Sempre funcionei assim: quando nos sentimos vazios, quando sentimos que não temos mais nada a dar, creio que é preciso saber voltar a pensar em nós, tornarmo-nos de novo um pouco egoístas. É a nossa única hipótese de podermos voltar a dar, em seguida. Não sei como fazem os outros, aqueles que preferem não se ouvir. Forçosamente, vão abaixo a certa altura.
(Alain Bashung, em entrevista a Richard Robert da revista Les Inrockuptibles, Março de 1995)
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
15 de maio de 2005
14 de maio de 2005
PEQUENA SUGESTÃO AOS PROGRAMADORES DAS SALAS DE ESPECTÁCULOS
Isto de começar concertos às 21h00 não está com nada. Primeiro, não dá tempo para uma pessoa jantar pacatamente - e todos sabemos como os portugueses gostam de fruir a refeição nocturna - e eleva acentuadamente o risco da plateia chegar atrasada. Segundo, se é para actualizar Portugal com os países europeus que começam os concertos mais cedo, o ideal seria seguir o modelo inglês e começá-los às 19h30 ou mesmo às 20h00 - assim, ao menos, quando se acabar o concerto ainda se está na hora de jantar. Agora, começar às 21h00 acaba por não agradar nem a gregos nem a troianos - é demasiado cedo para se jantar em paz antes e demasiado tarde para se jantar em paz depois.
13 de maio de 2005
POLAROID: TÁXI
Só em Lisboa é que se descobre um taxista com tiques que, enquanto sobe a Duque de Loulé à velocidade máxima permitida, agita a cabeça para a esquerda a intervalos regulares.
12 de maio de 2005
CARROS
É curioso como, ao fim nem que seja de um único dia a guiar outro carro, já estranho o meu quando volto a pegar nele. E é ainda mais curioso quando, ao fim de poucos minutos, já me habituei a ele outra vez, como uma camisola velha que insistimos em usar porque nos sentimos confortáveis com ela vestida, mesmo sabendo que a nova está mais bonita, não está amarrotada nem tem buracos e, se calhar, até nos fica melhor.
11 de maio de 2005
TRINTA E NOVE CINQUENTA E SETE SIERRA SIERRA
Ironia: em sete anos de carta de condução, nunca fui parado por infracção mas apenas em operações de rotina. Logo hoje, que conduzia o carro emprestado do meu irmão enquanto o meu está na garagem, é que fui parado por uma possivel infracção que não existiu — um identificador que não foi lido correctamente pelo radar da portagem...
10 de maio de 2005
POLAROID: CONSULTORIO
Na minúscula recepção, uma senhora faz a chamada "peixeirada" por motivos que me escapam e que só se tornaram perceptíveis quando a ouvi levantar a voz e exigir à recepcionista (claramente amadora, principiante, cheia de boa vontade) que se identifique e dê os dados pessoais para apresentar reclamação. Quando cheguei, duas recepcionistas procuravam afanosamente uma credencial perdida algures.
O consultório foi todo renovado e pintado mas, na sala das radiografias, continua a ser a mesma velha máquina de radiografias do "tempo da outra senhora". Mesmo que a máquina das ecografias seja um modelo "state-of-the-art", a secção de radiografias dá a entender que o dinheiro não chegou para tudo. A técnica que radiografa o meu joelho é brasileira e recebe-me com a educação cortês mínima e a displicência de quem já só quer ir para casa descansar do dia de trabalho (e ainda só é terça-feira).
A sala de espera continua a ser uma sala de espera típica de apartamento lisboeta tradicional reconvertido em consultório: sofás vintage anos 60/70 (dois cadeirões vermelhos de formas arredondadas, nove poltronas creme/bege sujo em três grupos de três), candeeiro de tecto que parece um espanador branco de pontas negras embrulhado à volta de uma bola de espelhos sem espelho, quatro apliques rectangulares brancos na parede lilás claro. E um televisor freneticamente ligado na TVI.
O consultório foi todo renovado e pintado mas, na sala das radiografias, continua a ser a mesma velha máquina de radiografias do "tempo da outra senhora". Mesmo que a máquina das ecografias seja um modelo "state-of-the-art", a secção de radiografias dá a entender que o dinheiro não chegou para tudo. A técnica que radiografa o meu joelho é brasileira e recebe-me com a educação cortês mínima e a displicência de quem já só quer ir para casa descansar do dia de trabalho (e ainda só é terça-feira).
A sala de espera continua a ser uma sala de espera típica de apartamento lisboeta tradicional reconvertido em consultório: sofás vintage anos 60/70 (dois cadeirões vermelhos de formas arredondadas, nove poltronas creme/bege sujo em três grupos de três), candeeiro de tecto que parece um espanador branco de pontas negras embrulhado à volta de uma bola de espelhos sem espelho, quatro apliques rectangulares brancos na parede lilás claro. E um televisor freneticamente ligado na TVI.
9 de maio de 2005
CONSTATAÇÃO
A quantidade de tempo que algumas pessoas gastam em certas tarefas é inversamente proporcional à importância que essas mesmas tarefas têm e à inteligência dessas mesmas pessoas.
NÃO, NÃO ÉS O ÚNICO
Deixa lá, Alexandre, não foste o único que gostava de ir ver Laurie e não foi (embora as minhas razões não tenham sido as mesmas que as tuas). Mas, pronto, eu já a vi ao vivo em Lisboa, quando ela veio ao Coliseu. O que, diga-se, apenas irrita mais por não a ter visto desta vez. (E também já vi Bruce Springsteen em Barcelona, com a E Street Band.)
8 de maio de 2005
REVISTA DE IMPRENSA
Fim-de-semana caseirinho. Tempo para terminar as actualidades da semana e pôr em dia algumas das revistas em atraso. Na Time da semana, bela peça sobre as eleições britânicas (evidentemente, anterior aos resultados!), mas a capa é entregue ao "Episódio III" da saga "Star Wars", à beirinha de estrear (falta pouco mais de uma semana), que o crítico residente Richard Corliss recomenda vivamente como superior aos "Episódios I" e "II" (também, não era inteiramente improvável que o fosse). George Lucas fala e diz coisas com interesse.
Na Economist, descubro que apesar do mercado publicitário da imprensa escrita estar em recessão, o segmento das revistas people está em franco crescimento nos EUA, com quatro novos títulos a desenharem-se no horizonte, mas que os mesmos EUA continuam profundamente atrasados no que diz respeito à adopção de uma base de dados centralizada com informações médicas — aliás, continuam profundamente atrasados no que diz respeito à informatização e processamento das fichas clínicas. De caminho, a revista não está particularmente convencida com a adaptação cinematográfica do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy" (estreia prevista em Portugal para Agosto), mas admite que nem sequer teria sido concretizada se Douglas Adams — que exigia controle absoluto sobre a produção e chegou ainda a co-assinar o argumento — ainda fosse vivo.
A Wired de Março (eu dizia que estava a pôr revistas atrasadas em dia...) atira-se ao futuro da rádio (sempre de uma perspectiva americana, entenda-se). Das rádios digitais por satélite à redescoberta do programa de autor personalizado, passando pelo "podcasting" (imagine-se um blog em rádio), vale tudo num número onde também se investigam... as sanitas do futuro. Já a Première francesa (também de Março, continuo atrasado) propõe uma entrevista inteligente de Will Smith sobre as mecânicas da sedução e outra de Clint Eastwood sobre "Million Dollar Baby" (boa, e ao nível da que os Cahiers du Cinéma publicaram no mesmo mês). Mais a rendição absoluta e incompreensível da revista a "Antes do Anoitecer" (que só estreou em França seis meses depois de Portugal), com uma bela entrevista de Julie Delpy a explicar que se está a marimbar para o conceito tradicional de "carreira".
Na Economist, descubro que apesar do mercado publicitário da imprensa escrita estar em recessão, o segmento das revistas people está em franco crescimento nos EUA, com quatro novos títulos a desenharem-se no horizonte, mas que os mesmos EUA continuam profundamente atrasados no que diz respeito à adopção de uma base de dados centralizada com informações médicas — aliás, continuam profundamente atrasados no que diz respeito à informatização e processamento das fichas clínicas. De caminho, a revista não está particularmente convencida com a adaptação cinematográfica do "Hitchhiker's Guide to the Galaxy" (estreia prevista em Portugal para Agosto), mas admite que nem sequer teria sido concretizada se Douglas Adams — que exigia controle absoluto sobre a produção e chegou ainda a co-assinar o argumento — ainda fosse vivo.
A Wired de Março (eu dizia que estava a pôr revistas atrasadas em dia...) atira-se ao futuro da rádio (sempre de uma perspectiva americana, entenda-se). Das rádios digitais por satélite à redescoberta do programa de autor personalizado, passando pelo "podcasting" (imagine-se um blog em rádio), vale tudo num número onde também se investigam... as sanitas do futuro. Já a Première francesa (também de Março, continuo atrasado) propõe uma entrevista inteligente de Will Smith sobre as mecânicas da sedução e outra de Clint Eastwood sobre "Million Dollar Baby" (boa, e ao nível da que os Cahiers du Cinéma publicaram no mesmo mês). Mais a rendição absoluta e incompreensível da revista a "Antes do Anoitecer" (que só estreou em França seis meses depois de Portugal), com uma bela entrevista de Julie Delpy a explicar que se está a marimbar para o conceito tradicional de "carreira".
7 de maio de 2005
...
Sabe bem uma tarde de sábado preguiçosa, o sol a entrar pela varanda enquanto faço as arrumações habituais de fim-de-semana (entre escolher jornais, pôr um pouco de ordem na secretária que a semana deixou em caos, trincar o pão com chouriço do supermercado em frente onde fiz as compras da semana, pôr cargas de roupa na máquina, pensar na sopa que vou fazer para o jantar).
6 de maio de 2005
O ASSEIO DO GATO
Esta manhã, quando saía de casa, deparei com um odor nauseabundo no meu patamar e dei com o meu tapete de entrada muito dobradinho. Encontrar o tapete dobradinho não é fora do vulgar, porque a porteira costuma lavar as escadas uma vez por semana e, depois de as lavar, encosta os tapetes dobrados às portas. O odor nauseabundo é que não era nada normal e, quando ouvi os miares desajeitados de um gato no patamar do 1º andar, percebi que um dos gatos do prédio tinha ficado fechado fora de casa durante a noite.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
5 de maio de 2005
ELA SABE

From the 22nd floor,
walking down the corridor,
looking out the picture window down
on Sycamore.
