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17 de abril de 2005

LOGBOOK #24: O PASSEIO DO CHOCO

Sesimbra: Cova da Mijona, domingo 17 de Abril, 11h16; 42min, 9.7m, 14ºC

Cova da Mijona, que é como quem diz Vale das Couves, que é como quem diz Pedra do Guindaste; parece não haver consenso sobre a designação da baixa de rochas que, a meio caminho entre o porto de Sesimbra e o Cabo Espichel, muito antes da Marca das 3 Milhas, se espalha aí por meia milha a profundidades entre os quatro e os dez metros, repletas de anémonas, peixinhos, e, nesta manhã ventosa e carregada de domingo, uma dúzia de mergulhadores a matar o vício, fugindo à provável enchente para os lados do Cabo Afonso.

Resguardado do vento, o mar está aqui chão, a visibilidade promete aí oito metros (pontualmente baixa para os cinco), só a temperatura da água não ajuda (aos 40 minutos, o Fernando, cheio de frio por baixo do fato de 5mm, atira a toalha e, cinco minutos depois, é a Teresa quem pede para subir). Mas o passeio é não apenas um passeio muito simpático por entre rochas e mais rochas, com as lanternas a iluminarem recantos, com um choco displicentemente nadando por ali como se não fosse nada com ele, é também uma oportunidade de testar a flutuabilidade com um quilo de lastro a menos — e estou todo orgulhoso, que passei o mergulho todo quase sem pôr ar no colete, controlando a flutuabilidade só com a respiração, e ainda vim para cima com meia garrafa de ar, com a Teresa a comentar que eu consumo muito pouco ar.

Faz bem ao ego ouvir estas coisas, caramba! Ainda por cima após dois meses sem ir à água. Mas ainda há trabalho a fazer.

16 de abril de 2005

POLAROID: VIZINHA À JANELA

No rés-do-chão do prédio ao lado, mora — presumo que com a família — uma daquelas velhotas "à antiga portuguesa", que passa o dia à janela, a ver quem passa (mas mais quem não passa, que a rua não é assim tão concorrida). Mas, de longe em longe, a senhora lá me dirige a palavra. "Olhe, o senhor desculpe, faz favor diz-me as horas?" E eu penso que, provavelmente, a senhora quer saber há quanto tempo está à janela; quanto tempo mais vai ali ficar; se está ali a fazer horas até ao almoço, até ao jantar, até ao lanche. Só à noite é que ela não está à janela.

15 de abril de 2005

ARQUEOLOGIA

Nunca ninguém disse que era fácil andar aqui dentro a remexer — nunca se sabe bem o que se pode encontrar. Mas há casos em que não se pode andar para a frente de outra maneira.

14 de abril de 2005

À ESPERA DO CANTO DA SEREIA



O título explica muito bem porque é que o álbum é um falhanço. Mas o tema-título é uma jóia preciosa — das mais belas canções que os New Order jamais gravaram.

what does this ship bring to me
far across the restless sea
waiting for the sirens' call
I've never seen it here before
there she plies a lonely trail
cutting through the breaking waves
drifting slowly from her course
she is lost forever more
we all want some kind of love
but sometimes it's not enough
to the wall and through the door
with the stranger on the shore
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone

got to catch a midnight train
first to Paris then to Spain
travel with a document
all across the Continent
city life is flying by
the wheels are turning all the while
get on board we can't be late
our destination cannot wait
all the stars and all the worlds
filling up this universe
could never be as close as us
will never shine as bright on us
I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
when you're gone

I won't desert you
I don't know what to say
I really hurt you
I nearly gave it all away
I got it all wrong
'cause you were not the wrong one
and I don't know where
to turn
when you're gone
how many times must I lose my way
how many words do I have to say
what can I do just to make you see
that you're so good for a man like
a man like me?

ESTÁ NA ALTURA DE ACTUALIZAR ALGUMAS SUPERSTIÇÕES

Se de facto encontrar aranhas em casa (daquelas mínimas) anunciasse dinheiro, eu já tinha ganho vários Euromilhões ao ritmo a que as ando a ver.

13 de abril de 2005

PLAYLIST #1

Há coisas que a música faz por mim que mais ninguém ou mais nada consegue.

Beck - "Broken Drum" (in "Guero", Interscope 2005)
Benjamin Biolay - "Mon amour m'a baisé" (in "À l'origine", Virgin 2005)
Bruce Springsteen - "Devils & Dust" (in "Devils & Dust", Columbia 2005)
Kaiser Chiefs - "I Predict a Riot" (in "Employment", B-Unique 2005)
Márcio Faraco - "Cidade" (in "Com Tradição", Universal 2005)
Melissa Etheridge - "Tuesday Morning" (in "Lucky", Island 2004)
New Order - "Krafty" (in "Waiting for the Sirens' Call", London 2005)
Old Jerusalem - "A Feast of Our Communion" (in "Twice the Humbling Sun", Bor Land 2005)
Skank - "Amores Imperfeitos" (in "Cosmotron", Epic 2003)
Vincent Delerm - "Veruca Salt & Frank Black" (in "Kensington Square", Tôt ou Tard 2004)
Vinicius Cantuária - "Tokyo" (in "Horse and Fish", Hannibal 2004)

12 de abril de 2005

PEQUENA ODE AOS POSSUIDORES DE CARRINHAS AUDI E MERCEDES TOPO DE GAMA

Detesto-vos, sobretudo quando eu estou a ultrapassar outro automóvel e vocês se encostam à minha traseira numa de "despacha-te lá com essa merda, ó pindérico que estás armado em Fangio com um carrinho que não dá sequer cem à hora". Já se esqueceram de quando tinham um carrinho que não dava sequer cem à hora, é?

11 de abril de 2005

TRATADO DA SEDUÇÃO

"De início, a ideia de o conhecer inquietava-me, mas, depois, senti-me aliviada. A sedução entre os seres humanos é cruel. O Jean-Louis não tem crueldade, mas muita doçura. Era muito reconfortante, para cantar, não estar na crueldade, na distância. Estamos numa proximidade, numa intimidade. (...) A sedução existe, mas é difusa, na duração, não na compulsão ou na aplicação sexual. (...) O Jean-Louis é de tal modo sedutor que temos vontade de abrir excepções com ele.

- Você acha-me sedutor porque a compreendo bem.

- Não, acho-o sedutor mesmo apesar de mim própria. Acho-o sedutor fisicamente, quimicamente, mas de uma maneira que me é familiar. O Jean-Louis olha-me de uma maneira extremamente benevolente. Até o meu marido reparou. Não me sinto estranha com ele. Há pessoas cujo olhar nos melhora, também sinto isso com o meu amigo Léos Carax, é muito raro. Normalmente, olham-me sem me dar, para me levar. Segundo o olhar, as minhas possibilidades aumentam. E um olhar de través pode-me fazer dar um passo atrás. (...) É isso o amor e a amizade: dar às pessoas um belo olhar."


Carla Bruni e Jean-Louis Murat em entrevista aos Inrockuptibles, na edição de 30 de Março último.

(Claro que em francês tem muito mais charme.)

10 de abril de 2005

QUANDO FOR GRANDE

...quero escrever como a Nancy Gibbs, da Time.

Não por concordar com o que ela diz; mas porque ela sabe usar as palavras como matéria-prima moldável, plasticina transformável no que ela bem entender. É muito bom ver alguém que faz da palavra o seu mester; e muito raro ver alguém que sabe exactamente como obter o efeito pretendido.

8 de abril de 2005

INFORMAÇÃO AO CONDUTOR

Veículo pesado
Báscula de aço — não marrar!
Equipado com travões de disco às quatro rodas e ABS
Mantenha distância de segurança mínima — 10 metros


(escrita em tinta cinzenta, em letras maiúsculas bem legíveis, na traseira da caixa aberta metálica de uma camioneta Mitsubishi Canter vista no trânsito de Lisboa)

7 de abril de 2005

BUCOLISMOS URBANOS

Por vezes, quando passo diariamente na Marginal junto à Cruz Quebrada, no cruzamento que leva ao Jamor, cruzo-me com os soldados da GNR que patrulham a zona a cavalo, com um trote descontraído, pela berma da estrada. O ruído compassado das patas dos cavalos pelo meio das buzinas e dos motores, a estranheza da visão quase arcaica de polícias a cavalo pelo meio do trânsito apressado cria um efeito de desajuste, uma espécie de ruptura espácio-temporal que coloca um certo passado e o presente lado a lado, que contrasta os modos antigos e descontraídos "de um tempo ausente" com a impiedosa velocidade dos nossos dias — sem que nenhum deles saia vencedor.

6 de abril de 2005

POLAROID HCL: CHAMA O FRANCISCO

Uma das auxiliares da Radiologia do Hospital de São José chega à porta automática da sala de espera cheia e começa a chamar pessoas a partir de alguns papéis que tem na mão, com uma voz de cana rachada (como os que identificamos com as cantadeiras de folclore) e um sotaque misto de província nortenha e suburbano. "Sr. Francisco. Sr. Francisco?" Chama três, quatro vezes o "sr. Francisco" sem obter resposta. Dirige-se a um senhor de idade deitado numa maca. "O senhor aí, como se chama?" O senhor da maca não responde, vira-se para a esquerda, talvez procurando alguém que o acompanhe, ou apenas a ver se a auxiliar está a falar com outra pessoa. "O senhor como se chama?" insiste a auxiliar. O senhor da maca percebe finalmente que é com ele. "Eu? Humberto Silva." "Não é Francisco, pois não?" insiste a auxiliar.

