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10 de dezembro de 2005

PAGAMENTO

Desço no elevador e saio na 1ª cave do estacionamento do Amoreiras para pagar o parque. Enfio o ticket do estacionamento na máquina num átrio de elevadores vazio de gente. Tiro as moedas do bolso num átrio de elevadores que encheu repentinamente com pessoal que também quer pagar o parque, praticamente empurrando-me para cima da máquina, desde a criancinha que não tem altura para chegar aos botões a quem o pai diz que é mal educado estar em cima das outras pessoas até ao semi círculo de gente com tickets na mão a puxar das carteiras à espera que eu me despache.

9 de dezembro de 2005

PONTE

Pouco antes da hora do almoço, em todas as carruagens de metropolitano menos cheias do que seria normal no dia de hoje, parece haver uma epidemia de bocejos, reflexo do sono que se recuperou na manhã de feriado e voltou a ser encurtado pela solitária sexta-feira de trabalho desirmanado no meio do que poderia (deveria?) ser um fim-de-semana prolongado.

8 de dezembro de 2005

BEM-VINDOS AO SECULO XXI

Esta coluna de Andrew Sullivan na edição desta semana da Time explica muito bem algumas das razões pelas quais alguns são menos iguais do que outros aos olhos daqueles que pregam a palavra de Deus. Lembrei-me de quando Maria Bethânia disse que deixou de frequentar a igreja porque queria acreditar num Deus redentor e compreensivo, um Deus que acolhe, ama e perdoa e não um Deus que recusa e castiga.

7 de dezembro de 2005

DERBY

Pelo meio-dia, o Colombo já fervilhava de adeptos de camisola e cachecol benfiquista. Pela uma da tarde, o metro no Marquês de Pombal ouve um cântico do Manchester United a caminho do estádio da Luz.

6 de dezembro de 2005

EQUILIBRIOS

Uma das coisas que mais me agrada quando ouço música é o facto de um disco nunca me soar igual consoante eu o ouça no CD da sala, no CD do escritório, no discman, no MP3 ou no computador. Isto parece uma verdade de La Palisse ou uma qualquer palermice, mas é absolutamente fascinante perceber como todos eles revelam frequências diferentes, sublinham pontos diferentes da mistura no jogo da equalização e do equilíbrio acústico — às vezes basta apenas ajustar o auscultador para o som ganhar outro corpo. Cada vez mais me convenço que, na realidade, nunca ouvimos o mesmo disco da mesma maneira.

5 de dezembro de 2005

RELATIVO

Martin Gore está a falar dos Depeche Mode (acho eu), mas podia estar a falar de muita gente que eu conheço. Até mesmo da minha família.

precious and fragile things
need special handling
my God what have we done to you
we always tried to share
the tenderest of care
now look what we have put you through

things get damaged
things get broken
I thought we'd manage
but words left unspoken
left us so brittle
there was so little
left to give.


— Depeche Mode, "Precious", in "Playing the Angel" (Mute/EMI, 2005)

3 de dezembro de 2005

O ALGODAO NAO ENGANA

De vez em quando, dá-me para as limpezas — esta tarde, foi a vez do tampo da cómoda do quarto, que estava um caos. Um saco de plástico recebeu uma série de medicamentos fora de prazo (desde anti-alérgicos a Ultra Levur 250). Outro recebeu: embalagens vazias de amostras de perfumes, bilhetes de metro antigos, etiquetas de preço de roupa, clips plásticos de camisas, uma lata de desodorizante vazia, uma esponja de limpar sapatos inutilizada, entre outras coisas. Esta limpeza permitiu-me igualmente reencontrar o passaporte que eu pensava que já não tinha e a chave sobresselente da mala de viagem, perceber que tenho uma boa meia-dúzia de relógios Swatch que já passaram a fase do conserto e outros tantos que ainda estão aí para as curvas e instalar um pequeno pratinho com um pot-pourri do IKEA para dar algum ambiente ao quarto. Acabou-se-me o Polo Sport e o Boss In Motion está a acabar, mas, fora isso, é espantoso como o tampo da cómoda — reduzido aos perfumes e desodorizante, relógios, medicamentos de uso mais regular, utensílios de engraxe de sapatos e lenços de papel — de repente parece vazio. Há quanto tempo mesmo é que eu não o limpava?