While perspective lines converge,
rows of cars and buses merge.
All the sweet green trees of Atlanta burst
like little bombs;
or little pom-poms,
shaken by a careless hand
that dries them off
and leaves again.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell
inside a cell
of the Lennox Hotel.
On the 22nd floor —
found a notice on my door.
While outside, the sun is shining on
those little bombs —
those little pom-poms.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell;
inside a cell
of the Lennox Hotel.
- Aimee Mann, "Little Bombs", in "The Forgotten Arm" (Superego Records/V2, 2005)
(Podem ouvir e, sobretudo, ler este sublime álbum aqui.)
4 de maio de 2005
3 de maio de 2005
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #31 (no âmbito da presidência temática do Exmo. Sr. Presidente da República)
Condutores que, em zonas de obras com bermas elevadas ("speed bumps" em inglês), em vez de manterem uma velocidade baixa constante, aceleram entre cada berma para quase travarem o carro para proteger a suspensão.
2 de maio de 2005
PEQUENO PROTESTO JUNTO DO SINDICATO
Isto não se faz. Então não é que os meus bloguistas preferidos andam todos a fugir com o rabo à seringa e passam semanas sem dar notícias? Alexandre, Nuno, R. (a ordem é estritamente alfabética), façam lá a fineza de não me deixar para aqui a falar sózinho. OK?
POLAROID: BALNEÁRIO
Pelo meio dos bancos de metal e madeira e dos cabides, dois homens ensaiam uma coreografia de dança de salão, sem os requebros de espectáculo. Um deles, colarinho aberto na camisa negra, cordão ao pescoço, cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, conta os passos e lidera a coreografia, ajudando o outro a colocar os braços, as mãos, os pés.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
1 de maio de 2005
EVREUX (a geografia do remorso)
Continuo apaixonado por este disco.

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
30 de abril de 2005
SÁBADO À TARDE [post com linguagem potencialmente ofensiva, uma palavra, no último parágrafo]
Os sábados à tarde parecem ser o dia preferido para nos baterem à porta, vindos de associações de apoio aos toxicodependentes, dos guarda-nocturnos, das testemunhas de Jeová ou outras crenças religiosas. É um clássico. Hoje, foi a vez da pobreza envergonhada deste Portugal em crise me bater à porta — com uma certa (apenas aparente?) dignidade magoada intersectando por um instante a pacatez de um sábado preguiçoso e ensonado, com uma daquelas rocambolescas peripécias que, exploradas de uma outra maneira, estariam à medida de um caso da vida da TVI. E que, na falta de comprovação objectiva e idónea, não permite uma recusa sem tombar na humilhação desnecessária.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
29 de abril de 2005
28 de abril de 2005
UMA QUESTÃO DE BOM GOSTO
Só em Lisboa é que há taxistas trintões que têm o CD do "Infected" dos The The a correr no carro. Só tive pena de ter entrado já o "Slow Train to Dawn" estava a acabar.
26 de abril de 2005
YOU MAGNIFICENT PAGAN GOD, YOU
- É verdade que só faz filmes que pagaria para ver?
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
24 de abril de 2005
LOGBOOK #25: CHAMA O GREGÓRIO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 24 de Abril, 10h51; 11,6m, 11 min, 13º C
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
22 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
No meu centro de saúde, há uma "auxiliar administrativa" que parece ter um especial prazer em atender mal as pessoas, como se estivesse acima delas, com um ar terrível de frete. Essa "auxiliar administrativa" não estava presente na minha mais recente visita, mas parece-me que o seu método começou a fazer escola, sobretudo desde que entidade incerta decidiu que a partir de agora apenas é possível marcar consulta para a semana seguinte. Ou seja: eu ligo hoje para marcar consulta para de hoje a oito dias, e se não houver vaga não me podem marcar para a data seguinte -- terei de voltar a ligar amanhã, e assim ad infinitum. Depois, uma simpática "auxiliar administrativa" revelou-se estar também a aprender na escola da outra -- quando eu lhe passo uma nota de €20,00 para a mão para pagar a consulta, ela pega na nota, a guarda sem dar cavaco às melgas e me diz "não tenho troco". Não será, é certo, o mais estimulante dos empregos do mundo. Mas também não é necessário tratar as pessoas com tanta displicência.
A burocracia é uma coisa linda.
A burocracia é uma coisa linda.
21 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
As salas de espera dos centros de saúde, à tarde, são preenchidas pelo público-alvo dos programas de televisão de manhã e de tarde e das revistas de televisão e de VIPs. São as mesmas senhoras de meia-idade que a vida se encarregou de reduzir a um estereótipo da "vizinha" que está sempre à coca e sabe tudo o que se passa no prédio. Como a senhora que, esta tarde, acompanhava a filha com um violento ataque de tosse à consulta do médico de família e sabia perfeitamente a que horas o médico tinha chegado, que números já tinham entrado, que números ainda faltava chamar e que ela não iria ficar para o fim porque números posteriores ao dela já tinham sido atendidos porque chegaram cedo e os números anteriores ainda não tinham chegado.
20 de abril de 2005
18 de abril de 2005
KENSINGTON SQUARE
Estou apaixonado por este disco.

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
17 de abril de 2005
LOGBOOK #24: O PASSEIO DO CHOCO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 17 de Abril, 11h16; 42min, 9.7m, 14ºC
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
16 de abril de 2005
POLAROID: VIZINHA À JANELA
No rés-do-chão do prédio ao lado, mora — presumo que com a família — uma daquelas velhotas "à antiga portuguesa", que passa o dia à janela, a ver quem passa (mas mais quem não passa, que a rua não é assim tão concorrida). Mas, de longe em longe, a senhora lá me dirige a palavra. "Olhe, o senhor desculpe, faz favor diz-me as horas?" E eu penso que, provavelmente, a senhora quer saber há quanto tempo está à janela; quanto tempo mais vai ali ficar; se está ali a fazer horas até ao almoço, até ao jantar, até ao lanche. Só à noite é que ela não está à janela.
15 de abril de 2005
ARQUEOLOGIA
Nunca ninguém disse que era fácil andar aqui dentro a remexer — nunca se sabe bem o que se pode encontrar. Mas há casos em que não se pode andar para a frente de outra maneira.
14 de abril de 2005
À ESPERA DO CANTO DA SEREIA

O título explica muito bem porque é que o álbum é um falhanço. Mas o tema-título é uma jóia preciosa — das mais belas canções que os New Order jamais gravaram.
what does this ship bring to me
far across the restless sea
waiting for the sirens' call
I've never seen it here before
there she plies a lonely trail
cutting through the breaking waves
drifting slowly from her course
she is lost forever more
we all want some kind of love
but sometimes it's not enough
to the wall and through the door
with the stranger on the shore
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone
got to catch a midnight train
first to Paris then to Spain
travel with a document
all across the Continent
city life is flying by
the wheels are turning all the while
get on board we can't be late
our destination cannot wait
all the stars and all the worlds
filling up this universe
could never be as close as us
will never shine as bright on us
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
how many times must I lose my way
how many words do I have to say
what can I do just to make you see
that you're so good for a man like
a man like me?
ESTÁ NA ALTURA DE ACTUALIZAR ALGUMAS SUPERSTIÇÕES
Se de facto encontrar aranhas em casa (daquelas mínimas) anunciasse dinheiro, eu já tinha ganho vários Euromilhões ao ritmo a que as ando a ver.
13 de abril de 2005
PLAYLIST #1
Há coisas que a música faz por mim que mais ninguém ou mais nada consegue.
Beck - "Broken Drum" (in "Guero", Interscope 2005)
Benjamin Biolay - "Mon amour m'a baisé" (in "À l'origine", Virgin 2005)
Bruce Springsteen - "Devils & Dust" (in "Devils & Dust", Columbia 2005)
Kaiser Chiefs - "I Predict a Riot" (in "Employment", B-Unique 2005)
Márcio Faraco - "Cidade" (in "Com Tradição", Universal 2005)
Melissa Etheridge - "Tuesday Morning" (in "Lucky", Island 2004)
New Order - "Krafty" (in "Waiting for the Sirens' Call", London 2005)
Old Jerusalem - "A Feast of Our Communion" (in "Twice the Humbling Sun", Bor Land 2005)
Skank - "Amores Imperfeitos" (in "Cosmotron", Epic 2003)
Vincent Delerm - "Veruca Salt & Frank Black" (in "Kensington Square", Tôt ou Tard 2004)
Vinicius Cantuária - "Tokyo" (in "Horse and Fish", Hannibal 2004)
Beck - "Broken Drum" (in "Guero", Interscope 2005)
Benjamin Biolay - "Mon amour m'a baisé" (in "À l'origine", Virgin 2005)
Bruce Springsteen - "Devils & Dust" (in "Devils & Dust", Columbia 2005)
Kaiser Chiefs - "I Predict a Riot" (in "Employment", B-Unique 2005)
Márcio Faraco - "Cidade" (in "Com Tradição", Universal 2005)
Melissa Etheridge - "Tuesday Morning" (in "Lucky", Island 2004)
New Order - "Krafty" (in "Waiting for the Sirens' Call", London 2005)
Old Jerusalem - "A Feast of Our Communion" (in "Twice the Humbling Sun", Bor Land 2005)
Skank - "Amores Imperfeitos" (in "Cosmotron", Epic 2003)
Vincent Delerm - "Veruca Salt & Frank Black" (in "Kensington Square", Tôt ou Tard 2004)
Vinicius Cantuária - "Tokyo" (in "Horse and Fish", Hannibal 2004)
12 de abril de 2005
PEQUENA ODE AOS POSSUIDORES DE CARRINHAS AUDI E MERCEDES TOPO DE GAMA
Detesto-vos, sobretudo quando eu estou a ultrapassar outro automóvel e vocês se encostam à minha traseira numa de "despacha-te lá com essa merda, ó pindérico que estás armado em Fangio com um carrinho que não dá sequer cem à hora". Já se esqueceram de quando tinham um carrinho que não dava sequer cem à hora, é?
11 de abril de 2005
TRATADO DA SEDUÇÃO
"De início, a ideia de o conhecer inquietava-me, mas, depois, senti-me aliviada. A sedução entre os seres humanos é cruel. O Jean-Louis não tem crueldade, mas muita doçura. Era muito reconfortante, para cantar, não estar na crueldade, na distância. Estamos numa proximidade, numa intimidade. (...) A sedução existe, mas é difusa, na duração, não na compulsão ou na aplicação sexual. (...) O Jean-Louis é de tal modo sedutor que temos vontade de abrir excepções com ele.
