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17 de agosto de 2005

PILOTO AUTOMÁTICO

Hoje compreendi que já tenho alguns percursos de automóvel de tal maneira interiorizados que quase nem dou pelos movimentos que faço. Até já meto mudanças apenas com os músculos do pulso, sem sequer agarrar a alavanca. Deverei estar preocupado?

PAGAR AS CONTAS

O meu pai é daquelas pessoas que paga sempre as contas, quaisquer que elas sejam, no último dia do prazo, para garantir que o dinheiro não fica lá a render para "eles".

Eu prefiro sempre pagar as contas assim que as recebo, porque já sei que se não o faço sou gajo para me esquecer de as pagar ou de as pagar depois do prazo.

15 de agosto de 2005

ZOO TV (SLIGHT RETURN)

O ponto em que a Vertigo Tour 2005 em Alvalade rebentou a escala e virou (outra vez) um dos concertos da minha vida: a abertura do encore com "Zoo Station" e "The Fly", com os écrãs a recriar o ambiente caótico da Zoo TV.

The secret is yourself
your pain
letting go
giving up
breaking down
giving in
to the end...
...to the beginning
giving in to
love.


Os U2 ainda são os U2. Felizmente.

13 de agosto de 2005

FANNY ARDANT E EU

Estou obcecado. Desculpem qualquer coisinha. (A culpa é do Dr. Cão.)



on écoute du chant gregorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi
je passe la soirée avec Sylvain
pendant qu’elle mate le papier peint
on est restés indépendants
moi et Fanny Ardant

elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant

je lui parle pas des filles de Jussieu
elle parle pas trop de Depardieu
et on évite ces sujets-là
Fanny Ardant et moi
il y a un truc dans son regard
qui me reproche de rentrer trop tard
elle voudrait que je sois là tout le temps
évidemment Fanny Ardant

elle est posée sur l’étagère
entre un bouquin d’Eric Holder
un chandelier blanc IKEA
et une carte postale de Maria
elle est toujours toute noire et blanche
elle ne dit plus “vivement dimanche!”
depuis que je la traîne chez mes parents
tous les weekends Fanny Ardant

on écoute du chant grégorien
elle parle à peine et moi je dis rien
on a une relation comme ça
Fanny Ardant et moi.


- Vincent Delerm, "Fanny Ardant et Moi", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

IDEALISMOS

"A nossa vida nas nossas mãos"

(graffiti lido nas paredes da Avenida dos Fundadores, em Paço d'Arcos, perto do Oeiras Parque)

12 de agosto de 2005

FOLHAS CAÍDAS NO MEIO DA ESTRADA

Pela avenida de Ceuta, do lado de fora, perto do rio, o asfalto da estrada está cheio de folhas amarelo-acastanhadas, encarquilhadas, caídas das árvores. A deslocação de ar dos carros que passam em ambos os sentidos elevam as folhas em pequenas nuvens, como o restolhar dos ramos de uma árvore ao vento.

11 de agosto de 2005

O GATO

Estou sentado no pouf em casa da Rita e do António quando o gato, preto, elegante, se dá finalmente ao trabalho de aparecer. Ronda-me a cheirar-me, encosta o focinho curioso ao meu braço, olha-me com os olhos muito abertos durante vários minutos. Estou sentado com as pernas em arco; o gato arqueia o lombo, enrola e desenrola a cauda e passa por baixo do arco das pernas, roçando a cauda e o lombo no ângulo dos joelhos, uma, duas, três, quatro vezes. Entre elas, encosta o focinho aos nós dos dedos das minhas mãos. Depois, deita-se no chão, de lado, a olhar para mim. Estico um dedo e ele dá-me pequenas patadas no dedo, como quem agarra uma coisa para a soltar a seguir, mas sem pôr as garras de fora, e pega no dedo para o levar à boca aberta e fingir que o morde sem o morder. Tento pegar-lhe nas patas estendidas, mas só me deixa pegar na pata traseira direita, a única que ele não pode mexer livremente por estar encostada ao chão, a servir de suporte, enquanto continua a brincar com o dedo da minha outra mão. Fica ali mais um bocadinho, põe-se de pé, tento agarrar-lhe na cauda, e desaparece tão discretamente como apareceu.

10 de agosto de 2005

O PREÇO DO TABACO

"O tabaco está caro mas a ganza mantém-se! Muito fumo!"

(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)

9 de agosto de 2005

O MONÓLOGO SHAKESPEARIANO

Indizível de tão bom, de tão espirituoso, de tão certeiro no comentário ácido.



pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
ses vacances y a deux ans sur la plage de Bénodet
pendant la troisième scène je me suis un peu rendu compte
j'avais pas bien suivi les répliques du Vicomte
pendant la quatrième elle s'est penchée vers moi
elle a failli me dire un truc et puis finalement pas

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin à l'épilogue shakespearien

début du deuxième acte, toute la rangée soupire
le clan des veuves s'éclate parce que bon c'est Shakespeare
niveau intensité quelque chose qui rappelle
le programme d'EMT pour l'année de quatrième
pourtant la mise en scène était pas mal trouvée
pas de décor, pas de costumes, c'était une putain d'idée
aucune intonation et aucun déplacement
on s'est dit pourquoi pas, aucun public finalement

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au dénouement shakespearien

dans les rues d'Avignon y a des lumières la nuit
on boit des demi-citrons et on se photographie
à la table d'à côté ils ont vu un Beckett
ils disent "c'est pas mal joué mais faut aimer Beckett"
dans les rues d'Avignon il y a des projets balèzes
"demain à 23 heures je vais voir une pièce polonaise"
dans les rues d'Avignon y a du Pepsi Cola
et puis y a une fille qui dit "ba en fait je viens de Levallois"

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au monologue shakespearien

pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
mes vacances dans deux ans sur la plage de Bénodet.


- Vincent Delerm, "Le Monologue Shakespearien", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

7 de agosto de 2005

THE BEAUTIFUL GAME

Assim chamam os britânicos ao desporto vulgo rei chamado "futebol", actividade que, confesso, nunca me causou especial atracção, excepto em situações pontuais como as finais da Taça de Inglaterra (em que eu percebia como, realmente, podia ser um desporto interessante quando bem jogado) e um ou outro jogo do Euro 2004 por terras lusas.

Oriundo de uma família de benfiquistas razoavelmente ferrenhos, o meu desinteresse pelo futebol foi sempre recebido com alguma tristeza pelos meus irmãos, muito embora o meu pai se tenha tornado num benfiquista particularmente mordaz quanto às actuais capacidades da equipa, oh, para aí nas últimas vinte temporadas. Era eu muito miúdo, para aí com os meus cinco-seis anos, lembro-me de ter ido ao futebol com o meu pai, ao Estádio da Luz, mas para além da seca que apanhei só me recordo de passarmos por baixo do túnel de acesso sob a Segunda Circular.

O túnel ainda lá está, como percebi ontem quando acompanhei o meu irmão ao jogo de "apresentação" da "equipa" aos sócios, a convite dele, marcando assim a primeira vez em para aí 30 anos que entrei num estádio de futebol sem ser para assistir a um concerto de rock. Entre as várias conclusões que tirei do triste acontecimento em que o Benfica fez uma miserável exibição perante uma Juventus que nem sequer se esforçou muito para justificar a vitória por 2-0, estão as seguintes:

1. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é uma excelente oportunidade para exercer a prática nacional sempre saudável do cinismo.

2. Assistir a um jogo de futebol ao vivo equivale igualmente a um qualquer misterioso exercício de masoquismo por parte dos adeptos, que se deliciam a explorar tudo o que de pior pode acontecer à sua equipa (e que, pelos vistos, acontece mais do que seria desejável).

3. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é ainda a colocação em prática daquele que é, na realidade, o primeiro desporto nacional — a saber, duvidar de tudo e de todos até ao ponto em que a apatia resignada, mas telhuda, é a única solução.

Claro que, para continuar este interessante exercício de entomologia sociológica, o ideal será mesmo assistir a um jogo que corra bem para o Benfica e compreeender quantas destas conclusões são comuns a ambas as ocasiões.

6 de agosto de 2005

THE KNOWLEDGE

Em Londres, os taxistas têm, sempre, de passar por um rigorosíssimo exame, conhecido como The Knowledge, que os leva a percorrer vezes sem conta a cidade, memorizando mais de 300 trajectos diferentes. Parece que é muito raro alguém obter a licença de taxista sem ter passado uma dezena de vezes pelo exame.

Em Lisboa, é normal ter de ser o passageiro a explicar ao taxista como se chega ao endereço pretendido.

5 de agosto de 2005

DESCUBRAM O ERRO

MASSA DE AR QUENTE VAI SOFUCAR PORTUGAL - manchete impressa numa das páginas interiores da edição de hoje do Correio da Manhã (não vale a pena ir ao site, o erro só passou mesmo na edição impressa)

40 POLÍCIAS FERIDOS EM CONFRONTO COM A POLÍCIA - legenda no Telejornal da RTP-1 desta noite sobre confrontos na Irlanda do Norte entre manifestantes e polícia

4 de agosto de 2005

POLAROID: 4 DE AGOSTO

09h30. Desço a Alexandre Herculano em direcção à avenida da Liberdade. Cruzo-me com um negro de meia-idade de fato, gravata e cachecol, auscultadores brancos nos ouvidos com um fio que leva ao casaco, andando depressa com uma bengala de madeira escura na mão, que costuma andar pela zona. Demasiado bem vestido e arranjado para ser um sem abrigo, pára frente à porta de uma pastelaria e começa a gritar para o interior, como quem disparata com alguém, mas sem se dirigir a ninguém em particular. Do que diz percebo apenas "Ainda vou ser presidente de Portugal!".

