Pela primeira vez, assumi esta vontade de infância, esta introspecção. Falei por isso das coisas que me faziam passar-me quando era miúdo — palavras que tinha esquecido, das quais tinha fugido... Dito isto, nunca cortei as pontes com a minha infância: quando vejo uma foto da minha adolescência, reconheço-me perfeitamente. E tenho pena porque, naquela altura, andava sempre com má cara, sentia-me preso na armadilha da minha vida, da minha cidade, da minha família... Não via nenhuma saída de emergência.
(Benjamin Biolay, em entrevista a J. D. Beauvallet da revista "Les Inrockuptibles", Abril de 2003)
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
30 de junho de 2005
29 de junho de 2005
NÓS E OS OUTROS #4
(...) A música tornou-se-me indispensável: é o único momento da minha vida em que não tento intelectualizar as coisas, porque sou alguém que passa o tempo a analisar tudo. Quanto mais crescemos, mais a educação nos obriga a apertar a mão às pessoas, mesmo que achemos que elas são ilustres imbecis. Passamos o tempo a interiorizar. Quando me apresentam alguém, por exemplo, e que essa pessoa me dá um beijinho, acho uma patetice: tenho um contacto de pele com alguém que não conheço. Sabe-se lá se o tipo não acaba de matar o seu irmão. Tudo é falseado. Quando digo isto, respondem-me que sou fria, que não gosto das pessoas. Só acho que já não há autenticidade em nada. Tudo se mistura. É por isso que me sinto mais próxima do carácter inglês. Diz-se sempre que eles são um pouco frios, quando não passa de pudor. Sinto-me lenta e gosto da fleuma deles. Contudo, não vivo as coisas de maneira temperada. E a música é o meu meio de libertar o meu instinto, foi sempre muito mais que mera recreação.
(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)
(Valérie Leulliot, cantora e compositora do grupo Autour de Lucie, em entrevista a Anne-Claire Norot da revista Les Inrockuptibles, Março de 1997)
28 de junho de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #63
Opróbrio.
com agradecimentos ao João L.
com agradecimentos ao João L.
27 de junho de 2005
NOTICIÁRIOS
Como não acompanho com atenção as sondagens que informam quais são os programas mais vistos da televisão, não sei qual o dia em que os telejornais são mais vistos. Mas sei que, aos domingos, há significamente mais reportagens de "interesse social", que parecem reciclar as reportagens sobre os "flagelos do nosso tempo" que apareceram num outro domingo meses atrás. Aproveitamento de uma maior disponibilidade do espectador para prestar atenção a assuntos sérios? Ou apenas maneira de preencher um dia vazio de notícias com coisas que, mesmo podendo ser mais importantes, não têm espaço na batalha diária das audiências?
26 de junho de 2005
DISCURSO SOBRE A MORAL
"The morality of our time, whatever else may be claimed, is that of achievement. Five more or less fraudulent bankruptcies are acceptable provided the fifth leads to a time of prosperity and patronage. Success can cause everything else to be forgotten. When you reach the point where your money helps win elections and buys paintings, the State is prepared to look the other way too. There are unwritten rules: if you donate to church, charities, and political parties, it needs to be no more than one tenth of the outlay required for someone to demonstrate his goodwill by patronizing the arts. And even success still has its limits; one cannot yet acquire everything in every way; some principles of the Crown, the aristocracy, and society can still to some extent restrain the social climber. On the other hand, the State, for its own suprapersonal person, quite openly countenances the principle that one may rob, steal, and murder if it will provide power, civilization, and glory. Of course, I'm not saying that all this is acknowledged even in theory; on the contrary, the theory of it is quite obscure. I just wanted to sum up the most mundane facts for you. The moral argumentation is just one more means to an end, a weapon used in much the same way as lies. This is the world that men have made, and it would make me want to be a woman — if only women did not love men!"
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike (Londres: Picador, 1997)
Isto foi escrito há 60 anos, para um livro cuja acção decorre em 1914. A actualidade é arrepiante.
25 de junho de 2005
POLAROID: RESTAURANTE
Num restaurante da linha de ambiente cool e arquitectura retro-moderna, espécie de Bica do Sapato suburbano, com bastantes clientes, o jantar de sexta à noite é subitamente perturbado por três bailarinas e um bailarino de sevilhanas que actuam para um casamento numa sala reservada. Embora a música não esteja demasiadamente alta, o ruído dos tacões dos sapatos no soalho de madeira tratada e das palmas dos dançarinos e dos comensais ecoa pela sala forrada a madeiras. O curto espectáculo termina com "Asereje" das Ketchup; do lado de fora do reservado, há quem se lembre ainda da coreografia.
23 de junho de 2005
CIVISMO NACIONAL
Aguardo uma oportunidade para entrar na fila de trânsito na rua estreita regulada por um semáforo; tento entrar antes de uma berlina Mercedes preta, último modelo, mas o condutor acelera para não me deixar meter à sua frente. É um senhor dos seus cinquenta e muitos anos, de fato claro e óculos, com um cigarro na boca e o braço na janela, que, ao passar por mim, me olha com um desprezo altaneiro de quem diz "como se eu alguma vez deixasse um ranhoso como tu meter-se à minha frente!".
22 de junho de 2005
POLAROID: GAIVOTA
Subo o viaduto de Algés, em frente ao Monumento aos Combatentes; uma gaivota em vôo planante recorta-se contra o céu azul sobre o viaduto. Ao mesmo tempo que ela se aproxima, vejo-a lançar um projéctil branco que cai no asfalto quente e negro da estrada, e ela segue como se nada fosse ou tivesse sido.
21 de junho de 2005
POLAROID: OBRAS
O polícia está de pé, em frente à sua moto, com uma clareira de ambos os lados entre os carros estacionados junto ao passeio, frente à saída de obras. Um dos operários chama-o, "tome, sr. guarda", enquanto abre uma garrafa de Sumol tirada da caixa de uma carrinha e lha passa. Enquanto o polícia toma os primeiros golos do refrigerante, as traseiras de um camião-grua começam a surgir lentamente da saída de obras e o polícia, ainda com a garrafa verde nas mãos, dirige-se lentamente para o meio da estrada, elevando a mão para mandar parar o trânsito que entra na rua.
GROWING PAINS

Aquilo de que mais gosto em J. K. Rowling é o modo certeiro como ela descreve a adolescência e as suas paixões impetuosas, o seu tudo ou nada, a sensação de que o mundo começa e acaba em cada triunfo ou derrota. Os livros de Harry Potter, para lá da extraordinária criação e manutenção de um universo paralelo de perfeita coerência, valem também (talvez essencialmente) por essa tradução dos estados de espírito volúveis típicos de uma certa idade, pela capacidade de expressar as emoções que todos sentimos quando parecemos ser demasiado grandes para a nossa pele. Todos nós sentimos a certa altura, como Harry Potter, que o mundo é demasiado confuso e complicado para aquilo que podemos abarcar de uma só vez — e há quem continue a senti-lo mesmo já adulto.
Dito isto, as quase 800 páginas de "Harry Potter e a Ordem da Fénix", lidas no original, esmagam pela inteligência narrativa: tudo está no seu preciso lugar e o que ficou por dizer ficou-o, certamente, por um motivo. Rowling não é uma grande estilista, mas a sua escrita é de uma simplicidade enganadora, e a maneira frontal como lida com os lugares-comuns, sem os evitar nem os esconder, é irresistível. É verdade que, desta vez, não devorei o quinto dos sete livros da série com a mesma velocidade, mas essa resistência é redimida por uma segunda metade com o embalo dos velhos "cliffhangers", onde muito fica por explicar (para os dois últimos volumes...) e se revela finalmente um dos segredos pedra-de-toque da série.
20 de junho de 2005
PORTUGAL É...
...quando o governo cumprimenta Tiago Monteiro por ser o primeiro piloto português de Fórmula 1 a chegar ao pódio numa corrida — mesmo que só lá tenha chegado porque a concorrência se recusou a competir. Mas qual é o gozo, qual é a sensação de ter atingido qualquer coisa, de chegar ao topo só porque os outros desistiram?
19 de junho de 2005
VOX POPULI
Ontem à tarde, no Jardim da Estrela, uma de três senhoras de idade, de bengala, dizia a quem a quisesse ouvir:
"Eu não sou racista, mas também não gosto dos pretos. Ando eu com a minha casa a caír aos bocados e eles com casas novinhas em folha, que a assistente social lhes deu..."
E respondia-lhe outra:
"Pois, é verdade..."
"Eu não sou racista, mas também não gosto dos pretos. Ando eu com a minha casa a caír aos bocados e eles com casas novinhas em folha, que a assistente social lhes deu..."
E respondia-lhe outra:
"Pois, é verdade..."
POLAROID: TP831 ROMA FIUMICINO-LISBOA, TERÇA, 14 DE JUNHO
O A319 faz um barulho industrial durante a descolagem; um ruído contínuo de máquina rebarbadora. Pela janela vejo que Fiumicino fica próximo do mar — como, pelos vistos, muitos dos subúrbios de Roma. As nuvens parecem algodão quando as atravessamos. Ao meu lado, uma jovem de camisola de gola alta branca dorme a sono solto, enroscada na cadeira. Quando visito a casa de banho, é visível que quase toda a gente no vôo está a dormir ou quase. Os filmes promocionais exibido nos pequenos écrãs são hilariantes, prolongando todos os lugares-comuns do Portugal turístico, com uma simpática divisão de classes entre o casal quarentão bem na vida que fica no Pestana Palace, joga golfe, aluga descapotáveis e faz passeios de avioneta, e o grupo de turistas jovens de pé descalço (ou, no caso, ténis de marca) que anda de eléctrico, bebe bjecas na Trindade, anda com mapas da cidade por tudo o que é sítio e vai à noite para as Docas.
POLAROID: ROMA FIUMICINO, TERÇA, 14 DE JUNHO, 06h15
Às seis da manhã, todas as lojas e cafés situadas sobre o terminal B das partidas do aeroporto estão fechadas, com excepção de um único café, onde todos se concentram. E, contudo, o movimento no aeroporto é enorme, com facilmente duas dezenas de vôos a partir no espaço de uma hora antes das sete da manhã. Um contingente militar está de partida para qualquer sítio e alguns dos militares, de camuflado designer, juntam-se no café, pedindo "latte macchiatos" (café com leite claro, com espuma), cappuccinos ou "cornetti" (a palavra italiana para croissant, servido simples ou com recheio de chocolate ou compota).
