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30 de novembro de 2005

PORTUGAL E ASSIM

Ouve-se os políticos discutir na Assembleia da República o Orçamento de Estado e parece que Portugal está à beira do fim: acusam-se demagogica e mutuamente de irresponsabilidade, de arrastar o país para a pobreza, etc, etc, etc. Mas quem fosse hoje à Fnac Chiado pensaria que os políticos têm de estar a falar de outro país que não Portugal, porque às 10h30 havia já uma visível fila de consumidores prontos a separar-se do seu dinheiro que tanto custou a ganhar para aproveitar os descontos feitos hoje aos possuidores de cartão Fnac. Uma senhora em particular transportava nos braços um imenso número de CDs graváveis, uma outra teclados e ratos ópticos.

Enquanto na Assembleia e nos tempos de antena os partidos predizem horrores económicos, os portugueses marimbam-se realissimamente nos apocalipses demagógicas dos políticos e gastam como se tudo estivesse bem no melhor dos mundos. É legítimo perguntar exactamente quem é que tem mais razão.

28 de novembro de 2005

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZAO

A TVCabo está desde há largas semanas a realizar uma campanha bastante agressiva de adesão ao serviço Netcabo que já me apanhou duas ou três vezes ao telefone. Sábado à tarde, toca-me a campainha o vendedor da Netcabo, um rapaz dos seus 20 e poucos anos impecável de fato e gravata (no mínimo estranho, em pleno dilúvio), a tentar convencer-me a aderir ao serviço. Até aqui tudo bem; sei que os mocinhos são treinados para serem educados e tentarem dar a volta a clientes mal-humorados, mas o ar sublimemente bovino com que o rapaz continuava a insistir em convencer-me (sem nunca sequer mencionar o plano de preços proposto mas falando da campanha de adesão que oferecia a viagem), depois de eu lhe ter dado a entender repetidas vezes que estava extremamente descontente com o serviço a clientes da TVCabo e que estava muito satisfeito com o meu serviço internet e não queria mudar, é algo de antologia. O rapaz simplesmente não me estava a querer ouvir. Podia ser eu ou outra pessoa mais bem disposta, estou certo que não faria a mínima diferença; ele não estava a ouvir. Tive quase de lhe fechar a porta na cara para o mandar embora.

27 de novembro de 2005

ARCO-IRIS NA VIA RAPIDA

Entre as chuvadas de sábado e o sol e céu azul luminoso a aparecer por trás das nuvens escuras, dois arco-íris perfeitos desenham um arco de cores por sobre a Segunda Circular; um mais difuso e apagado, o outro intenso e forte, a refracção a acabar em plena linha do comboio enquanto uma carruagem passa.

POLAROID: MODELO BONJOUR

Sempre que há uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, o supermercado de bairro onde me costumo abastecer tem sempre representantes da campanha a entregar sacos à entrada. Hoje, com o supermercado bastante mais cheio do que é habitual aos domingos (mesmo contando que é fim do mês), quatro representantes da campanha, com as sweat-shirts brancas e sacos de plástico na mão, estão a afunilar a entrada da loja; um é um senhor dos seus 40 anos, os outros três adolescentes altos e magros que conversam uns com os outros e, pelo menos a mim, não me dão saco absolutamente nenhum. Nas minhas compras, coloco de qualquer maneira no carrinho alguns artigos para deixar à saída.

Quando estou a pagar as minhas compras, uma senhora dos seus 50 anos, com aquele aspecto inconfundível de beata lisboeta, mostra à carrancuda empregada da caixa o saco do Banco Alimentar e pergunta-lhe se pode ir entregar aos senhores, ao que a empregada responde, "tem de pagar primeiro". "Ah, tem razão, onde tinha eu a cabeça?", diz a senhora com um sorriso. "Se fosse assim não era preciso eles pedirem," responde a empregada, "bastava virem servir-se".

À saída, deixo o meu contributo no carrinho de supermercado da campanha, e enquanto levanto dinheiro no Multibanco ouço os três rapazes a conversar. "Onde é que vais almoçar?"

25 de novembro de 2005

TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO

Chegou aquela altura tenebrosa do ano em que os sistemas de som dos centros comerciais começam a tocar em alta rotação "A Todos um Bom Natal" pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras. Tremam.

24 de novembro de 2005

ORA AQUI ESTA ALGUEM QUE SABE O QUE DIZ

"Os políticos portugueses (...) organizam mal a sua vida e os seus tempos. As reuniões são muito demoradas. Admiro muito mais os anglo-saxónicos, que fazem reuniões mais rápidas, discursos muito mais densos, breves e incisivos. Aqui, há colóquios a mais e decisões a menos."

Manuel Alegre, em entrevista hoje ao Público.

O que ele não diz é que não é um exclusivo dos políticos.

23 de novembro de 2005

HUNG UP

Só mesmo Madonna seria capaz de reconverter os Abba num monstro disco-sound capaz de transformar qualquer walkman roufenho numa discoteca ambulante. Ela sabe-a toda.

SAIAM DA FRENTE

Saio do comboio na estação do Marquês de Pombal, vindo do Rato, e tenho de dar um violento encontrão para conseguir sair. As pessoas não saem da frente nem por mais uma.

22 de novembro de 2005

POR ONDE ANDA O CHERNE?

A melhor resposta que já encontrei está no artigo que reproduzo em baixo da edição desta semana do Economist.

Whipping the commission into shape
Nov 17th 2005
From The Economist print edition


The beleaguered president of the European Commission


JOSÉ MANUEL BARROSO, president of the European Commission, is Europe's whipping boy du jour. Jacques Chirac told him to keep out of the European Union constitutional debate because he was so unpopular in France. Before he took office a year ago, the European Parliament made him reshuffle his commission. A recent cover of a Brussels magazine shows him measuring himself against a wall, and falling far short of the mark set by a noted predecessor, Jacques Delors.

There are two theories over why, as the magazine concludes, “Barroso is no Jacques Delors”. One is that it is his own fault. He sucks up to critics (latest example: offering France EU money for riot-torn areas). He has failed to stop commissioners squabbling (an old-fashioned turf war has broken out between the competition and enterprise chiefs). The second theory blames the circumstances. The defeat of the constitution, the euro area's economic troubles, digestion of ten new members; even the sainted Mr Delors would not have risen above such things. Moreover, Mr Barroso was not the first choice of any big country; he was merely the first whom nobody was ready to veto. Without strong support from at least one big country, and preferably two or three, no commission president has much authority.

But does that mean that Mr Barroso is a failure? Next week he will have been in office for exactly a year, time enough for a preliminary judgment. He has not presented much that is radically new. Instead, he has tried to make the commission more modest, more responsive and more business-like. He wants to enforce existing laws, not to make new ones. There will be fewer flights of fancy. So the proper questions are: has he achieved his aims? And are they the right ones?

Mr Barroso has cut a few metres of red tape (the “bonfire of the directives”, as he called it, is more of a fizzle than a blaze). He has introduced some anti-fraud measures and turned down, though not off, the gusher of new laws. But it is too soon to say if he has been successful. Rather, he has prepared the ground, notably by putting allies into the key jobs. When he took over, Mr Barroso palmed off the French commissioner with the second-level portfolio of transport. He refused demands to give the German an over-arching economics portfolio. And he handed two of the three portfolios in which the commission has the greatest power—trade and the single market—to the British and Irish commissioners (ie, to free-market liberals).

Last week, Mr Barroso completed his appointments by reshuffling the commission's top civil servants (who have sometimes been more powerful than their nominal bosses). The reshuffle has been widely portrayed as a fresh Anglo-Saxon triumph, because a liberal Irishwoman, Catherine Day, got the top job of secretary-general, and a French survivor of the Delors era, François Lamoureux, was sidelined. In fact, the ideological balance within the commission may not change all that much (another Frenchman takes over agriculture and an Austrian trade unionist becomes director-general for enterprise and industry). It should also be conceded that Mr Barroso has not managed to generate much enthusiasm among interest groups, notably big business, that ought to be his natural supporters. But he has at least imposed some authority over the commission.

The more important question is whether he has the right aims. He probably does, if only because any others might have made the EU's identity crisis even worse. Mr Barroso really wants to make the commission more like the EU's civil service. Under Mr Delors, it was more of a super member-state, the one that (in theory) looked after the interests of Europe as a whole. The commission has always been the policy initiator of European integration, but the French and Dutch referendums in the spring have called a halt to that entire process.

The political alliances that underpinned the commission's old role of driver of integration have also changed. Mr Delors depended not only on a close Franco-German alliance, but also on the self-confidence of these countries, which are both now in a defensive funk. In so far as Mr Barroso has a sponsor among the big countries, it is Britain. But Tony Blair has not provided his ally with anything like the support that François Mitterrand and Helmut Kohl gave to Mr Delors.

His modest aims will also prove right if he can sort out the mess that, a decade on, still haunts the EU bureaucracy. In pursuit of ever closer union, Mr Delors and his staff set up ad hoc groups, bypassed chains of command and outsourced tasks to whoever could get them done. The result was lack of control, no accountability—and corruption. The problems remain. The Court of Auditors has just refused to give the EU's accounts its approval, for the 11th year in a row. In one sense, Mr Barroso is still trying to rein in a bureaucracy that got out of control.

In the Berlaymont's bowels

Yet he may find that simple-sounding task quite a challenge. Deep within the Berlaymont building, Eurocrats' reflexes remain what they always were: Franco-German. Many in the commission believe that their power stems from that alliance. Without it, they feel stranded. The battle between Mr Barroso and the Eurocrats may be just beginning. The very notion that the commission can turn into a model bureaucracy may be implausible. Brussels has been a byword for inefficiency and inertia for far too long. It will take a miracle, not a single presidency, to change that image, even if Mr Barroso's broader agenda succeeds.

And because of that, it is far from certain that Mr Barroso will have enough time to solve the commission's biggest problem: its lack of legitimacy. Ironically, the Delors commission was seen as a success even though its performance may have undermined its successors. The danger for Mr Barroso is that he will be seen as unsuccessful, even if his commission lays the foundation of greater legitimacy for those still to come.

LISBOA EM LONDRES

Na carruagem de metro da Northern Line que me leva de Charing Cross Road até Euston, dou por mim a olhar para o casal jovem sentado à minha frente, com uma caixa de transporte de animais no banco ao lado. O saco de plástico que ela tem entre os pés tem os dizeres "Pastelaria Lisboa", e ele mordisca distraidamente um pãozinho de leite português.

20 de novembro de 2005

POLAROID: HAMMERSMITH

São seis e meia da tarde e espero um táxi na praça à saída da estação de Hammersmith. É já noite escura, está muito trânsito, há ainda algumas pessoas à minha frente; a trintona imediatamente à minha frente tem ar de executiva apressada, esperando pacientemente que chegue a sua vez no frio cortante. Um homem, mais alto, aproxima-se dela arrastando uma pequena mala de viagem com rodas, com uma etiqueta de bagagem de porão; conversam um pouco, ele em inglês com evidente sotaque francês. Viro-me para ver se se aproxima algum táxi no meio do trânsito intenso; quando volto, a senhora está de novo sozinha, mas uma mala está ali, em pleno passeio, um pouco afastada. A fila de táxis avança, mas a mala fica no mesmo lugar. Pergunto à senhora à minha frente, "desculpe-me, a mala é sua?". Ela responde-me: "porquê? Tem medo que seja uma bomba?" Não consigo perceber se está a ser irónica ou apenas mal-educada. "Não, só que a mala não estava ali agora mesmo." "É desta senhora à minha frente", diz, apontando para uma jovem inglesa típica, alta e anafada, com três crianças pela mão enquanto desabafa ao telemóvel com alguém conhecido por ter de apanhar um táxi neste trânsito logo a seguir a o carro ter ido abaixo e não ter a certeza de ter de ficar com o carro enquanto a assistência não chegar. A conversa fica por aqui. Pouco depois, o senhor do sotaque francês volta, pega na mala, que tem a etiqueta de bagagem de porão em que tinha reparado pouco antes, e continua a conversar com a executiva apressada como se nada fosse.

