Ontem, na linha azul, um pedinte cego canta a sua lenga-lenga a solicitar ajuda dos passageiros... em rap, acelerando e desacelerando o ritmo a que entoa as palavras, com um apuradíssimo sentido de ritmo marcado com palmas e com toques da bengala (no beat certo) nos varões de metal.
Hoje, na linha verde, os já proverbiais acordeonistas introduzem um novo elemento no seu duo: um saco de compras com rodas modificado para transportar um pequeno amplificador com um leitor de CDs preso em cima, que um dos acordeonistas encosta ao varão de metal dispara assim que o comboio arranca para tocar (mal) em dueto com a pista rítmica pré-gravada. Não se pode dizer que a coisa resulte: a carruagem vai cheia, mas assim que topam o que se passa as pessoas afastam-se e deixam os acordeonistas sozinhos, sem ninguém à sua volta.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
8 de setembro de 2005
7 de setembro de 2005
SILLY SEASON
Teoricamente, a "silly season" devia estar a dar as últimas. Mas, quando ouço no noticiário televisivo da noite que Pedro Santana Lopes abdicou da presidência da Câmara Municipal de Lisboa para não perder o seu lugar de deputado (que, de qualquer maneira, vai suspender pelo período mínimo); que Marques Mendes reuniu com os "parceiros sociais" e concluiu que Portugal está à beira da recessão; e que o Presidente Sampaio apelou à valorização do historial de serviço prestado aos contribuintes pelos funcionários públicos, pergunto-me se não estará antes apenas a começar.
ESTATÍSTICA FELINA MATINAL
Número de gatos presente no telhado da arrecadação visível da janela do meu quarto hoje, quarta-feira, 7 de Setembro, às 09h06 da manhã: seis, dos quais dois gatinhos.
6 de setembro de 2005
É BOM VIVER EM PORTUGAL
A porta do meu prédio tinha os vidros partidos desde 30 de Abril. Os vidros foram finalmente substituídos hoje, 6 de Setembro.
O meu autoclismo deu o berro definitivamente a 24 de Julho, quando o manípulo da torneira de segurança deu a alma ao criador (felizmente na posição de "fechado"). O autoclismo foi retirado da minha casa de banho a 25 de Agosto. O novo autoclismo foi instalado hoje, 6 de Setembro (sei que estamos em poupança de água, e de facto um bom alguidar surte o mesmo efeito com menos água, mas ainda assim).
O meu médico de família sugere-me que eu veja um fisioterapeuta por causa do meu joelho que inflamou em Maio e tem dado sinais de vez em quando, mas não pude trazer a credencial para o fisioterapeuta ontem, segunda-feira, 5 de Setembro, porque "o director" do posto médico não estava. Tenho de a ir lá buscar quinta-feira, 8 de Setembro, à tarde (a administrativa garantiu que estava lá; a ver vamos, depois de ontem ter estado 20 minutos e 16 senhas à espera de carimbar uma credencial que nem sequer pude trazer comigo).
O meu autoclismo deu o berro definitivamente a 24 de Julho, quando o manípulo da torneira de segurança deu a alma ao criador (felizmente na posição de "fechado"). O autoclismo foi retirado da minha casa de banho a 25 de Agosto. O novo autoclismo foi instalado hoje, 6 de Setembro (sei que estamos em poupança de água, e de facto um bom alguidar surte o mesmo efeito com menos água, mas ainda assim).
O meu médico de família sugere-me que eu veja um fisioterapeuta por causa do meu joelho que inflamou em Maio e tem dado sinais de vez em quando, mas não pude trazer a credencial para o fisioterapeuta ontem, segunda-feira, 5 de Setembro, porque "o director" do posto médico não estava. Tenho de a ir lá buscar quinta-feira, 8 de Setembro, à tarde (a administrativa garantiu que estava lá; a ver vamos, depois de ontem ter estado 20 minutos e 16 senhas à espera de carimbar uma credencial que nem sequer pude trazer comigo).
5 de setembro de 2005
PORTUGAL É ASSIM:
É perder duas horas no posto médico, entre senhas, números de ordem e tempos de espera, para uma consulta de rotina que não leva mais de dez minutos, e ter de aturar no processo:
- as administrativas que fazem o que podem durante o horário de trabalho e têm de aturar as matronas resmungonas que compõem a maior parte da "clientela"
- as administrativas que tentam resolver os problemas das pessoas e não conseguem por não terem poderes para isso, que estão todos nas mãos do "director"
- as matronas resmungonas que parecem ter especial prazer em encontrar motivos e razões para resmungar, desde ser inadmissível esperar tanto tempo para pôr um selo numa receita a não perceberem porque é que há tanta gente sem trabalho e não há gente suficiente para resolver estas questões
- as enfermeiras que têm de se dividir por vários andares porque só está uma de serviço e não chega para atender a toda a gente que hoje, talvez por ser segunda-feira e princípio do mês, se decidem a aparecer de rajada
- os senhores e senhoras de meia-idade que trocam histórias de doenças como quem fala do tempo ou das notícias do jornal.
- as administrativas que fazem o que podem durante o horário de trabalho e têm de aturar as matronas resmungonas que compõem a maior parte da "clientela"
- as administrativas que tentam resolver os problemas das pessoas e não conseguem por não terem poderes para isso, que estão todos nas mãos do "director"
- as matronas resmungonas que parecem ter especial prazer em encontrar motivos e razões para resmungar, desde ser inadmissível esperar tanto tempo para pôr um selo numa receita a não perceberem porque é que há tanta gente sem trabalho e não há gente suficiente para resolver estas questões
- as enfermeiras que têm de se dividir por vários andares porque só está uma de serviço e não chega para atender a toda a gente que hoje, talvez por ser segunda-feira e princípio do mês, se decidem a aparecer de rajada
- os senhores e senhoras de meia-idade que trocam histórias de doenças como quem fala do tempo ou das notícias do jornal.
4 de setembro de 2005
ÂNCORAS
Há sítios que julgamos conhecer de trás para a frente, de cor e salteado. Mas basta passar num sinal, num cruzamento, e vê-los de outro ângulo, de outro ponto, para sentir que estamos perdidos quando não estamos, para deixar de reconhecer tudo, quando nunca saímos do mesmo sítio.
3 de setembro de 2005
LOGBOOK #32: A INEXPLICÁVEL INTIMIDAÇÃO
Cabo Espichel: Riva Gurara, sábado, 3 de Setembro, 11h22: 24.5m, 19 min, 18º C
Persistência, diz-me a Isabel enquanto espero que o equipamento seque mais um pouco para o arrumar na mala do carro — persistência, e, acho eu também, um pouco mais de calma, de auto-confiança. É tudo uma questão psicológica: não é a primeira vez que mergulho no Riva Gurara, o cargueiro nigeriano que naufragou ao largo do Cabo Espichel, nem é a primeira vez que me intimido com a sua profundidade nem com as condições de mergulho. Ao início disto de mergulhar, há uns anitos largos, o Riva assustava-me; primeiro pelo totoloto que implicava apanhar quase sempre mar agitado, numa altura em que não existiam as pulseirinhas mágicas e eu enjoava significativamente no barco (alguns mergulhos ficaram mesmo por fazer devido a esse mal-estar hoje minimizado); depois porque era o mergulho mais profundo que Sesimbra possibilitava (na cota mais baixa, entre os 18 e os 25 metros, junto ao hélice; na cota mais funda, junto à proa, 32) e, para mim, tornou-se no exemplo do "mergulho difícil" ou "puxado". Mesmo que, das duas vezes que lá mergulhei no último ano e meio (o "mergulho em naufrágio" do curso avançado e um mergulho posterior), tudo tenha corrido bem, a intimidação continua presente.
Hoje, contudo, as condições são perfeitas, numa conjugação de circunstâncias que leva a que, ao largo das falésias, umas milhas antes do Cabo Espichel, o mar esteja chão, quieto, estanhado, pela primeira vez neste spot nos oito anos e quase 80 mergulhos que levo. O Rui, um dos divemasters do centro, está a bordo e vai mergulhar com o grupo simpático que se formou misturando veteranos e mergulhadores menos experientes, e largamos o ferro mesmo em cima da hélice. A descida faz-se pelo cabo por entre as bolhas dos mergulhadores de outros barcos que ali passeiam, a visibilidade está para cima dos dez metros (há quem fale de 18 metros, à saída do mergulho, podendo ver os destroços da superfície).
Chegado lá a baixo, tudo começa bem; páro para ajustar melhor o equipamento, o colete funciona na perfeição depois de uma ligeira revisão à traqueia e à válvula, o Rui começa-nos a mostrar os destroços do navio; a minha lanterna varre o interior de algumas chapas. Mas há alguma corrente no fundo, e o esforço acrescido à respiração acaba por me cansar depressa, enquanto o Rui toma a liderança do nosso trio com o Luís.
Levamos 10 minutos de mergulho, faço-lhe sinal para não ir tão depressa, páro, agarro-me a uma chapa bem fixa para recuperar a respiração, sem pressas; o Rui pergunta-me se quero subir, faço-lhe sinal para esperar, decido que é melhor, estou demasiado stressado sem ter razão para isso. Faço-lhe que sim e agarro-lhe a mão para garantir que ele não nada mais depressa do que eu. Seguimos para o cabo para voltarmos a subir e fazemos uma subida pelo cabo, autêntica subida de manual, lenta, pausada, metro a metro, sempre a controlar o computador, em perfeita compensação, com um breve patamar aos cinco metros.
Cá em cima, o computador dá-me 19 minutos de mergulho (provavelmente 15 minutos "limpos" de tempo de fundo, muito mais do que eu estava à espera; tenho 110 bares à chegada à superfície dos 210 com que desci, sinal de que, mesmo stressado, mantive uma respiração normalíssima), o Rui explica-me que o Luís tinha respirado muito depressa e já estava nos 60 bares quando subimos pelo que teríamos subido de qualquer maneira. Ainda na água faço um debriefing pormenorizadíssimo, tanto para o Rui como para mim: estive sempre tranquilo, nunca entrei em pânico, e abortei o mergulho em plena consciência, porque, quando passo mais tempo a controlar o ar e a profundidade do que a desfrutar do que me rodeia, o prazer desvanece-se. E é pelo prazer que eu faço isto.
Persistência? Antes calma e paciência para ultrapassar a inexplicável intimidação. O mergulho do Riva em si não é difícil, ainda há algumas semanas, nas Berlengas, fiz um mergulho muito semelhante (o Primavera, a 22 metros) sem problemas, e muita gente com menos anos disto do que eu fá-lo sem problemas. É uma questão de tempo e experiência até me sentir tão à vontade aqui como na Ponta da Passagem. E o dia estava tão fantástico que só a viagem de barco (com peixes não identificados a saltar na água quase ao pé de nós) fica na memória.
Persistência, diz-me a Isabel enquanto espero que o equipamento seque mais um pouco para o arrumar na mala do carro — persistência, e, acho eu também, um pouco mais de calma, de auto-confiança. É tudo uma questão psicológica: não é a primeira vez que mergulho no Riva Gurara, o cargueiro nigeriano que naufragou ao largo do Cabo Espichel, nem é a primeira vez que me intimido com a sua profundidade nem com as condições de mergulho. Ao início disto de mergulhar, há uns anitos largos, o Riva assustava-me; primeiro pelo totoloto que implicava apanhar quase sempre mar agitado, numa altura em que não existiam as pulseirinhas mágicas e eu enjoava significativamente no barco (alguns mergulhos ficaram mesmo por fazer devido a esse mal-estar hoje minimizado); depois porque era o mergulho mais profundo que Sesimbra possibilitava (na cota mais baixa, entre os 18 e os 25 metros, junto ao hélice; na cota mais funda, junto à proa, 32) e, para mim, tornou-se no exemplo do "mergulho difícil" ou "puxado". Mesmo que, das duas vezes que lá mergulhei no último ano e meio (o "mergulho em naufrágio" do curso avançado e um mergulho posterior), tudo tenha corrido bem, a intimidação continua presente.
Hoje, contudo, as condições são perfeitas, numa conjugação de circunstâncias que leva a que, ao largo das falésias, umas milhas antes do Cabo Espichel, o mar esteja chão, quieto, estanhado, pela primeira vez neste spot nos oito anos e quase 80 mergulhos que levo. O Rui, um dos divemasters do centro, está a bordo e vai mergulhar com o grupo simpático que se formou misturando veteranos e mergulhadores menos experientes, e largamos o ferro mesmo em cima da hélice. A descida faz-se pelo cabo por entre as bolhas dos mergulhadores de outros barcos que ali passeiam, a visibilidade está para cima dos dez metros (há quem fale de 18 metros, à saída do mergulho, podendo ver os destroços da superfície).
Chegado lá a baixo, tudo começa bem; páro para ajustar melhor o equipamento, o colete funciona na perfeição depois de uma ligeira revisão à traqueia e à válvula, o Rui começa-nos a mostrar os destroços do navio; a minha lanterna varre o interior de algumas chapas. Mas há alguma corrente no fundo, e o esforço acrescido à respiração acaba por me cansar depressa, enquanto o Rui toma a liderança do nosso trio com o Luís.
Levamos 10 minutos de mergulho, faço-lhe sinal para não ir tão depressa, páro, agarro-me a uma chapa bem fixa para recuperar a respiração, sem pressas; o Rui pergunta-me se quero subir, faço-lhe sinal para esperar, decido que é melhor, estou demasiado stressado sem ter razão para isso. Faço-lhe que sim e agarro-lhe a mão para garantir que ele não nada mais depressa do que eu. Seguimos para o cabo para voltarmos a subir e fazemos uma subida pelo cabo, autêntica subida de manual, lenta, pausada, metro a metro, sempre a controlar o computador, em perfeita compensação, com um breve patamar aos cinco metros.
