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29 de julho de 2005

HILTON

Lembras-te daquela noite mágica, da celebração dos seis meses? Eu não me consigo esquecer. Nem quero.

Fazes-me falta. Tenho saudades.

CHOCOLAT FIN ARTISANAL

Como se um pouco de chocolate negro belga, caseiro, de discreto perfume e travo canela baunilhada para cortar a amargura e a intensidade do cacau, pudesse tapar os vazios que andam cá por dentro. E tapa, por breves segundos em que tudo se resume ao deleite de sentir o bloco a derreter-se lentamente na boca. Mas não dura mais do que esses breves segundos; e, depois, tudo volta ao que é.

28 de julho de 2005

POLAROID: CAFÉ

Tomo o pequeno-almoço dentro do café, encostado à vidraça; do outro lado, na esplanada, duas senhoras de meia-idade tomam também o pequeno almoço quando são abordadas por um sem-abrigo negro, de barba, boné e mochila, com uma garrafa de água vazia na mão. As senhoras fazem-lhe que não com a cabeça e ele afasta-se, não sem antes olhar para a porta do café, como quem pensa «entro? não entro?». Não entra. Segue em frente, cambaleando como quem bebeu de mais (são nove e meia da manhã). Atira a garrafa ao ar para a pontapear como se fosse um futebolista, mas falha e a garrafa cai ao asfalto junto ao passeio. Segue em frente, sempre a cambalear, apoiando-se nos carros estacionados.

A FORÇA DO SEXO FRACO (OU A FRAQUEZA DO SEXO FORTE?)

Eu juro que sou a favor da igualdade dos sexos, que não acho que haja profissões preferencialmente masculinas ou femininas, que acho que uma mulher em igual cargo deveria ganhar o mesmo que um homem, etc, etc.

Mas confesso que uma mulher-polícia de rabo de cavalo empunhando uma metralhadora, como vi hoje, é muito estranho.

27 de julho de 2005

HUSH HUSH

Há vinte anos, quando Aimee Mann ainda estava numa banda chamada 'Til Tuesday, escreveu uma canção premonitória chamada "Voices Carry", sobre uma relação abusiva contada do ponto de vista da mulher agredida. O teledisco terminava com Mann a levantar-se no meio de uma récita operática e a gritar a letrada canção, explodindo em público numa situação em que já não podia ser mandada calar, num colapso nervoso literalmente em público.

Como gerir esse pudor de nos protegermos com a necessidade por vezes desesperada de chamarmos a atenção? Como gerir a necessidade de amor e compreensão com um mundo de fachadas e imagens? É por isso que tanta gente cada vez mais nova começa a sofrer cada vez mais nova de esgotamentos, colapsos, depressões e outras doenças do foro psicológico. De repente, as pressões tombam sobre a cabeça de quem não está preparado para elas — porque sempre nos preocupámos mais em proteger do que em expôr. E se só na exposição, na revelação, estas emoções fizessem sentido?

"Hush hush, keep it down now, voices carry — cantava Aimee Mann. "Chiu, não fales alto, ouve-se tudo". Que se ouça. Que se fale. Que se desabafe, com o necessário pudor, com a necessária contenção, mas que nada se cale em nome de um pretenso decoro de que se disfarça a hipocrisia. Que se deite cá para fora o veneno — só assim se conseguirá encontrar o antídoto.

VARIÁVEIS



Eu gosto destes gajos porque, quando os ouço, sinto aqui o contraste entre a dúvida de ser outro e a vontade de ser quem se é. Por vezes há Pink Floyd a mais, é verdade, às vezes é tudo um bocadinho xoninhas em excesso, também. Mas há sinceridade, e honestidade, e a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que devem estar a olhar para a pessoa errada. É algo que me torna os Coldplay simpáticos. E a faixa escondida, "Til Kingdom Come", é tão inexplicavelmente Johnny Cash que até dói.

