Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
7 de abril de 2005
BUCOLISMOS URBANOS
Por vezes, quando passo diariamente na Marginal junto à Cruz Quebrada, no cruzamento que leva ao Jamor, cruzo-me com os soldados da GNR que patrulham a zona a cavalo, com um trote descontraído, pela berma da estrada. O ruído compassado das patas dos cavalos pelo meio das buzinas e dos motores, a estranheza da visão quase arcaica de polícias a cavalo pelo meio do trânsito apressado cria um efeito de desajuste, uma espécie de ruptura espácio-temporal que coloca um certo passado e o presente lado a lado, que contrasta os modos antigos e descontraídos "de um tempo ausente" com a impiedosa velocidade dos nossos dias — sem que nenhum deles saia vencedor.
6 de abril de 2005
POLAROID HCL: CHAMA O FRANCISCO
Uma das auxiliares da Radiologia do Hospital de São José chega à porta automática da sala de espera cheia e começa a chamar pessoas a partir de alguns papéis que tem na mão, com uma voz de cana rachada (como os que identificamos com as cantadeiras de folclore) e um sotaque misto de província nortenha e suburbano. "Sr. Francisco. Sr. Francisco?" Chama três, quatro vezes o "sr. Francisco" sem obter resposta. Dirige-se a um senhor de idade deitado numa maca. "O senhor aí, como se chama?" O senhor da maca não responde, vira-se para a esquerda, talvez procurando alguém que o acompanhe, ou apenas a ver se a auxiliar está a falar com outra pessoa. "O senhor como se chama?" insiste a auxiliar. O senhor da maca percebe finalmente que é com ele. "Eu? Humberto Silva." "Não é Francisco, pois não?" insiste a auxiliar.
5 de abril de 2005
POEIRA
Ele voltou. E se o resto do álbum for desta (altíssima) craveira, ainda vale a pena ter heróis.
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
I got my finger on the trigger
but I don't know who to trust
when I look into your eyes
there's just devils and dust
we're a long, long way from home Bobbie
home's a long, long way from us
I feel a dirty wind blowing
devils and dust
I got God on my side
I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul and fill it with devils and dust
well I dreamed of you last night
in a field of blood and stone
the blood began to dry
the smell began to rise
well I dreamed of you last night
in a field of mud and bone
your blood began to dry
the smell began to rise
we've got God on our side
we're just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a powerful thing
it'll turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
now every woman and every man
they want to take a righteous stand
find the love that God wills
and the faith that He commands
I've got my finger on the trigger
and tonight faith just ain't enough
when I look inside my heart
there's just devils and dust
well I've got God on my side
and I'm just trying to survive
what if what you do to survive kills the things you love
fear's a dangerous thing
it can turn your heart black you can trust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust
it'll take your God filled soul
fill it with devils and dust.
— Bruce Springsteen, "Devils & Dust"
MISTÉRIO ANTROPOLÓGICO #1
Nunca percebi porque é que algumas pessoas prendem a fralda da camisa por dentro das cuecas. Pessoalmente, acho pouco higiénico. Mas parece que é uma prática bastante corrente.
4 de abril de 2005
MESA DE CABECEIRA
Uma garrafa de litro e meio de água do Luso, encetada; um rádio-despertador da Sony sintonizado na TSF; um corta-unhas; uma lata de creme Nivea; um tubo de Canesten fora de prazo (que ando para deitar fora há semanas, não é tarde nem é cedo, é mesmo hoje); uma caixa de Valdispert com um único comprimido lá dentro; uma calçadeira de plástico verde; um exemplar da edição de bolso da Penguin da tradução inglesa do tratado sobre a guerra de Clausewitz.
3 de abril de 2005
ROSEBUD
Morreu o Papa João Paulo II, e que descanse em paz; seja-se religioso ou ateu, praticante ou não, havia de facto qualquer coisa especial naquele homem, qualquer coisa digno de respeito e admiração.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
Mas confesso que nada me pareceu tão longe desse respeito e dessa admiração como o cortejo mediático das últimas 48 horas, em que praticamente todos os canais terrestres portugueses (e não só) estiveram ininterruptamente em directo do Vaticano, como se nada mais tivesse acontecido nos últimos dois dias. Li, creio que no Público, que João Paulo II teria deixado instruções para que o seu sofrimento fosse mantido privado; nenhuma fotografia, nenhuma recolha de imagens, nenhuma gravação da sua voz deveria ser feita durante a sua doença. Por isso me fez ainda mais confusão este frenesi mediático com enviados especiais procurando deslindar os silêncios do Vaticano, com informações contraditórias, com um sofrimento que, mesmo que não efectivamente visto, acabou por ser visível. E há algo de sórdido neste prolongamento artificial das emissões, literalmente à espera que o Papa morresse.