Cá em cima, o computador dá-me 19 minutos de mergulho (provavelmente 15 minutos "limpos" de tempo de fundo, muito mais do que eu estava à espera; tenho 110 bares à chegada à superfície dos 210 com que desci, sinal de que, mesmo stressado, mantive uma respiração normalíssima), o Rui explica-me que o Luís tinha respirado muito depressa e já estava nos 60 bares quando subimos pelo que teríamos subido de qualquer maneira. Ainda na água faço um debriefing pormenorizadíssimo, tanto para o Rui como para mim: estive sempre tranquilo, nunca entrei em pânico, e abortei o mergulho em plena consciência, porque, quando passo mais tempo a controlar o ar e a profundidade do que a desfrutar do que me rodeia, o prazer desvanece-se. E é pelo prazer que eu faço isto.
Persistência? Antes calma e paciência para ultrapassar a inexplicável intimidação. O mergulho do Riva em si não é difícil, ainda há algumas semanas, nas Berlengas, fiz um mergulho muito semelhante (o Primavera, a 22 metros) sem problemas, e muita gente com menos anos disto do que eu fá-lo sem problemas. É uma questão de tempo e experiência até me sentir tão à vontade aqui como na Ponta da Passagem. E o dia estava tão fantástico que só a viagem de barco (com peixes não identificados a saltar na água quase ao pé de nós) fica na memória.
2 de setembro de 2005
POLAROID: JUVENTUDE DOURADA
À porta da loja de conveniência, um grupo de adolescentes bronzeados, de calções e T-shirts, está sentado no lancil. Tapam uma das portas de acesso enquanto um outro faz oitos no passeio com uma bicicleta. Um deles tem uma viola acústica na qual começa a dedilhar uma melodia. São seis da tarde.
1 de setembro de 2005
ENGAGE
Dou o passo em frente. A partir de hoje, sou colaborador do Público/Y. A partir de hoje, reaprendo uma disciplina de escrita que já tive e que as exigências do cargo prévio me levaram a descurar excessivamente. A partir de hoje, são, outra vez, as palavras que comandam. A partir de hoje, tudo muda. Era tempo.
31 de agosto de 2005
DISENGAGE
Fecha-se hoje um ciclo profissional na minha vida, com a minha saída definitiva do Blitz, ao fim de 12 anos de colaboração em várias qualidades. Percebo-o hoje, a "mudança de casa" estava já atrasada — as coisas devem durar o tempo certo, e por vezes deixo que elas se arrastem mais do que deviam.
Ao António e ao Rui agradeço o "pontapé de saída", há 12 anos; ao Pedro a confiança, há ano e meio; ao Jorge o apoio, sempre, e a paciência para me ouvir.
E a todos os outros agradeço tudo o que há para agradecer, com um especial abraço ao Gonçalo.
Daqui para a frente, tudo muda. Era tempo.
Ao António e ao Rui agradeço o "pontapé de saída", há 12 anos; ao Pedro a confiança, há ano e meio; ao Jorge o apoio, sempre, e a paciência para me ouvir.
E a todos os outros agradeço tudo o que há para agradecer, com um especial abraço ao Gonçalo.
Daqui para a frente, tudo muda. Era tempo.
30 de agosto de 2005
ESTORES EM MOVIMENTO
No ângulo certo, com a luz certa, a cerca que rodeia a Central Tejo, em Alcântara, torna-se transparente. Deixa ver os terrenos que rodeiam a antiga central eléctrica, os carros estacionados lá dentro, as máquinas e ferramentas que ali estão a fazer não se sabe bem o quê. Mas é só no ângulo certo e com a luz certa, e quando se está a passar de carro o efeito é o de um estore que se abre e fecha à medida que passamos, deixando entrever por um instante o que está por trás da janela. E quem passa à mesma hora no outro sentido não vê nada.
29 de agosto de 2005
MODERNICES (ou as consequências nefastas dos "early adopters")
Os auriculares Bluetooth e outros acessórios sem fios e de mãos livres para os telemóveis são, não o nego, bastante úteis e até importantes para aqueles workaholics que não passam sem o ouvido colado ao telefone quando estão a conduzir ou a almoçar. Por isso é que me faz tanta confusão quando vejo pessoas que são tudo menos executivos de profissão exigente e comunicação intensiva, que passeiam de mochila, calções e sandálias de mãos dadas com a esposa/namorada, ou que parecem estar apenas a fazer tempo até ao princípio da sessão de cinema, ou com todo o aspecto de cromo nacional (cabelo brilhantinado, óculos escuros, T-shirt por dentro das calças de fazenda claras, sapatos impecavelmente engraxados), com auriculares Bluetooth no ouvido, como quem exibe um símbolo de estatuto independentemente de ser ou não apropriado.
28 de agosto de 2005
LOGBOOK #31: HÁ DIAS ASSIM
Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 28 de Agosto, 11h30: 13.0m, 14 min, 18º C
14 minutos apenas? Mandam as regras de segurança que, quando se perde o parceiro de vista, se interrompa o mergulho porque não é conveniente andar a passear sozinho por ali. Há uma corrente de opinião que acha que sozinho é que se mergulha bem e o parceiro basicamente é um empecilho — não partilho dessa opinião, excepto quando o parceiro é daqueles do género "eu e tu no mesmo oceano".
Não foi o caso hoje, mas a velocidade a que o Paulo Jorge ia fez com que, quando eu parei para ver uma coisa na passagem propriamente dita (divinal, com água chã, sem vaga, quase nenhuma corrente, 10 metros de visibilidade, uma irritação!) e dei pela falta da lanterna que se tinha soltado do camarão (encontrada mais à frente por mergulhador de dupla companheira de barco, os meus agradecimentos), quando voltei a olhar já lá não estava ninguém. Uma voltinha a ver se os rapazes aparecem, não aparecem? chatice! Faz-se uma subidazinha lenta, com calma, a ver os cardumes que vão passeando pelas rochas a 4-5 metros de profundidade e volta-se ao barco.
Quando estou a passar o equipamento, os rapazes aparecem a saber se está tudo bem. Está, voltem lá ao mergulhinho que eu fico-me por aqui; até porque o colete precisa de ser afinado, está a disparar demasiado ar quando se puxa a traqueia e quando se enche não faz o habitual e reconfortante ruído de entrada de ar, parecendo antes um asmático a forçar respiração. Nestas ocasiões, mais vale jogar pelo seguro e abortar mesmo o mergulho - sem problemas de maior, ainda assim, porque o dia está bonito, a água está calma, dá para pôr a conversa em dia com a Isabel e perceber que, por exemplo, em Sesimbra o domingo passou a ser dia igualmente forte para a prática do mergulho quando antes era o sábado, e que há alunos de mergulho espanhóis que vêm acabar o curso a Sesimbra. Estava, aliás, um grupo a sair connosco no nosso barco e, quando eu abandonava o porto, outro a chegar para outra escola. E fico com a sensação que ainda há quem leve isto do mergulho não muito a sério, como o pessoal que apareceu sem saída marcada em cima da hora a ver se orientava um mergulhinho. É a diferença entre quem faz porque gosta mesmo e quem faz porque sim — e tenho a sensação que começa a haver muito quem faça porque sim. (Claro que também há quem o leve demasiado a sério.)
14 minutos apenas? Mandam as regras de segurança que, quando se perde o parceiro de vista, se interrompa o mergulho porque não é conveniente andar a passear sozinho por ali. Há uma corrente de opinião que acha que sozinho é que se mergulha bem e o parceiro basicamente é um empecilho — não partilho dessa opinião, excepto quando o parceiro é daqueles do género "eu e tu no mesmo oceano".
Não foi o caso hoje, mas a velocidade a que o Paulo Jorge ia fez com que, quando eu parei para ver uma coisa na passagem propriamente dita (divinal, com água chã, sem vaga, quase nenhuma corrente, 10 metros de visibilidade, uma irritação!) e dei pela falta da lanterna que se tinha soltado do camarão (encontrada mais à frente por mergulhador de dupla companheira de barco, os meus agradecimentos), quando voltei a olhar já lá não estava ninguém. Uma voltinha a ver se os rapazes aparecem, não aparecem? chatice! Faz-se uma subidazinha lenta, com calma, a ver os cardumes que vão passeando pelas rochas a 4-5 metros de profundidade e volta-se ao barco.
Quando estou a passar o equipamento, os rapazes aparecem a saber se está tudo bem. Está, voltem lá ao mergulhinho que eu fico-me por aqui; até porque o colete precisa de ser afinado, está a disparar demasiado ar quando se puxa a traqueia e quando se enche não faz o habitual e reconfortante ruído de entrada de ar, parecendo antes um asmático a forçar respiração. Nestas ocasiões, mais vale jogar pelo seguro e abortar mesmo o mergulho - sem problemas de maior, ainda assim, porque o dia está bonito, a água está calma, dá para pôr a conversa em dia com a Isabel e perceber que, por exemplo, em Sesimbra o domingo passou a ser dia igualmente forte para a prática do mergulho quando antes era o sábado, e que há alunos de mergulho espanhóis que vêm acabar o curso a Sesimbra. Estava, aliás, um grupo a sair connosco no nosso barco e, quando eu abandonava o porto, outro a chegar para outra escola. E fico com a sensação que ainda há quem leve isto do mergulho não muito a sério, como o pessoal que apareceu sem saída marcada em cima da hora a ver se orientava um mergulhinho. É a diferença entre quem faz porque gosta mesmo e quem faz porque sim — e tenho a sensação que começa a haver muito quem faça porque sim. (Claro que também há quem o leve demasiado a sério.)
27 de agosto de 2005
POLAROID: BENFIQUISTA DESESPERADO (post interdito a menores de 18 anos)
Os gritos desesperados de um adepto benfiquista desesperado com a exibição com o Gil Vicente ecoam pela minha rua ao longo de toda a segunda parte, num acesso de masoquismo definido pelo elevadíssimo volume com que ele grita um reportório limitado mas significativo de injúrias à integridade dos jogadores e das suas progenitoras (essencialmente, variações à volta de "caralho", "cabrão" e "filho da puta"; a mais inventiva das invectivas, dirigida a um Mantorras que não dá uma para a caixa este ano, é "preto nojento", embora não creia na existência de um qualquer subtexto racista na sua criação).
Não é hábito que isto aconteça, mesmo em más exibições do Benfica.
Não é hábito que isto aconteça, mesmo em más exibições do Benfica.
PESQUISA
A propósito de um desafio, mergulho, absorto, na "História de Portugal" que José Mattoso dirigiu há 12 anos, mais especificamente no volume que Rui Ramos dedica ao período 1890-1930 — e, pasmado, descubro que a política portuguesa de 1890 em pouco ou nada difere da política portuguesa de 1890. A política e, adiante-se, muito do resto (porque, sim, há coisas que vão mudando, mas estas não fazem parte da lista). Não espanta que Eça de Queiroz continue a ter razão, cento e tal anos depois: há atavismos que não desaparecem.
26 de agosto de 2005
ALGUMAS COISAS NUNCA MUDAM
Junto ao Carrefour do Oeiras Parque, há uma dessas arcadas de jogos a que hoje em dia se chama pomposamente de «fun parks» e afins, cheia de gadgets sofisticadíssimos e máquinas electrónicas para se gastar tempo ao sabor de umas moedas. Mas qual é o único jogo que reúne à sua volta uma pequena multidão? A boa, velha e analógica... mesa de matraquilhos.
25 de agosto de 2005
A ELUCIDAÇÃO DO CONSUMIDOR
Ontem, pouco depois das 21h00, entro na loja de relógios A Máquina do Tempo, nas Amoreiras (onde comprei o relógio), e mostro à empregada (com aspecto de balconista do comércio tradicional, cabelo louro pintado como convém a uma senhora já na casa dos 50) o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." "Com certeza, mas só a partir do dia 2 de Setembro porque o fornecedor está de férias e antes disso não fazemos consertos. Nem nós nem nenhuma loja." Ah é? Muito obrigado e boa noite.
Hoje, às 13h30, entro na loja Colombus do Oeiras Parque e mostro à empregada o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." A empregada pega no relógio e abre uma gaveta. "Com certeza, deixe-me só ver se tenho pulseiras do mesmo modelo." 15 minutos depois, saio da loja com o relógio com uma pulseira nova.
Hoje, às 13h30, entro na loja Colombus do Oeiras Parque e mostro à empregada o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." A empregada pega no relógio e abre uma gaveta. "Com certeza, deixe-me só ver se tenho pulseiras do mesmo modelo." 15 minutos depois, saio da loja com o relógio com uma pulseira nova.
24 de agosto de 2005
23 de agosto de 2005
MARKETING POLÍTICO v1.0
É muito curioso ver diariamente os outdoors da pré-campanha para as eleições autárquicas num concelho (Oeiras) onde não resido mas onde trabalho - e, se a coisa dependesse exclusivamente dos outdoors (que, evidentemente, não depende), Teresa Zambujo, candidata do PSD, já teria ganho a larga distância, com os cartazes legíveis, de imagem limpa e imediata, concentrando-se numa única mensagem com o retrato convenientemente positivista da candidata ao lado. Faltará, eventualmente, substância à coisa, mas à superfície é uma campanha eficaz.
Pelo contrário, os cartazes de Emanuel Martins, candidato do PS, são o mais extraordinário exemplo de "tiro no pé" que já vi, propagandeando "a mudança tranquila" com uma fotografia, no mínimo, pouco lisonjeadora para o perfil de "dinamismo e seriedade" que o candidato pretende explorar (e os cartazes com o seu "braço direito" Mário Lino ainda piores são) - dá vontade de dizer "a votar neste não me apanham!", ou, como comentava amiga minha, "o homem tem cara de dirigente de futebol" o que, em estenografia popular, não é necessariamente uma boa recomendação. Um bom consultor de imagem sabe como dar a volta a fisionomias menos fotogénicas...
Também aparecem de vez em quando uns quantos outdoors de Isabel Sande e Castro, do CDS-PP, mas são de difícil leitura para quem passa de carro, embora a fotografia posicione a candidata como uma figura de pose serena e maternal (um conceito interessante...).
Já os outdoors do independente Isaltino Morais — com um tipo de letra "futurista" que diz "Queremos ver Oeiras mais à frente" sob uma fotografia de conjunto que pretende simbolizar a abrangência da campanha do candidato — são dispersos e difusos, sem conseguirem projectar um conceito específico. Será que "querer ver Oeiras mais à frente" implica mudar-lhe as fronteiras para, por exemplo, Carcavelos ou São Pedro do Estoril? E, a assim ser, será que Carcavelos ou São Pedro do Estoril estão de acordo?
