Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 28 de Agosto, 11h30: 13.0m, 14 min, 18º C
14 minutos apenas? Mandam as regras de segurança que, quando se perde o parceiro de vista, se interrompa o mergulho porque não é conveniente andar a passear sozinho por ali. Há uma corrente de opinião que acha que sozinho é que se mergulha bem e o parceiro basicamente é um empecilho — não partilho dessa opinião, excepto quando o parceiro é daqueles do género "eu e tu no mesmo oceano".
Não foi o caso hoje, mas a velocidade a que o Paulo Jorge ia fez com que, quando eu parei para ver uma coisa na passagem propriamente dita (divinal, com água chã, sem vaga, quase nenhuma corrente, 10 metros de visibilidade, uma irritação!) e dei pela falta da lanterna que se tinha soltado do camarão (encontrada mais à frente por mergulhador de dupla companheira de barco, os meus agradecimentos), quando voltei a olhar já lá não estava ninguém. Uma voltinha a ver se os rapazes aparecem, não aparecem? chatice! Faz-se uma subidazinha lenta, com calma, a ver os cardumes que vão passeando pelas rochas a 4-5 metros de profundidade e volta-se ao barco.
Quando estou a passar o equipamento, os rapazes aparecem a saber se está tudo bem. Está, voltem lá ao mergulhinho que eu fico-me por aqui; até porque o colete precisa de ser afinado, está a disparar demasiado ar quando se puxa a traqueia e quando se enche não faz o habitual e reconfortante ruído de entrada de ar, parecendo antes um asmático a forçar respiração. Nestas ocasiões, mais vale jogar pelo seguro e abortar mesmo o mergulho - sem problemas de maior, ainda assim, porque o dia está bonito, a água está calma, dá para pôr a conversa em dia com a Isabel e perceber que, por exemplo, em Sesimbra o domingo passou a ser dia igualmente forte para a prática do mergulho quando antes era o sábado, e que há alunos de mergulho espanhóis que vêm acabar o curso a Sesimbra. Estava, aliás, um grupo a sair connosco no nosso barco e, quando eu abandonava o porto, outro a chegar para outra escola. E fico com a sensação que ainda há quem leve isto do mergulho não muito a sério, como o pessoal que apareceu sem saída marcada em cima da hora a ver se orientava um mergulhinho. É a diferença entre quem faz porque gosta mesmo e quem faz porque sim — e tenho a sensação que começa a haver muito quem faça porque sim. (Claro que também há quem o leve demasiado a sério.)
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
28 de agosto de 2005
27 de agosto de 2005
POLAROID: BENFIQUISTA DESESPERADO (post interdito a menores de 18 anos)
Os gritos desesperados de um adepto benfiquista desesperado com a exibição com o Gil Vicente ecoam pela minha rua ao longo de toda a segunda parte, num acesso de masoquismo definido pelo elevadíssimo volume com que ele grita um reportório limitado mas significativo de injúrias à integridade dos jogadores e das suas progenitoras (essencialmente, variações à volta de "caralho", "cabrão" e "filho da puta"; a mais inventiva das invectivas, dirigida a um Mantorras que não dá uma para a caixa este ano, é "preto nojento", embora não creia na existência de um qualquer subtexto racista na sua criação).
Não é hábito que isto aconteça, mesmo em más exibições do Benfica.
Não é hábito que isto aconteça, mesmo em más exibições do Benfica.
PESQUISA
A propósito de um desafio, mergulho, absorto, na "História de Portugal" que José Mattoso dirigiu há 12 anos, mais especificamente no volume que Rui Ramos dedica ao período 1890-1930 — e, pasmado, descubro que a política portuguesa de 1890 em pouco ou nada difere da política portuguesa de 1890. A política e, adiante-se, muito do resto (porque, sim, há coisas que vão mudando, mas estas não fazem parte da lista). Não espanta que Eça de Queiroz continue a ter razão, cento e tal anos depois: há atavismos que não desaparecem.
26 de agosto de 2005
ALGUMAS COISAS NUNCA MUDAM
Junto ao Carrefour do Oeiras Parque, há uma dessas arcadas de jogos a que hoje em dia se chama pomposamente de «fun parks» e afins, cheia de gadgets sofisticadíssimos e máquinas electrónicas para se gastar tempo ao sabor de umas moedas. Mas qual é o único jogo que reúne à sua volta uma pequena multidão? A boa, velha e analógica... mesa de matraquilhos.