19 de novembro de 2005

PEQUENAS IRONIAS ZEN

Porque é que em Lisboa é que tem estado tempo de Londres, com chuva e capacete, quando em Londres tem estado tempo de Lisboa, luminoso e frio?

18 de novembro de 2005

POLAROID: PICCADILLY CIRCUS

Janto com a Ana, em Londres para a Feira de Turismo. Depois, atravessamos Regent Street. No meio de Piccadilly Circus, enquanto esperamos pelo sinal, a Ana decide tirar-me uma fotografia debaixo das luzes de Natal com as personagens de "A Idade do Gelo" e pede-me que lhe tire uma a ela. Enquanto tento acertar com a focagem da digital, um londrino que passa atira-me "And then you're going to want me to take one of you two together, right?" Rimo-nos.

17 de novembro de 2005

TELEGRAMA

Londres fria e solarenga e dispendiosa STOP Computadores sem acentos STOP Hoteis continuam acanhados e escuros e centrais STOP Luzes de Natal por todo o lado STOP

14 de novembro de 2005

LYME REGIS

Em Carcavelos, frente ao hotel Praia-Mar, o pontão da praia é uma língua de betão cinzento que se expõe ao mar revolto que parece agredi-lo com violentas muralhas de espuma branca. Um pouco mais à frente, as ondas batem contra a muralha de pedra branca e as suas pontas mais altas ultrapassam o pequeno parapeito para se abaterem numa pequena zona do passeio da Marginal, encharcando a calçada portuguesa e parte do asfalto da estrada, enquanto os declives de rocha nua se parecem cobrir de espuma de cerveja, branca e gordurosa.

13 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Numa passagem de peões, uma idosa com um saco de supermercado nas mãos aguarda que um carro passe para atravessar. O carro passa devagarinho, incerto se pare ou não, visto que a senhora não se mexe e não dá indicação nenhuma se está a querer atravessar ou à espera de boleia ou de um táxi, mas não pára. Assim que passa, a senhora grita "nem parem! onde é que isto já se viu, nem parem!"

12 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

No metro entre o Rato e o Marquês de Pombal, uma senhora de meia-idade que o cachecol colorido identifica como dirigindo-se para a procissão conversa com a senhora sentada à sua frente como se estivesse em casa em frente ao televisor, criticando "eles" (políticos? edis? funcionários públicos?) naquele tom "a-mim-ninguém-me-engana" que os portugueses tanto gostam de usar.

No noticiário da RTP-1, uns quantos candidatos à Presidência da República passam a vida a comentar as campanhas e as posturas dos outros candidatos em vez de avançarem propostas realmente interessantes para justificarem a sua eleição para lá do seu percurso "que fala por si".

Enquanto isso, Lisboa pára para uma procissão onde coexistem a verdadeira fé (pessoal, privada, intransmissível) e o exibicionismo quase bairrista de uma fé que se apregoa aos sete ventos.

11 de novembro de 2005

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Na reportagem do noticiário da noite da RTP-1 sobre o julgamento de Leonor e João Cipriano, mostrava-se que a família dos réus tinha ficado à porta porque os lugares na sala estavam já todos ocupados por "mirones" que fizeram fila à porta do tribunal de Portimão três horas antes da abertura das portas. E, à saída da sala de audiências, as espectadoras (com todo o aspecto de domésticas e donas-de-casa provincianas, cabelo grisalho apanhado, óculos de beata, casaquinhos de lã) debatiam animadamente entre si a sentença, enquanto, cá fora, uma pequena multidão gritava compassadamente "assassina! assassina!" como quem entoa um cântico de futebol.

9 de novembro de 2005

OS PAIS E A TECNOLOGIA

A minha mãe recebeu de prenda de anos um telefone sem fios para ter na linha fixa, oferecido pelo meu irmão. Hoje à tarde, quando ligo para casa dos meus pais, atendem-me o telefone, mas ignoram completamente a minha voz a chamá-los enquanto discutem um com o outro sobre se o telefone está ou não ligado. Desligo a chamada, cinco minutos depois volto a tentar e, claro, o telefone está impedido.

E assim continuou durante quase quatro horas, até eu receber uma chamada da minha mãe a mandar vir por eu não ter telefonado.

OUTONO

Atravesso a avenida da Liberdade pelo meio de uma vaga de folhas amareladas caídas das árvores, empurradas pelo vento num semicírculo perfeito. O tempo arrefeceu depressa.

7 de novembro de 2005

ATAVISMOS

Um governo que vai alternando entre dois partidos que acabam por não ser mais do que duas faces de uma única moeda; um povo que deixa de ter confiança nos políticos mas não se decide a pô-los fora; uma classe política que se perde em retóricas parlamentares do protesto quando não é a sua vez de estar no governo ou que faz gala de ser do contra porque sabe que nunca lá chegará.

Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

Nem na rasteirice conseguimos ser originais.

6 de novembro de 2005

ALGUMAS PESSOAS NAO FORAM FEITAS PARA TEREM FILHOS

Mãe tardia ou avó precoce? O rosto de quarentona tardia maquilhada, de cabelo pintado em permanente modernaça não engana quanto à idade, o tom de voz enrouquecida também não; o casaco cintado em falso leopardo, as calças de ganga beges, os sapatos pontiagudos de salto grosso contrastam com a T-shirt branca e as calças de ganga do miúdo com menos de dez anos que a acompanha e faz momices, correndo pelo restaurante, rebolando-se no banco, ajoelhando-se ao pé da mala da mãe, passando o máximo de tempo a cansar-se procurando em vão chamar a atenção da mãe. Mas esta, agarrada ao telemóvel onde troca mensagens por sms ou a atender ou a fazer chamadas, limita-se a ir dizendo numa voz muito maternal e colocada "ó João, venha cá e sente-se já à mesa", ou variações sobre esse tema, com o ar enfadado de quem não sabe para que serve um filho, ignorando completamente que a criança apenas está a pedir-lhe "olha para mim".

A METAFISICA DA RESSACA

Detesto tanto acordar ressacado (ou, pior ainda, acordar a meio da noite com uma necessidade irreprimível de chamar o Gregório, figura que me desagrada profundamente) e passar o dia seguinte em modo zombie que me controlo violentamente com a bebida. E, quando não me controlo, arrependo-me de tal maneira que juro para nunca mais.

4 de novembro de 2005

POLAROID: PEQUENO ALMOÇO

À mesa do pequeno almoço no café do costume, tenho na mesa ao lado um grupo de idosas que não fala apenas para si mas para toda a sala, falando das "doenças da visícula" enquanto admiram uma colcha com bordado de frutas.

2 de novembro de 2005

MTV EUROPE MUSIC AWARDS LISBOA 2005

Alguém me explica porque é que ando a ver há vários dias peças enormes nos noticiários televisivos sobre os prémios da MTV em Lisboa, com o tipo de destaque que habitualmente se dá a uma importante notícia social ou política? E porque é que são habitualmente peças deslumbradas em que se perguntam a estrelas pop internacionais com ar enfadado o que é que elas gostam em Portugal? E porque é que anda tudo tão histérico com estarem cá a Shakira e os Coldplay e a Madonna e o Robbie Williams quando eles já cá vieram todos tocar?

E AGORA, A VOSSA ATENÇAO

O serviço normal será retomado já em seguida. Obrigado pela atenção.

Proximizade

Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.

1 de novembro de 2005

SMS POR TELEVISAO INTERPOSTA

Mensagem vista na "barra" em movimento num dos programas de tarde da RTP-1, não me recordo agora do nome: "Se vires esta mensagem vai hoje a casa do tio. É urgente"

31 de outubro de 2005

O POVO E QUEM MAIS ORDENA

Ouvido esta tarde em frente à sede da candidatura do dr. Mário Soares à Presidência da República, nos Restauradores, pela voz de um cavalheiro que não deve ser muito mais novo que ele: "Esse Soares devia era estar num asilo, é que ele devia."

29 de outubro de 2005

MOMENTO ZEN

Um gato preto enroscado em cima do capot de um Volkswagen Golf bordeaux fita-me com os seus olhos verdes quando passo por ele.

FORA DE CONTROLE

Acho bem que se tenha alarme no carro. Já não acho tanta graça — eu e o resto da vizinhança, parece-me — quando os alarmes parecem disparar de livre e espontânea vontade, geralmente a horas muito pouco apropriadas, do género duas da manhã de um dia de semana ou nove da manhã de um fim-de-semana. Nos últimos dias, na minha rua, há um que tem disparado regularmente — e é particularmente irritante, porque dispara uma buzina metronómica durante alguns minutos que pára precisamente quando está a começar a ser um irritante sério... para recomeçar algum tempo depois durante mais alguns minutos.

27 de outubro de 2005

ELIZABETHTOWN

Já estava a desesperar de ver um grande filme (não-animado, entenda-se) nestes últimos meses. Foi hoje. Imperfeito, inacabado, descontrolado — e apenas maior por causa disso. Elizabethtown, de Cameron Crowe, é como a vida: não está, nunca, onde estamos à espera dele. Estreia a 10 de Novembro.

POLAROID: METRO

Na estação do Rato, estão a arranjar as escadas rolantes. Mas, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento desce em vez de subir, obrigando as pessoas a subir a pé o longuíssimo lanço de escadas. Um senhor levanta a questão ao técnico que está a reparar a escada, mas recebe apenas um abanar de cabeça com os braços abertos, como quem diz "tem razão, mas eu não posso fazer nada". Como para ilustrar o problema, chega um casal idoso que se vê forçado a subir a escada — o senhor é cego.

Mais à frente, um jovem não consegue que o seu cartão magnético abra a cancela de entrada. Quando, à terceira tentativa, o consegue, dá um murro no mecanismo enquanto entra.

Quando regresso, algumas horas depois, continuam a arranjar as escadas rolantes. E, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento continua a ser a que desce.

25 de outubro de 2005

MOMENTO

Sentado num banco, numa das centrais da Avenida da Liberdade, faço tempo para uma projecção. Princípio de tarde. Temperatura amena. Brisa leve. Folhas que caem lentamente das árvores onde bolas prateadas estão suspensas . Gente e trânsito que atravessa a rua. O mundo pára, por cinco minutos.

This chord
This water
This son
This daughter
This day
This time
This land
It's all mine

This Calling Bell
This Forge Bell
This Dark Bell
This The Knife Bell
This calling
This burden
This falling
The world's turning

This What I thought I knew
This What I thought was true
This I understood
This In the deep wood
This Ah there I stood a child so fair
This On a certain square
This Down the dirty stairs
This To see the table set
This With golden chairs
This Ah to follow, follow, follow, follow there

This race
And this world
This feeling
And this girl
This revolver
This fire
This I'll hold it up higher, higher, high


— Brian Eno, "This", in "Another Day on Earth" (Hannibal, 2005)

24 de outubro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #35

Ter que programar os canais manualmente no televisor porque a busca automática programa tudo nos números errados.

