Aldina Duarte assume a pose icónica da fadista tradicional, mas subverte-a com a entrega quase desesperada de quem faz isto não por trabalho ou por pose mas por fé, por destino. Porque tem de ser. É aquilo que o universo lhe pede — e ela não sabe dizer-lhe que não. Ela não pode dizer-lhe que não.
Aldina Duarte é um bloco de granito duro por limar que está, apenas. Não cede nem faz concessões. Existe, apenas. A nós cabe-nos aceitá-lo, compreendê-lo, amá-lo, admirá-lo. Aldina Duarte é o fado hardcore, puro e duro. Ela dá(-se) a 200, 300%. Quem não estiver preparado para lhe responder com menos do que isso não a merece. Ontem à noite, a Culturgest cheia soube merecê-la. Falta só Portugal render-se-lhe como se tem rendido a outras (que se dizem) fadistas mas que não chegam nem perto da intensidade e da beleza transcendente do recital com que Aldina Duarte nos presenteou.
Isto, sim, é fado. O resto é conversa da treta.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
4 de junho de 2005
1 de junho de 2005
POLAROID: JERÓNIMOS
No interior da enorme nave do Mosteiro dos Jerónimos, sucedem-se os grupos de turistas vindos de toda a parte, sentados em grupinhos nos bancos de igreja escutando atentamente o que as guias turísticas (e são quase todas guias turísticas) lhes dizem, por entre uma babel de línguas que vai do espanhol ao francês passando pelo italiano. Excepto numa das capelas em nicho lateral, junto ao altar principal, com uma jovem que observa atentamente uma figura de uma santa (será a Virgem Maria, pergunto eu com a minha ignorância em matéria de estatuária religiosa?): por trás do cordão de veludo que impede a entrada dos turistas, uma empregada da limpeza, com a bata azul da empresa, passa o espanador pelos bancos de igreja alheia ao bichanar amplificado que a rodeia, como se não estivesse ali mais ninguém a não ser ela.
31 de maio de 2005
POLAROID: AEROPORTO
Um jovem de camisa branca e mala percorre a rampa das chegadas a ver se vê alguém. Sucedem-se as chegadas, pessoas saem e acenam aos familiares, aos amigos, aos condutores, mas o jovem continua a percorrer a rampa à espera que apareça alguém.
Um senhor de meia-idade espera junto ao gradeamento de metal, e vai batendo ritmicamente no metal com um porta-chaves (uma moeda? uma chave?) enquanto não chega quem veio buscar. Assim que chega e o senhor sai, um jovem negro ocupa o seu lugar e, passado pouco tempo, começa a bater ritmicamente com uma caneta no metal.
Uma senhora (proveniente do México?) coloca o sombrero ornamentado na cabeça à porta da saída das chegadas, para a fotografia que o marido com ar de bancário tira com a máquina digital nova.
Um senhor de meia-idade espera junto ao gradeamento de metal, e vai batendo ritmicamente no metal com um porta-chaves (uma moeda? uma chave?) enquanto não chega quem veio buscar. Assim que chega e o senhor sai, um jovem negro ocupa o seu lugar e, passado pouco tempo, começa a bater ritmicamente com uma caneta no metal.
Uma senhora (proveniente do México?) coloca o sombrero ornamentado na cabeça à porta da saída das chegadas, para a fotografia que o marido com ar de bancário tira com a máquina digital nova.
30 de maio de 2005
JUNK MAIL
Porque é que uma firma de brindes oferece "turcos personalizados"? E quem será o público-alvo de uma tal proposta?
29 de maio de 2005
OUTRA MANHÃ
Às vezes, não percebo porque é que levo tanto tempo para descobrir discos como este.
nothing ever seems
to make you happy
are you miserable, babe
or are you just plain mean
is there no joy in you
c’mon don't keep me waiting
your broken heart might bring you heaven
but it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
someone does you wrong you give away your life to prove it
you wear your pain with pride you refuse to remove it
you become the evil that plays with you like a doll
big rules only make our lives small
was your voice never heard
c’mon you know we were all listening
justice will only bring you
a prison
and it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
now you're the big expert with the truth
now you're all apple pie and you're bulletproof
there must have been a short five minutes somewhere in your youth
when you laughed like water breaking over the broken land
when you laughed like the wind burning the sun blind on your face
when you laughed like water breaking over the broken dam
when you laughed like the starting gun at the start of the race
I wanna smash all the violins and the symphony
I wanna see you smile with a real simple melody
it's when you wake up and you're glad that you're breathing
it's when you wake up and you're glad that you're living
well that's another morning
another morning with Kathleen.