Alguns metros mais à frente, num dos semáforos que orienta as passagens de peões, um idoso de bengala ignora olimpicamente o sinal vermelho para peões e a aproximação rápida de um furgão comercial e atravessa a rua como se fosse sua, no que é seguido, embora a medo, por dois ou três transeuntes.

13h10. Subo a Braancamp em direcção ao Rato. Na esquina da Rodrigo da Fonseca, um casal que parece sair do McDonald's discute em voz alta, com sotaque popular. Ela é anafada, vem de cores claras, com sacos na mão e um casaco de malha à cintura. Ele é muito magro, está de camisola da selecção e calções, e grita-lhe com voz mal-disposta; traz na mão um guardanapo de papel, mas não vejo o que segura; há duas crianças, separadas, a andar à frente deles a ver se a discussão acaba.

3 de agosto de 2005

MATRÍCULAS

Fim da tarde, Marginal, um pequeno comboio de quatro ou cinco carros, quase todos de aparência nova, todos de matrícula francesa (letras pretas sobre fundo amarelo). Um dos condutores tem um boné do Sporting, mas os condutores de dois dos carros não têm aspecto de emigrantes. Excepto, claro, no modo como conduziam.

Vendo os quatro, cinco carros de seguida, lembrei-me das matrículas em chapa que vinham, na minha infância, nos gelados da Olá (seria nos gelados?)... Ainda tive uma dezena e tal dessas matrículas em miniatura, mas não sei o que é feito delas. Mais alguém se lembra?

2 de agosto de 2005

O VERÃO EM LISBOA

...é uma coisa óptima. Mas seria melhor se os nossos sítios de referência não tivessem a brilhante ideia de, também eles, fecharem para férias.

1 de agosto de 2005

A BALADA DE LUCY JORDAN



Quando Marianne canta isto, o mundo pára.

the morning sun touched lightly on
the eyes of Lucy Jordan
in a white suburban bedroom
in a white suburban town
as she lay there beneath the covers
dreaming of a thousand lovers
'till the world turned to orange
and the room went spinning 'round

at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
and she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair

her husband is off to work
and the kids are off to school
and there were oh so many ways
for her to spend a day
she could clean the house for hours
or rearrange the flowers
or run naked through the shady street
screaming all the way

at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
as she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair

the evening sun touched gently on
the eyes of Lucy Jordan
on the rooftop where she climbed
when all the laughter grew too loud

then she bowed and curtsied to the knight
who reached and offered her his hand
and he led her down to the long white car
that waited past the crowd

at the age of 37
she knew she'd found forever
as she rode along through Paris
with the warm wind in her hair.


("The Ballad of Lucy Jordan", in "Broken English", Island/Universal, 1979)

31 de julho de 2005

UMA VIDA SOLITÁRIA



Richard Thompson, sozinho, com uma guitarra, é capaz de, hoje, escrever canções que parece que sempre estiveram aqui. Corrijo: sempre foi capaz, desde os tempos dos Fairport Convention, de falar de hoje como se estivesse a falar de ontem. Como neste instantâneo minucioso, entomológico, mordaz e ao mesmo tempo afectuoso, de um certo modo de ser fleumático.

Sometimes I long for the solitary life
parents long gone, no kids, no wife
sister somewhere in Australia
never did keep in touch
sex no more than a how-do-ye-do
with a copy of Tit-Bits in the loo
socially a bit of a failure
nice not to have to try too much

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

a serious hobby in the garden shed
model trains, or soldiers in lead
join the suburban boffins of Britain
experts on trivial things
and holidays in the Yorkshire Dales
or cycling tours of the North of Wales
unenvious of those flea-bitten
on continental flings

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

excitement comes by subtle means
the satisfaction of routines
small revenges at the office
smug little victories
you work on your pallor, complexion like paste
like the grey defeat on an inmate's face
a life spent adding losses and profits
resigning by degrees

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

and come to the end, sad and alone
a steady reliable tumour you've grown
from selfish years, while all your peers
have stressfully jogged to health
in life you always were quite numb
and foggier now, you soon succumb
in drab St. Barts on the new bypass
death overcomes by stealth

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven.


- "A Solitary Life", in "Front Parlour Ballads" (Cooking Vinyl/Farol, 2005)

30 de julho de 2005

POLAROID: PARQUE DE ESTACIONAMENTO

É dia de semana. Acabo de almoçar e dirijo-me para o parque de estacionamento do Oeiras Parque. No carro ao lado do meu, com as janelas fechadas, o condutor recostou o assento para trás numa cama improvisada e dorme a sono solto, com a gravata às riscas a destacar-se da camisa branca, o casaco pendurado no gancho de uma das pegas do capot junto ao banco traseiro.

29 de julho de 2005

DEFINIÇÃO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO

Urso: animal de aparência feroz que esconde por trás do mau feitio uma solidão triste e que, na realidade, tem um coração de manteiga, à espera apenas que alguém lhe venha fazer festas e perguntar "queres ser meu amigo?".

E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.

HILTON

Lembras-te daquela noite mágica, da celebração dos seis meses? Eu não me consigo esquecer. Nem quero.

Fazes-me falta. Tenho saudades.

CHOCOLAT FIN ARTISANAL

Como se um pouco de chocolate negro belga, caseiro, de discreto perfume e travo canela baunilhada para cortar a amargura e a intensidade do cacau, pudesse tapar os vazios que andam cá por dentro. E tapa, por breves segundos em que tudo se resume ao deleite de sentir o bloco a derreter-se lentamente na boca. Mas não dura mais do que esses breves segundos; e, depois, tudo volta ao que é.

28 de julho de 2005

POLAROID: CAFÉ

Tomo o pequeno-almoço dentro do café, encostado à vidraça; do outro lado, na esplanada, duas senhoras de meia-idade tomam também o pequeno almoço quando são abordadas por um sem-abrigo negro, de barba, boné e mochila, com uma garrafa de água vazia na mão. As senhoras fazem-lhe que não com a cabeça e ele afasta-se, não sem antes olhar para a porta do café, como quem pensa «entro? não entro?». Não entra. Segue em frente, cambaleando como quem bebeu de mais (são nove e meia da manhã). Atira a garrafa ao ar para a pontapear como se fosse um futebolista, mas falha e a garrafa cai ao asfalto junto ao passeio. Segue em frente, sempre a cambalear, apoiando-se nos carros estacionados.

A FORÇA DO SEXO FRACO (OU A FRAQUEZA DO SEXO FORTE?)

Eu juro que sou a favor da igualdade dos sexos, que não acho que haja profissões preferencialmente masculinas ou femininas, que acho que uma mulher em igual cargo deveria ganhar o mesmo que um homem, etc, etc.

Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.

27 de julho de 2005

HUSH HUSH

Há vinte anos, quando Aimee Mann ainda estava numa banda chamada 'Til Tuesday, escreveu uma canção premonitória chamada "Voices Carry", sobre uma relação abusiva contada do ponto de vista da mulher agredida. O teledisco terminava com Mann a levantar-se no meio de uma récita operática e a gritar a letrada canção, explodindo em público numa situação em que já não podia ser mandada calar, num colapso nervoso literalmente em público.

Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?

"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.

VARIÁVEIS



Eu gosto destes gajos porque, quando os ouço, sinto aqui o contraste entre a dúvida de ser outro e a vontade de ser quem se é. Por vezes há Pink Floyd a mais, é verdade, às vezes é tudo um bocadinho xoninhas em excesso, também. Mas há sinceridade, e honestidade, e a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que devem estar a olhar para a pessoa errada. É algo que me torna os Coldplay simpáticos. E a faixa escondida, "Til Kingdom Come", é tão inexplicavelmente Johnny Cash que até dói.

25 de julho de 2005

HUMOR INGLÊS

RUDE STAFF
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!

(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")

24 de julho de 2005

LOGBOOK #30: O POLVO TRAUMATIZADO

Cascais: naufrágio do Hildebrandt, domingo, 24 de Julho, 10h38: 10.2m, 49 min, 22º C

Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.

O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.

Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.

23 de julho de 2005

QUEM VOS AVISA



É um disco feito como se fosse um filme, em que cada uma das 15 canções se constrói como uma cena, um quadro, um instantâneo, mas ajuda a que o todo corra de um só fôlego. E, apesar destas canções terem proveniências muito diferentes (e uma boa metade já existir há décadas), parece que foram feitas para estarem aqui, juntas, a contar a história de um bairro pobre, latino, de Los Angeles que foi arrasado nos anos 50 por motivos políticos.

Só Ry Cooder, o mestre guitarrista das bandas-sonoras estratosféricas, poderia ter feito um disco assim. Chama-se "Chávez Ravine". Está nas lojas para quem o quiser encontrar. É uma obra-prima. É um dos álbuns do ano.