23 de outubro de 2005

NAO OLHES PARA TRAS (#1000)

Há canções que só o tempo desvenda.

when you're nothing to no one
and you're less than your kin
and you're looking for someone
who won't cling to anything

so you're stuck in some motel
with the sound of her sleeping
don't you feel kind of old now?
well, ain't that a funny thing

I used to wake up early
I used to try to believe
but life seems never ending
when you're young

so you're back on the highway
and there's wind in her hair
and you know that it's no time for thinking
about somebody up there

because you'll turn her to drinking
and you'll lead her to hell
with her Bible beside her
she surely looks like an angel

I used to wake up early
I used to try to believe
but faith is never easy
when you're young

I used to wake up early
now it's hard, hard enough to sleep
but life seems never ending
when you're young.


— Lloyd Cole, "Don't Look Back", in "Lloyd Cole" (Polydor, 1990)

22 de outubro de 2005

LAR DOCE LAR

É tudo muito bonito andar para aí a elogiar a santidade da família, a importância dos laços de sangue e todas essas coisas, mas há uma coisa de que toda a gente se esquece — é que a família não conhece apenas os nossos lados bons, mas também os nossos lados maus. E nunca perde uma oportunidade de no-lo recordar — o que, convenha-se, nem sempre é do melhor tom.

21 de outubro de 2005

O ESTADO DAS COISAS

De um lado, uma mulher que desaparece de livre vontade em busca de qualquer coisa. Do outro, um casal que contempla o suicídio colectivo como única solução para o sobre-endividamento. Cada um que tire as suas conclusões.

19 de outubro de 2005

O JARDIM SECRETO

Apetece lá voltar, sempre que as pessoas são complicadas. E não há, de todo, motivo para que o sejam — a não ser porque o querem.

(Sim, também vale para mim.)

18 de outubro de 2005

AQUI E AGORA

Esta canção desculpa tudo o que de menos bom Cassandra Wilson fez na vida. (E desculpem qualquer coisinha se já vo-la tiver vendido algures nos quase dois anos que este blog já leva.)

did you ever love somebody?
did you ever really care?
did you ever need somebody
just to rub your hair
all the energy we spend on motion
all the circuitry and time
is there any way to feel a body
through fiber optic lines?

everybody's going through the motions
got their heads up or down
no one seems to want to see the other person's eyes
reflect the world go 'round

everybody seems to want to get away to some place
get away from themselves
I got a feeling if they found that some place
they'll want to go some place else

do we really want to go to Mars?
do we ever really want to try?
I got a funny feeling if we get up there
we're gonna stop and wonder why

don't you want to be right here
right now?


— Cassandra Wilson, "Right Here, Right Now" (Cassandra Wilson/Marvin Sewell) in "Traveling Miles" (Blue Note, 1999)

16 de outubro de 2005

OS MISTERIOS DE ALFRAGIDE

...ou de Carnaxide, ou da Outurela, ou da Portela — vai tudo dar ao mesmo. O que meter pela saída errada da Segunda Circular dá é perceber que há subúrbios lisboetas onde a palavra "sinalização" não é, de todo, conhecida... E não há ninguém que peça às entidades responsáveis para definir melhor "zona comercial"?

12 de outubro de 2005

A EFICACIA DOS 50

A capa da Caras desta semana diz que Teresa Guilherme, aos 50 anos, se sente mais eficaz e divertida. Posto desta maneira, parece um anúncio para um creme anti-rugas.

O DESAPARECIMENTO DA CANETA PRODIGA

Ficou na minha secção de voto, onde a deixei sem dar por isso no domingo à tarde. A Bic Cristal voltou a uso.

POLAROID: METRO

Corro para entrar na carruagem antes que as portas se fechem. A senhora que entra à minha frente pára assim que entra, tenho de forçar um pouco a passagem para não ficar com a mala presa na porta. A senhora pede desculpa educadamente, mas não se mexe um milímetro da posição que adoptou.

10 de outubro de 2005

MARKETING POLITICO (SLIGHT RETURN)

"Por um voto se ganha, por um voto se muda", rezava a frase usada numa das campanhas de marketing destas autárquicas. Pelos vistos, Lisboa não quis mudar e Carrilho perdeu — mas, agora a sério, alguém alguma vez pensou que ele pudesse ganhar? Que disparate! Que disparate!

No resto, tenho a dizer que Portugal não me surpreendeu e continua no seu melhor. Os portugueses também não e continuam no seu melhor.

9 de outubro de 2005

8 de outubro de 2005

MARKETING POLITICO

"Por um voto se ganha, por um voto se muda", rezava a frase usada numa das campanhas de marketing destas autárquicas. Raras vezes uma frase terá sido tão apropriada na sua ambiguidade: é verdade que "por um voto se muda", mas será que se muda "para melhor"?

7 de outubro de 2005

DEBATE

Depois do debate de ontem à noite, na RTP-1, fiquei esclarecido sobre quem tem realmente ideias, projectos e amor por Lisboa.

Fiquei escandalizado com a atitude diletante de Manuel Maria Carrilho, que fala muito de teorias mas não consegue esconder a falta de substância no seu discurso, que parece não estar minimamente preparado para ser presidente da câmara — a sua pose distante é a de quem gosta de teorizar para que os outros ponham em prática as suas visões iluminadas, é a de quem não tem programa e, à boa velha maneira de uma certa esquerda nacional, acha que o ser de esquerda é suficiente para garantir as credenciais.

Fiquei atónito com José Sá Fernandes, que parece não ter arcaboiço para estas cavalarias altas e se refugia em conversas de "medidas corajosas" quando o que os lisboetas querem não é medidas corajosas (aliás, não ouvi nenhumas), é problemas resolvidos (e como é que alguém que diz que Lisboa precisa de gente propõe uma taxa para quem quiser trazer o carro para o centro de Lisboa? como é que alguém que passa a vida a dizer que já há impostos a mais quer introduzir mais um?).

Fiquei desapontado com o nervosismo e insegurança de Carmona Rodrigues, que me parece uma figura simpática e com algum bom senso mas que me pareceu ali a fazer algum frete, que comeu muito por tabela da megalomania d'Aquele-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado, e que esteve bem (e com razão) quando diz que o túnel das Amoreiras/Marquês não vai trazer mais carros para dentro de Lisboa. Aliás, o túnel é um problema, é certo, mas ninguém parece recordar que os portugueses são um povo individualista que, mesmo com transportes públicos de melhor qualidade, só à lei da bala é que vai deixar o automóvel próprio em casa.

Sobram Ruben de Carvalho e Maria José Nogueira Pinto, seguros, ele mais pragmático, ela mais teórica, mas ambos com ideias muito claras do que está mal em Lisboa e do que deve e pode ser melhorado. Infelizmente, tudo aponta para que, mais uma vez, a demagogia ganhe à competência. Mas não é surpresa. Já é assim desde o século passado, porque haveria de mudar agora?

POLAROID: CAFE, PEQUENO-ALMOÇO

Duas mesas ao lado, está uma liceal com um telemóvel em cima da mesa, auscultadores ligados a um leitor de MP3, ouvindo música enquanto desenha, debruçada sobre um caderno espiral A4, com um lápis, manchas cinzentas nas margens nas folhas. Na mesa em frente estão três liceais, colegas de turma possivelmente, a tomarem o pequeno-almoço e, sem parar de desenhar nem levantar a cabeça, ela chama uma das três insistentemente, dizendo-lhe que é urgente e precisa muito de falar com ela, ao que a outra responde, agastada, "espera um minuto" enquanto continua a tomar o pequeno-almoço.

6 de outubro de 2005

O REGRESSO DA CANETA PRODIGA

Afinal, a caneta lá estava. Tenho especial preferência por estas canetas transparentes de gel, de tinta preta, Uniball Signo 0.5 made in Japan (by Mitsubishi) — não tenho nada contra as Bic Cristal para escrita normal, diga-se desde já (já a Bic Laranja para escrita fina nunca me convenceu), nem tenho nenhuma especial razão sentimental para ficar contente por recuperar esta. Acontece apenas que me habituei a estas, já há uns largos anos, quer em preto quer em vermelho (dava jeito para rever páginas...), porque raramente a tinta seca e são bastante resistentes.

Tinha-me esquecido dela no café onde costumo tomar o pequeno-almoço, na manhã de terça-feira, em cima da mesa junto à janela, encostada à caixinha plástica dos guardanapos de papel, e só dei pela falta dela já a caminho da casa da minha mãe, para uma sessão de "Mum-sitting" enquanto o meu pai ia a uma consulta médica de rotina. Percebi imediatamente onde é que a tinha deixado e, sem grandes esperanças que ainda estivesse no café, desviei-me para a primeira papelaria que encontrei e comprei uma Bic Cristal.

Hoje, de manhã, quando pagava o galão e a torrada, perguntei se por acaso não teriam encontrado uma caneta — a empregada disse que não tinha ideia mas, em cima do balcão, junto ao cesto dos pacotinhos de açúcar para o café, lá estava ela. Surpresa.

5 de outubro de 2005

DEPOIS DA TEMPESTADE

Aqui há uns meses, dei aqui um toque sobre Nancy Gibbs, da Time, mocinha que é capaz de ser uma escritora absolutamente notável. Na altura, fi-lo a propósito de uma peça sobre o Papa que não consegui reproduzir aqui — agora, volto ao fazê-lo por causa de uma peça que saiu na edição de 3 de Outubro sobre o furacão Rita. Parece-me que explica muito melhor porque é que eu gosto da maneira como ela combina análise, reportagem e opinião num todo eminentemente fluido (com desculpas pela dimensão da peça).

Act Two
Hurricane Rita brings a second cruel assault on the Gulf Coast. How well did we apply Katrina's lessons?
By NANCY GIBBS


«We get to know our hurricanes so well now. We christen them and watch them grow from little tempests way out at sea to big, clumsy storms spilling bright orange rings all over the weather maps. We track them so closely that we fool ourselves into thinking that what we can't control we can at least predict, with all our models and millibars, as though it were not in the very nature of hurricanes to skid and twist and break things. That's worth remembering now as the skies clear and we measure what worked and what didn't, who overreacted, who waited too long, as though someone should have had perfect intelligence about the least predictable of all our natural enemies.

Was any storm ever watched as closely as Rita, Katrina's unwelcome sister come to test the learning curve? There would be nothing normal about her, not after where we've been. Politicians and reporters prowled the operations centers. FEMA rained press releases. Disaster officials positioned supplies every 10 feet across East Texas--truckloads of water and ice, hospital beds, even the microchips to be implanted in dead bodies for identification. Fifty thousand troops were on the ground, as local, state and federal officials strapped themselves together in a life belt of plans and protocols designed to protect both the public and themselves.

And still the ironies blew in one after another. The previous storm was followed by so much human failure that it all but ensured this one would be preceded by failure. Thirty-four elderly people drowned in New Orleans because they didn't leave, and 24 people in Texas burned when they did. People filled their cars with their most precious possessions, only to abandon them on the highway when the traffic stopped and the engines died. President George W. Bush could not win; even before Rita hit, grouchy critics were saying, "Well, of course he'll take care of his home state." And in sad and sodden New Orleans, where army engineers had spent the past three weeks dumping sand and gravel to patch the levees, the debates about rebuilding were drowned in the second wave. "People are just going to be thinking, What's the damn point if this is going to keep happening?" said a New Orleans cop as he surveyed a flooded underpass. Soldiers went out to stare at the waterfall over the levee, and some took pictures--a still life in human limitations.

