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8 de março de 2005

ALUGAR É O QUE ESTÁ A DAR

Quem o diz não sou eu, é o venerando Economist, na sua edição desta semana. É a melhor explicação que eu já encontrei para a minha decisão de nunca ter querido investir em comprar uma casa.

To buy or not to buy? That is the question

Mar 3rd 2005
From The Economist print edition


Today it is often much cheaper to rent than to buy a house

“IT IS always better to buy a house; paying rent is like pouring money down the drain.” For years, such advice has encouraged people to borrow heavily to get on the property ladder as soon as possible. But is it still sound advice? House prices are currently at record levels in relation to rents in many parts of the world and it now often makes more financial sense—especially for first-time buyers—to rent instead.

Homebuyers tend to underestimate their costs. Once maintenance costs, insurance and property taxes are added to mortgage payments, total annual outgoings now easily exceed the cost of renting an equivalent property, even after taking account of tax breaks. Ah, but capital gains will more than make up for that, it is popularly argued. Over the past seven years, average house prices in America have risen by 65%, those in Britain, Spain, Australia and Ireland have more than doubled. But it is unrealistic to expect such gains to continue. Making the (optimistic) assumption that house prices instead rise in line with inflation, and including buying and selling costs, then over a period of seven years—the average time American owners stay in one house—our calculations show that you would generally be better off renting.

Be warned, if you make such a bold claim at a dinner party, you will immediately be set upon. Paying rent is throwing money away, it will be argued. Much better to spend the money on a mortgage, and by so doing build up equity. The snag is that the typical first-time buyer keeps a house for less than five years, and during that time most mortgage payments go on interest, not on repaying the loan. And if prices fall, it could wipe out your equity. In any case, a renter can accumulate wealth by putting the money saved each year from the lower cost of renting into shares. These have, historically, yielded a higher return than housing. Putting all your money into a house also breaks the basic rule of prudent investing: diversify. And yes, it is true that a mortgage leverages the gains on your initial deposit on a house, but it also amplifies your losses if house prices fall.

“I want to have a place to call home,” is a popular retort. Renting provides less long-term security and you cannot paint all the walls orange if you want to. Home ownership is an excellent personal goal, but it may not always make financial sense. The pride of “owning” your own home may quickly fade if you are saddled with a mortgage that costs much more than renting. Also, renting does have some advantages. Renters find it easier to move for job or family reasons.

“If I don't buy now, I'll never get on the property ladder” is a common cry from first-time buyers. If house prices continue to outpace wages, that is true. But it now looks unlikely. When prices get out of line with what first-timers can afford, as they are today, they always eventually fall in real terms. The myth that buying is always better than renting grew out of the high inflation era of the 1970s and 1980s. First-time buyers then always ended up better off than renters, because inflation eroded the real value of mortgages even while it pushed up rents. Mortgage-interest tax relief was also worth more when inflation, and hence nominal interest rates, was high. With inflation now tamed, home ownership is far less attractive.

The divergence between rents and house prices is, of course, evidence of a housing bubble. Someday prices will fall relative to rents and wages. After they do, it will make sense to buy a home. Until they do, the smart money is on renting.

7 de março de 2005

THE IRONY IS JUST SICKENING (como diria Daffy Duck)

Qual é a música que estava a rodar em "música de fundo", há menos de meia hora, no posto da BP de Paço d'Arcos?

"Achtung Baby", dos U2.

5 de março de 2005

O PAÍS DAS ANEDOTAS

Em Portugal, tudo é pretexto para se fazer uma anedota (até naqueles casos em que, muito evidentemente, o pretexto é já de si uma anedota), como o comprovou o chorrilho de piadas baixas à volta de José Sócrates e Paulo Portas durante a campanha eleitoral, ou a quantidade de piadas com o Bibi e o caso da Casa Pia.