- Você acha-me sedutor porque a compreendo bem.
- Não, acho-o sedutor mesmo apesar de mim própria. Acho-o sedutor fisicamente, quimicamente, mas de uma maneira que me é familiar. O Jean-Louis olha-me de uma maneira extremamente benevolente. Até o meu marido reparou. Não me sinto estranha com ele. Há pessoas cujo olhar nos melhora, também sinto isso com o meu amigo Léos Carax, é muito raro. Normalmente, olham-me sem me dar, para me levar. Segundo o olhar, as minhas possibilidades aumentam. E um olhar de través pode-me fazer dar um passo atrás. (...) É isso o amor e a amizade: dar às pessoas um belo olhar."
Carla Bruni e Jean-Louis Murat em entrevista aos Inrockuptibles, na edição de 30 de Março último.
(Claro que em francês tem muito mais charme.)
- Você acha-me sedutor porque a compreendo bem.
- Não, acho-o sedutor mesmo apesar de mim própria. Acho-o sedutor fisicamente, quimicamente, mas de uma maneira que me é familiar. O Jean-Louis olha-me de uma maneira extremamente benevolente. Até o meu marido reparou. Não me sinto estranha com ele. Há pessoas cujo olhar nos melhora, também sinto isso com o meu amigo Léos Carax, é muito raro. Normalmente, olham-me sem me dar, para me levar. Segundo o olhar, as minhas possibilidades aumentam. E um olhar de través pode-me fazer dar um passo atrás. (...) É isso o amor e a amizade: dar às pessoas um belo olhar."
Carla Bruni e Jean-Louis Murat em entrevista aos Inrockuptibles, na edição de 30 de Março último.
(Claro que em francês tem muito mais charme.)
10 de abril de 2005
QUANDO FOR GRANDE
...quero escrever como a Nancy Gibbs, da Time.
Não por concordar com o que ela diz; mas porque ela sabe usar as palavras como matéria-prima moldável, plasticina transformável no que ela bem entender. É muito bom ver alguém que faz da palavra o seu mester; e muito raro ver alguém que sabe exactamente como obter o efeito pretendido.
Não por concordar com o que ela diz; mas porque ela sabe usar as palavras como matéria-prima moldável, plasticina transformável no que ela bem entender. É muito bom ver alguém que faz da palavra o seu mester; e muito raro ver alguém que sabe exactamente como obter o efeito pretendido.
8 de abril de 2005
INFORMAÇÃO AO CONDUTOR
Veículo pesado
Báscula de aço — não marrar!
Equipado com travões de disco às quatro rodas e ABS
Mantenha distância de segurança mínima — 10 metros
(escrita em tinta cinzenta, em letras maiúsculas bem legíveis, na traseira da caixa aberta metálica de uma camioneta Mitsubishi Canter vista no trânsito de Lisboa)
Báscula de aço — não marrar!
Equipado com travões de disco às quatro rodas e ABS
Mantenha distância de segurança mínima — 10 metros
(escrita em tinta cinzenta, em letras maiúsculas bem legíveis, na traseira da caixa aberta metálica de uma camioneta Mitsubishi Canter vista no trânsito de Lisboa)
7 de abril de 2005
BUCOLISMOS URBANOS
Por vezes, quando passo diariamente na Marginal junto à Cruz Quebrada, no cruzamento que leva ao Jamor, cruzo-me com os soldados da GNR que patrulham a zona a cavalo, com um trote descontraído, pela berma da estrada. O ruído compassado das patas dos cavalos pelo meio das buzinas e dos motores, a estranheza da visão quase arcaica de polícias a cavalo pelo meio do trânsito apressado cria um efeito de desajuste, uma espécie de ruptura espácio-temporal que coloca um certo passado e o presente lado a lado, que contrasta os modos antigos e descontraídos "de um tempo ausente" com a impiedosa velocidade dos nossos dias — sem que nenhum deles saia vencedor.
6 de abril de 2005
POLAROID HCL: CHAMA O FRANCISCO
Uma das auxiliares da Radiologia do Hospital de São José chega à porta automática da sala de espera cheia e começa a chamar pessoas a partir de alguns papéis que tem na mão, com uma voz de cana rachada (como os que identificamos com as cantadeiras de folclore) e um sotaque misto de província nortenha e suburbano. "Sr. Francisco. Sr. Francisco?" Chama três, quatro vezes o "sr. Francisco" sem obter resposta. Dirige-se a um senhor de idade deitado numa maca. "O senhor aí, como se chama?" O senhor da maca não responde, vira-se para a esquerda, talvez procurando alguém que o acompanhe, ou apenas a ver se a auxiliar está a falar com outra pessoa. "O senhor como se chama?" insiste a auxiliar. O senhor da maca percebe finalmente que é com ele. "Eu? Humberto Silva." "Não é Francisco, pois não?" insiste a auxiliar.
5 de abril de 2005
POEIRA
Ele voltou. E se o resto do álbum for desta (altíssima) craveira, ainda vale a pena ter heróis.
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
MISTÉRIO ANTROPOLÓGICO #1
Nunca percebi porque é que algumas pessoas prendem a fralda da camisa por dentro das cuecas. Pessoalmente, acho pouco higiénico. Mas parece que é uma prática bastante corrente.
4 de abril de 2005
MESA DE CABECEIRA
Uma garrafa de litro e meio de água do Luso, encetada; um rádio-despertador da Sony sintonizado na TSF; um corta-unhas; uma lata de creme Nivea; um tubo de Canesten fora de prazo (que ando para deitar fora há semanas, não é tarde nem é cedo, é mesmo hoje); uma caixa de Valdispert com um único comprimido lá dentro; uma calçadeira de plástico verde; um exemplar da edição de bolso da Penguin da tradução inglesa do tratado sobre a guerra de Clausewitz.
3 de abril de 2005
ROSEBUD
Morreu o Papa João Paulo II, e que descanse em paz; seja-se religioso ou ateu, praticante ou não, havia de facto qualquer coisa especial naquele homem, qualquer coisa digno de respeito e admiração.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
2 de abril de 2005
30 de março de 2005
TEST DRIVE
O facto do novo código da estrada prever sanções duras para quem conduzir enquanto fala ao telemóvel parece não ter afectado o jovem executivo que, esta tarde, guiava um automóvel marcado com o autocolante "test-drive" com o aparelho colado ao ouvido esquerdo.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
29 de março de 2005
SONHO DE SEGUNDA-FEIRA A SEGUIR AO DOMINGO DE PÁSCOA
Entro no cinema Condes, que já não é cinema mas antes uma sala-museu cujo interior claramente é demasiado grande para o gaveto dos Restauradores onde ele fica; lá dentro, uma sucessão de salas em estilos arquitectónicos medievais que passam pelo barroco manuelino e pelos interiores do Tivoli, do Império e do Eden até descambar num salão Luís XV no último piso com mesinhas de café modernas, com portas abertas para o interior da sala. Mas não entro; dirijo-me a uma outra porta que dá para um quarto de dormir. Ajoelho-me frente à cómoda e abro uma gaveta, onde, por baixo de camisas, encontro uma selecção de revistas de actualidades e um álbum de fotografias. Pego nas revistas, fecho a gaveta e dirijo-me para a saída do cinema, mas cá fora percebo que as revistas não são aquelas que eu queria.
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
28 de março de 2005
SONHO DE DOMINGO DE PÁSCOA
As águas negras que vêm sabe-se lá de onde chegam em paz, transportando enormes blocos de gelo negro e centauros bondosos e lúbricos, um dos quais se atrela de imediato à minha amiga e desce com ela o Parque Eduardo VII, olhando de vez em quando para mim que vou atrás a conversar com outro que me diz "ele é mesmo assim, não ligues".
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
27 de março de 2005
DOMINGO DE PÁSCOA (QUESTÃO PARA QUEM AINDA SE DÁ AO TRABALHO DE VER TELEVISÃO)
Antes do advento da televisão por cabo (e dos seus "57 channels and nothing on", para citar Springsteen), nos tempos dos dois canais institucionais (que a RTP Memória tanto tem feito para nos fazer recordar com prazer), era impossível fugir à programação pascal. Mas, agora que há os tais "57 channels" e que 52 deles se comportam como um canal de televisão normal sem programação alusiva, agora que o domingo televisivo de Páscoa é apenas mais um domingo, será que se perdeu alguma coisa? Será que esta vulgarização do feriado funciona como sintoma de um afastamento dos "valores cristãos" por parte da sociedade como um todo, ou antes pelo contrário é um prenúncio de um maior afastamento ainda (vide as "self-fulfilling prophecies"? E isto tem alguma importância que não seja meramente sociológica?
26 de março de 2005
CHRYSLER NEON
Em dois dias sucessivos, já deu para perceber que os condutores que optam pelo recém-introduzido em Portugal Chrysler Neon não primam pela cortesia nem pelo civismo. Um queria ultrapassar numa rua estreita de dois sentidos; o outro ultrapassa pela direita e acelera em cima da passadeira. Coincidência?
25 de março de 2005
POLAROID: MASSA E FEIJÃO
Armazéns do Chiado, 14h30: em frente à loja das sopas, uma senhora grita, alto e bom som, a quem a quiser ouvir, perante o desespero das empregadas, que "vão roubar para outro sítio, isso não tem carne, é só massa e feijão". A senhora está vestida de negro, um casaco e uma saia curta a realçar as formas do corpo, sapatos de salto alto e meias de fantasia, maquilhagem carregada e cabelo louro platinado a esconder a meia idade, mala escura e saco de compras, voz rouca a gritar alto e bom som, chamando a atenção de quem passa e de um segurança da loja. A gritaria insiste, dez, quinze minutos. Não cheguei a perceber em que se resolveu a questão, mas, minutos mais tarde, a senhora estava a protestar junto da recepção do centro à recepcionista de serviço, que a ouvia educadamente a contar uma história como quem sabia que tinha ali uma audiência cativa.
24 de março de 2005
GOURMET CHEWING GUM
Estive retido numa fila para pagar jornais numa tabacaria por causa de um jovem executivo indeciso sobre a variedade de pastilha elástica a adquirir.
23 de março de 2005
BOB DYLAN ESTÁ DE SAÚDE E RECOMENDA-SE A VIVER ALGURES NO MASSACHUSETTS
Ele sabe. Ele sabe sempre.