5 de abril de 2005

POEIRA

Ele voltou. E se o resto do álbum for desta (altíssima) craveira, ainda vale a pena ter heróis.

I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust

I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust

well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise

we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust

now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust

well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.


— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"

MISTÉRIO ANTROPOLÓGICO #1

Nunca percebi porque é que algumas pessoas prendem a fralda da camisa por dentro das cuecas. Pessoalmente, acho pouco higiénico. Mas parece que é uma prática bastante corrente.

4 de abril de 2005

MESA DE CABECEIRA

Uma garrafa de litro e meio de água do Luso, encetada; um rádio-despertador da Sony sintonizado na TSF; um corta-unhas; uma lata de creme Nivea; um tubo de Canesten fora de prazo (que ando para deitar fora há semanas, não é tarde nem é cedo, é mesmo hoje); uma caixa de Valdispert com um único comprimido lá dentro; uma calçadeira de plástico verde; um exemplar da edição de bolso da Penguin da tradução inglesa do tratado sobre a guerra de Clausewitz.

3 de abril de 2005

ROSEBUD

Morreu o Papa João Paulo II, e que descanse em paz; seja-se religioso ou ateu, praticante ou não, havia de facto qualquer coisa especial naquele homem, qualquer coisa digno de respeito e admiração.

Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.

Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.

30 de março de 2005

TEST DRIVE

O facto do novo código da estrada prever sanções duras para quem conduzir enquanto fala ao telemóvel parece não ter afectado o jovem executivo que, esta tarde, guiava um automóvel marcado com o autocolante "test-drive" com o aparelho colado ao ouvido esquerdo.

Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.

29 de março de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #58

Imiscuir.

SONHO DE SEGUNDA-FEIRA A SEGUIR AO DOMINGO DE PÁSCOA

Entro no cinema Condes, que já não é cinema mas antes uma sala-museu cujo interior claramente é demasiado grande para o gaveto dos Restauradores onde ele fica; lá dentro, uma sucessão de salas em estilos arquitectónicos medievais que passam pelo barroco manuelino e pelos interiores do Tivoli, do Império e do Eden até descambar num salão Luís XV no último piso com mesinhas de café modernas, com portas abertas para o interior da sala. Mas não entro; dirijo-me a uma outra porta que dá para um quarto de dormir. Ajoelho-me frente à cómoda e abro uma gaveta, onde, por baixo de camisas, encontro uma selecção de revistas de actualidades e um álbum de fotografias. Pego nas revistas, fecho a gaveta e dirijo-me para a saída do cinema, mas cá fora percebo que as revistas não são aquelas que eu queria.

(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)

28 de março de 2005

SONHO DE DOMINGO DE PÁSCOA

As águas negras que vêm sabe-se lá de onde chegam em paz, transportando enormes blocos de gelo negro e centauros bondosos e lúbricos, um dos quais se atrela de imediato à minha amiga e desce com ela o Parque Eduardo VII, olhando de vez em quando para mim que vou atrás a conversar com outro que me diz "ele é mesmo assim, não ligues".

(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)

27 de março de 2005

DOMINGO DE PÁSCOA (QUESTÃO PARA QUEM AINDA SE DÁ AO TRABALHO DE VER TELEVISÃO)

Antes do advento da televisão por cabo (e dos seus "57 channels and nothing on", para citar Springsteen), nos tempos dos dois canais institucionais (que a RTP Memória tanto tem feito para nos fazer recordar com prazer), era impossível fugir à programação pascal. Mas, agora que há os tais "57 channels" e que 52 deles se comportam como um canal de televisão normal sem programação alusiva, agora que o domingo televisivo de Páscoa é apenas mais um domingo, será que se perdeu alguma coisa? Será que esta vulgarização do feriado funciona como sintoma de um afastamento dos "valores cristãos" por parte da sociedade como um todo, ou antes pelo contrário é um prenúncio de um maior afastamento ainda (vide as "self-fulfilling prophecies"? E isto tem alguma importância que não seja meramente sociológica?

26 de março de 2005

CHRYSLER NEON

Em dois dias sucessivos, já deu para perceber que os condutores que optam pelo recém-introduzido em Portugal Chrysler Neon não primam pela cortesia nem pelo civismo. Um queria ultrapassar numa rua estreita de dois sentidos; o outro ultrapassa pela direita e acelera em cima da passadeira. Coincidência?

25 de março de 2005

POLAROID: MASSA E FEIJÃO

Armazéns do Chiado, 14h30: em frente à loja das sopas, uma senhora grita, alto e bom som, a quem a quiser ouvir, perante o desespero das empregadas, que "vão roubar para outro sítio, isso não tem carne, é só massa e feijão". A senhora está vestida de negro, um casaco e uma saia curta a realçar as formas do corpo, sapatos de salto alto e meias de fantasia, maquilhagem carregada e cabelo louro platinado a esconder a meia idade, mala escura e saco de compras, voz rouca a gritar alto e bom som, chamando a atenção de quem passa e de um segurança da loja. A gritaria insiste, dez, quinze minutos. Não cheguei a perceber em que se resolveu a questão, mas, minutos mais tarde, a senhora estava a protestar junto da recepção do centro à recepcionista de serviço, que a ouvia educadamente a contar uma história como quem sabia que tinha ali uma audiência cativa.

24 de março de 2005

GOURMET CHEWING GUM

Estive retido numa fila para pagar jornais numa tabacaria por causa de um jovem executivo indeciso sobre a variedade de pastilha elástica a adquirir.

23 de março de 2005

BOB DYLAN ESTÁ DE SAÚDE E RECOMENDA-SE A VIVER ALGURES NO MASSACHUSETTS

Ele sabe. Ele sabe sempre.

Lucy jumped from the 39th floor
said she just couldn't face another poor man
every jukebox stuck on The Who's Next
well, that almost got me when Jimmy said

let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates

Penny walked in with that Love in Vain look
said every last man should be hanging from a meat hook
looked in my eye, singing Marry Me Bill
I loosened my tie just as Jimmy said

let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates

and I was so depressed today...

Bobby said we're going to get rich quick
you buy a brand new car
they give you automatic cash back
pick up a parking lot, no money down
he was counting the cost just as Jimmy said

let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates


-- Lloyd Cole, "Let's Get Lost", in "Love Story" (Fontana, 1997)

21 de março de 2005

COMO ESVAZIAR QUALQUER SALA DE ESPERA

Deixar o televisor no canal por cabo da Assembleia da República durante uma discussão do programa do governo.

20 de março de 2005

DIZ O ROTO AO NU

Alguém lhe pode explicar, por favor, que ele é a última pessoa com autoridade para dizer este tipo de coisas? Obrigado.

O LUTADOR

Isto, minhas senhoras e meus senhores, é poesia. A canção popular raras vezes terá sido tão perfeita.

I am just a poor boy.
Though my story's seldom told,
I have squandered my resistance
for a pocketful of mumbles,
such are promises.
All lies and jest,
still a man hears what he wants to hear,
and disregards the rest.

When I left my home
and my family,
I was no more than a boy
in the company of strangers
in the quiet of the railway station
running scared,
laying low,
seeking out the poorer quarters
where the ragged people go,
looking for the places
only they would know.

Asking only workman's wages
I come looking for a job,
but I get no offers,
just a come-on from the whores on Seventh Avenue.
I do declare,
there were times when I was so lonesome
I took some comfort there.

Now the years are rolling by me
they are rocking evenly
I am older than I once was
younger than I'll be
but that's not unusual
no it isn't strange
after changes upon changes
we are more or less the same
after changes we are more or less the same.

Then I'm laying out my winter clothes
and wishing I was gone,
going home
where the New York City winters
aren't bleeding me,
leading me,
to go home.

In the clearing stands a boxer,
and a fighter by his trade,
and he carries the reminders
of ev'ry glove that laid him down
or cut him till he cried out
in his anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving".
But the fighter still remains.


-- Paul Simon para Simon & Garfunkel, "The Boxer", 1968

19 de março de 2005

A TEORIA DA CONSTIPAÇÃO

Não sei se repararam. Mas, nas reportagens dos protestos da Bombardier, enquanto os trabalhadores se manifestavam, um agente da polícia puxava de um pacotinho de plástico e tirava um lenço de papel para se assoar. Lenço esse de cor verde (mentolado?). Afinal, a polícia também tem direito à sua constipaçãozinha, mesmo no meio dos protestos da classe trabalhadora.

18 de março de 2005

15 de março de 2005

JAYWALKING

Às vezes, faço o exercício de olhar para as coisas como se fosse estrangeiro e nunca as tivesse visto antes na vida, e estivesse agora a deparar-me com elas pela primeira vez. Por vezes, faço esse exercício deliberadamente; por vezes acontece-me sem eu dar por isso, porque estava a pensar noutra coisa. Hoje, dei por mim a pensar que os estrangeiros devem achar muito peculiar o facto dos portugueses terem passeios na rua mas preferirem andar pelo meio da estrada e terem passadeiras para atravessar a estrada mas escolherem sempre fazê-lo fora das passadeiras ou sem respeitarem os sinais.