Mas parece-me bem que isto é muito mais significativo do país que somos do que gostamos de pensar: cai o Carmo e a Trindade se se faz uma piada sobre o Papa, mas ninguém protesta por causa das dezenas de piadas sobre as crianças molestadas na Casa Pia, ou das dezenas de piadas sobre a princesa Diana, ou das dezenas de piadas com deficientes?

4 de março de 2005

EMOÇÕES PRIMÁRIAS



(segunda tentativa, depois da primeira ter desaparecido nem eu sei como)

Ainda hoje não sei o que me marcou tanto em "Silverado", de Lawrence Kasdan, a não ser que, à altura da estreia, o vi cinco vezes a curtos intervalos e senti o regresso de um fôlego cinematográfico que não voltou a aparecer tão cedo. Já em 1985 este western tudo menos crepuscular, que recuperava a emoção primária do cinema clássico de aventuras numa altura em que o filme de cowboys estava dado como morto, era um anacronismo. Hoje, não sei o que será, já há anos que não o vejo (mas desconfio que, como já na altura era um filme fora, hoje continuará a sê-lo, e tem Kevin Kline num dos grandes papéis da sua vida). Mas sei que continuo a ter uma ternura muito especial por este filme que não teve, à altura, o sucesso merecido. E apetece-me recomendá-lo a toda a gente. Passa amanhã às 16h30 no Canal Hollywood.

3 de março de 2005

GAJAS AO VOLANTE (título propositadamente enganador)

Não sou nada do género machista misógino que acha que as mulheres guiam mal. Pelo contrário, duas ou três das minhas melhores amigas são excelentes condutoras, melhores que bastantes homens que conheço (e, aqui, lembro-me do meu pai, que tirou a carta tardiamente e sempre foi um pouco pé de chumbo a conduzir). E acho que há muitos homens que guiam mal (aliás, vejo muitos sempre que pego no carro). Mas, hoje de manhã, encontrei uma senhora que, efectivamente, era o exemplo perfeito do adágio (que, aliás, também não é exclusividade masculina, visto que uma das tais minhas amigas também acha que, no geral, as mulheres conduzem mal). Desde não ver o sinal aberto à frente até fazer curvas ultrapassando pela direita e sem fazer sinal, a senhora cometeu em 50 metros tanta infracção e distracção que me pareceu não ter claramente o menor jeito para estar ao volante. Claro que, em Portugal, não é preciso ser mulher para não ter o menor jeito para estar ao volante.

2 de março de 2005

COMING UP CLOSE

Ando a ouvir muito esta canção. Diz-me que todos procuramos o mesmo e por vezes julgamos encontrá-lo onde apenas está uma ilusão que nós próprios criamos. Diz-me que há momentos que não se repetem e que apenas fazem sentido no seu momento. Diz-me que há quem saiba quando passar à frente daquilo que não é essencial.

one night in Iowa, he and I in a borrowed car
went driving in the summer, promises in every star
out in the distance I could hear some people laughing
I felt my heart beat back a weekend's worth of sadness

there was a farmhouse that had long since been deserted
we stopped and carved our hearts into the wooden surface
we thought just for an instant we could see the future
we thought for once we knew what really was important

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew

we got back in the car and listened to a Dylan tape
we drove around the fields until it started getting late
and I went back to my hotel room on the highway
and he just got back in his car and drove away

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
and oh, by the way
don't you know that I could make
a dream that's barely half awake come true
I wanted to say -
but anything I could've said
I felt somehow that you already knew

coming up close
everything sounds like welcome home
come home

coming up close
everything sounds like welcome home
come home
come on home.


- Aimee Mann para os 'Til Tuesday, "Coming Up Close", in "Welcome Home" (Epic, 1986)

1 de março de 2005

A UTILIDADE DOS SINAIS DE TRÂNSITO

Quem percorre o centro de Paço d'Arcos de automóvel, vindo da Marginal, depara, junto ao quartel dos bombeiros, com uma rápida sucessão de três sinais de trânsito que, supostamente, deverão facilitar o trânsito na zona. No primeiro, a presença de uma "zebra" no asfalto, apesar da existência de sinais reguladores para peões, leva todo o idoso a atravessar a estrada sem sequer ver se vêm lá carros e ignorando completamente se o sinal está ou não verde para os peões. Os dois sinais seguintes, distantes escassos metros uns dos outros, sugerem que foram projectados para um fluxo de trânsito (provavelmente trazido pela proximidade da estação dos comboios, do terminal de autocarros e do terminal do monocarril) que, na realidade, parece não existe.