22 de julho de 2005

UM TEMPO QUE PASSOU

Pelas curvas da Marginal, em Julho, há um cheiro a areia e maresia transportado pelo calor, há um marulhar imperceptível que funciona quase como ruído ambiente. É Verão; o azul luminoso do céu, o azul turquesa do mar, a claridade ofuscante da areia, os chapéus de sol multicores, os gritos deliciados das crianças que brincam à beira-mar, o pouca-terra do comboio que percorre os trilhos à vista da costa, tudo enquanto guio pela Marginal remete para os Verões da infância em Santo Amaro de Oeiras, que ficaram lá atrás, da toalha por baixo dos toldos às riscas brancas e coloridas, do termos de sopa quente que a minha mãe levava para a praia para me dar, do meu pai me levar às cavalitas quando havia ondas grandes e de nos rirmos, muito, quando uma vinha e nos molhava todos, de apanharmos, à ida, o autocarro para o Cais do Sodré, de coleccionar os pauzinhos de plástico dos gelados Olá que davam para fazer construções, que comia na estação de Santo Amaro quando vínhamos apanhar o comboio para casa. Um tempo que passou e não volta mais.

21 de julho de 2005

PEQUENO AFORISMO EVIDENTE

A capacidade infinita do ser humano, qualquer que seja a sua idade, de insistir em acreditar no Pai Natal é uma coisa inexplicável.

20 de julho de 2005

BOA VIZINHANÇA

Uma coisa que eu ainda hoje não percebo é porque é que as pessoas, quando recebem quantidades significativas de amigos em casa, o fazem em público, ouvindo música em altos berros, conversando em voz muito alta (quiçá já alterada por quantidades copiosas de álcool?) e soltando sonoras gargalhadas a horas que incomodam o descanso da vizinhança. Eram duas e meia e não havia maneira de eles se calarem, apesar dos gritos de "pouco barulho!" e de "chius" mal-encarados de quase toda a gente que estava a ser afectada pelo chavascal.

Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.

17 de julho de 2005

LOGBOOK #29: OS TRÊS ELEMENTOS

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 17 de Julho, 11h39: 16.1m, 47 min, 16ºC

Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.

O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).

Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.

16 de julho de 2005

POLAROID: JARDIM CINEMA

Três senhoras de idade com cabelos brancos, óculos tintados, roupas leves de Verão e ar de beatas passam em frente ao Jardim Cinema. Uma delas diz às outras: "Vês? É aqui que fazem o SIC 10 Horas".

15 de julho de 2005

A SEMANA DOS ARCO-ÍRIS (900)

No geyser de água em frente a Paço d'Arcos, cuja cauda, ao cair, cria um fugaz prisma multicor, como se se tratasse de uma cortina.

Nos sistemas de rega automática cuja velocidade de dispersão sobre a relva verde húmida cria finas películas de cor reflectida, iluminando inesperadamente o mais banal jardim urbano, a mais anónima instalação de escritórios.

14 de julho de 2005

NOTE TO SELF

it's not
what you thought
when you first
began it
you got
what you want
now you can't hardly stand it though
by now
it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

you're sure
there's a cure
and you have finally found it
you think
one drink
will shrink you 'til you're underground
and living down
but it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

prepare a list for what you need
before you sign away the deed
'cause it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
so just
give up.


Aimee sabe. Eu devia ouvi-la mais vezes.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #66

Otário.

(inspirado pelos lémures de "Madagáscar")

13 de julho de 2005

DESCONTEXTUALIZAÇÕES

Ou como uma frase que trai a amargura de uma cultivadora alemã face à perda da sua colheita numa inundação pode, vista fora do contexto, tornar-se provocantemente brejeira:

"A minha paprika foi muito afectada".

12 de julho de 2005

CHUVA DISSOLVENTE

Porque tenho de olhar para dentro, custe o que custar, e enquanto não o fizer não saberei o que me faz realmente correr, há dias em que tudo se vê através de um espelho distorsor, e a chave é anular a distorção.

11 de julho de 2005

A PONTE É UMA PASSAGEM

Pouco falta para as oito da manhã e, à minha esquerda, a embocadura do Tejo desaparece progressivamente sob um espesso banco de nevoeiro; quando passo por baixo da ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Cascais, o tabuleiro vermelho parece perder-se num nada esbranquiçado, como uma passagem pelo meio do vazio em direcção a outro sítio. Como se o nevoeiro fosse o vapor de água de uma cascata e a ponte nos levasse por baixo da água que cai para uma qualquer caverna escavada na rocha, em direcção à aventura.

9 de julho de 2005

LONDRES

O TEMPO SUJO

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.


— Alexandre O'Neill, 1958, in Poesias Completas

5 de julho de 2005

CANÇÃO

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem


Alexandre O'Neill (1951)

4 de julho de 2005

DISCURSO DIRECTO

Mesmo lido com uns quantos anos de atraso, mesmo descontando a facilidade do formato de colagem de entrevistas que permite esconder a "ausência de credibilidade" dos autores enquanto interlocutores, "Rap Ta France", de José-Louis Bocquet e Philippe Pierre-Adolphe Paris: Flammarion, 1997), é um documento estimulante para compreender a chegada do movimento hip-hop a França e a maneira como o hexágono se tornou na segunda potência do rap mundial, sobretudo com a "maré negra" da década de 90 com MC Solaar, Soon E MC, Jimmy Jay, etc. Eliminando qualquer excrescência assinada pelos dois autores, o livro constrói-se como uma montagem de depoimentos concedidos em entrevistas exclusivas por todos os nomes principais do hip-hop francês, dos pioneiros Dee Nasty e Cut Killer às vedetas NTM, IAM ou MC Solaar. Dando de barato que as fontes orais nem sempre são 100% fidedignas, "Rap Ta France" funciona como uma fascinante "história oral" do hip-hop em França, colorida pela personalidade de cada um dos interlocutores, cheia de histórias de vida que confirmam esta como uma música das ruas, transmissão global em directo do pulsar dos subúrbios, fala da tribo e linguagem de uma juventude em necessidade de afirmação pessoal e social. Haverá livros melhores para contextualizar o movimento hip-hop em França, mas "Rap Ta France" é um complementar com muito que o recomende.

GRAFFITI

Ainda bem que existem pobrezinhos para as assistentes sociais poderem mudar o mundo

- lido algures nas ruas de Lisboa

3 de julho de 2005

2 de julho de 2005

LOGBOOK #28: AVENTURA É AVENTURA

Berlenga Grande: Primavera, sábado 2 de Julho, 12h31: 22.9m, 40 min, 14ºC

Dizia o Alexandre que as Berlengas são o mergulho mais próximo dos Açores que se consegue em Portugal Continental (ou, enfim, quase, visto que tecnicamente as Berlengas são ilhas, mesmo que a pouca distância do continente) em termos de visibilidade. Mas, nesta estreia minha (e da recém-encartada Susana) no mui badalado destroço do Primavera, a água estava mais próxima de Sesimbra num dia mediano (visibilidade aí de cinco metros com boa vontade, muita suspensão, frio de cortar a partir dos 12 metros). Mesmo os mergulhos de eleição têm dias não, apesar de se perceber que os destroços do navio (em melhores condições do que o único termo de comparação que possuo, o célebre Riva Gurara) fervilham de vida, com restos do mármore italiano que o navio transportava quando se afundou espalhados pela área. Não fossem as malfadadas cãibras a trair a falta de esforço das pernas (derivada à infame inflamação do joelho) e tudo teria sido bem melhor...

Não foi só a água sesimbrense das Berlengas que provou ser uma surpresa nesta viagem-relâmpago à reserva natural (com direito a passeio a pé até ao farol pelos trilhos abertos pelos humanos e ferozmente guardado pelos bandos de gaivotas e suas crias que entram em histeria colectiva assim que alguém se aventura para fora). Os 20 minutos de semi-rígido desde Peniche até à ilha pelo meio das vagas largas ao largo do Cabo Carvoeiro pareceram uma viagem numa montanha-russa, sim, mas mais numa montanha-russa tímida dos anos 50 do que nos colossos que desafiam a força da gravidade hoje; ou então uma cavalgada num daqueles touros mecânicos. Dizem-me que hoje o mar esteve anormalmente bom na travessia, embora tenha havido três ou quatro saltos — não quero saber como será num dia mau. Mas houve algo de mágico quando o barco parecia deslizar por entre as altas ondas, e percebi um pouco do que o pessoal do surf deve sentir. E, no regresso, a viagem fez-se como se não houvesse vaga (mas havia).

O segundo mergulho ficou por fazer, à conta (surpreendente) de peso a menos e de uma intempestiva incapacidade de descer abaixo dos dois metros. Mas nada disso importa quando, no regresso, já à chegada ao porto de Peniche, passadas as formas geométricas esculpidas na rocha pela força dos elementos, o vento me bate no rosto e sinto o prazer de um dia bem passado. Há ainda uma hora de viagem até Lisboa e gasolina a meter no carro, o equipamento todo para lavar, mas isso não interessa nada. Passei um belo dia de aventuras. Prosaicas, é certo, mas aventuras — porque tudo pode ser uma aventura, se assim o quisermos. E, hoje, quero.