Em tempos, disseram-me que nos Estados Unidos quem atravessa fora da passadeira pode ser multado. Acabei de encontrar a maneira ideal dos cofres do Estado cobrirem o eterno défice.

13 de março de 2005

ADEUS, DRAGON INN

— Sabe que este cinema está assombrado?
Este cinema está assombrado.
Fantasmas...
— Sou japonês.
— Sayonara.
— Sayonara.

— Professor Miao?
— Shih Chun!
— Veio ver o filme?
— Já há muito tempo que não venho ver nenhum...
— Já ninguém vem ao cinema.
E já ninguém se lembra de nós.


As doze linhas acima são todo o diálogo falado pelo elenco de "Adeus, Dragon Inn", de Tsai Ming-Liang, agora em exibição em Lisboa, ao longo da totalidade da duração do filme. E é falado por apenas quatro dos oito actores do filme; os restantes quatro não dizem nada. Em rigor, "Adeus, Dragon Inn" não é um filme convencional; é uma atmosfera texturada, uma experiência radical, um objecto-limite. Fosse este filme português, haveria quem se insurgisse contra o seu hermetismo; na sessão a que fui, houve bastante gente a sair durante a projecção. Lembrei-me de "Comboio de Sombras", de José Luís Guerin, com uma diferença: eu não gostei nada de "Comboio de Sombras", enquanto que "Adeus, Dragon Inn" me tocou bem fundo na nostalgia do "velho" cinema, porque este é um filme sobre um cinema moribundo, sobre uma sala de Taipei que projecta a sua última sessão (precisamente com o filme "Dragon Inn", um clássico das artes marciais de King Hu). O cinema Fu-Ho povoado de fantasmas (mas serão realmente fantasmas?) poderia ser um qualquer Monumental, Império, Condes, São Jorge, Avis, salas grandiosas de uma outra era projectando uma última sessão para um auditório vazio. "Adeus, Dragon Inn" poderia ser apenas um filme nostálgico, mas o modo como trabalha essa nostalgia, dilatando a experiência da última sessão, desintegrando-a na distensão de todas as rotinas quotidianas dos empregados da sala, empresta-lhe uma dignidade e uma transcendência especiais.

"Adeus, Dragon Inn" exige entrega e não se desvenda facilmente. É um filme-limite; ou se ama ou se odeia. Mas quem ama o cinema só pode amá-lo.

BMW Z3

Esta tarde, um descapotável BMW Z3 estava parado à porta de minha casa. Visto do lado esquerdo, estava impecável, reluzente. Visto do lado direito, a carroçaria estava impecável e reluzente, mas onde deveria estar o vidro do passageiro estava uma placa de cartão e plásticos presos por fita adesiva castanha. Metáfora perfeita do país em que vivemos: o luxo é só fachada, porque depois não há dinheiro para manter o nível de vida que o BMW Z3 projecta.

12 de março de 2005

O CONSUMIDOR GOSTARIA DE TER ALGUMAS EXPLICAÇÕES

Será que é possível levantar uma queixa contra os fabricantes de manteiga que anunciam o seu produto como "fácil de barrar" directamente do frigorífico quando, sempre que o tento fazer em cima de tostas, a dita consistência cremosa é inexistente e as tostas partem-se todas? E, já agora, sabiam que "fácil de barrar directamente do frigorífico" é traduzido em francês por "frigotartinable"?

11 de março de 2005

9 de março de 2005

SÁBIAS PALAVRAS

"O ócio convém-me mais do que qualquer outra actividade. Um papel é um meio de não fazer nada durante bastante tempo."

"A actividade é uma máscara que as pessoas usam para tapar o vazio. Mas é esse vazio que é interessante, é nos tempos mortos que descobrimos a nossa identidade. Em tempos eu era paranóico e angustiado, porque vivia apenas para os holofotes. De que serve sermos nós próprios apenas em palco?"

Rupert Everett à jornalista do Le Monde Florence Colombani, na edição de 7 de Março do quotidiano francês.

8 de março de 2005

ALUGAR É O QUE ESTÁ A DAR

Quem o diz não sou eu, é o venerando Economist, na sua edição desta semana. É a melhor explicação que eu já encontrei para a minha decisão de nunca ter querido investir em comprar uma casa.

To buy or not to buy? That is the question

Mar 3rd 2005
From The Economist print edition


Today it is often much cheaper to rent than to buy a house

“IT IS always better to buy a house; paying rent is like pouring money down the drain.” For years, such advice has encouraged people to borrow heavily to get on the property ladder as soon as possible. But is it still sound advice? House prices are currently at record levels in relation to rents in many parts of the world and it now often makes more financial sense—especially for first-time buyers—to rent instead.

Homebuyers tend to underestimate their costs. Once maintenance costs, insurance and property taxes are added to mortgage payments, total annual outgoings now easily exceed the cost of renting an equivalent property, even after taking account of tax breaks. Ah, but capital gains will more than make up for that, it is popularly argued. Over the past seven years, average house prices in America have risen by 65%, those in Britain, Spain, Australia and Ireland have more than doubled. But it is unrealistic to expect such gains to continue. Making the (optimistic) assumption that house prices instead rise in line with inflation, and including buying and selling costs, then over a period of seven years—the average time American owners stay in one house—our calculations show that you would generally be better off renting.

Be warned, if you make such a bold claim at a dinner party, you will immediately be set upon. Paying rent is throwing money away, it will be argued. Much better to spend the money on a mortgage, and by so doing build up equity. The snag is that the typical first-time buyer keeps a house for less than five years, and during that time most mortgage payments go on interest, not on repaying the loan. And if prices fall, it could wipe out your equity. In any case, a renter can accumulate wealth by putting the money saved each year from the lower cost of renting into shares. These have, historically, yielded a higher return than housing. Putting all your money into a house also breaks the basic rule of prudent investing: diversify. And yes, it is true that a mortgage leverages the gains on your initial deposit on a house, but it also amplifies your losses if house prices fall.

“I want to have a place to call home,” is a popular retort. Renting provides less long-term security and you cannot paint all the walls orange if you want to. Home ownership is an excellent personal goal, but it may not always make financial sense. The pride of “owning” your own home may quickly fade if you are saddled with a mortgage that costs much more than renting. Also, renting does have some advantages. Renters find it easier to move for job or family reasons.

“If I don't buy now, I'll never get on the property ladder” is a common cry from first-time buyers. If house prices continue to outpace wages, that is true. But it now looks unlikely. When prices get out of line with what first-timers can afford, as they are today, they always eventually fall in real terms. The myth that buying is always better than renting grew out of the high inflation era of the 1970s and 1980s. First-time buyers then always ended up better off than renters, because inflation eroded the real value of mortgages even while it pushed up rents. Mortgage-interest tax relief was also worth more when inflation, and hence nominal interest rates, was high. With inflation now tamed, home ownership is far less attractive.

The divergence between rents and house prices is, of course, evidence of a housing bubble. Someday prices will fall relative to rents and wages. After they do, it will make sense to buy a home. Until they do, the smart money is on renting.

7 de março de 2005

THE IRONY IS JUST SICKENING (como diria Daffy Duck)

Qual é a música que estava a rodar em "música de fundo", há menos de meia hora, no posto da BP de Paço d'Arcos?

"Achtung Baby", dos U2.

5 de março de 2005

O PAÍS DAS ANEDOTAS

Em Portugal, tudo é pretexto para se fazer uma anedota (até naqueles casos em que, muito evidentemente, o pretexto é já de si uma anedota), como o comprovou o chorrilho de piadas baixas à volta de José Sócrates e Paulo Portas durante a campanha eleitoral, ou a quantidade de piadas com o Bibi e o caso da Casa Pia.

Mas parece-me bem que isto é muito mais significativo do país que somos do que gostamos de pensar: cai o Carmo e a Trindade se se faz uma piada sobre o Papa, mas ninguém protesta por causa das dezenas de piadas sobre as crianças molestadas na Casa Pia, ou das dezenas de piadas sobre a princesa Diana, ou das dezenas de piadas com deficientes?

4 de março de 2005

EMOÇÕES PRIMÁRIAS



(segunda tentativa, depois da primeira ter desaparecido nem eu sei como)

Ainda hoje não sei o que me marcou tanto em "Silverado", de Lawrence Kasdan, a não ser que, à altura da estreia, o vi cinco vezes a curtos intervalos e senti o regresso de um fôlego cinematográfico que não voltou a aparecer tão cedo. Já em 1985 este western tudo menos crepuscular, que recuperava a emoção primária do cinema clássico de aventuras numa altura em que o filme de cowboys estava dado como morto, era um anacronismo. Hoje, não sei o que será, já há anos que não o vejo (mas desconfio que, como já na altura era um filme fora, hoje continuará a sê-lo, e tem Kevin Kline num dos grandes papéis da sua vida). Mas sei que continuo a ter uma ternura muito especial por este filme que não teve, à altura, o sucesso merecido. E apetece-me recomendá-lo a toda a gente. Passa amanhã às 16h30 no Canal Hollywood.