28 de fevereiro de 2005

EQUILÍBRIO INSTÁVEL

Não, eu não tenho uma tribo; sempre preferi o vai-e-vem na corda bamba de quem não quer outra coisa que não seja uma tribo, mas também não quer pertencer realmente (medo de quê?). Até que chega um momento em que é preciso escolher entre ficar de fora (talvez de vez) ou fazer parte. Mas, para lá chegar, é preciso escavar. Muito.

something in me
dark and sticky
all the time it's getting strong
no way of dealing
with this feeling
can't go on like this too long

this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real

digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt

the more I look
the more I find
as I close on in
I get so blind
I feel it in my head
I feel it in my toes
I feel it in my sex
that's the place it goes

this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
this time you've gone too far
this time you've gone too far
this time you've gone too far
I told you, I told you, I told you, I told you
don't talk back
just drive the car
shut your mouth
I know what you are
don't say nothing
keep your hands on the wheel
don't turn around
this is for real

digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
open up the places I got hurt

I'm digging in the dirt
stay with me I need support
I'm digging in the dirt
to find the places I got hurt
to open up the places I got hurt.


— Peter Gabriel, "Digging in the Dirt" (in "Us", Real World, 1992)

27 de fevereiro de 2005

RTP MEMÓRIA

Durante as minhas visitas de fim-de-semana à mãe, costumo pôr o televisor do quarto na RTP Memória, o que nos possibilitou, nos últimos dois sábados, assistir aos Festivais RTP da Canção de 1964, 1965 e 1966, que, vistos a esta distância, parecem verdadeiramente coisas de um outro tempo, desde os penteados bouffant de Maria Helena Fialho Gouveia, Simone de Oliveira e Madalena Iglésias à educação rígida de Henrique Mendes falando das "amáveis telefonistas", passando por Sérgio Borges a fazer a sua melhor imitação de Domenico Modugno. Com um misto de incredulidade (era mesmo assim?) e fascínio quase arqueológico (ah, era assim!). Ainda pertenço a uma geração para quem o Festival da Canção tinha alguma mística.

LOGBOOK #23: PISCINA (v1.0)

50 minutos de exercícios por cinco metros de fundo numa piscina para recordar aquelas técnicas básicas que se fazem no curso de mergulho e depois nunca mais se pensa nelas. No meu caso, questão importante: perceber o que se passava com a minha flutuabilidade com o equipamento dentro de água. Resposta: peso a mais. Descontando que a água doce é evidentemente menos densa que a água salgada, dei por mim sobre-lastrado em dois quilos, que tirei ao cinto com que costumo mergulhar — e voilà, a flutuabilidade melhorou significativamente, mesmo que haja menos stress numa piscina do que no mar. De qualquer maneira, agora é só confirmar no oceano que os nove quilos são o meu "peso ideal". (Por falar em flutuabilidade: já vos disse que ODEIO o raio do exercício do "buda"? Não? Então fica para outra altura.)

A remoção da máscara lá se fez sem grandes problemas, mas é algo que preciso de treinar mais; tenho demasiada tendência a expirar logo pelo nariz, o que pode facilitar a entrada de água pelas cavidades nasais. A subida com partilha de ar também correu bastante bem, excepto na variação "em cachimbo" em que o parceiro não percebeu o que se passava e se recusava a dar-me o raio do regulador depois de eu ter expirado o ar todo. Preciso claramente de treinar situações em que tenho de ir buscar o octopus por problema com o regulador primário.