The culture of blame thrives in this climate, so it was easy to miss the victories. It is no small thing to evacuate the fourth biggest city in the country--not just the willing and mobile but also the old, the sick, the stubborn, women in labor, babies in incubators, criminals in prisons--more than the populations of 15 states, all on the move at once. Some tempers melted in Houston's 100-degree heat, but the effort in its entirety was a pageant in patience and cooperation. In the end, the greatest irony may turn out to be the high cost of good news. It will be days before we know the full scope of the damage, in homes and lives and livelihoods. But if it turns out that for all the disruption, fewer people died, more homes were spared and the destruction was not as bad so officials had feared, they know there is one last price they will pay, a debt that will come due the next time a disaster wanders into view and they once again have to convince people that it is far better to be safe than sorry.

It turns out that you can't drain a city of 2 million people in a day. It's not as if it's a fire drill you can practice, other than on a computer model that will never account for all the brave and stupid and sentimental things people do when their world starts to rattle and pitch. Sound the alarms too soon, and you may disrupt lives for no reason. Wait too long, and you risk losing them.

For officials in cities across the country, newly aware that they had better have some kind of rational evacuation plan in place, Rita taught as much about the challenge of leaving as Katrina taught about staying behind. Los Angeles, sitting on a basket of fault lines, has no plans for a mass evacuation. San Francisco envisions sending residents out across bridges that could crumple. New York City at least has subways that can move 8 million people a day--but those lines are mentioned as a favorite terrorist target.

In Texas, the plan was for about a million people to move out of harm's way. The reality was that two and half times as many hit the roads, and that doesn't count the dogs and cats and goats and hedgehogs evacuating as well. The Texodus came in waves, first on Tuesday from Galveston, the barrier island of 57,000 that takes its hurricanes seriously, then thousands more from coastal towns and hundreds of thousands more from Houston, whose Mayor Bill White urged residents of low-lying areas to get out--now. "Don't wait," he said. "The time for warnings is over." In Matagorda County, sheriff James Mitchell warned parents that if they decided to try to ride out the storm and were caught, they could be charged with child endangerment and their children taken into custody. But for once, the public did not need much convincing. Forecasters couldn't say for sure where Rita was headed, and people weren't in a mood to take chances.

White called what followed the largest mass evacuation in U.S. history. It was also at times the slowest. By Wednesday Rita was a Category 5 hurricane, one of the three meanest storms ever tracked in the Atlantic, moving at about 9 m.p.h. toward her prey, faster than East Texas could run away. Fleeing families were lucky to move a mile in an hour. Soon dead cars lined the roadsides, and the tanker trucks meant to revive them were themselves stuck in traffic or else had the wrong nozzles to fit civilian cars. "They're saying if you have one-eighth of a tank of gas or less, to get off the roads and let other people escape," said Mary Sieger, 62. "But where should people go if they do pull off? There's no gas in the entire city. They can't get home."

Somehow state and city officials could not seem to reverse the southbound lanes until midday Thursday, and even that was remarkable because there was no master scheme for doing it at all. "Contraflow was never in the plan," White tells TIME. "We improvised it." One city official says that was only because of TV images of packed lanes next to empty ones. "They [state officials] were not going to do it," the official says. "It was never part of the plan because they believed that the roads could accommodate the traffic." But that's barely true on a normal day's rush hour, much less during a sudden spasm of survivalism. Governor Rick Perry acknowledged that being stuck in traffic for 12 or 15 hours was bad, but "it sure beats being plucked off a roof by a helicopter." It was a line he was to repeat all day.

After endless hours of getting nowhere on the roads, some families tried to turn back. By then, White was calling cars stuck on highways potential deathtraps. To focus the evacuation, Houston had tried to publish maps of the most vulnerable areas, but the average citizen couldn't understand them or didn't try. "I think people just said, 'Oh, my God, I'm in danger. I'm leaving,'" says Carla Prater, a Texas A&M professor who helped design evacuation plans for the state. "We didn't have time to adjust our plans in accordance with this new factor, the freak-out factor," she tells TIME. Dozens went to hospitals, and several died of heat exhaustion and dehydration in temperatures that could bake the fruit on the trees. White warned on Friday that for those who were not already on their way, it was now too late to go.

For those left behind, there was little to do but stock up and hunker down. At the Houston zoo, geese, ducks and chickens found shelter in one of the men's rooms while the turkeys commandeered a ladies' room. The Siberian tiger section offered sanctuary to some maned wolves and anteaters. "Everyone is secured from everyone else," said spokesman Brian Hill. "There's no danger of any animal taking advantage." Over at the Museum of Fine Arts, a cast of Rodin's sculpture The Walking Man was laid down so it wouldn't fall over and get hurt. At the University of Texas Medical Branch in Galveston, even as the patients were evacuated, researchers combed the hospital's lab where some of the world's most lethal viruses are studied, terminating experiments, storing viruses in locked freezers and fumigating the labs to avoid the chance that something could escape if the building were crushed.

Big storms announce themselves with that famous calm, and people exploited it however they could. Mothers took their kids to the playground to wear them out in the event that they would be locked down for a few days. A case of water was going for $30 at a convenience store, and condoms were a top seller as well. "We needed heroic amounts of food," said David Fine, head of St. Luke's Episcopal Health System, "so we broke into a warehouse to get it." The hospital got permission to pry open the freezer at a McDonald's near Texas Children's Medical Hospital to liberate a huge load of meat patties. The general advice? "Don't ask permission," advised Perry. "Ask forgiveness."

Everywhere across the city and beyond, people imagined the worst, and given what they had been watching night after night on the news, that wasn't hard to do ...

Some Texans felt a gust of guilt and relief in the hours that followed, as Rita wobbled eastward on her path ashore. They knew they did not want to be on the dirty side of a big storm, the eastern wing that tosses tornadoes as she goes. Instead she moved in on the Texas-Louisiana coastline, somehow steering between the major population centers, and managed to avoid most refineries. But Rita was so big and slow, she still caused trouble hundreds of miles in every direction, including Katrina's stomping grounds. In Beaumont, Texas, police patrolled the blacked-out streets in cruisers and on the backs of dump trucks, shotguns ready. "It was really whipping through here last night," said resident Bill Dode. "It was extremely loud, and the house was creaking." Tree branches were poking through some cars' windows and some homes' walls. At one house, a goat was standing on top of a patio table, braying at a window.

In New Orleans, Mayor Ray Nagin, aware that half his population may never return, had urged people to come back, only to have to turn them around again two days later as Rita approached. Watching Rita hover offshore, the Army Corps of Engineers was worried that the levees could not withstand another blow. The pumps were still operating at only 40%, and while the city was basically dry, some streets were pasted together with poison sludge. Six inches of rain, max, they said, but the levees were already overflowing by Friday morning.

Meanwhile, the city recited its lessons like a chastened schoolboy. Buses were waiting at the Convention Center, along with half a million meals and a field hospital, in case the city endured a replay. A new $4.5 million communications system using military satellites was ready in case the phones went out again. But if the city was wiser, so were the people. They were not counting on anyone else to save them this time. In the French Quarter the Deja Vu strip club was open for business, but just about everything else was closed, and everyone was gone, except the cops, the army, the reporters and the looters. New Orleans and out-of-town police confirmed to TIME that numerous looters and carjackers had been arrested in recent days, some carrying guns and impersonating cops. "They're drifting back in," an officer said--and they're hardly the residents Nagin needs to repopulate his near dead city.

But if New Orleans was a vast urban sacrifice to greater knowledge, at least the experience was being studied at every level. The President had planned to go to Texas on Friday, having spent time earlier in the week in Louisiana and Mississippi. Wouldn't he just get in the way?, reporters asked, which may help explain why the White House misplaced the press corps, inadvertently sending it along to San Antonio while Bush decided to head for Colorado to watch the Northern Command coordinate the federal response. As he got a tour of the facility, he finally found his bullhorn moment. When he came across a 9/11 memorial, including a photograph of him atop the rubble at ground zero, he took out his pen and signed it "May God Bless America, George W. Bush."

Given the challenges that face him now, as gas prices jump up three more floors and Congress revolts and the global war on hurricanes threatens to break the budget, the President did get a break from the Rita replay. For all the complaints about Bush's handling of Katrina, it was Texas Senator John Cornyn who noted that "when you dial 911, it doesn't ring at the White House." While federal officials were much more attentive this time, officials in Texas showed they could make the machinery work together. Katrina was a pop quiz for Texas emergency chief Jack Colley, an ex-military man whose office is practically empty except for a few baseball caps, a picture of an old dog and a thick walking stick topped by a pilot's joy stick. He's a man who knows the sheriffs and mayors and agency heads by name. The state has held 150 simulation tests, including a cascading nightmare of a nuclear power leak, a Category 4 hurricane in Corpus Christi and a nuclear terrorist attack. Perry told Bush not to even consider drafting Colley when the Governor thought the President might be in the market for some experienced disaster hands in Washington.

In the state operations center, a former cold war nuclear shelter in Austin, Perry let Colley manage the conference calls. One sheriff wanted to know whether he would be reimbursed for the gasoline he provided to federal agencies. Another said he was overwhelmed with evacuees and was worried about security along the roadways where people with knives were fighting over gas. Perry dealt with the politicians. House majority leader Tom DeLay called for the fourth or fifth time. His district would probably escape the worst, but he wanted to be sure enough National Guard troops had been called up. Homeland Security Secretary Michael Chertoff had been calling four times a day. Bush called four times and by late Saturday had gone home to Austin to see the operation for himself.

One disaster is a test of readiness; a second is a test of character. For those already wearing I SURVIVED KATRINA T shirts, it was a cruel challenge to their resilience. "It feels like it's following us," said a New Orleans evacuee. They were like Israelites in the desert. There was talk of moving ... to another planet. The next best thing, maybe, was Mexico. Some evacuees headed south because it was home, others on the chance that they might have to be gone for a long time, and life on the run would be cheaper there.

Once you've lost everything, there is little left to mourn. More than windows and walls, hope is hard to repair once it is broken. "It's like watching a murder," said a repeat evacuee in Lafayette, La. "The first time is bad. After that, you numb up." But if anything, the storm had the opposite effect on the officials in charge of responding to it. They were anything but numb--rather, aware that something profound had changed in the efforts and expectations. And that this was only the beginning.»
--Reported by Cathy Booth Thomas, Deborah Fowler and Wendy Grossman/Houston, Matthew Cooper/Washington, Hilary Hylton/Austin, Tim Padgett and Amanda Ripley/New Orleans, Adam Pitluk/Beaumont, Sean Scully/Philadelphia and Deirdre van Dyk/New York

4 de outubro de 2005

OS TEMPOS ESTAO MESMO A MUDAR

Isto é uma das mais notáveis peças sociológicas que li nos últimos tempos. Vem na edição desta semana da Economist. (As minhas desculpas pelo link.)

The times they are a changin'. Really

Believe it or not, America is beginning to escape its groundhog decade

«WE'RE told on good authority that history repeats itself, but this is getting ridiculous. The past week has been a giant flashback to the 1960s. On Saturday 100,000 anti-war demonstrators descended on Washington, DC, to chant peacenik slogans and listen to Joan Baez sing “Where have all the flowers gone?” The only thing missing was Abbie Hoffman trying to levitate the Pentagon. And that's not all. PBS broadcast Martin Scorsese's lengthy homage to Bob Dylan, alongside a week of tributes to “the years that shaped a generation” (including a special edition of “Antiques Roadshow”). Both the Rolling Stones and Jane Fonda have dragged their aged limbs on tour.

There have been a few attempts to update things. This time, some anti-war protesters wore T-shirts that read “make levees not war”, while Sir Michael Jagger has penned a song about the evils of neo-conservatism. But for the most part, everybody seems happiest with golden oldies.