Pelo contrário, os cartazes de Emanuel Martins, candidato do PS, são o mais extraordinário exemplo de "tiro no pé" que já vi, propagandeando "a mudança tranquila" com uma fotografia, no mínimo, pouco lisonjeadora para o perfil de "dinamismo e seriedade" que o candidato pretende explorar (e os cartazes com o seu "braço direito" Mário Lino ainda piores são) - dá vontade de dizer "a votar neste não me apanham!", ou, como comentava amiga minha, "o homem tem cara de dirigente de futebol" o que, em estenografia popular, não é necessariamente uma boa recomendação. Um bom consultor de imagem sabe como dar a volta a fisionomias menos fotogénicas...
Também aparecem de vez em quando uns quantos outdoors de Isabel Sande e Castro, do CDS-PP, mas são de difícil leitura para quem passa de carro, embora a fotografia posicione a candidata como uma figura de pose serena e maternal (um conceito interessante...).
Já os outdoors do independente Isaltino Morais — com um tipo de letra "futurista" que diz "Queremos ver Oeiras mais à frente" sob uma fotografia de conjunto que pretende simbolizar a abrangência da campanha do candidato — são dispersos e difusos, sem conseguirem projectar um conceito específico. Será que "querer ver Oeiras mais à frente" implica mudar-lhe as fronteiras para, por exemplo, Carcavelos ou São Pedro do Estoril? E, a assim ser, será que Carcavelos ou São Pedro do Estoril estão de acordo?
22 de agosto de 2005
OBRIGADO, JOÃO MACDONALD
"O Homem sem Qualidades" é o romance de uma vida inteira - as suas 1130 páginas (na tradução inglesa) correspondem a mais de uma década de trabalho deixado incompleto pela morte do seu autor, o escritor austríaco Robert Musil, em 1942. A primeira das três partes que compõem "O Homem sem Qualidades" vira edição em 1930 e a segunda em 1933, a instâncias do editor, cedência de que Musil mais tarde se arrependeria pela impossibilidade de voltar atrás e retrabalhar o que já fora publicado; a terceira parte viu edição póstuma em 1943 pelas mãos da viúva do autor, o que talvez explique a sensação de incompletude que a leitura deixa, como se Musil não tivesse verdadeiramente terminado a sua narração (alguns dos fios narrativos iniciados ficam por resolver). Incompletude que, contudo, em nenhum momento trava a convicção de estarmos aqui perante um objecto esmagador e inclassificável pelo assombroso microcosmos saído da criatividade do seu autor — muito embora não estejamos a falar, apenas, de ficção.
Porque "O Homem sem Qualidades" é a crónica do fim de um mundo — mais especificamente, do império austro-húngaro nos anos anteriores à I Guerra Mundial que destruiria de vez a "velha Europa" imperial, de uma aristocracia quase feudal — vista pelos olhos de Ulrich, diletante intelectual apanhado entre a aristocracia e a burguesia, que vagueia pela alta sociedade vienense e a observa com o distanciamento maçado de quem não sabe onde pertence nem o que procura. Sátira, ensaio, crónica, tudo passa pelas mil páginas deste verdadeiro roman-fleuve que passa da vivacidade de uma conversa de salão repleta de double-entendres à secura implacavelmente lógica e teutónica de uma dissertação teórica sobre o intangível, desenhando no processo o retrato perturbante de uma sociedade que parece ter-se tornado complexa demais para quem nela vive, que levanta mais questões do que aquelas que resolve àqueles que a observam atentamente.
De um humor subtilmente subversivo disfarçado de boutade de salão de fumo, de uma inteligência assustadoramente presciente, "O Homem sem Qualidades" acaba por ser um corte transversal da sociedade moderna — e não tenhamos a mínima dúvida da sua intemporalidade, porque a confusão que reina na "Kakania" (a mal disfarçada Áustria que Musil ficcionaliza muito ao de leve) é gémea e espelho da que reina nos nossos dias. O mundo moderno, no fundo, já foi inventado há um século e é isso que Musil nos diz: a história pode não se repetir, mas os seres humanos são arrepiantemente previsíveis.
Como Eça de Queiroz no seu tempo, Musil é um satirista humanista e melancólico, ciente de que tudo muda para que tudo fique igual — e momentos há neste roman-fleuve (e a comparação majestosa ao rio é apropriadíssima) que são perfeitamente aplicáveis aos nossos dias. Não é só isso o que há em "O Homem sem Qualidades" (que deverá voltar a estar disponível brevemente em tradução portuguesa por João Barrento). Porque este livro é, literalmente, um mundo, e nele poderemos encontrar toda a vida humana — para o bem e para o mal.
Porque "O Homem sem Qualidades" é a crónica do fim de um mundo — mais especificamente, do império austro-húngaro nos anos anteriores à I Guerra Mundial que destruiria de vez a "velha Europa" imperial, de uma aristocracia quase feudal — vista pelos olhos de Ulrich, diletante intelectual apanhado entre a aristocracia e a burguesia, que vagueia pela alta sociedade vienense e a observa com o distanciamento maçado de quem não sabe onde pertence nem o que procura. Sátira, ensaio, crónica, tudo passa pelas mil páginas deste verdadeiro roman-fleuve que passa da vivacidade de uma conversa de salão repleta de double-entendres à secura implacavelmente lógica e teutónica de uma dissertação teórica sobre o intangível, desenhando no processo o retrato perturbante de uma sociedade que parece ter-se tornado complexa demais para quem nela vive, que levanta mais questões do que aquelas que resolve àqueles que a observam atentamente.
De um humor subtilmente subversivo disfarçado de boutade de salão de fumo, de uma inteligência assustadoramente presciente, "O Homem sem Qualidades" acaba por ser um corte transversal da sociedade moderna — e não tenhamos a mínima dúvida da sua intemporalidade, porque a confusão que reina na "Kakania" (a mal disfarçada Áustria que Musil ficcionaliza muito ao de leve) é gémea e espelho da que reina nos nossos dias. O mundo moderno, no fundo, já foi inventado há um século e é isso que Musil nos diz: a história pode não se repetir, mas os seres humanos são arrepiantemente previsíveis.
Como Eça de Queiroz no seu tempo, Musil é um satirista humanista e melancólico, ciente de que tudo muda para que tudo fique igual — e momentos há neste roman-fleuve (e a comparação majestosa ao rio é apropriadíssima) que são perfeitamente aplicáveis aos nossos dias. Não é só isso o que há em "O Homem sem Qualidades" (que deverá voltar a estar disponível brevemente em tradução portuguesa por João Barrento). Porque este livro é, literalmente, um mundo, e nele poderemos encontrar toda a vida humana — para o bem e para o mal.
21 de agosto de 2005
COMO DISTINGUIR ENTRE A POESIA E A IDIOTICE
Without going into the finer distinctions between idiots and cretins, suffice it to say that an idiot of a certain degree is not up to forming the concept "parents", even though he has no trouble with the idea of "father and mother." This same simple additive, "and," was Meseritscher's device for relating social phenomena to one another. Another point about idiots is that in the basic concreteness of their thinking they have something that is generally agreed to appeal to the emotions in a mysterious way; and poets appeal directly to the emotions in very much the same way, insofar as their minds run to palpable realities. And so, when Friedel Feuermaul addressed Meseritscher as a poet, he could just as well — that is, out of the same obscure, hovering feeling, which, in his case, was tantamount to a sudden illumination — have called him an idiot, in a way that would have had considerable significance for all mankind. For the element common to both is a mental condition that cannot be spanned by far-reaching concepts, or refined by distinctions and abstractions, a mental state of the crudest pattern, expressed most clearly in the way it limits itself to the simplest of coordinating conjunctions, the helplessly additive "and," which for those of meager mental capacity replaces more intrincate relationships; and it may be said that our world, regardless of all its intellectual riches, is in a mental condition akin to idiocy; indeed, there is no avoiding this conclusion if one tries to grasp as a totality what is going on in the world.
- Robert Musil, in "The Man Without Qualities", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
- Robert Musil, in "The Man Without Qualities", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
20 de agosto de 2005
19 de agosto de 2005
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #1
Porque há sempre uma tikka masala aveludada ou uma galáxia de açúcar baunilhado algures por aí à espera, aqui proponho (em homenagem a amiga de devoção a tikka masala aveludada & a amigo de desprazer com galáxias de açúcar baunilhado) a abertura de uma série irregular de posts dedicados à gastronomia urbana descoberta por aqui por ali, iniciados com a visita, ontem à noite, à campodeouriquense Charcutaria (rua Coelho da Rocha, perto do Mercado de Campo de Ourique), salinha mínima que não deve levar mais de 20 pessoas por soirée onde, garante-me o meu comparsa de degustação, amiga e vizinha comum toma diariamente o pequeno-almoço (gosto destes sítios multifacetados, com o seu quê de bem).
Visita anterior à Charcutaria terá sido em encarnação anterior da casa, há uns bons dez anos, não me recordando por isso de eventuais variações de então para cá. Para já, serviço simpático, cortês a cargo de moço aprumado e bem vestido de suave sotaque estrangeiro, sozinho a servir em sala cheia (ainda que pequena) modestamente fornecida e decorada, com ar polivalente (café / restaurante / salão de chá) - a atrapalhação foi ligeira, não houve grandes esperas, mas foi curioso ver as estratégias para lidar com as exigências. Avisado pelo comparsa que o preço da coisa poderia ser para o puxadito, a surpresa foi ver que só alguns dos pratos mais elaborados (dos quais fugimos, até porque empada de perdiz não faz o meu género) ultrapassavam a barreira psicológica dos €10,00, e como eu me fiquei pela água e ele pela cerveja, a coisa não saiu estupidamente cara.
Couvert proposto - fatias de pão de forma cortadas em triângulos acompanhadas por pâté caseiro levemente avinagrado mas de agradável textura, mais empadinhas de galinha acabadinhas de sair do forno e ainda quentes (que, por isso, não ficaram especialmente na memória).
Passando ao prato principal, parece que o polvo grelhado com batatas a murro (coberto por picadinho de cebola, salsa e alho e servido com liberal dose de azeite) não estava mal (embora o comparsa tenha achado um tudo nada azeitado em excesso). Coube-me provar os secretos de porco preto com migas de batata e couve - quatro lombinhos grelhados no ponto servidos com salsa picada em cama de azeite condimentado com um toque de vinagre, com as migas (de um verde claro esbranquiçado, com uma textura agradavelmente próxima do esparregado mas travo mais delicado) servidas em pratinho separado. Depois das entradas, a dose surge na quantidade ideal para satisfazer sem encher.
Dispensámos o café, mas o amigo comparsa não dispensou doce e encomendou a sobremesa mista, prato degustação com quatro fatias finas de quatro especialidades. Não sou moço de fios de ovos pelo que a encharcada ficou toda para ele, e o bolo de chocolate era um pouco carregado demais, mas a sericaia estava excelente. O todo ficou por €26.50 para duas pessoas, o que é aceitável sem ser excessivo, mas caso houvesse vinho à mistura facilmente teria inchado para o dobro.
Visita anterior à Charcutaria terá sido em encarnação anterior da casa, há uns bons dez anos, não me recordando por isso de eventuais variações de então para cá. Para já, serviço simpático, cortês a cargo de moço aprumado e bem vestido de suave sotaque estrangeiro, sozinho a servir em sala cheia (ainda que pequena) modestamente fornecida e decorada, com ar polivalente (café / restaurante / salão de chá) - a atrapalhação foi ligeira, não houve grandes esperas, mas foi curioso ver as estratégias para lidar com as exigências. Avisado pelo comparsa que o preço da coisa poderia ser para o puxadito, a surpresa foi ver que só alguns dos pratos mais elaborados (dos quais fugimos, até porque empada de perdiz não faz o meu género) ultrapassavam a barreira psicológica dos €10,00, e como eu me fiquei pela água e ele pela cerveja, a coisa não saiu estupidamente cara.
Couvert proposto - fatias de pão de forma cortadas em triângulos acompanhadas por pâté caseiro levemente avinagrado mas de agradável textura, mais empadinhas de galinha acabadinhas de sair do forno e ainda quentes (que, por isso, não ficaram especialmente na memória).
Passando ao prato principal, parece que o polvo grelhado com batatas a murro (coberto por picadinho de cebola, salsa e alho e servido com liberal dose de azeite) não estava mal (embora o comparsa tenha achado um tudo nada azeitado em excesso). Coube-me provar os secretos de porco preto com migas de batata e couve - quatro lombinhos grelhados no ponto servidos com salsa picada em cama de azeite condimentado com um toque de vinagre, com as migas (de um verde claro esbranquiçado, com uma textura agradavelmente próxima do esparregado mas travo mais delicado) servidas em pratinho separado. Depois das entradas, a dose surge na quantidade ideal para satisfazer sem encher.
Dispensámos o café, mas o amigo comparsa não dispensou doce e encomendou a sobremesa mista, prato degustação com quatro fatias finas de quatro especialidades. Não sou moço de fios de ovos pelo que a encharcada ficou toda para ele, e o bolo de chocolate era um pouco carregado demais, mas a sericaia estava excelente. O todo ficou por €26.50 para duas pessoas, o que é aceitável sem ser excessivo, mas caso houvesse vinho à mistura facilmente teria inchado para o dobro.
18 de agosto de 2005
ESTATÍSTICA FELINA MATINAL
Número de gatos que relaxam no telhado da arrecadação nas minhas traseiras às 08h31 de quinta-feira, 18 de Agosto de 2005: seis.
17 de agosto de 2005
PILOTO AUTOMÁTICO
Hoje compreendi que já tenho alguns percursos de automóvel de tal maneira interiorizados que quase nem dou pelos movimentos que faço. Até já meto mudanças apenas com os músculos do pulso, sem sequer agarrar a alavanca. Deverei estar preocupado?
PAGAR AS CONTAS
O meu pai é daquelas pessoas que paga sempre as contas, quaisquer que elas sejam, no último dia do prazo, para garantir que o dinheiro não fica lá a render para "eles".