O grande problema, contudo: a água da piscina estava a 12 graus. Nem em Sesimbra o raio da água está tão fria. (Torna-se urgente começar a estudar as opções e investir num semi-seco.)

25 de fevereiro de 2005

LUA CHEIA NA MARGINAL

A lua cheia está impossivelmente branca, um disco perfeito, gelado, suspenso no meio de uma infinitude de um azul negro. Conduzo pela Marginal, em direcção a Lisboa; não estou sozinho na estrada, mas sinto-me uma espécie de astronauta; porque o frio da escuridão entrecortada pelas lâmpadas amareladas e pelos faróis dos carros, lá fora, não engana. Ao longe, as luzes da zona ribeirinha de Algés-Belém, a ponte desenhada a pontos luminosos, alumiam sem força nem calor a escuridão; o reflexo esbranquiçado da lua cheia no mar chão, estanhado, também ele negro na escuridão da noite, desenhando uma espécie de caminho na água, como um trilho marítimo que os barcos pudessem seguir, a cauda de um cometa, uma luz desenhando a estrada. No Algarve, de Verão, a lua cheia reflectida no mar cria o mesmo efeito. Gosto destas ilusões de óptica.

UMA CANÇÃOZINHA PARA ANIMAR

Na voz, perdão, na Voz daquele que a criou, nos idos de 1959 (para o filme de Frank Capra, "Tristezas Não Pagam Dívidas"). Ladies and gentlemen, Frank Sinatra.

next time you're found with your chin on the ground
there's a lot to be learned
so look around

just what makes that little old ant
think he'll move that rubber tree plant
anyone knows an ant
can't
move a rubber tree plant

but he's got
high hopes
he's got
high hopes
he's got
high apple pie
in the sky
hopes

so any time you're gettin' low
'stead of lettin' go
just remember that ant

whoops, there goes another rubber tree plant

when troubles call and your back's to the wall
there's a lot to be learned
that wall could fall

once there was a silly old ram
thought he'd punch a hole in a dam
no one could make that ram
scram
he kept buttin' that dam

'cause he had
high hopes
he had
high hopes
he had
high apple pie
in the sky
hopes

so anytime you're feelin' bad
'stead of feelin' sad
just remember that ram

whoops, there goes a billion kilowatt dam

all problems just a toy balloon
they'll be bursted soon
they're just bound to go pop

whoops, there goes another problem kerplop


-- Sammy Cahn & James van Heusen para Frank Sinatra, "High Hopes" (in No One Cares, Capitol, 1959)

24 de fevereiro de 2005

AINDA A PROPÓSITO DOS URSOS FELIZES E DE CANTAR NO CHUVEIRO

Como não cantar (no chuveiro ou noutro sítio qualquer) quando confrontado com esta jóiazinha (ainda por cima a €22,00 cada caixa de três CDs?)

23 de fevereiro de 2005

22 de fevereiro de 2005

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #14

Leio no metro/Metro (meio de transporte/jornal gratuito) sobre a existência de um grupo de moradores de Campo de Ourique que saltou em defesa do cinema Europa, que parece estar à beira de dar lugar a mais um bloco de apartamentos. Acho óptimo que se queira salvar o cinema Europa e a sua arquitectura tão anos 50, aquela assombrosa fachada cega e os alto-relevos estilizados, acho sempre óptimo que se queira salvar mais uma sala de cinema à beira do camartelo (pena é que não tenha havido mais manifestações do género quando tantos outros já foram destruídos).