3 de março de 2005

GAJAS AO VOLANTE (título propositadamente enganador)

Não sou nada do género machista misógino que acha que as mulheres guiam mal. Pelo contrário, duas ou três das minhas melhores amigas são excelentes condutoras, melhores que bastantes homens que conheço (e, aqui, lembro-me do meu pai, que tirou a carta tardiamente e sempre foi um pouco pé de chumbo a conduzir). E acho que há muitos homens que guiam mal (aliás, vejo muitos sempre que pego no carro). Mas, hoje de manhã, encontrei uma senhora que, efectivamente, era o exemplo perfeito do adágio (que, aliás, também não é exclusividade masculina, visto que uma das tais minhas amigas também acha que, no geral, as mulheres conduzem mal). Desde não ver o sinal aberto à frente até fazer curvas ultrapassando pela direita e sem fazer sinal, a senhora cometeu em 50 metros tanta infracção e distracção que me pareceu não ter claramente o menor jeito para estar ao volante. Claro que, em Portugal, não é preciso ser mulher para não ter o menor jeito para estar ao volante.

2 de março de 2005

COMING UP CLOSE

Ando a ouvir muito esta canção. Diz-me que todos procuramos o mesmo e por vezes julgamos encontrá-lo onde apenas está uma ilusão que nós próprios criamos. Diz-me que há momentos que não se repetem e que apenas fazem sentido no seu momento. Diz-me que há quem saiba quando passar à frente daquilo que não é essencial.

one night in Iowa, he and I in a borrowed car
went driving in the summer, promises in every star
out in the distance I could hear some people laughing
I felt my heart beat back a weekend's worth of sadness

there was a farmhouse that had long since been deserted
we stopped and carved our hearts into the wooden surface
we thought just for an instant we could see the future
we thought for once we knew what really was important

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew

we got back in the car and listened to a Dylan tape
we drove around the fields until it started getting late
and I went back to my hotel room on the highway
and he just got back in his car and drove away

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew

coming up close
everything sounds like welcome home
come home

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
come on home.


- Aimee Mann para os 'Til Tuesday, "Coming Up Close", in "Welcome Home" (Epic, 1986)

1 de março de 2005

A UTILIDADE DOS SINAIS DE TRÂNSITO

Quem percorre o centro de Paço d'Arcos de automóvel, vindo da Marginal, depara, junto ao quartel dos bombeiros, com uma rápida sucessão de três sinais de trânsito que, supostamente, deverão facilitar o trânsito na zona. No primeiro, a presença de uma "zebra" no asfalto, apesar da existência de sinais reguladores para peões, leva todo o idoso a atravessar a estrada sem sequer ver se vêm lá carros e ignorando completamente se o sinal está ou não verde para os peões. Os dois sinais seguintes, distantes escassos metros uns dos outros, sugerem que foram projectados para um fluxo de trânsito (provavelmente trazido pela proximidade da estação dos comboios, do terminal de autocarros e do terminal do monocarril) que, na realidade, parece não existe.

28 de fevereiro de 2005

EQUILÍBRIO INSTÁVEL

Não, eu não tenho uma tribo; sempre preferi o vai-e-vem na corda bamba de quem não quer outra coisa que não seja uma tribo, mas também não quer pertencer realmente (medo de quê?). Até que chega um momento em que é preciso escolher entre ficar de fora (talvez de vez) ou fazer parte. Mas, para lá chegar, é preciso escavar. Muito.

something in me
dark and sticky
all the time it's getting strong
no way of dealing
with this feeling
can't go on like this too long

this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real

digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt

the more I look
the more I find
as I close on in
I get so blind
I feel it in my head
I feel it in my toes
I feel it in my sex
that's the place it goes

this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real

digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt

I'm digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
to open up the places I got hurt.


— Peter Gabriel, "Digging in the Dirt" (in "Us", Real World, 1992)

27 de fevereiro de 2005

RTP MEMÓRIA

Durante as minhas visitas de fim-de-semana à mãe, costumo pôr o televisor do quarto na RTP Memória, o que nos possibilitou, nos últimos dois sábados, assistir aos Festivais RTP da Canção de 1964, 1965 e 1966, que, vistos a esta distância, parecem verdadeiramente coisas de um outro tempo, desde os penteados bouffant de Maria Helena Fialho Gouveia, Simone de Oliveira e Madalena Iglésias à educação rígida de Henrique Mendes falando das "amáveis telefonistas", passando por Sérgio Borges a fazer a sua melhor imitação de Domenico Modugno. Com um misto de incredulidade (era mesmo assim?) e fascínio quase arqueológico (ah, era assim!). Ainda pertenço a uma geração para quem o Festival da Canção tinha alguma mística.

LOGBOOK #23: PISCINA (v1.0)

50 minutos de exercícios por cinco metros de fundo numa piscina para recordar aquelas técnicas básicas que se fazem no curso de mergulho e depois nunca mais se pensa nelas. No meu caso, questão importante: perceber o que se passava com a minha flutuabilidade com o equipamento dentro de água. Resposta: peso a mais. Descontando que a água doce é evidentemente menos densa que a água salgada, dei por mim sobre-lastrado em dois quilos, que tirei ao cinto com que costumo mergulhar — e voilà, a flutuabilidade melhorou significativamente, mesmo que haja menos stress numa piscina do que no mar. De qualquer maneira, agora é só confirmar no oceano que os nove quilos são o meu "peso ideal". (Por falar em flutuabilidade: já vos disse que ODEIO o raio do exercício do "buda"? Não? Então fica para outra altura.)

A remoção da máscara lá se fez sem grandes problemas, mas é algo que preciso de treinar mais; tenho demasiada tendência a expirar logo pelo nariz, o que pode facilitar a entrada de água pelas cavidades nasais. A subida com partilha de ar também correu bastante bem, excepto na variação "em cachimbo" em que o parceiro não percebeu o que se passava e se recusava a dar-me o raio do regulador depois de eu ter expirado o ar todo. Preciso claramente de treinar situações em que tenho de ir buscar o octopus por problema com o regulador primário.

O grande problema, contudo: a água da piscina estava a 12 graus. Nem em Sesimbra o raio da água está tão fria. (Torna-se urgente começar a estudar as opções e investir num semi-seco.)

25 de fevereiro de 2005

LUA CHEIA NA MARGINAL

A lua cheia está impossivelmente branca, um disco perfeito, gelado, suspenso no meio de uma infinitude de um azul negro. Conduzo pela Marginal, em direcção a Lisboa; não estou sozinho na estrada, mas sinto-me uma espécie de astronauta; porque o frio da escuridão entrecortada pelas lâmpadas amareladas e pelos faróis dos carros, lá fora, não engana. Ao longe, as luzes da zona ribeirinha de Algés-Belém, a ponte desenhada a pontos luminosos, alumiam sem força nem calor a escuridão; o reflexo esbranquiçado da lua cheia no mar chão, estanhado, também ele negro na escuridão da noite, desenhando uma espécie de caminho na água, como um trilho marítimo que os barcos pudessem seguir, a cauda de um cometa, uma luz desenhando a estrada. No Algarve, de Verão, a lua cheia reflectida no mar cria o mesmo efeito. Gosto destas ilusões de óptica.

UMA CANÇÃOZINHA PARA ANIMAR

Na voz, perdão, na Voz daquele que a criou, nos idos de 1959 (para o filme de Frank Capra, "Tristezas Não Pagam Dívidas"). Ladies and gentlemen, Frank Sinatra.

next time you're found with your chin on the ground
there's a lot to be learned
so look around

just what makes that little old ant
think he'll move that rubber tree plant
anyone knows an ant
can't
move a rubber tree plant

but he's got
high hopes
he's got
high hopes
he's got
high apple pie
in the sky
hopes

so any time you're gettin' low
'stead of lettin' go
just remember that ant

whoops, there goes another rubber tree plant

when troubles call and your back's to the wall
there's a lot to be learned
that wall could fall

once there was a silly old ram
thought he'd punch a hole in a dam
no one could make that ram
scram
he kept buttin' that dam

'cause he had
high hopes
he had
high hopes
he had
high apple pie
in the sky
hopes

so anytime you're feelin' bad
'stead of feelin' sad
just remember that ram

whoops, there goes a billion kilowatt dam

all problems just a toy balloon
they'll be bursted soon
they're just bound to go pop

whoops, there goes another problem kerplop


-- Sammy Cahn & James van Heusen para Frank Sinatra, "High Hopes" (in No One Cares, Capitol, 1959)

24 de fevereiro de 2005

AINDA A PROPÓSITO DOS URSOS FELIZES E DE CANTAR NO CHUVEIRO

Como não cantar (no chuveiro ou noutro sítio qualquer) quando confrontado com esta jóiazinha (ainda por cima a €22,00 cada caixa de três CDs?)

23 de fevereiro de 2005

22 de fevereiro de 2005

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #14

Leio no metro/Metro (meio de transporte/jornal gratuito) sobre a existência de um grupo de moradores de Campo de Ourique que saltou em defesa do cinema Europa, que parece estar à beira de dar lugar a mais um bloco de apartamentos. Acho óptimo que se queira salvar o cinema Europa e a sua arquitectura tão anos 50, aquela assombrosa fachada cega e os alto-relevos estilizados, acho sempre óptimo que se queira salvar mais uma sala de cinema à beira do camartelo (pena é que não tenha havido mais manifestações do género quando tantos outros já foram destruídos).

