Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
9 de novembro de 2005
OUTONO
Atravesso a avenida da Liberdade pelo meio de uma vaga de folhas amareladas caídas das árvores, empurradas pelo vento num semicírculo perfeito. O tempo arrefeceu depressa.
7 de novembro de 2005
ATAVISMOS
Um governo que vai alternando entre dois partidos que acabam por não ser mais do que duas faces de uma única moeda; um povo que deixa de ter confiança nos políticos mas não se decide a pô-los fora; uma classe política que se perde em retóricas parlamentares do protesto quando não é a sua vez de estar no governo ou que faz gala de ser do contra porque sabe que nunca lá chegará.
Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Nem na rasteirice conseguimos ser originais.
Portugal, 2005? Não: Portugal no final do século XIX e até ao regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Nem na rasteirice conseguimos ser originais.
6 de novembro de 2005
ALGUMAS PESSOAS NAO FORAM FEITAS PARA TEREM FILHOS
Mãe tardia ou avó precoce? O rosto de quarentona tardia maquilhada, de cabelo pintado em permanente modernaça não engana quanto à idade, o tom de voz enrouquecida também não; o casaco cintado em falso leopardo, as calças de ganga beges, os sapatos pontiagudos de salto grosso contrastam com a T-shirt branca e as calças de ganga do miúdo com menos de dez anos que a acompanha e faz momices, correndo pelo restaurante, rebolando-se no banco, ajoelhando-se ao pé da mala da mãe, passando o máximo de tempo a cansar-se procurando em vão chamar a atenção da mãe. Mas esta, agarrada ao telemóvel onde troca mensagens por sms ou a atender ou a fazer chamadas, limita-se a ir dizendo numa voz muito maternal e colocada "ó João, venha cá e sente-se já à mesa", ou variações sobre esse tema, com o ar enfadado de quem não sabe para que serve um filho, ignorando completamente que a criança apenas está a pedir-lhe "olha para mim".
A METAFISICA DA RESSACA
Detesto tanto acordar ressacado (ou, pior ainda, acordar a meio da noite com uma necessidade irreprimível de chamar o Gregório, figura que me desagrada profundamente) e passar o dia seguinte em modo zombie que me controlo violentamente com a bebida. E, quando não me controlo, arrependo-me de tal maneira que juro para nunca mais.
4 de novembro de 2005
POLAROID: PEQUENO ALMOÇO
À mesa do pequeno almoço no café do costume, tenho na mesa ao lado um grupo de idosas que não fala apenas para si mas para toda a sala, falando das "doenças da visícula" enquanto admiram uma colcha com bordado de frutas.
2 de novembro de 2005
MTV EUROPE MUSIC AWARDS LISBOA 2005
Alguém me explica porque é que ando a ver há vários dias peças enormes nos noticiários televisivos sobre os prémios da MTV em Lisboa, com o tipo de destaque que habitualmente se dá a uma importante notícia social ou política? E porque é que são habitualmente peças deslumbradas em que se perguntam a estrelas pop internacionais com ar enfadado o que é que elas gostam em Portugal? E porque é que anda tudo tão histérico com estarem cá a Shakira e os Coldplay e a Madonna e o Robbie Williams quando eles já cá vieram todos tocar?
E AGORA, A VOSSA ATENÇAO
O serviço normal será retomado já em seguida. Obrigado pela atenção.
Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.
Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.
1 de novembro de 2005
SMS POR TELEVISAO INTERPOSTA
Mensagem vista na "barra" em movimento num dos programas de tarde da RTP-1, não me recordo agora do nome: "Se vires esta mensagem vai hoje a casa do tio. É urgente"
31 de outubro de 2005
O POVO E QUEM MAIS ORDENA
Ouvido esta tarde em frente à sede da candidatura do dr. Mário Soares à Presidência da República, nos Restauradores, pela voz de um cavalheiro que não deve ser muito mais novo que ele: "Esse Soares devia era estar num asilo, é que ele devia."