25 de agosto de 2005
A ELUCIDAÇÃO DO CONSUMIDOR
Ontem, pouco depois das 21h00, entro na loja de relógios A Máquina do Tempo, nas Amoreiras (onde comprei o relógio), e mostro à empregada (com aspecto de balconista do comércio tradicional, cabelo louro pintado como convém a uma senhora já na casa dos 50) o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." "Com certeza, mas só a partir do dia 2 de Setembro porque o fornecedor está de férias e antes disso não fazemos consertos. Nem nós nem nenhuma loja." Ah é? Muito obrigado e boa noite.
Hoje, às 13h30, entro na loja Colombus do Oeiras Parque e mostro à empregada o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." A empregada pega no relógio e abre uma gaveta. "Com certeza, deixe-me só ver se tenho pulseiras do mesmo modelo." 15 minutos depois, saio da loja com o relógio com uma pulseira nova.
Hoje, às 13h30, entro na loja Colombus do Oeiras Parque e mostro à empregada o meu Citizen cuja pulseira, ao fim de sete anos de uso, começou a partir-se. "Queria trocar a pulseira que se está a partir." A empregada pega no relógio e abre uma gaveta. "Com certeza, deixe-me só ver se tenho pulseiras do mesmo modelo." 15 minutos depois, saio da loja com o relógio com uma pulseira nova.
24 de agosto de 2005
23 de agosto de 2005
MARKETING POLÍTICO v1.0
É muito curioso ver diariamente os outdoors da pré-campanha para as eleições autárquicas num concelho (Oeiras) onde não resido mas onde trabalho - e, se a coisa dependesse exclusivamente dos outdoors (que, evidentemente, não depende), Teresa Zambujo, candidata do PSD, já teria ganho a larga distância, com os cartazes legíveis, de imagem limpa e imediata, concentrando-se numa única mensagem com o retrato convenientemente positivista da candidata ao lado. Faltará, eventualmente, substância à coisa, mas à superfície é uma campanha eficaz.
Pelo contrário, os cartazes de Emanuel Martins, candidato do PS, são o mais extraordinário exemplo de "tiro no pé" que já vi, propagandeando "a mudança tranquila" com uma fotografia, no mínimo, pouco lisonjeadora para o perfil de "dinamismo e seriedade" que o candidato pretende explorar (e os cartazes com o seu "braço direito" Mário Lino ainda piores são) - dá vontade de dizer "a votar neste não me apanham!", ou, como comentava amiga minha, "o homem tem cara de dirigente de futebol" o que, em estenografia popular, não é necessariamente uma boa recomendação. Um bom consultor de imagem sabe como dar a volta a fisionomias menos fotogénicas...
Também aparecem de vez em quando uns quantos outdoors de Isabel Sande e Castro, do CDS-PP, mas são de difícil leitura para quem passa de carro, embora a fotografia posicione a candidata como uma figura de pose serena e maternal (um conceito interessante...).
Já os outdoors do independente Isaltino Morais — com um tipo de letra "futurista" que diz "Queremos ver Oeiras mais à frente" sob uma fotografia de conjunto que pretende simbolizar a abrangência da campanha do candidato — são dispersos e difusos, sem conseguirem projectar um conceito específico. Será que "querer ver Oeiras mais à frente" implica mudar-lhe as fronteiras para, por exemplo, Carcavelos ou São Pedro do Estoril? E, a assim ser, será que Carcavelos ou São Pedro do Estoril estão de acordo?
Pelo contrário, os cartazes de Emanuel Martins, candidato do PS, são o mais extraordinário exemplo de "tiro no pé" que já vi, propagandeando "a mudança tranquila" com uma fotografia, no mínimo, pouco lisonjeadora para o perfil de "dinamismo e seriedade" que o candidato pretende explorar (e os cartazes com o seu "braço direito" Mário Lino ainda piores são) - dá vontade de dizer "a votar neste não me apanham!", ou, como comentava amiga minha, "o homem tem cara de dirigente de futebol" o que, em estenografia popular, não é necessariamente uma boa recomendação. Um bom consultor de imagem sabe como dar a volta a fisionomias menos fotogénicas...
Também aparecem de vez em quando uns quantos outdoors de Isabel Sande e Castro, do CDS-PP, mas são de difícil leitura para quem passa de carro, embora a fotografia posicione a candidata como uma figura de pose serena e maternal (um conceito interessante...).
