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25 de setembro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #33

Pessoal que, quando vê o seu carro impossibilitado de sair por outro tipo que estacionou mal, desata a buzinar ininterruptamente a ver se o dono aparece. Isto é perfeitamente compreensível durante as horas de expediente. Às duas e meia da manhã, dá vontade de pegar em todo o tipo de objectos que possam fazer mossa, ir à janela e atirá-los ao buzinador em questão, porque por mais simpatia que possa haver para com o seu problema, a maior parte das pessoas que estão a dormir a sono solto não têm culpa nenhuma da questão. Quem estacionou mal não teve civismo nenhum, certamente, mas não se pode dizer que acordar a vizinhança às duas e meia da manhã para poder entrar ou sair com o carro seja um exemplo de civismo.

22 de setembro de 2005

POLAROID: SANTA APOLONIA, 09h00

Junto ao Lux, pelo meio do trânsito matinal, um mendigo empurra um carrinho de supermercado cheio de coisas, parando de vez em quando para apanhar um ou outro despojo do chão. A esta distância, não se percebe bem o que ele empurra. Mas percebe-se muito bem que tem um gato empoleirado na cabeça protegida pelo que parece ser um capacete de obras. E o gato mantém-se, retesado e atento, mas perfeitamente equilibrado, mesmo quando o mendigo se agacha para apanhar qualquer coisa do chão.

21 de setembro de 2005

A EFICIÊNCIA DO SERVIÇO AOS CLIENTES (post que contém linguagem eventualmente chocante)

Marquei para esta tarde uma visita da TV Cabo para verem o que se passa com alguns canais que recebo com interferências e chuva. A visita ficou marcada entre as 14h00 e as 15h30 mas, chegado às 15h40, ainda ninguém tinha aparecido, pelo que não fui de modas e voltei a ligar para protestar porque ninguém apareceu. Registada a queixa, ligam-me às 18h30 a dizer que me tinham tocado à porta às 14h15 e que eu não tinha atendido, ao que lhe respondi que era impossível porque eu estava em casa e ninguém me tocou à porta, após o que confirmei a minha morada e o meu telemóvel. Depois das habituais conversas se eu não queria remarcar etc., disse-lhes que depois telefonaria a remarcar já que tenho mais que fazer na vida do que perder tempo à espera da TV Cabo. Às 22h30 voltam-me a ligar da TV Cabo, a dizer que me tinham tocado à porta às 14h00 e que eu não tinha atendido e que me tinham tentado ligar e eu não respondi, ao que expliquei que ninguém me tinha tocado à porta porque eu estava em casa, e que ninguém me tinha telefonado porque não recebi chamada nenhuma nesse período de tempo, e se tivesse recebido e não tivesse atendido o meu telemóvel teria registado.

Não teria sido mais simples terem vindo fazer a puta da visita do que terem-me feito perder o meu tempo e, depois, perdido tempo e dinheiro a telefonar-me duas vezes a tentarem culpar-me da incompetência dos seus serviços?

Foda-se! Dá vontade de desistir do serviço. E eu já não estava bem disposto antes.

A PROPÓSITO DA MANCHETE DE HOJE DO JORNAL 24 HORAS

A questão importante não é que existam fotos de Lili Caneças nua.

A questão importante é porque é que alguém estaria interessado em vê-las.

20 de setembro de 2005

QUE PENA QUE PAULO PORTAS JÁ NÃO SEJA MINISTRO DA DEFESA

Estou absolutamente certo que ele veria o reality-show da TVI "1ª Companhia" como uma excelente campanha de recrutamento para as Forças Armadas.

FLASHES

Um pai irritado, com o carro mal parado em frente a um corrimão, grita com a filha menina que está a tentar entrar para o carro trepando ao corrimão em vez de o contornar. "Entra depressa!"

Uma bola medicinal amarela percorre uma linha recta perfeita por entre os colchões de espuma azul sobre o soalho azulado do ginásio.

O estrondo do televisor da sala quando cai brutalmente no chão em cima do écrã, tudo por causa de um fio de coluna preso no rodízio do móvel. (Não se partiu. It's a Sony.)

19 de setembro de 2005

SENTIDO DE HUMOR

É uma coisa muito importante. Marques Mendes tem-no quando se identifica aos alunos de uma escola de Benfica como o boneco do "Contra-Informação" que diz "Ganda nóia, chefe". Ora aqui está um tipo que não tem tabu.

