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13 de julho de 2005

DESCONTEXTUALIZAÇÕES

Ou como uma frase que trai a amargura de uma cultivadora alemã face à perda da sua colheita numa inundação pode, vista fora do contexto, tornar-se provocantemente brejeira:

"A minha paprika foi muito afectada".

12 de julho de 2005

CHUVA DISSOLVENTE

Porque tenho de olhar para dentro, custe o que custar, e enquanto não o fizer não saberei o que me faz realmente correr, há dias em que tudo se vê através de um espelho distorsor, e a chave é anular a distorção.

11 de julho de 2005

A PONTE É UMA PASSAGEM

Pouco falta para as oito da manhã e, à minha esquerda, a embocadura do Tejo desaparece progressivamente sob um espesso banco de nevoeiro; quando passo por baixo da ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Cascais, o tabuleiro vermelho parece perder-se num nada esbranquiçado, como uma passagem pelo meio do vazio em direcção a outro sítio. Como se o nevoeiro fosse o vapor de água de uma cascata e a ponte nos levasse por baixo da água que cai para uma qualquer caverna escavada na rocha, em direcção à aventura.

9 de julho de 2005

LONDRES

O TEMPO SUJO

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.


— Alexandre O'Neill, 1958, in Poesias Completas

5 de julho de 2005

CANÇÃO

Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
— mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem


Alexandre O'Neill (1951)

4 de julho de 2005

DISCURSO DIRECTO

Mesmo lido com uns quantos anos de atraso, mesmo descontando a facilidade do formato de colagem de entrevistas que permite esconder a "ausência de credibilidade" dos autores enquanto interlocutores, "Rap Ta France", de José-Louis Bocquet e Philippe Pierre-Adolphe Paris: Flammarion, 1997), é um documento estimulante para compreender a chegada do movimento hip-hop a França e a maneira como o hexágono se tornou na segunda potência do rap mundial, sobretudo com a "maré negra" da década de 90 com MC Solaar, Soon E MC, Jimmy Jay, etc. Eliminando qualquer excrescência assinada pelos dois autores, o livro constrói-se como uma montagem de depoimentos concedidos em entrevistas exclusivas por todos os nomes principais do hip-hop francês, dos pioneiros Dee Nasty e Cut Killer às vedetas NTM, IAM ou MC Solaar. Dando de barato que as fontes orais nem sempre são 100% fidedignas, "Rap Ta France" funciona como uma fascinante "história oral" do hip-hop em França, colorida pela personalidade de cada um dos interlocutores, cheia de histórias de vida que confirmam esta como uma música das ruas, transmissão global em directo do pulsar dos subúrbios, fala da tribo e linguagem de uma juventude em necessidade de afirmação pessoal e social. Haverá livros melhores para contextualizar o movimento hip-hop em França, mas "Rap Ta France" é um complementar com muito que o recomende.

GRAFFITI

Ainda bem que existem pobrezinhos para as assistentes sociais poderem mudar o mundo

- lido algures nas ruas de Lisboa

3 de julho de 2005

2 de julho de 2005

LOGBOOK #28: AVENTURA É AVENTURA

Berlenga Grande: Primavera, sábado 2 de Julho, 12h31: 22.9m, 40 min, 14ºC

Dizia o Alexandre que as Berlengas são o mergulho mais próximo dos Açores que se consegue em Portugal Continental (ou, enfim, quase, visto que tecnicamente as Berlengas são ilhas, mesmo que a pouca distância do continente) em termos de visibilidade. Mas, nesta estreia minha (e da recém-encartada Susana) no mui badalado destroço do Primavera, a água estava mais próxima de Sesimbra num dia mediano (visibilidade aí de cinco metros com boa vontade, muita suspensão, frio de cortar a partir dos 12 metros). Mesmo os mergulhos de eleição têm dias não, apesar de se perceber que os destroços do navio (em melhores condições do que o único termo de comparação que possuo, o célebre Riva Gurara) fervilham de vida, com restos do mármore italiano que o navio transportava quando se afundou espalhados pela área. Não fossem as malfadadas cãibras a trair a falta de esforço das pernas (derivada à infame inflamação do joelho) e tudo teria sido bem melhor...

