Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
7 de maio de 2005
...
Sabe bem uma tarde de sábado preguiçosa, o sol a entrar pela varanda enquanto faço as arrumações habituais de fim-de-semana (entre escolher jornais, pôr um pouco de ordem na secretária que a semana deixou em caos, trincar o pão com chouriço do supermercado em frente onde fiz as compras da semana, pôr cargas de roupa na máquina, pensar na sopa que vou fazer para o jantar).
6 de maio de 2005
O ASSEIO DO GATO
Esta manhã, quando saía de casa, deparei com um odor nauseabundo no meu patamar e dei com o meu tapete de entrada muito dobradinho. Encontrar o tapete dobradinho não é fora do vulgar, porque a porteira costuma lavar as escadas uma vez por semana e, depois de as lavar, encosta os tapetes dobrados às portas. O odor nauseabundo é que não era nada normal e, quando ouvi os miares desajeitados de um gato no patamar do 1º andar, percebi que um dos gatos do prédio tinha ficado fechado fora de casa durante a noite.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
Evidentemente, assim que desdobrei o tapete percebi que o gato tinha muito asseadamente deixado um pequeno "presente" no meu tapete (mas porquê no meu, quando há pelo menos sete outros no prédio?) e, depois de o ter feito, tinha asseadamente dobrado o tapete para não chamar a atenção para o seu deslize.
5 de maio de 2005
ELA SABE

From the 22nd floor,
walking down the corridor,
looking out the picture window down
on Sycamore.
While perspective lines converge,
rows of cars and buses merge.
All the sweet green trees of Atlanta burst
like little bombs;
or little pom-poms,
shaken by a careless hand
that dries them off
and leaves again.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell
inside a cell
of the Lennox Hotel.
On the 22nd floor —
found a notice on my door.
While outside, the sun is shining on
those little bombs —
those little pom-poms.
Life just kind of empties out,
less a deluge than a drought,
less a giant mushroom cloud
than an unexploded shell;
inside a cell
of the Lennox Hotel.
- Aimee Mann, "Little Bombs", in "The Forgotten Arm" (Superego Records/V2, 2005)
(Podem ouvir e, sobretudo, ler este sublime álbum aqui.)
4 de maio de 2005
3 de maio de 2005
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #31 (no âmbito da presidência temática do Exmo. Sr. Presidente da República)
Condutores que, em zonas de obras com bermas elevadas ("speed bumps" em inglês), em vez de manterem uma velocidade baixa constante, aceleram entre cada berma para quase travarem o carro para proteger a suspensão.
2 de maio de 2005
PEQUENO PROTESTO JUNTO DO SINDICATO
Isto não se faz. Então não é que os meus bloguistas preferidos andam todos a fugir com o rabo à seringa e passam semanas sem dar notícias? Alexandre, Nuno, R. (a ordem é estritamente alfabética), façam lá a fineza de não me deixar para aqui a falar sózinho. OK?
POLAROID: BALNEÁRIO
Pelo meio dos bancos de metal e madeira e dos cabides, dois homens ensaiam uma coreografia de dança de salão, sem os requebros de espectáculo. Um deles, colarinho aberto na camisa negra, cordão ao pescoço, cabelo escorrido apanhado num rabo de cavalo, conta os passos e lidera a coreografia, ajudando o outro a colocar os braços, as mãos, os pés.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
O meu telefone toca no cacifo do balneário. É um operador de telemarketing do meu serviço de televisão por cabo, que, segundo o meu telemóvel, já ligou uma vez anteriormente. Tem sotaque brasileiro, como aliás quase todos os operadores que me ligaram do serviço nas últimas semanas. Digo-lhe que neste momento não é conveniente e me está a incomodar; ele pergunta se pode ligar amanhã à mesma hora.
1 de maio de 2005
EVREUX (a geografia do remorso)
Continuo apaixonado por este disco.