POLAROID: LOJA DE CONVENIÊNCIA

A senhora, quarentona bem vestida de cabelo platinado, está ao balcão à espera que o miúdo dos seus seis-sete anos com quem está tire o gelado da arca. "Ó Pedro Maria, traga cá o gelado. Tem certeza que é este que quer?" O miúdo faz que sim enquanto lhe entrega um Magnum de amêndoas. A senhora entrega uma nota de 20 euros para pagar o gelado, um pacote de fraldas e "um Português Suave, se faz favor". O telemóvel toca enquanto espera o troco e ela atende-o, mantendo-se à conversa enquanto recebe o troco e pega no saco. O miúdo está encostado ao balcão à espera que ela se afaste, com uma nota de cinco euros na mão. A empregada pergunta-lhe "sim?" e ele responde "Não, estou só à espera de pagar à minha tia." "Oh Pedro Maria," diz a tia desligando o telemóvel, "eu já lhe paguei o gelado."

18 de setembro de 2005

ENTRADA POR SAÍDA

A sala está a meia casa para a sessão de cinema das sete. Não há telemóveis a tocar, nem bocas foleiras de adolescentes armados em engraçados — mas há, isso sim, um grupo de adolescentes que passam o filme todo a entrar e a sair da sala por turnos. Para ir à casa de banho? Para ir comprar pipocas ou bebidas? Não sei. Não incomodaram. Mas faz-me espécie que há quem vá ao cinema para não ficar quieto na cadeira a ver o filme.

17 de setembro de 2005

CRISE? QUAL CRISE?

Sábado, 12h30, IKEA Alfragide — Portugal não tem dinheiro, o crédito mal parado nunca esteve tão alto, o país está a braços com uma seca histórica, depauperado por um Verão de incêndios, desiludido com um governo desacreditado. E o IKEA está cheio de gente que passeia, tira medidas, atira objectos para os sacos amarelos, enche carrinhos de compras com móveis, faz fila nas caixas de saída.

Sábado, 16h00, SIC Notícias — numa peça noticiosa sobre a manifestação do PNR contra a emissão do programa "Esquadrão G", um dos cinco apresentadores do programa diz que, num país onde há fome, miséria, seca, incêndios, que se faça uma manifestação pública contra a homossexualidade é não ter a noção das coisas.

Sábado, 18h30, casa dos meus pais — a minha mãe interrompe repetidamente o meu pai enquanto este narra, da sua maneira complicada, a discussão parlamentar sobre a dissolução da Alta Autoridade para a Comunicação Social e as propostas do governo para a entidade que a substituirá, com especial atenção ao discurso de Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda. A minha mãe insurge-se contra o que ela diz ser o regresso da censura, antes de se insurgir contra a prestação televisiva de Manuel Maria Carrilho no debate das autárquicas de Lisboa, que ela acha digna de uma pessoa mal educada e sem maneiras. Enquanto isso, a Sport TV passa o jogo da Liga Inglesa entre o Aston Villa e o Tottenham.

É assim Portugal, em Setembro de 2005.

POLAROID

Tomo um pequeno almoço tardio no café da IKEA (sumo de laranja natural e um croissant com recheio), sentado num banco alto. À minha frente, numa mesa, um grupo de cinco pessoas almoça em amena conversa. As duas mulheres sentadas de costas para mim dão uma garfada na comida que têm no prato, e logo a seguir trocam garfadas dos respectivos pratos. Penso que estão a dar a provar à outra o que estão a comer, mas, após a garfada seguinte, voltam a trocar garfadas. Entre risos, o casal que está sentado à sua frente também passa a refeição a trocar garfadas.

16 de setembro de 2005

TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS ETC

Que dizia eu? O nariz já pinga, o espirro já ameaça, a garganta já aclarou, o calor febril começa a passar. Tenho de me lembrar de comprar lenços de papel.

15 de setembro de 2005

TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS QUANDO ESTÃO COM GRIPE

Provavelmente estou a repetir-me, mas detesto a inflamação de garganta e a sensação de calor que me anuncia a chegada de uma constipação (o termómetro não indica febre), que me faz ter problemas a engolir (sobretudo líquidos) nas primeiras horas. E já sei que ao fim de 24 horas de garganta irritada, há um ou dois espirros fortes, a garganta começa a desanuviar e o vírus matreiro sobe ao nariz, onde se instala por alguns dias de armas e bagagens, bloqueando as sínus e fazendo-me assoar mais vezes do que as que seriam desejáveis ao dia. (Ainda por cima, eu estava numa de escrever logbook este fim-de-semana; lá terá de ficar para outro dia).

14 de setembro de 2005

12 de setembro de 2005

VITAMINA



Gosto do primeiro disco dos Mesa — "Mesa", Zona, 2003 — porque sinto ali uma tensão não resolvida entre o yin e o yang, entre o apetite de uma pop linear e a vontade de a deixar incompleta, desconstruida, em esboço. Como se os Três Tristes Tigres (com quem João Pedro Coimbra tocou; e Alexandre Soares andava por ali a produzir) tivessem um gémeo pop relutante.