Lucy jumped from the 39th floor
said she just couldn't face another poor man
every jukebox stuck on The Who's Next
well, that almost got me when Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
Penny walked in with that Love in Vain look
said every last man should be hanging from a meat hook
looked in my eye, singing Marry Me Bill
I loosened my tie just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
and I was so depressed today...
Bobby said we're going to get rich quick
you buy a brand new car
they give you automatic cash back
pick up a parking lot, no money down
he was counting the cost just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
-- Lloyd Cole, "Let's Get Lost", in "Love Story" (Fontana, 1997)
Lucy jumped from the 39th floor
said she just couldn't face another poor man
every jukebox stuck on The Who's Next
well, that almost got me when Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
Penny walked in with that Love in Vain look
said every last man should be hanging from a meat hook
looked in my eye, singing Marry Me Bill
I loosened my tie just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
and I was so depressed today...
Bobby said we're going to get rich quick
you buy a brand new car
they give you automatic cash back
pick up a parking lot, no money down
he was counting the cost just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
-- Lloyd Cole, "Let's Get Lost", in "Love Story" (Fontana, 1997)
21 de março de 2005
COMO ESVAZIAR QUALQUER SALA DE ESPERA
Deixar o televisor no canal por cabo da Assembleia da República durante uma discussão do programa do governo.
20 de março de 2005
DIZ O ROTO AO NU
Alguém lhe pode explicar, por favor, que ele é a última pessoa com autoridade para dizer este tipo de coisas? Obrigado.
O LUTADOR
Isto, minhas senhoras e meus senhores, é poesia. A canção popular raras vezes terá sido tão perfeita.
I am just a poor boy.
Though my story's seldom told,
I have squandered my resistance
for a pocketful of mumbles,
such are promises.
All lies and jest,
still a man hears what he wants to hear,
and disregards the rest.
When I left my home
and my family,
I was no more than a boy
in the company of strangers
in the quiet of the railway station
running scared,
laying low,
seeking out the poorer quarters
where the ragged people go,
looking for the places
only they would know.
Asking only workman's wages
I come looking for a job,
but I get no offers,
just a come-on from the whores on Seventh Avenue.
I do declare,
there were times when I was so lonesome
I took some comfort there.
Now the years are rolling by me
they are rocking evenly
I am older than I once was
younger than I'll be
but that's not unusual
no it isn't strange
after changes upon changes
we are more or less the same
after changes we are more or less the same.
Then I'm laying out my winter clothes
and wishing I was gone,
going home
where the New York City winters
aren't bleeding me,
leading me,
to go home.
In the clearing stands a boxer,
and a fighter by his trade,
and he carries the reminders
of ev'ry glove that laid him down
or cut him till he cried out
in his anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving".
But the fighter still remains.
-- Paul Simon para Simon & Garfunkel, "The Boxer", 1968
I am just a poor boy.
Though my story's seldom told,
I have squandered my resistance
for a pocketful of mumbles,
such are promises.
All lies and jest,
still a man hears what he wants to hear,
and disregards the rest.
When I left my home
and my family,
I was no more than a boy
in the company of strangers
in the quiet of the railway station
running scared,
laying low,
seeking out the poorer quarters
where the ragged people go,
looking for the places
only they would know.
Asking only workman's wages
I come looking for a job,
but I get no offers,
just a come-on from the whores on Seventh Avenue.
I do declare,
there were times when I was so lonesome
I took some comfort there.
Now the years are rolling by me
they are rocking evenly
I am older than I once was
younger than I'll be
but that's not unusual
no it isn't strange
after changes upon changes
we are more or less the same
after changes we are more or less the same.
Then I'm laying out my winter clothes
and wishing I was gone,
going home
where the New York City winters
aren't bleeding me,
leading me,
to go home.
In the clearing stands a boxer,
and a fighter by his trade,
and he carries the reminders
of ev'ry glove that laid him down
or cut him till he cried out
in his anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving".
But the fighter still remains.
-- Paul Simon para Simon & Garfunkel, "The Boxer", 1968
19 de março de 2005
A TEORIA DA CONSTIPAÇÃO
Não sei se repararam. Mas, nas reportagens dos protestos da Bombardier, enquanto os trabalhadores se manifestavam, um agente da polícia puxava de um pacotinho de plástico e tirava um lenço de papel para se assoar. Lenço esse de cor verde (mentolado?). Afinal, a polícia também tem direito à sua constipaçãozinha, mesmo no meio dos protestos da classe trabalhadora.
18 de março de 2005
15 de março de 2005
JAYWALKING
Às vezes, faço o exercício de olhar para as coisas como se fosse estrangeiro e nunca as tivesse visto antes na vida, e estivesse agora a deparar-me com elas pela primeira vez. Por vezes, faço esse exercício deliberadamente; por vezes acontece-me sem eu dar por isso, porque estava a pensar noutra coisa. Hoje, dei por mim a pensar que os estrangeiros devem achar muito peculiar o facto dos portugueses terem passeios na rua mas preferirem andar pelo meio da estrada e terem passadeiras para atravessar a estrada mas escolherem sempre fazê-lo fora das passadeiras ou sem respeitarem os sinais.
Em tempos, disseram-me que nos Estados Unidos quem atravessa fora da passadeira pode ser multado. Acabei de encontrar a maneira ideal dos cofres do Estado cobrirem o eterno défice.
Em tempos, disseram-me que nos Estados Unidos quem atravessa fora da passadeira pode ser multado. Acabei de encontrar a maneira ideal dos cofres do Estado cobrirem o eterno défice.
13 de março de 2005
ADEUS, DRAGON INN
— Sabe que este cinema está assombrado?
Este cinema está assombrado.
Fantasmas...
— Sou japonês.
— Sayonara.
— Sayonara.
— Professor Miao?
— Shih Chun!
— Veio ver o filme?
— Já há muito tempo que não venho ver nenhum...
— Já ninguém vem ao cinema.
E já ninguém se lembra de nós.
As doze linhas acima são todo o diálogo falado pelo elenco de "Adeus, Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang, agora em exibição em Lisboa, ao longo da totalidade da duração do filme. E é falado por apenas quatro dos oito actores do filme; os restantes quatro não dizem nada. Em rigor, "Adeus, Dragon Inn" não é um filme convencional; é uma atmosfera texturada, uma experiência radical, um objecto-limite. Fosse este filme português, haveria quem se insurgisse contra o seu hermetismo; na sessão a que fui, houve bastante gente a sair durante a projecção. Lembrei-me de "Comboio de Sombras", de José Luís Guerin, com uma diferença: eu não gostei nada de "Comboio de Sombras", enquanto que "Adeus, Dragon Inn" me tocou bem fundo na nostalgia do "velho" cinema, porque este é um filme sobre um cinema moribundo, sobre uma sala de Taipei que projecta a sua última sessão (precisamente com o filme "Dragon Inn", um clássico das artes marciais de King Hu). O cinema Fu-Ho povoado de fantasmas (mas serão realmente fantasmas?) poderia ser um qualquer Monumental, Império, Condes, São Jorge, Avis, salas grandiosas de uma outra era projectando uma última sessão para um auditório vazio. "Adeus, Dragon Inn" poderia ser apenas um filme nostálgico, mas o modo como trabalha essa nostalgia, dilatando a experiência da última sessão, desintegrando-a na distensão de todas as rotinas quotidianas dos empregados da sala, empresta-lhe uma dignidade e uma transcendência especiais.
"Adeus, Dragon Inn" exige entrega e não se desvenda facilmente. É um filme-limite; ou se ama ou se odeia. Mas quem ama o cinema só pode amá-lo.
Este cinema está assombrado.
Fantasmas...
— Sou japonês.
— Sayonara.
— Sayonara.
— Professor Miao?
— Shih Chun!
— Veio ver o filme?
— Já há muito tempo que não venho ver nenhum...
— Já ninguém vem ao cinema.
E já ninguém se lembra de nós.
As doze linhas acima são todo o diálogo falado pelo elenco de "Adeus, Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang, agora em exibição em Lisboa, ao longo da totalidade da duração do filme. E é falado por apenas quatro dos oito actores do filme; os restantes quatro não dizem nada. Em rigor, "Adeus, Dragon Inn" não é um filme convencional; é uma atmosfera texturada, uma experiência radical, um objecto-limite. Fosse este filme português, haveria quem se insurgisse contra o seu hermetismo; na sessão a que fui, houve bastante gente a sair durante a projecção. Lembrei-me de "Comboio de Sombras", de José Luís Guerin, com uma diferença: eu não gostei nada de "Comboio de Sombras", enquanto que "Adeus, Dragon Inn" me tocou bem fundo na nostalgia do "velho" cinema, porque este é um filme sobre um cinema moribundo, sobre uma sala de Taipei que projecta a sua última sessão (precisamente com o filme "Dragon Inn", um clássico das artes marciais de King Hu). O cinema Fu-Ho povoado de fantasmas (mas serão realmente fantasmas?) poderia ser um qualquer Monumental, Império, Condes, São Jorge, Avis, salas grandiosas de uma outra era projectando uma última sessão para um auditório vazio. "Adeus, Dragon Inn" poderia ser apenas um filme nostálgico, mas o modo como trabalha essa nostalgia, dilatando a experiência da última sessão, desintegrando-a na distensão de todas as rotinas quotidianas dos empregados da sala, empresta-lhe uma dignidade e uma transcendência especiais.
"Adeus, Dragon Inn" exige entrega e não se desvenda facilmente. É um filme-limite; ou se ama ou se odeia. Mas quem ama o cinema só pode amá-lo.
BMW Z3
Esta tarde, um descapotável BMW Z3 estava parado à porta de minha casa. Visto do lado esquerdo, estava impecável, reluzente. Visto do lado direito, a carroçaria estava impecável e reluzente, mas onde deveria estar o vidro do passageiro estava uma placa de cartão e plásticos presos por fita adesiva castanha. Metáfora perfeita do país em que vivemos: o luxo é só fachada, porque depois não há dinheiro para manter o nível de vida que o BMW Z3 projecta.
12 de março de 2005
O CONSUMIDOR GOSTARIA DE TER ALGUMAS EXPLICAÇÕES
Será que é possível levantar uma queixa contra os fabricantes de manteiga que anunciam o seu produto como "fácil de barrar" directamente do frigorífico quando, sempre que o tento fazer em cima de tostas, a dita consistência cremosa é inexistente e as tostas partem-se todas? E, já agora, sabiam que "fácil de barrar directamente do frigorífico" é traduzido em francês por "frigotartinable"?