(com um obrigado, muito grande, à Susana — bem-vinda! — e ao grande Alexandre, pelo convite, pela simpatia, e pela companhia)

1 de julho de 2005

POLAROID: FAMÍLIA

A senhora, trintona, tem aquele cabelo aclarado e a pose natural de tia da linha, fazendo um almoço de comida saudável no Oeiras Parque acompanhada pelos filhos ainda crianças - ele de camisa e calções à colégio, ela de roupa leve meio frique. Ele acompanha a mãe na comida saudável, ela come duas fatias de pizza. Acabada a refeição saudável, a mãe dirige-se ao balcão e pede uma fatia de bolo de chocolate, uma espécie de pão de ló que se desfaz ao contacto dos talheres de plástico translúcido. "Este bolo é tão light, tão light que se desfaz todo", comenta enquanto pergunta se os filhos querem um pouco. O rapaz não, mas a menina sim - vai pedir talheres ao balcão e debruça-se sobre a mesa para chegar ao prato da mãe. "Ó Mafalda, não é a boca que vai à comida, é a comida que vai à boca, sim?". A filha come algumas garfadas, mas quando se levantam metade do bolo fica no prato de plástico branco.

30 de junho de 2005

NÓS E OS OUTROS #5

Pela primeira vez, assumi esta vontade de infância, esta introspecção. Falei por isso das coisas que me faziam passar-me quando era miúdo — palavras que tinha esquecido, das quais tinha fugido... Dito isto, nunca cortei as pontes com a minha infância: quando vejo uma foto da minha adolescência, reconheço-me perfeitamente. E tenho pena porque, naquela altura, andava sempre com má cara, sentia-me preso na armadilha da minha vida, da minha cidade, da minha família... Não via nenhuma saída de emergência.

(Benjamin Biolay, em entrevista a J. D. Beauvallet da revista "Les Inrockuptibles", Abril de 2003)

29 de junho de 2005

NÓS E OS OUTROS #4

(...) A música tornou-se-me indispensável: é o único momento da minha vida em que não tento intelectualizar as coisas, porque sou alguém que passa o tempo a analisar tudo. Quanto mais crescemos, mais a educação nos obriga a apertar a mão às pessoas, mesmo que achemos que elas são ilustres imbecis. Passamos o tempo a interiorizar. Quando me apresentam alguém, por exemplo, e que essa pessoa me dá um beijinho, acho uma patetice: tenho um contacto de pele com alguém que não conheço. Sabe-se lá se o tipo não acaba de matar o seu irmão. Tudo é falseado. Quando digo isto, respondem-me que sou fria, que não gosto das pessoas. Só acho que já não há autenticidade em nada. Tudo se mistura. É por isso que me sinto mais próxima do carácter inglês. Diz-se sempre que eles são um pouco frios, quando não passa de pudor. Sinto-me lenta e gosto da fleuma deles. Contudo, não vivo as coisas de maneira temperada. E a música é o meu meio de libertar o meu instinto, foi sempre muito mais que mera recreação.

(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)

27 de junho de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #62

Macambúzio.

NOTICIÁRIOS

Como não acompanho com atenção as sondagens que informam quais são os programas mais vistos da televisão, não sei qual o dia em que os telejornais são mais vistos. Mas sei que, aos domingos, há significamente mais reportagens de "interesse social", que parecem reciclar as reportagens sobre os "flagelos do nosso tempo" que apareceram num outro domingo meses atrás. Aproveitamento de uma maior disponibilidade do espectador para prestar atenção a assuntos sérios? Ou apenas maneira de preencher um dia vazio de notícias com coisas que, mesmo podendo ser mais importantes, não têm espaço na batalha diária das audiências?

26 de junho de 2005

DISCURSO SOBRE A MORAL

"The morality of our time, whatever else may be claimed, is that of achievement. Five more or less fraudulent bankruptcies are acceptable provided the fifth leads to a time of prosperity and patronage. Success can cause everything else to be forgotten. When you reach the point where your money helps win elections and buys paintings, the State is prepared to look the other way too. There are unwritten rules: if you donate to church, charities, and political parties, it needs to be no more than one tenth of the outlay required for someone to demonstrate his goodwill by patronizing the arts. And even success still has its limits; one cannot yet acquire everything in every way; some principles of the Crown, the aristocracy, and society can still to some extent restrain the social climber. On the other hand, the State, for its own suprapersonal person, quite openly countenances the principle that one may rob, steal, and murder if it will provide power, civilization, and glory. Of course, I'm not saying that all this is acknowledged even in theory; on the contrary, the theory of it is quite obscure. I just wanted to sum up the most mundane facts for you. The moral argumentation is just one more means to an end, a weapon used in much the same way as lies. This is the world that men have made, and it would make me want to be a woman — if only women did not love men!"

— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)

Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.

25 de junho de 2005

POLAROID: RESTAURANTE

Num restaurante da linha de ambiente cool e arquitectura retro-moderna, espécie de Bica do Sapato suburbano, com bastantes clientes, o jantar de sexta à noite é subitamente perturbado por três bailarinas e um bailarino de sevilhanas que actuam para um casamento numa sala reservada. Embora a música não esteja demasiadamente alta, o ruído dos tacões dos sapatos no soalho de madeira tratada e das palmas dos dançarinos e dos comensais ecoa pela sala forrada a madeiras. O curto espectáculo termina com "Asereje" das Ketchup; do lado de fora do reservado, há quem se lembre ainda da coreografia.

23 de junho de 2005

CIVISMO NACIONAL

Aguardo uma oportunidade para entrar na fila de trânsito na rua estreita regulada por um semáforo; tento entrar antes de uma berlina Mercedes preta, último modelo, mas o condutor acelera para não me deixar meter à sua frente. É um senhor dos seus cinquenta e muitos anos, de fato claro e óculos, com um cigarro na boca e o braço na janela, que, ao passar por mim, me olha com um desprezo altaneiro de quem diz "como se eu alguma vez deixasse um ranhoso como tu meter-se à minha frente!".

22 de junho de 2005

POLAROID: GAIVOTA

Subo o viaduto de Algés, em frente ao Monumento aos Combatentes; uma gaivota em vôo planante recorta-se contra o céu azul sobre o viaduto. Ao mesmo tempo que ela se aproxima, vejo-a lançar um projéctil branco que cai no asfalto quente e negro da estrada, e ela segue como se nada fosse ou tivesse sido.

21 de junho de 2005

POLAROID: OBRAS

O polícia está de pé, em frente à sua moto, com uma clareira de ambos os lados entre os carros estacionados junto ao passeio, frente à saída de obras. Um dos operários chama-o, "tome, sr. guarda", enquanto abre uma garrafa de Sumol tirada da caixa de uma carrinha e lha passa. Enquanto o polícia toma os primeiros golos do refrigerante, as traseiras de um camião-grua começam a surgir lentamente da saída de obras e o polícia, ainda com a garrafa verde nas mãos, dirige-se lentamente para o meio da estrada, elevando a mão para mandar parar o trânsito que entra na rua.

GROWING PAINS



Aquilo de que mais gosto em J. K. Rowling é o modo certeiro como ela descreve a adolescência e as suas paixões impetuosas, o seu tudo ou nada, a sensação de que o mundo começa e acaba em cada triunfo ou derrota. Os livros de Harry Potter, para lá da extraordinária criação e manutenção de um universo paralelo de perfeita coerência, valem também (talvez essencialmente) por essa tradução dos estados de espírito volúveis típicos de uma certa idade, pela capacidade de expressar as emoções que todos sentimos quando parecemos ser demasiado grandes para a nossa pele. Todos nós sentimos a certa altura, como Harry Potter, que o mundo é demasiado confuso e complicado para aquilo que podemos abarcar de uma só vez — e há quem continue a senti-lo mesmo já adulto.

Dito isto, as quase 800 páginas de "Harry Potter e a Ordem da Fénix", lidas no original, esmagam pela inteligência narrativa: tudo está no seu preciso lugar e o que ficou por dizer ficou-o, certamente, por um motivo. Rowling não é uma grande estilista, mas a sua escrita é de uma simplicidade enganadora, e a maneira frontal como lida com os lugares-comuns, sem os evitar nem os esconder, é irresistível. É verdade que, desta vez, não devorei o quinto dos sete livros da série com a mesma velocidade, mas essa resistência é redimida por uma segunda metade com o embalo dos velhos "cliffhangers", onde muito fica por explicar (para os dois últimos volumes...) e se revela finalmente um dos segredos pedra-de-toque da série.

20 de junho de 2005

PORTUGAL É...

...quando o governo cumprimenta Tiago Monteiro por ser o primeiro piloto português de Fórmula 1 a chegar ao pódio numa corrida — mesmo que só lá tenha chegado porque a concorrência se recusou a competir. Mas qual é o gozo, qual é a sensação de ter atingido qualquer coisa, de chegar ao topo só porque os outros desistiram?

19 de junho de 2005

VOX POPULI

Ontem à tarde, no Jardim da Estrela, uma de três senhoras de idade, de bengala, dizia a quem a quisesse ouvir:

"Eu não sou racista, mas também não gosto dos pretos. Ando eu com a minha casa a caír aos bocados e eles com casas novinhas em folha, que a assistente social lhes deu..."

E respondia-lhe outra:

"Pois, é verdade..."

