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12 de agosto de 2005

FOLHAS CAÍDAS NO MEIO DA ESTRADA

Pela avenida de Ceuta, do lado de fora, perto do rio, o asfalto da estrada está cheio de folhas amarelo-acastanhadas, encarquilhadas, caídas das árvores. A deslocação de ar dos carros que passam em ambos os sentidos elevam as folhas em pequenas nuvens, como o restolhar dos ramos de uma árvore ao vento.

11 de agosto de 2005

O GATO

Estou sentado no pouf em casa da Rita e do António quando o gato, preto, elegante, se dá finalmente ao trabalho de aparecer. Ronda-me a cheirar-me, encosta o focinho curioso ao meu braço, olha-me com os olhos muito abertos durante vários minutos. Estou sentado com as pernas em arco; o gato arqueia o lombo, enrola e desenrola a cauda e passa por baixo do arco das pernas, roçando a cauda e o lombo no ângulo dos joelhos, uma, duas, três, quatro vezes. Entre elas, encosta o focinho aos nós dos dedos das minhas mãos. Depois, deita-se no chão, de lado, a olhar para mim. Estico um dedo e ele dá-me pequenas patadas no dedo, como quem agarra uma coisa para a soltar a seguir, mas sem pôr as garras de fora, e pega no dedo para o levar à boca aberta e fingir que o morde sem o morder. Tento pegar-lhe nas patas estendidas, mas só me deixa pegar na pata traseira direita, a única que ele não pode mexer livremente por estar encostada ao chão, a servir de suporte, enquanto continua a brincar com o dedo da minha outra mão. Fica ali mais um bocadinho, põe-se de pé, tento agarrar-lhe na cauda, e desaparece tão discretamente como apareceu.

10 de agosto de 2005

O PREÇO DO TABACO

"O tabaco está caro mas a ganza mantém-se! Muito fumo!"

(graffiti lido nas paredes do Bairro Alto)

9 de agosto de 2005

O MONÓLOGO SHAKESPEARIANO

Indizível de tão bom, de tão espirituoso, de tão certeiro no comentário ácido.



pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
ses vacances y a deux ans sur la plage de Bénodet
pendant la troisième scène je me suis un peu rendu compte
j'avais pas bien suivi les répliques du Vicomte
pendant la quatrième elle s'est penchée vers moi
elle a failli me dire un truc et puis finalement pas

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin à l'épilogue shakespearien

début du deuxième acte, toute la rangée soupire
le clan des veuves s'éclate parce que bon c'est Shakespeare
niveau intensité quelque chose qui rappelle
le programme d'EMT pour l'année de quatrième
pourtant la mise en scène était pas mal trouvée
pas de décor, pas de costumes, c'était une putain d'idée
aucune intonation et aucun déplacement
on s'est dit pourquoi pas, aucun public finalement

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au dénouement shakespearien

dans les rues d'Avignon y a des lumières la nuit
on boit des demi-citrons et on se photographie
à la table d'à côté ils ont vu un Beckett
ils disent "c'est pas mal joué mais faut aimer Beckett"
dans les rues d'Avignon il y a des projets balèzes
"demain à 23 heures je vais voir une pièce polonaise"
dans les rues d'Avignon y a du Pepsi Cola
et puis y a une fille qui dit "ba en fait je viens de Levallois"

on est partis avant la fin
du monologue shakespearien
partis avant de savoir le fin mot de l'histoire
on a planté en pleine nuit
l'archevêque de Canterbury
on a posé un lapin au monologue shakespearien

pendant la première scène je regardais sur le côté
pour essayer de comprendre comment ses cheveux étaient noués
pendant la deuxième scène en fait j'imaginais
mes vacances dans deux ans sur la plage de Bénodet.