11 de março de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #57
Esfíncter.
(é favor não ler segundas intenções — é mesmo só porque eu acho a palavra realmente interessante)
(é favor não ler segundas intenções — é mesmo só porque eu acho a palavra realmente interessante)
9 de março de 2005
SÁBIAS PALAVRAS
"O ócio convém-me mais do que qualquer outra actividade. Um papel é um meio de não fazer nada durante bastante tempo."
"A actividade é uma máscara que as pessoas usam para tapar o vazio. Mas é esse vazio que é interessante, é nos tempos mortos que descobrimos a nossa identidade. Em tempos eu era paranóico e angustiado, porque vivia apenas para os holofotes. De que serve sermos nós próprios apenas em palco?"
Rupert Everett à jornalista do Le Monde Florence Colombani, na edição de 7 de Março do quotidiano francês.
"A actividade é uma máscara que as pessoas usam para tapar o vazio. Mas é esse vazio que é interessante, é nos tempos mortos que descobrimos a nossa identidade. Em tempos eu era paranóico e angustiado, porque vivia apenas para os holofotes. De que serve sermos nós próprios apenas em palco?"
Rupert Everett à jornalista do Le Monde Florence Colombani, na edição de 7 de Março do quotidiano francês.
8 de março de 2005
ALUGAR É O QUE ESTÁ A DAR
Quem o diz não sou eu, é o venerando Economist, na sua edição desta semana. É a melhor explicação que eu já encontrei para a minha decisão de nunca ter querido investir em comprar uma casa.
To buy or not to buy? That is the question
Mar 3rd 2005
From The Economist print edition
Today it is often much cheaper to rent than to buy a house
“IT IS always better to buy a house; paying rent is like pouring money down the drain.” For years, such advice has encouraged people to borrow heavily to get on the property ladder as soon as possible. But is it still sound advice? House prices are currently at record levels in relation to rents in many parts of the world and it now often makes more financial sense—especially for first-time buyers—to rent instead.
Homebuyers tend to underestimate their costs. Once maintenance costs, insurance and property taxes are added to mortgage payments, total annual outgoings now easily exceed the cost of renting an equivalent property, even after taking account of tax breaks. Ah, but capital gains will more than make up for that, it is popularly argued. Over the past seven years, average house prices in America have risen by 65%, those in Britain, Spain, Australia and Ireland have more than doubled. But it is unrealistic to expect such gains to continue. Making the (optimistic) assumption that house prices instead rise in line with inflation, and including buying and selling costs, then over a period of seven years—the average time American owners stay in one house—our calculations show that you would generally be better off renting.
Be warned, if you make such a bold claim at a dinner party, you will immediately be set upon. Paying rent is throwing money away, it will be argued. Much better to spend the money on a mortgage, and by so doing build up equity. The snag is that the typical first-time buyer keeps a house for less than five years, and during that time most mortgage payments go on interest, not on repaying the loan. And if prices fall, it could wipe out your equity. In any case, a renter can accumulate wealth by putting the money saved each year from the lower cost of renting into shares. These have, historically, yielded a higher return than housing. Putting all your money into a house also breaks the basic rule of prudent investing: diversify. And yes, it is true that a mortgage leverages the gains on your initial deposit on a house, but it also amplifies your losses if house prices fall.
“I want to have a place to call home,” is a popular retort. Renting provides less long-term security and you cannot paint all the walls orange if you want to. Home ownership is an excellent personal goal, but it may not always make financial sense. The pride of “owning” your own home may quickly fade if you are saddled with a mortgage that costs much more than renting. Also, renting does have some advantages. Renters find it easier to move for job or family reasons.
“If I don't buy now, I'll never get on the property ladder” is a common cry from first-time buyers. If house prices continue to outpace wages, that is true. But it now looks unlikely. When prices get out of line with what first-timers can afford, as they are today, they always eventually fall in real terms. The myth that buying is always better than renting grew out of the high inflation era of the 1970s and 1980s. First-time buyers then always ended up better off than renters, because inflation eroded the real value of mortgages even while it pushed up rents. Mortgage-interest tax relief was also worth more when inflation, and hence nominal interest rates, was high. With inflation now tamed, home ownership is far less attractive.
The divergence between rents and house prices is, of course, evidence of a housing bubble. Someday prices will fall relative to rents and wages. After they do, it will make sense to buy a home. Until they do, the smart money is on renting.
To buy or not to buy? That is the question
Mar 3rd 2005
From The Economist print edition
Today it is often much cheaper to rent than to buy a house
“IT IS always better to buy a house; paying rent is like pouring money down the drain.” For years, such advice has encouraged people to borrow heavily to get on the property ladder as soon as possible. But is it still sound advice? House prices are currently at record levels in relation to rents in many parts of the world and it now often makes more financial sense—especially for first-time buyers—to rent instead.
Homebuyers tend to underestimate their costs. Once maintenance costs, insurance and property taxes are added to mortgage payments, total annual outgoings now easily exceed the cost of renting an equivalent property, even after taking account of tax breaks. Ah, but capital gains will more than make up for that, it is popularly argued. Over the past seven years, average house prices in America have risen by 65%, those in Britain, Spain, Australia and Ireland have more than doubled. But it is unrealistic to expect such gains to continue. Making the (optimistic) assumption that house prices instead rise in line with inflation, and including buying and selling costs, then over a period of seven years—the average time American owners stay in one house—our calculations show that you would generally be better off renting.
Be warned, if you make such a bold claim at a dinner party, you will immediately be set upon. Paying rent is throwing money away, it will be argued. Much better to spend the money on a mortgage, and by so doing build up equity. The snag is that the typical first-time buyer keeps a house for less than five years, and during that time most mortgage payments go on interest, not on repaying the loan. And if prices fall, it could wipe out your equity. In any case, a renter can accumulate wealth by putting the money saved each year from the lower cost of renting into shares. These have, historically, yielded a higher return than housing. Putting all your money into a house also breaks the basic rule of prudent investing: diversify. And yes, it is true that a mortgage leverages the gains on your initial deposit on a house, but it also amplifies your losses if house prices fall.
“I want to have a place to call home,” is a popular retort. Renting provides less long-term security and you cannot paint all the walls orange if you want to. Home ownership is an excellent personal goal, but it may not always make financial sense. The pride of “owning” your own home may quickly fade if you are saddled with a mortgage that costs much more than renting. Also, renting does have some advantages. Renters find it easier to move for job or family reasons.
“If I don't buy now, I'll never get on the property ladder” is a common cry from first-time buyers. If house prices continue to outpace wages, that is true. But it now looks unlikely. When prices get out of line with what first-timers can afford, as they are today, they always eventually fall in real terms. The myth that buying is always better than renting grew out of the high inflation era of the 1970s and 1980s. First-time buyers then always ended up better off than renters, because inflation eroded the real value of mortgages even while it pushed up rents. Mortgage-interest tax relief was also worth more when inflation, and hence nominal interest rates, was high. With inflation now tamed, home ownership is far less attractive.
The divergence between rents and house prices is, of course, evidence of a housing bubble. Someday prices will fall relative to rents and wages. After they do, it will make sense to buy a home. Until they do, the smart money is on renting.
7 de março de 2005
THE IRONY IS JUST SICKENING (como diria Daffy Duck)
Qual é a música que estava a rodar em "música de fundo", há menos de meia hora, no posto da BP de Paço d'Arcos?
"Achtung Baby", dos U2.
"Achtung Baby", dos U2.
5 de março de 2005
O PAÍS DAS ANEDOTAS
Em Portugal, tudo é pretexto para se fazer uma anedota (até naqueles casos em que, muito evidentemente, o pretexto é já de si uma anedota), como o comprovou o chorrilho de piadas baixas à volta de José Sócrates e Paulo Portas durante a campanha eleitoral, ou a quantidade de piadas com o Bibi e o caso da Casa Pia.
Mas parece-me bem que isto é muito mais significativo do país que somos do que gostamos de pensar: cai o Carmo e a Trindade se se faz uma piada sobre o Papa, mas ninguém protesta por causa das dezenas de piadas sobre as crianças molestadas na Casa Pia, ou das dezenas de piadas sobre a princesa Diana, ou das dezenas de piadas com deficientes?
Mas parece-me bem que isto é muito mais significativo do país que somos do que gostamos de pensar: cai o Carmo e a Trindade se se faz uma piada sobre o Papa, mas ninguém protesta por causa das dezenas de piadas sobre as crianças molestadas na Casa Pia, ou das dezenas de piadas sobre a princesa Diana, ou das dezenas de piadas com deficientes?
4 de março de 2005
EMOÇÕES PRIMÁRIAS

(segunda tentativa, depois da primeira ter desaparecido nem eu sei como)
Ainda hoje não sei o que me marcou tanto em "Silverado", de Lawrence Kasdan, a não ser que, à altura da estreia, o vi cinco vezes a curtos intervalos e senti o regresso de um fôlego cinematográfico que não voltou a aparecer tão cedo. Já em 1985 este western tudo menos crepuscular, que recuperava a emoção primária do cinema clássico de aventuras numa altura em que o filme de cowboys estava dado como morto, era um anacronismo. Hoje, não sei o que será, já há anos que não o vejo (mas desconfio que, como já na altura era um filme fora, hoje continuará a sê-lo, e tem Kevin Kline num dos grandes papéis da sua vida). Mas sei que continuo a ter uma ternura muito especial por este filme que não teve, à altura, o sucesso merecido. E apetece-me recomendá-lo a toda a gente. Passa amanhã às 16h30 no Canal Hollywood.
3 de março de 2005
GAJAS AO VOLANTE (título propositadamente enganador)
Não sou nada do género machista misógino que acha que as mulheres guiam mal. Pelo contrário, duas ou três das minhas melhores amigas são excelentes condutoras, melhores que bastantes homens que conheço (e, aqui, lembro-me do meu pai, que tirou a carta tardiamente e sempre foi um pouco pé de chumbo a conduzir). E acho que há muitos homens que guiam mal (aliás, vejo muitos sempre que pego no carro). Mas, hoje de manhã, encontrei uma senhora que, efectivamente, era o exemplo perfeito do adágio (que, aliás, também não é exclusividade masculina, visto que uma das tais minhas amigas também acha que, no geral, as mulheres conduzem mal). Desde não ver o sinal aberto à frente até fazer curvas ultrapassando pela direita e sem fazer sinal, a senhora cometeu em 50 metros tanta infracção e distracção que me pareceu não ter claramente o menor jeito para estar ao volante. Claro que, em Portugal, não é preciso ser mulher para não ter o menor jeito para estar ao volante.