Já os outdoors do independente Isaltino Morais — com um tipo de letra "futurista" que diz "Queremos ver Oeiras mais à frente" sob uma fotografia de conjunto que pretende simbolizar a abrangência da campanha do candidato — são dispersos e difusos, sem conseguirem projectar um conceito específico. Será que "querer ver Oeiras mais à frente" implica mudar-lhe as fronteiras para, por exemplo, Carcavelos ou São Pedro do Estoril? E, a assim ser, será que Carcavelos ou São Pedro do Estoril estão de acordo?
22 de agosto de 2005
OBRIGADO, JOÃO MACDONALD
"O Homem sem Qualidades" é o romance de uma vida inteira - as suas 1130 páginas (na tradução inglesa) correspondem a mais de uma década de trabalho deixado incompleto pela morte do seu autor, o escritor austríaco Robert Musil, em 1942. A primeira das três partes que compõem "O Homem sem Qualidades" vira edição em 1930 e a segunda em 1933, a instâncias do editor, cedência de que Musil mais tarde se arrependeria pela impossibilidade de voltar atrás e retrabalhar o que já fora publicado; a terceira parte viu edição póstuma em 1943 pelas mãos da viúva do autor, o que talvez explique a sensação de incompletude que a leitura deixa, como se Musil não tivesse verdadeiramente terminado a sua narração (alguns dos fios narrativos iniciados ficam por resolver). Incompletude que, contudo, em nenhum momento trava a convicção de estarmos aqui perante um objecto esmagador e inclassificável pelo assombroso microcosmos saído da criatividade do seu autor — muito embora não estejamos a falar, apenas, de ficção.
Porque "O Homem sem Qualidades" é a crónica do fim de um mundo — mais especificamente, do império austro-húngaro nos anos anteriores à I Guerra Mundial que destruiria de vez a "velha Europa" imperial, de uma aristocracia quase feudal — vista pelos olhos de Ulrich, diletante intelectual apanhado entre a aristocracia e a burguesia, que vagueia pela alta sociedade vienense e a observa com o distanciamento maçado de quem não sabe onde pertence nem o que procura. Sátira, ensaio, crónica, tudo passa pelas mil páginas deste verdadeiro roman-fleuve que passa da vivacidade de uma conversa de salão repleta de double-entendres à secura implacavelmente lógica e teutónica de uma dissertação teórica sobre o intangível, desenhando no processo o retrato perturbante de uma sociedade que parece ter-se tornado complexa demais para quem nela vive, que levanta mais questões do que aquelas que resolve àqueles que a observam atentamente.
De um humor subtilmente subversivo disfarçado de boutade de salão de fumo, de uma inteligência assustadoramente presciente, "O Homem sem Qualidades" acaba por ser um corte transversal da sociedade moderna — e não tenhamos a mínima dúvida da sua intemporalidade, porque a confusão que reina na "Kakania" (a mal disfarçada Áustria que Musil ficcionaliza muito ao de leve) é gémea e espelho da que reina nos nossos dias. O mundo moderno, no fundo, já foi inventado há um século e é isso que Musil nos diz: a história pode não se repetir, mas os seres humanos são arrepiantemente previsíveis.
Como Eça de Queiroz no seu tempo, Musil é um satirista humanista e melancólico, ciente de que tudo muda para que tudo fique igual — e momentos há neste roman-fleuve (e a comparação majestosa ao rio é apropriadíssima) que são perfeitamente aplicáveis aos nossos dias. Não é só isso o que há em "O Homem sem Qualidades" (que deverá voltar a estar disponível brevemente em tradução portuguesa por João Barrento). Porque este livro é, literalmente, um mundo, e nele poderemos encontrar toda a vida humana — para o bem e para o mal.
Porque "O Homem sem Qualidades" é a crónica do fim de um mundo — mais especificamente, do império austro-húngaro nos anos anteriores à I Guerra Mundial que destruiria de vez a "velha Europa" imperial, de uma aristocracia quase feudal — vista pelos olhos de Ulrich, diletante intelectual apanhado entre a aristocracia e a burguesia, que vagueia pela alta sociedade vienense e a observa com o distanciamento maçado de quem não sabe onde pertence nem o que procura. Sátira, ensaio, crónica, tudo passa pelas mil páginas deste verdadeiro roman-fleuve que passa da vivacidade de uma conversa de salão repleta de double-entendres à secura implacavelmente lógica e teutónica de uma dissertação teórica sobre o intangível, desenhando no processo o retrato perturbante de uma sociedade que parece ter-se tornado complexa demais para quem nela vive, que levanta mais questões do que aquelas que resolve àqueles que a observam atentamente.