Mas há vinte anos, talvez mais, que o cinema Europa não é sala de cinema aberta ao público, transformado durante grande parte dos anos 80 em estúdio televisivo da RTP, fechado desde que o canal público o deixou de usar. Há vinte anos, talvez mais, o cinema Europa não é equipamento cultural urbano, há pelo menos cinco anos que nada ali se passa. Não posso estar mais de acordo em devolver o cinema a Lisboa, mas urge que não aconteça o que aconteceu ao São Jorge, comprado pela Câmara Municipal em delírio eleitoralista de João Soares e deixado ao deus-dará numa programação tão sem rei nem roque como antes de fechar, apenas para dizer que existe e está aberto (e foi preciso a Festa do Cinema Francês e o IndieLisboa, iniciativas privadas, para provar que a sala pode ser rentável). E urge que não aconteça o que aconteceu quando, há algum tempo, um grupo de cidadãos iniciou uma campanha com vista à reabertura e requalificação do cinema Odeon, nos Restauradores, que terminou passados alguns meses após ter chamado a atenção das autoridades responsáveis para a situação daquela sala, mas sem que nada realmente tenha mudado.

Não tenho memórias do Europa enquanto espectador. Como de tantos outros cinemas de bairro de Lisboa — o Restelo, o Lumiar, o Paris (Estrela), o Royal Cine (Graça), o Salão Lisboa (Martim Moniz), o Cine Oriente (Sapadores), o Imperial (praça do Chile, mais tarde Pathé), o Lys (Intendente, mais tarde Roxy), o Rex (Socorro) — que ficavam "fora de mão" dos circuitos de estreia, dedicados às reprises ou às "continuações de estreia". Quando comecei a ir ao cinema em 1974/1975, eram salas "marcadas", que estavam já em declínio ou a encerrar. Mas são parte integrante de uma memória cinéfila que se tem vindo a perder com a cultura dos multiplexes, de um modo de pensar a construção e encenar o espectáculo que hoje não existe. O Europa é das mais extraordinárias manifestações arquitectónicas desse modo de pensar que conheço, mesmo que nunca tenha visto mais do que a sua fachada.

21 de fevereiro de 2005

POLAROID: ALASKA SASHIMI

Desenho num saco, hoje, no ginásio: um urso polar feliz com um peixe no regaço, dois pauzinhos na mão esquerda e a legenda "ALASKA SASHIMI".

20 de fevereiro de 2005

DEMOCRACIA EM MOVIMENTO

Legislativas 2005
Resultados provisórios às 22h40

PS: 45,03% (119 deputados) 2.571.173 votos

PSD: 28,70% (73) 1.638.560

CDU: 7,57% (14) 432.134

CDS-PP: 7,27% (12) 414.826

BE: 6,38% (8) 364.263

Votantes: 5.709.364 (65,01%)

Abstenção: 3.073.527 (34,99%)

Brancos: 103.539 (1,81%)

Nulos: 63.759 (1,12%)

Dados actualizados pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (Stape)


Portugal pronunciou-se (ou, enfim, 65% da população portuguesa). Porque será que não estou surpreendido (nem pelo pronunciamento, nem pela abstenção)? E porque será que não me consigo esquecer dos tugas truculentos, de meia-idade, que ouvi em conversa de balneário, hoje de manhã, no ginásio, queixando-se de que os políticos são todos a mesma bandalheira independentemente da sua cor? Um deles dizia que "só votaria quando Portugal fosse um país democrático". Ironia: a democracia promove a demissão que mais procura evitar.

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #13

Fazendo o transbordo da "linha amarela" para a "linha azul" na estação de metro do Marquês de Pombal, ao descer a escada rolante que me leva ao cais da linha azul sentido Baixa-Chiado recordo-me da primeira escada rolante em que alguma vez andei na vida — precisamente no cais oposto, mas na anterior encarnação da estação, quando ainda tinha uma só linha e se chamava Rotunda, e se saía dela por um labiríntico sistema de corredores subterrâneos à praça do Marquês de Pombal. Aquela escada rolante era uma alegria. Mas, naquela altura, eu também gostava de elevadores.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #56

Ultramarino.

19 de fevereiro de 2005

POLAROID

Uma senhora percorre a rua com uma menina de um, dois anos ao colo, bem agasalhada, que chora sem parar. A senhora procura acalmá-la, afagando-lhe o rosto, falando-lhe amorosamente, mas a menina não se cala. A senhora acaba por lhe lançar um grito. "Catarina! Francamente!" A menina continua a chorar.

17 de fevereiro de 2005

MARKETING POLITICO #5

A carta aos eleitores de José Sócrates tem um aspecto pobrezinho, linha de montagem, produção em massa. É curioso ver como as assinaturas de Sócrates e de Pedro Santana Lopes facsimiladas em ambas as cartas são igualmente anónimas.

A carta aos eleitores do CDS/PP é graficamente forte e apelativa; concorde-se ou não com as políticas, é uma peça de marketing cujo design (clássico e ao mesmo tempo moderno) se adequa na perfeição à mensagem que se quer passar, com um eficaz jogo de cores (o branco para facilidade de leitura, o azul forte do partido, o verde e vermelho da bandeira a servir de "tampão" discreto entre o azul e o branco). Continuo na minha, o PP parece-me claramente ter a estratégia de marketing mais afinada e bem pensada, e é curioso reparar como, na carta de Lisboa, se sublinha a antiga designação CDS em detrimento do PP.

Depois de Luís Filipe Menezes ter usado "tsunami", um outdoor do PSD a apelar à participação no comício de encerramento fala da "onda laranja [que] invade Lisboa". Não me parece do melhor gosto.

16 de fevereiro de 2005

MARKETING POLITICO #4

Hoje tinha na minha caixa do correio a célebre carta ao eleitor, contra a abstenção, de Pedro Santana Lopes. Quero agradecer ao nosso primeiro-ministro demissionário por me ter iluminado com a sua sabedoria e me ter mostrado que o meu voto é verdadeiramente importante, diria mesmo, crucial para acabar de vez com o despautério em que Portugal se tornou nos últimos seis meses.

E quero também agradecer-lhe por me ter proporcionado o momento mais único que jamais vivi na minha carreira de eleitoral. Nunca uma peça de marketing tinha sido tão eficaz a insultar a minha inteligência — e já vi umas quantas.

15 de fevereiro de 2005

O PAÍS REAL

Hoje, no Público, o habitual inquérito de rua versava o debate desta noite, perguntando aos transeuntes se achavam que ele iria ajudar os eleitores a tomarem a sua decisão. Entre uma doméstica que não liga à política e uma estudante que acha que não porque vai tudo votar em branco, havia uma deliciosa de um jovem que dizia, "eu acho que sim, mas sinceramente sou brasileiro".

13 de fevereiro de 2005

O ORÁCULO

O oráculo é como se chama aquela barra em movimento, no fundo do écrã, que se tornou hábito nos telejornais. Habitualmente, está cheia de gralhas, afirmações sem sentido ou non-sequiturs hilariantes, como hoje, no noticiário das 20h00 da RTP-1, em que breves frases sobre os dias de campanha dos partidos se viram entrecortadas pelo título "NABO GIGANTE EM FRONTEIRA".

O JOGO DAS ESCONDIDAS

De regresso a Lisboa, à saída da ponte 25 de Abril, vejo um carro da polícia parado do outro lado da estrada, na escapatória construída logo antes do tabuleiro. Está parado mesmo no cotovelo da escapatória, invisível a quem se dirige para a ponte. Estarão os agentes à cata de prevaricadores em alta velocidade, em operação de vigia, ou apenas a ler o jornal ou comer uma sandocha antes de pegar ou largar ao serviço?

LOGBOOK #22: INVERNO

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 13 de Janeiro, 11h30: 16.1m, 48min, 13º C

Acho que nunca estive tão "ao largo" da Ponta da Passagem: o João Torres leva-me a contornar a "passagem" escavada na rocha costeira por fora, e é literalmente "por fora" — chegamos aos 16 metros e mais fundo iríamos se não tivéssemos dado meia volta, mas eu não me recordo de alguma vez ter saído tanto da "área conhecida". De qualquer maneira, a visibilidade está boa, as laminárias começam a aparecer (ainda em forma de enormes flores de um amarelo translúcido), sinal de que em breve começarão a aparecer muitos peixes. Um cardume vagueia por ali, brincamos com uma marinha que não parece mais fina do que um gressino, vejo um polvo a nadar elegantemente antes de se agarrar à rocha numa profusão de tentáculos. Mas está longe de ser o mergulho ideal: devo ter preso mal a máscara e lá se esgueira um jactozinho de água para o vidro esquerdo mais vezes do que seria necessário, treino a flutuabilidade mas continuo a estar demasiado pesado (vamos a ver se consigo tirar o quilo que já ando a querer tirar há muito tempo), está alguma corrente, de vez em quando puxo ar com tanta força que até puxo um bocadinho de água salgada. Ah, e a água também está fria, mas como levei o colete de aquecimento por baixo do fato, isso não foi problema. Excepto, claro, quando apanhámos com a deslocação do vento na viagem de barco de regresso a Sesimbra, porque aí rapei mesmo frio. E, apesar das luvas, as minhas mãos ainda se estão a queixar...

12 de fevereiro de 2005

O QUARTO PODER

As palavras do primeiro-ministro demissionário Pedro Santana Lopes sobre o alegado mau tratamento do PSD às mãos da imprensa têm algo de "boa cama faz quem nela se deita", porque nenhum outro dirigente do PSD cortejou a imprensa como Pedro Santana Lopes o fez ao longo dos anos. Mas, de quem pensou em lançar uma central de comunicação, não é uma declaração surpreendente.