Eu prefiro sempre pagar as contas assim que as recebo, porque já sei que se não o faço sou gajo para me esquecer de as pagar ou de as pagar depois do prazo.
Eu prefiro sempre pagar as contas assim que as recebo, porque já sei que se não o faço sou gajo para me esquecer de as pagar ou de as pagar depois do prazo.
15 de agosto de 2005
ZOO TV (SLIGHT RETURN)
O ponto em que a Vertigo Tour 2005 em Alvalade rebentou a escala e virou (outra vez) um dos concertos da minha vida: a abertura do encore com "Zoo Station" e "The Fly", com os écrãs a recriar o ambiente caótico da Zoo TV.
The secret is yourself
your pain
letting go
giving up
breaking down
giving in
to the end...
...to the beginning
giving in to
love.
Os U2 ainda são os U2. Felizmente.
The secret is yourself
your pain
letting go
giving up
breaking down
giving in
to the end...
...to the beginning
giving in to
love.
Os U2 ainda são os U2. Felizmente.
13 de agosto de 2005
FANNY ARDANT E EU
Estou obcecado. Desculpem qualquer coisinha. (A culpa é do Dr. Cão.)

on écoute du chant gregorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi
je passe la soirée avec Sylvain
pendant qu’elle mate le papier peint
on est restés indépendants
moi et Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
je lui parle pas des filles de Jussieu
elle parle pas trop de Depardieu
et on évite ces sujets-là
Fanny Ardant et moi
il y a un truc dans son regard
qui me reproche de rentrer trop tard
elle voudrait que je sois là tout le temps
évidemment Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
on écoute du chant grégorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi.
- Vincent Delerm, "Fanny Ardant et Moi", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

on écoute du chant gregorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi
je passe la soirée avec Sylvain
pendant qu’elle mate le papier peint
on est restés indépendants
moi et Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
je lui parle pas des filles de Jussieu
elle parle pas trop de Depardieu
et on évite ces sujets-là
Fanny Ardant et moi
il y a un truc dans son regard
qui me reproche de rentrer trop tard
elle voudrait que je sois là tout le temps
évidemment Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
on écoute du chant grégorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi.
- Vincent Delerm, "Fanny Ardant et Moi", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)
IDEALISMOS
"A nossa vida nas nossas mãos"
(graffiti lido nas paredes da Avenida dos Fundadores, em Paço d'Arcos, perto do Oeiras Parque)
(graffiti lido nas paredes da Avenida dos Fundadores, em Paço d'Arcos, perto do Oeiras Parque)
12 de agosto de 2005
FOLHAS CAÍDAS NO MEIO DA ESTRADA
Pela avenida de Ceuta, do lado de fora, perto do rio, o asfalto da estrada está cheio de folhas amarelo-acastanhadas, encarquilhadas, caídas das árvores. A deslocação de ar dos carros que passam em ambos os sentidos elevam as folhas em pequenas nuvens, como o restolhar dos ramos de uma árvore ao vento.
11 de agosto de 2005
O GATO
Estou sentado no pouf em casa da Rita e do António quando o gato, preto, elegante, se dá finalmente ao trabalho de aparecer. Ronda-me a cheirar-me, encosta o focinho curioso ao meu braço, olha-me com os olhos muito abertos durante vários minutos. Estou sentado com as pernas em arco; o gato arqueia o lombo, enrola e desenrola a cauda e passa por baixo do arco das pernas, roçando a cauda e o lombo no ângulo dos joelhos, uma, duas, três, quatro vezes. Entre elas, encosta o focinho aos nós dos dedos das minhas mãos. Depois, deita-se no chão, de lado, a olhar para mim. Estico um dedo e ele dá-me pequenas patadas no dedo, como quem agarra uma coisa para a soltar a seguir, mas sem pôr as garras de fora, e pega no dedo para o levar à boca aberta e fingir que o morde sem o morder. Tento pegar-lhe nas patas estendidas, mas só me deixa pegar na pata traseira direita, a única que ele não pode mexer livremente por estar encostada ao chão, a servir de suporte, enquanto continua a brincar com o dedo da minha outra mão. Fica ali mais um bocadinho, põe-se de pé, tento agarrar-lhe na cauda, e desaparece tão discretamente como apareceu.
10 de agosto de 2005
O PREÇO DO TABACO
"O tabaco está caro mas a ganza mantém-se! Muito fumo!"
(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)
(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)
9 de agosto de 2005
O MONÓLOGO SHAKESPEARIANO
Indizível de tão bom, de tão espirituoso, de tão certeiro no comentário ácido.

pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
ses vacances y a deux ans sur la plage de Bénodet
pendant la troisième scène je me suis un peu rendu compte
j'avais pas bien suivi les répliques du Vicomte
pendant la quatrième elle s'est penchée vers moi
elle a failli me dire un truc et puis finalement pas
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin à l'épilogue shakespearien
début du deuxième acte, toute la rangée soupire
le clan des veuves s'éclate parce que bon c'est Shakespeare
niveau intensité quelque chose qui rappelle
le programme d'EMT pour l'année de quatrième
pourtant la mise en scène était pas mal trouvée
pas de décor, pas de costumes, c'était une putain d'idée
aucune intonation et aucun déplacement
on s'est dit pourquoi pas, aucun public finalement
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au dénouement shakespearien
dans les rues d'Avignon y a des lumières la nuit
on boit des demi-citrons et on se photographie
à la table d'à côté ils ont vu un Beckett
ils disent "c'est pas mal joué mais faut aimer Beckett"
dans les rues d'Avignon il y a des projets balèzes
"demain à 23 heures je vais voir une pièce polonaise"
dans les rues d'Avignon y a du Pepsi Cola
et puis y a une fille qui dit "ba en fait je viens de Levallois"
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au monologue shakespearien
pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
mes vacances dans deux ans sur la plage de Bénodet.
- Vincent Delerm, "Le Monologue Shakespearien", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
ses vacances y a deux ans sur la plage de Bénodet
pendant la troisième scène je me suis un peu rendu compte
j'avais pas bien suivi les répliques du Vicomte
pendant la quatrième elle s'est penchée vers moi
elle a failli me dire un truc et puis finalement pas
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin à l'épilogue shakespearien
début du deuxième acte, toute la rangée soupire
le clan des veuves s'éclate parce que bon c'est Shakespeare
niveau intensité quelque chose qui rappelle
le programme d'EMT pour l'année de quatrième
pourtant la mise en scène était pas mal trouvée
pas de décor, pas de costumes, c'était une putain d'idée
aucune intonation et aucun déplacement
on s'est dit pourquoi pas, aucun public finalement
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au dénouement shakespearien
dans les rues d'Avignon y a des lumières la nuit
on boit des demi-citrons et on se photographie
à la table d'à côté ils ont vu un Beckett
ils disent "c'est pas mal joué mais faut aimer Beckett"
dans les rues d'Avignon il y a des projets balèzes
"demain à 23 heures je vais voir une pièce polonaise"
dans les rues d'Avignon y a du Pepsi Cola
et puis y a une fille qui dit "ba en fait je viens de Levallois"
on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au monologue shakespearien
pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
mes vacances dans deux ans sur la plage de Bénodet.
- Vincent Delerm, "Le Monologue Shakespearien", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)
7 de agosto de 2005
THE BEAUTIFUL GAME
Assim chamam os britânicos ao desporto vulgo rei chamado "futebol", actividade que, confesso, nunca me causou especial atracção, excepto em situações pontuais como as finais da Taça de Inglaterra (em que eu percebia como, realmente, podia ser um desporto interessante quando bem jogado) e um ou outro jogo do Euro 2004 por terras lusas.
Oriundo de uma família de benfiquistas razoavelmente ferrenhos, o meu desinteresse pelo futebol foi sempre recebido com alguma tristeza pelos meus irmãos, muito embora o meu pai se tenha tornado num benfiquista particularmente mordaz quanto às actuais capacidades da equipa, oh, para aí nas últimas vinte temporadas. Era eu muito miúdo, para aí com os meus cinco-seis anos, lembro-me de ter ido ao futebol com o meu pai, ao Estádio da Luz, mas para além da seca que apanhei só me recordo de passarmos por baixo do túnel de acesso sob a Segunda Circular.
O túnel ainda lá está, como percebi ontem quando acompanhei o meu irmão ao jogo de "apresentação" da "equipa" aos sócios, a convite dele, marcando assim a primeira vez em para aí 30 anos que entrei num estádio de futebol sem ser para assistir a um concerto de rock. Entre as várias conclusões que tirei do triste acontecimento em que o Benfica fez uma miserável exibição perante uma Juventus que nem sequer se esforçou muito para justificar a vitória por 2-0, estão as seguintes:
1. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é uma excelente oportunidade para exercer a prática nacional sempre saudável do cinismo.
2. Assistir a um jogo de futebol ao vivo equivale igualmente a um qualquer misterioso exercício de masoquismo por parte dos adeptos, que se deliciam a explorar tudo o que de pior pode acontecer à sua equipa (e que, pelos vistos, acontece mais do que seria desejável).
3. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é ainda a colocação em prática daquele que é, na realidade, o primeiro desporto nacional — a saber, duvidar de tudo e de todos até ao ponto em que a apatia resignada, mas telhuda, é a única solução.
Claro que, para continuar este interessante exercício de entomologia sociológica, o ideal será mesmo assistir a um jogo que corra bem para o Benfica e compreeender quantas destas conclusões são comuns a ambas as ocasiões.
Oriundo de uma família de benfiquistas razoavelmente ferrenhos, o meu desinteresse pelo futebol foi sempre recebido com alguma tristeza pelos meus irmãos, muito embora o meu pai se tenha tornado num benfiquista particularmente mordaz quanto às actuais capacidades da equipa, oh, para aí nas últimas vinte temporadas. Era eu muito miúdo, para aí com os meus cinco-seis anos, lembro-me de ter ido ao futebol com o meu pai, ao Estádio da Luz, mas para além da seca que apanhei só me recordo de passarmos por baixo do túnel de acesso sob a Segunda Circular.
O túnel ainda lá está, como percebi ontem quando acompanhei o meu irmão ao jogo de "apresentação" da "equipa" aos sócios, a convite dele, marcando assim a primeira vez em para aí 30 anos que entrei num estádio de futebol sem ser para assistir a um concerto de rock. Entre as várias conclusões que tirei do triste acontecimento em que o Benfica fez uma miserável exibição perante uma Juventus que nem sequer se esforçou muito para justificar a vitória por 2-0, estão as seguintes:
1. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é uma excelente oportunidade para exercer a prática nacional sempre saudável do cinismo.
2. Assistir a um jogo de futebol ao vivo equivale igualmente a um qualquer misterioso exercício de masoquismo por parte dos adeptos, que se deliciam a explorar tudo o que de pior pode acontecer à sua equipa (e que, pelos vistos, acontece mais do que seria desejável).
3. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é ainda a colocação em prática daquele que é, na realidade, o primeiro desporto nacional — a saber, duvidar de tudo e de todos até ao ponto em que a apatia resignada, mas telhuda, é a única solução.
Claro que, para continuar este interessante exercício de entomologia sociológica, o ideal será mesmo assistir a um jogo que corra bem para o Benfica e compreeender quantas destas conclusões são comuns a ambas as ocasiões.
6 de agosto de 2005
THE KNOWLEDGE
Em Londres, os taxistas têm, sempre, de passar por um rigorosíssimo exame, conhecido como The Knowledge, que os leva a percorrer vezes sem conta a cidade, memorizando mais de 300 trajectos diferentes. Parece que é muito raro alguém obter a licença de taxista sem ter passado uma dezena de vezes pelo exame.
Em Lisboa, é normal ter de ser o passageiro a explicar ao taxista como se chega ao endereço pretendido.
Em Lisboa, é normal ter de ser o passageiro a explicar ao taxista como se chega ao endereço pretendido.
5 de agosto de 2005
DESCUBRAM O ERRO
MASSA DE AR QUENTE VAI SOFUCAR PORTUGAL - manchete impressa numa das páginas interiores da edição de hoje do Correio da Manhã (não vale a pena ir ao site, o erro só passou mesmo na edição impressa)
40 POLÍCIAS FERIDOS EM CONFRONTO COM A POLÍCIA - legenda no Telejornal da RTP-1 desta noite sobre confrontos na Irlanda do Norte entre manifestantes e polícia
40 POLÍCIAS FERIDOS EM CONFRONTO COM A POLÍCIA - legenda no Telejornal da RTP-1 desta noite sobre confrontos na Irlanda do Norte entre manifestantes e polícia
4 de agosto de 2005
POLAROID: 4 DE AGOSTO
09h30. Desço a Alexandre Herculano em direcção à avenida da Liberdade. Cruzo-me com um negro de meia-idade de fato, gravata e cachecol, auscultadores brancos nos ouvidos com um fio que leva ao casaco, andando depressa com uma bengala de madeira escura na mão, que costuma andar pela zona. Demasiado bem vestido e arranjado para ser um sem abrigo, pára frente à porta de uma pastelaria e começa a gritar para o interior, como quem disparata com alguém, mas sem se dirigir a ninguém em particular. Do que diz percebo apenas "Ainda vou ser presidente de Portugal!".
Alguns metros mais à frente, num dos semáforos que orienta as passagens de peões, um idoso de bengala ignora olimpicamente o sinal vermelho para peões e a aproximação rápida de um furgão comercial e atravessa a rua como se fosse sua, no que é seguido, embora a medo, por dois ou três transeuntes.
13h10. Subo a Braancamp em direcção ao Rato. Na esquina da Rodrigo da Fonseca, um casal que parece sair do McDonald's discute em voz alta, com sotaque popular. Ela é anafada, vem de cores claras, com sacos na mão e um casaco de malha à cintura. Ele é muito magro, está de camisola da selecção e calções, e grita-lhe com voz mal-disposta; traz na mão um guardanapo de papel, mas não vejo o que segura; há duas crianças, separadas, a andar à frente deles a ver se a discussão acaba.
Alguns metros mais à frente, num dos semáforos que orienta as passagens de peões, um idoso de bengala ignora olimpicamente o sinal vermelho para peões e a aproximação rápida de um furgão comercial e atravessa a rua como se fosse sua, no que é seguido, embora a medo, por dois ou três transeuntes.