18 de junho de 2005
POLAROID: ROMA TRASTEVERE, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 18h15
A estação de comboios continua em obras. Fazemos aqui o transbordo para Fiumicino — vamos à procura de um hotel para dormir na zona do aeroporto, já que às horas madrugadoras a que o vôo de regresso a Lisboa sai não compensa ficarmos em Roma. Enquanto esperamos pelo comboio para o aeroporto, um casal de turistas americanos com ar apressado comenta, ao ver-nos com as malas na plataforma, que também devemos ir para o aeroporto. Metemos conversa; ele de polo verde e calções claros, ela de calças largas e leves e camisa de alças, ambos de óculos escuros e a exalar o conforto burguês da classe média suburbana, explicam-nos que se enganaram no comboio e, em vez de regressar ao aeroporto, onde guardaram as malas num cacifo, foram parar aos subúrbios de Roma, e estão em risco de perder o avião para Zurique se o comboio para Fiumicino se atrasar ou levar muito tempo. O comboio chega pouco depois e desejamos-lhes boa sorte e boa viagem. Atrás de nós entram dois acordeonistas de ar cigano, tal e qual como se estivéssemos nas Docas ou nas esplanadas turísticas dos Restauradores, que começam a tocar canções napolitanas.
POLAROID: CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO, 17h00
Há cinco dias, chegámos a Civitavecchia à noite; o trajecto a pé até ao porto atravessou uma longa esplanada frente a uma praia, com pequenos bares e quiosques povoados por militares e turistas, mas só agora, em plena luz do dia, é que compreendemos realmente o aspecto de quase Cascais desta cidadezinha a uma hora de comboio de Roma e da qual só conheceremos este misto de esplanada e marginal, as escassas centenas de metros que vão do porto até à estação de comboios — em tudo muito semelhantes às lojas de bugigangas e objectos veraneantes que polvilham as nossas localidades balneares, com quiosques de gelados (em Itália também há gelados Olá; chamam-se Algida mas, no resto, os Magnums e os Cornettos são iguaizinhos), cafés, lojas de artigos fotográficos, bóias para as crianças, locais de barriga proeminente, tez tisnada, bigodes farfalhudos e sandálias romanas conversando em grupos encostados a uma parede ou a um poste de iluminação.
Chegamos à estação, compramos os bilhetes, o comboio para Roma está já na plataforma e sai escassos cinco minutos depois.
Chegamos à estação, compramos os bilhetes, o comboio para Roma está já na plataforma e sai escassos cinco minutos depois.
POLAROID: FERRY GOLFO ARANCI-CIVITAVECCHIA, SEGUNDA, 13 DE JUNHO
Em vez de sairmos do porto de Olbia, onde chegámos há cinco dias, saímos de Golfo Aranci, alguns quilómetros mais a Norte, na linha local Sardinia Ferries — que não tem, segundo nos dizem, autorização de atracar em Olbia. O ferry que nos transporta durante quase sete horas está longe, tanto em dimensão como em conforto, dos ferries mais modernos da Tirrenia onde viajámos até Olbia; aqui pagámos metade do preço e usurpámos as poltronas junto às janelas (que, tecnicamente, são mais caras, mas fingimos que não sabemos de nada e, de qualquer maneira, o ferry está quase vazio). Em vez da escada rolante de passageiros no ferry da Tirrenia, entramos pelo convés dos automóveis e subimos acanhadas escadas de bordo; duas dezenas de carros e outros tantos passageiros sem carro no imenso navio, que zarpa da Sardenha às dez da manhã e chega a Civitavecchia pouco antes das cinco da tarde.
O empregado do bar onde compramos um improvisado almoço de sanduíches e sumos atende com o enfado de quem se resignou ao trabalho que tem; tudo neste ferry evoca uma sensação de decadência, de algo que se vai arrastando ingloriamente. Pelas janelas, o mar cria efeitos de luz no tecto falso de ripas plásticas de onde estão suspensos os climatizadores, as luzes fluorescentes, os televisores omnipresentes (sintonizados na Rai 1, com uma emissão muito dona-de-casa com o inspector Derrick e um telefilme americano).
Subo ao convés mas é difícil encontrar as escadas certas; quando finalmente o consigo, estou face à cabina de pilotagem, entre as duas chaminés. O ferry percorre veloz as águas do Mediterrânico, já se consegue ver ao longe, no meio da imensidão azul, a linha costeira italiana, a Civitavecchia de onde saímos quarta-feira e onde regressamos agora, depois de quatro dias na Sardenha que foram "uma experiência para recordar".
O empregado do bar onde compramos um improvisado almoço de sanduíches e sumos atende com o enfado de quem se resignou ao trabalho que tem; tudo neste ferry evoca uma sensação de decadência, de algo que se vai arrastando ingloriamente. Pelas janelas, o mar cria efeitos de luz no tecto falso de ripas plásticas de onde estão suspensos os climatizadores, as luzes fluorescentes, os televisores omnipresentes (sintonizados na Rai 1, com uma emissão muito dona-de-casa com o inspector Derrick e um telefilme americano).
Subo ao convés mas é difícil encontrar as escadas certas; quando finalmente o consigo, estou face à cabina de pilotagem, entre as duas chaminés. O ferry percorre veloz as águas do Mediterrânico, já se consegue ver ao longe, no meio da imensidão azul, a linha costeira italiana, a Civitavecchia de onde saímos quarta-feira e onde regressamos agora, depois de quatro dias na Sardenha que foram "uma experiência para recordar".
17 de junho de 2005
POLAROID: ARZACHENA, QUINTA, 9 DE JUNHO, A DOMINGO, 12 DE JUNHO
Arzachena, no Noroeste da Sardenha, é uma cidadezinha atravessada pela Viale Costa Smeralda, uma estrada de província que curva e contra-curva continuamente, recordando-me da algarvia Serra do Caldeirão, que a corta praticamente ao meio e a partir da qual algumas ruas se ramificam. Arzachena percorre-se a pé em 25 minutos de uma ponta à outra. Segundo me dizem, é uma das câmaras municipais mais ricas da Sardenha, já que algumas zonas costeiras dotadas de vilas e hotéis de luxo frequentadas por gente de bastantes posses (como a belíssima marina de Porto Cervo) reportam os seus impostos à câmara de Arzachena. À tarde, tem o mesmo aspecto imóvel de uma vilazinha alentejana ou algarvia numa tarde de Verão; arquitectura mediterrânica em pedra de cores claras com telha cor de tijolo. Arzachena é uma cidadezinha de província. Os custos da insularidade não são um exclusivo seu — afectam toda a Sardenha — mas a realidade é que aqui pouco há para fazer.
As montanhas à distância, que separam o interior da costa, funcionam, ao mesmo tempo, como barreira que esconde o que está do outro lado e protecção para o que está deste. Há, aqui, um silêncio que não existe na cidade; aquela sensação de, subitamente, termos saído do mundo, parado o tempo. Do confortável sofá nesta casa emprestada, coberto por tapetes rústicos e almofadas ornamentadas com fio dourado de inspiração muçulmana, desta varanda mediterrânica com balaustradas de ferro forjado e colunatas romanas em pedra maciça, tudo parece muito distante.
As montanhas à distância, que separam o interior da costa, funcionam, ao mesmo tempo, como barreira que esconde o que está do outro lado e protecção para o que está deste. Há, aqui, um silêncio que não existe na cidade; aquela sensação de, subitamente, termos saído do mundo, parado o tempo. Do confortável sofá nesta casa emprestada, coberto por tapetes rústicos e almofadas ornamentadas com fio dourado de inspiração muçulmana, desta varanda mediterrânica com balaustradas de ferro forjado e colunatas romanas em pedra maciça, tudo parece muito distante.
DEDICATÓRIA
Things can never again be what they were, the way they were.
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike
— Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", na tradução inglesa de Sophie Wilkins e Burton Pike
16 de junho de 2005
POLAROID: FERRY CIVITAVECCHIA-OLBIA, MADRUGADA DE QUARTA, 8 DE JUNHO, PARA QUINTA, 9 DE JUNHO
O ferry para Olbia é uma verdadeira cidade flutuante, com um grande número de convés, vários bares e restaurantes, até uma sala de cinema e outra de video-jogos. Quando o ferry larga amarras, com meia-hora de atrasso, para a viagem de seis horas até ao porto de Olbia, na Sardenha, é como se não estivéssemos sequer a navegar; sentimos apenas a vibração dos motores que nos propulsionam pelo Mediterrânico. A luz amarelada vem de uma placa embutida na cabeceira do beliche; se apagar as luzes da cabina, e olhar pela janela suja, posso ver as ondas esbranquiçadas que se afastam do casco, criadas pelo navegar do ferry, uma linha firme cortando o horizonte, única maneira de distinguir onde começa o céu negro só a espaços estrelado e termina o mar negro que só as luzes pontuais de uma bóia, um farol, outro ferry cortam. Apenas a esteira do barco vem cobrir de branco, acinzentado na escuridão, o escuro da noite. A cabina climatizada obriga-me a puxar do cobertor de lã e abri-lo sobre os lençóis com cheiro a lavado ilustrados com o monograma da Tirrenia Navigazione.
POLAROID: TERMINAL TRAGHETTI, PORTO DE CIVITAVECCHIA, QUARTA, 8 DE JUNHO, 22h00
Uma caminhada rápida de 10 minutos leva-nos da estação de comboios de Civitavecchia, a uma hora de trajecto de Roma, à bilheteira para comprarmos as entradas para o ferry para Olbia, na Sardenha. A bilheteira está vazia, à excepção de dois turistas que esperam sentados e de um trio de ciganos que conversa com a empregada. O terminal é uma ilha iluminada à entrada do porto, com um pequeno bar que serve cafés e bolos. Ficamos uma boa meia-hora no autocarro que faz o transporte gratuito até ao cais 24, à espera dos "retardatários" que chegarão até ao fecho da bilheteira às 22h30 (meia-hora antes da saída do barco). Alguns ciganos, alguns indianos, uns poucos europeus de Leste, muitos turistas, italianos e de outras nacionalidades.
POLAROID: ROMA TRASTEVERE, QUARTA, 8 DE JUNHO, 19h45
A estação de comboios está em obras, folhas amarelas impressas a computador indicando as saídas e as plataformas coladas em taipais de contraplacado. A confusão dos passageiros regressando a casa ao fim do dia de trabalho, apanhando correspondências entre seis plataformas diferentes. Um grupo de homens está sentado num banco entre os vários taipais, garrafas de litro de cerveja na mão. Não se percebe se são trabalhadores à espera de um comboio ou apenas a passar o tempo, ou se são emigrantes (muito mal vistos em Itália, pelo que percebemos) à espera que a estação feche, embora estejam demasiado bem vestidos para serem sem-abrigos. Seja como for, estão ali e não se vão embora; metem-se discretamente com os transeuntes. Percebem que somos estrangeiros, dizem-nos "hello" com um sorriso trocista; quando uma freira passa, apressada, quase a correr, para apanhar o comboio, gritam-lhe "go, go, go".
14 de junho de 2005
POLAROID: ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO, 18h45
O vôo de Lisboa aterrou há algum tempo. Esperamos as malas que foram no porão na recolha de bagagens. Uma senhora, de sotaque brasileiro, tenta tirar um carrinho de bagagens da fila por trás dos bancos. Tenta tudo para tirar o carrinho — levantá-lo, fazer força, incliná-lo, mas não consegue que ele saia dos carris e vira-se para mim, perguntando se eu sei livrar o carrinho. Aponto-lhe a máquina bem visível ao seu lado, indicando que é preciso pagar um euro para usar um carro. A senhora agradece e vai-se embora.