10 de fevereiro de 2005

A LÍNGUA INGLESA É MUITO TRAIÇOEIRA

Na minha loja de conveniência, junto às caixas há aqueles expositores para pequenas gourmandises como chocolates e pastilhas elásticas. Hoje, enquanto esperava para pagar o jornal, reparei nas etiquetas feitas por computador que marcam os preços das pastilhas elásticas. "Chic Ice Canela", dizia uma. Logo ao lado, a etiqueta referente às equivalentes de "spearmint" (hortelã-pimenta, geralmente de cor verde) referia "Chic Ice Sperm".

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #29

A tendência de colocar nos DVDs de filmes citações positivas de críticos americanos de publicações que ninguém em Portugal lê ou vê ou ouve.

8 de fevereiro de 2005

POLAROID: FNAC

Tarde de terça-feira de Carnaval. Em pleno café da Fnac do Chiado, uma senhora de idade está sentada numa mesa, um chá à frente, uma série de sacos, casacos e mala numa das cadeiras. Fala ao telemóvel, muito alto, e a sua conversa é partilhada por todo o café, com várias mesas ocupadas, mas relativamente silenciosas. A senhora diz que "estamos aqui no Chiado, viemos dar uma volta. Ele está bastante constipado", e mais algumas afirmações de ocasião. Dois homens travestidos de mulher entram, pedem cafés e sentam-se noutra mesa, como se nada fosse. Um deles, com aspecto bastante feminino, está bastante produzido, com uma saia longa e um chapéu vermelho numa toilette que deixa entrar o frio; o outro, mais masculino, com uma peruca, tem um kispo branco que lhe tapa o grosso da toilette, deixando apenas ver as meias e as botas de fantasia brancas. Nas cadeiras dispostas frente ao palcozinho, está sentado um negro com várias camadas de roupa e um lenço a envolver a cabeça, vários sacos ao seu lado no chão; quando passa o segurança, ele faz-lhe sinal com um sorriso, como quem diz "estou quase a ir-me embora".

6 de fevereiro de 2005

POLAROID: AV. D. JOÃO V

Esquina com a rua das Amoreiras, sábado, quatro da tarde. Ouço um ruído seco. Uma carrinha Audi, nova, impecavelmente preta, acaba de chocar com o Mercedes de modelo antigo mas em boa conservação á sua frente. Aparentemente, o Audi arrancou à espera que o Mercedes fizesse o mesmo, que não fez. Vapor branco sai do motor do Audi, que ficou com a grelha e o pára-choques amolgados, com a capota do motor entreaberta; há pedaços de carroçaria no chão. O Mercedes arranca lentamente para parar fora da faixa de rodagem, escassos metros à frente, e não incomodar o trânsito, mas o Audi já não mexe dali, e o condutor, depois de avaliar os estragos com um aspecto desanimado mas resignado, abre a mala para tirar o triângulo de sinalização. O Mercedes não apresenta absolutamente nenhum estrago.

MARKETING POLITICO #3

Novo outdoor para o PS, agora de fundo branco e com a frase "O voto que vai mudar Portugal". Sócrates está melhor nesta foto no que nos outdoors de pré-campanha, mas continua a haver algo ao lado na imagem. A concentração de mensagem está mais afinada e conseguida aqui no que em outdoors anteriores, mas é mais funcional que inspirado; também não me parece que seja por aqui, ainda por cima com uma frase tão vazia, que se vai convencer alguém.

5 de fevereiro de 2005

TRÊS SEMANAS

Faz, amanhã, três semanas que a minha mãe sofreu um enfarte, uma coisa extensa mas sem gravidade de maior. A surpresa foi tanto mais desagradável quanto ela era a última pessoa da família que nós achávamos atreita a problemas cardíacos, ainda por cima quando o meu pai usa um pacemaker há alguns anos e o meu irmão mais velho também tem problemas de coração. Depois de um rápido cateterismo que desbloqueou a artéria e uma semana em observação no Hospital de Santa Marta, onde foi impecavelmente tratada, regressou a casa — e, hoje como há duas semanas, passa o dia na cama, apavorada que possa sofrer um segundo enfarte, paralisada pelo pânico.

Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.

Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?

3 de fevereiro de 2005

DEBATE? QUAL DEBATE?

Sashimi de salmão. Need I say more?

MARKETING POLÍTICO #2

Novo outdoor, presumo que do PSD ou da JSD: algumas polémicas figuras socialistas atrás de José Sócrates com a legenda "Você quer que eles voltem?". Eles insistem num marketing negativo que pressupõe com confiança que a resposta do eleitorado é "Não", mas que não é capaz de admitir que a resposta do eleitorado pode ser "Sim". E, sobretudo, projecta uma imagem de quem, em vez de ter ideias para propôr ou uma atitude a defender, prefere atacar o adversário para desviar a atenção do que não tem para contrapor.

2 de fevereiro de 2005

POLÍTICA (slight return)

Dilema existencial: eu acho que a política que temos é absolutamente do pior e não merece que se lhe preste a mínima atenção, mas se não lhe prestarmos a mínima atenção não há a mínima possibilidade que ela possa melhorar, nem que seja só um bocadinho de nada.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #55

Escanzelada.

31 de janeiro de 2005

NINGUÉM GOSTA DO CINEMA PORTUGUÊS (NEM O PRÓPRIO)

O Diário de Notícias propõe hoje uma reflexão sobre o divórcio entre o público português e o cinema português, numa peça de Maria João Caetano que, apesar de dar voz a vários intervenientes na discussão, não é capaz de propor uma leitura diferente das coisas.

António-Pedro Vasconcellos fala da "má qualidade dos filmes" - falso, "O Milagre Segundo Salomé" é um bom filme que só fez 20 mil espectadores, "Balas e Bolinhos - O Regresso" é um péssimo filme que já vai em 45 mil, "Zona J" era um telefilme banal e fez 360 mil, "Pesadelo Cor de Rosa" não era bom e fez 185 mil. Está na altura de se abandonar a falácia da qualidade vs quantidade. Sintomático dessa falácia é o destino de "Sorte Nula", de Fernando Fragata, que nem sequer foi mostrado à imprensa, ter feito 46 mil espectadores com uma brutal campanha de marketing.

Mais sintomático ainda dessa falácia é o facto de 46 mil espectadores não ser sequer um número significativo. Um filme estrangeiro (ou seja: americano), lançado com toda a parangona publicitária da praxe, que faça 46 mil espectadores é um fracasso. Segundo os últimos números, "Ocean's Twelve" já vai nos 250 mil em apenas duas semanas: é mais do que o total de espectadores que foram ver filmes portugueses em 2004, segundo os números publicados no Diário de Notícias.

Está, por isso, na altura de nos deixarmos de merdas. João Mário Grilo aponta, com alguma razão, que não se sabe vender o cinema português (fala do caso da Atalanta, mas, francamente, a Atalanta também não sabe vender o cinema português fora do seu nicho), José Carlos Oliveira defende, com alguma razão, que é preciso incentivar o cinema mainstream em português, mas que, pela vossa saudinha, não se confunda uma definição do alvo que se quer atingir com qualidade. Se isso acontecer, óptimo, mas convém recordar que ter espectadores não é sinónimo de qualidade do filme, e ser um bom filme não é sinónimo de sucesso comercial instantâneo. E, acima de tudo, que o filme português de maior sucesso de 2004 só tenha feito 46 mil espectadores não é sinal de que seja um filme de sucesso, quando qualquer filmezinho de segunda linha que a Lusomundo lança no seu circuito faz facilmente 50 mil espectadores em fim de carreira. Convém relativizar.

30 de janeiro de 2005

MARKETING POLÍTICO (v3.0 revista)

Isto de apanhar com outdoors da campanha eleitoral para onde quer que se vá, e sobretudo durante viagens de carro sem mais em que pensar, dá direito a algumas cogitações sobre a adequação da mensagem que se quer fazer passar à forma escolhida para a fazer passar.

O PSD mostra um Pedro Santana Lopes em pose de estado com a mensagem "Contra ventos e marés, a favor de Portugal". Para não falar da deselegância da expressão face à recente tragédia asiática, a fotografia do líder projecta uma aura defensiva, de quem está a jogar pelo seguro e a conter a retórica para evitar que lhe caiam em cima. É um outdoor que, na sua pretendida sobriedade austera, recupera a carta da vitimização que o primeiro-ministro demissionário tem vindo a jogar em discursos. Quanto ao "a favor de Portugal", seria uma frase boa — se não tivesse havido tanta trapalhada nestes breves mas intermináveis meses de governo; se não tivesse havido as confusões dos assessores, as confusões dos impostos e as promessas demagógicas feitas para ganhar eleitorado; se o líder fosse outro, então, seria uma excelente frase, na sua conjugação de invocação patriótica e optimismo vago.

O cartaz da JSD, perguntando ao eleitorado se ele sabe realmente quem é José Sócrates, inaugura a tradição rasteira de atirar lama ao adversário que, por exemplo, se fez sentir na campanha eleitoral americana. Não compreendo como é possível tanta gente de direita indignar-se com o "ataque" de Francisco Louçã a Paulo Portas no célebre debate e deixarem passar com um sorriso beato um outdoor que está exactamente ao mesmo nível daquilo que condenam. Mas, já se sabe, isto do duplo standard...