- Vincent Delerm, "Le Monologue Shakespearien", in "Vincent Delerm" (Tôt ou Tard, 2002)

7 de agosto de 2005

THE BEAUTIFUL GAME

Assim chamam os britânicos ao desporto vulgo rei chamado "futebol", actividade que, confesso, nunca me causou especial atracção, excepto em situações pontuais como as finais da Taça de Inglaterra (em que eu percebia como, realmente, podia ser um desporto interessante quando bem jogado) e um ou outro jogo do Euro 2004 por terras lusas.

Oriundo de uma família de benfiquistas razoavelmente ferrenhos, o meu desinteresse pelo futebol foi sempre recebido com alguma tristeza pelos meus irmãos, muito embora o meu pai se tenha tornado num benfiquista particularmente mordaz quanto às actuais capacidades da equipa, oh, para aí nas últimas vinte temporadas. Era eu muito miúdo, para aí com os meus cinco-seis anos, lembro-me de ter ido ao futebol com o meu pai, ao Estádio da Luz, mas para além da seca que apanhei só me recordo de passarmos por baixo do túnel de acesso sob a Segunda Circular.

O túnel ainda lá está, como percebi ontem quando acompanhei o meu irmão ao jogo de "apresentação" da "equipa" aos sócios, a convite dele, marcando assim a primeira vez em para aí 30 anos que entrei num estádio de futebol sem ser para assistir a um concerto de rock. Entre as várias conclusões que tirei do triste acontecimento em que o Benfica fez uma miserável exibição perante uma Juventus que nem sequer se esforçou muito para justificar a vitória por 2-0, estão as seguintes:

1. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é uma excelente oportunidade para exercer a prática nacional sempre saudável do cinismo.

2. Assistir a um jogo de futebol ao vivo equivale igualmente a um qualquer misterioso exercício de masoquismo por parte dos adeptos, que se deliciam a explorar tudo o que de pior pode acontecer à sua equipa (e que, pelos vistos, acontece mais do que seria desejável).

3. Assistir a um jogo de futebol ao vivo é ainda a colocação em prática daquele que é, na realidade, o primeiro desporto nacional — a saber, duvidar de tudo e de todos até ao ponto em que a apatia resignada, mas telhuda, é a única solução.

Claro que, para continuar este interessante exercício de entomologia sociológica, o ideal será mesmo assistir a um jogo que corra bem para o Benfica e compreeender quantas destas conclusões são comuns a ambas as ocasiões.

6 de agosto de 2005

THE KNOWLEDGE

Em Londres, os taxistas têm, sempre, de passar por um rigorosíssimo exame, conhecido como The Knowledge, que os leva a percorrer vezes sem conta a cidade, memorizando mais de 300 trajectos diferentes. Parece que é muito raro alguém obter a licença de taxista sem ter passado uma dezena de vezes pelo exame.

Em Lisboa, é normal ter de ser o passageiro a explicar ao taxista como se chega ao endereço pretendido.

5 de agosto de 2005

DESCUBRAM O ERRO

MASSA DE AR QUENTE VAI SOFUCAR PORTUGAL - manchete impressa numa das páginas interiores da edição de hoje do Correio da Manhã (não vale a pena ir ao site, o erro só passou mesmo na edição impressa)

40 POLÍCIAS FERIDOS EM CONFRONTO COM A POLÍCIA - legenda no Telejornal da RTP-1 desta noite sobre confrontos na Irlanda do Norte entre manifestantes e polícia

4 de agosto de 2005

POLAROID: 4 DE AGOSTO

09h30. Desço a Alexandre Herculano em direcção à avenida da Liberdade. Cruzo-me com um negro de meia-idade de fato, gravata e cachecol, auscultadores brancos nos ouvidos com um fio que leva ao casaco, andando depressa com uma bengala de madeira escura na mão, que costuma andar pela zona. Demasiado bem vestido e arranjado para ser um sem abrigo, pára frente à porta de uma pastelaria e começa a gritar para o interior, como quem disparata com alguém, mas sem se dirigir a ninguém em particular. Do que diz percebo apenas "Ainda vou ser presidente de Portugal!".