POLAROID: TP842 LISBOA-ROMA FIUMICINO, QUARTA, 8 DE JUNHO
O A321 aterra em Roma. Assim que abrandamos em aproximação à manga, a hospedeira levanta-se rapidamente do assento junto à porta de emergência onde esteve sentada durante a aterragem, faz cara de má e admoesta alguns passageiros para se sentarem, não vá a travagem do avião levá-los a bater com a cabeça na bagageira e acabar por exigir uma indemnização à companhia pelo seu próprio descuido.
7 de junho de 2005
POLAROID: ELÉCTRICO
Apanho o eléctrico 28 no Miradouro de Santa Luzia, perto do Castelo de S. Jorge, e rapidamente percebo que a velha tradição dos miúdos lisboetas de apanharem boleia do eléctrico pendurados nas portas traseiras continua activa. Só que agora com T-shirts de basquetebol, cabelinho à Operação Triunfo, brincos na orelha e ténis da Nike.
Há dois miúdos que fazem todo o percurso pendurados até chegarmos à Baixa — altura em que um outro miúdo, que viajava dentro do eléctrico com bilhete pago e um CD walkman nas mãos, sai e se junta a eles.
Há dois miúdos que fazem todo o percurso pendurados até chegarmos à Baixa — altura em que um outro miúdo, que viajava dentro do eléctrico com bilhete pago e um CD walkman nas mãos, sai e se junta a eles.
POLAROID: IGREJAS DE LISBOA
Experimentem ver a cidade pelos olhos de um estrangeiro e, de repente, tudo aquilo que, até aqui, tomávamos como adquirido ou trivial ganha novos contornos, uma espécie de deslumbramento atordoado, meio surpreendido — mas isto estava mesmo aqui? Sim, é verdade, estava. Nós é que, com a velocidade vertiginosa da "vida real", passamos ao lado de prazeres simples como passear no Jardim da Estrela ou descobrir a quantidade absurda de igrejas por metro quadrado na "velha Lisboa" do Bairro Alto.
E, a esse propósito, torna-se curioso contar uma pequena história.
O meu amigo David, organista (com experiência de restauro de órgãos de igreja) em São Francisco, terminou há pouco o seu curso superior de órgão e, naturalmente, em cada igreja por onde passávamos quis ver se havia órgãos (instrumento que, sem que eu o soubesse, tem uma longa e nobre tradição de construção).
Curioso, tocou à campaínha da Igreja Anglicana de S. Jorge, situada no cemitério inglês, encostada ao Liceu Pedro Nunes e por trás do Hospital Inglês (que está situado nos terrenos da igreja), junto ao Jardim da Estrela. Embora o letreiro dissesse que a igreja e o cemitério estavam abertos diariamente das 9h00 às 13h00, ninguém atendia a campaínha, mas nesse preciso momento chegou o padre, que abriu a porta e confessou, depois de arrumar o carro, que adorava que a igreja e o cemitério estivessem mais disponíveis ao público mas, infelizmente, a senhora que fazia de porteira era portuguesa, tinha quase 90 anos e relutância em permitir a entrada de visitantes. O padre Michael permitiu não só ao David visitar o órgão como o deixou à vontade para o tocar durante alguns minutos.
O David perguntou em mais algumas igrejas se era possível visitar o órgão. Em quase todas lhe disseram que seria preciso falar com o padre, que estava ausente de momento, e nem sequer abriram a possibilidade de o levar a ver o órgão; numa, o empregado limitou-se a fazer que não com o dedo, nem sequer se dignando dirigir-nos a palavra ou sequer remeter para o padre. Fez apenas que não (e olhou com cara de mau enquanto o David fotografava o reluzente e recentemente restaurado instrumento). Só na Sé de Lisboa a empregada com quem falámos levantou a hipótese de passarmos por cima do cordão que impede o acesso do público ao órgão, como quem não quer coisa — e era por eu ser português, porque se fosse o David sozinho ela não deixava. Nenhum dos empregados com quem falámos percebia o que quer que fosse de inglês apesar do grosso dos visitantes serem estrangeiros — e, com uma ou outra excepção, estavam com um ar de frete desgraçado.
O David dizia-me, à saída da Sé, que, em São Francisco, seria muito difícil encontrar uma igreja onde fosse impossível visitar o órgão. Mais: em quase todas elas, haveria alguém a tocá-lo. Em Lisboa, nem uma única tinha música.
E, a esse propósito, torna-se curioso contar uma pequena história.
O meu amigo David, organista (com experiência de restauro de órgãos de igreja) em São Francisco, terminou há pouco o seu curso superior de órgão e, naturalmente, em cada igreja por onde passávamos quis ver se havia órgãos (instrumento que, sem que eu o soubesse, tem uma longa e nobre tradição de construção).
Curioso, tocou à campaínha da Igreja Anglicana de S. Jorge, situada no cemitério inglês, encostada ao Liceu Pedro Nunes e por trás do Hospital Inglês (que está situado nos terrenos da igreja), junto ao Jardim da Estrela. Embora o letreiro dissesse que a igreja e o cemitério estavam abertos diariamente das 9h00 às 13h00, ninguém atendia a campaínha, mas nesse preciso momento chegou o padre, que abriu a porta e confessou, depois de arrumar o carro, que adorava que a igreja e o cemitério estivessem mais disponíveis ao público mas, infelizmente, a senhora que fazia de porteira era portuguesa, tinha quase 90 anos e relutância em permitir a entrada de visitantes. O padre Michael permitiu não só ao David visitar o órgão como o deixou à vontade para o tocar durante alguns minutos.
O David perguntou em mais algumas igrejas se era possível visitar o órgão. Em quase todas lhe disseram que seria preciso falar com o padre, que estava ausente de momento, e nem sequer abriram a possibilidade de o levar a ver o órgão; numa, o empregado limitou-se a fazer que não com o dedo, nem sequer se dignando dirigir-nos a palavra ou sequer remeter para o padre. Fez apenas que não (e olhou com cara de mau enquanto o David fotografava o reluzente e recentemente restaurado instrumento). Só na Sé de Lisboa a empregada com quem falámos levantou a hipótese de passarmos por cima do cordão que impede o acesso do público ao órgão, como quem não quer coisa — e era por eu ser português, porque se fosse o David sozinho ela não deixava. Nenhum dos empregados com quem falámos percebia o que quer que fosse de inglês apesar do grosso dos visitantes serem estrangeiros — e, com uma ou outra excepção, estavam com um ar de frete desgraçado.
O David dizia-me, à saída da Sé, que, em São Francisco, seria muito difícil encontrar uma igreja onde fosse impossível visitar o órgão. Mais: em quase todas elas, haveria alguém a tocá-lo. Em Lisboa, nem uma única tinha música.
5 de junho de 2005
LOGBOOK #26/27: A LEI DA COMPENSAÇÃO
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 15h30; 9.5m, 31 min, 17º C
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 16h45; 7.6m, 26 min, 18º C
Cinco semanas depois do "passeio à rua da asneira", com um joelho inflamado pelo meio, uma ausência prolongada de exercício físico e uma sobrecarga de trabalho em antecipação às bem merecidas férias, o domingo radioso e cheio de sol traz a compensação perfeita, apesar do início algo atribulado, com os protestos dos pescadores de Sesimbra a cancelarem uma primeira tentativa no sábado e a marcha lenta de domingo de manhã a atrasar as actividades para a tarde.
Não é exactamente um mergulho tradicional. Vim apenas acompanhar um amigo americano de passagem por Lisboa que quis concluir cá o curso básico de mergulho, faltando-lhe apenas as duas últimas aulas de mar. Intermediando com a escola de mergulho, fui servir de tradutor em caso de necessidade (que não houve), assistente para quaisquer eventualidade e reserva moral se o rapaz se desse mal. Não deu. Bem pelo contrário: o ar do David depois de completar o último mergulho era de uma indescritível felicidade — que só quem já esteve debaixo de água consegue perceber.
O dia, esse, estava de luxo — céu azul, sol quente, nenhum vento, água límpida e calma (apesar do sedimento que prejudica a visibilidade). Tempo perfeito para mergulhar (a ironia de os pescadores terem escolhido este fim-de-semana de verdadeiro Verão para protestar não deve com certeza ter escapado a muitos). Enquanto o José e o David fazem os exercícios de rotina, eu entretenho-me a observá-los — a segurança e a confiança do instrutor, o à-vontade tentativo do aluno — ou a olhar para o que me rodeia: os pequenos peixinhos bebés, quase transparentes sobre a areia, os cardumes e peixes que flutuam por ali. A câmara descartável que trouxe para tirar uns instantâneos escorregou para fora do colete e é ver se a encontras — nem uma busca rapidinha pela área dá por ela e, no intervalo entre os dois mergulhos, percorremos a superfície com o barco sem a encontrar. A água está menos fria do que é costume, está-se bem nestas profundidades baixinhas; no fim do mergulho, uma volta pela zona da Pedra do Cavalo, mesmo à saída do porto, possibilita ver um polvo que lentamente sai de baixo da sua pedra e assume a forma tradicional, antes de se camuflar por entre rochedos maiores.
Apesar da baixa profundidade e do limite de tempo imposto pela inexperiência do aluno e pelos tópicos a cobrir na aula, este poderia bem ser o mergulho perfeito — ou o mergulho ideal. Se tal coisa existisse.
Sesimbra: Pedra do Cavalo, domingo 5 de Junho, 16h45; 7.6m, 26 min, 18º C
Cinco semanas depois do "passeio à rua da asneira", com um joelho inflamado pelo meio, uma ausência prolongada de exercício físico e uma sobrecarga de trabalho em antecipação às bem merecidas férias, o domingo radioso e cheio de sol traz a compensação perfeita, apesar do início algo atribulado, com os protestos dos pescadores de Sesimbra a cancelarem uma primeira tentativa no sábado e a marcha lenta de domingo de manhã a atrasar as actividades para a tarde.
Não é exactamente um mergulho tradicional. Vim apenas acompanhar um amigo americano de passagem por Lisboa que quis concluir cá o curso básico de mergulho, faltando-lhe apenas as duas últimas aulas de mar. Intermediando com a escola de mergulho, fui servir de tradutor em caso de necessidade (que não houve), assistente para quaisquer eventualidade e reserva moral se o rapaz se desse mal. Não deu. Bem pelo contrário: o ar do David depois de completar o último mergulho era de uma indescritível felicidade — que só quem já esteve debaixo de água consegue perceber.