De um humor subtilmente subversivo disfarçado de boutade de salão de fumo, de uma inteligência assustadoramente presciente, "O Homem sem Qualidades" acaba por ser um corte transversal da sociedade moderna — e não tenhamos a mínima dúvida da sua intemporalidade, porque a confusão que reina na "Kakania" (a mal disfarçada Áustria que Musil ficcionaliza muito ao de leve) é gémea e espelho da que reina nos nossos dias. O mundo moderno, no fundo, já foi inventado há um século e é isso que Musil nos diz: a história pode não se repetir, mas os seres humanos são arrepiantemente previsíveis.
Como Eça de Queiroz no seu tempo, Musil é um satirista humanista e melancólico, ciente de que tudo muda para que tudo fique igual — e momentos há neste roman-fleuve (e a comparação majestosa ao rio é apropriadíssima) que são perfeitamente aplicáveis aos nossos dias. Não é só isso o que há em "O Homem sem Qualidades" (que deverá voltar a estar disponível brevemente em tradução portuguesa por João Barrento). Porque este livro é, literalmente, um mundo, e nele poderemos encontrar toda a vida humana — para o bem e para o mal.
21 de agosto de 2005
COMO DISTINGUIR ENTRE A POESIA E A IDIOTICE
Without going into the finer distinctions between idiots and cretins, suffice it to say that an idiot of a certain degree is not up to forming the concept "parents", even though he has no trouble with the idea of "father and mother." This same simple additive, "and," was Meseritscher's device for relating social phenomena to one another. Another point about idiots is that in the basic concreteness of their thinking they have something that is generally agreed to appeal to the emotions in a mysterious way; and poets appeal directly to the emotions in very much the same way, insofar as their minds run to palpable realities. And so, when Friedel Feuermaul addressed Meseritscher as a poet, he could just as well — that is, out of the same obscure, hovering feeling, which, in his case, was tantamount to a sudden illumination — have called him an idiot, in a way that would have had considerable significance for all mankind. For the element common to both is a mental condition that cannot be spanned by far-reaching concepts, or refined by distinctions and abstractions, a mental state of the crudest pattern, expressed most clearly in the way it limits itself to the simplest of coordinating conjunctions, the helplessly additive "and," which for those of meager mental capacity replaces more intrincate relationships; and it may be said that our world, regardless of all its intellectual riches, is in a mental condition akin to idiocy; indeed, there is no avoiding this conclusion if one tries to grasp as a totality what is going on in the world.
- Robert Musil, in "The Man Without Qualities", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
- Robert Musil, in "The Man Without Qualities", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
20 de agosto de 2005
19 de agosto de 2005
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #1
Porque há sempre uma tikka masala aveludada ou uma galáxia de açúcar baunilhado algures por aí à espera, aqui proponho (em homenagem a amiga de devoção a tikka masala aveludada & a amigo de desprazer com galáxias de açúcar baunilhado) a abertura de uma série irregular de posts dedicados à gastronomia urbana descoberta por aqui por ali, iniciados com a visita, ontem à noite, à campodeouriquense Charcutaria (rua Coelho da Rocha, perto do Mercado de Campo de Ourique), salinha mínima que não deve levar mais de 20 pessoas por soirée onde, garante-me o meu comparsa de degustação, amiga e vizinha comum toma diariamente o pequeno-almoço (gosto destes sítios multifacetados, com o seu quê de bem).
Visita anterior à Charcutaria terá sido em encarnação anterior da casa, há uns bons dez anos, não me recordando por isso de eventuais variações de então para cá. Para já, serviço simpático, cortês a cargo de moço aprumado e bem vestido de suave sotaque estrangeiro, sozinho a servir em sala cheia (ainda que pequena) modestamente fornecida e decorada, com ar polivalente (café / restaurante / salão de chá) - a atrapalhação foi ligeira, não houve grandes esperas, mas foi curioso ver as estratégias para lidar com as exigências. Avisado pelo comparsa que o preço da coisa poderia ser para o puxadito, a surpresa foi ver que só alguns dos pratos mais elaborados (dos quais fugimos, até porque empada de perdiz não faz o meu género) ultrapassavam a barreira psicológica dos €10,00, e como eu me fiquei pela água e ele pela cerveja, a coisa não saiu estupidamente cara.