Não foi só a água sesimbrense das Berlengas que provou ser uma surpresa nesta viagem-relâmpago à reserva natural (com direito a passeio a pé até ao farol pelos trilhos abertos pelos humanos e ferozmente guardado pelos bandos de gaivotas e suas crias que entram em histeria colectiva assim que alguém se aventura para fora). Os 20 minutos de semi-rígido desde Peniche até à ilha pelo meio das vagas largas ao largo do Cabo Carvoeiro pareceram uma viagem numa montanha-russa, sim, mas mais numa montanha-russa tímida dos anos 50 do que nos colossos que desafiam a força da gravidade hoje; ou então uma cavalgada num daqueles touros mecânicos. Dizem-me que hoje o mar esteve anormalmente bom na travessia, embora tenha havido três ou quatro saltos — não quero saber como será num dia mau. Mas houve algo de mágico quando o barco parecia deslizar por entre as altas ondas, e percebi um pouco do que o pessoal do surf deve sentir. E, no regresso, a viagem fez-se como se não houvesse vaga (mas havia).

O segundo mergulho ficou por fazer, à conta (surpreendente) de peso a menos e de uma intempestiva incapacidade de descer abaixo dos dois metros. Mas nada disso importa quando, no regresso, já à chegada ao porto de Peniche, passadas as formas geométricas esculpidas na rocha pela força dos elementos, o vento me bate no rosto e sinto o prazer de um dia bem passado. Há ainda uma hora de viagem até Lisboa e gasolina a meter no carro, o equipamento todo para lavar, mas isso não interessa nada. Passei um belo dia de aventuras. Prosaicas, é certo, mas aventuras — porque tudo pode ser uma aventura, se assim o quisermos. E, hoje, quero.

(com um obrigado, muito grande, à Susana — bem-vinda! — e ao grande Alexandre, pelo convite, pela simpatia, e pela companhia)

1 de julho de 2005

POLAROID: FAMÍLIA

A senhora, trintona, tem aquele cabelo aclarado e a pose natural de tia da linha, fazendo um almoço de comida saudável no Oeiras Parque acompanhada pelos filhos ainda crianças - ele de camisa e calções à colégio, ela de roupa leve meio frique. Ele acompanha a mãe na comida saudável, ela come duas fatias de pizza. Acabada a refeição saudável, a mãe dirige-se ao balcão e pede uma fatia de bolo de chocolate, uma espécie de pão de ló que se desfaz ao contacto dos talheres de plástico translúcido. "Este bolo é tão light, tão light que se desfaz todo", comenta enquanto pergunta se os filhos querem um pouco. O rapaz não, mas a menina sim - vai pedir talheres ao balcão e debruça-se sobre a mesa para chegar ao prato da mãe. "Ó Mafalda, não é a boca que vai à comida, é a comida que vai à boca, sim?". A filha come algumas garfadas, mas quando se levantam metade do bolo fica no prato de plástico branco.

30 de junho de 2005

NÓS E OS OUTROS #5

Pela primeira vez, assumi esta vontade de infância, esta introspecção. Falei por isso das coisas que me faziam passar-me quando era miúdo — palavras que tinha esquecido, das quais tinha fugido... Dito isto, nunca cortei as pontes com a minha infância: quando vejo uma foto da minha adolescência, reconheço-me perfeitamente. E tenho pena porque, naquela altura, andava sempre com má cara, sentia-me preso na armadilha da minha vida, da minha cidade, da minha família... Não via nenhuma saída de emergência.