Why are the 1960s so difficult to escape? One reason is the sheer size of the baby-boom generation. Giant arboreal slums of boomers now sit at the top of every establishment tree, not least the media. And like all ageing geezers they continue to see the world through the prism of their youths. Listen to Charles Rangel, a black congressman from New York, comparing George Bush to Bull Connor (the notorious white police boss in Birmingham, Alabama); or Jesse Jackson likening the peace protesters to the civil-rights heroine, Rosa Parks; or just about every pundit doing the “Iraq war as Vietnam quagmire” routine.

The other reason why the 1960s are so hard to shake off is that the decade split America down the middle, launching the culture wars that still haunt American politics and redefining America's two great parties. The Democrats became the party of people who regarded the 1960s as an unmitigated good (particularly feminists, blacks and social liberals) while the Republicans regarded the 1960s as an unmitigated evil (particularly white southerners and other “conservatives of the heart”).

This has made for “Groundhog Day” politics. Every election the same arguments appear about draft dodging, the permissive society and so on. Last year, while Iraq burned, American politics fixated on which Swift Boat veteran did what 40 years ago.

Is there really no escape? In fact, last year's election looks like the last hurrah for 1960s politics. John Kerry presumably thought that turning the 2004 election into a referendum on his war service in Vietnam was a slam-dunk, given that he fought heroically while Mr Bush skulked at home. But many voters were less obsessed by the Mekong Delta, and others remembered him as a war protester, not a war hero.

The future of both parties is in the hands of people who want to jettison their 1960s baggage. On the Democrat side, before Mr Kerry reintroduced Vietnam, the Clintonites had spent much of the 1990s distancing themselves from Eugene McCarthy. They demonised black radicals such as Sister Souljah, embraced tough policies on crime and welfare, supported school uniforms and V-chips, and sent American bombers into Bosnia. In her preparation for 2008, Hillary Clinton has taken positions on military force and abortion rights that would have scandalised her younger self. Barack Obama, a possible running mate, is very different from the older black leaders. On the relative merits of liberal and conservative solutions to black poverty—spending more money versus changing the behaviour of the poor—he says: “It's not either/or. It's both/and.”

For their part, the Republicans have been trying to get beyond Richard Nixon's “southern strategy”. Mr Bush has appointed blacks to more senior positions in his administration than any previous president and lavished more attention on wooing black voters. The reason why black Democrats seized on the catastrophe in New Orleans to demonise Mr Bush is not because they really think that he is Bull Connor reincarnated, but because they worry that his strategy of creating a multicultural Republican Party might get somewhere.

The old road is rapidly ageing
More broadly, American society is beginning to make its peace with that divisive decade: it is becoming neither a pro-1960s culture nor an anti-1960s culture but a post-1960s culture. Polls show only 5% of voters objecting to the civil-rights revolution. For all the rage of the culture warriors, most Americans—particularly young ones—put a high premium on “tolerance”. At the same time, they also think that the counter-culture went too far. Very few people decry the nuclear family or urge people to tune in, turn on and drop out.

Society is in a process of repairing itself after the big dislocations of the 1960s, when rates of crime, pre-marital sex and family breakdown began to surge. (The annual number of divorces, for example, more than doubled between the mid-1960s and the mid-1970s.) The figures for teenage pregnancy and abortion are both declining. Crime is down (America now has fewer burglaries per head than Canada), and divorce is beginning to drop, particularly among the college-educated, as the children of divorced parents re-embrace the nuclear family. Most young Americans say they believe in God and love their country.

Mr Dylan remains such an iconic figure not because he embodied the 1960s but because, unlike many of his acolytes, he refused to be defined by the decade. Mr Scorsese makes great play about the way the folk protester infuriated his hard-core fans by going electric. But this was only one of the bard's changes. He distanced himself from his protest songs. He got God in a big way. And in his recent memoirs he boasts that his dream was a “nine-to-five existence, a house on a tree-lined block with a white picket fence, pink roses in the backyard.” That's where the flowers went, Joan.»

3 de outubro de 2005

POLAROID: CORREIOS

Estão cerca de 20 pessoas com senhas à minha frente para ser atendidas. Um dos empregados ao balcão, educada mas decididamente, avisa o senhor de idade que está a ser atendido que não pode ser assim, tem que fazer tudo de uma só vez, há muita gente para atender e não pode estar a perder tempo com quem não sabe o que quer. Entretanto, uma senhora de meia-idade queixa-se para o homem de pé ao seu lado (vizinho provavelmente, já que parece conhecê-lo) de que teve tempo para ir tomar café sem pressas e voltar que ainda não chegou ao seu número, e prossegue para contar a história do assalto de que foi vítima no domingo, que conta em tom de voz suficientemente alto para ser audível por toda a gente que está à espera de ser atendida.

2 de outubro de 2005

POLAROID: AMOREIRAS, CINEMA VIP 1, 2 DE OUTUBRO, 18h30

Na fila à frente da minha, estão sentadas duas senhoras de meia-idade que, apesar de estarem juntas, entram separadamente. Têm aspecto de solteironas que frequentam os Alunos de Apolo, arranjadas com cuidado (uma é negra, de cabelo apanhado, está vestida de saia-e-casaco vermelho; outra é branca, de cabelo loiro pintado, vestida de calças-e-casaco claro), que combinam um filme ao fim da tarde. A loura chegou primeiro e, quando a amiga se senta ao seu lado, com um saco do supermercado na mão, está a abrir uma tablete de chocolate. A partir de meio do filme, começam a conversar uma com a outra em sussurros, por entre risadas que traem a incredulidade quanto ao filme que estão a ver, sem que chius pontuais façam calar o seu evidente descontentamento. A negra sai a meia-hora do fim para ir à casa de banho, amarfanhando o saco de plástico antes de sair, quase tropeçando no degrau da fila quando sai, quase tropeçando no degrau da fila quando entra. Quando o filme termina, saem com dignidade mas rindo-se uma para a outra.

1 de outubro de 2005

LOGBOOK #33: GAIVOTAS

Sesimbra: Ponta da Passagem, sábado, 1 de Outubro, 11h21: 16m, 45 min, 16º C

Está-se bem: resolvida a constipação e a inspecção do carro, a gloriosa estreia em água salgada do regulador Poseidon Jetstream adquirido em segunda mão há um par de meses confirma tudo o que de bom se sabe da veneranda marca sueca. É, além do mais, um reencontro com o grande Vitorino, presença regular nas saídas de sábado de manhã com quem há largos meses não me cruzava, mais a sua câmara digital que apanha ali um caboz escondido numa pequena reentrância dos canais de rocha, aqui um polvozinho a fazer-se à vida. Finalmente, é a Ponta da Passagem no seu melhor, com uma visibilidade simpática na onda dos sete metros (mesmo com o esverdeado da suspensão), muito cardume prateado, muito peixinho a alimentar-se — um passeio de luxo onde sou até recrutado para servir de assistente de fotógrafo, segurando no foco do Vitorino enquanto ele foca a câmara no caboz. O todo enquadrado por verdadeiros tapetes de gaivotas vogando ao sabor das quase inexistentes ondas à entrada do porto de Sesimbra, obrigadas a levantar vôo pela passagem do barco que nos leva em tempo recorde à Ponta, sob um sol quente que é mais de Verão que de Outono.

29 de setembro de 2005

POLAROID: CAFE, PEQUENO-ALMOÇO

Ouvido no café onde costumo tomar o pequeno-almoço.
Teenager 1 geração Morangos com Açúcar, sexo feminino, levantando-se para pedir ao empregado ao balcão: "Olhe, era um croissant com chocolate faxavor."
Teenager 2 geração Morangos com Açúcar, sexo masculino, cabelo louro à surfista, sentado à mesa da qual a teenager 1 se levantou, para teenager 3 geração Morangos com Açúcar: "Croissant com chocolate? Isso faz borbulhas. Olha lá, viste a quantidade de pessoal que estava ontem no McDonald's?"

28 de setembro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #34

Impressoras que, seis meses depois de deixarem de imprimir a cores por razões inexplicáveis, pura e simplesmente deixam de reagir por razões igualmente inexplicáveis. É que vais já ser substituída para não te armares em fina.

PROVINCIANISMO

Maria José Nogueira Pinto tem razão quando acusa Pedro Santana Lopes e António Carmona Rodrigues de "provincianismo" na opção por Frank Gehry para refazer o Parque Mayer — haveria certamente por cá excelentes arquitectos capazes de apresentar projectos igualmente arrojados. É certo que o Parque Mayer de Gehry não se tornará numa atracção turística como o museu Guggenheim de Bilbau (até porque, como todos sabemos, a maior parte dos portugueses não são nada dados a essa cultura). Mas, se nos recordarmos que o Guggenheim se tornou num pólo revitalizador da cidade, quem sabe se esse provincianismo não será exactamente aquilo de que o Parque Mayer precisa?

27 de setembro de 2005

POLAROID: MAGNOLIA CAFFE, CAMPO PEQUENO, 27 DE SETEMBRO, 10h15

Um cliente particularmente truculento protesta com a empregada de balcão. Primeiro porque o pão com fiambre que pediu vem servido sem guardanapo de papel, directamente em cima do prato. A empregada, sem perceber, ainda pergunta "mas não há guardanapos nas mesas?". Depois, volta com a sanduíche aberta, queixando-se por a manteiga não estar bem barrada. Às vezes, não sei se são os empregados que não sabem o que fazem ou os clientes que são exigentes em demasia.

26 de setembro de 2005

PONTUALIDADE

Comentário ouvido hoje a três mocinhas da geração Morangos com Açúcar: "eu não sei o que é estar lá às oito da manhã".

25 de setembro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #33

Pessoal que, quando vê o seu carro impossibilitado de sair por outro tipo que estacionou mal, desata a buzinar ininterruptamente a ver se o dono aparece. Isto é perfeitamente compreensível durante as horas de expediente. Às duas e meia da manhã, dá vontade de pegar em todo o tipo de objectos que possam fazer mossa, ir à janela e atirá-los ao buzinador em questão, porque por mais simpatia que possa haver para com o seu problema, a maior parte das pessoas que estão a dormir a sono solto não têm culpa nenhuma da questão. Quem estacionou mal não teve civismo nenhum, certamente, mas não se pode dizer que acordar a vizinhança às duas e meia da manhã para poder entrar ou sair com o carro seja um exemplo de civismo.

22 de setembro de 2005

POLAROID: SANTA APOLONIA, 09h00

Junto ao Lux, pelo meio do trânsito matinal, um mendigo empurra um carrinho de supermercado cheio de coisas, parando de vez em quando para apanhar um ou outro despojo do chão. A esta distância, não se percebe bem o que ele empurra. Mas percebe-se muito bem que tem um gato empoleirado na cabeça protegida pelo que parece ser um capacete de obras. E o gato mantém-se, retesado e atento, mas perfeitamente equilibrado, mesmo quando o mendigo se agacha para apanhar qualquer coisa do chão.