Alguns metros mais à frente, num dos semáforos que orienta as passagens de peões, um idoso de bengala ignora olimpicamente o sinal vermelho para peões e a aproximação rápida de um furgão comercial e atravessa a rua como se fosse sua, no que é seguido, embora a medo, por dois ou três transeuntes.

13h10. Subo a Braancamp em direcção ao Rato. Na esquina da Rodrigo da Fonseca, um casal que parece sair do McDonald's discute em voz alta, com sotaque popular. Ela é anafada, vem de cores claras, com sacos na mão e um casaco de malha à cintura. Ele é muito magro, está de camisola da selecção e calções, e grita-lhe com voz mal-disposta; traz na mão um guardanapo de papel, mas não vejo o que segura; há duas crianças, separadas, a andar à frente deles a ver se a discussão acaba.

3 de agosto de 2005

MATRÍCULAS

Fim da tarde, Marginal, um pequeno comboio de quatro ou cinco carros, quase todos de aparência nova, todos de matrícula francesa (letras pretas sobre fundo amarelo). Um dos condutores tem um boné do Sporting, mas os condutores de dois dos carros não têm aspecto de emigrantes. Excepto, claro, no modo como conduziam.

Vendo os quatro, cinco carros de seguida, lembrei-me das matrículas em chapa que vinham, na minha infância, nos gelados da Olá (seria nos gelados?)... Ainda tive uma dezena e tal dessas matrículas em miniatura, mas não sei o que é feito delas. Mais alguém se lembra?

2 de agosto de 2005

O VERÃO EM LISBOA

...é uma coisa óptima. Mas seria melhor se os nossos sítios de referência não tivessem a brilhante ideia de, também eles, fecharem para férias.

1 de agosto de 2005

A BALADA DE LUCY JORDAN



Quando Marianne canta isto, o mundo pára.

the morning sun touched lightly on
the eyes of Lucy Jordan
in a white suburban bedroom
in a white suburban town
as she lay there beneath the covers
dreaming of a thousand lovers
'till the world turned to orange
and the room went spinning 'round

at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
and she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair

her husband is off to work
and the kids are off to school
and there were oh so many ways
for her to spend a day
she could clean the house for hours
or rearrange the flowers
or run naked through the shady street
screaming all the way

at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
as she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair

the evening sun touched gently on
the eyes of Lucy Jordan
on the rooftop where she climbed
when all the laughter grew too loud

then she bowed and curtsied to the knight
who reached and offered her his hand
and he led her down to the long white car
that waited past the crowd

at the age of 37
she knew she'd found forever
as she rode along through Paris
with the warm wind in her hair.


("The Ballad of Lucy Jordan", in "Broken English", Island/Universal, 1979)

31 de julho de 2005

UMA VIDA SOLITÁRIA



Richard Thompson, sozinho, com uma guitarra, é capaz de, hoje, escrever canções que parece que sempre estiveram aqui. Corrijo: sempre foi capaz, desde os tempos dos Fairport Convention, de falar de hoje como se estivesse a falar de ontem. Como neste instantâneo minucioso, entomológico, mordaz e ao mesmo tempo afectuoso, de um certo modo de ser fleumático.

Sometimes I long for the solitary life
parents long gone, no kids, no wife
sister somewhere in Australia
never did keep in touch
sex no more than a how-do-ye-do
with a copy of Tit-Bits in the loo
socially a bit of a failure
nice not to have to try too much

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

a serious hobby in the garden shed
model trains, or soldiers in lead
join the suburban boffins of Britain
experts on trivial things
and holidays in the Yorkshire Dales
or cycling tours of the North of Wales
unenvious of those flea-bitten
on continental flings

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

excitement comes by subtle means
the satisfaction of routines
small revenges at the office
smug little victories
you work on your pallor, complexion like paste
like the grey defeat on an inmate's face
a life spent adding losses and profits
resigning by degrees

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven

and come to the end, sad and alone
a steady reliable tumour you've grown
from selfish years, while all your peers
have stressfully jogged to health
in life you always were quite numb
and foggier now, you soon succumb
in drab St. Barts on the new bypass
death overcomes by stealth

a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven.