O dia, esse, estava de luxo — céu azul, sol quente, nenhum vento, água límpida e calma (apesar do sedimento que prejudica a visibilidade). Tempo perfeito para mergulhar (a ironia de os pescadores terem escolhido este fim-de-semana de verdadeiro Verão para protestar não deve com certeza ter escapado a muitos). Enquanto o José e o David fazem os exercícios de rotina, eu entretenho-me a observá-los — a segurança e a confiança do instrutor, o à-vontade tentativo do aluno — ou a olhar para o que me rodeia: os pequenos peixinhos bebés, quase transparentes sobre a areia, os cardumes e peixes que flutuam por ali. A câmara descartável que trouxe para tirar uns instantâneos escorregou para fora do colete e é ver se a encontras — nem uma busca rapidinha pela área dá por ela e, no intervalo entre os dois mergulhos, percorremos a superfície com o barco sem a encontrar. A água está menos fria do que é costume, está-se bem nestas profundidades baixinhas; no fim do mergulho, uma volta pela zona da Pedra do Cavalo, mesmo à saída do porto, possibilita ver um polvo que lentamente sai de baixo da sua pedra e assume a forma tradicional, antes de se camuflar por entre rochedos maiores.
Apesar da baixa profundidade e do limite de tempo imposto pela inexperiência do aluno e pelos tópicos a cobrir na aula, este poderia bem ser o mergulho perfeito — ou o mergulho ideal. Se tal coisa existisse.
4 de junho de 2005
THIS IS HARDCORE
Aldina Duarte assume a pose icónica da fadista tradicional, mas subverte-a com a entrega quase desesperada de quem faz isto não por trabalho ou por pose mas por fé, por destino. Porque tem de ser. É aquilo que o universo lhe pede — e ela não sabe dizer-lhe que não. Ela não pode dizer-lhe que não.
Aldina Duarte é um bloco de granito duro por limar que está, apenas. Não cede nem faz concessões. Existe, apenas. A nós cabe-nos aceitá-lo, compreendê-lo, amá-lo, admirá-lo. Aldina Duarte é o fado hardcore, puro e duro. Ela dá(-se) a 200, 300%. Quem não estiver preparado para lhe responder com menos do que isso não a merece. Ontem à noite, a Culturgest cheia soube merecê-la. Falta só Portugal render-se-lhe como se tem rendido a outras (que se dizem) fadistas mas que não chegam nem perto da intensidade e da beleza transcendente do recital com que Aldina Duarte nos presenteou.
Isto, sim, é fado. O resto é conversa da treta.
Aldina Duarte é um bloco de granito duro por limar que está, apenas. Não cede nem faz concessões. Existe, apenas. A nós cabe-nos aceitá-lo, compreendê-lo, amá-lo, admirá-lo. Aldina Duarte é o fado hardcore, puro e duro. Ela dá(-se) a 200, 300%. Quem não estiver preparado para lhe responder com menos do que isso não a merece. Ontem à noite, a Culturgest cheia soube merecê-la. Falta só Portugal render-se-lhe como se tem rendido a outras (que se dizem) fadistas mas que não chegam nem perto da intensidade e da beleza transcendente do recital com que Aldina Duarte nos presenteou.
Isto, sim, é fado. O resto é conversa da treta.
1 de junho de 2005
POLAROID: JERÓNIMOS
No interior da enorme nave do Mosteiro dos Jerónimos, sucedem-se os grupos de turistas vindos de toda a parte, sentados em grupinhos nos bancos de igreja escutando atentamente o que as guias turísticas (e são quase todas guias turísticas) lhes dizem, por entre uma babel de línguas que vai do espanhol ao francês passando pelo italiano. Excepto numa das capelas em nicho lateral, junto ao altar principal, com uma jovem que observa atentamente uma figura de uma santa (será a Virgem Maria, pergunto eu com a minha ignorância em matéria de estatuária religiosa?): por trás do cordão de veludo que impede a entrada dos turistas, uma empregada da limpeza, com a bata azul da empresa, passa o espanador pelos bancos de igreja alheia ao bichanar amplificado que a rodeia, como se não estivesse ali mais ninguém a não ser ela.
31 de maio de 2005
POLAROID: AEROPORTO
Um jovem de camisa branca e mala percorre a rampa das chegadas a ver se vê alguém. Sucedem-se as chegadas, pessoas saem e acenam aos familiares, aos amigos, aos condutores, mas o jovem continua a percorrer a rampa à espera que apareça alguém.
Um senhor de meia-idade espera junto ao gradeamento de metal, e vai batendo ritmicamente no metal com um porta-chaves (uma moeda? uma chave?) enquanto não chega quem veio buscar. Assim que chega e o senhor sai, um jovem negro ocupa o seu lugar e, passado pouco tempo, começa a bater ritmicamente com uma caneta no metal.
Uma senhora (proveniente do México?) coloca o sombrero ornamentado na cabeça à porta da saída das chegadas, para a fotografia que o marido com ar de bancário tira com a máquina digital nova.
Um senhor de meia-idade espera junto ao gradeamento de metal, e vai batendo ritmicamente no metal com um porta-chaves (uma moeda? uma chave?) enquanto não chega quem veio buscar. Assim que chega e o senhor sai, um jovem negro ocupa o seu lugar e, passado pouco tempo, começa a bater ritmicamente com uma caneta no metal.
Uma senhora (proveniente do México?) coloca o sombrero ornamentado na cabeça à porta da saída das chegadas, para a fotografia que o marido com ar de bancário tira com a máquina digital nova.
30 de maio de 2005
JUNK MAIL
Porque é que uma firma de brindes oferece "turcos personalizados"? E quem será o público-alvo de uma tal proposta?
29 de maio de 2005
OUTRA MANHÃ
Às vezes, não percebo porque é que levo tanto tempo para descobrir discos como este.
nothing ever seems
to make you happy
are you miserable, babe
or are you just plain mean
is there no joy in you
c’mon don't keep me waiting
your broken heart might bring you heaven
but it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
someone does you wrong you give away your life to prove it
you wear your pain with pride you refuse to remove it
you become the evil that plays with you like a doll
big rules only make our lives small
was your voice never heard
c’mon you know we were all listening
justice will only bring you
a prison
and it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
now you're the big expert with the truth
now you're all apple pie and you're bulletproof
there must have been a short five minutes somewhere in your youth
when you laughed like water breaking over the broken land
when you laughed like the wind burning the sun blind on your face
when you laughed like water breaking over the broken dam
when you laughed like the starting gun at the start of the race
I wanna smash all the violins and the symphony
I wanna see you smile with a real simple melody
it's when you wake up and you're glad that you're breathing
it's when you wake up and you're glad that you're living
well that's another morning
another morning with Kathleen.
- Mark Eitzel para os American Music Club, "Another Morning", in "Love Songs for Patriots" (Cooking Vinyl/Farol, 2004)
nothing ever seems
to make you happy
are you miserable, babe
or are you just plain mean
is there no joy in you
c’mon don't keep me waiting
your broken heart might bring you heaven
but it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
someone does you wrong you give away your life to prove it
you wear your pain with pride you refuse to remove it
you become the evil that plays with you like a doll
big rules only make our lives small
was your voice never heard
c’mon you know we were all listening
justice will only bring you
a prison
and it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
now you're the big expert with the truth
now you're all apple pie and you're bulletproof
there must have been a short five minutes somewhere in your youth
when you laughed like water breaking over the broken land
when you laughed like the wind burning the sun blind on your face
when you laughed like water breaking over the broken dam
when you laughed like the starting gun at the start of the race
I wanna smash all the violins and the symphony
I wanna see you smile with a real simple melody
it's when you wake up and you're glad that you're breathing
it's when you wake up and you're glad that you're living
well that's another morning
another morning with Kathleen.
- Mark Eitzel para os American Music Club, "Another Morning", in "Love Songs for Patriots" (Cooking Vinyl/Farol, 2004)
BANZAI
Estou verdadeiramente aterrorizado. Por razões que não consigo compreender, sempre que entro no Blogger sou recebido... em japonês (ou será em tailandês?). Isto não era problemático há uns meses atrás, porque os botões básicos ainda estavam todos em inglês. Mas agora (glup!) já não estão! Estou a ver um écrã em caracteres inteiramente japoneses onde só o nome do meu blog e as palavras que vou escrevendo são reconhecivelmente ocidentais! Será que, daqui por uns tempos, os meus posts começam a saír, eles próprios, também em ideogramas nipónicos?
28 de maio de 2005
ELES NÃO SABEM QUE O SONHO COMANDA A VIDA, MAS NÃO ME PARECE QUE FOSSE BEM A ISTO QUE O OUTRO SE REFERIA
Alguém me explica porque é que hoje sonhei que dava um par de estalos a uma daquelas velhotas de bigode lisboetas, de voz de peixeira, atitude de porteirinha e pernas bambas a chinelar pela rua, que vinha a entrar num sítio qualquer público à cabeça de uma comitiva eleitoral-autárquica e fazia um ar de desprezo quando me via? E, se conseguirem, explicam-me também já agora porque é que acordei logo a seguir bem-disposto como já não acontecia há largas semanas?
27 de maio de 2005
PARCERIAS
Os governos podem mudar mas há uma coisa que, garantidamente, não muda: a noção de "parceria" que, em Portugal, não significa "união de pessoas com objectivos comuns", como vem no dicionário. Isto porque, como todos sabemos, em Portugal é (sempre foi) o salve-se-quem-puder, tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, cada-um-por-si. Não me surpreende que o conceito de "serviço público", em Portugal, seja entendido por cada um à sua maneira. E, sinceramente, não vejo como pode haver parcerias quando os parceiros apenas estão interessados em salvaguardar os seus próprios interesses e o resto que se lixe.
Os portugueses queixam-se, sistematicamente, não sem razão, do seu desencanto com a política e com os políticos. A mim, são os portugueses que me desencantam. Todos. Sem excepção.
Os portugueses queixam-se, sistematicamente, não sem razão, do seu desencanto com a política e com os políticos. A mim, são os portugueses que me desencantam. Todos. Sem excepção.
26 de maio de 2005
POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM
Pela primeira vez na vida, encontro uma enfermeira (mais jovem que eu) que me diz peremptoriamente que "não dá injecções em pé" e me diz para me deitar de barriga para baixo na marquesa.
PEQUENO CONSELHO CULINÁRIO
Nunca confiar nas receitas dos livros de culinária marcadas para duas pessoas: a receita do nasi goreng indonésio (arroz frito com legumes) que estreou o wok oferecido pelos anos, supostamente para 2 pessoas, dá à vontade para 4 (e assim já tenho comida para o fim-de-semana, ena ena). Da próxima vez, não me posso esquecer de ter os ingredientes todos prontos com um pouco mais de antecipação.