Gosto do segundo disco dos Mesa — "Vitamina", Capitol/EMI, 2005, acabado de editar — mas gosto menos do que do primeiro disco dos Mesa, porque sinto que na maior parte das canções a tensão foi resolvida em favor da pop linear. Há uma extraordinária canção incompleta, desconstruída, em esboço: "Fado Lunar", logo a abrir. Há uma extraordinária canção linear — "Vitamina" — que é genialmente sabotada por dentro pelo contraste entre as transcendentes guitarras líquidas de Jorge Coelho (porque raio este gajo não grava mais?) e as programações rígidas de João Pedro Coimbra. O resto são boas canções pop, com letras de uma rara densidade e de um prazer da língua como não existe na pop cantada em português, sensualmente cantadas por Mónica Ferraz — mas eu sempre esperei que os Mesa fossem mais do que apenas uma banda pop. "Vitamina", a canção, explica o que há de bom e o que vai mal nos Mesa 2005.

sou a doença e também a cura.
sou um mal que perdura,
vitamina que não actua.
speed que não fissura a razão,
tal e qual assim.
porque é assim que eu me revejo:
maltratada, disseminada.

pelo mal que fiz,
mereço não ser lembrada.
perder o apetite,
ser fulminada.

estes são os dias em que nada bate certo.
não me sinto forte e o futuro é incerto.
olha! é assim: sem palavras, não há cura.
e o meu coração bate à sorte, à sorte.

eu não sei o que me demora.
não há nada de novo em mim.
não sei o que me falta agora.
talvez seja ir embora.

estes são os dias em que nada bate certo.
não me sinto forte e o futuro é incerto.
olha! é assim: sem palavras, não há cura.
e o meu coração bate à procura.

11 de setembro de 2005

POLAROID: EL CORTE INGLÉS

Entro no elevador no piso dos cinemas para descer à segunda cave de estacionamento; à minha frente entra um jovem negro, com o uniforme de camisa e gravata de empregado dos armazéns, que empurra um carrinho de supermercado cheio de sacos, e uma senhora de meia-idade, bem arranjada, cabelo pintado de louro, que carregam no botão do segundo piso antes de eu poder carregar para a cave. Subo, por isso, com eles e assisto à senhora a perguntar ao empregado sobre o país de onde é originário, procurando ser paternalisticamente politicamente correcta, dizendo que "ainda conheço Maputo como Lourenço Marques... não sei como é que chamam à cidade na vossa língua, no vosso dialecto", enquanto o jovem afixa o seu melhor sorriso nº 1 para o cliente sem responder verdadeiramente às perguntas que a senhora vai fazendo. Sente-se o desconforto na pequena cabina do elevador.

HÁ LUGARES MARCADOS

O empregado da bilheteira do cinema pergunta-me se tenho preferência pelo lugar na sala. Pergunto se os lugares são marcados; responde-me que sim; digo-lhe que, uma semana antes, tinha ido exactamente ao mesmo complexo e os lugares não eram marcados; responde-me que "em Agosto os lugares nunca são marcados" (apesar de eu ter ido já em Setembro) e volta-me a perguntar se tenho preferência pelo lugar. O papelinho que me entrega diz "fila 9, cadeira 10".

Contando comigo, estão cinco pessoas numa sala que leva 150, numa sessão das sete da tarde de um sábado, e não há nenhum arrumador para me indicar o lugar.

8 de setembro de 2005

NOVOS DESENVOLVIMENTOS NA ARTE DE ANGARIAR DINHEIRO NO METROPOLITANO DE LISBOA

Ontem, na linha azul, um pedinte cego canta a sua lenga-lenga a solicitar ajuda dos passageiros... em rap, acelerando e desacelerando o ritmo a que entoa as palavras, com um apuradíssimo sentido de ritmo marcado com palmas e com toques da bengala (no beat certo) nos varões de metal.

Hoje, na linha verde, os já proverbiais acordeonistas introduzem um novo elemento no seu duo: um saco de compras com rodas modificado para transportar um pequeno amplificador com um leitor de CDs preso em cima, que um dos acordeonistas encosta ao varão de metal dispara assim que o comboio arranca para tocar (mal) em dueto com a pista rítmica pré-gravada. Não se pode dizer que a coisa resulte: a carruagem vai cheia, mas assim que topam o que se passa as pessoas afastam-se e deixam os acordeonistas sozinhos, sem ninguém à sua volta.

7 de setembro de 2005

SILLY SEASON

Teoricamente, a "silly season" devia estar a dar as últimas. Mas, quando ouço no noticiário televisivo da noite que Pedro Santana Lopes abdicou da presidência da Câmara Municipal de Lisboa para não perder o seu lugar de deputado (que, de qualquer maneira, vai suspender pelo período mínimo); que Marques Mendes reuniu com os "parceiros sociais" e concluiu que Portugal está à beira da recessão; e que o Presidente Sampaio apelou à valorização do historial de serviço prestado aos contribuintes pelos funcionários públicos, pergunto-me se não estará antes apenas a começar.