POLAROID: TP831 ROMA FIUMICINO-LISBOA, TERÇA, 14 DE JUNHO

O A319 faz um barulho industrial durante a descolagem; um ruído contínuo de máquina rebarbadora. Pela janela vejo que Fiumicino fica próximo do mar — como, pelos vistos, muitos dos subúrbios de Roma. As nuvens parecem algodão quando as atravessamos. Ao meu lado, uma jovem de camisola de gola alta branca dorme a sono solto, enroscada na cadeira. Quando visito a casa de banho, é visível que quase toda a gente no vôo está a dormir ou quase. Os filmes promocionais exibido nos pequenos écrãs são hilariantes, prolongando todos os lugares-comuns do Portugal turístico, com uma simpática divisão de classes entre o casal quarentão bem na vida que fica no Pestana Palace, joga golfe, aluga descapotáveis e faz passeios de avioneta, e o grupo de turistas jovens de pé descalço (ou, no caso, ténis de marca) que anda de eléctrico, bebe bjecas na Trindade, anda com mapas da cidade por tudo o que é sítio e vai à noite para as Docas.

POLAROID: ROMA FIUMICINO, TERÇA, 14 DE JUNHO, 06h15

Às seis da manhã, todas as lojas e cafés situadas sobre o terminal B das partidas do aeroporto estão fechadas, com excepção de um único café, onde todos se concentram. E, contudo, o movimento no aeroporto é enorme, com facilmente duas dezenas de vôos a partir no espaço de uma hora antes das sete da manhã. Um contingente militar está de partida para qualquer sítio e alguns dos militares, de camuflado designer, juntam-se no café, pedindo "latte macchiatos" (café com leite claro, com espuma), cappuccinos ou "cornetti" (a palavra italiana para croissant, servido simples ou com recheio de chocolate ou compota).

18 de junho de 2005

POLAROID: ROMA TRASTEVERE, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 18h15

A estação de comboios continua em obras. Fazemos aqui o transbordo para Fiumicino — vamos à procura de um hotel para dormir na zona do aeroporto, já que às horas madrugadoras a que o vôo de regresso a Lisboa sai não compensa ficarmos em Roma. Enquanto esperamos pelo comboio para o aeroporto, um casal de turistas americanos com ar apressado comenta, ao ver-nos com as malas na plataforma, que também devemos ir para o aeroporto. Metemos conversa; ele de polo verde e calções claros, ela de calças largas e leves e camisa de alças, ambos de óculos escuros e a exalar o conforto burguês da classe média suburbana, explicam-nos que se enganaram no comboio e, em vez de regressar ao aeroporto, onde guardaram as malas num cacifo, foram parar aos subúrbios de Roma, e estão em risco de perder o avião para Zurique se o comboio para Fiumicino se atrasar ou levar muito tempo. O comboio chega pouco depois e desejamos-lhes boa sorte e boa viagem. Atrás de nós entram dois acordeonistas de ar cigano, tal e qual como se estivéssemos nas Docas ou nas esplanadas turísticas dos Restauradores, que começam a tocar canções napolitanas.

POLAROID: CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 17h00

Há cinco dias, chegámos a Civitavecchia à noite; o trajecto a pé até ao porto atravessou uma longa esplanada frente a uma praia, com pequenos bares e quiosques povoados por militares e turistas, mas só agora, em plena luz do dia, é que compreendemos realmente o aspecto de quase Cascais desta cidadezinha a uma hora de comboio de Roma e da qual só conheceremos este misto de esplanada e marginal, as escassas centenas de metros que vão do porto até à estação de comboios — em tudo muito semelhantes às lojas de bugigangas e objectos veraneantes que polvilham as nossas localidades balneares, com quiosques de gelados (em Itália também há gelados Olá; chamam-se Algida mas, no resto, os Magnums e os Cornettos são iguaizinhos), cafés, lojas de artigos fotográficos, bóias para as crianças, locais de barriga proeminente, tez tisnada, bigodes farfalhudos e sandálias romanas conversando em grupos encostados a uma parede ou a um poste de iluminação.

Chegamos à estação, compramos os bilhetes, o comboio para Roma está já na plataforma e sai escassos cinco minutos depois.

POLAROID: FERRY GOLFO ARANCI-CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO

Em vez de sairmos do porto de Olbia, onde chegámos há cinco dias, saímos de Golfo Aranci, alguns quilómetros mais a Norte, na linha local Sardinia Ferries — que não tem, segundo nos dizem, autorização de atracar em Olbia. O ferry que nos transporta durante quase sete horas está longe, tanto em dimensão como em conforto, dos ferries mais modernos da Tirrenia onde viajámos até Olbia; aqui pagámos metade do preço e usurpámos as poltronas junto às janelas (que, tecnicamente, são mais caras, mas fingimos que não sabemos de nada e, de qualquer maneira, o ferry está quase vazio). Em vez da escada rolante de passageiros no ferry da Tirrenia, entramos pelo convés dos automóveis e subimos acanhadas escadas de bordo; duas dezenas de carros e outros tantos passageiros sem carro no imenso navio, que zarpa da Sardenha às dez da manhã e chega a Civitavecchia pouco antes das cinco da tarde.

O empregado do bar onde compramos um improvisado almoço de sanduíches e sumos atende com o enfado de quem se resignou ao trabalho que tem; tudo neste ferry evoca uma sensação de decadência, de algo que se vai arrastando ingloriamente. Pelas janelas, o mar cria efeitos de luz no tecto falso de ripas plásticas de onde estão suspensos os climatizadores, as luzes fluorescentes, os televisores omnipresentes (sintonizados na Rai 1, com uma emissão muito dona-de-casa com o inspector Derrick e um telefilme americano).

Subo ao convés mas é difícil encontrar as escadas certas; quando finalmente o consigo, estou face à cabina de pilotagem, entre as duas chaminés. O ferry percorre veloz as águas do Mediterrânico, já se consegue ver ao longe, no meio da imensidão azul, a linha costeira italiana, a Civitavecchia de onde saímos quarta-feira e onde regressamos agora, depois de quatro dias na Sardenha que foram "uma experiência para recordar".

17 de junho de 2005

POLAROID: ARZACHENA, QUINTA, 9 DE JUNHO, A DOMINGO, 12 DE JUNHO

Arzachena, no Noroeste da Sardenha, é uma cidadezinha atravessada pela Viale Costa Smeralda, uma estrada de província que curva e contra-curva continuamente, recordando-me da algarvia Serra do Caldeirão, que a corta praticamente ao meio e a partir da qual algumas ruas se ramificam. Arzachena percorre-se a pé em 25 minutos de uma ponta à outra. Segundo me dizem, é uma das câmaras municipais mais ricas da Sardenha, já que algumas zonas costeiras dotadas de vilas e hotéis de luxo frequentadas por gente de bastantes posses (como a belíssima marina de Porto Cervo) reportam os seus impostos à câmara de Arzachena. À tarde, tem o mesmo aspecto imóvel de uma vilazinha alentejana ou algarvia numa tarde de Verão; arquitectura mediterrânica em pedra de cores claras com telha cor de tijolo. Arzachena é uma cidadezinha de província. Os custos da insularidade não são um exclusivo seu — afectam toda a Sardenha — mas a realidade é que aqui pouco há para fazer.

As montanhas à distância, que separam o interior da costa, funcionam, ao mesmo tempo, como barreira que esconde o que está do outro lado e protecção para o que está deste. Há, aqui, um silêncio que não existe na cidade; aquela sensação de, subitamente, termos saído do mundo, parado o tempo. Do confortável sofá nesta casa emprestada, coberto por tapetes rústicos e almofadas ornamentadas com fio dourado de inspiração muçulmana, desta varanda mediterrânica com balaustradas de ferro forjado e colunatas romanas em pedra maciça, tudo parece muito distante.

DEDICATÓRIA

Things can never again be what they were, the way they were.

— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike

16 de junho de 2005

POLAROID: FERRY CIVITAVECCHIA-OLBIA, MADRUGADA DE QUARTA, 8 DE JUNHO, PARA QUINTA, 9 DE JUNHO

O ferry para Olbia é uma verdadeira cidade flutuante, com um grande número de convés, vários bares e restaurantes, até uma sala de cinema e outra de video-jogos. Quando o ferry larga amarras, com meia-hora de atrasso, para a viagem de seis horas até ao porto de Olbia, na Sardenha, é como se não estivéssemos sequer a navegar; sentimos apenas a vibração dos motores que nos propulsionam pelo Mediterrânico. A luz amarelada vem de uma placa embutida na cabeceira do beliche; se apagar as luzes da cabina, e olhar pela janela suja, posso ver as ondas esbranquiçadas que se afastam do casco, criadas pelo navegar do ferry, uma linha firme cortando o horizonte, única maneira de distinguir onde começa o céu negro só a espaços estrelado e termina o mar negro que só as luzes pontuais de uma bóia, um farol, outro ferry cortam. Apenas a esteira do barco vem cobrir de branco, acinzentado na escuridão, o escuro da noite. A cabina climatizada obriga-me a puxar do cobertor de lã e abri-lo sobre os lençóis com cheiro a lavado ilustrados com o monograma da Tirrenia Navigazione.