1 de dezembro de 2005

WORLD AIDS DAY

Segundo os dados citados hoje pelo Público, apenas 10% dos portugueses infectados com o vírus do HIV o contrairam por relação homossexual, contra 64% por relação heterossexual. Pareceu-me importante sublinhar isto — é mais uma acha para a fogueira da irresponsabilidade nacional.

30 de novembro de 2005

PORTUGAL E ASSIM

Ouve-se os políticos discutir na Assembleia da República o Orçamento de Estado e parece que Portugal está à beira do fim: acusam-se demagogica e mutuamente de irresponsabilidade, de arrastar o país para a pobreza, etc, etc, etc. Mas quem fosse hoje à Fnac Chiado pensaria que os políticos têm de estar a falar de outro país que não Portugal, porque às 10h30 havia já uma visível fila de consumidores prontos a separar-se do seu dinheiro que tanto custou a ganhar para aproveitar os descontos feitos hoje aos possuidores de cartão Fnac. Uma senhora em particular transportava nos braços um imenso número de CDs graváveis, uma outra teclados e ratos ópticos.

Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.

28 de novembro de 2005

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZAO

A TVCabo está desde há largas semanas a realizar uma campanha bastante agressiva de adesão ao serviço Netcabo que já me apanhou duas ou três vezes ao telefone. Sábado à tarde, toca-me a campainha o vendedor da Netcabo, um rapaz dos seus 20 e poucos anos impecável de fato e gravata (no mínimo estranho, em pleno dilúvio), a tentar convencer-me a aderir ao serviço. Até aqui tudo bem; sei que os mocinhos são treinados para serem educados e tentarem dar a volta a clientes mal-humorados, mas o ar sublimemente bovino com que o rapaz continuava a insistir em convencer-me (sem nunca sequer mencionar o plano de preços proposto mas falando da campanha de adesão que oferecia a viagem), depois de eu lhe ter dado a entender repetidas vezes que estava extremamente descontente com o serviço a clientes da TVCabo e que estava muito satisfeito com o meu serviço internet e não queria mudar, é algo de antologia. O rapaz simplesmente não me estava a querer ouvir. Podia ser eu ou outra pessoa mais bem disposta, estou certo que não faria a mínima diferença; ele não estava a ouvir. Tive quase de lhe fechar a porta na cara para o mandar embora.

27 de novembro de 2005

ARCO-IRIS NA VIA RAPIDA

Entre as chuvadas de sábado e o sol e céu azul luminoso a aparecer por trás das nuvens escuras, dois arco-íris perfeitos desenham um arco de cores por sobre a Segunda Circular; um mais difuso e apagado, o outro intenso e forte, a refracção a acabar em plena linha do comboio enquanto uma carruagem passa.

POLAROID: MODELO BONJOUR

Sempre que há uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, o supermercado de bairro onde me costumo abastecer tem sempre representantes da campanha a entregar sacos à entrada. Hoje, com o supermercado bastante mais cheio do que é habitual aos domingos (mesmo contando que é fim do mês), quatro representantes da campanha, com as sweat-shirts brancas e sacos de plástico na mão, estão a afunilar a entrada da loja; um é um senhor dos seus 40 anos, os outros três adolescentes altos e magros que conversam uns com os outros e, pelo menos a mim, não me dão saco absolutamente nenhum. Nas minhas compras, coloco de qualquer maneira no carrinho alguns artigos para deixar à saída.

Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".

À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"

25 de novembro de 2005

TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO

Chegou aquela altura tenebrosa do ano em que os sistemas de som dos centros comerciais começam a tocar em alta rotação "A Todos um Bom Natal" pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras. Tremam.