Couvert proposto - fatias de pão de forma cortadas em triângulos acompanhadas por pâté caseiro levemente avinagrado mas de agradável textura, mais empadinhas de galinha acabadinhas de sair do forno e ainda quentes (que, por isso, não ficaram especialmente na memória).
Passando ao prato principal, parece que o polvo grelhado com batatas a murro (coberto por picadinho de cebola, salsa e alho e servido com liberal dose de azeite) não estava mal (embora o comparsa tenha achado um tudo nada azeitado em excesso). Coube-me provar os secretos de porco preto com migas de batata e couve - quatro lombinhos grelhados no ponto servidos com salsa picada em cama de azeite condimentado com um toque de vinagre, com as migas (de um verde claro esbranquiçado, com uma textura agradavelmente próxima do esparregado mas travo mais delicado) servidas em pratinho separado. Depois das entradas, a dose surge na quantidade ideal para satisfazer sem encher.
Dispensámos o café, mas o amigo comparsa não dispensou doce e encomendou a sobremesa mista, prato degustação com quatro fatias finas de quatro especialidades. Não sou moço de fios de ovos pelo que a encharcada ficou toda para ele, e o bolo de chocolate era um pouco carregado demais, mas a sericaia estava excelente. O todo ficou por €26.50 para duas pessoas, o que é aceitável sem ser excessivo, mas caso houvesse vinho à mistura facilmente teria inchado para o dobro.
Visita anterior à Charcutaria terá sido em encarnação anterior da casa, há uns bons dez anos, não me recordando por isso de eventuais variações de então para cá. Para já, serviço simpático, cortês a cargo de moço aprumado e bem vestido de suave sotaque estrangeiro, sozinho a servir em sala cheia (ainda que pequena) modestamente fornecida e decorada, com ar polivalente (café / restaurante / salão de chá) - a atrapalhação foi ligeira, não houve grandes esperas, mas foi curioso ver as estratégias para lidar com as exigências. Avisado pelo comparsa que o preço da coisa poderia ser para o puxadito, a surpresa foi ver que só alguns dos pratos mais elaborados (dos quais fugimos, até porque empada de perdiz não faz o meu género) ultrapassavam a barreira psicológica dos €10,00, e como eu me fiquei pela água e ele pela cerveja, a coisa não saiu estupidamente cara.
Couvert proposto - fatias de pão de forma cortadas em triângulos acompanhadas por pâté caseiro levemente avinagrado mas de agradável textura, mais empadinhas de galinha acabadinhas de sair do forno e ainda quentes (que, por isso, não ficaram especialmente na memória).
Passando ao prato principal, parece que o polvo grelhado com batatas a murro (coberto por picadinho de cebola, salsa e alho e servido com liberal dose de azeite) não estava mal (embora o comparsa tenha achado um tudo nada azeitado em excesso). Coube-me provar os secretos de porco preto com migas de batata e couve - quatro lombinhos grelhados no ponto servidos com salsa picada em cama de azeite condimentado com um toque de vinagre, com as migas (de um verde claro esbranquiçado, com uma textura agradavelmente próxima do esparregado mas travo mais delicado) servidas em pratinho separado. Depois das entradas, a dose surge na quantidade ideal para satisfazer sem encher.
Dispensámos o café, mas o amigo comparsa não dispensou doce e encomendou a sobremesa mista, prato degustação com quatro fatias finas de quatro especialidades. Não sou moço de fios de ovos pelo que a encharcada ficou toda para ele, e o bolo de chocolate era um pouco carregado demais, mas a sericaia estava excelente. O todo ficou por €26.50 para duas pessoas, o que é aceitável sem ser excessivo, mas caso houvesse vinho à mistura facilmente teria inchado para o dobro.
18 de agosto de 2005
ESTATÍSTICA FELINA MATINAL
Número de gatos que relaxam no telhado da arrecadação nas minhas traseiras às 08h31 de quinta-feira, 18 de Agosto de 2005: seis.
17 de agosto de 2005
PILOTO AUTOMÁTICO
Hoje compreendi que já tenho alguns percursos de automóvel de tal maneira interiorizados que quase nem dou pelos movimentos que faço. Até já meto mudanças apenas com os músculos do pulso, sem sequer agarrar a alavanca. Deverei estar preocupado?
PAGAR AS CONTAS
O meu pai é daquelas pessoas que paga sempre as contas, quaisquer que elas sejam, no último dia do prazo, para garantir que o dinheiro não fica lá a render para "eles".
