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22 de julho de 2005

UM TEMPO QUE PASSOU

Pelas curvas da Marginal, em Julho, há um cheiro a areia e maresia transportado pelo calor, há um marulhar imperceptível que funciona quase como ruído ambiente. É Verão; o azul luminoso do céu, o azul turquesa do mar, a claridade ofuscante da areia, os chapéus de sol multicores, os gritos deliciados das crianças que brincam à beira-mar, o pouca-terra do comboio que percorre os trilhos à vista da costa, tudo enquanto guio pela Marginal remete para os Verões da infância em Santo Amaro de Oeiras, que ficaram lá atrás, da toalha por baixo dos toldos às riscas brancas e coloridas, do termos de sopa quente que a minha mãe levava para a praia para me dar, do meu pai me levar às cavalitas quando havia ondas grandes e de nos rirmos, muito, quando uma vinha e nos molhava todos, de apanharmos, à ida, o autocarro para o Cais do Sodré, de coleccionar os pauzinhos de plástico dos gelados Olá que davam para fazer construções, que comia na estação de Santo Amaro quando vínhamos apanhar o comboio para casa. Um tempo que passou e não volta mais.

21 de julho de 2005

PEQUENO AFORISMO EVIDENTE

A capacidade infinita do ser humano, qualquer que seja a sua idade, de insistir em acreditar no Pai Natal é uma coisa inexplicável.

20 de julho de 2005

BOA VIZINHANÇA

Uma coisa que eu ainda hoje não percebo é porque é que as pessoas, quando recebem quantidades significativas de amigos em casa, o fazem em público, ouvindo música em altos berros, conversando em voz muito alta (quiçá já alterada por quantidades copiosas de álcool?) e soltando sonoras gargalhadas a horas que incomodam o descanso da vizinhança. Eram duas e meia e não havia maneira de eles se calarem, apesar dos gritos de "pouco barulho!" e de "chius" mal-encarados de quase toda a gente que estava a ser afectada pelo chavascal.

Acabei por fechar a janela do quarto. Não foi remédio santo, mas sempre abafou a barulheira um bocado.

17 de julho de 2005

LOGBOOK #29: OS TRÊS ELEMENTOS

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo, 17 de Julho, 11h39: 16.1m, 47 min, 16ºC

Nada de sopa juliana, como alguém receava, mas certamente uma visibilidade esverdeada (quatro, cinco metros, não mais) no retorno à Ponta da Passagem, repleta de pequenos cardumes, muito peixe a nadar calmamente, onde eu e o Jorge (um aveirense simpático de fato seco sem capuz) perdemos rapidamente a Lena e o Nuno, entretidos algures a tirar fotografias a um polvo. O mal é deles, perderam os dois polvos que nós vimos (ou melhor, o Jorge viu primeiro) num dos corredores de rochas que ladeiam a passagem subaquática por entre as rochas à beira do Cabo Espichel. Não será a perfeição — já fiz melhores mergulhos neste spot; a passagem em si, um enorme buraco azul, está hoje de um verde denso — mas está-se bem, mesmo muito bem nestas profundidades calminhas com muito que ver, o suficiente para andarmos de lanterna a rebuscar os buracos e ver se há algum peixe mais tímido escondido por ali.

O Jorge, habituado como está às águas turvas do Norte, atira quando paramos o barco: "oh pá, como é que vocês arranjaram mar da Madeira ou dos Açores?", mesmo que lá em baixo não o seja. Está vento e nuvens de filme atravessam o céu azul mas, à entrada destes 47 minutos, a água está calma, quase estanhada, quase sem ondulação (à saída o caso já muda de figura, a água, ainda razoavelmente calma, está já mais agitada; não se prevê um mergulho da tarde melhor que o da manhã para quem fica para a tarde, que depois vai-se a ver é ninguém).

Antes e depois, contudo, há a necessária sessão de limpeza mental — quando o barco voga veloz contra o vento que afasta o stress da semana e limpa as preocupações quotidianas. Ficam só os elementos — terra, ar, água, e a sensação revigorante de flutuar entre eles.