24 de maio de 2005
23 de maio de 2005
SOMOS TODOS BENFIQUISTAS (ou portistas ou sportinguistas, consoante o ano a que se queiram reportar)
E, de repente, Portugal descobre-se grande nação benfiquista; e, de repente, há um cachecol que esvoaça preso numa janela de carro ou desdobrado em cima do tablier ou enrolado à volta do pescoço ou pendurado na parede do cubículo ou do gabinete, uma bandeirinha colocada na porta. De repente, os benfiquistas que andaram escondidos estes anos todos aproveitam a ocasião para revelar as suas "verdadeiras" cores, mesmo que o cachecol lhes fique tão bem como um chapéu madeirense a um esquimó — agora que o Benfica ganhou o campeonato de futebol, é de bom tom estar do lado dos vencedores. Os benfiquistas verdadeiros — aqueles que nunca tiraram o cachecol do tablier ou do gabinete — devem estar todos surpreendidos pela nação que agora se descobre benfiquista. Mas, como em quase tudo, Portugal não se descobriu benfiquista — gosta apenas de se chegar à aura dos vencedores. Mesmo que seja uma vitória mais por defeito do que por feitio, no dia em que começa o habitual sacudir de água do capote à volta dos números do défice, em que uns dizem que a culpa é de quem lá está quando lá esteve antes, outros de quem lá esteve antes e não está agora. Portugal é um pais de perdedores que gostam de se fingir vencedores, de irresponsáveis que se fingem homens de estado, de pequenos e mesquinhos poderes armados em grandes e magnânimos senhores. Portugal, em suma, não interessa nem ao Menino Jesus enquanto nós não nos capacitarmos de que é por termos sido sempre assim todos estes anos que não passamos de uma cepa cada vez mais torta.
(E sim, sou do Benfica e custa-me ver as tias que dizem que o futebol é um horror e que odeiam a irem buscar os cachecóis bafientos a cheirar a naftalina para celebrar convenientemente a [não-tão-]gloriosa[-quanto-isso] vitória e dizer que sempre foram do Benfica, mesmo que nunca o tenham dito a ninguém. Além do mais, vamos lá ser sinceros, por muito contente que eu esteja por o Benfica ter ganho, que importância é que isso tem, a não ser como ópio das massas, quando estamos com um défice de quase 7% e o desemprego com previsões de subida?)
(E sim, sou do Benfica e custa-me ver as tias que dizem que o futebol é um horror e que odeiam a irem buscar os cachecóis bafientos a cheirar a naftalina para celebrar convenientemente a [não-tão-]gloriosa[-quanto-isso] vitória e dizer que sempre foram do Benfica, mesmo que nunca o tenham dito a ninguém. Além do mais, vamos lá ser sinceros, por muito contente que eu esteja por o Benfica ter ganho, que importância é que isso tem, a não ser como ópio das massas, quando estamos com um défice de quase 7% e o desemprego com previsões de subida?)
22 de maio de 2005
DALTONISMO EMOCIONAL
Vejo a cinzento o que devia estar a ver às cores. Não a preto e branco — mesmo a cinzento, difuso, indistinto.
AFINAL, PARA QUE SERVEM OS PASSEIOS?
No parque de estacionamento do Amoreiras, ontem, uma jovem muito fashion andava pelo meio da faixa reservada aos carros ao telemóvel com a maior displicência. Mando-lhe uma buzinadela, ela não liga, mando outra e, mal disposto, atiro-lhe com um bem portuguesinho "deve achar que isto é tudo seu, não?" , e ela disparata antes de se virar para o telemóvel e dizer em francês "ooh la la, ces Portugais c'est toujours la même chose".
Arrumando à porta de casa, um casal de idosos desce devagarinho a rua pelo meio da estrada. Não há carros em cima do passeio, que é admissivelmente estreito, mas o casal não só está no meio da estrada como pára para confirmar se está qualquer coisa na mala da senhora.
Esta manhã, numa rua da Lapa, com os passeios perfeitamente livres e desobstruídos, uma senhora dirige-se para o carro pelo meio da estrada. Na Infante Santo, uma outra atravessa a avenida na diagonal, a poucos metros de uma passadeira.
Aqui entre nós, é um milagre como não há mais atropelamentos na Grande Lisboa.
Arrumando à porta de casa, um casal de idosos desce devagarinho a rua pelo meio da estrada. Não há carros em cima do passeio, que é admissivelmente estreito, mas o casal não só está no meio da estrada como pára para confirmar se está qualquer coisa na mala da senhora.
Esta manhã, numa rua da Lapa, com os passeios perfeitamente livres e desobstruídos, uma senhora dirige-se para o carro pelo meio da estrada. Na Infante Santo, uma outra atravessa a avenida na diagonal, a poucos metros de uma passadeira.
Aqui entre nós, é um milagre como não há mais atropelamentos na Grande Lisboa.
21 de maio de 2005
BONS CONSELHOS
(...) the advice that seems to be uppermost on [Dave] Chappelle's mind is that of his father, who died in 1998. Upon hearing that his son wanted to try comedy, says Chapelle, "he said, 'Name your price before you get there. And if you ever find it's more expensive than what you're prepared to give, then get out'."
- Christopher John Farley, "Dave Speaks", da edição de 23 de Maio da Time
- Christopher John Farley, "Dave Speaks", da edição de 23 de Maio da Time
20 de maio de 2005
POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM
São nove da manhã. Algumas pessoas amontoam-se no pequeno corredor do centro de saúde, esperando que a porta da sala de enfermagem se abra. Uma jovem dos seus 20 e poucos anos, com uma filha pequena pela mão, resmunga que lá dentro as pessoas «dão à língua» e não dão vazão. Resmungo com ela: então porque é que não protesta com a senhora em vez de cá fora? Depois da senhora que estava lá dentro sair, quando a enfermeira pede, com uma voz exasperada, para as pessoas esperarem na sala, levanta-se um coro de protestos. Espero 45 minutos pela minha vez e, quando a pessoa antes sai, um senhor que esteve em pé cinco minutos à espera pergunta se não pode entrar porque tem a tensão muito alta e da farmácia próximo o reenviaram para aqui; a enfermeira insiste que tem de tirar senha e esperar na sala, «mas afinal estou com a tensão muito alta, quero saber se fico aqui se vou para o hospital» -- respondo-lhe que talvez fosse mais rápido ir ao hospital. Enquanto isso, na sala de espera, reina um ambiente de porteirinha, com as «vizinhas» a resmungarem umas com as outras sobre os atrasos, as burocracias. A burocracia já de si é insuportável; ouvir esta gente que se compraz em protestar por as coisas correrem mal mas não é capaz de ajudar a que elas corram bem e ainda puxa mais para baixo torna tudo insustentável.
19 de maio de 2005
POLAROID: CONSULTÓRIOS
Enquanto aguardo a minha vez de ser atendido pela recepcionista, duas solteironas com ar de beatas (camisas cinzentas de gola fechada ao pescoço, colar de pérolas, óculos tintados, saias recatadas e sapatos rasos) confundem-se com o número da senha que é chamada.
Uma idosa de bengala senta-se com dificuldade na cadeira ao lado da minha, depois de pousar um saco de compras em cima da mesinha de apoio, ao lado do capacete do rapaz que está a ser atendido. A senhora transporta um odor bafiento, claustrofóbico, usa roupa demasiado quente para o calor que está; tem o cabelo ralo apanhado numa trança e, como muitas das idosas portuguesas, insiste em usar brincos à minhota. Vira-se para mim e pergunta-me qual o número que está escrito na sua senha; pede-me três vezes para o repetir.
Uma idosa de bengala senta-se com dificuldade na cadeira ao lado da minha, depois de pousar um saco de compras em cima da mesinha de apoio, ao lado do capacete do rapaz que está a ser atendido. A senhora transporta um odor bafiento, claustrofóbico, usa roupa demasiado quente para o calor que está; tem o cabelo ralo apanhado numa trança e, como muitas das idosas portuguesas, insiste em usar brincos à minhota. Vira-se para mim e pergunta-me qual o número que está escrito na sua senha; pede-me três vezes para o repetir.
17 de maio de 2005
ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar.
- Sérgio Godinho pelos Gaiteiros de Lisboa, "Talvez que Sonhando", in "Invasões Bárbaras" (Farol 1995)
[in memoriam Fernando Magalhães 1955-2005]
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar.
- Sérgio Godinho pelos Gaiteiros de Lisboa, "Talvez que Sonhando", in "Invasões Bárbaras" (Farol 1995)
[in memoriam Fernando Magalhães 1955-2005]
RANDOM ACTS OF KINDNESS
Há coisa de uma semana, quando fui radiografar o joelho, levei a factura da electricidade para pagar no bolso de trás das calças, e, chegado ao consultório, depois de a ter pago, descobri que já não estava no bolso. Onde raio a terei perdido?, perguntei-me sem chegar a grande conclusão, mas tinha o comprovativo do multibanco e, portanto, não me preocupei grandemente com o que, no fundo, não tinha grande remédio.
Esta tarde, ao chegar do emprego, dou na minha caixa do correio com um envelope sem remetente, daqueles com um apartado habitualmente enviados pelos bancos, que, lá dentro, trazia a factura da electricidade que perdi há uma semana, com uma nota escrita à mão com uma assinatura ilegível dizendo "recibo encontrado na R. Alexandre Herculano 11.05.05".
Esta tarde, ao chegar do emprego, dou na minha caixa do correio com um envelope sem remetente, daqueles com um apartado habitualmente enviados pelos bancos, que, lá dentro, trazia a factura da electricidade que perdi há uma semana, com uma nota escrita à mão com uma assinatura ilegível dizendo "recibo encontrado na R. Alexandre Herculano 11.05.05".
16 de maio de 2005
NÓS E OS OUTROS #3
A cultura salvou-te. Como é que ela te começou a estragar?
(...) Como muitos adolescentes, pensava descobrir coisas novas em folha, brilhantes, palácios, e dei por mim a descobrir ruínas. Foi aí que se deu o corte. O fardo nunca mais me largou daí para a frente. Com o entusiasmo da adolescência, pensas ser ilimitado. Os anos passam e compreendes que és limitado; subitamente, quebra-se o élan. Achas-te supersónico e percebes que és um avião a hélices. A cultura pode estragar-te porque te dá ilusões.
(Jean-Louis Murat, em entrevista a Christian Fevret da revista Les Inrockuptibles, Setembro de 1991)
(...) Como muitos adolescentes, pensava descobrir coisas novas em folha, brilhantes, palácios, e dei por mim a descobrir ruínas. Foi aí que se deu o corte. O fardo nunca mais me largou daí para a frente. Com o entusiasmo da adolescência, pensas ser ilimitado. Os anos passam e compreendes que és limitado; subitamente, quebra-se o élan. Achas-te supersónico e percebes que és um avião a hélices. A cultura pode estragar-te porque te dá ilusões.
(Jean-Louis Murat, em entrevista a Christian Fevret da revista Les Inrockuptibles, Setembro de 1991)
15 de maio de 2005
NÓS E OS OUTROS #2
Por vezes, o meu sucesso foi embaraçoso. Entre 1981 e 1990, não vi nada, não prestei a atenção suficiente e, felizmente, creio que isso me salvou, essa espécie de inconsciência permitiu-me manter a minha linha, que não era assim tão fácil de manter devido a todas essas pressões, todas essas armadilhas. De repente agradamos à imprensa especializada, à imprensa popular, depois de repente já não agradamos a ninguém, e depois volta tudo ao que era. As coisas não param de mudar e é preciso que nós nos mantenhamos idênticos. Forçosamente, há derrapagens, quando dou por mim em posters em quartos de miúdos, começo a pensar "ai ai", por muito agradável que seja pensar que sou capaz de pôr alguém a sonhar...