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

mardi 3 janvier 20h20
dans un restaurant vietnamien
sur les trottoirs
il neige un peu
à Evreux
dans la salle vide un poisson
capturé en mer du Japon
se cogne dans un carré bleu
à Evreux
et dans ma tasse de saké
une femme nue apparaît
je crois que tu vas me manquer
après
le serveur un peu maladroit
et vietnamien autant que moi
débarqué
en 82
à Evreux
le plat numéro 43
c’est du porc avec du soja
et le canard
c’est pour monsieur
à Evreux
et dans ma tasse de saké
la femme nue a disparu
je crois que tu vas me manquer
tu crois qu’il neige dans la rue
dans un restaurant vietnamien
tu as laissé passer ma marque
dans tes cheveux
tu vas me manquer
tu vas me manquer
un peu
tu vas me manquer un peu
tu vas me manquer un peu.
- Vincent Delerm, "Evreux", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
30 de abril de 2005
SÁBADO À TARDE [post com linguagem potencialmente ofensiva, uma palavra, no último parágrafo]
Os sábados à tarde parecem ser o dia preferido para nos baterem à porta, vindos de associações de apoio aos toxicodependentes, dos guarda-nocturnos, das testemunhas de Jeová ou outras crenças religiosas. É um clássico. Hoje, foi a vez da pobreza envergonhada deste Portugal em crise me bater à porta — com uma certa (apenas aparente?) dignidade magoada intersectando por um instante a pacatez de um sábado preguiçoso e ensonado, com uma daquelas rocambolescas peripécias que, exploradas de uma outra maneira, estariam à medida de um caso da vida da TVI. E que, na falta de comprovação objectiva e idónea, não permite uma recusa sem tombar na humilhação desnecessária.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
A esse propósito, recordei-me, vá-se lá saber porquê, então do homem que uma vez encontrei, já há mais de dez anos, uma noite de sábado na avenida de Roma, com a voz nervosa, contando uma rocambolesca história de ter sido roubado e não ter meios para regressar ao quartel (seria Santarém?), demasiado rebuscada para poder ser inteiramente verdade, faltando-lhe apenas meia dúzia de trocados para ter o dinheiro do bilhete completo etc, e a quem dei a proverbial desculpa do não ter trocos para o ajudar.
Algumas semanas depois, numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, com a mesma história, em plena rua da Escola Politécnica — e digo-lhe precisamente que semanas antes já me tinha contado a mesma história.
Na semana seguinte, de novo numa tarde de sexta-feira, sou abordado pelo mesmo homem, que, apanhando-me de costas, me começa a dizer "o senhor desculpe" mas, assim que me viro, me reconhece e se afasta rapidamente, gritando "Foda-se!...", amaldiçoando a sua vida por abordar três vezes seguidas com a mesma história a mesma pessoa.
29 de abril de 2005
28 de abril de 2005
UMA QUESTÃO DE BOM GOSTO
Só em Lisboa é que há taxistas trintões que têm o CD do "Infected" dos The The a correr no carro. Só tive pena de ter entrado já o "Slow Train to Dawn" estava a acabar.
26 de abril de 2005
YOU MAGNIFICENT PAGAN GOD, YOU
- É verdade que só faz filmes que pagaria para ver?
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
- Definitivamente. E pago sempre - adoro ver-me no écrã!
- A maior parte dos actores dizem que odeiam ver-se no écrã.
- Estão a mentir.
(Samuel L. Jackson a Brantley Bardin, na edição de Março de 2005 da Première americana)
24 de abril de 2005
LOGBOOK #25: CHAMA O GREGÓRIO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 24 de Abril, 10h51; 11,6m, 11 min, 13º C
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
O "passeio à rua da asneira" é uma velha definição lá de casa para aquelas coisas que se fazem debalde ou que correm completamente ao contrário do que se esperaria — o que foi exactamente o que aconteceu neste "magnífico" dia de mergulho, um daqueles em que uma pessoa se pergunta "mas exactamente porque é que eu faço isto?".