16 de julho de 2005

POLAROID: JARDIM CINEMA

Três senhoras de idade com cabelos brancos, óculos tintados, roupas leves de Verão e ar de beatas passam em frente ao Jardim Cinema. Uma delas diz às outras: "Vês? É aqui que fazem o SIC 10 Horas".

15 de julho de 2005

A SEMANA DOS ARCO-ÍRIS (900)

No geyser de água em frente a Paço d'Arcos, cuja cauda, ao cair, cria um fugaz prisma multicor, como se se tratasse de uma cortina.

Nos sistemas de rega automática cuja velocidade de dispersão sobre a relva verde húmida cria finas películas de cor reflectida, iluminando inesperadamente o mais banal jardim urbano, a mais anónima instalação de escritórios.

14 de julho de 2005

NOTE TO SELF

it's not
what you thought
when you first
began it
you got
what you want
now you can't hardly stand it though
by now
it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

you're sure
there's a cure
and you have finally found it
you think
one drink
will shrink you 'til you're underground
and living down
but it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you
wise up

prepare a list for what you need
before you sign away the deed
'cause it's not going to stop
it's not going to stop
it's not
going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
'til you wise up
no, it's not going to stop
so just
give up.


Aimee sabe. Eu devia ouvi-la mais vezes.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #66

Otário.

(inspirado pelos lémures de "Madagáscar")

13 de julho de 2005

DESCONTEXTUALIZAÇÕES

Ou como uma frase que trai a amargura de uma cultivadora alemã face à perda da sua colheita numa inundação pode, vista fora do contexto, tornar-se provocantemente brejeira:

"A minha paprika foi muito afectada".

12 de julho de 2005

CHUVA DISSOLVENTE

Porque tenho de olhar para dentro, custe o que custar, e enquanto não o fizer não saberei o que me faz realmente correr, há dias em que tudo se vê através de um espelho distorsor, e a chave é anular a distorção.

11 de julho de 2005

A PONTE É UMA PASSAGEM

Pouco falta para as oito da manhã e, à minha esquerda, a embocadura do Tejo desaparece progressivamente sob um espesso banco de nevoeiro; quando passo por baixo da ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Cascais, o tabuleiro vermelho parece perder-se num nada esbranquiçado, como uma passagem pelo meio do vazio em direcção a outro sítio. Como se o nevoeiro fosse o vapor de água de uma cascata e a ponte nos levasse por baixo da água que cai para uma qualquer caverna escavada na rocha, em direcção à aventura.

9 de julho de 2005

LONDRES

O TEMPO SUJO

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.


— Alexandre O'Neill, 1958, in Poesias Completas

5 de julho de 2005

CANÇÃO

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem


Alexandre O'Neill (1951)

4 de julho de 2005

DISCURSO DIRECTO

Mesmo lido com uns quantos anos de atraso, mesmo descontando a facilidade do formato de colagem de entrevistas que permite esconder a "ausência de credibilidade" dos autores enquanto interlocutores, "Rap Ta France", de José-Louis Bocquet e Philippe Pierre-Adolphe Paris: Flammarion, 1997), é um documento estimulante para compreender a chegada do movimento hip-hop a França e a maneira como o hexágono se tornou na segunda potência do rap mundial, sobretudo com a "maré negra" da década de 90 com MC Solaar, Soon E MC, Jimmy Jay, etc. Eliminando qualquer excrescência assinada pelos dois autores, o livro constrói-se como uma montagem de depoimentos concedidos em entrevistas exclusivas por todos os nomes principais do hip-hop francês, dos pioneiros Dee Nasty e Cut Killer às vedetas NTM, IAM ou MC Solaar. Dando de barato que as fontes orais nem sempre são 100% fidedignas, "Rap Ta France" funciona como uma fascinante "história oral" do hip-hop em França, colorida pela personalidade de cada um dos interlocutores, cheia de histórias de vida que confirmam esta como uma música das ruas, transmissão global em directo do pulsar dos subúrbios, fala da tribo e linguagem de uma juventude em necessidade de afirmação pessoal e social. Haverá livros melhores para contextualizar o movimento hip-hop em França, mas "Rap Ta France" é um complementar com muito que o recomende.