29 de outubro de 2005
MOMENTO ZEN
Um gato preto enroscado em cima do capot de um Volkswagen Golf bordeaux fita-me com os seus olhos verdes quando passo por ele.
FORA DE CONTROLE
Acho bem que se tenha alarme no carro. Já não acho tanta graça — eu e o resto da vizinhança, parece-me — quando os alarmes parecem disparar de livre e espontânea vontade, geralmente a horas muito pouco apropriadas, do género duas da manhã de um dia de semana ou nove da manhã de um fim-de-semana. Nos últimos dias, na minha rua, há um que tem disparado regularmente — e é particularmente irritante, porque dispara uma buzina metronómica durante alguns minutos que pára precisamente quando está a começar a ser um irritante sério... para recomeçar algum tempo depois durante mais alguns minutos.
27 de outubro de 2005
ELIZABETHTOWN
Já estava a desesperar de ver um grande filme (não-animado, entenda-se) nestes últimos meses. Foi hoje. Imperfeito, inacabado, descontrolado — e apenas maior por causa disso. Elizabethtown, de Cameron Crowe, é como a vida: não está, nunca, onde estamos à espera dele. Estreia a 10 de Novembro.
POLAROID: METRO
Na estação do Rato, estão a arranjar as escadas rolantes. Mas, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento desce em vez de subir, obrigando as pessoas a subir a pé o longuíssimo lanço de escadas. Um senhor levanta a questão ao técnico que está a reparar a escada, mas recebe apenas um abanar de cabeça com os braços abertos, como quem diz "tem razão, mas eu não posso fazer nada". Como para ilustrar o problema, chega um casal idoso que se vê forçado a subir a escada — o senhor é cego.
Mais à frente, um jovem não consegue que o seu cartão magnético abra a cancela de entrada. Quando, à terceira tentativa, o consegue, dá um murro no mecanismo enquanto entra.
Quando regresso, algumas horas depois, continuam a arranjar as escadas rolantes. E, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento continua a ser a que desce.
Mais à frente, um jovem não consegue que o seu cartão magnético abra a cancela de entrada. Quando, à terceira tentativa, o consegue, dá um murro no mecanismo enquanto entra.
Quando regresso, algumas horas depois, continuam a arranjar as escadas rolantes. E, como começa a ser hábito, a escada em funcionamento continua a ser a que desce.
25 de outubro de 2005
MOMENTO
Sentado num banco, numa das centrais da Avenida da Liberdade, faço tempo para uma projecção. Princípio de tarde. Temperatura amena. Brisa leve. Folhas que caem lentamente das árvores onde bolas prateadas estão suspensas . Gente e trânsito que atravessa a rua. O mundo pára, por cinco minutos.
This chord
This water
This son
This daughter
This day
This time
This land
It's all mine
This Calling Bell
This Forge Bell
This Dark Bell
This The Knife Bell
This calling
This burden
This falling
The world's turning
This What I thought I knew
This What I thought was true
This I understood
This In the deep wood
This Ah there I stood a child so fair
This On a certain square
This Down the dirty stairs
This To see the table set
This With golden chairs
This Ah to follow, follow, follow, follow there
This race
And this world
This feeling
And this girl
This revolver
This fire
This I'll hold it up higher, higher, high
— Brian Eno, "This", in "Another Day on Earth" (Hannibal, 2005)
This chord
This water
This son
This daughter
This day
This time
This land
It's all mine
This Calling Bell
This Forge Bell
This Dark Bell
This The Knife Bell
This calling
This burden
This falling
The world's turning
This What I thought I knew
This What I thought was true
This I understood
This In the deep wood
This Ah there I stood a child so fair
This On a certain square
This Down the dirty stairs
This To see the table set
This With golden chairs
This Ah to follow, follow, follow, follow there
This race
And this world
This feeling
And this girl
This revolver
This fire
This I'll hold it up higher, higher, high
— Brian Eno, "This", in "Another Day on Earth" (Hannibal, 2005)
24 de outubro de 2005
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #35
Ter que programar os canais manualmente no televisor porque a busca automática programa tudo nos números errados.