A frase "Este sim, sabe quem é" do novo outdoor do PSD que entretanto surgiu (presumo que em articulação com o outdoor da JSD) é absolutamente desastrosa — sabendo Santana Lopes melhor que ninguém como está, neste momento, a ser observado com redobrada atenção, deixar que um cartaz daqueles saia (ainda por cima com o "remate" "Pedro Santana Lopes. Por amor a Portugal") é um convite ao desastre. A não ser que a ideia seja, precisamente, a negação de toda a incompetência, confusão e desorientação, tentar convencer o eleitorado de que vai tudo bem (mas haverá quem acredite ainda nisso?). O que, como política, não é exactamente o mais apropriado nesta altura do campeonato, em que as sondagens não auguram nada de bom. Ah, pois, já me esquecia, eles também acham que as sondagens não são de confiança...

Os outdoors do PS têm um problema: o sorriso confiante de José Sócrates transforma-se no ricto de quem está a ser encandeado pelo sol sem óculos escuros. A frase "Voltar a acreditar" é boa, mas levanta ambiguidades: "voltar a acreditar" no PS, acto de contrição pública depois do período negro com Ferro Rodrigues? "Voltar a acreditar em Portugal", reza outro outdoor, partindo do princípio que neste momento não acreditamos em Portugal. Mas é este PS quem vai conseguir tal milagre, incutindo confiança num eleitorado por natureza desconfiado? "Agora Portugal vai ter um rumo": é uma frase que, ao contrário do indefinido "contra ventos e marés" do PSD, inspira confiança e projecta certezas de que alguém sabe para onde conduzir o barco. Mas os outdoors tópicos — "inglês para todos", "plano tecnológico", "cartão único" — são um disparate liberal. Ninguém ganha eleições a prometer aulas de inglês nem desenvolvimento tecnológico.

"Mais votos na CDU para mudar a sério", prometem os outdoors da CDU, encimados por Jerónimo de Sousa. A frase é infeliz: para mudar Portugal a sério, ou para mudar a CDU a sério, sobretudo face às muito noticiadas crises internas comunistas entre ortodoxos e renovadores? A frase significa uma vontade de mudar Portugal, uma vontade de mudar o Partido ou apenas uma frase sonora de candidatos que sabem não ter hipóteses de vencer as eleições? O azul, contudo, é uma boa escolha, nobre e marítimo.

O Bloco de Esquerda coloca a imagem do líder com a frase "Esquerda de confiança". À imagem do outdoor que já estava exposto de Portas e Santana Lopes com a legenda "Eles divertiram-se...", que marca uma posição e funciona bem enquanto marketing de denúncia, o Bloco sabe usar o outdoor para vender uma atitude e não uma mensagem; não promete nada, deixa que os acontecimentos falem por si, apresenta-se como uma alternativa sóbria e pragmática, ao mesmo tempo que recupera o vermelho que projecta os valores clássicos de esquerda. É um outdoor adequado, no género clássico funcional, mas falta um rasgo qualquer.

Mas a mais inteligente e conseguida das campanhas de outdoors que vi é mesmo a do PP. No outdoor "Voto útil", coabitam uma linguagem gráfica simples e imediatamente compreensível (votar no PP é votar útil) e uma imagem de confiança e segurança (a foto de um Paulo Portas sorridente). Não é surpresa, já todos percebemos que Paulo Portas é um mestre na utilização dos media de massas a seu favor, mas a simplicidade e eficácia do outdoor principal, sem ambiguidades nem falhas, é um exemplo de como fazer passar uma mensagem sem precisar de dizer absolutamente nada. Melhores são os outdoors mais pequenos, com frases como "A competência é útil a Portugal" ou "A convicção é útil a Portugal"; são absolutos que ninguém ousaria contestar e que, ainda por cima, numa primeira leitura nem sequer são afiliadas ao PP, visto que o logótipo do partido está em segundo plano. E assim se sabe fazer marketing político...

28 de janeiro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #28

Pimenteiros design que parecem não ter buraco, com o resultado desagradável de, à procura do dito cujo, entornar uma grande dose de pimenta preta no tagliatelle vegetariano, que ficou bastante picante e me perseguiu o paladar durante a tarde toda. (E, já agora, a minha estupidez ao não ver os buracos que, afinal, lá estavam escondidos.)

27 de janeiro de 2005

INTERVALO

Desde que o turbilhão começou, vai fazer domingo duas semanas, que acho que esta deve ser a primeira noite sossegada que passo em casa, a ouvir música e a sentir-me minimamente útil enquanto arrumo mais uns discos e organizo algumas coisas no computador, sem ter a sensação de andar a fugir de mim mesmo ou de qualquer outra coisa, sem nenhum complexo de culpa por saber que pouco posso fazer.

Para os nostálgicos do tecno-pop dos anos 80, "Nightbird" dos Erasure (Mute/EMI, 2005) é um belo disco de pop orelhuda melancólica explorando as sonoridades vintage dos sintetizadores pioneiros. Para quem gosta de guitarras à solta, "Worlds Apart" dos ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead (Interscope/Universal, 2005), é um óptimo álbum de caos meticulosamente organizado, onde a melodia do emo e de recentes variações popificadas do punk encontram as ambições megalómanas do rock progressivo no meio de um maelstrom sónico perfeitamente delineado. E para toda a gente com ouvidos, há uma pérola chamada "Ulisses" (Emarcy Classics/Universal, 2005), pela assombrosa fadista-que-nunca-o-foi-e-agora-ainda-menos Cristina Branco, a descobrir com urgência. Pormenor importante: Cristina Branco não foi contratada por uma companhia portuguesa. Isto deve querer dizer qualquer coisa.

(Recado para o Rodrigo C.: paciência; lá chegaremos, mas gosto da canção dos Starlux, "Low Radiation", mesmo que o resto do EP não seja brilhante.)

26 de janeiro de 2005

PUBLICIDADE DESAVERGONHADA v2.0

Era só para dizer que, a partir de agora, o Irmão Escocês, João Macdonald, essa "figura ilustre do jornalismo tauromáquico" para fazer jus às suas sábias palavras e homem honrado a quem tenho a grata alegria de poder chamar amigo, se juntou à lista de intervenientes no sempre incontornável Barnabé.

Para além do João, também o mui estimado Nuno Sousa, alma gémea em algumas devoções sonoras, amigo virtual e apreciador de sumo de laranja, passou a barnabita full-time. O que já são, para quem nunca lá foi (ao Barnabé), duas óptimas razões para passar a ir e, para quem já conhece, duas ainda mais óptimas razões para continuar a ir.

POP CULTURA

Vi hoje, estacionado perto do meu carro, um automóvel de cuja existência nunca suspeitei: uma carrinha (ou station wagon, ou break, ou o que lhe quiserem chamar) da MG que responde pela identidade ZT-T. Será que Trevor Horn sabe?

25 de janeiro de 2005

OSCARES? QUAIS OSCARES?

Vamos lá a ver se entendemos uma coisa: qualquer cerimónia de entrega de prémios que faça as asneiras seguintes não pode ser levada a sério:

1. Mesmo nomeando Jamie Foxx para melhor actor por "Ray", de Taylor Hackford (estreia 10 de Fevereiro), nomeá-lo para melhor actor secundário por "Colateral", de Michael Mann. Quem viu o filme sabe que aquilo não é um papel secundário em lado nenhum do mundo.

2. Nomear Natalie Portman e Clive Owen para actriz e actor secundários em "Perto Demais", de Mike Nichols — filme onde não há papéis secundários, apenas quatro actores em igualdade de circunstâncias (no limite, todos eles seriam secundários, mas isso é falsear a verdade).

3. Nomear Thomas Haden Church e Virginia Madsen para as categorias secundárias em "Sideways", de Alexander Payne (estreia 3 de Março), e não fazer sequer menção a Paul Giamatti.

4. Nomear Kate Winslet para melhor actriz em "O Despertar da Mente", de Michel Gondry, e esquecer Jim Carrey e até Gondry.

5. Nomear "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater, para melhor argumento adaptado — adaptado de quê?... E, já agora, porquê sequer nomeá-lo?

DEDICATÓRIA

For David D. — you'll understand why.

honey
it's been a long time coming
and I can't stop now
such a long time running
and I can't stop now
do you hear my heart beating?
can you hear the sound?
'cause I can't help thinking
and I don't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns for you and me
and then I looked up at the sky and saw the sun
and the way that gravity pulls on everyone
on everyone

baby it's been a long time waiting
such a long long time
and I can't stop smiling
no I can't stop now
do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?
'cause I can't help crying
and I won't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns on you and me
and then I looked up at the sun and saw the sky
and the way that gravity pulls on you and I
on you and I.


- Chris Martin para Embrace, "Gravity", in "Out of Nothing" (Independiente/Sony BMG, 2004)

A QUINTA DAS CELEBRIDADES

now there's a lifestyle
with painted lips
now there's a lifestyle
everybody wants it
but it don't exist
and I said
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the TV
and the media
shame
we loved you

now there's a lifestyle
with fashion chic
now there's a lifestyle
everybody in it wants to be elite
and I said
"you with yer brand new shoes and
you with yer greasy hair and
you with yer mother's pride and poetry
don’t you want to feel the shame?"
in the dancehalls
can’t you feel the shame?
and the TV
can’t you feel the shame?
we loved you

shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the tv
and the media
shame
we loved you
at the Lido
and the opera
shame
at the races
and the theatre
shame
we loved you

and they said all we need is love
all we need is love
with the Beatles and the Rolling Stones
day after day
day after day.


