Fim da tarde, Marginal, um pequeno comboio de quatro ou cinco carros, quase todos de aparência nova, todos de matrícula francesa (letras pretas sobre fundo amarelo). Um dos condutores tem um boné do Sporting, mas os condutores de dois dos carros não têm aspecto de emigrantes. Excepto, claro, no modo como conduziam.
Vendo os quatro, cinco carros de seguida, lembrei-me das matrículas em chapa que vinham, na minha infância, nos gelados da Olá (seria nos gelados?)... Ainda tive uma dezena e tal dessas matrículas em miniatura, mas não sei o que é feito delas. Mais alguém se lembra?
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
3 de agosto de 2005
2 de agosto de 2005
O VERÃO EM LISBOA
...é uma coisa óptima. Mas seria melhor se os nossos sítios de referência não tivessem a brilhante ideia de, também eles, fecharem para férias.
1 de agosto de 2005
A BALADA DE LUCY JORDAN

Quando Marianne canta isto, o mundo pára.
the morning sun touched lightly on
the eyes of Lucy Jordan
in a white suburban bedroom
in a white suburban town
as she lay there beneath the covers
dreaming of a thousand lovers
'till the world turned to orange
and the room went spinning 'round
at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
and she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair
her husband is off to work
and the kids are off to school
and there were oh so many ways
for her to spend a day
she could clean the house for hours
or rearrange the flowers
or run naked through the shady street
screaming all the way
at the age of 37
she realised
she'd never ride
through Paris
in a sports car
with the warm wind in her hair
so she let the phone keep ringing
as she sat there softly singing
pretty nursery rhymes she'd memorised
in her daddy's easy chair
the evening sun touched gently on
the eyes of Lucy Jordan
on the rooftop where she climbed
when all the laughter grew too loud
then she bowed and curtsied to the knight
who reached and offered her his hand
and he led her down to the long white car
that waited past the crowd
at the age of 37
she knew she'd found forever
as she rode along through Paris
with the warm wind in her hair.
("The Ballad of Lucy Jordan", in "Broken English", Island/Universal, 1979)
31 de julho de 2005
UMA VIDA SOLITÁRIA

Richard Thompson, sozinho, com uma guitarra, é capaz de, hoje, escrever canções que parece que sempre estiveram aqui. Corrijo: sempre foi capaz, desde os tempos dos Fairport Convention, de falar de hoje como se estivesse a falar de ontem. Como neste instantâneo minucioso, entomológico, mordaz e ao mesmo tempo afectuoso, de um certo modo de ser fleumático.
Sometimes I long for the solitary life
parents long gone, no kids, no wife
sister somewhere in Australia
never did keep in touch
sex no more than a how-do-ye-do
with a copy of Tit-Bits in the loo
socially a bit of a failure
nice not to have to try too much
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
a serious hobby in the garden shed
model trains, or soldiers in lead
join the suburban boffins of Britain
experts on trivial things
and holidays in the Yorkshire Dales
or cycling tours of the North of Wales
unenvious of those flea-bitten
on continental flings
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
excitement comes by subtle means
the satisfaction of routines
small revenges at the office
smug little victories
you work on your pallor, complexion like paste
like the grey defeat on an inmate's face
a life spent adding losses and profits
resigning by degrees
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven
and come to the end, sad and alone
a steady reliable tumour you've grown
from selfish years, while all your peers
have stressfully jogged to health
in life you always were quite numb
and foggier now, you soon succumb
in drab St. Barts on the new bypass
death overcomes by stealth
a solitary life
a life of small horizons
dull as the pewter sky over North West Eleven.
- "A Solitary Life", in "Front Parlour Ballads" (Cooking Vinyl/Farol, 2005)
30 de julho de 2005
POLAROID: PARQUE DE ESTACIONAMENTO
É dia de semana. Acabo de almoçar e dirijo-me para o parque de estacionamento do Oeiras Parque. No carro ao lado do meu, com as janelas fechadas, o condutor recostou o assento para trás numa cama improvisada e dorme a sono solto, com a gravata às riscas a destacar-se da camisa branca, o casaco pendurado no gancho de uma das pegas do capot junto ao banco traseiro.
29 de julho de 2005
DEFINIÇÃO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO
Urso: animal de aparência feroz que esconde por trás do mau feitio uma solidão triste e que, na realidade, tem um coração de manteiga, à espera apenas que alguém lhe venha fazer festas e perguntar "queres ser meu amigo?".
E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.
E quem o fizer terá nele um amigo para a vida.
HILTON
Lembras-te daquela noite mágica, da celebração dos seis meses? Eu não me consigo esquecer. Nem quero.
Fazes-me falta. Tenho saudades.
Fazes-me falta. Tenho saudades.
CHOCOLAT FIN ARTISANAL
Como se um pouco de chocolate negro belga, caseiro, de discreto perfume e travo canela baunilhada para cortar a amargura e a intensidade do cacau, pudesse tapar os vazios que andam cá por dentro. E tapa, por breves segundos em que tudo se resume ao deleite de sentir o bloco a derreter-se lentamente na boca. Mas não dura mais do que esses breves segundos; e, depois, tudo volta ao que é.
28 de julho de 2005
POLAROID: CAFÉ
Tomo o pequeno-almoço dentro do café, encostado à vidraça; do outro lado, na esplanada, duas senhoras de meia-idade tomam também o pequeno almoço quando são abordadas por um sem-abrigo negro, de barba, boné e mochila, com uma garrafa de água vazia na mão. As senhoras fazem-lhe que não com a cabeça e ele afasta-se, não sem antes olhar para a porta do café, como quem pensa «entro? não entro?». Não entra. Segue em frente, cambaleando como quem bebeu de mais (são nove e meia da manhã). Atira a garrafa ao ar para a pontapear como se fosse um futebolista, mas falha e a garrafa cai ao asfalto junto ao passeio. Segue em frente, sempre a cambalear, apoiando-se nos carros estacionados.
A FORÇA DO SEXO FRACO (OU A FRAQUEZA DO SEXO FORTE?)
Eu juro que sou a favor da igualdade dos sexos, que não acho que haja profissões preferencialmente masculinas ou femininas, que acho que uma mulher em igual cargo deveria ganhar o mesmo que um homem, etc, etc.
Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.
Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.
27 de julho de 2005
HUSH HUSH
Há vinte anos, quando Aimee Mann ainda estava numa banda chamada 'Til Tuesday, escreveu uma canção premonitória chamada "Voices Carry", sobre uma relação abusiva contada do ponto de vista da mulher agredida. O teledisco terminava com Mann a levantar-se no meio de uma récita operática e a gritar a letrada canção, explodindo em público numa situação em que já não podia ser mandada calar, num colapso nervoso literalmente em público.
Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?
"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.
Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?
"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.
VARIÁVEIS