21 de setembro de 2005

A EFICIÊNCIA DO SERVIÇO AOS CLIENTES (post que contém linguagem eventualmente chocante)

Marquei para esta tarde uma visita da TV Cabo para verem o que se passa com alguns canais que recebo com interferências e chuva. A visita ficou marcada entre as 14h00 e as 15h30 mas, chegado às 15h40, ainda ninguém tinha aparecido, pelo que não fui de modas e voltei a ligar para protestar porque ninguém apareceu. Registada a queixa, ligam-me às 18h30 a dizer que me tinham tocado à porta às 14h15 e que eu não tinha atendido, ao que lhe respondi que era impossível porque eu estava em casa e ninguém me tocou à porta, após o que confirmei a minha morada e o meu telemóvel. Depois das habituais conversas se eu não queria remarcar etc., disse-lhes que depois telefonaria a remarcar já que tenho mais que fazer na vida do que perder tempo à espera da TV Cabo. Às 22h30 voltam-me a ligar da TV Cabo, a dizer que me tinham tocado à porta às 14h00 e que eu não tinha atendido e que me tinham tentado ligar e eu não respondi, ao que expliquei que ninguém me tinha tocado à porta porque eu estava em casa, e que ninguém me tinha telefonado porque não recebi chamada nenhuma nesse período de tempo, e se tivesse recebido e não tivesse atendido o meu telemóvel teria registado.

Não teria sido mais simples terem vindo fazer a puta da visita do que terem-me feito perder o meu tempo e, depois, perdido tempo e dinheiro a telefonar-me duas vezes a tentarem culpar-me da incompetência dos seus serviços?

Foda-se! Dá vontade de desistir do serviço. E eu já não estava bem disposto antes.

A PROPÓSITO DA MANCHETE DE HOJE DO JORNAL 24 HORAS

A questão importante não é que existam fotos de Lili Caneças nua.

A questão importante é porque é que alguém estaria interessado em vê-las.

20 de setembro de 2005

QUE PENA QUE PAULO PORTAS JÁ NÃO SEJA MINISTRO DA DEFESA

Estou absolutamente certo que ele veria o reality-show da TVI "1ª Companhia" como uma excelente campanha de recrutamento para as Forças Armadas.

FLASHES

Um pai irritado, com o carro mal parado em frente a um corrimão, grita com a filha menina que está a tentar entrar para o carro trepando ao corrimão em vez de o contornar. "Entra depressa!"

Uma bola medicinal amarela percorre uma linha recta perfeita por entre os colchões de espuma azul sobre o soalho azulado do ginásio.

O estrondo do televisor da sala quando cai brutalmente no chão em cima do écrã, tudo por causa de um fio de coluna preso no rodízio do móvel. (Não se partiu. It's a Sony.)

19 de setembro de 2005

SENTIDO DE HUMOR

É uma coisa muito importante. Marques Mendes tem-no quando se identifica aos alunos de uma escola de Benfica como o boneco do "Contra-Informação" que diz "Ganda nóia, chefe". Ora aqui está um tipo que não tem tabu.

POLAROID: LOJA DE CONVENIÊNCIA

A senhora, quarentona bem vestida de cabelo platinado, está ao balcão à espera que o miúdo dos seus seis-sete anos com quem está tire o gelado da arca. "Ó Pedro Maria, traga cá o gelado. Tem certeza que é este que quer?" O miúdo faz que sim enquanto lhe entrega um Magnum de amêndoas. A senhora entrega uma nota de 20 euros para pagar o gelado, um pacote de fraldas e "um Português Suave, se faz favor". O telemóvel toca enquanto espera o troco e ela atende-o, mantendo-se à conversa enquanto recebe o troco e pega no saco. O miúdo está encostado ao balcão à espera que ela se afaste, com uma nota de cinco euros na mão. A empregada pergunta-lhe "sim?" e ele responde "Não, estou só à espera de pagar à minha tia." "Oh Pedro Maria," diz a tia desligando o telemóvel, "eu já lhe paguei o gelado."

18 de setembro de 2005

ENTRADA POR SAÍDA

A sala está a meia casa para a sessão de cinema das sete. Não há telemóveis a tocar, nem bocas foleiras de adolescentes armados em engraçados — mas há, isso sim, um grupo de adolescentes que passam o filme todo a entrar e a sair da sala por turnos. Para ir à casa de banho? Para ir comprar pipocas ou bebidas? Não sei. Não incomodaram. Mas faz-me espécie que há quem vá ao cinema para não ficar quieto na cadeira a ver o filme.

17 de setembro de 2005

CRISE? QUAL CRISE?

Sábado, 12h30, IKEA Alfragide — Portugal não tem dinheiro, o crédito mal parado nunca esteve tão alto, o país está a braços com uma seca histórica, depauperado por um Verão de incêndios, desiludido com um governo desacreditado. E o IKEA está cheio de gente que passeia, tira medidas, atira objectos para os sacos amarelos, enche carrinhos de compras com móveis, faz fila nas caixas de saída.

Sábado, 16h00, SIC Notícias — numa peça noticiosa sobre a manifestação do PNR contra a emissão do programa "Esquadrão G", um dos cinco apresentadores do programa diz que, num país onde há fome, miséria, seca, incêndios, que se faça uma manifestação pública contra a homossexualidade é não ter a noção das coisas.

Sábado, 18h30, casa dos meus pais — a minha mãe interrompe repetidamente o meu pai enquanto este narra, da sua maneira complicada, a discussão parlamentar sobre a dissolução da Alta Autoridade para a Comunicação Social e as propostas do governo para a entidade que a substituirá, com especial atenção ao discurso de Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda. A minha mãe insurge-se contra o que ela diz ser o regresso da censura, antes de se insurgir contra a prestação televisiva de Manuel Maria Carrilho no debate das autárquicas de Lisboa, que ela acha digna de uma pessoa mal educada e sem maneiras. Enquanto isso, a Sport TV passa o jogo da Liga Inglesa entre o Aston Villa e o Tottenham.

É assim Portugal, em Setembro de 2005.

POLAROID

Tomo um pequeno almoço tardio no café da IKEA (sumo de laranja natural e um croissant com recheio), sentado num banco alto. À minha frente, numa mesa, um grupo de cinco pessoas almoça em amena conversa. As duas mulheres sentadas de costas para mim dão uma garfada na comida que têm no prato, e logo a seguir trocam garfadas dos respectivos pratos. Penso que estão a dar a provar à outra o que estão a comer, mas, após a garfada seguinte, voltam a trocar garfadas. Entre risos, o casal que está sentado à sua frente também passa a refeição a trocar garfadas.

16 de setembro de 2005

TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS ETC

Que dizia eu? O nariz já pinga, o espirro já ameaça, a garganta já aclarou, o calor febril começa a passar. Tenho de me lembrar de comprar lenços de papel.

15 de setembro de 2005

TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS QUANDO ESTÃO COM GRIPE

Provavelmente estou a repetir-me, mas detesto a inflamação de garganta e a sensação de calor que me anuncia a chegada de uma constipação (o termómetro não indica febre), que me faz ter problemas a engolir (sobretudo líquidos) nas primeiras horas. E já sei que ao fim de 24 horas de garganta irritada, há um ou dois espirros fortes, a garganta começa a desanuviar e o vírus matreiro sobe ao nariz, onde se instala por alguns dias de armas e bagagens, bloqueando as sínus e fazendo-me assoar mais vezes do que as que seriam desejáveis ao dia. (Ainda por cima, eu estava numa de escrever logbook este fim-de-semana; lá terá de ficar para outro dia).

14 de setembro de 2005

12 de setembro de 2005

VITAMINA



Gosto do primeiro disco dos Mesa — "Mesa", Zona, 2003 — porque sinto ali uma tensão não resolvida entre o yin e o yang, entre o apetite de uma pop linear e a vontade de a deixar incompleta, desconstruida, em esboço. Como se os Três Tristes Tigres (com quem João Pedro Coimbra tocou; e Alexandre Soares andava por ali a produzir) tivessem um gémeo pop relutante.

Gosto do segundo disco dos Mesa — "Vitamina", Capitol/EMI, 2005, acabado de editar — mas gosto menos do que do primeiro disco dos Mesa, porque sinto que na maior parte das canções a tensão foi resolvida em favor da pop linear. Há uma extraordinária canção incompleta, desconstruída, em esboço: "Fado Lunar", logo a abrir. Há uma extraordinária canção linear — "Vitamina" — que é genialmente sabotada por dentro pelo contraste entre as transcendentes guitarras líquidas de Jorge Coelho (porque raio este gajo não grava mais?) e as programações rígidas de João Pedro Coimbra. O resto são boas canções pop, com letras de uma rara densidade e de um prazer da língua como não existe na pop cantada em português, sensualmente cantadas por Mónica Ferraz — mas eu sempre esperei que os Mesa fossem mais do que apenas uma banda pop. "Vitamina", a canção, explica o que há de bom e o que vai mal nos Mesa 2005.

sou a doença e também a cura.
sou um mal que perdura,
vitamina que não actua.
speed que não fissura a razão,
tal e qual assim.
porque é assim que eu me revejo:
maltratada, disseminada.

pelo mal que fiz,
mereço não ser lembrada.
perder o apetite,
ser fulminada.

estes são os dias em que nada bate certo.
não me sinto forte e o futuro é incerto.
olha! é assim: sem palavras, não há cura.
e o meu coração bate à sorte, à sorte.

eu não sei o que me demora.
não há nada de novo em mim.
não sei o que me falta agora.
talvez seja ir embora.

estes são os dias em que nada bate certo.
não me sinto forte e o futuro é incerto.
olha! é assim: sem palavras, não há cura.
e o meu coração bate à procura.

11 de setembro de 2005

POLAROID: EL CORTE INGLÉS

Entro no elevador no piso dos cinemas para descer à segunda cave de estacionamento; à minha frente entra um jovem negro, com o uniforme de camisa e gravata de empregado dos armazéns, que empurra um carrinho de supermercado cheio de sacos, e uma senhora de meia-idade, bem arranjada, cabelo pintado de louro, que carregam no botão do segundo piso antes de eu poder carregar para a cave. Subo, por isso, com eles e assisto à senhora a perguntar ao empregado sobre o país de onde é originário, procurando ser paternalisticamente politicamente correcta, dizendo que "ainda conheço Maputo como Lourenço Marques... não sei como é que chamam à cidade na vossa língua, no vosso dialecto", enquanto o jovem afixa o seu melhor sorriso nº 1 para o cliente sem responder verdadeiramente às perguntas que a senhora vai fazendo. Sente-se o desconforto na pequena cabina do elevador.

HÁ LUGARES MARCADOS

O empregado da bilheteira do cinema pergunta-me se tenho preferência pelo lugar na sala. Pergunto se os lugares são marcados; responde-me que sim; digo-lhe que, uma semana antes, tinha ido exactamente ao mesmo complexo e os lugares não eram marcados; responde-me que "em Agosto os lugares nunca são marcados" (apesar de eu ter ido já em Setembro) e volta-me a perguntar se tenho preferência pelo lugar. O papelinho que me entrega diz "fila 9, cadeira 10".

Contando comigo, estão cinco pessoas numa sala que leva 150, numa sessão das sete da tarde de um sábado, e não há nenhum arrumador para me indicar o lugar.

8 de setembro de 2005

NOVOS DESENVOLVIMENTOS NA ARTE DE ANGARIAR DINHEIRO NO METROPOLITANO DE LISBOA

Ontem, na linha azul, um pedinte cego canta a sua lenga-lenga a solicitar ajuda dos passageiros... em rap, acelerando e desacelerando o ritmo a que entoa as palavras, com um apuradíssimo sentido de ritmo marcado com palmas e com toques da bengala (no beat certo) nos varões de metal.

Hoje, na linha verde, os já proverbiais acordeonistas introduzem um novo elemento no seu duo: um saco de compras com rodas modificado para transportar um pequeno amplificador com um leitor de CDs preso em cima, que um dos acordeonistas encosta ao varão de metal dispara assim que o comboio arranca para tocar (mal) em dueto com a pista rítmica pré-gravada. Não se pode dizer que a coisa resulte: a carruagem vai cheia, mas assim que topam o que se passa as pessoas afastam-se e deixam os acordeonistas sozinhos, sem ninguém à sua volta.