(...) Perdeste-te por vezes nesses jogos de máscaras?
Ultrapassou-me, a certa altura. Mas tinha mais a ver com a maneira como falavam de mim do que comigo próprio. Sempre me senti muito mal à vontade com os elogios, prefiro que me ataquem do que me elogiem.
(...)Alguns anos mais tarde, em meados dos anos 90, acabaste por ir-te abaixo e fugir. A fuga era então a única solução?
Estava a sair de "Paris Ailleurs" e "Mon Manège à Moi", era o caminho real: números um, singles de êxito... E contudo tornava-se invivível, tinha que me afastar, dar-me o direito de envelhecer, de mudar. Decidi então ir viver sozinho para Londres, visto que em Paris estou sempre rodeado de gente. Refiz-me uma vida, sem ser Etienne Daho, só um tipo de novo ligado ao quotidiano. Desde que tinha saído da faculdade, apenas tinha conhecido a existência de cantor, uma vida anormal, ao lado da vida, enquanto que as minhas canções apenas se deveriam alimentar da vida, dos encontros casuais, do perigo. Em Londres, coloquei-me em perigo na solidão mais total. Face a mim próprio, tive de fazer um balanço. Bastante positivo: era um estudantezinho autista, e agora canto há 13 anos, algumas das minhas canções acompanharam a vida de alguma gente. Mas há anos que não tinha tido tempo para criar essa distância, para arrumar a minha vida."
(Etienne Daho em entrevista a JD Beauvallet da revista Les Inrockuptibles, Abril de 2000)
(...) Perdeste-te por vezes nesses jogos de máscaras?
Ultrapassou-me, a certa altura. Mas tinha mais a ver com a maneira como falavam de mim do que comigo próprio. Sempre me senti muito mal à vontade com os elogios, prefiro que me ataquem do que me elogiem.
(...)Alguns anos mais tarde, em meados dos anos 90, acabaste por ir-te abaixo e fugir. A fuga era então a única solução?
Estava a sair de "Paris Ailleurs" e "Mon Manège à Moi", era o caminho real: números um, singles de êxito... E contudo tornava-se invivível, tinha que me afastar, dar-me o direito de envelhecer, de mudar. Decidi então ir viver sozinho para Londres, visto que em Paris estou sempre rodeado de gente. Refiz-me uma vida, sem ser Etienne Daho, só um tipo de novo ligado ao quotidiano. Desde que tinha saído da faculdade, apenas tinha conhecido a existência de cantor, uma vida anormal, ao lado da vida, enquanto que as minhas canções apenas se deveriam alimentar da vida, dos encontros casuais, do perigo. Em Londres, coloquei-me em perigo na solidão mais total. Face a mim próprio, tive de fazer um balanço. Bastante positivo: era um estudantezinho autista, e agora canto há 13 anos, algumas das minhas canções acompanharam a vida de alguma gente. Mas há anos que não tinha tido tempo para criar essa distância, para arrumar a minha vida."
(Etienne Daho em entrevista a JD Beauvallet da revista Les Inrockuptibles, Abril de 2000)
NÓS E OS OUTROS #1
Sempre funcionei assim: quando nos sentimos vazios, quando sentimos que não temos mais nada a dar, creio que é preciso saber voltar a pensar em nós, tornarmo-nos de novo um pouco egoístas. É a nossa única hipótese de podermos voltar a dar, em seguida. Não sei como fazem os outros, aqueles que preferem não se ouvir. Forçosamente, vão abaixo a certa altura.
(Alain Bashung, em entrevista a Richard Robert da revista Les Inrockuptibles, Março de 1995)
(Alain Bashung, em entrevista a Richard Robert da revista Les Inrockuptibles, Março de 1995)
14 de maio de 2005
PEQUENA SUGESTÃO AOS PROGRAMADORES DAS SALAS DE ESPECTÁCULOS
Isto de começar concertos às 21h00 não está com nada. Primeiro, não dá tempo para uma pessoa jantar pacatamente - e todos sabemos como os portugueses gostam de fruir a refeição nocturna - e eleva acentuadamente o risco da plateia chegar atrasada. Segundo, se é para actualizar Portugal com os países europeus que começam os concertos mais cedo, o ideal seria seguir o modelo inglês e começá-los às 19h30 ou mesmo às 20h00 - assim, ao menos, quando se acabar o concerto ainda se está na hora de jantar. Agora, começar às 21h00 acaba por não agradar nem a gregos nem a troianos - é demasiado cedo para se jantar em paz antes e demasiado tarde para se jantar em paz depois.
13 de maio de 2005
POLAROID: TÁXI
Só em Lisboa é que se descobre um taxista com tiques que, enquanto sobe a Duque de Loulé à velocidade máxima permitida, agita a cabeça para a esquerda a intervalos regulares.
12 de maio de 2005
CARROS
É curioso como, ao fim nem que seja de um único dia a guiar outro carro, já estranho o meu quando volto a pegar nele. E é ainda mais curioso quando, ao fim de poucos minutos, já me habituei a ele outra vez, como uma camisola velha que insistimos em usar porque nos sentimos confortáveis com ela vestida, mesmo sabendo que a nova está mais bonita, não está amarrotada nem tem buracos e, se calhar, até nos fica melhor.
11 de maio de 2005
TRINTA E NOVE CINQUENTA E SETE SIERRA SIERRA
Ironia: em sete anos de carta de condução, nunca fui parado por infracção mas apenas em operações de rotina. Logo hoje, que conduzia o carro emprestado do meu irmão enquanto o meu está na garagem, é que fui parado por uma possivel infracção que não existiu — um identificador que não foi lido correctamente pelo radar da portagem...
10 de maio de 2005
POLAROID: CONSULTORIO
Na minúscula recepção, uma senhora faz a chamada "peixeirada" por motivos que me escapam e que só se tornaram perceptíveis quando a ouvi levantar a voz e exigir à recepcionista (claramente amadora, principiante, cheia de boa vontade) que se identifique e dê os dados pessoais para apresentar reclamação. Quando cheguei, duas recepcionistas procuravam afanosamente uma credencial perdida algures.
O consultório foi todo renovado e pintado mas, na sala das radiografias, continua a ser a mesma velha máquina de radiografias do "tempo da outra senhora". Mesmo que a máquina das ecografias seja um modelo "state-of-the-art", a secção de radiografias dá a entender que o dinheiro não chegou para tudo. A técnica que radiografa o meu joelho é brasileira e recebe-me com a educação cortês mínima e a displicência de quem já só quer ir para casa descansar do dia de trabalho (e ainda só é terça-feira).
A sala de espera continua a ser uma sala de espera típica de apartamento lisboeta tradicional reconvertido em consultório: sofás vintage anos 60/70 (dois cadeirões vermelhos de formas arredondadas, nove poltronas creme/bege sujo em três grupos de três), candeeiro de tecto que parece um espanador branco de pontas negras embrulhado à volta de uma bola de espelhos sem espelho, quatro apliques rectangulares brancos na parede lilás claro. E um televisor freneticamente ligado na TVI.
O consultório foi todo renovado e pintado mas, na sala das radiografias, continua a ser a mesma velha máquina de radiografias do "tempo da outra senhora". Mesmo que a máquina das ecografias seja um modelo "state-of-the-art", a secção de radiografias dá a entender que o dinheiro não chegou para tudo. A técnica que radiografa o meu joelho é brasileira e recebe-me com a educação cortês mínima e a displicência de quem já só quer ir para casa descansar do dia de trabalho (e ainda só é terça-feira).
A sala de espera continua a ser uma sala de espera típica de apartamento lisboeta tradicional reconvertido em consultório: sofás vintage anos 60/70 (dois cadeirões vermelhos de formas arredondadas, nove poltronas creme/bege sujo em três grupos de três), candeeiro de tecto que parece um espanador branco de pontas negras embrulhado à volta de uma bola de espelhos sem espelho, quatro apliques rectangulares brancos na parede lilás claro. E um televisor freneticamente ligado na TVI.
9 de maio de 2005
CONSTATAÇÃO
A quantidade de tempo que algumas pessoas gastam em certas tarefas é inversamente proporcional à importância que essas mesmas tarefas têm e à inteligência dessas mesmas pessoas.
NÃO, NÃO ÉS O ÚNICO
Deixa lá, Alexandre, não foste o único que gostava de ir ver Laurie e não foi (embora as minhas razões não tenham sido as mesmas que as tuas). Mas, pronto, eu já a vi ao vivo em Lisboa, quando ela veio ao Coliseu. O que, diga-se, apenas irrita mais por não a ter visto desta vez. (E também já vi Bruce Springsteen em Barcelona, com a E Street Band.)
8 de maio de 2005
REVISTA DE IMPRENSA
Fim-de-semana caseirinho. Tempo para terminar as actualidades da semana e pôr em dia algumas das revistas em atraso. Na Time da semana, bela peça sobre as eleições britânicas (evidentemente, anterior aos resultados!), mas a capa é entregue ao "Episódio III" da saga "Star Wars", à beirinha de estrear (falta pouco mais de uma semana), que o crítico residente Richard Corliss recomenda vivamente como superior aos "Episódios I" e "II" (também, não era inteiramente improvável que o fosse). George Lucas fala e diz coisas com interesse.
Na Economist, descubro que apesar do mercado publicitário da imprensa escrita estar em recessão, o segmento das revistas people está em franco crescimento nos EUA, com quatro novos títulos a desenharem-se no horizonte, mas que os mesmos EUA continuam profundamente atrasados no que diz respeito à adopção de uma base de dados centralizada com informações médicas — aliás, continuam profundamente atrasados no que diz respeito à informatização e processamento das fichas clínicas. De caminho, a revista não está particularmente convencida com a adaptação cinematográfica do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy" (estreia prevista em Portugal para Agosto), mas admite que nem sequer teria sido concretizada se Douglas Adams — que exigia controle absoluto sobre a produção e chegou ainda a co-assinar o argumento — ainda fosse vivo.
A Wired de Março (eu dizia que estava a pôr revistas atrasadas em dia...) atira-se ao futuro da rádio (sempre de uma perspectiva americana, entenda-se). Das rádios digitais por satélite à redescoberta do programa de autor personalizado, passando pelo "podcasting" (imagine-se um blog em rádio), vale tudo num número onde também se investigam... as sanitas do futuro. Já a Première francesa (também de Março, continuo atrasado) propõe uma entrevista inteligente de Will Smith sobre as mecânicas da sedução e outra de Clint Eastwood sobre "Million Dollar Baby" (boa, e ao nível da que os Cahiers du Cinéma publicaram no mesmo mês). Mais a rendição absoluta e incompreensível da revista a "Antes do Anoitecer" (que só estreou em França seis meses depois de Portugal), com uma bela entrevista de Julie Delpy a explicar que se está a marimbar para o conceito tradicional de "carreira".