GRAFFITI

Ainda bem que existem pobrezinhos para as assistentes sociais poderem mudar o mundo

- lido algures nas ruas de Lisboa

3 de julho de 2005

2 de julho de 2005

LOGBOOK #28: AVENTURA É AVENTURA

Berlenga Grande: Primavera, sábado 2 de Julho, 12h31: 22.9m, 40 min, 14ºC

Dizia o Alexandre que as Berlengas são o mergulho mais próximo dos Açores que se consegue em Portugal Continental (ou, enfim, quase, visto que tecnicamente as Berlengas são ilhas, mesmo que a pouca distância do continente) em termos de visibilidade. Mas, nesta estreia minha (e da recém-encartada Susana) no mui badalado destroço do Primavera, a água estava mais próxima de Sesimbra num dia mediano (visibilidade aí de cinco metros com boa vontade, muita suspensão, frio de cortar a partir dos 12 metros). Mesmo os mergulhos de eleição têm dias não, apesar de se perceber que os destroços do navio (em melhores condições do que o único termo de comparação que possuo, o célebre Riva Gurara) fervilham de vida, com restos do mármore italiano que o navio transportava quando se afundou espalhados pela área. Não fossem as malfadadas cãibras a trair a falta de esforço das pernas (derivada à infame inflamação do joelho) e tudo teria sido bem melhor...

Não foi só a água sesimbrense das Berlengas que provou ser uma surpresa nesta viagem-relâmpago à reserva natural (com direito a passeio a pé até ao farol pelos trilhos abertos pelos humanos e ferozmente guardado pelos bandos de gaivotas e suas crias que entram em histeria colectiva assim que alguém se aventura para fora). Os 20 minutos de semi-rígido desde Peniche até à ilha pelo meio das vagas largas ao largo do Cabo Carvoeiro pareceram uma viagem numa montanha-russa, sim, mas mais numa montanha-russa tímida dos anos 50 do que nos colossos que desafiam a força da gravidade hoje; ou então uma cavalgada num daqueles touros mecânicos. Dizem-me que hoje o mar esteve anormalmente bom na travessia, embora tenha havido três ou quatro saltos — não quero saber como será num dia mau. Mas houve algo de mágico quando o barco parecia deslizar por entre as altas ondas, e percebi um pouco do que o pessoal do surf deve sentir. E, no regresso, a viagem fez-se como se não houvesse vaga (mas havia).

O segundo mergulho ficou por fazer, à conta (surpreendente) de peso a menos e de uma intempestiva incapacidade de descer abaixo dos dois metros. Mas nada disso importa quando, no regresso, já à chegada ao porto de Peniche, passadas as formas geométricas esculpidas na rocha pela força dos elementos, o vento me bate no rosto e sinto o prazer de um dia bem passado. Há ainda uma hora de viagem até Lisboa e gasolina a meter no carro, o equipamento todo para lavar, mas isso não interessa nada. Passei um belo dia de aventuras. Prosaicas, é certo, mas aventuras — porque tudo pode ser uma aventura, se assim o quisermos. E, hoje, quero.

(com um obrigado, muito grande, à Susana — bem-vinda! — e ao grande Alexandre, pelo convite, pela simpatia, e pela companhia)

1 de julho de 2005

POLAROID: FAMÍLIA

A senhora, trintona, tem aquele cabelo aclarado e a pose natural de tia da linha, fazendo um almoço de comida saudável no Oeiras Parque acompanhada pelos filhos ainda crianças - ele de camisa e calções à colégio, ela de roupa leve meio frique. Ele acompanha a mãe na comida saudável, ela come duas fatias de pizza. Acabada a refeição saudável, a mãe dirige-se ao balcão e pede uma fatia de bolo de chocolate, uma espécie de pão de ló que se desfaz ao contacto dos talheres de plástico translúcido. "Este bolo é tão light, tão light que se desfaz todo", comenta enquanto pergunta se os filhos querem um pouco. O rapaz não, mas a menina sim - vai pedir talheres ao balcão e debruça-se sobre a mesa para chegar ao prato da mãe. "Ó Mafalda, não é a boca que vai à comida, é a comida que vai à boca, sim?". A filha come algumas garfadas, mas quando se levantam metade do bolo fica no prato de plástico branco.