7 de setembro de 2005

SILLY SEASON

Teoricamente, a "silly season" devia estar a dar as últimas. Mas, quando ouço no noticiário televisivo da noite que Pedro Santana Lopes abdicou da presidência da Câmara Municipal de Lisboa para não perder o seu lugar de deputado (que, de qualquer maneira, vai suspender pelo período mínimo); que Marques Mendes reuniu com os "parceiros sociais" e concluiu que Portugal está à beira da recessão; e que o Presidente Sampaio apelou à valorização do historial de serviço prestado aos contribuintes pelos funcionários públicos, pergunto-me se não estará antes apenas a começar.

ESTATÍSTICA FELINA MATINAL

Número de gatos presente no telhado da arrecadação visível da janela do meu quarto hoje, quarta-feira, 7 de Setembro, às 09h06 da manhã: seis, dos quais dois gatinhos.

6 de setembro de 2005

É BOM VIVER EM PORTUGAL

A porta do meu prédio tinha os vidros partidos desde 30 de Abril. Os vidros foram finalmente substituídos hoje, 6 de Setembro.

O meu autoclismo deu o berro definitivamente a 24 de Julho, quando o manípulo da torneira de segurança deu a alma ao criador (felizmente na posição de "fechado"). O autoclismo foi retirado da minha casa de banho a 25 de Agosto. O novo autoclismo foi instalado hoje, 6 de Setembro (sei que estamos em poupança de água, e de facto um bom alguidar surte o mesmo efeito com menos água, mas ainda assim).

O meu médico de família sugere-me que eu veja um fisioterapeuta por causa do meu joelho que inflamou em Maio e tem dado sinais de vez em quando, mas não pude trazer a credencial para o fisioterapeuta ontem, segunda-feira, 5 de Setembro, porque "o director" do posto médico não estava. Tenho de a ir lá buscar quinta-feira, 8 de Setembro, à tarde (a administrativa garantiu que estava lá; a ver vamos, depois de ontem ter estado 20 minutos e 16 senhas à espera de carimbar uma credencial que nem sequer pude trazer comigo).

5 de setembro de 2005

PORTUGAL É ASSIM:

É perder duas horas no posto médico, entre senhas, números de ordem e tempos de espera, para uma consulta de rotina que não leva mais de dez minutos, e ter de aturar no processo:
- as administrativas que fazem o que podem durante o horário de trabalho e têm de aturar as matronas resmungonas que compõem a maior parte da "clientela"
- as administrativas que tentam resolver os problemas das pessoas e não conseguem por não terem poderes para isso, que estão todos nas mãos do "director"
- as matronas resmungonas que parecem ter especial prazer em encontrar motivos e razões para resmungar, desde ser inadmissível esperar tanto tempo para pôr um selo numa receita a não perceberem porque é que há tanta gente sem trabalho e não há gente suficiente para resolver estas questões
- as enfermeiras que têm de se dividir por vários andares porque só está uma de serviço e não chega para atender a toda a gente que hoje, talvez por ser segunda-feira e princípio do mês, se decidem a aparecer de rajada
- os senhores e senhoras de meia-idade que trocam histórias de doenças como quem fala do tempo ou das notícias do jornal.

4 de setembro de 2005

ÂNCORAS

Há sítios que julgamos conhecer de trás para a frente, de cor e salteado. Mas basta passar num sinal, num cruzamento, e vê-los de outro ângulo, de outro ponto, para sentir que estamos perdidos quando não estamos, para deixar de reconhecer tudo, quando nunca saímos do mesmo sítio.

3 de setembro de 2005

LOGBOOK #32: A INEXPLICÁVEL INTIMIDAÇÃO

Cabo Espichel: Riva Gurara, sábado, 3 de Setembro, 11h22: 24.5m, 19 min, 18º C

Persistência, diz-me a Isabel enquanto espero que o equipamento seque mais um pouco para o arrumar na mala do carro — persistência, e, acho eu também, um pouco mais de calma, de auto-confiança. É tudo uma questão psicológica: não é a primeira vez que mergulho no Riva Gurara, o cargueiro nigeriano que naufragou ao largo do Cabo Espichel, nem é a primeira vez que me intimido com a sua profundidade nem com as condições de mergulho. Ao início disto de mergulhar, há uns anitos largos, o Riva assustava-me; primeiro pelo totoloto que implicava apanhar quase sempre mar agitado, numa altura em que não existiam as pulseirinhas mágicas e eu enjoava significativamente no barco (alguns mergulhos ficaram mesmo por fazer devido a esse mal-estar hoje minimizado); depois porque era o mergulho mais profundo que Sesimbra possibilitava (na cota mais baixa, entre os 18 e os 25 metros, junto ao hélice; na cota mais funda, junto à proa, 32) e, para mim, tornou-se no exemplo do "mergulho difícil" ou "puxado". Mesmo que, das duas vezes que lá mergulhei no último ano e meio (o "mergulho em naufrágio" do curso avançado e um mergulho posterior), tudo tenha corrido bem, a intimidação continua presente.

Hoje, contudo, as condições são perfeitas, numa conjugação de circunstâncias que leva a que, ao largo das falésias, umas milhas antes do Cabo Espichel, o mar esteja chão, quieto, estanhado, pela primeira vez neste spot nos oito anos e quase 80 mergulhos que levo. O Rui, um dos divemasters do centro, está a bordo e vai mergulhar com o grupo simpático que se formou misturando veteranos e mergulhadores menos experientes, e largamos o ferro mesmo em cima da hélice. A descida faz-se pelo cabo por entre as bolhas dos mergulhadores de outros barcos que ali passeiam, a visibilidade está para cima dos dez metros (há quem fale de 18 metros, à saída do mergulho, podendo ver os destroços da superfície).

Chegado lá a baixo, tudo começa bem; páro para ajustar melhor o equipamento, o colete funciona na perfeição depois de uma ligeira revisão à traqueia e à válvula, o Rui começa-nos a mostrar os destroços do navio; a minha lanterna varre o interior de algumas chapas. Mas há alguma corrente no fundo, e o esforço acrescido à respiração acaba por me cansar depressa, enquanto o Rui toma a liderança do nosso trio com o Luís.

Levamos 10 minutos de mergulho, faço-lhe sinal para não ir tão depressa, páro, agarro-me a uma chapa bem fixa para recuperar a respiração, sem pressas; o Rui pergunta-me se quero subir, faço-lhe sinal para esperar, decido que é melhor, estou demasiado stressado sem ter razão para isso. Faço-lhe que sim e agarro-lhe a mão para garantir que ele não nada mais depressa do que eu. Seguimos para o cabo para voltarmos a subir e fazemos uma subida pelo cabo, autêntica subida de manual, lenta, pausada, metro a metro, sempre a controlar o computador, em perfeita compensação, com um breve patamar aos cinco metros.

Cá em cima, o computador dá-me 19 minutos de mergulho (provavelmente 15 minutos "limpos" de tempo de fundo, muito mais do que eu estava à espera; tenho 110 bares à chegada à superfície dos 210 com que desci, sinal de que, mesmo stressado, mantive uma respiração normalíssima), o Rui explica-me que o Luís tinha respirado muito depressa e já estava nos 60 bares quando subimos pelo que teríamos subido de qualquer maneira. Ainda na água faço um debriefing pormenorizadíssimo, tanto para o Rui como para mim: estive sempre tranquilo, nunca entrei em pânico, e abortei o mergulho em plena consciência, porque, quando passo mais tempo a controlar o ar e a profundidade do que a desfrutar do que me rodeia, o prazer desvanece-se. E é pelo prazer que eu faço isto.

Persistência? Antes calma e paciência para ultrapassar a inexplicável intimidação. O mergulho do Riva em si não é difícil, ainda há algumas semanas, nas Berlengas, fiz um mergulho muito semelhante (o Primavera, a 22 metros) sem problemas, e muita gente com menos anos disto do que eu fá-lo sem problemas. É uma questão de tempo e experiência até me sentir tão à vontade aqui como na Ponta da Passagem. E o dia estava tão fantástico que só a viagem de barco (com peixes não identificados a saltar na água quase ao pé de nós) fica na memória.

2 de setembro de 2005

POLAROID: JUVENTUDE DOURADA

À porta da loja de conveniência, um grupo de adolescentes bronzeados, de calções e T-shirts, está sentado no lancil. Tapam uma das portas de acesso enquanto um outro faz oitos no passeio com uma bicicleta. Um deles tem uma viola acústica na qual começa a dedilhar uma melodia. São seis da tarde.

1 de setembro de 2005

ENGAGE

Dou o passo em frente. A partir de hoje, sou colaborador do Público/Y. A partir de hoje, reaprendo uma disciplina de escrita que já tive e que as exigências do cargo prévio me levaram a descurar excessivamente. A partir de hoje, são, outra vez, as palavras que comandam. A partir de hoje, tudo muda. Era tempo.

31 de agosto de 2005

DISENGAGE

Fecha-se hoje um ciclo profissional na minha vida, com a minha saída definitiva do Blitz, ao fim de 12 anos de colaboração em várias qualidades. Percebo-o hoje, a "mudança de casa" estava já atrasada — as coisas devem durar o tempo certo, e por vezes deixo que elas se arrastem mais do que deviam.

Ao António e ao Rui agradeço o "pontapé de saída", há 12 anos; ao Pedro a confiança, há ano e meio; ao Jorge o apoio, sempre, e a paciência para me ouvir.

E a todos os outros agradeço tudo o que há para agradecer, com um especial abraço ao Gonçalo.

Daqui para a frente, tudo muda. Era tempo.

30 de agosto de 2005

ESTORES EM MOVIMENTO

No ângulo certo, com a luz certa, a cerca que rodeia a Central Tejo, em Alcântara, torna-se transparente. Deixa ver os terrenos que rodeiam a antiga central eléctrica, os carros estacionados lá dentro, as máquinas e ferramentas que ali estão a fazer não se sabe bem o quê. Mas é só no ângulo certo e com a luz certa, e quando se está a passar de carro o efeito é o de um estore que se abre e fecha à medida que passamos, deixando entrever por um instante o que está por trás da janela. E quem passa à mesma hora no outro sentido não vê nada.

29 de agosto de 2005

MODERNICES (ou as consequências nefastas dos "early adopters")

Os auriculares Bluetooth e outros acessórios sem fios e de mãos livres para os telemóveis são, não o nego, bastante úteis e até importantes para aqueles workaholics que não passam sem o ouvido colado ao telefone quando estão a conduzir ou a almoçar. Por isso é que me faz tanta confusão quando vejo pessoas que são tudo menos executivos de profissão exigente e comunicação intensiva, que passeiam de mochila, calções e sandálias de mãos dadas com a esposa/namorada, ou que parecem estar apenas a fazer tempo até ao princípio da sessão de cinema, ou com todo o aspecto de cromo nacional (cabelo brilhantinado, óculos escuros, T-shirt por dentro das calças de fazenda claras, sapatos impecavelmente engraxados), com auriculares Bluetooth no ouvido, como quem exibe um símbolo de estatuto independentemente de ser ou não apropriado.