Talvez fosse inescapável que um Papa tão mediático como este terminasse os seus dias sob o escrutínio, mesmo que distanciado, das câmaras. Talvez fosse esse o "preço a pagar" pela visibilidade do seu pontificado. Mas não consigo deixar de pensar que o homem por trás do Papa terá desejado, tão somente, partir com a mesma dignidade com que viveu.
2 de abril de 2005
30 de março de 2005
TEST DRIVE
O facto do novo código da estrada prever sanções duras para quem conduzir enquanto fala ao telemóvel parece não ter afectado o jovem executivo que, esta tarde, guiava um automóvel marcado com o autocolante "test-drive" com o aparelho colado ao ouvido esquerdo.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
Donde se prova que, para se ser sancionado, primeiro tem de se ser apanhado, e os portugueses acham genericamente que tal coisa dificilmente acontecerá.
29 de março de 2005
SONHO DE SEGUNDA-FEIRA A SEGUIR AO DOMINGO DE PÁSCOA
Entro no cinema Condes, que já não é cinema mas antes uma sala-museu cujo interior claramente é demasiado grande para o gaveto dos Restauradores onde ele fica; lá dentro, uma sucessão de salas em estilos arquitectónicos medievais que passam pelo barroco manuelino e pelos interiores do Tivoli, do Império e do Eden até descambar num salão Luís XV no último piso com mesinhas de café modernas, com portas abertas para o interior da sala. Mas não entro; dirijo-me a uma outra porta que dá para um quarto de dormir. Ajoelho-me frente à cómoda e abro uma gaveta, onde, por baixo de camisas, encontro uma selecção de revistas de actualidades e um álbum de fotografias. Pego nas revistas, fecho a gaveta e dirijo-me para a saída do cinema, mas cá fora percebo que as revistas não são aquelas que eu queria.
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
(Isto continua claramente estranho e eu continuo sem saber onde vou buscar estas coisas.)
28 de março de 2005
SONHO DE DOMINGO DE PÁSCOA
As águas negras que vêm sabe-se lá de onde chegam em paz, transportando enormes blocos de gelo negro e centauros bondosos e lúbricos, um dos quais se atrela de imediato à minha amiga e desce com ela o Parque Eduardo VII, olhando de vez em quando para mim que vou atrás a conversar com outro que me diz "ele é mesmo assim, não ligues".
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
(Onde raio irei eu buscar estas coisas?)
27 de março de 2005
DOMINGO DE PÁSCOA (QUESTÃO PARA QUEM AINDA SE DÁ AO TRABALHO DE VER TELEVISÃO)
Antes do advento da televisão por cabo (e dos seus "57 channels and nothing on", para citar Springsteen), nos tempos dos dois canais institucionais (que a RTP Memória tanto tem feito para nos fazer recordar com prazer), era impossível fugir à programação pascal. Mas, agora que há os tais "57 channels" e que 52 deles se comportam como um canal de televisão normal sem programação alusiva, agora que o domingo televisivo de Páscoa é apenas mais um domingo, será que se perdeu alguma coisa? Será que esta vulgarização do feriado funciona como sintoma de um afastamento dos "valores cristãos" por parte da sociedade como um todo, ou antes pelo contrário é um prenúncio de um maior afastamento ainda (vide as "self-fulfilling prophecies"? E isto tem alguma importância que não seja meramente sociológica?
26 de março de 2005
CHRYSLER NEON
Em dois dias sucessivos, já deu para perceber que os condutores que optam pelo recém-introduzido em Portugal Chrysler Neon não primam pela cortesia nem pelo civismo. Um queria ultrapassar numa rua estreita de dois sentidos; o outro ultrapassa pela direita e acelera em cima da passadeira. Coincidência?
25 de março de 2005
POLAROID: MASSA E FEIJÃO
Armazéns do Chiado, 14h30: em frente à loja das sopas, uma senhora grita, alto e bom som, a quem a quiser ouvir, perante o desespero das empregadas, que "vão roubar para outro sítio, isso não tem carne, é só massa e feijão". A senhora está vestida de negro, um casaco e uma saia curta a realçar as formas do corpo, sapatos de salto alto e meias de fantasia, maquilhagem carregada e cabelo louro platinado a esconder a meia idade, mala escura e saco de compras, voz rouca a gritar alto e bom som, chamando a atenção de quem passa e de um segurança da loja. A gritaria insiste, dez, quinze minutos. Não cheguei a perceber em que se resolveu a questão, mas, minutos mais tarde, a senhora estava a protestar junto da recepção do centro à recepcionista de serviço, que a ouvia educadamente a contar uma história como quem sabia que tinha ali uma audiência cativa.
24 de março de 2005
GOURMET CHEWING GUM
Estive retido numa fila para pagar jornais numa tabacaria por causa de um jovem executivo indeciso sobre a variedade de pastilha elástica a adquirir.