- Eurythmics, "Shame", in "Savage" (RCA, 1987)

23 de janeiro de 2005

POLAROID: HCL

As horas das visitas dos hospitais aos dias de semana parecem ser sempre populadas pelo mesmo tipo de pessoas: mulheres de meia-idade, sozinhas ou acompanhadas por outras como elas, de cabelo grisalho ou branco, óculos claros ou tintados, sacos de plástico na mão e mala a tiracolo, prontas a conversar com o primeiro que apareça sobre o atraso da visita, as doenças da vizinha, o motivo porque ali está, o motivo porque ali estamos. Arrastam consigo um cheiro bafiento de vidas tristes e rotineiras, de futuro que nunca aconteceu, uma amargura surda de quem nunca concretizou aquilo que sonhou em nova e, resignada à mediocridade (sub-)urbana em que se acomodou, se delicia com os escândalos e coscuvilhices das revistas de televisão e sociedade e não consegue imaginar a existência de coisas mais importantes.

Mas é verdade que o ambiente dos hospitais, por mais asseado, asséptico, neutro, iluminado que possa ser, predispõe ao tipo de lamentos resignados e cinzentos em que os portugueses são pródigos. O "cá estamos", o "é assim", o "é só chatices" e outro tipo de interjeições que não dizem rigorosamente nada mas são entendidas pelos conversantes como se fossem verdades universai, como se contivessem em si um qualquer segredo que só eles partilham. Uma espécie de vírus da resignação negativista, que proclama como única certeza a morte anunciada e o vale de lágrimas em que a vida se gasta até lá, e a futilidade de procurar lutar contra tão negro e fatalista destino.

Portugal no seu melhor, em suma: velho, gasto, claustrofóbico, sufocante, cinzento, resignado, incapaz de se erguer do lamaçal em que voluntariamente se deixa prender.

20 de janeiro de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #54

Pitosga.

(por causa dos outdoors da Swatch do hipopótamo pitosga a chamar pelos pais; que me lembraram dos velhos cartoons da UPA do Mr. Magoo, que em português era conhecido pelo Sr. Pitosga)

18 de janeiro de 2005

TURBILHÃO

Entre um regresso ao trabalho após duas semanas de repouso e desagradável hospitalização surpresa da minha mãe (está tudo bem, obrigado por perguntarem), os últimos dias foram um remoínho de emoções complicadas de descrever. Vir para aqui manifestar o meu desagrado com a campanha vitimizatória de Pedro Santana Lopes (será que ainda alguém acredita quando ele faz aquela cara de beicinho, depois de todos os tiros no pé que andou a dar e, pelo que a imprensa vai dizendo, continua a dar?), por muito importante que seja em termos de cidadania, não tem absolutamente nenhuma importância ao pé do que realmente importa, que é ver a minha mãe outra vez em casa a resmungar connosco, em vez de a ver numa cama de hospital a resmungar connosco.

Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.

16 de janeiro de 2005

HCL

Porque é que os hospitais não podem ser sítios iluminados e com aspecto de funcionarem bem, com salas de espera agradáveis e acolhedoras, como nos filmes americanos (excepto o "Serviço de Urgência", entenda-se), em vez de serem prédios vetustos, labirintos kafkianos com iluminação escura e fria, paredes de tinta desmaiada descascada, salas de espera improvisadas num qualquer cantinho de passagem, portas trancadas com folhas de papel escritas a computador, obras de Santa Engrácia por tudo quanto é sítio?

15 de janeiro de 2005

POLÍTICA

"A política não interessa a ninguém", diz a minha mãe regularmente. Nunca percebi se ela o diz por absoluta crença na afirmação ou como justificaçao para o desinteresse tão tipicamente lusitano que ela tem pela política — na certeza de que ela não vai perder tempo a pensar no assunto, excepto se por alguma razão a afectar.

Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.

E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.

14 de janeiro de 2005

SOCORRO! ESTOU-ME A VER GREGO

Tenho que agradecer ao meu amigo e vizinho António R. pelo sublime momento kitsch que me proporcionou ontem à noite, ao sacar o seu DVD com os melhores momentos de Demis Roussos e mostrar a figura corpulenta e barbuda do cantor grego, qual grunho novo-rico que se esqueceu de tomar banho, fazendo playback de "Goodbye My Love Goodbye" acompanhado por lacrimejantes movimentos de braços numa estação de comboio de Bruxelas, esforçando-se para não se desmanchar a rir, enquanto um ferroviário local fuma com ar de quem está no filme errado. Momento de rara beleza só ultrapassável por aquele em que ele faz playback de "Schönes Mädchen aus Arkadia" à beirinha do Parténon enquanto brinca com o horroroso logótipo do programa alemão para o qual o filmezinho foi gravado, com um ar de frete insuportável, incapaz de sequer aproximar os movimentos de lábios do que se está a ouvir; ou pelo ramo de oliveira que de repente aparece no enquadramento de Vangelis e Roussos encostados a estátuas gregas no teledisco de "Rain and Tears" dos Aphrodite's Child.

12 de janeiro de 2005

POLAROID: METRO

Sempre achei que as estações da linha do Oriente, dita "linha vermelha", eram estranhas — quase todas de tamanho monumental (cf. Olaias) e desproporcionadas à pouca utilização que sempre lhes vi, sem dúvida relacionada com a sua vocação de ramal quase suburbano e desconexo do grosso da rede (com a Alameda como única ligação, pelo menos até à concretização da extensão que a fará cruzar a "linha amarela" no Saldanha e a "linha azul" em S. Sebastião). A música das estações vai da muzak de flauta de pan a "Music" de Madonna.

Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.

À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.

Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.

Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.

MAIS UMA PEQUENA QUESTÃO RETÓRICA

Porque carga d'água é que é precisamente nos dias em que tenho de me levantar mais cedo que me dá uma espertina filha da mãe?

11 de janeiro de 2005

O FIM JUSTIFICA O MEIO

Há coisas que eu não percebo necessariamente. Percebo a comodidade de um centro comercial, reunindo um sem-número de lojas sob um mesmo tecto. Não percebo porque é que isso torna um centro comercial no equivalente contemporâneo da passeata digestiva de domingo para muita gente.

Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.

Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?

Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.

E não, não comprei nada.

10 de janeiro de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #52

Cacholada.

(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)

9 de janeiro de 2005

LOGBOOK #21: O ELOGIO DA LOUCURA

Sesimbra: Baía da Armação, domingo 9 de Janeiro, 10h58: 11.7m, 57min, 13º C

Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.

Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).

Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.

Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).

Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).

Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.

8 de janeiro de 2005

UMA PROFISSÃO DE FUTURO

Não, não é a marinha, nem a força aérea, nem nada que se pareça.

Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.

7 de janeiro de 2005

VALHA-NOS SÃO ESTEVÃO MÉRITO

Ele e ele decidiram-se a voltar.

Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).

POLAROID: BARBEIRO

O barbeiro fica inquieto quando entro no salão. Nenhum dos seus colaboradores está, sairam para tomar café, ele está a fazer arrumações e limpezas e procura-os por um instante antes de pôr as limpezas de lado algum tempo para me cortar o cabelo. A um canto do salão, a esposa, cabelo branco e óculos, retrato-robot de uma avozinha portuguesa de subúrbio clássico, entoa num tom paternalista e condescendente uma ladainha destinada a embalar o neto ainda bebé, que não deixa por isso de soltar exclamações pontuais e ameaçar choro. Por um momento, penso que ele está a protestar por ter de ouvir repetido durante tanto tempo "quem é o queridinho da avó", naquela linguagem palradora e perfeitamente irritante que os adultos fazem ideia (errada) que as crianças percebem. Por um instante pensei que era isso que o bebé estava a querer dizer — "cala-te, já estou farto de te ouvir com essa patetice, achas que eu não te topo?". O barbeiro também já parece farto de ouvir a ladainha, às tantas pergunta à mulher num tom ríspido porque não vê se o menino está sujo. Mas a senhora insiste.

E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.

5 de janeiro de 2005

CÓDIGO DA ESTRADA

Muita gente fala — e com razão — da falta de civismo dos condutores portugueses, mas ninguém fala da falta de civismo dos peões, que atravessam "à Lagardère" pelo meio de faixas de rodagem rápidas, indiferentes ao volume de tráfego, indiferentes às passadeiras ou aos semáforos. Na avenida Infante Santo, na rua Conde Redondo, na avenida Álvares Cabral, é vê-los, até à noite, a atravessarem a avenida ou a pararem em cima do traço divisor como se fosse um passeio. Um pouco por toda a Lisboa, é vê-los a atravessarem intersecções turbulentas como se atravessassem um jardim público. Às vezes, acho que, entre a inconsciência dos condutores que não respeitam a velocidade máxima urbana, o traço contínuo ou as passadeiras, e a inconsciência dos transeuntes que atravessam a rua como se todos os carros tivessem de parar para os deixar passar (recordo-me das vacas sagradas hindus), é um milagre que não haja mais atropelamentos em Lisboa.

PÔNCIO, PILATES

Algo me diz que Pedro Santana Lopes ainda não terminou o seu annus horribilis.