2 de março de 2005
COMING UP CLOSE
Ando a ouvir muito esta canção. Diz-me que todos procuramos o mesmo e por vezes julgamos encontrá-lo onde apenas está uma ilusão que nós próprios criamos. Diz-me que há momentos que não se repetem e que apenas fazem sentido no seu momento. Diz-me que há quem saiba quando passar à frente daquilo que não é essencial.
one night in Iowa, he and I in a borrowed car
went driving in the summer, promises in every star
out in the distance I could hear some people laughing
I felt my heart beat back a weekend's worth of sadness
there was a farmhouse that had long since been deserted
we stopped and carved our hearts into the wooden surface
we thought just for an instant we could see the future
we thought for once we knew what really was important
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew
we got back in the car and listened to a Dylan tape
we drove around the fields until it started getting late
and I went back to my hotel room on the highway
and he just got back in his car and drove away
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
come on home.
- Aimee Mann para os 'Til Tuesday, "Coming Up Close", in "Welcome Home" (Epic, 1986)
one night in Iowa, he and I in a borrowed car
went driving in the summer, promises in every star
out in the distance I could hear some people laughing
I felt my heart beat back a weekend's worth of sadness
there was a farmhouse that had long since been deserted
we stopped and carved our hearts into the wooden surface
we thought just for an instant we could see the future
we thought for once we knew what really was important
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew
we got back in the car and listened to a Dylan tape
we drove around the fields until it started getting late
and I went back to my hotel room on the highway
and he just got back in his car and drove away
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
coming up close
everything sounds like welcome home
come home
come on home.
- Aimee Mann para os 'Til Tuesday, "Coming Up Close", in "Welcome Home" (Epic, 1986)
1 de março de 2005
A UTILIDADE DOS SINAIS DE TRÂNSITO
Quem percorre o centro de Paço d'Arcos de automóvel, vindo da Marginal, depara, junto ao quartel dos bombeiros, com uma rápida sucessão de três sinais de trânsito que, supostamente, deverão facilitar o trânsito na zona. No primeiro, a presença de uma "zebra" no asfalto, apesar da existência de sinais reguladores para peões, leva todo o idoso a atravessar a estrada sem sequer ver se vêm lá carros e ignorando completamente se o sinal está ou não verde para os peões. Os dois sinais seguintes, distantes escassos metros uns dos outros, sugerem que foram projectados para um fluxo de trânsito (provavelmente trazido pela proximidade da estação dos comboios, do terminal de autocarros e do terminal do monocarril) que, na realidade, parece não existe.
28 de fevereiro de 2005
EQUILÍBRIO INSTÁVEL
Não, eu não tenho uma tribo; sempre preferi o vai-e-vem na corda bamba de quem não quer outra coisa que não seja uma tribo, mas também não quer pertencer realmente (medo de quê?). Até que chega um momento em que é preciso escolher entre ficar de fora (talvez de vez) ou fazer parte. Mas, para lá chegar, é preciso escavar. Muito.
something in me
dark and sticky
all the time it's getting strong
no way of dealing
with this feeling
can't go on like this too long
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real
digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt
the more I look
the more I find
as I close on in
I get so blind
I feel it in my head
I feel it in my toes
I feel it in my sex
that's the place it goes
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real
digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt
I'm digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
to open up the places I got hurt.
— Peter Gabriel, "Digging in the Dirt" (in "Us", Real World, 1992)
something in me
dark and sticky
all the time it's getting strong
no way of dealing
with this feeling
can't go on like this too long
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real
digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt
the more I look
the more I find
as I close on in
I get so blind
I feel it in my head
I feel it in my toes
I feel it in my sex
that's the place it goes
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real
digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt
I'm digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
to open up the places I got hurt.
— Peter Gabriel, "Digging in the Dirt" (in "Us", Real World, 1992)
27 de fevereiro de 2005
RTP MEMÓRIA
Durante as minhas visitas de fim-de-semana à mãe, costumo pôr o televisor do quarto na RTP Memória, o que nos possibilitou, nos últimos dois sábados, assistir aos Festivais RTP da Canção de 1964, 1965 e 1966, que, vistos a esta distância, parecem verdadeiramente coisas de um outro tempo, desde os penteados bouffant de Maria Helena Fialho Gouveia, Simone de Oliveira e Madalena Iglésias à educação rígida de Henrique Mendes falando das "amáveis telefonistas", passando por Sérgio Borges a fazer a sua melhor imitação de Domenico Modugno. Com um misto de incredulidade (era mesmo assim?) e fascínio quase arqueológico (ah, era assim!). Ainda pertenço a uma geração para quem o Festival da Canção tinha alguma mística.
LOGBOOK #23: PISCINA (v1.0)
50 minutos de exercícios por cinco metros de fundo numa piscina para recordar aquelas técnicas básicas que se fazem no curso de mergulho e depois nunca mais se pensa nelas. No meu caso, questão importante: perceber o que se passava com a minha flutuabilidade com o equipamento dentro de água. Resposta: peso a mais. Descontando que a água doce é evidentemente menos densa que a água salgada, dei por mim sobre-lastrado em dois quilos, que tirei ao cinto com que costumo mergulhar — e voilà, a flutuabilidade melhorou significativamente, mesmo que haja menos stress numa piscina do que no mar. De qualquer maneira, agora é só confirmar no oceano que os nove quilos são o meu "peso ideal". (Por falar em flutuabilidade: já vos disse que ODEIO o raio do exercício do "buda"? Não? Então fica para outra altura.)
A remoção da máscara lá se fez sem grandes problemas, mas é algo que preciso de treinar mais; tenho demasiada tendência a expirar logo pelo nariz, o que pode facilitar a entrada de água pelas cavidades nasais. A subida com partilha de ar também correu bastante bem, excepto na variação "em cachimbo" em que o parceiro não percebeu o que se passava e se recusava a dar-me o raio do regulador depois de eu ter expirado o ar todo. Preciso claramente de treinar situações em que tenho de ir buscar o octopus por problema com o regulador primário.
O grande problema, contudo: a água da piscina estava a 12 graus. Nem em Sesimbra o raio da água está tão fria. (Torna-se urgente começar a estudar as opções e investir num semi-seco.)
A remoção da máscara lá se fez sem grandes problemas, mas é algo que preciso de treinar mais; tenho demasiada tendência a expirar logo pelo nariz, o que pode facilitar a entrada de água pelas cavidades nasais. A subida com partilha de ar também correu bastante bem, excepto na variação "em cachimbo" em que o parceiro não percebeu o que se passava e se recusava a dar-me o raio do regulador depois de eu ter expirado o ar todo. Preciso claramente de treinar situações em que tenho de ir buscar o octopus por problema com o regulador primário.
O grande problema, contudo: a água da piscina estava a 12 graus. Nem em Sesimbra o raio da água está tão fria. (Torna-se urgente começar a estudar as opções e investir num semi-seco.)
25 de fevereiro de 2005
LUA CHEIA NA MARGINAL
A lua cheia está impossivelmente branca, um disco perfeito, gelado, suspenso no meio de uma infinitude de um azul negro. Conduzo pela Marginal, em direcção a Lisboa; não estou sozinho na estrada, mas sinto-me uma espécie de astronauta; porque o frio da escuridão entrecortada pelas lâmpadas amareladas e pelos faróis dos carros, lá fora, não engana. Ao longe, as luzes da zona ribeirinha de Algés-Belém, a ponte desenhada a pontos luminosos, alumiam sem força nem calor a escuridão; o reflexo esbranquiçado da lua cheia no mar chão, estanhado, também ele negro na escuridão da noite, desenhando uma espécie de caminho na água, como um trilho marítimo que os barcos pudessem seguir, a cauda de um cometa, uma luz desenhando a estrada. No Algarve, de Verão, a lua cheia reflectida no mar cria o mesmo efeito. Gosto destas ilusões de óptica.
UMA CANÇÃOZINHA PARA ANIMAR
Na voz, perdão, na Voz daquele que a criou, nos idos de 1959 (para o filme de Frank Capra, "Tristezas Não Pagam Dívidas"). Ladies and gentlemen, Frank Sinatra.
next time you're found with your chin on the ground
there's a lot to be learned
so look around
just what makes that little old ant
think he'll move that rubber tree plant
anyone knows an ant
can't
move a rubber tree plant
but he's got
high hopes
he's got
high hopes
he's got
high apple pie
in the sky
hopes
so any time you're gettin' low
'stead of lettin' go
just remember that ant
whoops, there goes another rubber tree plant
when troubles call and your back's to the wall
there's a lot to be learned
that wall could fall
once there was a silly old ram
thought he'd punch a hole in a dam
no one could make that ram
scram
he kept buttin' that dam
'cause he had
high hopes
he had
high hopes
he had
high apple pie
in the sky
hopes
so anytime you're feelin' bad
'stead of feelin' sad
just remember that ram
whoops, there goes a billion kilowatt dam
all problems just a toy balloon
they'll be bursted soon
they're just bound to go pop
whoops, there goes another problem kerplop
-- Sammy Cahn & James van Heusen para Frank Sinatra, "High Hopes" (in No One Cares, Capitol, 1959)
next time you're found with your chin on the ground
there's a lot to be learned
so look around
just what makes that little old ant
think he'll move that rubber tree plant
anyone knows an ant
can't
move a rubber tree plant
but he's got
high hopes
he's got
high hopes
he's got
high apple pie
in the sky
hopes
so any time you're gettin' low
'stead of lettin' go
just remember that ant
whoops, there goes another rubber tree plant
when troubles call and your back's to the wall
there's a lot to be learned
that wall could fall
once there was a silly old ram
thought he'd punch a hole in a dam
no one could make that ram
scram
he kept buttin' that dam
'cause he had
high hopes
he had
high hopes
he had
high apple pie
in the sky
hopes
so anytime you're feelin' bad
'stead of feelin' sad
just remember that ram
whoops, there goes a billion kilowatt dam
all problems just a toy balloon
they'll be bursted soon
they're just bound to go pop
whoops, there goes another problem kerplop
-- Sammy Cahn & James van Heusen para Frank Sinatra, "High Hopes" (in No One Cares, Capitol, 1959)
24 de fevereiro de 2005
AINDA A PROPÓSITO DOS URSOS FELIZES E DE CANTAR NO CHUVEIRO
Como não cantar (no chuveiro ou noutro sítio qualquer) quando confrontado com esta jóiazinha (ainda por cima a €22,00 cada caixa de três CDs?)