POLAROID: TERMINAL TRAGHETTI, PORTO DE CIVITAVECCHIA, QUARTA, 8 DE JUNHO, 22h00

Uma caminhada rápida de 10 minutos leva-nos da estação de comboios de Civitavecchia, a uma hora de trajecto de Roma, à bilheteira para comprarmos as entradas para o ferry para Olbia, na Sardenha. A bilheteira está vazia, à excepção de dois turistas que esperam sentados e de um trio de ciganos que conversa com a empregada. O terminal é uma ilha iluminada à entrada do porto, com um pequeno bar que serve cafés e bolos. Ficamos uma boa meia-hora no autocarro que faz o transporte gratuito até ao cais 24, à espera dos "retardatários" que chegarão até ao fecho da bilheteira às 22h30 (meia-hora antes da saída do barco). Alguns ciganos, alguns indianos, uns poucos europeus de Leste, muitos turistas, italianos e de outras nacionalidades.

POLAROID: ROMA TRASTEVERE, QUARTA, 8 DE JUNHO, 19h45

A estação de comboios está em obras, folhas amarelas impressas a computador indicando as saídas e as plataformas coladas em taipais de contraplacado. A confusão dos passageiros regressando a casa ao fim do dia de trabalho, apanhando correspondências entre seis plataformas diferentes. Um grupo de homens está sentado num banco entre os vários taipais, garrafas de litro de cerveja na mão. Não se percebe se são trabalhadores à espera de um comboio ou apenas a passar o tempo, ou se são emigrantes (muito mal vistos em Itália, pelo que percebemos) à espera que a estação feche, embora estejam demasiado bem vestidos para serem sem-abrigos. Seja como for, estão ali e não se vão embora; metem-se discretamente com os transeuntes. Percebem que somos estrangeiros, dizem-nos "hello" com um sorriso trocista; quando uma freira passa, apressada, quase a correr, para apanhar o comboio, gritam-lhe "go, go, go".

14 de junho de 2005

POLAROID: ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO, 18h45

O vôo de Lisboa aterrou há algum tempo. Esperamos as malas que foram no porão na recolha de bagagens. Uma senhora, de sotaque brasileiro, tenta tirar um carrinho de bagagens da fila por trás dos bancos. Tenta tudo para tirar o carrinho — levantá-lo, fazer força, incliná-lo, mas não consegue que ele saia dos carris e vira-se para mim, perguntando se eu sei livrar o carrinho. Aponto-lhe a máquina bem visível ao seu lado, indicando que é preciso pagar um euro para usar um carro. A senhora agradece e vai-se embora.

POLAROID: TP842 LISBOA-ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO

O A321 aterra em Roma. Assim que abrandamos em aproximação à manga, a hospedeira levanta-se rapidamente do assento junto à porta de emergência onde esteve sentada durante a aterragem, faz cara de má e admoesta alguns passageiros para se sentarem, não vá a travagem do avião levá-los a bater com a cabeça na bagageira e acabar por exigir uma indemnização à companhia pelo seu próprio descuido.

7 de junho de 2005

POLAROID: ELÉCTRICO

Apanho o eléctrico 28 no Miradouro de Santa Luzia, perto do Castelo de S. Jorge, e rapidamente percebo que a velha tradição dos miúdos lisboetas de apanharem boleia do eléctrico pendurados nas portas traseiras continua activa. Só que agora com T-shirts de basquetebol, cabelinho à Operação Triunfo, brincos na orelha e ténis da Nike.

Há dois miúdos que fazem todo o percurso pendurados até chegarmos à Baixa — altura em que um outro miúdo, que viajava dentro do eléctrico com bilhete pago e um CD walkman nas mãos, sai e se junta a eles.

POLAROID: IGREJAS DE LISBOA

Experimentem ver a cidade pelos olhos de um estrangeiro e, de repente, tudo aquilo que, até aqui, tomávamos como adquirido ou trivial ganha novos contornos, uma espécie de deslumbramento atordoado, meio surpreendido — mas isto estava mesmo aqui? Sim, é verdade, estava. Nós é que, com a velocidade vertiginosa da "vida real", passamos ao lado de prazeres simples como passear no Jardim da Estrela ou descobrir a quantidade absurda de igrejas por metro quadrado na "velha Lisboa" do Bairro Alto.

E, a esse propósito, torna-se curioso contar uma pequena história.

O meu amigo David, organista (com experiência de restauro de órgãos de igreja) em São Francisco, terminou há pouco o seu curso superior de órgão e, naturalmente, em cada igreja por onde passávamos quis ver se havia órgãos (instrumento que, sem que eu o soubesse, tem uma longa e nobre tradição de construção).

Curioso, tocou à campaínha da Igreja Anglicana de S. Jorge, situada no cemitério inglês, encostada ao Liceu Pedro Nunes e por trás do Hospital Inglês (que está situado nos terrenos da igreja), junto ao Jardim da Estrela. Embora o letreiro dissesse que a igreja e o cemitério estavam abertos diariamente das 9h00 às 13h00, ninguém atendia a campaínha, mas nesse preciso momento chegou o padre, que abriu a porta e confessou, depois de arrumar o carro, que adorava que a igreja e o cemitério estivessem mais disponíveis ao público mas, infelizmente, a senhora que fazia de porteira era portuguesa, tinha quase 90 anos e relutância em permitir a entrada de visitantes. O padre Michael permitiu não só ao David visitar o órgão como o deixou à vontade para o tocar durante alguns minutos.

O David perguntou em mais algumas igrejas se era possível visitar o órgão. Em quase todas lhe disseram que seria preciso falar com o padre, que estava ausente de momento, e nem sequer abriram a possibilidade de o levar a ver o órgão; numa, o empregado limitou-se a fazer que não com o dedo, nem sequer se dignando dirigir-nos a palavra ou sequer remeter para o padre. Fez apenas que não (e olhou com cara de mau enquanto o David fotografava o reluzente e recentemente restaurado instrumento). Só na Sé de Lisboa a empregada com quem falámos levantou a hipótese de passarmos por cima do cordão que impede o acesso do público ao órgão, como quem não quer coisa — e era por eu ser português, porque se fosse o David sozinho ela não deixava. Nenhum dos empregados com quem falámos percebia o que quer que fosse de inglês apesar do grosso dos visitantes serem estrangeiros — e, com uma ou outra excepção, estavam com um ar de frete desgraçado.

O David dizia-me, à saída da Sé, que, em São Francisco, seria muito difícil encontrar uma igreja onde fosse impossível visitar o órgão. Mais: em quase todas elas, haveria alguém a tocá-lo. Em Lisboa, nem uma única tinha música.

5 de junho de 2005

LOGBOOK #26/27: A LEI DA COMPENSAÇÃO

Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 15h30; 9.5m, 31 min, 17º C
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 16h45; 7.6m, 26 min, 18º C

Cinco semanas depois do "passeio à rua da asneira", com um joelho inflamado pelo meio, uma ausência prolongada de exercício físico e uma sobrecarga de trabalho em antecipação às bem merecidas férias, o domingo radioso e cheio de sol traz a compensação perfeita, apesar do início algo atribulado, com os protestos dos pescadores de Sesimbra a cancelarem uma primeira tentativa no sábado e a marcha lenta de domingo de manhã a atrasar as actividades para a tarde.

Não é exactamente um mergulho tradicional. Vim apenas acompanhar um amigo americano de passagem por Lisboa que quis concluir cá o curso básico de mergulho, faltando-lhe apenas as duas últimas aulas de mar. Intermediando com a escola de mergulho, fui servir de tradutor em caso de necessidade (que não houve), assistente para quaisquer eventualidade e reserva moral se o rapaz se desse mal. Não deu. Bem pelo contrário: o ar do David depois de completar o último mergulho era de uma indescritível felicidade — que só quem já esteve debaixo de água consegue perceber.

O dia, esse, estava de luxo — céu azul, sol quente, nenhum vento, água límpida e calma (apesar do sedimento que prejudica a visibilidade). Tempo perfeito para mergulhar (a ironia de os pescadores terem escolhido este fim-de-semana de verdadeiro Verão para protestar não deve com certeza ter escapado a muitos). Enquanto o José e o David fazem os exercícios de rotina, eu entretenho-me a observá-los — a segurança e a confiança do instrutor, o à-vontade tentativo do aluno — ou a olhar para o que me rodeia: os pequenos peixinhos bebés, quase transparentes sobre a areia, os cardumes e peixes que flutuam por ali. A câmara descartável que trouxe para tirar uns instantâneos escorregou para fora do colete e é ver se a encontras — nem uma busca rapidinha pela área dá por ela e, no intervalo entre os dois mergulhos, percorremos a superfície com o barco sem a encontrar. A água está menos fria do que é costume, está-se bem nestas profundidades baixinhas; no fim do mergulho, uma volta pela zona da Pedra do Cavalo, mesmo à saída do porto, possibilita ver um polvo que lentamente sai de baixo da sua pedra e assume a forma tradicional, antes de se camuflar por entre rochedos maiores.

Apesar da baixa profundidade e do limite de tempo imposto pela inexperiência do aluno e pelos tópicos a cobrir na aula, este poderia bem ser o mergulho perfeito — ou o mergulho ideal. Se tal coisa existisse.

4 de junho de 2005

THIS IS HARDCORE

Aldina Duarte assume a pose icónica da fadista tradicional, mas subverte-a com a entrega quase desesperada de quem faz isto não por trabalho ou por pose mas por fé, por destino. Porque tem de ser. É aquilo que o universo lhe pede — e ela não sabe dizer-lhe que não. Ela não pode dizer-lhe que não.