- Mark Eitzel para os American Music Club, "Another Morning", in "Love Songs for Patriots" (Cooking Vinyl/Farol, 2004)
nothing ever seems
to make you happy
are you miserable, babe
or are you just plain mean
is there no joy in you
c’mon don't keep me waiting
your broken heart might bring you heaven
but it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
someone does you wrong you give away your life to prove it
you wear your pain with pride you refuse to remove it
you become the evil that plays with you like a doll
big rules only make our lives small
was your voice never heard
c’mon you know we were all listening
justice will only bring you
a prison
and it will not bring you another morning
another morning with Kathleen
now you're the big expert with the truth
now you're all apple pie and you're bulletproof
there must have been a short five minutes somewhere in your youth
when you laughed like water breaking over the broken land
when you laughed like the wind burning the sun blind on your face
when you laughed like water breaking over the broken dam
when you laughed like the starting gun at the start of the race
I wanna smash all the violins and the symphony
I wanna see you smile with a real simple melody
it's when you wake up and you're glad that you're breathing
it's when you wake up and you're glad that you're living
well that's another morning
another morning with Kathleen.
- Mark Eitzel para os American Music Club, "Another Morning", in "Love Songs for Patriots" (Cooking Vinyl/Farol, 2004)
BANZAI
Estou verdadeiramente aterrorizado. Por razões que não consigo compreender, sempre que entro no Blogger sou recebido... em japonês (ou será em tailandês?). Isto não era problemático há uns meses atrás, porque os botões básicos ainda estavam todos em inglês. Mas agora (glup!) já não estão! Estou a ver um écrã em caracteres inteiramente japoneses onde só o nome do meu blog e as palavras que vou escrevendo são reconhecivelmente ocidentais! Será que, daqui por uns tempos, os meus posts começam a saír, eles próprios, também em ideogramas nipónicos?
28 de maio de 2005
ELES NÃO SABEM QUE O SONHO COMANDA A VIDA, MAS NÃO ME PARECE QUE FOSSE BEM A ISTO QUE O OUTRO SE REFERIA
Alguém me explica porque é que hoje sonhei que dava um par de estalos a uma daquelas velhotas de bigode lisboetas, de voz de peixeira, atitude de porteirinha e pernas bambas a chinelar pela rua, que vinha a entrar num sítio qualquer público à cabeça de uma comitiva eleitoral-autárquica e fazia um ar de desprezo quando me via? E, se conseguirem, explicam-me também já agora porque é que acordei logo a seguir bem-disposto como já não acontecia há largas semanas?
27 de maio de 2005
PARCERIAS
Os governos podem mudar mas há uma coisa que, garantidamente, não muda: a noção de "parceria" que, em Portugal, não significa "união de pessoas com objectivos comuns", como vem no dicionário. Isto porque, como todos sabemos, em Portugal é (sempre foi) o salve-se-quem-puder, tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, cada-um-por-si. Não me surpreende que o conceito de "serviço público", em Portugal, seja entendido por cada um à sua maneira. E, sinceramente, não vejo como pode haver parcerias quando os parceiros apenas estão interessados em salvaguardar os seus próprios interesses e o resto que se lixe.
Os portugueses queixam-se, sistematicamente, não sem razão, do seu desencanto com a política e com os políticos. A mim, são os portugueses que me desencantam. Todos. Sem excepção.
Os portugueses queixam-se, sistematicamente, não sem razão, do seu desencanto com a política e com os políticos. A mim, são os portugueses que me desencantam. Todos. Sem excepção.
26 de maio de 2005
POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM
Pela primeira vez na vida, encontro uma enfermeira (mais jovem que eu) que me diz peremptoriamente que "não dá injecções em pé" e me diz para me deitar de barriga para baixo na marquesa.
PEQUENO CONSELHO CULINÁRIO
Nunca confiar nas receitas dos livros de culinária marcadas para duas pessoas: a receita do nasi goreng indonésio (arroz frito com legumes) que estreou o wok oferecido pelos anos, supostamente para 2 pessoas, dá à vontade para 4 (e assim já tenho comida para o fim-de-semana, ena ena). Da próxima vez, não me posso esquecer de ter os ingredientes todos prontos com um pouco mais de antecipação.