No exacto mesmo spot que, a semana passada, estava cheio de pedras, vida, visibilidade extraordinária e água calminha, esta semana não se passa nada. Ou melhor: passaria, não fosse o ferro ter derivado o barco para longe das pedras e em cima da areia, ainda por cima com uma água em verdadeiro caldo verde de visibilidade quase zero. Eu e o Pedro descemos pelo cabo, chegamos lá abaixo, não vemos um palmo à frente do nariz, voltamos a subir, 30 segundos no fundo se tanto. Cá em cima, perguntamo-nos se valerá a pena voltar a tentar; o resto da "expedição" é um grupo de amigos do Norte em fim-de-semana de mergulho na terra dos mouros, para quem visibilidade deste calibre é o pão nosso de cada dia nas imersões nortenhas, que descem todos na maior. Lá decidimos tentar a nossa sorte e, chegados aos onze metros, nadamos em direcção à costa durante alguns metros, sem contudo encontrar a dita cuja pedraria. O Pedro faz-me sinal para fazermos meia-volta, fazemos meia-volta, ao fim de algum tempo sem encontrarmos o cabo faço-lhe sinal para subirmos antes que nos perdamos. Estamos, afinal, a poucos metros do barco e passaram-se dez minutos de imersão numa espessa sopa de suspensão verde e algas em flutuação. O pior, contudo, sei-o bem, está ainda para vir.
E, ao fim de dez minutos à superfície no barco balouçante, à espera que os outros dez invictos regressem do passeio, começam os arranques, os espasmos, a bílis — o enjôo de mar em todo o seu esplendor e beleza, que não mais me largará na longa viagem de regresso a Sesimbra. Longa, porque, para além da quase hora de espera pelos companheiros, tenho ainda de passar por uma visita de rotina da Polícia Marítima; um pedido de ajuda de um grupo de caiaqueiros em problemas (que acabarão por ser socorridos, depois da nossa primeira abordagem, pela Polícia Marítima); e a mudança de depósito de combustível do barco. À minha volta, os simpáticos e bem-dispostos nortenhos mostram-se compreensivos da minha situação (um deles confessa-se igualmente bastante sensível a movimentações ondulatórias) enquanto mastigam bolachas sortidas e, imagine-se, rissóis de camarão. Eu agarro-me à minha garrafa de água de litro e meio, aterrorizado que um mero golo me devolva os espasmos biliares que bem conheço e que tanto detesto. Atracando, sou o primeiro a sair, com a garrafa de água na mão, e dirijo-me lentamente ao centro enquanto os outros descarregam o material, para tirar o fato húmido que me está justo e vestir uma roupinha mais quente, reencontrar o equilíbrio.
Esqueço-me que voltei a mergulhar sem problemas com o tal quilo de lastro a menos, que a decisão de abortar o mergulho foi tomada em plena consciência, que apliquei com alguma lucidez noções básicas de navegação subaquática, que a subida do mergulho foi feita devagarzinho e na perfeição; esqueço-me de tudo isto porque não dá realmente grande prazer mergulhar pelo prazer nestas condições de visibilidade e, quando ainda por cima o gregório ataca, tudo se transforma num pesadelo. Nem as pulseiras homeopáticas funcionam. Mas também é verdade que, no mais das vezes, o mergulho não é isto, e isto é a excepção.
22 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
No meu centro de saúde, há uma "auxiliar administrativa" que parece ter um especial prazer em atender mal as pessoas, como se estivesse acima delas, com um ar terrível de frete. Essa "auxiliar administrativa" não estava presente na minha mais recente visita, mas parece-me que o seu método começou a fazer escola, sobretudo desde que entidade incerta decidiu que a partir de agora apenas é possível marcar consulta para a semana seguinte. Ou seja: eu ligo hoje para marcar consulta para de hoje a oito dias, e se não houver vaga não me podem marcar para a data seguinte -- terei de voltar a ligar amanhã, e assim ad infinitum. Depois, uma simpática "auxiliar administrativa" revelou-se estar também a aprender na escola da outra -- quando eu lhe passo uma nota de €20,00 para a mão para pagar a consulta, ela pega na nota, a guarda sem dar cavaco às melgas e me diz "não tenho troco". Não será, é certo, o mais estimulante dos empregos do mundo. Mas também não é necessário tratar as pessoas com tanta displicência.
