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20 de fevereiro de 2005

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #13

Fazendo o transbordo da "linha amarela" para a "linha azul" na estação de metro do Marquês de Pombal, ao descer a escada rolante que me leva ao cais da linha azul sentido Baixa-Chiado recordo-me da primeira escada rolante em que alguma vez andei na vida — precisamente no cais oposto, mas na anterior encarnação da estação, quando ainda tinha uma só linha e se chamava Rotunda, e se saía dela por um labiríntico sistema de corredores subterrâneos à praça do Marquês de Pombal. Aquela escada rolante era uma alegria. Mas, naquela altura, eu também gostava de elevadores.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #56

Ultramarino.

19 de fevereiro de 2005

POLAROID

Uma senhora percorre a rua com uma menina de um, dois anos ao colo, bem agasalhada, que chora sem parar. A senhora procura acalmá-la, afagando-lhe o rosto, falando-lhe amorosamente, mas a menina não se cala. A senhora acaba por lhe lançar um grito. "Catarina! Francamente!" A menina continua a chorar.

17 de fevereiro de 2005

MARKETING POLITICO #5

A carta aos eleitores de José Sócrates tem um aspecto pobrezinho, linha de montagem, produção em massa. É curioso ver como as assinaturas de Sócrates e de Pedro Santana Lopes facsimiladas em ambas as cartas são igualmente anónimas.

A carta aos eleitores do CDS/PP é graficamente forte e apelativa; concorde-se ou não com as políticas, é uma peça de marketing cujo design (clássico e ao mesmo tempo moderno) se adequa na perfeição à mensagem que se quer passar, com um eficaz jogo de cores (o branco para facilidade de leitura, o azul forte do partido, o verde e vermelho da bandeira a servir de "tampão" discreto entre o azul e o branco). Continuo na minha, o PP parece-me claramente ter a estratégia de marketing mais afinada e bem pensada, e é curioso reparar como, na carta de Lisboa, se sublinha a antiga designação CDS em detrimento do PP.

Depois de Luís Filipe Menezes ter usado "tsunami", um outdoor do PSD a apelar à participação no comício de encerramento fala da "onda laranja [que] invade Lisboa". Não me parece do melhor gosto.

16 de fevereiro de 2005

MARKETING POLITICO #4

Hoje tinha na minha caixa do correio a célebre carta ao eleitor, contra a abstenção, de Pedro Santana Lopes. Quero agradecer ao nosso primeiro-ministro demissionário por me ter iluminado com a sua sabedoria e me ter mostrado que o meu voto é verdadeiramente importante, diria mesmo, crucial para acabar de vez com o despautério em que Portugal se tornou nos últimos seis meses.

E quero também agradecer-lhe por me ter proporcionado o momento mais único que jamais vivi na minha carreira de eleitoral. Nunca uma peça de marketing tinha sido tão eficaz a insultar a minha inteligência — e já vi umas quantas.

15 de fevereiro de 2005

O PAÍS REAL

Hoje, no Público, o habitual inquérito de rua versava o debate desta noite, perguntando aos transeuntes se achavam que ele iria ajudar os eleitores a tomarem a sua decisão. Entre uma doméstica que não liga à política e uma estudante que acha que não porque vai tudo votar em branco, havia uma deliciosa de um jovem que dizia, "eu acho que sim, mas sinceramente sou brasileiro".

13 de fevereiro de 2005

O ORÁCULO

O oráculo é como se chama aquela barra em movimento, no fundo do écrã, que se tornou hábito nos telejornais. Habitualmente, está cheia de gralhas, afirmações sem sentido ou non-sequiturs hilariantes, como hoje, no noticiário das 20h00 da RTP-1, em que breves frases sobre os dias de campanha dos partidos se viram entrecortadas pelo título "NABO GIGANTE EM FRONTEIRA".

O JOGO DAS ESCONDIDAS

De regresso a Lisboa, à saída da ponte 25 de Abril, vejo um carro da polícia parado do outro lado da estrada, na escapatória construída logo antes do tabuleiro. Está parado mesmo no cotovelo da escapatória, invisível a quem se dirige para a ponte. Estarão os agentes à cata de prevaricadores em alta velocidade, em operação de vigia, ou apenas a ler o jornal ou comer uma sandocha antes de pegar ou largar ao serviço?

LOGBOOK #22: INVERNO

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 13 de Janeiro, 11h30: 16.1m, 48min, 13º C

Acho que nunca estive tão "ao largo" da Ponta da Passagem: o João Torres leva-me a contornar a "passagem" escavada na rocha costeira por fora, e é literalmente "por fora" — chegamos aos 16 metros e mais fundo iríamos se não tivéssemos dado meia volta, mas eu não me recordo de alguma vez ter saído tanto da "área conhecida". De qualquer maneira, a visibilidade está boa, as laminárias começam a aparecer (ainda em forma de enormes flores de um amarelo translúcido), sinal de que em breve começarão a aparecer muitos peixes. Um cardume vagueia por ali, brincamos com uma marinha que não parece mais fina do que um gressino, vejo um polvo a nadar elegantemente antes de se agarrar à rocha numa profusão de tentáculos. Mas está longe de ser o mergulho ideal: devo ter preso mal a máscara e lá se esgueira um jactozinho de água para o vidro esquerdo mais vezes do que seria necessário, treino a flutuabilidade mas continuo a estar demasiado pesado (vamos a ver se consigo tirar o quilo que já ando a querer tirar há muito tempo), está alguma corrente, de vez em quando puxo ar com tanta força que até puxo um bocadinho de água salgada. Ah, e a água também está fria, mas como levei o colete de aquecimento por baixo do fato, isso não foi problema. Excepto, claro, quando apanhámos com a deslocação do vento na viagem de barco de regresso a Sesimbra, porque aí rapei mesmo frio. E, apesar das luvas, as minhas mãos ainda se estão a queixar...