Eu gosto destes gajos porque, quando os ouço, sinto aqui o contraste entre a dúvida de ser outro e a vontade de ser quem se é. Por vezes há Pink Floyd a mais, é verdade, às vezes é tudo um bocadinho xoninhas em excesso, também. Mas há sinceridade, e honestidade, e a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que devem estar a olhar para a pessoa errada. É algo que me torna os Coldplay simpáticos. E a faixa escondida, "Til Kingdom Come", é tão inexplicavelmente Johnny Cash que até dói.
25 de julho de 2005
HUMOR INGLÊS
RUDE STAFF
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!
(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!
(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")
24 de julho de 2005
LOGBOOK #30: O POLVO TRAUMATIZADO
Cascais: naufrágio do Hildebrandt, domingo, 24 de Julho, 10h38: 10.2m, 49 min, 22º C
Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.
O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.
Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.
Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.
O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.
Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.
23 de julho de 2005
QUEM VOS AVISA

É um disco feito como se fosse um filme, em que cada uma das 15 canções se constrói como uma cena, um quadro, um instantâneo, mas ajuda a que o todo corra de um só fôlego. E, apesar destas canções terem proveniências muito diferentes (e uma boa metade já existir há décadas), parece que foram feitas para estarem aqui, juntas, a contar a história de um bairro pobre, latino, de Los Angeles que foi arrasado nos anos 50 por motivos políticos.
Só Ry Cooder, o mestre guitarrista das bandas-sonoras estratosféricas, poderia ter feito um disco assim. Chama-se "Chávez Ravine". Está nas lojas para quem o quiser encontrar. É uma obra-prima. É um dos álbuns do ano.
22 de julho de 2005
UM TEMPO QUE PASSOU
Pelas curvas da Marginal, em Julho, há um cheiro a areia e maresia transportado pelo calor, há um marulhar imperceptível que funciona quase como ruído ambiente. É Verão; o azul luminoso do céu, o azul turquesa do mar, a claridade ofuscante da areia, os chapéus de sol multicores, os gritos deliciados das crianças que brincam à beira-mar, o pouca-terra do comboio que percorre os trilhos à vista da costa, tudo enquanto guio pela Marginal remete para os Verões da infância em Santo Amaro de Oeiras, que ficaram lá atrás, da toalha por baixo dos toldos às riscas brancas e coloridas, do termos de sopa quente que a minha mãe levava para a praia para me dar, do meu pai me levar às cavalitas quando havia ondas grandes e de nos rirmos, muito, quando uma vinha e nos molhava todos, de apanharmos, à ida, o autocarro para o Cais do Sodré, de coleccionar os pauzinhos de plástico dos gelados Olá que davam para fazer construções, que comia na estação de Santo Amaro quando vínhamos apanhar o comboio para casa. Um tempo que passou e não volta mais.
21 de julho de 2005
PEQUENO AFORISMO EVIDENTE
A capacidade infinita do ser humano, qualquer que seja a sua idade, de insistir em acreditar no Pai Natal é uma coisa inexplicável.
20 de julho de 2005
BOA VIZINHANÇA
Uma coisa que eu ainda hoje não percebo é porque é que as pessoas, quando recebem quantidades significativas de amigos em casa, o fazem em público, ouvindo música em altos berros, conversando em voz muito alta (quiçá já alterada por quantidades copiosas de álcool?) e soltando sonoras gargalhadas a horas que incomodam o descanso da vizinhança. Eram duas e meia e não havia maneira de eles se calarem, apesar dos gritos de "pouco barulho!" e de "chius" mal-encarados de quase toda a gente que estava a ser afectada pelo chavascal.
Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.
Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.
17 de julho de 2005
LOGBOOK #29: OS TRÊS ELEMENTOS
Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 17 de Julho, 11h39: 16.1m, 47 min, 16ºC
Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.
O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).
Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.
Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.
O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).
Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.
16 de julho de 2005
POLAROID: JARDIM CINEMA
Três senhoras de idade com cabelos brancos, óculos tintados, roupas leves de Verão e ar de beatas passam em frente ao Jardim Cinema. Uma delas diz às outras: "Vês? É aqui que fazem o SIC 10 Horas".
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