Eu prefiro sempre pagar as contas assim que as recebo, porque já sei que se não o faço sou gajo para me esquecer de as pagar ou de as pagar depois do prazo.
Eu prefiro sempre pagar as contas assim que as recebo, porque já sei que se não o faço sou gajo para me esquecer de as pagar ou de as pagar depois do prazo.
15 de agosto de 2005
ZOO TV (SLIGHT RETURN)
O ponto em que a Vertigo Tour 2005 em Alvalade rebentou a escala e virou (outra vez) um dos concertos da minha vida: a abertura do encore com "Zoo Station" e "The Fly", com os écrãs a recriar o ambiente caótico da Zoo TV.
The secret is yourself
your pain
letting go
giving up
breaking down
giving in
to the end...
...to the beginning
giving in to
love.
Os U2 ainda são os U2. Felizmente.
The secret is yourself
your pain
letting go
giving up
breaking down
giving in
to the end...
...to the beginning
giving in to
love.
Os U2 ainda são os U2. Felizmente.
13 de agosto de 2005
FANNY ARDANT E EU
Estou obcecado. Desculpem qualquer coisinha. (A culpa é do Dr. Cão.)

on écoute du chant gregorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi
je passe la soirée avec Sylvain
pendant qu’elle mate le papier peint
on est restés indépendants
moi et Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
je lui parle pas des filles de Jussieu
elle parle pas trop de Depardieu
et on évite ces sujets-là
Fanny Ardant et moi
il y a un truc dans son regard
qui me reproche de rentrer trop tard
elle voudrait que je sois là tout le temps
évidemment Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
on écoute du chant grégorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi.
- Vincent Delerm, "Fanny Ardant et Moi", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

on écoute du chant gregorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi
je passe la soirée avec Sylvain
pendant qu’elle mate le papier peint
on est restés indépendants
moi et Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
je lui parle pas des filles de Jussieu
elle parle pas trop de Depardieu
et on évite ces sujets-là
Fanny Ardant et moi
il y a un truc dans son regard
qui me reproche de rentrer trop tard
elle voudrait que je sois là tout le temps
évidemment Fanny Ardant
elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant
on écoute du chant grégorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi.
- Vincent Delerm, "Fanny Ardant et Moi", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)
IDEALISMOS
"A nossa vida nas nossas mãos"
(graffiti lido nas paredes da Avenida dos Fundadores, em Paço d'Arcos, perto do Oeiras Parque)
(graffiti lido nas paredes da Avenida dos Fundadores, em Paço d'Arcos, perto do Oeiras Parque)
12 de agosto de 2005
FOLHAS CAÍDAS NO MEIO DA ESTRADA
Pela avenida de Ceuta, do lado de fora, perto do rio, o asfalto da estrada está cheio de folhas amarelo-acastanhadas, encarquilhadas, caídas das árvores. A deslocação de ar dos carros que passam em ambos os sentidos elevam as folhas em pequenas nuvens, como o restolhar dos ramos de uma árvore ao vento.
11 de agosto de 2005
O GATO
Estou sentado no pouf em casa da Rita e do António quando o gato, preto, elegante, se dá finalmente ao trabalho de aparecer. Ronda-me a cheirar-me, encosta o focinho curioso ao meu braço, olha-me com os olhos muito abertos durante vários minutos. Estou sentado com as pernas em arco; o gato arqueia o lombo, enrola e desenrola a cauda e passa por baixo do arco das pernas, roçando a cauda e o lombo no ângulo dos joelhos, uma, duas, três, quatro vezes. Entre elas, encosta o focinho aos nós dos dedos das minhas mãos. Depois, deita-se no chão, de lado, a olhar para mim. Estico um dedo e ele dá-me pequenas patadas no dedo, como quem agarra uma coisa para a soltar a seguir, mas sem pôr as garras de fora, e pega no dedo para o levar à boca aberta e fingir que o morde sem o morder. Tento pegar-lhe nas patas estendidas, mas só me deixa pegar na pata traseira direita, a única que ele não pode mexer livremente por estar encostada ao chão, a servir de suporte, enquanto continua a brincar com o dedo da minha outra mão. Fica ali mais um bocadinho, põe-se de pé, tento agarrar-lhe na cauda, e desaparece tão discretamente como apareceu.
10 de agosto de 2005
O PREÇO DO TABACO
"O tabaco está caro mas a ganza mantém-se! Muito fumo!"
(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)
(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)
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