24 de novembro de 2005

ORA AQUI ESTA ALGUEM QUE SABE O QUE DIZ

"Os políticos portugueses (...) organizam mal a sua vida e os seus tempos. As reuniões são muito demoradas. Admiro muito mais os anglo-saxónicos, que fazem reuniões mais rápidas, discursos muito mais densos, breves e incisivos. Aqui, há colóquios a mais e decisões a menos."

Manuel Alegre, em entrevista hoje ao Público.

O que ele não diz é que não é um exclusivo dos políticos.

23 de novembro de 2005

HUNG UP

Só mesmo Madonna seria capaz de reconverter os Abba num monstro disco-sound capaz de transformar qualquer walkman roufenho numa discoteca ambulante. Ela sabe-a toda.

SAIAM DA FRENTE

Saio do comboio na estação do Marquês de Pombal, vindo do Rato, e tenho de dar um violento encontrão para conseguir sair. As pessoas não saem da frente nem por mais uma.

22 de novembro de 2005

POR ONDE ANDA O CHERNE?

A melhor resposta que já encontrei está no artigo que reproduzo em baixo da edição desta semana do Economist.

Whipping the commission into shape
Nov 17th 2005
From The Economist print edition


The beleaguered president of the European Commission


JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Jacques Chirac told him to keep out of the European Union constitutional debate because he was so unpopular in France. Before he took office a year ago, the European Parliament made him reshuffle his commission. A recent cover of a Brussels magazine shows him measuring himself against a wall, and falling far short of the mark set by a noted predecessor, Jacques Delors.

There are two theories over why, as the magazine concludes, “Barroso is no Jacques Delors”. One is that it is his own fault. He sucks up to critics (latest example: offering France EU money for riot-torn areas). He has failed to stop commissioners squabbling (an old-fashioned turf war has broken out between the competition and enterprise chiefs). The second theory blames the circumstances. The defeat of the constitution, the euro area's economic troubles, digestion of ten new members; even the sainted Mr Delors would not have risen above such things. Moreover, Mr Barroso was not the first choice of any big country; he was merely the first whom nobody was ready to veto. Without strong support from at least one big country, and preferably two or three, no commission president has much authority.

But does that mean that Mr Barroso is a failure? Next week he will have been in office for exactly a year, time enough for a preliminary judgment. He has not presented much that is radically new. Instead, he has tried to make the commission more modest, more responsive and more business-like. He wants to enforce existing laws, not to make new ones. There will be fewer flights of fancy. So the proper questions are: has he achieved his aims? And are they the right ones?

Mr Barroso has cut a few metres of red tape (the “bonfire of the directives”, as he called it, is more of a fizzle than a blaze). He has introduced some anti-fraud measures and turned down, though not off, the gusher of new laws. But it is too soon to say if he has been successful. Rather, he has prepared the ground, notably by putting allies into the key jobs. When he took over, Mr Barroso palmed off the French commissioner with the second-level portfolio of transport. He refused demands to give the German an over-arching economics portfolio. And he handed two of the three portfolios in which the commission has the greatest power—trade and the single market—to the British and Irish commissioners (ie, to free-market liberals).

Last week, Mr Barroso completed his appointments by reshuffling the commission's top civil servants (who have sometimes been more powerful than their nominal bosses). The reshuffle has been widely portrayed as a fresh Anglo-Saxon triumph, because a liberal Irishwoman, Catherine Day, got the top job of secretary-general, and a French survivor of the Delors era, François Lamoureux, was sidelined. In fact, the ideological balance within the commission may not change all that much (another Frenchman takes over agriculture and an Austrian trade unionist becomes director-general for enterprise and industry). It should also be conceded that Mr Barroso has not managed to generate much enthusiasm among interest groups, notably big business, that ought to be his natural supporters. But he has at least imposed some authority over the commission.

The more important question is whether he has the right aims. He probably does, if only because any others might have made the EU's identity crisis even worse. Mr Barroso really wants to make the commission more like the EU's civil service. Under Mr Delors, it was more of a super member-state, the one that (in theory) looked after the interests of Europe as a whole. The commission has always been the policy initiator of European integration, but the French and Dutch referendums in the spring have called a halt to that entire process.