13h10. Subo a Braancamp em direcção ao Rato. Na esquina da Rodrigo da Fonseca, um casal que parece sair do McDonald's discute em voz alta, com sotaque popular. Ela é anafada, vem de cores claras, com sacos na mão e um casaco de malha à cintura. Ele é muito magro, está de camisola da selecção e calções, e grita-lhe com voz mal-disposta; traz na mão um guardanapo de papel, mas não vejo o que segura; há duas crianças, separadas, a andar à frente deles a ver se a discussão acaba.
3 de agosto de 2005
MATRÍCULAS
Fim da tarde, Marginal, um pequeno comboio de quatro ou cinco carros, quase todos de aparência nova, todos de matrícula francesa (letras pretas sobre fundo amarelo). Um dos condutores tem um boné do Sporting, mas os condutores de dois dos carros não têm aspecto de emigrantes. Excepto, claro, no modo como conduziam.
Vendo os quatro, cinco carros de seguida, lembrei-me das matrículas em chapa que vinham, na minha infância, nos gelados da Olá (seria nos gelados?)... Ainda tive uma dezena e tal dessas matrículas em miniatura, mas não sei o que é feito delas. Mais alguém se lembra?
Vendo os quatro, cinco carros de seguida, lembrei-me das matrículas em chapa que vinham, na minha infância, nos gelados da Olá (seria nos gelados?)... Ainda tive uma dezena e tal dessas matrículas em miniatura, mas não sei o que é feito delas. Mais alguém se lembra?
2 de agosto de 2005
O VERÃO EM LISBOA
...é uma coisa óptima. Mas seria melhor se os nossos sítios de referência não tivessem a brilhante ideia de, também eles, fecharem para férias.
1 de agosto de 2005
A BALADA DE LUCY JORDAN

Quando Marianne canta isto, o mundo pára.
the morning sun touched lightly on
the eyes of Lucy Jordan
in a white suburban bedroom
in a white suburban town
as she lay there beneath the covers
dreaming of a thousand lovers
'till the world turned to orange
and the room went spinning 'round
at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
and she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair
her husband is off to work
and the kids are off to school
and there were oh so many ways
for her to spend a day
she could clean the house for hours
or rearrange the flowers
or run naked through the shady street
screaming all the way
at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
as she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair
the evening sun touched gently on
the eyes of Lucy Jordan
on the rooftop where she climbed
when all the laughter grew too loud
then she bowed and curtsied to the knight
who reached and offered her his hand
and he led her down to the long white car
that waited past the crowd
at the age of 37
she knew she'd found forever
as she rode along through Paris
with the warm wind in her hair.
("The Ballad of Lucy Jordan", in "Broken English", Island/Universal, 1979)
31 de julho de 2005
UMA VIDA SOLITÁRIA

Richard Thompson, sozinho, com uma guitarra, é capaz de, hoje, escrever canções que parece que sempre estiveram aqui. Corrijo: sempre foi capaz, desde os tempos dos Fairport Convention, de falar de hoje como se estivesse a falar de ontem. Como neste instantâneo minucioso, entomológico, mordaz e ao mesmo tempo afectuoso, de um certo modo de ser fleumático.
Sometimes I long for the solitary life
parents long gone, no kids, no wife
sister somewhere in Australia
never did keep in touch
sex no more than a how-do-ye-do
with a copy of Tit-Bits in the loo
socially a bit of a failure
nice not to have to try too much
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
a serious hobby in the garden shed
model trains, or soldiers in lead
join the suburban boffins of Britain
experts on trivial things
and holidays in the Yorkshire Dales
or cycling tours of the North of Wales
unenvious of those flea-bitten
on continental flings
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
excitement comes by subtle means
the satisfaction of routines
small revenges at the office
smug little victories
you work on your pallor, complexion like paste
like the grey defeat on an inmate's face
a life spent adding losses and profits
resigning by degrees
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
and come to the end, sad and alone
a steady reliable tumour you've grown
from selfish years, while all your peers
have stressfully jogged to health
in life you always were quite numb
and foggier now, you soon succumb
in drab St. Barts on the new bypass
death overcomes by stealth
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven.
- "A Solitary Life", in "Front Parlour Ballads" (Cooking Vinyl/Farol, 2005)
30 de julho de 2005
POLAROID: PARQUE DE ESTACIONAMENTO
É dia de semana. Acabo de almoçar e dirijo-me para o parque de estacionamento do Oeiras Parque. No carro ao lado do meu, com as janelas fechadas, o condutor recostou o assento para trás numa cama improvisada e dorme a sono solto, com a gravata às riscas a destacar-se da camisa branca, o casaco pendurado no gancho de uma das pegas do capot junto ao banco traseiro.
29 de julho de 2005
DEFINIÇÃO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO
Urso: animal de aparência feroz que esconde por trás do mau feitio uma solidão triste e que, na realidade, tem um coração de manteiga, à espera apenas que alguém lhe venha fazer festas e perguntar "queres ser meu amigo?".
E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.
E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.
HILTON
Lembras-te daquela noite mágica, da celebração dos seis meses? Eu não me consigo esquecer. Nem quero.
Fazes-me falta. Tenho saudades.
Fazes-me falta. Tenho saudades.
CHOCOLAT FIN ARTISANAL
Como se um pouco de chocolate negro belga, caseiro, de discreto perfume e travo canela baunilhada para cortar a amargura e a intensidade do cacau, pudesse tapar os vazios que andam cá por dentro. E tapa, por breves segundos em que tudo se resume ao deleite de sentir o bloco a derreter-se lentamente na boca. Mas não dura mais do que esses breves segundos; e, depois, tudo volta ao que é.
28 de julho de 2005
POLAROID: CAFÉ
Tomo o pequeno-almoço dentro do café, encostado à vidraça; do outro lado, na esplanada, duas senhoras de meia-idade tomam também o pequeno almoço quando são abordadas por um sem-abrigo negro, de barba, boné e mochila, com uma garrafa de água vazia na mão. As senhoras fazem-lhe que não com a cabeça e ele afasta-se, não sem antes olhar para a porta do café, como quem pensa «entro? não entro?». Não entra. Segue em frente, cambaleando como quem bebeu de mais (são nove e meia da manhã). Atira a garrafa ao ar para a pontapear como se fosse um futebolista, mas falha e a garrafa cai ao asfalto junto ao passeio. Segue em frente, sempre a cambalear, apoiando-se nos carros estacionados.
A FORÇA DO SEXO FRACO (OU A FRAQUEZA DO SEXO FORTE?)
Eu juro que sou a favor da igualdade dos sexos, que não acho que haja profissões preferencialmente masculinas ou femininas, que acho que uma mulher em igual cargo deveria ganhar o mesmo que um homem, etc, etc.
Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.
Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.
27 de julho de 2005
HUSH HUSH
Há vinte anos, quando Aimee Mann ainda estava numa banda chamada 'Til Tuesday, escreveu uma canção premonitória chamada "Voices Carry", sobre uma relação abusiva contada do ponto de vista da mulher agredida. O teledisco terminava com Mann a levantar-se no meio de uma récita operática e a gritar a letrada canção, explodindo em público numa situação em que já não podia ser mandada calar, num colapso nervoso literalmente em público.
Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?
"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.
Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?
"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.
VARIÁVEIS

Eu gosto destes gajos porque, quando os ouço, sinto aqui o contraste entre a dúvida de ser outro e a vontade de ser quem se é. Por vezes há Pink Floyd a mais, é verdade, às vezes é tudo um bocadinho xoninhas em excesso, também. Mas há sinceridade, e honestidade, e a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que devem estar a olhar para a pessoa errada. É algo que me torna os Coldplay simpáticos. E a faixa escondida, "Til Kingdom Come", é tão inexplicavelmente Johnny Cash que até dói.
25 de julho de 2005
HUMOR INGLÊS
RUDE STAFF
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!
(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!
(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")
24 de julho de 2005
LOGBOOK #30: O POLVO TRAUMATIZADO
Cascais: naufrágio do Hildebrandt, domingo, 24 de Julho, 10h38: 10.2m, 49 min, 22º C
Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.
O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.
Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.
Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.
O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.
Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.
23 de julho de 2005
QUEM VOS AVISA

É um disco feito como se fosse um filme, em que cada uma das 15 canções se constrói como uma cena, um quadro, um instantâneo, mas ajuda a que o todo corra de um só fôlego. E, apesar destas canções terem proveniências muito diferentes (e uma boa metade já existir há décadas), parece que foram feitas para estarem aqui, juntas, a contar a história de um bairro pobre, latino, de Los Angeles que foi arrasado nos anos 50 por motivos políticos.
Só Ry Cooder, o mestre guitarrista das bandas-sonoras estratosféricas, poderia ter feito um disco assim. Chama-se "Chávez Ravine". Está nas lojas para quem o quiser encontrar. É uma obra-prima. É um dos álbuns do ano.
22 de julho de 2005
UM TEMPO QUE PASSOU
Pelas curvas da Marginal, em Julho, há um cheiro a areia e maresia transportado pelo calor, há um marulhar imperceptível que funciona quase como ruído ambiente. É Verão; o azul luminoso do céu, o azul turquesa do mar, a claridade ofuscante da areia, os chapéus de sol multicores, os gritos deliciados das crianças que brincam à beira-mar, o pouca-terra do comboio que percorre os trilhos à vista da costa, tudo enquanto guio pela Marginal remete para os Verões da infância em Santo Amaro de Oeiras, que ficaram lá atrás, da toalha por baixo dos toldos às riscas brancas e coloridas, do termos de sopa quente que a minha mãe levava para a praia para me dar, do meu pai me levar às cavalitas quando havia ondas grandes e de nos rirmos, muito, quando uma vinha e nos molhava todos, de apanharmos, à ida, o autocarro para o Cais do Sodré, de coleccionar os pauzinhos de plástico dos gelados Olá que davam para fazer construções, que comia na estação de Santo Amaro quando vínhamos apanhar o comboio para casa. Um tempo que passou e não volta mais.
21 de julho de 2005
PEQUENO AFORISMO EVIDENTE
A capacidade infinita do ser humano, qualquer que seja a sua idade, de insistir em acreditar no Pai Natal é uma coisa inexplicável.
20 de julho de 2005
BOA VIZINHANÇA
Uma coisa que eu ainda hoje não percebo é porque é que as pessoas, quando recebem quantidades significativas de amigos em casa, o fazem em público, ouvindo música em altos berros, conversando em voz muito alta (quiçá já alterada por quantidades copiosas de álcool?) e soltando sonoras gargalhadas a horas que incomodam o descanso da vizinhança. Eram duas e meia e não havia maneira de eles se calarem, apesar dos gritos de "pouco barulho!" e de "chius" mal-encarados de quase toda a gente que estava a ser afectada pelo chavascal.
Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.
Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.
17 de julho de 2005
LOGBOOK #29: OS TRÊS ELEMENTOS
Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 17 de Julho, 11h39: 16.1m, 47 min, 16ºC
Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.
O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).
Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.
Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.
O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).
Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.
16 de julho de 2005
POLAROID: JARDIM CINEMA
Três senhoras de idade com cabelos brancos, óculos tintados, roupas leves de Verão e ar de beatas passam em frente ao Jardim Cinema. Uma delas diz às outras: "Vês? É aqui que fazem o SIC 10 Horas".
15 de julho de 2005
A SEMANA DOS ARCO-ÍRIS (900)
No geyser de água em frente a Paço d'Arcos, cuja cauda, ao cair, cria um fugaz prisma multicor, como se se tratasse de uma cortina.
Nos sistemas de rega automática cuja velocidade de dispersão sobre a relva verde húmida cria finas películas de cor reflectida, iluminando inesperadamente o mais banal jardim urbano, a mais anónima instalação de escritórios.
Nos sistemas de rega automática cuja velocidade de dispersão sobre a relva verde húmida cria finas películas de cor reflectida, iluminando inesperadamente o mais banal jardim urbano, a mais anónima instalação de escritórios.
14 de julho de 2005
NOTE TO SELF
it's not
what you thought
when you first
began it
you got
what you want
now you can't hardly stand it though
by now
it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up
you're sure
there's a cure
and you have finally found it
you think
one drink
will shrink you 'til you're underground
and living down
but it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up
prepare a list for what you need
before you sign away the deed
'cause it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
so just
give up.
Aimee sabe. Eu devia ouvi-la mais vezes.
what you thought
when you first
began it
you got
what you want
now you can't hardly stand it though
by now
it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up
you're sure
there's a cure
and you have finally found it
you think
one drink
will shrink you 'til you're underground
and living down
but it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up
prepare a list for what you need
before you sign away the deed
'cause it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
so just
give up.
Aimee sabe. Eu devia ouvi-la mais vezes.
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #66
Otário.
(inspirado pelos lémures de "Madagáscar")
(inspirado pelos lémures de "Madagáscar")
13 de julho de 2005
DESCONTEXTUALIZAÇÕES
Ou como uma frase que trai a amargura de uma cultivadora alemã face à perda da sua colheita numa inundação pode, vista fora do contexto, tornar-se provocantemente brejeira:
"A minha paprika foi muito afectada".
"A minha paprika foi muito afectada".
12 de julho de 2005
CHUVA DISSOLVENTE
Porque tenho de olhar para dentro, custe o que custar, e enquanto não o fizer não saberei o que me faz realmente correr, há dias em que tudo se vê através de um espelho distorsor, e a chave é anular a distorção.
11 de julho de 2005
A PONTE É UMA PASSAGEM
Pouco falta para as oito da manhã e, à minha esquerda, a embocadura do Tejo desaparece progressivamente sob um espesso banco de nevoeiro; quando passo por baixo da ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Cascais, o tabuleiro vermelho parece perder-se num nada esbranquiçado, como uma passagem pelo meio do vazio em direcção a outro sítio. Como se o nevoeiro fosse o vapor de água de uma cascata e a ponte nos levasse por baixo da água que cai para uma qualquer caverna escavada na rocha, em direcção à aventura.
9 de julho de 2005
LONDRES
O TEMPO SUJO
Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção
São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação
Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia
Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.