12 de fevereiro de 2005

O QUARTO PODER

As palavras do primeiro-ministro demissionário Pedro Santana Lopes sobre o alegado mau tratamento do PSD às mãos da imprensa têm algo de "boa cama faz quem nela se deita", porque nenhum outro dirigente do PSD cortejou a imprensa como Pedro Santana Lopes o fez ao longo dos anos. Mas, de quem pensou em lançar uma central de comunicação, não é uma declaração surpreendente.

10 de fevereiro de 2005

A LÍNGUA INGLESA É MUITO TRAIÇOEIRA

Na minha loja de conveniência, junto às caixas há aqueles expositores para pequenas gourmandises como chocolates e pastilhas elásticas. Hoje, enquanto esperava para pagar o jornal, reparei nas etiquetas feitas por computador que marcam os preços das pastilhas elásticas. "Chic Ice Canela", dizia uma. Logo ao lado, a etiqueta referente às equivalentes de "spearmint" (hortelã-pimenta, geralmente de cor verde) referia "Chic Ice Sperm".

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #29

A tendência de colocar nos DVDs de filmes citações positivas de críticos americanos de publicações que ninguém em Portugal lê ou vê ou ouve.

8 de fevereiro de 2005

POLAROID: FNAC

Tarde de terça-feira de Carnaval. Em pleno café da Fnac do Chiado, uma senhora de idade está sentada numa mesa, um chá à frente, uma série de sacos, casacos e mala numa das cadeiras. Fala ao telemóvel, muito alto, e a sua conversa é partilhada por todo o café, com várias mesas ocupadas, mas relativamente silenciosas. A senhora diz que "estamos aqui no Chiado, viemos dar uma volta. Ele está bastante constipado", e mais algumas afirmações de ocasião. Dois homens travestidos de mulher entram, pedem cafés e sentam-se noutra mesa, como se nada fosse. Um deles, com aspecto bastante feminino, está bastante produzido, com uma saia longa e um chapéu vermelho numa toilette que deixa entrar o frio; o outro, mais masculino, com uma peruca, tem um kispo branco que lhe tapa o grosso da toilette, deixando apenas ver as meias e as botas de fantasia brancas. Nas cadeiras dispostas frente ao palcozinho, está sentado um negro com várias camadas de roupa e um lenço a envolver a cabeça, vários sacos ao seu lado no chão; quando passa o segurança, ele faz-lhe sinal com um sorriso, como quem diz "estou quase a ir-me embora".

6 de fevereiro de 2005

POLAROID: AV. D. JOÃO V

Esquina com a rua das Amoreiras, sábado, quatro da tarde. Ouço um ruído seco. Uma carrinha Audi, nova, impecavelmente preta, acaba de chocar com o Mercedes de modelo antigo mas em boa conservação á sua frente. Aparentemente, o Audi arrancou à espera que o Mercedes fizesse o mesmo, que não fez. Vapor branco sai do motor do Audi, que ficou com a grelha e o pára-choques amolgados, com a capota do motor entreaberta; há pedaços de carroçaria no chão. O Mercedes arranca lentamente para parar fora da faixa de rodagem, escassos metros à frente, e não incomodar o trânsito, mas o Audi já não mexe dali, e o condutor, depois de avaliar os estragos com um aspecto desanimado mas resignado, abre a mala para tirar o triângulo de sinalização. O Mercedes não apresenta absolutamente nenhum estrago.

MARKETING POLITICO #3

Novo outdoor para o PS, agora de fundo branco e com a frase "O voto que vai mudar Portugal". Sócrates está melhor nesta foto no que nos outdoors de pré-campanha, mas continua a haver algo ao lado na imagem. A concentração de mensagem está mais afinada e conseguida aqui no que em outdoors anteriores, mas é mais funcional que inspirado; também não me parece que seja por aqui, ainda por cima com uma frase tão vazia, que se vai convencer alguém.

5 de fevereiro de 2005

TRÊS SEMANAS

Faz, amanhã, três semanas que a minha mãe sofreu um enfarte, uma coisa extensa mas sem gravidade de maior. A surpresa foi tanto mais desagradável quanto ela era a última pessoa da família que nós achávamos atreita a problemas cardíacos, ainda por cima quando o meu pai usa um pacemaker há alguns anos e o meu irmão mais velho também tem problemas de coração. Depois de um rápido cateterismo que desbloqueou a artéria e uma semana em observação no Hospital de Santa Marta, onde foi impecavelmente tratada, regressou a casa — e, hoje como há duas semanas, passa o dia na cama, apavorada que possa sofrer um segundo enfarte, paralisada pelo pânico.

Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.

Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?

3 de fevereiro de 2005

DEBATE? QUAL DEBATE?

Sashimi de salmão. Need I say more?

MARKETING POLÍTICO #2

Novo outdoor, presumo que do PSD ou da JSD: algumas polémicas figuras socialistas atrás de José Sócrates com a legenda "Você quer que eles voltem?". Eles insistem num marketing negativo que pressupõe com confiança que a resposta do eleitorado é "Não", mas que não é capaz de admitir que a resposta do eleitorado pode ser "Sim". E, sobretudo, projecta uma imagem de quem, em vez de ter ideias para propôr ou uma atitude a defender, prefere atacar o adversário para desviar a atenção do que não tem para contrapor.

2 de fevereiro de 2005

POLÍTICA (slight return)

Dilema existencial: eu acho que a política que temos é absolutamente do pior e não merece que se lhe preste a mínima atenção, mas se não lhe prestarmos a mínima atenção não há a mínima possibilidade que ela possa melhorar, nem que seja só um bocadinho de nada.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #55

Escanzelada.