- "A Solitary Life", in "Front Parlour Ballads" (Cooking Vinyl/Farol, 2005)

30 de julho de 2005

POLAROID: PARQUE DE ESTACIONAMENTO

É dia de semana. Acabo de almoçar e dirijo-me para o parque de estacionamento do Oeiras Parque. No carro ao lado do meu, com as janelas fechadas, o condutor recostou o assento para trás numa cama improvisada e dorme a sono solto, com a gravata às riscas a destacar-se da camisa branca, o casaco pendurado no gancho de uma das pegas do capot junto ao banco traseiro.

29 de julho de 2005

DEFINIÇÃO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO

Urso: animal de aparência feroz que esconde por trás do mau feitio uma solidão triste e que, na realidade, tem um coração de manteiga, à espera apenas que alguém lhe venha fazer festas e perguntar "queres ser meu amigo?".

E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.

HILTON

Lembras-te daquela noite mágica, da celebração dos seis meses? Eu não me consigo esquecer. Nem quero.

Fazes-me falta. Tenho saudades.

CHOCOLAT FIN ARTISANAL

Como se um pouco de chocolate negro belga, caseiro, de discreto perfume e travo canela baunilhada para cortar a amargura e a intensidade do cacau, pudesse tapar os vazios que andam cá por dentro. E tapa, por breves segundos em que tudo se resume ao deleite de sentir o bloco a derreter-se lentamente na boca. Mas não dura mais do que esses breves segundos; e, depois, tudo volta ao que é.

28 de julho de 2005

POLAROID: CAFÉ

Tomo o pequeno-almoço dentro do café, encostado à vidraça; do outro lado, na esplanada, duas senhoras de meia-idade tomam também o pequeno almoço quando são abordadas por um sem-abrigo negro, de barba, boné e mochila, com uma garrafa de água vazia na mão. As senhoras fazem-lhe que não com a cabeça e ele afasta-se, não sem antes olhar para a porta do café, como quem pensa «entro? não entro?». Não entra. Segue em frente, cambaleando como quem bebeu de mais (são nove e meia da manhã). Atira a garrafa ao ar para a pontapear como se fosse um futebolista, mas falha e a garrafa cai ao asfalto junto ao passeio. Segue em frente, sempre a cambalear, apoiando-se nos carros estacionados.

A FORÇA DO SEXO FRACO (OU A FRAQUEZA DO SEXO FORTE?)

Eu juro que sou a favor da igualdade dos sexos, que não acho que haja profissões preferencialmente masculinas ou femininas, que acho que uma mulher em igual cargo deveria ganhar o mesmo que um homem, etc, etc.

Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.

27 de julho de 2005

HUSH HUSH

Há vinte anos, quando Aimee Mann ainda estava numa banda chamada 'Til Tuesday, escreveu uma canção premonitória chamada "Voices Carry", sobre uma relação abusiva contada do ponto de vista da mulher agredida. O teledisco terminava com Mann a levantar-se no meio de uma récita operática e a gritar a letrada canção, explodindo em público numa situação em que já não podia ser mandada calar, num colapso nervoso literalmente em público.

Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?

"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.

VARIÁVEIS



Eu gosto destes gajos porque, quando os ouço, sinto aqui o contraste entre a dúvida de ser outro e a vontade de ser quem se é. Por vezes há Pink Floyd a mais, é verdade, às vezes é tudo um bocadinho xoninhas em excesso, também. Mas há sinceridade, e honestidade, e a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que devem estar a olhar para a pessoa errada. É algo que me torna os Coldplay simpáticos. E a faixa escondida, "Til Kingdom Come", é tão inexplicavelmente Johnny Cash que até dói.