The political alliances that underpinned the commission's old role of driver of integration have also changed. Mr Delors depended not only on a close Franco-German alliance, but also on the self-confidence of these countries, which are both now in a defensive funk. In so far as Mr Barroso has a sponsor among the big countries, it is Britain. But Tony Blair has not provided his ally with anything like the support that François Mitterrand and Helmut Kohl gave to Mr Delors.

His modest aims will also prove right if he can sort out the mess that, a decade on, still haunts the EU bureaucracy. In pursuit of ever closer union, Mr Delors and his staff set up ad hoc groups, bypassed chains of command and outsourced tasks to whoever could get them done. The result was lack of control, no accountability—and corruption. The problems remain. The Court of Auditors has just refused to give the EU's accounts its approval, for the 11th year in a row. In one sense, Mr Barroso is still trying to rein in a bureaucracy that got out of control.

In the Berlaymont's bowels

Yet he may find that simple-sounding task quite a challenge. Deep within the Berlaymont building, Eurocrats' reflexes remain what they always were: Franco-German. Many in the commission believe that their power stems from that alliance. Without it, they feel stranded. The battle between Mr Barroso and the Eurocrats may be just beginning. The very notion that the commission can turn into a model bureaucracy may be implausible. Brussels has been a byword for inefficiency and inertia for far too long. It will take a miracle, not a single presidency, to change that image, even if Mr Barroso's broader agenda succeeds.

And because of that, it is far from certain that Mr Barroso will have enough time to solve the commission's biggest problem: its lack of legitimacy. Ironically, the Delors commission was seen as a success even though its performance may have undermined its successors. The danger for Mr Barroso is that he will be seen as unsuccessful, even if his commission lays the foundation of greater legitimacy for those still to come.

LISBOA EM LONDRES

Na carruagem de metro da Northern Line que me leva de Charing Cross Road até Euston, dou por mim a olhar para o casal jovem sentado à minha frente, com uma caixa de transporte de animais no banco ao lado. O saco de plástico que ela tem entre os pés tem os dizeres "Pastelaria Lisboa", e ele mordisca distraidamente um pãozinho de leite português.

20 de novembro de 2005

POLAROID: HAMMERSMITH

São seis e meia da tarde e espero um táxi na praça à saída da estação de Hammersmith. É já noite escura, está muito trânsito, há ainda algumas pessoas à minha frente; a trintona imediatamente à minha frente tem ar de executiva apressada, esperando pacientemente que chegue a sua vez no frio cortante. Um homem, mais alto, aproxima-se dela arrastando uma pequena mala de viagem com rodas, com uma etiqueta de bagagem de porão; conversam um pouco, ele em inglês com evidente sotaque francês. Viro-me para ver se se aproxima algum táxi no meio do trânsito intenso; quando volto, a senhora está de novo sozinha, mas uma mala está ali, em pleno passeio, um pouco afastada. A fila de táxis avança, mas a mala fica no mesmo lugar. Pergunto à senhora à minha frente, "desculpe-me, a mala é sua?". Ela responde-me: "porquê? Tem medo que seja uma bomba?" Não consigo perceber se está a ser irónica ou apenas mal-educada. "Não, só que a mala não estava ali agora mesmo." "É desta senhora à minha frente", diz, apontando para uma jovem inglesa típica, alta e anafada, com três crianças pela mão enquanto desabafa ao telemóvel com alguém conhecido por ter de apanhar um táxi neste trânsito logo a seguir a o carro ter ido abaixo e não ter a certeza de ter de ficar com o carro enquanto a assistência não chegar. A conversa fica por aqui. Pouco depois, o senhor do sotaque francês volta, pega na mala, que tem a etiqueta de bagagem de porão em que tinha reparado pouco antes, e continua a conversar com a executiva apressada como se nada fosse.

19 de novembro de 2005

PEQUENAS IRONIAS ZEN

Porque é que em Lisboa é que tem estado tempo de Londres, com chuva e capacete, quando em Londres tem estado tempo de Lisboa, luminoso e frio?