24 de maio de 2005
23 de maio de 2005
SOMOS TODOS BENFIQUISTAS (ou portistas ou sportinguistas, consoante o ano a que se queiram reportar)
E, de repente, Portugal descobre-se grande nação benfiquista; e, de repente, há um cachecol que esvoaça preso numa janela de carro ou desdobrado em cima do tablier ou enrolado à volta do pescoço ou pendurado na parede do cubículo ou do gabinete, uma bandeirinha colocada na porta. De repente, os benfiquistas que andaram escondidos estes anos todos aproveitam a ocasião para revelar as suas "verdadeiras" cores, mesmo que o cachecol lhes fique tão bem como um chapéu madeirense a um esquimó — agora que o Benfica ganhou o campeonato de futebol, é de bom tom estar do lado dos vencedores. Os benfiquistas verdadeiros — aqueles que nunca tiraram o cachecol do tablier ou do gabinete — devem estar todos surpreendidos pela nação que agora se descobre benfiquista. Mas, como em quase tudo, Portugal não se descobriu benfiquista — gosta apenas de se chegar à aura dos vencedores. Mesmo que seja uma vitória mais por defeito do que por feitio, no dia em que começa o habitual sacudir de água do capote à volta dos números do défice, em que uns dizem que a culpa é de quem lá está quando lá esteve antes, outros de quem lá esteve antes e não está agora. Portugal é um pais de perdedores que gostam de se fingir vencedores, de irresponsáveis que se fingem homens de estado, de pequenos e mesquinhos poderes armados em grandes e magnânimos senhores. Portugal, em suma, não interessa nem ao Menino Jesus enquanto nós não nos capacitarmos de que é por termos sido sempre assim todos estes anos que não passamos de uma cepa cada vez mais torta.
(E sim, sou do Benfica e custa-me ver as tias que dizem que o futebol é um horror e que odeiam a irem buscar os cachecóis bafientos a cheirar a naftalina para celebrar convenientemente a [não-tão-]gloriosa[-quanto-isso] vitória e dizer que sempre foram do Benfica, mesmo que nunca o tenham dito a ninguém. Além do mais, vamos lá ser sinceros, por muito contente que eu esteja por o Benfica ter ganho, que importância é que isso tem, a não ser como ópio das massas, quando estamos com um défice de quase 7% e o desemprego com previsões de subida?)
(E sim, sou do Benfica e custa-me ver as tias que dizem que o futebol é um horror e que odeiam a irem buscar os cachecóis bafientos a cheirar a naftalina para celebrar convenientemente a [não-tão-]gloriosa[-quanto-isso] vitória e dizer que sempre foram do Benfica, mesmo que nunca o tenham dito a ninguém. Além do mais, vamos lá ser sinceros, por muito contente que eu esteja por o Benfica ter ganho, que importância é que isso tem, a não ser como ópio das massas, quando estamos com um défice de quase 7% e o desemprego com previsões de subida?)
22 de maio de 2005
DALTONISMO EMOCIONAL
Vejo a cinzento o que devia estar a ver às cores. Não a preto e branco — mesmo a cinzento, difuso, indistinto.
AFINAL, PARA QUE SERVEM OS PASSEIOS?
No parque de estacionamento do Amoreiras, ontem, uma jovem muito fashion andava pelo meio da faixa reservada aos carros ao telemóvel com a maior displicência. Mando-lhe uma buzinadela, ela não liga, mando outra e, mal disposto, atiro-lhe com um bem portuguesinho "deve achar que isto é tudo seu, não?" , e ela disparata antes de se virar para o telemóvel e dizer em francês "ooh la la, ces Portugais c'est toujours la même chose".
Arrumando à porta de casa, um casal de idosos desce devagarinho a rua pelo meio da estrada. Não há carros em cima do passeio, que é admissivelmente estreito, mas o casal não só está no meio da estrada como pára para confirmar se está qualquer coisa na mala da senhora.
Esta manhã, numa rua da Lapa, com os passeios perfeitamente livres e desobstruídos, uma senhora dirige-se para o carro pelo meio da estrada. Na Infante Santo, uma outra atravessa a avenida na diagonal, a poucos metros de uma passadeira.
Aqui entre nós, é um milagre como não há mais atropelamentos na Grande Lisboa.
Arrumando à porta de casa, um casal de idosos desce devagarinho a rua pelo meio da estrada. Não há carros em cima do passeio, que é admissivelmente estreito, mas o casal não só está no meio da estrada como pára para confirmar se está qualquer coisa na mala da senhora.
Esta manhã, numa rua da Lapa, com os passeios perfeitamente livres e desobstruídos, uma senhora dirige-se para o carro pelo meio da estrada. Na Infante Santo, uma outra atravessa a avenida na diagonal, a poucos metros de uma passadeira.
Aqui entre nós, é um milagre como não há mais atropelamentos na Grande Lisboa.
21 de maio de 2005
BONS CONSELHOS
(...) the advice that seems to be uppermost on [Dave] Chappelle's mind is that of his father, who died in 1998. Upon hearing that his son wanted to try comedy, says Chapelle, "he said, 'Name your price before you get there. And if you ever find it's more expensive than what you're prepared to give, then get out'."