(Benjamin Biolay, em entrevista a J. D. Beauvallet da revista "Les Inrockuptibles", Abril de 2003)

29 de junho de 2005

NÓS E OS OUTROS #4

(...) A música tornou-se-me indispensável: é o único momento da minha vida em que não tento intelectualizar as coisas, porque sou alguém que passa o tempo a analisar tudo. Quanto mais crescemos, mais a educação nos obriga a apertar a mão às pessoas, mesmo que achemos que elas são ilustres imbecis. Passamos o tempo a interiorizar. Quando me apresentam alguém, por exemplo, e que essa pessoa me dá um beijinho, acho uma patetice: tenho um contacto de pele com alguém que não conheço. Sabe-se lá se o tipo não acaba de matar o seu irmão. Tudo é falseado. Quando digo isto, respondem-me que sou fria, que não gosto das pessoas. Só acho que já não há autenticidade em nada. Tudo se mistura. É por isso que me sinto mais próxima do carácter inglês. Diz-se sempre que eles são um pouco frios, quando não passa de pudor. Sinto-me lenta e gosto da fleuma deles. Contudo, não vivo as coisas de maneira temperada. E a música é o meu meio de libertar o meu instinto, foi sempre muito mais que mera recreação.

(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)

27 de junho de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #62

Macambúzio.

NOTICIÁRIOS

Como não acompanho com atenção as sondagens que informam quais são os programas mais vistos da televisão, não sei qual o dia em que os telejornais são mais vistos. Mas sei que, aos domingos, há significamente mais reportagens de "interesse social", que parecem reciclar as reportagens sobre os "flagelos do nosso tempo" que apareceram num outro domingo meses atrás. Aproveitamento de uma maior disponibilidade do espectador para prestar atenção a assuntos sérios? Ou apenas maneira de preencher um dia vazio de notícias com coisas que, mesmo podendo ser mais importantes, não têm espaço na batalha diária das audiências?

26 de junho de 2005

DISCURSO SOBRE A MORAL

"The morality of our time, whatever else may be claimed, is that of achievement. Five more or less fraudulent bankruptcies are acceptable provided the fifth leads to a time of prosperity and patronage. Success can cause everything else to be forgotten. When you reach the point where your money helps win elections and buys paintings, the State is prepared to look the other way too. There are unwritten rules: if you donate to church, charities, and political parties, it needs to be no more than one tenth of the outlay required for someone to demonstrate his goodwill by patronizing the arts. And even success still has its limits; one cannot yet acquire everything in every way; some principles of the Crown, the aristocracy, and society can still to some extent restrain the social climber. On the other hand, the State, for its own suprapersonal person, quite openly countenances the principle that one may rob, steal, and murder if it will provide power, civilization, and glory. Of course, I'm not saying that all this is acknowledged even in theory; on the contrary, the theory of it is quite obscure. I just wanted to sum up the most mundane facts for you. The moral argumentation is just one more means to an end, a weapon used in much the same way as lies. This is the world that men have made, and it would make me want to be a woman — if only women did not love men!"

— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)

Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.

25 de junho de 2005

POLAROID: RESTAURANTE

Num restaurante da linha de ambiente cool e arquitectura retro-moderna, espécie de Bica do Sapato suburbano, com bastantes clientes, o jantar de sexta à noite é subitamente perturbado por três bailarinas e um bailarino de sevilhanas que actuam para um casamento numa sala reservada. Embora a música não esteja demasiadamente alta, o ruído dos tacões dos sapatos no soalho de madeira tratada e das palmas dos dançarinos e dos comensais ecoa pela sala forrada a madeiras. O curto espectáculo termina com "Asereje" das Ketchup; do lado de fora do reservado, há quem se lembre ainda da coreografia.

23 de junho de 2005

CIVISMO NACIONAL

Aguardo uma oportunidade para entrar na fila de trânsito na rua estreita regulada por um semáforo; tento entrar antes de uma berlina Mercedes preta, último modelo, mas o condutor acelera para não me deixar meter à sua frente. É um senhor dos seus cinquenta e muitos anos, de fato claro e óculos, com um cigarro na boca e o braço na janela, que, ao passar por mim, me olha com um desprezo altaneiro de quem diz "como se eu alguma vez deixasse um ranhoso como tu meter-se à minha frente!".