A burocracia é uma coisa linda.
A burocracia é uma coisa linda.
21 de abril de 2005
POLAROID: CENTRO DE SAÚDE
As salas de espera dos centros de saúde, à tarde, são preenchidas pelo público-alvo dos programas de televisão de manhã e de tarde e das revistas de televisão e de VIPs. São as mesmas senhoras de meia-idade que a vida se encarregou de reduzir a um estereótipo da "vizinha" que está sempre à coca e sabe tudo o que se passa no prédio. Como a senhora que, esta tarde, acompanhava a filha com um violento ataque de tosse à consulta do médico de família e sabia perfeitamente a que horas o médico tinha chegado, que números já tinham entrado, que números ainda faltava chamar e que ela não iria ficar para o fim porque números posteriores ao dela já tinham sido atendidos porque chegaram cedo e os números anteriores ainda não tinham chegado.
20 de abril de 2005
18 de abril de 2005
KENSINGTON SQUARE
Estou apaixonado por este disco.

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)

alors vous avez emprunté
la Bentley bleu pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans les quartiers des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square
surtout ne pas abîmer
les fauteuils cuir marron clair
surtout ne laisser traîner
aucun papier à l’arrière
dans la soirée qui descend
sur les premiers lampadaires
vous serez assis sur les bancs
de Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment ou le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
vous venez de dépasser
ce monument funéraire
fréquemment photographié
dans les vieux manuels scolaires
elle craint de n’avoir pris
en passant par St John’s Street
réellement un raccourci
elle remonte un peu sa vitre
tu essaies de temps en temps
une conversation nouvelle
elle ne répond pas vraiment
tu déballes un caramel
les autobus qui défilent
plus que quelques mètres à faire
tout sera tellement facile
à Kensington Square
pourtant il ne se passera à peu près rien entre vous
que ce moment où le bras serré autour des genoux
elle dira “nous avons bien fait”
et c’est peut-être à cet instant qu’il aurait fallu
qu’il fallait
et tu regretteras longtemps
longtemps après
sur les pelouses de Kensington
tu n’as pas su lire les pensées
de ce cardigan qui frissonne
de la main qui vient d’arracher
les feuilles rougeâtres d’un prunier
elle te déposera chez toi
devant le portail de l’entrée
et dans la nuit tu entendras
tes propres lèvres murmurer
“c’était une excellente soirée”
alors vous avez emprunté
la Bentley bleu-pâle de son père
elle a conduit mâchoire serrée
dans le quartier des affaires
au début de la soirée
Oxford Avenue l’année dernière
vous vous êtes dirigés
vers Kensington Square.
- Vincent Delerm, "Kensington Square", in "Kensington Square" (Tôt ou Tard, 2004)
17 de abril de 2005
LOGBOOK #24: O PASSEIO DO CHOCO
Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 17 de Abril, 11h16; 42min, 9.7m, 14ºC
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.
Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.
Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.
16 de abril de 2005
POLAROID: VIZINHA À JANELA
No rés-do-chão do prédio ao lado, mora — presumo que com a família — uma daquelas velhotas "à antiga portuguesa", que passa o dia à janela, a ver quem passa (mas mais quem não passa, que a rua não é assim tão concorrida). Mas, de longe em longe, a senhora lá me dirige a palavra. "Olhe, o senhor desculpe, faz favor diz-me as horas?" E eu penso que, provavelmente, a senhora quer saber há quanto tempo está à janela; quanto tempo mais vai ali ficar; se está ali a fazer horas até ao almoço, até ao jantar, até ao lanche. Só à noite é que ela não está à janela.
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