23 de fevereiro de 2005
22 de fevereiro de 2005
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #14
Leio no metro/Metro (meio de transporte/jornal gratuito) sobre a existência de um grupo de moradores de Campo de Ourique que saltou em defesa do cinema Europa, que parece estar à beira de dar lugar a mais um bloco de apartamentos. Acho óptimo que se queira salvar o cinema Europa e a sua arquitectura tão anos 50, aquela assombrosa fachada cega e os alto-relevos estilizados, acho sempre óptimo que se queira salvar mais uma sala de cinema à beira do camartelo (pena é que não tenha havido mais manifestações do género quando tantos outros já foram destruídos).
Mas há vinte anos, talvez mais, que o cinema Europa não é sala de cinema aberta ao público, transformado durante grande parte dos anos 80 em estúdio televisivo da RTP, fechado desde que o canal público o deixou de usar. Há vinte anos, talvez mais, o cinema Europa não é equipamento cultural urbano, há pelo menos cinco anos que nada ali se passa. Não posso estar mais de acordo em devolver o cinema a Lisboa, mas urge que não aconteça o que aconteceu ao São Jorge, comprado pela Câmara Municipal em delírio eleitoralista de João Soares e deixado ao deus-dará numa programação tão sem rei nem roque como antes de fechar, apenas para dizer que existe e está aberto (e foi preciso a Festa do Cinema Francês e o IndieLisboa, iniciativas privadas, para provar que a sala pode ser rentável). E urge que não aconteça o que aconteceu quando, há algum tempo, um grupo de cidadãos iniciou uma campanha com vista à reabertura e requalificação do cinema Odeon, nos Restauradores, que terminou passados alguns meses após ter chamado a atenção das autoridades responsáveis para a situação daquela sala, mas sem que nada realmente tenha mudado.
Não tenho memórias do Europa enquanto espectador. Como de tantos outros cinemas de bairro de Lisboa — o Restelo, o Lumiar, o Paris (Estrela), o Royal Cine (Graça), o Salão Lisboa (Martim Moniz), o Cine Oriente (Sapadores), o Imperial (praça do Chile, mais tarde Pathé), o Lys (Intendente, mais tarde Roxy), o Rex (Socorro) — que ficavam "fora de mão" dos circuitos de estreia, dedicados às reprises ou às "continuações de estreia". Quando comecei a ir ao cinema em 1974/1975, eram salas "marcadas", que estavam já em declínio ou a encerrar. Mas são parte integrante de uma memória cinéfila que se tem vindo a perder com a cultura dos multiplexes, de um modo de pensar a construção e encenar o espectáculo que hoje não existe. O Europa é das mais extraordinárias manifestações arquitectónicas desse modo de pensar que conheço, mesmo que nunca tenha visto mais do que a sua fachada.
Mas há vinte anos, talvez mais, que o cinema Europa não é sala de cinema aberta ao público, transformado durante grande parte dos anos 80 em estúdio televisivo da RTP, fechado desde que o canal público o deixou de usar. Há vinte anos, talvez mais, o cinema Europa não é equipamento cultural urbano, há pelo menos cinco anos que nada ali se passa. Não posso estar mais de acordo em devolver o cinema a Lisboa, mas urge que não aconteça o que aconteceu ao São Jorge, comprado pela Câmara Municipal em delírio eleitoralista de João Soares e deixado ao deus-dará numa programação tão sem rei nem roque como antes de fechar, apenas para dizer que existe e está aberto (e foi preciso a Festa do Cinema Francês e o IndieLisboa, iniciativas privadas, para provar que a sala pode ser rentável). E urge que não aconteça o que aconteceu quando, há algum tempo, um grupo de cidadãos iniciou uma campanha com vista à reabertura e requalificação do cinema Odeon, nos Restauradores, que terminou passados alguns meses após ter chamado a atenção das autoridades responsáveis para a situação daquela sala, mas sem que nada realmente tenha mudado.
Não tenho memórias do Europa enquanto espectador. Como de tantos outros cinemas de bairro de Lisboa — o Restelo, o Lumiar, o Paris (Estrela), o Royal Cine (Graça), o Salão Lisboa (Martim Moniz), o Cine Oriente (Sapadores), o Imperial (praça do Chile, mais tarde Pathé), o Lys (Intendente, mais tarde Roxy), o Rex (Socorro) — que ficavam "fora de mão" dos circuitos de estreia, dedicados às reprises ou às "continuações de estreia". Quando comecei a ir ao cinema em 1974/1975, eram salas "marcadas", que estavam já em declínio ou a encerrar. Mas são parte integrante de uma memória cinéfila que se tem vindo a perder com a cultura dos multiplexes, de um modo de pensar a construção e encenar o espectáculo que hoje não existe. O Europa é das mais extraordinárias manifestações arquitectónicas desse modo de pensar que conheço, mesmo que nunca tenha visto mais do que a sua fachada.
21 de fevereiro de 2005
POLAROID: ALASKA SASHIMI
Desenho num saco, hoje, no ginásio: um urso polar feliz com um peixe no regaço, dois pauzinhos na mão esquerda e a legenda "ALASKA SASHIMI".
20 de fevereiro de 2005
DEMOCRACIA EM MOVIMENTO
Legislativas 2005
Resultados provisórios às 22h40
PS: 45,03% (119 deputados) 2.571.173 votos
PSD: 28,70% (73) 1.638.560
CDU: 7,57% (14) 432.134
CDS-PP: 7,27% (12) 414.826
BE: 6,38% (8) 364.263
Votantes: 5.709.364 (65,01%)
Abstenção: 3.073.527 (34,99%)
Brancos: 103.539 (1,81%)
Nulos: 63.759 (1,12%)
Dados actualizados pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (Stape)
Portugal pronunciou-se (ou, enfim, 65% da população portuguesa). Porque será que não estou surpreendido (nem pelo pronunciamento, nem pela abstenção)? E porque será que não me consigo esquecer dos tugas truculentos, de meia-idade, que ouvi em conversa de balneário, hoje de manhã, no ginásio, queixando-se de que os políticos são todos a mesma bandalheira independentemente da sua cor? Um deles dizia que "só votaria quando Portugal fosse um país democrático". Ironia: a democracia promove a demissão que mais procura evitar.
Resultados provisórios às 22h40
PS: 45,03% (119 deputados) 2.571.173 votos
PSD: 28,70% (73) 1.638.560
CDU: 7,57% (14) 432.134
CDS-PP: 7,27% (12) 414.826
BE: 6,38% (8) 364.263
Votantes: 5.709.364 (65,01%)
Abstenção: 3.073.527 (34,99%)
Brancos: 103.539 (1,81%)
Nulos: 63.759 (1,12%)
Dados actualizados pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (Stape)
Portugal pronunciou-se (ou, enfim, 65% da população portuguesa). Porque será que não estou surpreendido (nem pelo pronunciamento, nem pela abstenção)? E porque será que não me consigo esquecer dos tugas truculentos, de meia-idade, que ouvi em conversa de balneário, hoje de manhã, no ginásio, queixando-se de que os políticos são todos a mesma bandalheira independentemente da sua cor? Um deles dizia que "só votaria quando Portugal fosse um país democrático". Ironia: a democracia promove a demissão que mais procura evitar.
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #13
Fazendo o transbordo da "linha amarela" para a "linha azul" na estação de metro do Marquês de Pombal, ao descer a escada rolante que me leva ao cais da linha azul sentido Baixa-Chiado recordo-me da primeira escada rolante em que alguma vez andei na vida — precisamente no cais oposto, mas na anterior encarnação da estação, quando ainda tinha uma só linha e se chamava Rotunda, e se saía dela por um labiríntico sistema de corredores subterrâneos à praça do Marquês de Pombal. Aquela escada rolante era uma alegria. Mas, naquela altura, eu também gostava de elevadores.
19 de fevereiro de 2005
POLAROID
Uma senhora percorre a rua com uma menina de um, dois anos ao colo, bem agasalhada, que chora sem parar. A senhora procura acalmá-la, afagando-lhe o rosto, falando-lhe amorosamente, mas a menina não se cala. A senhora acaba por lhe lançar um grito. "Catarina! Francamente!" A menina continua a chorar.
17 de fevereiro de 2005
MARKETING POLITICO #5
A carta aos eleitores de José Sócrates tem um aspecto pobrezinho, linha de montagem, produção em massa. É curioso ver como as assinaturas de Sócrates e de Pedro Santana Lopes facsimiladas em ambas as cartas são igualmente anónimas.
A carta aos eleitores do CDS/PP é graficamente forte e apelativa; concorde-se ou não com as políticas, é uma peça de marketing cujo design (clássico e ao mesmo tempo moderno) se adequa na perfeição à mensagem que se quer passar, com um eficaz jogo de cores (o branco para facilidade de leitura, o azul forte do partido, o verde e vermelho da bandeira a servir de "tampão" discreto entre o azul e o branco). Continuo na minha, o PP parece-me claramente ter a estratégia de marketing mais afinada e bem pensada, e é curioso reparar como, na carta de Lisboa, se sublinha a antiga designação CDS em detrimento do PP.
Depois de Luís Filipe Menezes ter usado "tsunami", um outdoor do PSD a apelar à participação no comício de encerramento fala da "onda laranja [que] invade Lisboa". Não me parece do melhor gosto.
A carta aos eleitores do CDS/PP é graficamente forte e apelativa; concorde-se ou não com as políticas, é uma peça de marketing cujo design (clássico e ao mesmo tempo moderno) se adequa na perfeição à mensagem que se quer passar, com um eficaz jogo de cores (o branco para facilidade de leitura, o azul forte do partido, o verde e vermelho da bandeira a servir de "tampão" discreto entre o azul e o branco). Continuo na minha, o PP parece-me claramente ter a estratégia de marketing mais afinada e bem pensada, e é curioso reparar como, na carta de Lisboa, se sublinha a antiga designação CDS em detrimento do PP.
Depois de Luís Filipe Menezes ter usado "tsunami", um outdoor do PSD a apelar à participação no comício de encerramento fala da "onda laranja [que] invade Lisboa". Não me parece do melhor gosto.