Mas há vinte anos, talvez mais, que o cinema Europa não é sala de cinema aberta ao público, transformado durante grande parte dos anos 80 em estúdio televisivo da RTP, fechado desde que o canal público o deixou de usar. Há vinte anos, talvez mais, o cinema Europa não é equipamento cultural urbano, há pelo menos cinco anos que nada ali se passa. Não posso estar mais de acordo em devolver o cinema a Lisboa, mas urge que não aconteça o que aconteceu ao São Jorge, comprado pela Câmara Municipal em delírio eleitoralista de João Soares e deixado ao deus-dará numa programação tão sem rei nem roque como antes de fechar, apenas para dizer que existe e está aberto (e foi preciso a Festa do Cinema Francês e o IndieLisboa, iniciativas privadas, para provar que a sala pode ser rentável). E urge que não aconteça o que aconteceu quando, há algum tempo, um grupo de cidadãos iniciou uma campanha com vista à reabertura e requalificação do cinema Odeon, nos Restauradores, que terminou passados alguns meses após ter chamado a atenção das autoridades responsáveis para a situação daquela sala, mas sem que nada realmente tenha mudado.

Não tenho memórias do Europa enquanto espectador. Como de tantos outros cinemas de bairro de Lisboa — o Restelo, o Lumiar, o Paris (Estrela), o Royal Cine (Graça), o Salão Lisboa (Martim Moniz), o Cine Oriente (Sapadores), o Imperial (praça do Chile, mais tarde Pathé), o Lys (Intendente, mais tarde Roxy), o Rex (Socorro) — que ficavam "fora de mão" dos circuitos de estreia, dedicados às reprises ou às "continuações de estreia". Quando comecei a ir ao cinema em 1974/1975, eram salas "marcadas", que estavam já em declínio ou a encerrar. Mas são parte integrante de uma memória cinéfila que se tem vindo a perder com a cultura dos multiplexes, de um modo de pensar a construção e encenar o espectáculo que hoje não existe. O Europa é das mais extraordinárias manifestações arquitectónicas desse modo de pensar que conheço, mesmo que nunca tenha visto mais do que a sua fachada.

21 de fevereiro de 2005

POLAROID: ALASKA SASHIMI

Desenho num saco, hoje, no ginásio: um urso polar feliz com um peixe no regaço, dois pauzinhos na mão esquerda e a legenda "ALASKA SASHIMI".

20 de fevereiro de 2005

DEMOCRACIA EM MOVIMENTO

Legislativas 2005
Resultados provisórios às 22h40

PS: 45,03% (119 deputados) 2.571.173 votos

PSD: 28,70% (73) 1.638.560

CDU: 7,57% (14) 432.134

CDS-PP: 7,27% (12) 414.826

BE: 6,38% (8) 364.263

Votantes: 5.709.364 (65,01%)

Abstenção: 3.073.527 (34,99%)

Brancos: 103.539 (1,81%)

Nulos: 63.759 (1,12%)

Dados actualizados pelo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (Stape)


Portugal pronunciou-se (ou, enfim, 65% da população portuguesa). Porque será que não estou surpreendido (nem pelo pronunciamento, nem pela abstenção)? E porque será que não me consigo esquecer dos tugas truculentos, de meia-idade, que ouvi em conversa de balneário, hoje de manhã, no ginásio, queixando-se de que os políticos são todos a mesma bandalheira independentemente da sua cor? Um deles dizia que "só votaria quando Portugal fosse um país democrático". Ironia: a democracia promove a demissão que mais procura evitar.

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #13

Fazendo o transbordo da "linha amarela" para a "linha azul" na estação de metro do Marquês de Pombal, ao descer a escada rolante que me leva ao cais da linha azul sentido Baixa-Chiado recordo-me da primeira escada rolante em que alguma vez andei na vida — precisamente no cais oposto, mas na anterior encarnação da estação, quando ainda tinha uma só linha e se chamava Rotunda, e se saía dela por um labiríntico sistema de corredores subterrâneos à praça do Marquês de Pombal. Aquela escada rolante era uma alegria. Mas, naquela altura, eu também gostava de elevadores.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #56

Ultramarino.

19 de fevereiro de 2005

POLAROID

Uma senhora percorre a rua com uma menina de um, dois anos ao colo, bem agasalhada, que chora sem parar. A senhora procura acalmá-la, afagando-lhe o rosto, falando-lhe amorosamente, mas a menina não se cala. A senhora acaba por lhe lançar um grito. "Catarina! Francamente!" A menina continua a chorar.