— Alexandre O'Neill, 1958, in Poesias Completas
Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção
São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação
Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia
Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.
— Alexandre O'Neill, 1958, in Poesias Completas
8 de julho de 2005
7 de julho de 2005
5 de julho de 2005
CANÇÃO
Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito
E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece
E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos
E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem
Alexandre O'Neill (1951)
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito
E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece
E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos
E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem
Alexandre O'Neill (1951)
4 de julho de 2005
DISCURSO DIRECTO
Mesmo lido com uns quantos anos de atraso, mesmo descontando a facilidade do formato de colagem de entrevistas que permite esconder a "ausência de credibilidade" dos autores enquanto interlocutores, "Rap Ta France", de José-Louis Bocquet e Philippe Pierre-Adolphe Paris: Flammarion, 1997), é um documento estimulante para compreender a chegada do movimento hip-hop a França e a maneira como o hexágono se tornou na segunda potência do rap mundial, sobretudo com a "maré negra" da década de 90 com MC Solaar, Soon E MC, Jimmy Jay, etc. Eliminando qualquer excrescência assinada pelos dois autores, o livro constrói-se como uma montagem de depoimentos concedidos em entrevistas exclusivas por todos os nomes principais do hip-hop francês, dos pioneiros Dee Nasty e Cut Killer às vedetas NTM, IAM ou MC Solaar. Dando de barato que as fontes orais nem sempre são 100% fidedignas, "Rap Ta France" funciona como uma fascinante "história oral" do hip-hop em França, colorida pela personalidade de cada um dos interlocutores, cheia de histórias de vida que confirmam esta como uma música das ruas, transmissão global em directo do pulsar dos subúrbios, fala da tribo e linguagem de uma juventude em necessidade de afirmação pessoal e social. Haverá livros melhores para contextualizar o movimento hip-hop em França, mas "Rap Ta France" é um complementar com muito que o recomende.
GRAFFITI
Ainda bem que existem pobrezinhos para as assistentes sociais poderem mudar o mundo
- lido algures nas ruas de Lisboa
- lido algures nas ruas de Lisboa
3 de julho de 2005
POST-SCRIPTUM AO LOGBOOK #28
Estou todo partido, que isto de andar a apanhar com ondas não faz bem nenhum.
2 de julho de 2005
LOGBOOK #28: AVENTURA É AVENTURA
Berlenga Grande: Primavera, sábado 2 de Julho, 12h31: 22.9m, 40 min, 14ºC
Dizia o Alexandre que as Berlengas são o mergulho mais próximo dos Açores que se consegue em Portugal Continental (ou, enfim, quase, visto que tecnicamente as Berlengas são ilhas, mesmo que a pouca distância do continente) em termos de visibilidade. Mas, nesta estreia minha (e da recém-encartada Susana) no mui badalado destroço do Primavera, a água estava mais próxima de Sesimbra num dia mediano (visibilidade aí de cinco metros com boa vontade, muita suspensão, frio de cortar a partir dos 12 metros). Mesmo os mergulhos de eleição têm dias não, apesar de se perceber que os destroços do navio (em melhores condições do que o único termo de comparação que possuo, o célebre Riva Gurara) fervilham de vida, com restos do mármore italiano que o navio transportava quando se afundou espalhados pela área. Não fossem as malfadadas cãibras a trair a falta de esforço das pernas (derivada à infame inflamação do joelho) e tudo teria sido bem melhor...
Não foi só a água sesimbrense das Berlengas que provou ser uma surpresa nesta viagem-relâmpago à reserva natural (com direito a passeio a pé até ao farol pelos trilhos abertos pelos humanos e ferozmente guardado pelos bandos de gaivotas e suas crias que entram em histeria colectiva assim que alguém se aventura para fora). Os 20 minutos de semi-rígido desde Peniche até à ilha pelo meio das vagas largas ao largo do Cabo Carvoeiro pareceram uma viagem numa montanha-russa, sim, mas mais numa montanha-russa tímida dos anos 50 do que nos colossos que desafiam a força da gravidade hoje; ou então uma cavalgada num daqueles touros mecânicos. Dizem-me que hoje o mar esteve anormalmente bom na travessia, embora tenha havido três ou quatro saltos — não quero saber como será num dia mau. Mas houve algo de mágico quando o barco parecia deslizar por entre as altas ondas, e percebi um pouco do que o pessoal do surf deve sentir. E, no regresso, a viagem fez-se como se não houvesse vaga (mas havia).
O segundo mergulho ficou por fazer, à conta (surpreendente) de peso a menos e de uma intempestiva incapacidade de descer abaixo dos dois metros. Mas nada disso importa quando, no regresso, já à chegada ao porto de Peniche, passadas as formas geométricas esculpidas na rocha pela força dos elementos, o vento me bate no rosto e sinto o prazer de um dia bem passado. Há ainda uma hora de viagem até Lisboa e gasolina a meter no carro, o equipamento todo para lavar, mas isso não interessa nada. Passei um belo dia de aventuras. Prosaicas, é certo, mas aventuras — porque tudo pode ser uma aventura, se assim o quisermos. E, hoje, quero.
(com um obrigado, muito grande, à Susana — bem-vinda! — e ao grande Alexandre, pelo convite, pela simpatia, e pela companhia)
Dizia o Alexandre que as Berlengas são o mergulho mais próximo dos Açores que se consegue em Portugal Continental (ou, enfim, quase, visto que tecnicamente as Berlengas são ilhas, mesmo que a pouca distância do continente) em termos de visibilidade. Mas, nesta estreia minha (e da recém-encartada Susana) no mui badalado destroço do Primavera, a água estava mais próxima de Sesimbra num dia mediano (visibilidade aí de cinco metros com boa vontade, muita suspensão, frio de cortar a partir dos 12 metros). Mesmo os mergulhos de eleição têm dias não, apesar de se perceber que os destroços do navio (em melhores condições do que o único termo de comparação que possuo, o célebre Riva Gurara) fervilham de vida, com restos do mármore italiano que o navio transportava quando se afundou espalhados pela área. Não fossem as malfadadas cãibras a trair a falta de esforço das pernas (derivada à infame inflamação do joelho) e tudo teria sido bem melhor...
Não foi só a água sesimbrense das Berlengas que provou ser uma surpresa nesta viagem-relâmpago à reserva natural (com direito a passeio a pé até ao farol pelos trilhos abertos pelos humanos e ferozmente guardado pelos bandos de gaivotas e suas crias que entram em histeria colectiva assim que alguém se aventura para fora). Os 20 minutos de semi-rígido desde Peniche até à ilha pelo meio das vagas largas ao largo do Cabo Carvoeiro pareceram uma viagem numa montanha-russa, sim, mas mais numa montanha-russa tímida dos anos 50 do que nos colossos que desafiam a força da gravidade hoje; ou então uma cavalgada num daqueles touros mecânicos. Dizem-me que hoje o mar esteve anormalmente bom na travessia, embora tenha havido três ou quatro saltos — não quero saber como será num dia mau. Mas houve algo de mágico quando o barco parecia deslizar por entre as altas ondas, e percebi um pouco do que o pessoal do surf deve sentir. E, no regresso, a viagem fez-se como se não houvesse vaga (mas havia).
O segundo mergulho ficou por fazer, à conta (surpreendente) de peso a menos e de uma intempestiva incapacidade de descer abaixo dos dois metros. Mas nada disso importa quando, no regresso, já à chegada ao porto de Peniche, passadas as formas geométricas esculpidas na rocha pela força dos elementos, o vento me bate no rosto e sinto o prazer de um dia bem passado. Há ainda uma hora de viagem até Lisboa e gasolina a meter no carro, o equipamento todo para lavar, mas isso não interessa nada. Passei um belo dia de aventuras. Prosaicas, é certo, mas aventuras — porque tudo pode ser uma aventura, se assim o quisermos. E, hoje, quero.
(com um obrigado, muito grande, à Susana — bem-vinda! — e ao grande Alexandre, pelo convite, pela simpatia, e pela companhia)
1 de julho de 2005
POLAROID: FAMÍLIA
A senhora, trintona, tem aquele cabelo aclarado e a pose natural de tia da linha, fazendo um almoço de comida saudável no Oeiras Parque acompanhada pelos filhos ainda crianças - ele de camisa e calções à colégio, ela de roupa leve meio frique. Ele acompanha a mãe na comida saudável, ela come duas fatias de pizza. Acabada a refeição saudável, a mãe dirige-se ao balcão e pede uma fatia de bolo de chocolate, uma espécie de pão de ló que se desfaz ao contacto dos talheres de plástico translúcido. "Este bolo é tão light, tão light que se desfaz todo", comenta enquanto pergunta se os filhos querem um pouco. O rapaz não, mas a menina sim - vai pedir talheres ao balcão e debruça-se sobre a mesa para chegar ao prato da mãe. "Ó Mafalda, não é a boca que vai à comida, é a comida que vai à boca, sim?". A filha come algumas garfadas, mas quando se levantam metade do bolo fica no prato de plástico branco.
30 de junho de 2005
NÓS E OS OUTROS #5
Pela primeira vez, assumi esta vontade de infância, esta introspecção. Falei por isso das coisas que me faziam passar-me quando era miúdo — palavras que tinha esquecido, das quais tinha fugido... Dito isto, nunca cortei as pontes com a minha infância: quando vejo uma foto da minha adolescência, reconheço-me perfeitamente. E tenho pena porque, naquela altura, andava sempre com má cara, sentia-me preso na armadilha da minha vida, da minha cidade, da minha família... Não via nenhuma saída de emergência.
(Benjamin Biolay, em entrevista a J. D. Beauvallet da revista "Les Inrockuptibles", Abril de 2003)
(Benjamin Biolay, em entrevista a J. D. Beauvallet da revista "Les Inrockuptibles", Abril de 2003)
29 de junho de 2005
NÓS E OS OUTROS #4
(...) A música tornou-se-me indispensável: é o único momento da minha vida em que não tento intelectualizar as coisas, porque sou alguém que passa o tempo a analisar tudo. Quanto mais crescemos, mais a educação nos obriga a apertar a mão às pessoas, mesmo que achemos que elas são ilustres imbecis. Passamos o tempo a interiorizar. Quando me apresentam alguém, por exemplo, e que essa pessoa me dá um beijinho, acho uma patetice: tenho um contacto de pele com alguém que não conheço. Sabe-se lá se o tipo não acaba de matar o seu irmão. Tudo é falseado. Quando digo isto, respondem-me que sou fria, que não gosto das pessoas. Só acho que já não há autenticidade em nada. Tudo se mistura. É por isso que me sinto mais próxima do carácter inglês. Diz-se sempre que eles são um pouco frios, quando não passa de pudor. Sinto-me lenta e gosto da fleuma deles. Contudo, não vivo as coisas de maneira temperada. E a música é o meu meio de libertar o meu instinto, foi sempre muito mais que mera recreação.
(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)
(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)
28 de junho de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #63
Opróbrio.
com agradecimentos ao João L.
com agradecimentos ao João L.
27 de junho de 2005
NOTICIÁRIOS
Como não acompanho com atenção as sondagens que informam quais são os programas mais vistos da televisão, não sei qual o dia em que os telejornais são mais vistos. Mas sei que, aos domingos, há significamente mais reportagens de "interesse social", que parecem reciclar as reportagens sobre os "flagelos do nosso tempo" que apareceram num outro domingo meses atrás. Aproveitamento de uma maior disponibilidade do espectador para prestar atenção a assuntos sérios? Ou apenas maneira de preencher um dia vazio de notícias com coisas que, mesmo podendo ser mais importantes, não têm espaço na batalha diária das audiências?
26 de junho de 2005
DISCURSO SOBRE A MORAL
"The morality of our time, whatever else may be claimed, is that of achievement. Five more or less fraudulent bankruptcies are acceptable provided the fifth leads to a time of prosperity and patronage. Success can cause everything else to be forgotten. When you reach the point where your money helps win elections and buys paintings, the State is prepared to look the other way too. There are unwritten rules: if you donate to church, charities, and political parties, it needs to be no more than one tenth of the outlay required for someone to demonstrate his goodwill by patronizing the arts. And even success still has its limits; one cannot yet acquire everything in every way; some principles of the Crown, the aristocracy, and society can still to some extent restrain the social climber. On the other hand, the State, for its own suprapersonal person, quite openly countenances the principle that one may rob, steal, and murder if it will provide power, civilization, and glory. Of course, I'm not saying that all this is acknowledged even in theory; on the contrary, the theory of it is quite obscure. I just wanted to sum up the most mundane facts for you. The moral argumentation is just one more means to an end, a weapon used in much the same way as lies. This is the world that men have made, and it would make me want to be a woman — if only women did not love men!"
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.
25 de junho de 2005
POLAROID: RESTAURANTE
Num restaurante da linha de ambiente cool e arquitectura retro-moderna, espécie de Bica do Sapato suburbano, com bastantes clientes, o jantar de sexta à noite é subitamente perturbado por três bailarinas e um bailarino de sevilhanas que actuam para um casamento numa sala reservada. Embora a música não esteja demasiadamente alta, o ruído dos tacões dos sapatos no soalho de madeira tratada e das palmas dos dançarinos e dos comensais ecoa pela sala forrada a madeiras. O curto espectáculo termina com "Asereje" das Ketchup; do lado de fora do reservado, há quem se lembre ainda da coreografia.
23 de junho de 2005
CIVISMO NACIONAL
Aguardo uma oportunidade para entrar na fila de trânsito na rua estreita regulada por um semáforo; tento entrar antes de uma berlina Mercedes preta, último modelo, mas o condutor acelera para não me deixar meter à sua frente. É um senhor dos seus cinquenta e muitos anos, de fato claro e óculos, com um cigarro na boca e o braço na janela, que, ao passar por mim, me olha com um desprezo altaneiro de quem diz "como se eu alguma vez deixasse um ranhoso como tu meter-se à minha frente!".