- Christopher John Farley, "Dave Speaks", da edição de 23 de Maio da Time
- Christopher John Farley, "Dave Speaks", da edição de 23 de Maio da Time
20 de maio de 2005
POLAROID: ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM
São nove da manhã. Algumas pessoas amontoam-se no pequeno corredor do centro de saúde, esperando que a porta da sala de enfermagem se abra. Uma jovem dos seus 20 e poucos anos, com uma filha pequena pela mão, resmunga que lá dentro as pessoas «dão à língua» e não dão vazão. Resmungo com ela: então porque é que não protesta com a senhora em vez de cá fora? Depois da senhora que estava lá dentro sair, quando a enfermeira pede, com uma voz exasperada, para as pessoas esperarem na sala, levanta-se um coro de protestos. Espero 45 minutos pela minha vez e, quando a pessoa antes sai, um senhor que esteve em pé cinco minutos à espera pergunta se não pode entrar porque tem a tensão muito alta e da farmácia próximo o reenviaram para aqui; a enfermeira insiste que tem de tirar senha e esperar na sala, «mas afinal estou com a tensão muito alta, quero saber se fico aqui se vou para o hospital» -- respondo-lhe que talvez fosse mais rápido ir ao hospital. Enquanto isso, na sala de espera, reina um ambiente de porteirinha, com as «vizinhas» a resmungarem umas com as outras sobre os atrasos, as burocracias. A burocracia já de si é insuportável; ouvir esta gente que se compraz em protestar por as coisas correrem mal mas não é capaz de ajudar a que elas corram bem e ainda puxa mais para baixo torna tudo insustentável.
19 de maio de 2005
POLAROID: CONSULTÓRIOS
Enquanto aguardo a minha vez de ser atendido pela recepcionista, duas solteironas com ar de beatas (camisas cinzentas de gola fechada ao pescoço, colar de pérolas, óculos tintados, saias recatadas e sapatos rasos) confundem-se com o número da senha que é chamada.
Uma idosa de bengala senta-se com dificuldade na cadeira ao lado da minha, depois de pousar um saco de compras em cima da mesinha de apoio, ao lado do capacete do rapaz que está a ser atendido. A senhora transporta um odor bafiento, claustrofóbico, usa roupa demasiado quente para o calor que está; tem o cabelo ralo apanhado numa trança e, como muitas das idosas portuguesas, insiste em usar brincos à minhota. Vira-se para mim e pergunta-me qual o número que está escrito na sua senha; pede-me três vezes para o repetir.
Uma idosa de bengala senta-se com dificuldade na cadeira ao lado da minha, depois de pousar um saco de compras em cima da mesinha de apoio, ao lado do capacete do rapaz que está a ser atendido. A senhora transporta um odor bafiento, claustrofóbico, usa roupa demasiado quente para o calor que está; tem o cabelo ralo apanhado numa trança e, como muitas das idosas portuguesas, insiste em usar brincos à minhota. Vira-se para mim e pergunta-me qual o número que está escrito na sua senha; pede-me três vezes para o repetir.
17 de maio de 2005
ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar.
- Sérgio Godinho pelos Gaiteiros de Lisboa, "Talvez que Sonhando", in "Invasões Bárbaras" (Farol 1995)
[in memoriam Fernando Magalhães 1955-2005]
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar.
- Sérgio Godinho pelos Gaiteiros de Lisboa, "Talvez que Sonhando", in "Invasões Bárbaras" (Farol 1995)
[in memoriam Fernando Magalhães 1955-2005]
RANDOM ACTS OF KINDNESS
Há coisa de uma semana, quando fui radiografar o joelho, levei a factura da electricidade para pagar no bolso de trás das calças, e, chegado ao consultório, depois de a ter pago, descobri que já não estava no bolso. Onde raio a terei perdido?, perguntei-me sem chegar a grande conclusão, mas tinha o comprovativo do multibanco e, portanto, não me preocupei grandemente com o que, no fundo, não tinha grande remédio.
Esta tarde, ao chegar do emprego, dou na minha caixa do correio com um envelope sem remetente, daqueles com um apartado habitualmente enviados pelos bancos, que, lá dentro, trazia a factura da electricidade que perdi há uma semana, com uma nota escrita à mão com uma assinatura ilegível dizendo "recibo encontrado na R. Alexandre Herculano 11.05.05".
Esta tarde, ao chegar do emprego, dou na minha caixa do correio com um envelope sem remetente, daqueles com um apartado habitualmente enviados pelos bancos, que, lá dentro, trazia a factura da electricidade que perdi há uma semana, com uma nota escrita à mão com uma assinatura ilegível dizendo "recibo encontrado na R. Alexandre Herculano 11.05.05".
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