16 de fevereiro de 2005
MARKETING POLITICO #4
Hoje tinha na minha caixa do correio a célebre carta ao eleitor, contra a abstenção, de Pedro Santana Lopes. Quero agradecer ao nosso primeiro-ministro demissionário por me ter iluminado com a sua sabedoria e me ter mostrado que o meu voto é verdadeiramente importante, diria mesmo, crucial para acabar de vez com o despautério em que Portugal se tornou nos últimos seis meses.
E quero também agradecer-lhe por me ter proporcionado o momento mais único que jamais vivi na minha carreira de eleitoral. Nunca uma peça de marketing tinha sido tão eficaz a insultar a minha inteligência — e já vi umas quantas.
E quero também agradecer-lhe por me ter proporcionado o momento mais único que jamais vivi na minha carreira de eleitoral. Nunca uma peça de marketing tinha sido tão eficaz a insultar a minha inteligência — e já vi umas quantas.
15 de fevereiro de 2005
O PAÍS REAL
Hoje, no Público, o habitual inquérito de rua versava o debate desta noite, perguntando aos transeuntes se achavam que ele iria ajudar os eleitores a tomarem a sua decisão. Entre uma doméstica que não liga à política e uma estudante que acha que não porque vai tudo votar em branco, havia uma deliciosa de um jovem que dizia, "eu acho que sim, mas sinceramente sou brasileiro".
13 de fevereiro de 2005
O ORÁCULO
O oráculo é como se chama aquela barra em movimento, no fundo do écrã, que se tornou hábito nos telejornais. Habitualmente, está cheia de gralhas, afirmações sem sentido ou non-sequiturs hilariantes, como hoje, no noticiário das 20h00 da RTP-1, em que breves frases sobre os dias de campanha dos partidos se viram entrecortadas pelo título "NABO GIGANTE EM FRONTEIRA".
O JOGO DAS ESCONDIDAS
De regresso a Lisboa, à saída da ponte 25 de Abril, vejo um carro da polícia parado do outro lado da estrada, na escapatória construída logo antes do tabuleiro. Está parado mesmo no cotovelo da escapatória, invisível a quem se dirige para a ponte. Estarão os agentes à cata de prevaricadores em alta velocidade, em operação de vigia, ou apenas a ler o jornal ou comer uma sandocha antes de pegar ou largar ao serviço?
LOGBOOK #22: INVERNO
Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 13 de Janeiro, 11h30: 16.1m, 48min, 13º C
Acho que nunca estive tão "ao largo" da Ponta da Passagem: o João Torres leva-me a contornar a "passagem" escavada na rocha costeira por fora, e é literalmente "por fora" — chegamos aos 16 metros e mais fundo iríamos se não tivéssemos dado meia volta, mas eu não me recordo de alguma vez ter saído tanto da "área conhecida". De qualquer maneira, a visibilidade está boa, as laminárias começam a aparecer (ainda em forma de enormes flores de um amarelo translúcido), sinal de que em breve começarão a aparecer muitos peixes. Um cardume vagueia por ali, brincamos com uma marinha que não parece mais fina do que um gressino, vejo um polvo a nadar elegantemente antes de se agarrar à rocha numa profusão de tentáculos. Mas está longe de ser o mergulho ideal: devo ter preso mal a máscara e lá se esgueira um jactozinho de água para o vidro esquerdo mais vezes do que seria necessário, treino a flutuabilidade mas continuo a estar demasiado pesado (vamos a ver se consigo tirar o quilo que já ando a querer tirar há muito tempo), está alguma corrente, de vez em quando puxo ar com tanta força que até puxo um bocadinho de água salgada. Ah, e a água também está fria, mas como levei o colete de aquecimento por baixo do fato, isso não foi problema. Excepto, claro, quando apanhámos com a deslocação do vento na viagem de barco de regresso a Sesimbra, porque aí rapei mesmo frio. E, apesar das luvas, as minhas mãos ainda se estão a queixar...
Acho que nunca estive tão "ao largo" da Ponta da Passagem: o João Torres leva-me a contornar a "passagem" escavada na rocha costeira por fora, e é literalmente "por fora" — chegamos aos 16 metros e mais fundo iríamos se não tivéssemos dado meia volta, mas eu não me recordo de alguma vez ter saído tanto da "área conhecida". De qualquer maneira, a visibilidade está boa, as laminárias começam a aparecer (ainda em forma de enormes flores de um amarelo translúcido), sinal de que em breve começarão a aparecer muitos peixes. Um cardume vagueia por ali, brincamos com uma marinha que não parece mais fina do que um gressino, vejo um polvo a nadar elegantemente antes de se agarrar à rocha numa profusão de tentáculos. Mas está longe de ser o mergulho ideal: devo ter preso mal a máscara e lá se esgueira um jactozinho de água para o vidro esquerdo mais vezes do que seria necessário, treino a flutuabilidade mas continuo a estar demasiado pesado (vamos a ver se consigo tirar o quilo que já ando a querer tirar há muito tempo), está alguma corrente, de vez em quando puxo ar com tanta força que até puxo um bocadinho de água salgada. Ah, e a água também está fria, mas como levei o colete de aquecimento por baixo do fato, isso não foi problema. Excepto, claro, quando apanhámos com a deslocação do vento na viagem de barco de regresso a Sesimbra, porque aí rapei mesmo frio. E, apesar das luvas, as minhas mãos ainda se estão a queixar...
12 de fevereiro de 2005
O QUARTO PODER
As palavras do primeiro-ministro demissionário Pedro Santana Lopes sobre o alegado mau tratamento do PSD às mãos da imprensa têm algo de "boa cama faz quem nela se deita", porque nenhum outro dirigente do PSD cortejou a imprensa como Pedro Santana Lopes o fez ao longo dos anos. Mas, de quem pensou em lançar uma central de comunicação, não é uma declaração surpreendente.
10 de fevereiro de 2005
A LÍNGUA INGLESA É MUITO TRAIÇOEIRA
Na minha loja de conveniência, junto às caixas há aqueles expositores para pequenas gourmandises como chocolates e pastilhas elásticas. Hoje, enquanto esperava para pagar o jornal, reparei nas etiquetas feitas por computador que marcam os preços das pastilhas elásticas. "Chic Ice Canela", dizia uma. Logo ao lado, a etiqueta referente às equivalentes de "spearmint" (hortelã-pimenta, geralmente de cor verde) referia "Chic Ice Sperm".
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #29
A tendência de colocar nos DVDs de filmes citações positivas de críticos americanos de publicações que ninguém em Portugal lê ou vê ou ouve.
8 de fevereiro de 2005
POLAROID: FNAC
Tarde de terça-feira de Carnaval. Em pleno café da Fnac do Chiado, uma senhora de idade está sentada numa mesa, um chá à frente, uma série de sacos, casacos e mala numa das cadeiras. Fala ao telemóvel, muito alto, e a sua conversa é partilhada por todo o café, com várias mesas ocupadas, mas relativamente silenciosas. A senhora diz que "estamos aqui no Chiado, viemos dar uma volta. Ele está bastante constipado", e mais algumas afirmações de ocasião. Dois homens travestidos de mulher entram, pedem cafés e sentam-se noutra mesa, como se nada fosse. Um deles, com aspecto bastante feminino, está bastante produzido, com uma saia longa e um chapéu vermelho numa toilette que deixa entrar o frio; o outro, mais masculino, com uma peruca, tem um kispo branco que lhe tapa o grosso da toilette, deixando apenas ver as meias e as botas de fantasia brancas. Nas cadeiras dispostas frente ao palcozinho, está sentado um negro com várias camadas de roupa e um lenço a envolver a cabeça, vários sacos ao seu lado no chão; quando passa o segurança, ele faz-lhe sinal com um sorriso, como quem diz "estou quase a ir-me embora".
6 de fevereiro de 2005
POLAROID: AV. D. JOÃO V
Esquina com a rua das Amoreiras, sábado, quatro da tarde. Ouço um ruído seco. Uma carrinha Audi, nova, impecavelmente preta, acaba de chocar com o Mercedes de modelo antigo mas em boa conservação á sua frente. Aparentemente, o Audi arrancou à espera que o Mercedes fizesse o mesmo, que não fez. Vapor branco sai do motor do Audi, que ficou com a grelha e o pára-choques amolgados, com a capota do motor entreaberta; há pedaços de carroçaria no chão. O Mercedes arranca lentamente para parar fora da faixa de rodagem, escassos metros à frente, e não incomodar o trânsito, mas o Audi já não mexe dali, e o condutor, depois de avaliar os estragos com um aspecto desanimado mas resignado, abre a mala para tirar o triângulo de sinalização. O Mercedes não apresenta absolutamente nenhum estrago.
MARKETING POLITICO #3
Novo outdoor para o PS, agora de fundo branco e com a frase "O voto que vai mudar Portugal". Sócrates está melhor nesta foto no que nos outdoors de pré-campanha, mas continua a haver algo ao lado na imagem. A concentração de mensagem está mais afinada e conseguida aqui no que em outdoors anteriores, mas é mais funcional que inspirado; também não me parece que seja por aqui, ainda por cima com uma frase tão vazia, que se vai convencer alguém.
5 de fevereiro de 2005
TRÊS SEMANAS
Faz, amanhã, três semanas que a minha mãe sofreu um enfarte, uma coisa extensa mas sem gravidade de maior. A surpresa foi tanto mais desagradável quanto ela era a última pessoa da família que nós achávamos atreita a problemas cardíacos, ainda por cima quando o meu pai usa um pacemaker há alguns anos e o meu irmão mais velho também tem problemas de coração. Depois de um rápido cateterismo que desbloqueou a artéria e uma semana em observação no Hospital de Santa Marta, onde foi impecavelmente tratada, regressou a casa — e, hoje como há duas semanas, passa o dia na cama, apavorada que possa sofrer um segundo enfarte, paralisada pelo pânico.
Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.
Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?
Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.
Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?
3 de fevereiro de 2005
MARKETING POLÍTICO #2
Novo outdoor, presumo que do PSD ou da JSD: algumas polémicas figuras socialistas atrás de José Sócrates com a legenda "Você quer que eles voltem?". Eles insistem num marketing negativo que pressupõe com confiança que a resposta do eleitorado é "Não", mas que não é capaz de admitir que a resposta do eleitorado pode ser "Sim". E, sobretudo, projecta uma imagem de quem, em vez de ter ideias para propôr ou uma atitude a defender, prefere atacar o adversário para desviar a atenção do que não tem para contrapor.
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