Na Economist, descubro que apesar do mercado publicitário da imprensa escrita estar em recessão, o segmento das revistas people está em franco crescimento nos EUA, com quatro novos títulos a desenharem-se no horizonte, mas que os mesmos EUA continuam profundamente atrasados no que diz respeito à adopção de uma base de dados centralizada com informações médicas — aliás, continuam profundamente atrasados no que diz respeito à informatização e processamento das fichas clínicas. De caminho, a revista não está particularmente convencida com a adaptação cinematográfica do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy" (estreia prevista em Portugal para Agosto), mas admite que nem sequer teria sido concretizada se Douglas Adams — que exigia controle absoluto sobre a produção e chegou ainda a co-assinar o argumento — ainda fosse vivo.
A Wired de Março (eu dizia que estava a pôr revistas atrasadas em dia...) atira-se ao futuro da rádio (sempre de uma perspectiva americana, entenda-se). Das rádios digitais por satélite à redescoberta do programa de autor personalizado, passando pelo "podcasting" (imagine-se um blog em rádio), vale tudo num número onde também se investigam... as sanitas do futuro. Já a Première francesa (também de Março, continuo atrasado) propõe uma entrevista inteligente de Will Smith sobre as mecânicas da sedução e outra de Clint Eastwood sobre "Million Dollar Baby" (boa, e ao nível da que os Cahiers du Cinéma publicaram no mesmo mês). Mais a rendição absoluta e incompreensível da revista a "Antes do Anoitecer" (que só estreou em França seis meses depois de Portugal), com uma bela entrevista de Julie Delpy a explicar que se está a marimbar para o conceito tradicional de "carreira".
7 de maio de 2005
...
Sabe bem uma tarde de sábado preguiçosa, o sol a entrar pela varanda enquanto faço as arrumações habituais de fim-de-semana (entre escolher jornais, pôr um pouco de ordem na secretária que a semana deixou em caos, trincar o pão com chouriço do supermercado em frente onde fiz as compras da semana, pôr cargas de roupa na máquina, pensar na sopa que vou fazer para o jantar).
6 de maio de 2005
O ASSEIO DO GATO
Esta manhã, quando saía de casa, deparei com um odor nauseabundo no meu patamar e dei com o meu tapete de entrada muito dobradinho. Encontrar o tapete dobradinho não é fora do vulgar, porque a porteira costuma lavar as escadas uma vez por semana e, depois de as lavar, encosta os tapetes dobrados às portas. O odor nauseabundo é que não era nada normal e, quando ouvi os miares desajeitados de um gato no patamar do 1º andar, percebi que um dos gatos do prédio tinha ficado fechado fora de casa durante a noite.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
5 de maio de 2005
ELA SABE

From the 22nd floor,
walking down the corridor,
looking out the picture window down
on Sycamore.
While perspective lines converge,
rows of cars and buses merge.
All the sweet green trees of Atlanta burst
like little bombs;
or little pom-poms,
shaken by a careless hand
that dries them off
and leaves again.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell
inside a cell
of the Lennox Hotel.
On the 22nd floor —
found a notice on my door.
While outside, the sun is shining on
those little bombs —
those little pom-poms.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell;
inside a cell
of the Lennox Hotel.
- Aimee Mann, "Little Bombs", in "The Forgotten Arm" (Superego Records/V2, 2005)
(Podem ouvir e, sobretudo, ler este sublime álbum aqui.)
4 de maio de 2005
3 de maio de 2005
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #31 (no âmbito da presidência temática do Exmo. Sr. Presidente da República)
Condutores que, em zonas de obras com bermas elevadas ("speed bumps" em inglês), em vez de manterem uma velocidade baixa constante, aceleram entre cada berma para quase travarem o carro para proteger a suspensão.
2 de maio de 2005
PEQUENO PROTESTO JUNTO DO SINDICATO
Isto não se faz. Então não é que os meus bloguistas preferidos andam todos a fugir com o rabo à seringa e passam semanas sem dar notícias? Alexandre, Nuno, R. (a ordem é estritamente alfabética), façam lá a fineza de não me deixar para aqui a falar sózinho. OK?
POLAROID: BALNEÁRIO
Pelo meio dos bancos de metal e madeira e dos cabides, dois homens ensaiam uma coreografia de dança de salão, sem os requebros de espectáculo. Um deles, colarinho aberto na camisa negra, cordão ao pescoço, cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, conta os passos e lidera a coreografia, ajudando o outro a colocar os braços, as mãos, os pés.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
1 de maio de 2005
EVREUX (a geografia do remorso)
Continuo apaixonado por este disco.

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
30 de abril de 2005
SÁBADO À TARDE [post com linguagem potencialmente ofensiva, uma palavra, no último parágrafo]
Os sábados à tarde parecem ser o dia preferido para nos baterem à porta, vindos de associações de apoio aos toxicodependentes, dos guarda-nocturnos, das testemunhas de Jeová ou outras crenças religiosas. É um clássico. Hoje, foi a vez da pobreza envergonhada deste Portugal em crise me bater à porta — com uma certa (apenas aparente?) dignidade magoada intersectando por um instante a pacatez de um sábado preguiçoso e ensonado, com uma daquelas rocambolescas peripécias que, exploradas de uma outra maneira, estariam à medida de um caso da vida da TVI. E que, na falta de comprovação objectiva e idónea, não permite uma recusa sem tombar na humilhação desnecessária.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
29 de abril de 2005
28 de abril de 2005
UMA QUESTÃO DE BOM GOSTO
Só em Lisboa é que há taxistas trintões que têm o CD do "Infected" dos The The a correr no carro. Só tive pena de ter entrado já o "Slow Train to Dawn" estava a acabar.
26 de abril de 2005
YOU MAGNIFICENT PAGAN GOD, YOU
- É verdade que só faz filmes que pagaria para ver?
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
24 de abril de 2005
LOGBOOK #25: CHAMA O GREGÓRIO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 24 de Abril, 10h51; 11,6m, 11 min, 13º C
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
22 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
No meu centro de saúde, há uma "auxiliar administrativa" que parece ter um especial prazer em atender mal as pessoas, como se estivesse acima delas, com um ar terrível de frete. Essa "auxiliar administrativa" não estava presente na minha mais recente visita, mas parece-me que o seu método começou a fazer escola, sobretudo desde que entidade incerta decidiu que a partir de agora apenas é possível marcar consulta para a semana seguinte. Ou seja: eu ligo hoje para marcar consulta para de hoje a oito dias, e se não houver vaga não me podem marcar para a data seguinte -- terei de voltar a ligar amanhã, e assim ad infinitum. Depois, uma simpática "auxiliar administrativa" revelou-se estar também a aprender na escola da outra -- quando eu lhe passo uma nota de €20,00 para a mão para pagar a consulta, ela pega na nota, a guarda sem dar cavaco às melgas e me diz "não tenho troco". Não será, é certo, o mais estimulante dos empregos do mundo. Mas também não é necessário tratar as pessoas com tanta displicência.
A burocracia é uma coisa linda.
A burocracia é uma coisa linda.
21 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
As salas de espera dos centros de saúde, à tarde, são preenchidas pelo público-alvo dos programas de televisão de manhã e de tarde e das revistas de televisão e de VIPs. São as mesmas senhoras de meia-idade que a vida se encarregou de reduzir a um estereótipo da "vizinha" que está sempre à coca e sabe tudo o que se passa no prédio. Como a senhora que, esta tarde, acompanhava a filha com um violento ataque de tosse à consulta do médico de família e sabia perfeitamente a que horas o médico tinha chegado, que números já tinham entrado, que números ainda faltava chamar e que ela não iria ficar para o fim porque números posteriores ao dela já tinham sido atendidos porque chegaram cedo e os números anteriores ainda não tinham chegado.
20 de abril de 2005
18 de abril de 2005
KENSINGTON SQUARE
Estou apaixonado por este disco.

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
17 de abril de 2005
LOGBOOK #24: O PASSEIO DO CHOCO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 17 de Abril, 11h16; 42min, 9.7m, 14ºC
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
16 de abril de 2005
POLAROID: VIZINHA À JANELA
No rés-do-chão do prédio ao lado, mora — presumo que com a família — uma daquelas velhotas "à antiga portuguesa", que passa o dia à janela, a ver quem passa (mas mais quem não passa, que a rua não é assim tão concorrida). Mas, de longe em longe, a senhora lá me dirige a palavra. "Olhe, o senhor desculpe, faz favor diz-me as horas?" E eu penso que, provavelmente, a senhora quer saber há quanto tempo está à janela; quanto tempo mais vai ali ficar; se está ali a fazer horas até ao almoço, até ao jantar, até ao lanche. Só à noite é que ela não está à janela.
15 de abril de 2005
ARQUEOLOGIA
Nunca ninguém disse que era fácil andar aqui dentro a remexer — nunca se sabe bem o que se pode encontrar. Mas há casos em que não se pode andar para a frente de outra maneira.
14 de abril de 2005
À ESPERA DO CANTO DA SEREIA

O título explica muito bem porque é que o álbum é um falhanço. Mas o tema-título é uma jóia preciosa — das mais belas canções que os New Order jamais gravaram.
what does this ship bring to me
far across the restless sea
waiting for the sirens' call
I've never seen it here before
there she plies a lonely trail
cutting through the breaking waves
drifting slowly from her course
she is lost forever more
we all want some kind of love
but sometimes it's not enough
to the wall and through the door
with the stranger on the shore
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone
got to catch a midnight train
first to Paris then to Spain
travel with a document
all across the Continent
city life is flying by
the wheels are turning all the while
get on board we can't be late
our destination cannot wait
all the stars and all the worlds
filling up this universe
could never be as close as us
will never shine as bright on us
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
how many times must I lose my way
how many words do I have to say
what can I do just to make you see
that you're so good for a man like
a man like me?
ESTÁ NA ALTURA DE ACTUALIZAR ALGUMAS SUPERSTIÇÕES
Se de facto encontrar aranhas em casa (daquelas mínimas) anunciasse dinheiro, eu já tinha ganho vários Euromilhões ao ritmo a que as ando a ver.
13 de abril de 2005
PLAYLIST #1
Há coisas que a música faz por mim que mais ninguém ou mais nada consegue.