23 de março de 2005
BOB DYLAN ESTÁ DE SAÚDE E RECOMENDA-SE A VIVER ALGURES NO MASSACHUSETTS
Ele sabe. Ele sabe sempre.
Lucy jumped from the 39th floor
said she just couldn't face another poor man
every jukebox stuck on The Who's Next
well, that almost got me when Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
Penny walked in with that Love in Vain look
said every last man should be hanging from a meat hook
looked in my eye, singing Marry Me Bill
I loosened my tie just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
and I was so depressed today...
Bobby said we're going to get rich quick
you buy a brand new car
they give you automatic cash back
pick up a parking lot, no money down
he was counting the cost just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
-- Lloyd Cole, "Let's Get Lost", in "Love Story" (Fontana, 1997)
Lucy jumped from the 39th floor
said she just couldn't face another poor man
every jukebox stuck on The Who's Next
well, that almost got me when Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
Penny walked in with that Love in Vain look
said every last man should be hanging from a meat hook
looked in my eye, singing Marry Me Bill
I loosened my tie just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
and I was so depressed today...
Bobby said we're going to get rich quick
you buy a brand new car
they give you automatic cash back
pick up a parking lot, no money down
he was counting the cost just as Jimmy said
let's get lost
go work on a farm
a change of weather couldn't do you no harm
let's get lost
pick up your feet
don't tempt fate, boy, get a pair of cheap skates
-- Lloyd Cole, "Let's Get Lost", in "Love Story" (Fontana, 1997)
21 de março de 2005
COMO ESVAZIAR QUALQUER SALA DE ESPERA
Deixar o televisor no canal por cabo da Assembleia da República durante uma discussão do programa do governo.
20 de março de 2005
DIZ O ROTO AO NU
Alguém lhe pode explicar, por favor, que ele é a última pessoa com autoridade para dizer este tipo de coisas? Obrigado.
O LUTADOR
Isto, minhas senhoras e meus senhores, é poesia. A canção popular raras vezes terá sido tão perfeita.
I am just a poor boy.
Though my story's seldom told,
I have squandered my resistance
for a pocketful of mumbles,
such are promises.
All lies and jest,
still a man hears what he wants to hear,
and disregards the rest.
When I left my home
and my family,
I was no more than a boy
in the company of strangers
in the quiet of the railway station
running scared,
laying low,
seeking out the poorer quarters
where the ragged people go,
looking for the places
only they would know.
Asking only workman's wages
I come looking for a job,
but I get no offers,
just a come-on from the whores on Seventh Avenue.
I do declare,
there were times when I was so lonesome
I took some comfort there.
Now the years are rolling by me
they are rocking evenly
I am older than I once was
younger than I'll be
but that's not unusual
no it isn't strange
after changes upon changes
we are more or less the same
after changes we are more or less the same.
Then I'm laying out my winter clothes
and wishing I was gone,
going home
where the New York City winters
aren't bleeding me,
leading me,
to go home.
In the clearing stands a boxer,
and a fighter by his trade,
and he carries the reminders
of ev'ry glove that laid him down
or cut him till he cried out
in his anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving".
But the fighter still remains.
-- Paul Simon para Simon & Garfunkel, "The Boxer", 1968
I am just a poor boy.
Though my story's seldom told,
I have squandered my resistance
for a pocketful of mumbles,
such are promises.
All lies and jest,
still a man hears what he wants to hear,
and disregards the rest.
When I left my home
and my family,
I was no more than a boy
in the company of strangers
in the quiet of the railway station
running scared,
laying low,
seeking out the poorer quarters
where the ragged people go,
looking for the places
only they would know.
Asking only workman's wages
I come looking for a job,
but I get no offers,
just a come-on from the whores on Seventh Avenue.
I do declare,
there were times when I was so lonesome
I took some comfort there.
Now the years are rolling by me
they are rocking evenly
I am older than I once was
younger than I'll be
but that's not unusual
no it isn't strange
after changes upon changes
we are more or less the same
after changes we are more or less the same.
Then I'm laying out my winter clothes
and wishing I was gone,
going home
where the New York City winters
aren't bleeding me,
leading me,
to go home.
In the clearing stands a boxer,
and a fighter by his trade,
and he carries the reminders
of ev'ry glove that laid him down
or cut him till he cried out
in his anger and his shame,
"I am leaving, I am leaving".
But the fighter still remains.
-- Paul Simon para Simon & Garfunkel, "The Boxer", 1968
19 de março de 2005
A TEORIA DA CONSTIPAÇÃO
Não sei se repararam. Mas, nas reportagens dos protestos da Bombardier, enquanto os trabalhadores se manifestavam, um agente da polícia puxava de um pacotinho de plástico e tirava um lenço de papel para se assoar. Lenço esse de cor verde (mentolado?). Afinal, a polícia também tem direito à sua constipaçãozinha, mesmo no meio dos protestos da classe trabalhadora.
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