28 de agosto de 2005

LOGBOOK #31: HÁ DIAS ASSIM

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 28 de Agosto, 11h30: 13.0m, 14 min, 18º C

14 minutos apenas? Mandam as regras de segurança que, quando se perde o parceiro de vista, se interrompa o mergulho porque não é conveniente andar a passear sozinho por ali. Há uma corrente de opinião que acha que sozinho é que se mergulha bem e o parceiro basicamente é um empecilho — não partilho dessa opinião, excepto quando o parceiro é daqueles do género "eu e tu no mesmo oceano".

Não foi o caso hoje, mas a velocidade a que o Paulo Jorge ia fez com que, quando eu parei para ver uma coisa na passagem propriamente dita (divinal, com água chã, sem vaga, quase nenhuma corrente, 10 metros de visibilidade, uma irritação!) e dei pela falta da lanterna que se tinha soltado do camarão (encontrada mais à frente por mergulhador de dupla companheira de barco, os meus agradecimentos), quando voltei a olhar já lá não estava ninguém. Uma voltinha a ver se os rapazes aparecem, não aparecem? chatice! Faz-se uma subidazinha lenta, com calma, a ver os cardumes que vão passeando pelas rochas a 4-5 metros de profundidade e volta-se ao barco.

Quando estou a passar o equipamento, os rapazes aparecem a saber se está tudo bem. Está, voltem lá ao mergulhinho que eu fico-me por aqui; até porque o colete precisa de ser afinado, está a disparar demasiado ar quando se puxa a traqueia e quando se enche não faz o habitual e reconfortante ruído de entrada de ar, parecendo antes um asmático a forçar respiração. Nestas ocasiões, mais vale jogar pelo seguro e abortar mesmo o mergulho - sem problemas de maior, ainda assim, porque o dia está bonito, a água está calma, dá para pôr a conversa em dia com a Isabel e perceber que, por exemplo, em Sesimbra o domingo passou a ser dia igualmente forte para a prática do mergulho quando antes era o sábado, e que há alunos de mergulho espanhóis que vêm acabar o curso a Sesimbra. Estava, aliás, um grupo a sair connosco no nosso barco e, quando eu abandonava o porto, outro a chegar para outra escola. E fico com a sensação que ainda há quem leve isto do mergulho não muito a sério, como o pessoal que apareceu sem saída marcada em cima da hora a ver se orientava um mergulhinho. É a diferença entre quem faz porque gosta mesmo e quem faz porque sim — e tenho a sensação que começa a haver muito quem faça porque sim. (Claro que também há quem o leve demasiado a sério.)

27 de agosto de 2005

POLAROID: BENFIQUISTA DESESPERADO (post interdito a menores de 18 anos)

Os gritos desesperados de um adepto benfiquista desesperado com a exibição com o Gil Vicente ecoam pela minha rua ao longo de toda a segunda parte, num acesso de masoquismo definido pelo elevadíssimo volume com que ele grita um reportório limitado mas significativo de injúrias à integridade dos jogadores e das suas progenitoras (essencialmente, variações à volta de "caralho", "cabrão" e "filho da puta"; a mais inventiva das invectivas, dirigida a um Mantorras que não dá uma para a caixa este ano, é "preto nojento", embora não creia na existência de um qualquer subtexto racista na sua criação).

Não é hábito que isto aconteça, mesmo em más exibições do Benfica.

PESQUISA

A propósito de um desafio, mergulho, absorto, na "História de Portugal" que José Mattoso dirigiu há 12 anos, mais especificamente no volume que Rui Ramos dedica ao período 1890-1930 — e, pasmado, descubro que a política portuguesa de 1890 em pouco ou nada difere da política portuguesa de 1890. A política e, adiante-se, muito do resto (porque, sim, há coisas que vão mudando, mas estas não fazem parte da lista). Não espanta que Eça de Queiroz continue a ter razão, cento e tal anos depois: há atavismos que não desaparecem.

26 de agosto de 2005

ALGUMAS COISAS NUNCA MUDAM

Junto ao Carrefour do Oeiras Parque, há uma dessas arcadas de jogos a que hoje em dia se chama pomposamente de «fun parks» e afins, cheia de gadgets sofisticadíssimos e máquinas electrónicas para se gastar tempo ao sabor de umas moedas. Mas qual é o único jogo que reúne à sua volta uma pequena multidão? A boa, velha e analógica... mesa de matraquilhos.

25 de agosto de 2005

A ELUCIDAÇÃO DO CONSUMIDOR

Ontem, pouco depois das 21h00, entro na loja de relógios A Máquina do Tempo, nas Amoreiras (onde comprei o relógio), e mostro à empregada (com aspecto de balconista do comércio tradicional, cabelo louro pintado como convém a uma senhora já na casa dos 50) o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." "Com certeza, mas só a partir do dia 2 de Setembro porque o fornecedor está de férias e antes disso não fazemos consertos. Nem nós nem nenhuma loja." Ah é? Muito obrigado e boa noite.

Hoje, às 13h30, entro na loja Colombus do Oeiras Parque e mostro à empregada o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." A empregada pega no relógio e abre uma gaveta. "Com certeza, deixe-me só ver se tenho pulseiras do mesmo modelo." 15 minutos depois, saio da loja com o relógio com uma pulseira nova.

24 de agosto de 2005

INSÓNIA

É só a mim que as insónias deixam impróprio para consumo no dia seguinte?

23 de agosto de 2005

MARKETING POLÍTICO v1.0

É muito curioso ver diariamente os outdoors da pré-campanha para as eleições autárquicas num concelho (Oeiras) onde não resido mas onde trabalho - e, se a coisa dependesse exclusivamente dos outdoors (que, evidentemente, não depende), Teresa Zambujo, candidata do PSD, já teria ganho a larga distância, com os cartazes legíveis, de imagem limpa e imediata, concentrando-se numa única mensagem com o retrato convenientemente positivista da candidata ao lado. Faltará, eventualmente, substância à coisa, mas à superfície é uma campanha eficaz.

Pelo contrário, os cartazes de Emanuel Martins, candidato do PS, são o mais extraordinário exemplo de "tiro no pé" que já vi, propagandeando "a mudança tranquila" com uma fotografia, no mínimo, pouco lisonjeadora para o perfil de "dinamismo e seriedade" que o candidato pretende explorar (e os cartazes com o seu "braço direito" Mário Lino ainda piores são) - dá vontade de dizer "a votar neste não me apanham!", ou, como comentava amiga minha, "o homem tem cara de dirigente de futebol" o que, em estenografia popular, não é necessariamente uma boa recomendação. Um bom consultor de imagem sabe como dar a volta a fisionomias menos fotogénicas...

Também aparecem de vez em quando uns quantos outdoors de Isabel Sande e Castro, do CDS-PP, mas são de difícil leitura para quem passa de carro, embora a fotografia posicione a candidata como uma figura de pose serena e maternal (um conceito interessante...).

Já os outdoors do independente Isaltino Morais — com um tipo de letra "futurista" que diz "Queremos ver Oeiras mais à frente" sob uma fotografia de conjunto que pretende simbolizar a abrangência da campanha do candidato — são dispersos e difusos, sem conseguirem projectar um conceito específico. Será que "querer ver Oeiras mais à frente" implica mudar-lhe as fronteiras para, por exemplo, Carcavelos ou São Pedro do Estoril? E, a assim ser, será que Carcavelos ou São Pedro do Estoril estão de acordo?

22 de agosto de 2005

OBRIGADO, JOÃO MACDONALD

"O Homem sem Qualidades" é o romance de uma vida inteira - as suas 1130 páginas (na tradução inglesa) correspondem a mais de uma década de trabalho deixado incompleto pela morte do seu autor, o escritor austríaco Robert Musil, em 1942. A primeira das três partes que compõem "O Homem sem Qualidades" vira edição em 1930 e a segunda em 1933, a instâncias do editor, cedência de que Musil mais tarde se arrependeria pela impossibilidade de voltar atrás e retrabalhar o que já fora publicado; a terceira parte viu edição póstuma em 1943 pelas mãos da viúva do autor, o que talvez explique a sensação de incompletude que a leitura deixa, como se Musil não tivesse verdadeiramente terminado a sua narração (alguns dos fios narrativos iniciados ficam por resolver). Incompletude que, contudo, em nenhum momento trava a convicção de estarmos aqui perante um objecto esmagador e inclassificável pelo assombroso microcosmos saído da criatividade do seu autor — muito embora não estejamos a falar, apenas, de ficção.

Porque "O Homem sem Qualidades" é a crónica do fim de um mundo — mais especificamente, do império austro-húngaro nos anos anteriores à I Guerra Mundial que destruiria de vez a "velha Europa" imperial, de uma aristocracia quase feudal — vista pelos olhos de Ulrich, diletante intelectual apanhado entre a aristocracia e a burguesia, que vagueia pela alta sociedade vienense e a observa com o distanciamento maçado de quem não sabe onde pertence nem o que procura. Sátira, ensaio, crónica, tudo passa pelas mil páginas deste verdadeiro roman-fleuve que passa da vivacidade de uma conversa de salão repleta de double-entendres à secura implacavelmente lógica e teutónica de uma dissertação teórica sobre o intangível, desenhando no processo o retrato perturbante de uma sociedade que parece ter-se tornado complexa demais para quem nela vive, que levanta mais questões do que aquelas que resolve àqueles que a observam atentamente.

De um humor subtilmente subversivo disfarçado de boutade de salão de fumo, de uma inteligência assustadoramente presciente, "O Homem sem Qualidades" acaba por ser um corte transversal da sociedade moderna — e não tenhamos a mínima dúvida da sua intemporalidade, porque a confusão que reina na "Kakania" (a mal disfarçada Áustria que Musil ficcionaliza muito ao de leve) é gémea e espelho da que reina nos nossos dias. O mundo moderno, no fundo, já foi inventado há um século e é isso que Musil nos diz: a história pode não se repetir, mas os seres humanos são arrepiantemente previsíveis.

Como Eça de Queiroz no seu tempo, Musil é um satirista humanista e melancólico, ciente de que tudo muda para que tudo fique igual — e momentos há neste roman-fleuve (e a comparação majestosa ao rio é apropriadíssima) que são perfeitamente aplicáveis aos nossos dias. Não é só isso o que há em "O Homem sem Qualidades" (que deverá voltar a estar disponível brevemente em tradução portuguesa por João Barrento). Porque este livro é, literalmente, um mundo, e nele poderemos encontrar toda a vida humana — para o bem e para o mal.

21 de agosto de 2005

COMO DISTINGUIR ENTRE A POESIA E A IDIOTICE

Without going into the finer distinctions between idiots and cretins, suffice it to say that an idiot of a certain degree is not up to forming the concept "parents", even though he has no trouble with the idea of "father and mother." This same simple additive, "and," was Meseritscher's device for relating social phenomena to one another. Another point about idiots is that in the basic concreteness of their thinking they have something that is generally agreed to appeal to the emotions in a mysterious way; and poets appeal directly to the emotions in very much the same way, insofar as their minds run to palpable realities. And so, when Friedel Feuermaul addressed Meseritscher as a poet, he could just as well — that is, out of the same obscure, hovering feeling, which, in his case, was tantamount to a sudden illumination — have called him an idiot, in a way that would have had considerable significance for all mankind. For the element common to both is a mental condition that cannot be spanned by far-reaching concepts, or refined by distinctions and abstractions, a mental state of the crudest pattern, expressed most clearly in the way it limits itself to the simplest of coordinating conjunctions, the helplessly additive "and," which for those of meager mental capacity replaces more intrincate relationships; and it may be said that our world, regardless of all its intellectual riches, is in a mental condition akin to idiocy; indeed, there is no avoiding this conclusion if one tries to grasp as a totality what is going on in the world.

- Robert Musil, in "The Man Without Qualities", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)