoje, com o supermercado bastante mais cheio do que é habitual aos domingos (mesmo contando que é fim do mês), quatro representantes da campanha, com as sweat-shirts brancas e sacos de plástico na mão, estão a afunilar a entrada da loja; um é um senhor dos seus 40 anos, os outros três adolescentes altos e magros que conversam uns com os outros e, pelo menos a mim, não me dão saco absolutamente nenhum. Nas minhas compras, coloco de qualquer maneira no carrinho alguns artigos para deixar à saída.

Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".

À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"

25 de novembro de 2005

TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO

Chegou aquela altura tenebrosa do ano em que os sistemas de som dos centros comerciais começam a tocar em alta rotação "A Todos um Bom Natal" pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras. Tremam.