25 de julho de 2005

HUMOR INGLÊS

RUDE STAFF
DIRTY GLASSES
SLOW SERVICE
POOR FOOD
EXPENSIVE
ENGLISH HUMOR
TRY US!

(lido no painel de um bar na praia em Cascais, ao lado de um painel australiano que dizia "LAST PUB FOR 240KM")

24 de julho de 2005

LOGBOOK #30: O POLVO TRAUMATIZADO

Cascais: naufrágio do Hildebrandt, domingo, 24 de Julho, 10h38: 10.2m, 49 min, 22º C

Juro que não sei onde é que o computador foi buscar os 22 graus de temperatura da água ao largo de Cascais — ou melhor, até sei, à baixa profundidade do mergulho e ao efeito de estufa de um dia onde até o vento parece ser quente. Seja como fôr, esta experiência nas águas cascaenses saldou-se por um êxito modesto, com um daqueles excelentes mergulhos que conjugam longa duração e muito que ver prejudicado por uma visibilidade que, no máximo, não ia além dos três metros e por uma corrente que, sem ser insuportável, se fazia sentir, sobretudo a pouca profundidade.

O Hildebrandt afundou há 50 anos e os restos que por ali estão espalhados sobre a areia (que, como brincava o Fabian no briefing pré-mergulho, não tem nada de especial para ver e leva aos Estados Unidos da América) estão tão cobertos de laminárias e de vida que já quase não se distinguem das rochas que por ali há. Os cardumes de peixe miúdo são mato, há cavacos, rascassos, uma sapateirazinha e até um polvo, provavelmente traumatizado pelas demonstrações práticas de como não se incomoda um polvo que o Alexandre e o Miguel lhe fazem para a Susana ver — o coitado do bicho bem lança tinta a ver se os confunde, mas é demasiado lento para as mãos do Alexandre e o Miguel pega nele de modo a que os tentáculos se abram como uma flor, deixando ver o bico quase de ave do qual irradiam os tentáculos.

Faço, aliás, par com o Miguel, que está agora a voltar ao mergulho depois de um interregno mais dedicado à vela (mas que parece nunca ter parado de mergulhar), e vamos atrás do Alexandre e da Susana, facilmente reconhecíveis na sopa esverdeada que é a água hoje pelas barbatanas amarelas. O que, no barco de regresso à praia da Duquesa e depois à mesa do almoço simpático servido por um empregado à toa, vale aliás algumas interessantes dissertações sobre a dinâmica subaquática do casal moderno e atitudes de cada um dos sexos perante o equipamento de mergulho. Sem conclusões, que deverão ficar guardadas para os investigadores que venham a estudar o tema.

23 de julho de 2005

QUEM VOS AVISA



É um disco feito como se fosse um filme, em que cada uma das 15 canções se constrói como uma cena, um quadro, um instantâneo, mas ajuda a que o todo corra de um só fôlego. E, apesar destas canções terem proveniências muito diferentes (e uma boa metade já existir há décadas), parece que foram feitas para estarem aqui, juntas, a contar a história de um bairro pobre, latino, de Los Angeles que foi arrasado nos anos 50 por motivos políticos.

Só Ry Cooder, o mestre guitarrista das bandas-sonoras estratosféricas, poderia ter feito um disco assim. Chama-se "Chávez Ravine". Está nas lojas para quem o quiser encontrar. É uma obra-prima. É um dos álbuns do ano.

22 de julho de 2005

UM TEMPO QUE PASSOU

Pelas curvas da Marginal, em Julho, há um cheiro a areia e maresia transportado pelo calor, há um marulhar imperceptível que funciona quase como ruído ambiente. É Verão; o azul luminoso do céu, o azul turquesa do mar, a claridade ofuscante da areia, os chapéus de sol multicores, os gritos deliciados das crianças que brincam à beira-mar, o pouca-terra do comboio que percorre os trilhos à vista da costa, tudo enquanto guio pela Marginal remete para os Verões da infância em Santo Amaro de Oeiras, que ficaram lá atrás, da toalha por baixo dos toldos às riscas brancas e coloridas, do termos de sopa quente que a minha mãe levava para a praia para me dar, do meu pai me levar às cavalitas quando havia ondas grandes e de nos rirmos, muito, quando uma vinha e nos molhava todos, de apanharmos, à ida, o autocarro para o Cais do Sodré, de coleccionar os pauzinhos de plástico dos gelados Olá que davam para fazer construções, que comia na estação de Santo Amaro quando vínhamos apanhar o comboio para casa. Um tempo que passou e não volta mais.