22 de junho de 2005
POLAROID: GAIVOTA
Subo o viaduto de Algés, em frente ao Monumento aos Combatentes; uma gaivota em vôo planante recorta-se contra o céu azul sobre o viaduto. Ao mesmo tempo que ela se aproxima, vejo-a lançar um projéctil branco que cai no asfalto quente e negro da estrada, e ela segue como se nada fosse ou tivesse sido.
21 de junho de 2005
POLAROID: OBRAS
O polícia está de pé, em frente à sua moto, com uma clareira de ambos os lados entre os carros estacionados junto ao passeio, frente à saída de obras. Um dos operários chama-o, "tome, sr. guarda", enquanto abre uma garrafa de Sumol tirada da caixa de uma carrinha e lha passa. Enquanto o polícia toma os primeiros golos do refrigerante, as traseiras de um camião-grua começam a surgir lentamente da saída de obras e o polícia, ainda com a garrafa verde nas mãos, dirige-se lentamente para o meio da estrada, elevando a mão para mandar parar o trânsito que entra na rua.
GROWING PAINS

Aquilo de que mais gosto em J. K. Rowling é o modo certeiro como ela descreve a adolescência e as suas paixões impetuosas, o seu tudo ou nada, a sensação de que o mundo começa e acaba em cada triunfo ou derrota. Os livros de Harry Potter, para lá da extraordinária criação e manutenção de um universo paralelo de perfeita coerência, valem também (talvez essencialmente) por essa tradução dos estados de espírito volúveis típicos de uma certa idade, pela capacidade de expressar as emoções que todos sentimos quando parecemos ser demasiado grandes para a nossa pele. Todos nós sentimos a certa altura, como Harry Potter, que o mundo é demasiado confuso e complicado para aquilo que podemos abarcar de uma só vez — e há quem continue a senti-lo mesmo já adulto.
Dito isto, as quase 800 páginas de "Harry Potter e a Ordem da Fénix", lidas no original, esmagam pela inteligência narrativa: tudo está no seu preciso lugar e o que ficou por dizer ficou-o, certamente, por um motivo. Rowling não é uma grande estilista, mas a sua escrita é de uma simplicidade enganadora, e a maneira frontal como lida com os lugares-comuns, sem os evitar nem os esconder, é irresistível. É verdade que, desta vez, não devorei o quinto dos sete livros da série com a mesma velocidade, mas essa resistência é redimida por uma segunda metade com o embalo dos velhos "cliffhangers", onde muito fica por explicar (para os dois últimos volumes...) e se revela finalmente um dos segredos pedra-de-toque da série.
20 de junho de 2005
PORTUGAL É...
...quando o governo cumprimenta Tiago Monteiro por ser o primeiro piloto português de Fórmula 1 a chegar ao pódio numa corrida — mesmo que só lá tenha chegado porque a concorrência se recusou a competir. Mas qual é o gozo, qual é a sensação de ter atingido qualquer coisa, de chegar ao topo só porque os outros desistiram?
19 de junho de 2005
VOX POPULI
Ontem à tarde, no Jardim da Estrela, uma de três senhoras de idade, de bengala, dizia a quem a quisesse ouvir:
"Eu não sou racista, mas também não gosto dos pretos. Ando eu com a minha casa a caír aos bocados e eles com casas novinhas em folha, que a assistente social lhes deu..."
E respondia-lhe outra:
"Pois, é verdade..."
"Eu não sou racista, mas também não gosto dos pretos. Ando eu com a minha casa a caír aos bocados e eles com casas novinhas em folha, que a assistente social lhes deu..."
E respondia-lhe outra:
"Pois, é verdade..."
POLAROID: TP831 ROMA FIUMICINO-LISBOA, TERÇA, 14 DE JUNHO
O A319 faz um barulho industrial durante a descolagem; um ruído contínuo de máquina rebarbadora. Pela janela vejo que Fiumicino fica próximo do mar — como, pelos vistos, muitos dos subúrbios de Roma. As nuvens parecem algodão quando as atravessamos. Ao meu lado, uma jovem de camisola de gola alta branca dorme a sono solto, enroscada na cadeira. Quando visito a casa de banho, é visível que quase toda a gente no vôo está a dormir ou quase. Os filmes promocionais exibido nos pequenos écrãs são hilariantes, prolongando todos os lugares-comuns do Portugal turístico, com uma simpática divisão de classes entre o casal quarentão bem na vida que fica no Pestana Palace, joga golfe, aluga descapotáveis e faz passeios de avioneta, e o grupo de turistas jovens de pé descalço (ou, no caso, ténis de marca) que anda de eléctrico, bebe bjecas na Trindade, anda com mapas da cidade por tudo o que é sítio e vai à noite para as Docas.
POLAROID: ROMA FIUMICINO, TERÇA, 14 DE JUNHO, 06h15
Às seis da manhã, todas as lojas e cafés situadas sobre o terminal B das partidas do aeroporto estão fechadas, com excepção de um único café, onde todos se concentram. E, contudo, o movimento no aeroporto é enorme, com facilmente duas dezenas de vôos a partir no espaço de uma hora antes das sete da manhã. Um contingente militar está de partida para qualquer sítio e alguns dos militares, de camuflado designer, juntam-se no café, pedindo "latte macchiatos" (café com leite claro, com espuma), cappuccinos ou "cornetti" (a palavra italiana para croissant, servido simples ou com recheio de chocolate ou compota).
18 de junho de 2005
POLAROID: ROMA TRASTEVERE, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 18h15
A estação de comboios continua em obras. Fazemos aqui o transbordo para Fiumicino — vamos à procura de um hotel para dormir na zona do aeroporto, já que às horas madrugadoras a que o vôo de regresso a Lisboa sai não compensa ficarmos em Roma. Enquanto esperamos pelo comboio para o aeroporto, um casal de turistas americanos com ar apressado comenta, ao ver-nos com as malas na plataforma, que também devemos ir para o aeroporto. Metemos conversa; ele de polo verde e calções claros, ela de calças largas e leves e camisa de alças, ambos de óculos escuros e a exalar o conforto burguês da classe média suburbana, explicam-nos que se enganaram no comboio e, em vez de regressar ao aeroporto, onde guardaram as malas num cacifo, foram parar aos subúrbios de Roma, e estão em risco de perder o avião para Zurique se o comboio para Fiumicino se atrasar ou levar muito tempo. O comboio chega pouco depois e desejamos-lhes boa sorte e boa viagem. Atrás de nós entram dois acordeonistas de ar cigano, tal e qual como se estivéssemos nas Docas ou nas esplanadas turísticas dos Restauradores, que começam a tocar canções napolitanas.
POLAROID: CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 17h00
Há cinco dias, chegámos a Civitavecchia à noite; o trajecto a pé até ao porto atravessou uma longa esplanada frente a uma praia, com pequenos bares e quiosques povoados por militares e turistas, mas só agora, em plena luz do dia, é que compreendemos realmente o aspecto de quase Cascais desta cidadezinha a uma hora de comboio de Roma e da qual só conheceremos este misto de esplanada e marginal, as escassas centenas de metros que vão do porto até à estação de comboios — em tudo muito semelhantes às lojas de bugigangas e objectos veraneantes que polvilham as nossas localidades balneares, com quiosques de gelados (em Itália também há gelados Olá; chamam-se Algida mas, no resto, os Magnums e os Cornettos são iguaizinhos), cafés, lojas de artigos fotográficos, bóias para as crianças, locais de barriga proeminente, tez tisnada, bigodes farfalhudos e sandálias romanas conversando em grupos encostados a uma parede ou a um poste de iluminação.
Chegamos à estação, compramos os bilhetes, o comboio para Roma está já na plataforma e sai escassos cinco minutos depois.
Chegamos à estação, compramos os bilhetes, o comboio para Roma está já na plataforma e sai escassos cinco minutos depois.
POLAROID: FERRY GOLFO ARANCI-CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO
Em vez de sairmos do porto de Olbia, onde chegámos há cinco dias, saímos de Golfo Aranci, alguns quilómetros mais a Norte, na linha local Sardinia Ferries — que não tem, segundo nos dizem, autorização de atracar em Olbia. O ferry que nos transporta durante quase sete horas está longe, tanto em dimensão como em conforto, dos ferries mais modernos da Tirrenia onde viajámos até Olbia; aqui pagámos metade do preço e usurpámos as poltronas junto às janelas (que, tecnicamente, são mais caras, mas fingimos que não sabemos de nada e, de qualquer maneira, o ferry está quase vazio). Em vez da escada rolante de passageiros no ferry da Tirrenia, entramos pelo convés dos automóveis e subimos acanhadas escadas de bordo; duas dezenas de carros e outros tantos passageiros sem carro no imenso navio, que zarpa da Sardenha às dez da manhã e chega a Civitavecchia pouco antes das cinco da tarde.
O empregado do bar onde compramos um improvisado almoço de sanduíches e sumos atende com o enfado de quem se resignou ao trabalho que tem; tudo neste ferry evoca uma sensação de decadência, de algo que se vai arrastando ingloriamente. Pelas janelas, o mar cria efeitos de luz no tecto falso de ripas plásticas de onde estão suspensos os climatizadores, as luzes fluorescentes, os televisores omnipresentes (sintonizados na Rai 1, com uma emissão muito dona-de-casa com o inspector Derrick e um telefilme americano).
Subo ao convés mas é difícil encontrar as escadas certas; quando finalmente o consigo, estou face à cabina de pilotagem, entre as duas chaminés. O ferry percorre veloz as águas do Mediterrânico, já se consegue ver ao longe, no meio da imensidão azul, a linha costeira italiana, a Civitavecchia de onde saímos quarta-feira e onde regressamos agora, depois de quatro dias na Sardenha que foram "uma experiência para recordar".
O empregado do bar onde compramos um improvisado almoço de sanduíches e sumos atende com o enfado de quem se resignou ao trabalho que tem; tudo neste ferry evoca uma sensação de decadência, de algo que se vai arrastando ingloriamente. Pelas janelas, o mar cria efeitos de luz no tecto falso de ripas plásticas de onde estão suspensos os climatizadores, as luzes fluorescentes, os televisores omnipresentes (sintonizados na Rai 1, com uma emissão muito dona-de-casa com o inspector Derrick e um telefilme americano).
Subo ao convés mas é difícil encontrar as escadas certas; quando finalmente o consigo, estou face à cabina de pilotagem, entre as duas chaminés. O ferry percorre veloz as águas do Mediterrânico, já se consegue ver ao longe, no meio da imensidão azul, a linha costeira italiana, a Civitavecchia de onde saímos quarta-feira e onde regressamos agora, depois de quatro dias na Sardenha que foram "uma experiência para recordar".
17 de junho de 2005
POLAROID: ARZACHENA, QUINTA, 9 DE JUNHO, A DOMINGO, 12 DE JUNHO
Arzachena, no Noroeste da Sardenha, é uma cidadezinha atravessada pela Viale Costa Smeralda, uma estrada de província que curva e contra-curva continuamente, recordando-me da algarvia Serra do Caldeirão, que a corta praticamente ao meio e a partir da qual algumas ruas se ramificam. Arzachena percorre-se a pé em 25 minutos de uma ponta à outra. Segundo me dizem, é uma das câmaras municipais mais ricas da Sardenha, já que algumas zonas costeiras dotadas de vilas e hotéis de luxo frequentadas por gente de bastantes posses (como a belíssima marina de Porto Cervo) reportam os seus impostos à câmara de Arzachena. À tarde, tem o mesmo aspecto imóvel de uma vilazinha alentejana ou algarvia numa tarde de Verão; arquitectura mediterrânica em pedra de cores claras com telha cor de tijolo. Arzachena é uma cidadezinha de província. Os custos da insularidade não são um exclusivo seu — afectam toda a Sardenha — mas a realidade é que aqui pouco há para fazer.
As montanhas à distância, que separam o interior da costa, funcionam, ao mesmo tempo, como barreira que esconde o que está do outro lado e protecção para o que está deste. Há, aqui, um silêncio que não existe na cidade; aquela sensação de, subitamente, termos saído do mundo, parado o tempo. Do confortável sofá nesta casa emprestada, coberto por tapetes rústicos e almofadas ornamentadas com fio dourado de inspiração muçulmana, desta varanda mediterrânica com balaustradas de ferro forjado e colunatas romanas em pedra maciça, tudo parece muito distante.
As montanhas à distância, que separam o interior da costa, funcionam, ao mesmo tempo, como barreira que esconde o que está do outro lado e protecção para o que está deste. Há, aqui, um silêncio que não existe na cidade; aquela sensação de, subitamente, termos saído do mundo, parado o tempo. Do confortável sofá nesta casa emprestada, coberto por tapetes rústicos e almofadas ornamentadas com fio dourado de inspiração muçulmana, desta varanda mediterrânica com balaustradas de ferro forjado e colunatas romanas em pedra maciça, tudo parece muito distante.
DEDICATÓRIA
Things can never again be what they were, the way they were.
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike
16 de junho de 2005
POLAROID: FERRY CIVITAVECCHIA-OLBIA, MADRUGADA DE QUARTA, 8 DE JUNHO, PARA QUINTA, 9 DE JUNHO
O ferry para Olbia é uma verdadeira cidade flutuante, com um grande número de convés, vários bares e restaurantes, até uma sala de cinema e outra de video-jogos. Quando o ferry larga amarras, com meia-hora de atrasso, para a viagem de seis horas até ao porto de Olbia, na Sardenha, é como se não estivéssemos sequer a navegar; sentimos apenas a vibração dos motores que nos propulsionam pelo Mediterrânico. A luz amarelada vem de uma placa embutida na cabeceira do beliche; se apagar as luzes da cabina, e olhar pela janela suja, posso ver as ondas esbranquiçadas que se afastam do casco, criadas pelo navegar do ferry, uma linha firme cortando o horizonte, única maneira de distinguir onde começa o céu negro só a espaços estrelado e termina o mar negro que só as luzes pontuais de uma bóia, um farol, outro ferry cortam. Apenas a esteira do barco vem cobrir de branco, acinzentado na escuridão, o escuro da noite. A cabina climatizada obriga-me a puxar do cobertor de lã e abri-lo sobre os lençóis com cheiro a lavado ilustrados com o monograma da Tirrenia Navigazione.