Aldina Duarte é um bloco de granito duro por limar que está, apenas. Não cede nem faz concessões. Existe, apenas. A nós cabe-nos aceitá-lo, compreendê-lo, amá-lo, admirá-lo. Aldina Duarte é o fado hardcore, puro e duro. Ela dá(-se) a 200, 300%. Quem não estiver preparado para lhe responder com menos do que isso não a merece. Ontem à noite, a Culturgest cheia soube merecê-la. Falta só Portugal render-se-lhe como se tem rendido a outras (que se dizem) fadistas mas que não chegam nem perto da intensidade e da beleza transcendente do recital com que Aldina Duarte nos presenteou.

Isto, sim, é fado. O resto é conversa da treta.

PARABÉNS

Beijos à João e ao Miguel e as boas-vindas ao Bernardo.

1 de junho de 2005

POLAROID: JERÓNIMOS

No interior da enorme nave do Mosteiro dos Jerónimos, sucedem-se os grupos de turistas vindos de toda a parte, sentados em grupinhos nos bancos de igreja escutando atentamente o que as guias turísticas (e são quase todas guias turísticas) lhes dizem, por entre uma babel de línguas que vai do espanhol ao francês passando pelo italiano. Excepto numa das capelas em nicho lateral, junto ao altar principal, com uma jovem que observa atentamente uma figura de uma santa (será a Virgem Maria, pergunto eu com a minha ignorância em matéria de estatuária religiosa?): por trás do cordão de veludo que impede a entrada dos turistas, uma empregada da limpeza, com a bata azul da empresa, passa o espanador pelos bancos de igreja alheia ao bichanar amplificado que a rodeia, como se não estivesse ali mais ninguém a não ser ela.

31 de maio de 2005

POLAROID: AEROPORTO

Um jovem de camisa branca e mala percorre a rampa das chegadas a ver se vê alguém. Sucedem-se as chegadas, pessoas saem e acenam aos familiares, aos amigos, aos condutores, mas o jovem continua a percorrer a rampa à espera que apareça alguém.

Um senhor de meia-idade espera junto ao gradeamento de metal, e vai batendo ritmicamente no metal com um porta-chaves (uma moeda? uma chave?) enquanto não chega quem veio buscar. Assim que chega e o senhor sai, um jovem negro ocupa o seu lugar e, passado pouco tempo, começa a bater ritmicamente com uma caneta no metal.

Uma senhora (proveniente do México?) coloca o sombrero ornamentado na cabeça à porta da saída das chegadas, para a fotografia que o marido com ar de bancário tira com a máquina digital nova.

30 de maio de 2005

JUNK MAIL

Porque é que uma firma de brindes oferece "turcos personalizados"? E quem será o público-alvo de uma tal proposta?

29 de maio de 2005

OUTRA MANHÃ

Às vezes, não percebo porque é que levo tanto tempo para descobrir discos como este.

nothing ever seems
to make you happy
are you miserable, babe
or are you just plain mean

is there no joy in you
c’mon don't keep me waiting
your broken heart might bring you heaven
but it will not bring you another morning
another morning with Kathleen

someone does you wrong you give away your life to prove it
you wear your pain with pride you refuse to remove it
you become the evil that plays with you like a doll
big rules only make our lives small

was your voice never heard
c’mon you know we were all listening
justice will only bring you
a prison
and it will not bring you another morning
another morning with Kathleen

now you're the big expert with the truth
now you're all apple pie and you're bulletproof
there must have been a short five minutes somewhere in your youth
when you laughed like water breaking over the broken land
when you laughed like the wind burning the sun blind on your face
when you laughed like water breaking over the broken dam
when you laughed like the starting gun at the start of the race
I wanna smash all the violins and the symphony
I wanna see you smile with a real simple melody
it's when you wake up and you're glad that you're breathing
it's when you wake up and you're glad that you're living
well that's another morning
another morning with Kathleen.


- Mark Eitzel para os American Music Club, "Another Morning", in "Love Songs for Patriots" (Cooking Vinyl/Farol, 2004)

BANZAI

Estou verdadeiramente aterrorizado. Por razões que não consigo compreender, sempre que entro no Blogger sou recebido... em japonês (ou será em tailandês?). Isto não era problemático há uns meses atrás, porque os botões básicos ainda estavam todos em inglês. Mas agora (glup!) já não estão! Estou a ver um écrã em caracteres inteiramente japoneses onde só o nome do meu blog e as palavras que vou escrevendo são reconhecivelmente ocidentais! Será que, daqui por uns tempos, os meus posts começam a saír, eles próprios, também em ideogramas nipónicos?

28 de maio de 2005

ELES NÃO SABEM QUE O SONHO COMANDA A VIDA, MAS NÃO ME PARECE QUE FOSSE BEM A ISTO QUE O OUTRO SE REFERIA

Alguém me explica porque é que hoje sonhei que dava um par de estalos a uma daquelas velhotas de bigode lisboetas, de voz de peixeira, atitude de porteirinha e pernas bambas a chinelar pela rua, que vinha a entrar num sítio qualquer público à cabeça de uma comitiva eleitoral-autárquica e fazia um ar de desprezo quando me via? E, se conseguirem, explicam-me também já agora porque é que acordei logo a seguir bem-disposto como já não acontecia há largas semanas?

27 de maio de 2005

PARCERIAS

Os governos podem mudar mas há uma coisa que, garantidamente, não muda: a noção de "parceria" que, em Portugal, não significa "união de pessoas com objectivos comuns", como vem no dicionário. Isto porque, como todos sabemos, em Portugal é (sempre foi) o salve-se-quem-puder, tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, cada-um-por-si. Não me surpreende que o conceito de "serviço público", em Portugal, seja entendido por cada um à sua maneira. E, sinceramente, não vejo como pode haver parcerias quando os parceiros apenas estão interessados em salvaguardar os seus próprios interesses e o resto que se lixe.

Os portugueses queixam-se, sistematicamente, não sem razão, do seu desencanto com a política e com os políticos. A mim, são os portugueses que me desencantam. Todos. Sem excepção.

26 de maio de 2005

POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM

Pela primeira vez na vida, encontro uma enfermeira (mais jovem que eu) que me diz peremptoriamente que "não dá injecções em pé" e me diz para me deitar de barriga para baixo na marquesa.

PEQUENO CONSELHO CULINÁRIO

Nunca confiar nas receitas dos livros de culinária marcadas para duas pessoas: a receita do nasi goreng indonésio (arroz frito com legumes) que estreou o wok oferecido pelos anos, supostamente para 2 pessoas, dá à vontade para 4 (e assim já tenho comida para o fim-de-semana, ena ena). Da próxima vez, não me posso esquecer de ter os ingredientes todos prontos com um pouco mais de antecipação.

23 de maio de 2005

SOMOS TODOS BENFIQUISTAS (ou portistas ou sportinguistas, consoante o ano a que se queiram reportar)

E, de repente, Portugal descobre-se grande nação benfiquista; e, de repente, há um cachecol que esvoaça preso numa janela de carro ou desdobrado em cima do tablier ou enrolado à volta do pescoço ou pendurado na parede do cubículo ou do gabinete, uma bandeirinha colocada na porta. De repente, os benfiquistas que andaram escondidos estes anos todos aproveitam a ocasião para revelar as suas "verdadeiras" cores, mesmo que o cachecol lhes fique tão bem como um chapéu madeirense a um esquimó — agora que o Benfica ganhou o campeonato de futebol, é de bom tom estar do lado dos vencedores. Os benfiquistas verdadeiros — aqueles que nunca tiraram o cachecol do tablier ou do gabinete — devem estar todos surpreendidos pela nação que agora se descobre benfiquista. Mas, como em quase tudo, Portugal não se descobriu benfiquista — gosta apenas de se chegar à aura dos vencedores. Mesmo que seja uma vitória mais por defeito do que por feitio, no dia em que começa o habitual sacudir de água do capote à volta dos números do défice, em que uns dizem que a culpa é de quem lá está quando lá esteve antes, outros de quem lá esteve antes e não está agora. Portugal é um pais de perdedores que gostam de se fingir vencedores, de irresponsáveis que se fingem homens de estado, de pequenos e mesquinhos poderes armados em grandes e magnânimos senhores. Portugal, em suma, não interessa nem ao Menino Jesus enquanto nós não nos capacitarmos de que é por termos sido sempre assim todos estes anos que não passamos de uma cepa cada vez mais torta.

(E sim, sou do Benfica e custa-me ver as tias que dizem que o futebol é um horror e que odeiam a irem buscar os cachecóis bafientos a cheirar a naftalina para celebrar convenientemente a [não-tão-]gloriosa[-quanto-isso] vitória e dizer que sempre foram do Benfica, mesmo que nunca o tenham dito a ninguém. Além do mais, vamos lá ser sinceros, por muito contente que eu esteja por o Benfica ter ganho, que importância é que isso tem, a não ser como ópio das massas, quando estamos com um défice de quase 7% e o desemprego com previsões de subida?)

22 de maio de 2005

DALTONISMO EMOCIONAL

Vejo a cinzento o que devia estar a ver às cores. Não a preto e branco — mesmo a cinzento, difuso, indistinto.

AFINAL, PARA QUE SERVEM OS PASSEIOS?