21 de julho de 2005

PEQUENO AFORISMO EVIDENTE

A capacidade infinita do ser humano, qualquer que seja a sua idade, de insistir em acreditar no Pai Natal é uma coisa inexplicável.

20 de julho de 2005

BOA VIZINHANÇA

Uma coisa que eu ainda hoje não percebo é porque é que as pessoas, quando recebem quantidades significativas de amigos em casa, o fazem em público, ouvindo música em altos berros, conversando em voz muito alta (quiçá já alterada por quantidades copiosas de álcool?) e soltando sonoras gargalhadas a horas que incomodam o descanso da vizinhança. Eram duas e meia e não havia maneira de eles se calarem, apesar dos gritos de "pouco barulho!" e de "chius" mal-encarados de quase toda a gente que estava a ser afectada pelo chavascal.

Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.

17 de julho de 2005

LOGBOOK #29: OS TRÊS ELEMENTOS

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 17 de Julho, 11h39: 16.1m, 47 min, 16ºC

Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.

O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).

Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.

16 de julho de 2005

POLAROID: JARDIM CINEMA

Três senhoras de idade com cabelos brancos, óculos tintados, roupas leves de Verão e ar de beatas passam em frente ao Jardim Cinema. Uma delas diz às outras: "Vês? É aqui que fazem o SIC 10 Horas".

15 de julho de 2005

A SEMANA DOS ARCO-ÍRIS (900)

No geyser de água em frente a Paço d'Arcos, cuja cauda, ao cair, cria um fugaz prisma multicor, como se se tratasse de uma cortina.

Nos sistemas de rega automática cuja velocidade de dispersão sobre a relva verde húmida cria finas películas de cor reflectida, iluminando inesperadamente o mais banal jardim urbano, a mais anónima instalação de escritórios.

14 de julho de 2005

NOTE TO SELF

it's not
what you thought
when you first
began it
you got
what you want
now you can't hardly stand it though
by now
it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

you're sure
there's a cure
and you have finally found it
you think
one drink
will shrink you 'til you're underground
and living down
but it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

prepare a list for what you need
before you sign away the deed
'cause it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
so just
give up.


Aimee sabe. Eu devia ouvi-la mais vezes.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #66

Otário.

(inspirado pelos lémures de "Madagáscar")

13 de julho de 2005

DESCONTEXTUALIZAÇÕES

Ou como uma frase que trai a amargura de uma cultivadora alemã face à perda da sua colheita numa inundação pode, vista fora do contexto, tornar-se provocantemente brejeira:

"A minha paprika foi muito afectada".

12 de julho de 2005

CHUVA DISSOLVENTE

Porque tenho de olhar para dentro, custe o que custar, e enquanto não o fizer não saberei o que me faz realmente correr, há dias em que tudo se vê através de um espelho distorsor, e a chave é anular a distorção.

11 de julho de 2005

A PONTE É UMA PASSAGEM

Pouco falta para as oito da manhã e, à minha esquerda, a embocadura do Tejo desaparece progressivamente sob um espesso banco de nevoeiro; quando passo por baixo da ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Cascais, o tabuleiro vermelho parece perder-se num nada esbranquiçado, como uma passagem pelo meio do vazio em direcção a outro sítio. Como se o nevoeiro fosse o vapor de água de uma cascata e a ponte nos levasse por baixo da água que cai para uma qualquer caverna escavada na rocha, em direcção à aventura.