POLAROID: TERMINAL TRAGHETTI, PORTO DE CIVITAVECCHIA, QUARTA, 8 DE JUNHO, 22h00
Uma caminhada rápida de 10 minutos leva-nos da estação de comboios de Civitavecchia, a uma hora de trajecto de Roma, à bilheteira para comprarmos as entradas para o ferry para Olbia, na Sardenha. A bilheteira está vazia, à excepção de dois turistas que esperam sentados e de um trio de ciganos que conversa com a empregada. O terminal é uma ilha iluminada à entrada do porto, com um pequeno bar que serve cafés e bolos. Ficamos uma boa meia-hora no autocarro que faz o transporte gratuito até ao cais 24, à espera dos "retardatários" que chegarão até ao fecho da bilheteira às 22h30 (meia-hora antes da saída do barco). Alguns ciganos, alguns indianos, uns poucos europeus de Leste, muitos turistas, italianos e de outras nacionalidades.
POLAROID: ROMA TRASTEVERE, QUARTA, 8 DE JUNHO, 19h45
A estação de comboios está em obras, folhas amarelas impressas a computador indicando as saídas e as plataformas coladas em taipais de contraplacado. A confusão dos passageiros regressando a casa ao fim do dia de trabalho, apanhando correspondências entre seis plataformas diferentes. Um grupo de homens está sentado num banco entre os vários taipais, garrafas de litro de cerveja na mão. Não se percebe se são trabalhadores à espera de um comboio ou apenas a passar o tempo, ou se são emigrantes (muito mal vistos em Itália, pelo que percebemos) à espera que a estação feche, embora estejam demasiado bem vestidos para serem sem-abrigos. Seja como for, estão ali e não se vão embora; metem-se discretamente com os transeuntes. Percebem que somos estrangeiros, dizem-nos "hello" com um sorriso trocista; quando uma freira passa, apressada, quase a correr, para apanhar o comboio, gritam-lhe "go, go, go".
14 de junho de 2005
POLAROID: ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO, 18h45
O vôo de Lisboa aterrou há algum tempo. Esperamos as malas que foram no porão na recolha de bagagens. Uma senhora, de sotaque brasileiro, tenta tirar um carrinho de bagagens da fila por trás dos bancos. Tenta tudo para tirar o carrinho — levantá-lo, fazer força, incliná-lo, mas não consegue que ele saia dos carris e vira-se para mim, perguntando se eu sei livrar o carrinho. Aponto-lhe a máquina bem visível ao seu lado, indicando que é preciso pagar um euro para usar um carro. A senhora agradece e vai-se embora.
POLAROID: TP842 LISBOA-ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO
O A321 aterra em Roma. Assim que abrandamos em aproximação à manga, a hospedeira levanta-se rapidamente do assento junto à porta de emergência onde esteve sentada durante a aterragem, faz cara de má e admoesta alguns passageiros para se sentarem, não vá a travagem do avião levá-los a bater com a cabeça na bagageira e acabar por exigir uma indemnização à companhia pelo seu próprio descuido.
7 de junho de 2005
POLAROID: ELÉCTRICO
Apanho o eléctrico 28 no Miradouro de Santa Luzia, perto do Castelo de S. Jorge, e rapidamente percebo que a velha tradição dos miúdos lisboetas de apanharem boleia do eléctrico pendurados nas portas traseiras continua activa. Só que agora com T-shirts de basquetebol, cabelinho à Operação Triunfo, brincos na orelha e ténis da Nike.
Há dois miúdos que fazem todo o percurso pendurados até chegarmos à Baixa — altura em que um outro miúdo, que viajava dentro do eléctrico com bilhete pago e um CD walkman nas mãos, sai e se junta a eles.
Há dois miúdos que fazem todo o percurso pendurados até chegarmos à Baixa — altura em que um outro miúdo, que viajava dentro do eléctrico com bilhete pago e um CD walkman nas mãos, sai e se junta a eles.
POLAROID: IGREJAS DE LISBOA
Experimentem ver a cidade pelos olhos de um estrangeiro e, de repente, tudo aquilo que, até aqui, tomávamos como adquirido ou trivial ganha novos contornos, uma espécie de deslumbramento atordoado, meio surpreendido — mas isto estava mesmo aqui? Sim, é verdade, estava. Nós é que, com a velocidade vertiginosa da "vida real", passamos ao lado de prazeres simples como passear no Jardim da Estrela ou descobrir a quantidade absurda de igrejas por metro quadrado na "velha Lisboa" do Bairro Alto.
E, a esse propósito, torna-se curioso contar uma pequena história.
O meu amigo David, organista (com experiência de restauro de órgãos de igreja) em São Francisco, terminou há pouco o seu curso superior de órgão e, naturalmente, em cada igreja por onde passávamos quis ver se havia órgãos (instrumento que, sem que eu o soubesse, tem uma longa e nobre tradição de construção).
Curioso, tocou à campaínha da Igreja Anglicana de S. Jorge, situada no cemitério inglês, encostada ao Liceu Pedro Nunes e por trás do Hospital Inglês (que está situado nos terrenos da igreja), junto ao Jardim da Estrela. Embora o letreiro dissesse que a igreja e o cemitério estavam abertos diariamente das 9h00 às 13h00, ninguém atendia a campaínha, mas nesse preciso momento chegou o padre, que abriu a porta e confessou, depois de arrumar o carro, que adorava que a igreja e o cemitério estivessem mais disponíveis ao público mas, infelizmente, a senhora que fazia de porteira era portuguesa, tinha quase 90 anos e relutância em permitir a entrada de visitantes. O padre Michael permitiu não só ao David visitar o órgão como o deixou à vontade para o tocar durante alguns minutos.
O David perguntou em mais algumas igrejas se era possível visitar o órgão. Em quase todas lhe disseram que seria preciso falar com o padre, que estava ausente de momento, e nem sequer abriram a possibilidade de o levar a ver o órgão; numa, o empregado limitou-se a fazer que não com o dedo, nem sequer se dignando dirigir-nos a palavra ou sequer remeter para o padre. Fez apenas que não (e olhou com cara de mau enquanto o David fotografava o reluzente e recentemente restaurado instrumento). Só na Sé de Lisboa a empregada com quem falámos levantou a hipótese de passarmos por cima do cordão que impede o acesso do público ao órgão, como quem não quer coisa — e era por eu ser português, porque se fosse o David sozinho ela não deixava. Nenhum dos empregados com quem falámos percebia o que quer que fosse de inglês apesar do grosso dos visitantes serem estrangeiros — e, com uma ou outra excepção, estavam com um ar de frete desgraçado.
O David dizia-me, à saída da Sé, que, em São Francisco, seria muito difícil encontrar uma igreja onde fosse impossível visitar o órgão. Mais: em quase todas elas, haveria alguém a tocá-lo. Em Lisboa, nem uma única tinha música.
E, a esse propósito, torna-se curioso contar uma pequena história.
O meu amigo David, organista (com experiência de restauro de órgãos de igreja) em São Francisco, terminou há pouco o seu curso superior de órgão e, naturalmente, em cada igreja por onde passávamos quis ver se havia órgãos (instrumento que, sem que eu o soubesse, tem uma longa e nobre tradição de construção).
Curioso, tocou à campaínha da Igreja Anglicana de S. Jorge, situada no cemitério inglês, encostada ao Liceu Pedro Nunes e por trás do Hospital Inglês (que está situado nos terrenos da igreja), junto ao Jardim da Estrela. Embora o letreiro dissesse que a igreja e o cemitério estavam abertos diariamente das 9h00 às 13h00, ninguém atendia a campaínha, mas nesse preciso momento chegou o padre, que abriu a porta e confessou, depois de arrumar o carro, que adorava que a igreja e o cemitério estivessem mais disponíveis ao público mas, infelizmente, a senhora que fazia de porteira era portuguesa, tinha quase 90 anos e relutância em permitir a entrada de visitantes. O padre Michael permitiu não só ao David visitar o órgão como o deixou à vontade para o tocar durante alguns minutos.
O David perguntou em mais algumas igrejas se era possível visitar o órgão. Em quase todas lhe disseram que seria preciso falar com o padre, que estava ausente de momento, e nem sequer abriram a possibilidade de o levar a ver o órgão; numa, o empregado limitou-se a fazer que não com o dedo, nem sequer se dignando dirigir-nos a palavra ou sequer remeter para o padre. Fez apenas que não (e olhou com cara de mau enquanto o David fotografava o reluzente e recentemente restaurado instrumento). Só na Sé de Lisboa a empregada com quem falámos levantou a hipótese de passarmos por cima do cordão que impede o acesso do público ao órgão, como quem não quer coisa — e era por eu ser português, porque se fosse o David sozinho ela não deixava. Nenhum dos empregados com quem falámos percebia o que quer que fosse de inglês apesar do grosso dos visitantes serem estrangeiros — e, com uma ou outra excepção, estavam com um ar de frete desgraçado.
O David dizia-me, à saída da Sé, que, em São Francisco, seria muito difícil encontrar uma igreja onde fosse impossível visitar o órgão. Mais: em quase todas elas, haveria alguém a tocá-lo. Em Lisboa, nem uma única tinha música.
5 de junho de 2005
LOGBOOK #26/27: A LEI DA COMPENSAÇÃO
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 15h30; 9.5m, 31 min, 17º C
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 16h45; 7.6m, 26 min, 18º C
Cinco semanas depois do "passeio à rua da asneira", com um joelho inflamado pelo meio, uma ausência prolongada de exercício físico e uma sobrecarga de trabalho em antecipação às bem merecidas férias, o domingo radioso e cheio de sol traz a compensação perfeita, apesar do início algo atribulado, com os protestos dos pescadores de Sesimbra a cancelarem uma primeira tentativa no sábado e a marcha lenta de domingo de manhã a atrasar as actividades para a tarde.
Não é exactamente um mergulho tradicional. Vim apenas acompanhar um amigo americano de passagem por Lisboa que quis concluir cá o curso básico de mergulho, faltando-lhe apenas as duas últimas aulas de mar. Intermediando com a escola de mergulho, fui servir de tradutor em caso de necessidade (que não houve), assistente para quaisquer eventualidade e reserva moral se o rapaz se desse mal. Não deu. Bem pelo contrário: o ar do David depois de completar o último mergulho era de uma indescritível felicidade — que só quem já esteve debaixo de água consegue perceber.
O dia, esse, estava de luxo — céu azul, sol quente, nenhum vento, água límpida e calma (apesar do sedimento que prejudica a visibilidade). Tempo perfeito para mergulhar (a ironia de os pescadores terem escolhido este fim-de-semana de verdadeiro Verão para protestar não deve com certeza ter escapado a muitos). Enquanto o José e o David fazem os exercícios de rotina, eu entretenho-me a observá-los — a segurança e a confiança do instrutor, o à-vontade tentativo do aluno — ou a olhar para o que me rodeia: os pequenos peixinhos bebés, quase transparentes sobre a areia, os cardumes e peixes que flutuam por ali. A câmara descartável que trouxe para tirar uns instantâneos escorregou para fora do colete e é ver se a encontras — nem uma busca rapidinha pela área dá por ela e, no intervalo entre os dois mergulhos, percorremos a superfície com o barco sem a encontrar. A água está menos fria do que é costume, está-se bem nestas profundidades baixinhas; no fim do mergulho, uma volta pela zona da Pedra do Cavalo, mesmo à saída do porto, possibilita ver um polvo que lentamente sai de baixo da sua pedra e assume a forma tradicional, antes de se camuflar por entre rochedos maiores.
Apesar da baixa profundidade e do limite de tempo imposto pela inexperiência do aluno e pelos tópicos a cobrir na aula, este poderia bem ser o mergulho perfeito — ou o mergulho ideal. Se tal coisa existisse.
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 16h45; 7.6m, 26 min, 18º C
Cinco semanas depois do "passeio à rua da asneira", com um joelho inflamado pelo meio, uma ausência prolongada de exercício físico e uma sobrecarga de trabalho em antecipação às bem merecidas férias, o domingo radioso e cheio de sol traz a compensação perfeita, apesar do início algo atribulado, com os protestos dos pescadores de Sesimbra a cancelarem uma primeira tentativa no sábado e a marcha lenta de domingo de manhã a atrasar as actividades para a tarde.
Não é exactamente um mergulho tradicional. Vim apenas acompanhar um amigo americano de passagem por Lisboa que quis concluir cá o curso básico de mergulho, faltando-lhe apenas as duas últimas aulas de mar. Intermediando com a escola de mergulho, fui servir de tradutor em caso de necessidade (que não houve), assistente para quaisquer eventualidade e reserva moral se o rapaz se desse mal. Não deu. Bem pelo contrário: o ar do David depois de completar o último mergulho era de uma indescritível felicidade — que só quem já esteve debaixo de água consegue perceber.
O dia, esse, estava de luxo — céu azul, sol quente, nenhum vento, água límpida e calma (apesar do sedimento que prejudica a visibilidade). Tempo perfeito para mergulhar (a ironia de os pescadores terem escolhido este fim-de-semana de verdadeiro Verão para protestar não deve com certeza ter escapado a muitos). Enquanto o José e o David fazem os exercícios de rotina, eu entretenho-me a observá-los — a segurança e a confiança do instrutor, o à-vontade tentativo do aluno — ou a olhar para o que me rodeia: os pequenos peixinhos bebés, quase transparentes sobre a areia, os cardumes e peixes que flutuam por ali. A câmara descartável que trouxe para tirar uns instantâneos escorregou para fora do colete e é ver se a encontras — nem uma busca rapidinha pela área dá por ela e, no intervalo entre os dois mergulhos, percorremos a superfície com o barco sem a encontrar. A água está menos fria do que é costume, está-se bem nestas profundidades baixinhas; no fim do mergulho, uma volta pela zona da Pedra do Cavalo, mesmo à saída do porto, possibilita ver um polvo que lentamente sai de baixo da sua pedra e assume a forma tradicional, antes de se camuflar por entre rochedos maiores.
Apesar da baixa profundidade e do limite de tempo imposto pela inexperiência do aluno e pelos tópicos a cobrir na aula, este poderia bem ser o mergulho perfeito — ou o mergulho ideal. Se tal coisa existisse.
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