23 de outubro de 2005
NAO OLHES PARA TRAS (#1000)
Há canções que só o tempo desvenda.
when you're nothing to no one
and you're less than your kin
and you're looking for someone
who won't cling to anything
so you're stuck in some motel
with the sound of her sleeping
don't you feel kind of old now?
well, ain't that a funny thing
I used to wake up early
I used to try to believe
but life seems never ending
when you're young
so you're back on the highway
and there's wind in her hair
and you know that it's no time for thinking
about somebody up there
because you'll turn her to drinking
and you'll lead her to hell
with her Bible beside her
she surely looks like an angel
I used to wake up early
I used to try to believe
but faith is never easy
when you're young
I used to wake up early
now it's hard, hard enough to sleep
but life seems never ending
when you're young.
— Lloyd Cole, "Don't Look Back", in "Lloyd Cole" (Polydor, 1990)
when you're nothing to no one
and you're less than your kin
and you're looking for someone
who won't cling to anything
so you're stuck in some motel
with the sound of her sleeping
don't you feel kind of old now?
well, ain't that a funny thing
I used to wake up early
I used to try to believe
but life seems never ending
when you're young
so you're back on the highway
and there's wind in her hair
and you know that it's no time for thinking
about somebody up there
because you'll turn her to drinking
and you'll lead her to hell
with her Bible beside her
she surely looks like an angel
I used to wake up early
I used to try to believe
but faith is never easy
when you're young
I used to wake up early
now it's hard, hard enough to sleep
but life seems never ending
when you're young.
— Lloyd Cole, "Don't Look Back", in "Lloyd Cole" (Polydor, 1990)
22 de outubro de 2005
LAR DOCE LAR
É tudo muito bonito andar para aí a elogiar a santidade da família, a importância dos laços de sangue e todas essas coisas, mas há uma coisa de que toda a gente se esquece — é que a família não conhece apenas os nossos lados bons, mas também os nossos lados maus. E nunca perde uma oportunidade de no-lo recordar — o que, convenha-se, nem sempre é do melhor tom.
21 de outubro de 2005
O ESTADO DAS COISAS
19 de outubro de 2005
O JARDIM SECRETO
Apetece lá voltar, sempre que as pessoas são complicadas. E não há, de todo, motivo para que o sejam — a não ser porque o querem.
(Sim, também vale para mim.)
(Sim, também vale para mim.)
18 de outubro de 2005
AQUI E AGORA
Esta canção desculpa tudo o que de menos bom Cassandra Wilson fez na vida. (E desculpem qualquer coisinha se já vo-la tiver vendido algures nos quase dois anos que este blog já leva.)
did you ever love somebody?
did you ever really care?
did you ever need somebody
just to rub your hair
all the energy we spend on motion
all the circuitry and time
is there any way to feel a body
through fiber optic lines?
everybody's going through the motions
got their heads up or down
no one seems to want to see the other person's eyes
reflect the world go 'round
everybody seems to want to get away to some place
get away from themselves
I got a feeling if they found that some place
they'll want to go some place else
do we really want to go to Mars?
do we ever really want to try?
I got a funny feeling if we get up there
we're gonna stop and wonder why
don't you want to be right here
right now?
— Cassandra Wilson, "Right Here, Right Now" (Cassandra Wilson/Marvin Sewell) in "Traveling Miles" (Blue Note, 1999)
did you ever love somebody?
did you ever really care?
did you ever need somebody
just to rub your hair
all the energy we spend on motion
all the circuitry and time
is there any way to feel a body
through fiber optic lines?
everybody's going through the motions
got their heads up or down
no one seems to want to see the other person's eyes
reflect the world go 'round
everybody seems to want to get away to some place
get away from themselves
I got a feeling if they found that some place
they'll want to go some place else
do we really want to go to Mars?
do we ever really want to try?
I got a funny feeling if we get up there
we're gonna stop and wonder why
don't you want to be right here
right now?
— Cassandra Wilson, "Right Here, Right Now" (Cassandra Wilson/Marvin Sewell) in "Traveling Miles" (Blue Note, 1999)
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