No parque de estacionamento do Amoreiras, ontem, uma jovem muito fashion andava pelo meio da faixa reservada aos carros ao telemóvel com a maior displicência. Mando-lhe uma buzinadela, ela não liga, mando outra e, mal disposto, atiro-lhe com um bem portuguesinho "deve achar que isto é tudo seu, não?" , e ela disparata antes de se virar para o telemóvel e dizer em francês "ooh la la, ces Portugais c'est toujours la même chose".

Arrumando à porta de casa, um casal de idosos desce devagarinho a rua pelo meio da estrada. Não há carros em cima do passeio, que é admissivelmente estreito, mas o casal não só está no meio da estrada como pára para confirmar se está qualquer coisa na mala da senhora.

Esta manhã, numa rua da Lapa, com os passeios perfeitamente livres e desobstruídos, uma senhora dirige-se para o carro pelo meio da estrada. Na Infante Santo, uma outra atravessa a avenida na diagonal, a poucos metros de uma passadeira.

Aqui entre nós, é um milagre como não há mais atropelamentos na Grande Lisboa.

21 de maio de 2005

BONS CONSELHOS

(...) the advice that seems to be uppermost on [Dave] Chappelle's mind is that of his father, who died in 1998. Upon hearing that his son wanted to try comedy, says Chapelle, "he said, 'Name your price before you get there. And if you ever find it's more expensive than what you're prepared to give, then get out'."

- Christopher John Farley, "Dave Speaks", da edição de 23 de Maio da Time

20 de maio de 2005

POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM

São nove da manhã. Algumas pessoas amontoam-se no pequeno corredor do centro de saúde, esperando que a porta da sala de enfermagem se abra. Uma jovem dos seus 20 e poucos anos, com uma filha pequena pela mão, resmunga que lá dentro as pessoas «dão à língua» e não dão vazão. Resmungo com ela: então porque é que não protesta com a senhora em vez de cá fora? Depois da senhora que estava lá dentro sair, quando a enfermeira pede, com uma voz exasperada, para as pessoas esperarem na sala, levanta-se um coro de protestos. Espero 45 minutos pela minha vez e, quando a pessoa antes sai, um senhor que esteve em pé cinco minutos à espera pergunta se não pode entrar porque tem a tensão muito alta e da farmácia próximo o reenviaram para aqui; a enfermeira insiste que tem de tirar senha e esperar na sala, «mas afinal estou com a tensão muito alta, quero saber se fico aqui se vou para o hospital» -- respondo-lhe que talvez fosse mais rápido ir ao hospital. Enquanto isso, na sala de espera, reina um ambiente de porteirinha, com as «vizinhas» a resmungarem umas com as outras sobre os atrasos, as burocracias. A burocracia já de si é insuportável; ouvir esta gente que se compraz em protestar por as coisas correrem mal mas não é capaz de ajudar a que elas corram bem e ainda puxa mais para baixo torna tudo insustentável.

19 de maio de 2005

POLAROID: CONSULTÓRIOS

Enquanto aguardo a minha vez de ser atendido pela recepcionista, duas solteironas com ar de beatas (camisas cinzentas de gola fechada ao pescoço, colar de pérolas, óculos tintados, saias recatadas e sapatos rasos) confundem-se com o número da senha que é chamada.

Uma idosa de bengala senta-se com dificuldade na cadeira ao lado da minha, depois de pousar um saco de compras em cima da mesinha de apoio, ao lado do capacete do rapaz que está a ser atendido. A senhora transporta um odor bafiento, claustrofóbico, usa roupa demasiado quente para o calor que está; tem o cabelo ralo apanhado numa trança e, como muitas das idosas portuguesas, insiste em usar brincos à minhota. Vira-se para mim e pergunta-me qual o número que está escrito na sua senha; pede-me três vezes para o repetir.

17 de maio de 2005

ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar

dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar

ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar

sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar

dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro
por via do pássaro subir e pousar

ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar.


- Sérgio Godinho pelos Gaiteiros de Lisboa, "Talvez que Sonhando", in "Invasões Bárbaras" (Farol 1995)

[in memoriam Fernando Magalhães 1955-2005]

RANDOM ACTS OF KINDNESS

Há coisa de uma semana, quando fui radiografar o joelho, levei a factura da electricidade para pagar no bolso de trás das calças, e, chegado ao consultório, depois de a ter pago, descobri que já não estava no bolso. Onde raio a terei perdido?, perguntei-me sem chegar a grande conclusão, mas tinha o comprovativo do multibanco e, portanto, não me preocupei grandemente com o que, no fundo, não tinha grande remédio.

Esta tarde, ao chegar do emprego, dou na minha caixa do correio com um envelope sem remetente, daqueles com um apartado habitualmente enviados pelos bancos, que, lá dentro, trazia a factura da electricidade que perdi há uma semana, com uma nota escrita à mão com uma assinatura ilegível dizendo "recibo encontrado na R. Alexandre Herculano 11.05.05".

16 de maio de 2005

NÓS E OS OUTROS #3

A cultura salvou-te. Como é que ela te começou a estragar?

(...) Como muitos adolescentes, pensava descobrir coisas novas em folha, brilhantes, palácios, e dei por mim a descobrir ruínas. Foi aí que se deu o corte. O fardo nunca mais me largou daí para a frente. Com o entusiasmo da adolescência, pensas ser ilimitado. Os anos passam e compreendes que és limitado; subitamente, quebra-se o élan. Achas-te supersónico e percebes que és um avião a hélices. A cultura pode estragar-te porque te dá ilusões.


(Jean-Louis Murat, em entrevista a Christian Fevret da revista Les Inrockuptibles, Setembro de 1991)

15 de maio de 2005

NÓS E OS OUTROS #2

Por vezes, o meu sucesso foi embaraçoso. Entre 1981 e 1990, não vi nada, não prestei a atenção suficiente e, felizmente, creio que isso me salvou, essa espécie de inconsciência permitiu-me manter a minha linha, que não era assim tão fácil de manter devido a todas essas pressões, todas essas armadilhas. De repente agradamos à imprensa especializada, à imprensa popular, depois de repente já não agradamos a ninguém, e depois volta tudo ao que era. As coisas não param de mudar e é preciso que nós nos mantenhamos idênticos. Forçosamente, há derrapagens, quando dou por mim em posters em quartos de miúdos, começo a pensar "ai ai", por muito agradável que seja pensar que sou capaz de pôr alguém a sonhar...

(...) Perdeste-te por vezes nesses jogos de máscaras?
Ultrapassou-me, a certa altura. Mas tinha mais a ver com a maneira como falavam de mim do que comigo próprio. Sempre me senti muito mal à vontade com os elogios, prefiro que me ataquem do que me elogiem.

(...)Alguns anos mais tarde, em meados dos anos 90, acabaste por ir-te abaixo e fugir. A fuga era então a única solução?
Estava a sair de "Paris Ailleurs" e "Mon Manège à Moi", era o caminho real: números um, singles de êxito... E contudo tornava-se invivível, tinha que me afastar, dar-me o direito de envelhecer, de mudar. Decidi então ir viver sozinho para Londres, visto que em Paris estou sempre rodeado de gente. Refiz-me uma vida, sem ser Etienne Daho, só um tipo de novo ligado ao quotidiano. Desde que tinha saído da faculdade, apenas tinha conhecido a existência de cantor, uma vida anormal, ao lado da vida, enquanto que as minhas canções apenas se deveriam alimentar da vida, dos encontros casuais, do perigo. Em Londres, coloquei-me em perigo na solidão mais total. Face a mim próprio, tive de fazer um balanço. Bastante positivo: era um estudantezinho autista, e agora canto há 13 anos, algumas das minhas canções acompanharam a vida de alguma gente. Mas há anos que não tinha tido tempo para criar essa distância, para arrumar a minha vida."


(Etienne Daho em entrevista a JD Beauvallet da revista Les Inrockuptibles, Abril de 2000)

NÓS E OS OUTROS #1

Sempre funcionei assim: quando nos sentimos vazios, quando sentimos que não temos mais nada a dar, creio que é preciso saber voltar a pensar em nós, tornarmo-nos de novo um pouco egoístas. É a nossa única hipótese de podermos voltar a dar, em seguida. Não sei como fazem os outros, aqueles que preferem não se ouvir. Forçosamente, vão abaixo a certa altura.

(Alain Bashung, em entrevista a Richard Robert da revista Les Inrockuptibles, Março de 1995)

14 de maio de 2005

PEQUENA SUGESTÃO AOS PROGRAMADORES DAS SALAS DE ESPECTÁCULOS

Isto de começar concertos às 21h00 não está com nada. Primeiro, não dá tempo para uma pessoa jantar pacatamente - e todos sabemos como os portugueses gostam de fruir a refeição nocturna - e eleva acentuadamente o risco da plateia chegar atrasada. Segundo, se é para actualizar Portugal com os países europeus que começam os concertos mais cedo, o ideal seria seguir o modelo inglês e começá-los às 19h30 ou mesmo às 20h00 - assim, ao menos, quando se acabar o concerto ainda se está na hora de jantar. Agora, começar às 21h00 acaba por não agradar nem a gregos nem a troianos - é demasiado cedo para se jantar em paz antes e demasiado tarde para se jantar em paz depois.