Beck - "Broken Drum" (in "Guero", Interscope 2005)
Benjamin Biolay - "Mon amour m'a baisé" (in "À l'origine", Virgin 2005)
Bruce Springsteen - "Devils & Dust" (in "Devils & Dust", Columbia 2005)
Kaiser Chiefs - "I Predict a Riot" (in "Employment", B-Unique 2005)
Márcio Faraco - "Cidade" (in "Com Tradição", Universal 2005)
Melissa Etheridge - "Tuesday Morning" (in "Lucky", Island 2004)
New Order - "Krafty" (in "Waiting for the Sirens' Call", London 2005)
Old Jerusalem - "A Feast of Our Communion" (in "Twice the Humbling Sun", Bor Land 2005)
Skank - "Amores Imperfeitos" (in "Cosmotron", Epic 2003)
Vincent Delerm - "Veruca Salt & Frank Black" (in "Kensington Square", Tôt ou Tard 2004)
Vinicius Cantuária - "Tokyo" (in "Horse and Fish", Hannibal 2004)
Beck - "Broken Drum" (in "Guero", Interscope 2005)
Benjamin Biolay - "Mon amour m'a baisé" (in "À l'origine", Virgin 2005)
Bruce Springsteen - "Devils & Dust" (in "Devils & Dust", Columbia 2005)
Kaiser Chiefs - "I Predict a Riot" (in "Employment", B-Unique 2005)
Márcio Faraco - "Cidade" (in "Com Tradição", Universal 2005)
Melissa Etheridge - "Tuesday Morning" (in "Lucky", Island 2004)
New Order - "Krafty" (in "Waiting for the Sirens' Call", London 2005)
Old Jerusalem - "A Feast of Our Communion" (in "Twice the Humbling Sun", Bor Land 2005)
Skank - "Amores Imperfeitos" (in "Cosmotron", Epic 2003)
Vincent Delerm - "Veruca Salt & Frank Black" (in "Kensington Square", Tôt ou Tard 2004)
Vinicius Cantuária - "Tokyo" (in "Horse and Fish", Hannibal 2004)
12 de abril de 2005
PEQUENA ODE AOS POSSUIDORES DE CARRINHAS AUDI E MERCEDES TOPO DE GAMA
Detesto-vos, sobretudo quando eu estou a ultrapassar outro automóvel e vocês se encostam à minha traseira numa de "despacha-te lá com essa merda, ó pindérico que estás armado em Fangio com um carrinho que não dá sequer cem à hora". Já se esqueceram de quando tinham um carrinho que não dava sequer cem à hora, é?
11 de abril de 2005
TRATADO DA SEDUÇÃO
"De início, a ideia de o conhecer inquietava-me, mas, depois, senti-me aliviada. A sedução entre os seres humanos é cruel. O Jean-Louis não tem crueldade, mas muita doçura. Era muito reconfortante, para cantar, não estar na crueldade, na distância. Estamos numa proximidade, numa intimidade. (...) A sedução existe, mas é difusa, na duração, não na compulsão ou na aplicação sexual. (...) O Jean-Louis é de tal modo sedutor que temos vontade de abrir excepções com ele.
- Você acha-me sedutor porque a compreendo bem.
- Não, acho-o sedutor mesmo apesar de mim própria. Acho-o sedutor fisicamente, quimicamente, mas de uma maneira que me é familiar. O Jean-Louis olha-me de uma maneira extremamente benevolente. Até o meu marido reparou. Não me sinto estranha com ele. Há pessoas cujo olhar nos melhora, também sinto isso com o meu amigo Léos Carax, é muito raro. Normalmente, olham-me sem me dar, para me levar. Segundo o olhar, as minhas possibilidades aumentam. E um olhar de través pode-me fazer dar um passo atrás. (...) É isso o amor e a amizade: dar às pessoas um belo olhar."
Carla Bruni e Jean-Louis Murat em entrevista aos Inrockuptibles, na edição de 30 de Março último.
(Claro que em francês tem muito mais charme.)
- Você acha-me sedutor porque a compreendo bem.
- Não, acho-o sedutor mesmo apesar de mim própria. Acho-o sedutor fisicamente, quimicamente, mas de uma maneira que me é familiar. O Jean-Louis olha-me de uma maneira extremamente benevolente. Até o meu marido reparou. Não me sinto estranha com ele. Há pessoas cujo olhar nos melhora, também sinto isso com o meu amigo Léos Carax, é muito raro. Normalmente, olham-me sem me dar, para me levar. Segundo o olhar, as minhas possibilidades aumentam. E um olhar de través pode-me fazer dar um passo atrás. (...) É isso o amor e a amizade: dar às pessoas um belo olhar."
Carla Bruni e Jean-Louis Murat em entrevista aos Inrockuptibles, na edição de 30 de Março último.
(Claro que em francês tem muito mais charme.)
10 de abril de 2005
QUANDO FOR GRANDE
...quero escrever como a Nancy Gibbs, da Time.
Não por concordar com o que ela diz; mas porque ela sabe usar as palavras como matéria-prima moldável, plasticina transformável no que ela bem entender. É muito bom ver alguém que faz da palavra o seu mester; e muito raro ver alguém que sabe exactamente como obter o efeito pretendido.
Não por concordar com o que ela diz; mas porque ela sabe usar as palavras como matéria-prima moldável, plasticina transformável no que ela bem entender. É muito bom ver alguém que faz da palavra o seu mester; e muito raro ver alguém que sabe exactamente como obter o efeito pretendido.
8 de abril de 2005
INFORMAÇÃO AO CONDUTOR
Veículo pesado
Báscula de aço — não marrar!
Equipado com travões de disco às quatro rodas e ABS
Mantenha distância de segurança mínima — 10 metros
(escrita em tinta cinzenta, em letras maiúsculas bem legíveis, na traseira da caixa aberta metálica de uma camioneta Mitsubishi Canter vista no trânsito de Lisboa)
Báscula de aço — não marrar!
Equipado com travões de disco às quatro rodas e ABS
Mantenha distância de segurança mínima — 10 metros
(escrita em tinta cinzenta, em letras maiúsculas bem legíveis, na traseira da caixa aberta metálica de uma camioneta Mitsubishi Canter vista no trânsito de Lisboa)
7 de abril de 2005
BUCOLISMOS URBANOS
Por vezes, quando passo diariamente na Marginal junto à Cruz Quebrada, no cruzamento que leva ao Jamor, cruzo-me com os soldados da GNR que patrulham a zona a cavalo, com um trote descontraído, pela berma da estrada. O ruído compassado das patas dos cavalos pelo meio das buzinas e dos motores, a estranheza da visão quase arcaica de polícias a cavalo pelo meio do trânsito apressado cria um efeito de desajuste, uma espécie de ruptura espácio-temporal que coloca um certo passado e o presente lado a lado, que contrasta os modos antigos e descontraídos "de um tempo ausente" com a impiedosa velocidade dos nossos dias — sem que nenhum deles saia vencedor.
6 de abril de 2005
POLAROID HCL: CHAMA O FRANCISCO
Uma das auxiliares da Radiologia do Hospital de São José chega à porta automática da sala de espera cheia e começa a chamar pessoas a partir de alguns papéis que tem na mão, com uma voz de cana rachada (como os que identificamos com as cantadeiras de folclore) e um sotaque misto de província nortenha e suburbano. "Sr. Francisco. Sr. Francisco?" Chama três, quatro vezes o "sr. Francisco" sem obter resposta. Dirige-se a um senhor de idade deitado numa maca. "O senhor aí, como se chama?" O senhor da maca não responde, vira-se para a esquerda, talvez procurando alguém que o acompanhe, ou apenas a ver se a auxiliar está a falar com outra pessoa. "O senhor como se chama?" insiste a auxiliar. O senhor da maca percebe finalmente que é com ele. "Eu? Humberto Silva." "Não é Francisco, pois não?" insiste a auxiliar.
5 de abril de 2005
POEIRA
Ele voltou. E se o resto do álbum for desta (altíssima) craveira, ainda vale a pena ter heróis.
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
MISTÉRIO ANTROPOLÓGICO #1
Nunca percebi porque é que algumas pessoas prendem a fralda da camisa por dentro das cuecas. Pessoalmente, acho pouco higiénico. Mas parece que é uma prática bastante corrente.
4 de abril de 2005
MESA DE CABECEIRA
Uma garrafa de litro e meio de água do Luso, encetada; um rádio-despertador da Sony sintonizado na TSF; um corta-unhas; uma lata de creme Nivea; um tubo de Canesten fora de prazo (que ando para deitar fora há semanas, não é tarde nem é cedo, é mesmo hoje); uma caixa de Valdispert com um único comprimido lá dentro; uma calçadeira de plástico verde; um exemplar da edição de bolso da Penguin da tradução inglesa do tratado sobre a guerra de Clausewitz.
3 de abril de 2005
ROSEBUD
Morreu o Papa João Paulo II, e que descanse em paz; seja-se religioso ou ateu, praticante ou não, havia de facto qualquer coisa especial naquele homem, qualquer coisa digno de respeito e admiração.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
2 de abril de 2005
30 de março de 2005
TEST DRIVE
O facto do novo código da estrada prever sanções duras para quem conduzir enquanto fala ao telemóvel parece não ter afectado o jovem executivo que, esta tarde, guiava um automóvel marcado com o autocolante "test-drive" com o aparelho colado ao ouvido esquerdo.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
29 de março de 2005
SONHO DE SEGUNDA-FEIRA A SEGUIR AO DOMINGO DE PÁSCOA
Entro no cinema Condes, que já não é cinema mas antes uma sala-museu cujo interior claramente é demasiado grande para o gaveto dos Restauradores onde ele fica; lá dentro, uma sucessão de salas em estilos arquitectónicos medievais que passam pelo barroco manuelino e pelos interiores do Tivoli, do Império e do Eden até descambar num salão Luís XV no último piso com mesinhas de café modernas, com portas abertas para o interior da sala. Mas não entro; dirijo-me a uma outra porta que dá para um quarto de dormir. Ajoelho-me frente à cómoda e abro uma gaveta, onde, por baixo de camisas, encontro uma selecção de revistas de actualidades e um álbum de fotografias. Pego nas revistas, fecho a gaveta e dirijo-me para a saída do cinema, mas cá fora percebo que as revistas não são aquelas que eu queria.
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
28 de março de 2005
SONHO DE DOMINGO DE PÁSCOA
As águas negras que vêm sabe-se lá de onde chegam em paz, transportando enormes blocos de gelo negro e centauros bondosos e lúbricos, um dos quais se atrela de imediato à minha amiga e desce com ela o Parque Eduardo VII, olhando de vez em quando para mim que vou atrás a conversar com outro que me diz "ele é mesmo assim, não ligues".
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
27 de março de 2005
DOMINGO DE PÁSCOA (QUESTÃO PARA QUEM AINDA SE DÁ AO TRABALHO DE VER TELEVISÃO)
Antes do advento da televisão por cabo (e dos seus "57 channels and nothing on", para citar Springsteen), nos tempos dos dois canais institucionais (que a RTP Memória tanto tem feito para nos fazer recordar com prazer), era impossível fugir à programação pascal. Mas, agora que há os tais "57 channels" e que 52 deles se comportam como um canal de televisão normal sem programação alusiva, agora que o domingo televisivo de Páscoa é apenas mais um domingo, será que se perdeu alguma coisa? Será que esta vulgarização do feriado funciona como sintoma de um afastamento dos "valores cristãos" por parte da sociedade como um todo, ou antes pelo contrário é um prenúncio de um maior afastamento ainda (vide as "self-fulfilling prophecies"? E isto tem alguma importância que não seja meramente sociológica?
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