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15 de fevereiro de 2005

O PAÍS REAL

Hoje, no Público, o habitual inquérito de rua versava o debate desta noite, perguntando aos transeuntes se achavam que ele iria ajudar os eleitores a tomarem a sua decisão. Entre uma doméstica que não liga à política e uma estudante que acha que não porque vai tudo votar em branco, havia uma deliciosa de um jovem que dizia, "eu acho que sim, mas sinceramente sou brasileiro".

13 de fevereiro de 2005

O ORÁCULO

O oráculo é como se chama aquela barra em movimento, no fundo do écrã, que se tornou hábito nos telejornais. Habitualmente, está cheia de gralhas, afirmações sem sentido ou non-sequiturs hilariantes, como hoje, no noticiário das 20h00 da RTP-1, em que breves frases sobre os dias de campanha dos partidos se viram entrecortadas pelo título "NABO GIGANTE EM FRONTEIRA".

O JOGO DAS ESCONDIDAS

De regresso a Lisboa, à saída da ponte 25 de Abril, vejo um carro da polícia parado do outro lado da estrada, na escapatória construída logo antes do tabuleiro. Está parado mesmo no cotovelo da escapatória, invisível a quem se dirige para a ponte. Estarão os agentes à cata de prevaricadores em alta velocidade, em operação de vigia, ou apenas a ler o jornal ou comer uma sandocha antes de pegar ou largar ao serviço?

LOGBOOK #22: INVERNO

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 13 de Janeiro, 11h30: 16.1m, 48min, 13º C

Acho que nunca estive tão "ao largo" da Ponta da Passagem: o João Torres leva-me a contornar a "passagem" escavada na rocha costeira por fora, e é literalmente "por fora" — chegamos aos 16 metros e mais fundo iríamos se não tivéssemos dado meia volta, mas eu não me recordo de alguma vez ter saído tanto da "área conhecida". De qualquer maneira, a visibilidade está boa, as laminárias começam a aparecer (ainda em forma de enormes flores de um amarelo translúcido), sinal de que em breve começarão a aparecer muitos peixes. Um cardume vagueia por ali, brincamos com uma marinha que não parece mais fina do que um gressino, vejo um polvo a nadar elegantemente antes de se agarrar à rocha numa profusão de tentáculos. Mas está longe de ser o mergulho ideal: devo ter preso mal a máscara e lá se esgueira um jactozinho de água para o vidro esquerdo mais vezes do que seria necessário, treino a flutuabilidade mas continuo a estar demasiado pesado (vamos a ver se consigo tirar o quilo que já ando a querer tirar há muito tempo), está alguma corrente, de vez em quando puxo ar com tanta força que até puxo um bocadinho de água salgada. Ah, e a água também está fria, mas como levei o colete de aquecimento por baixo do fato, isso não foi problema. Excepto, claro, quando apanhámos com a deslocação do vento na viagem de barco de regresso a Sesimbra, porque aí rapei mesmo frio. E, apesar das luvas, as minhas mãos ainda se estão a queixar...

12 de fevereiro de 2005

O QUARTO PODER

As palavras do primeiro-ministro demissionário Pedro Santana Lopes sobre o alegado mau tratamento do PSD às mãos da imprensa têm algo de "boa cama faz quem nela se deita", porque nenhum outro dirigente do PSD cortejou a imprensa como Pedro Santana Lopes o fez ao longo dos anos. Mas, de quem pensou em lançar uma central de comunicação, não é uma declaração surpreendente.

10 de fevereiro de 2005

A LÍNGUA INGLESA É MUITO TRAIÇOEIRA

Na minha loja de conveniência, junto às caixas há aqueles expositores para pequenas gourmandises como chocolates e pastilhas elásticas. Hoje, enquanto esperava para pagar o jornal, reparei nas etiquetas feitas por computador que marcam os preços das pastilhas elásticas. "Chic Ice Canela", dizia uma. Logo ao lado, a etiqueta referente às equivalentes de "spearmint" (hortelã-pimenta, geralmente de cor verde) referia "Chic Ice Sperm".

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #29

A tendência de colocar nos DVDs de filmes citações positivas de críticos americanos de publicações que ninguém em Portugal lê ou vê ou ouve.

8 de fevereiro de 2005

POLAROID: FNAC

Tarde de terça-feira de Carnaval. Em pleno café da Fnac do Chiado, uma senhora de idade está sentada numa mesa, um chá à frente, uma série de sacos, casacos e mala numa das cadeiras. Fala ao telemóvel, muito alto, e a sua conversa é partilhada por todo o café, com várias mesas ocupadas, mas relativamente silenciosas. A senhora diz que "estamos aqui no Chiado, viemos dar uma volta. Ele está bastante constipado", e mais algumas afirmações de ocasião. Dois homens travestidos de mulher entram, pedem cafés e sentam-se noutra mesa, como se nada fosse. Um deles, com aspecto bastante feminino, está bastante produzido, com uma saia longa e um chapéu vermelho numa toilette que deixa entrar o frio; o outro, mais masculino, com uma peruca, tem um kispo branco que lhe tapa o grosso da toilette, deixando apenas ver as meias e as botas de fantasia brancas. Nas cadeiras dispostas frente ao palcozinho, está sentado um negro com várias camadas de roupa e um lenço a envolver a cabeça, vários sacos ao seu lado no chão; quando passa o segurança, ele faz-lhe sinal com um sorriso, como quem diz "estou quase a ir-me embora".

6 de fevereiro de 2005

POLAROID: AV. D. JOÃO V

Esquina com a rua das Amoreiras, sábado, quatro da tarde. Ouço um ruído seco. Uma carrinha Audi, nova, impecavelmente preta, acaba de chocar com o Mercedes de modelo antigo mas em boa conservação á sua frente. Aparentemente, o Audi arrancou à espera que o Mercedes fizesse o mesmo, que não fez. Vapor branco sai do motor do Audi, que ficou com a grelha e o pára-choques amolgados, com a capota do motor entreaberta; há pedaços de carroçaria no chão. O Mercedes arranca lentamente para parar fora da faixa de rodagem, escassos metros à frente, e não incomodar o trânsito, mas o Audi já não mexe dali, e o condutor, depois de avaliar os estragos com um aspecto desanimado mas resignado, abre a mala para tirar o triângulo de sinalização. O Mercedes não apresenta absolutamente nenhum estrago.

MARKETING POLITICO #3

Novo outdoor para o PS, agora de fundo branco e com a frase "O voto que vai mudar Portugal". Sócrates está melhor nesta foto no que nos outdoors de pré-campanha, mas continua a haver algo ao lado na imagem. A concentração de mensagem está mais afinada e conseguida aqui no que em outdoors anteriores, mas é mais funcional que inspirado; também não me parece que seja por aqui, ainda por cima com uma frase tão vazia, que se vai convencer alguém.

5 de fevereiro de 2005

TRÊS SEMANAS

Faz, amanhã, três semanas que a minha mãe sofreu um enfarte, uma coisa extensa mas sem gravidade de maior. A surpresa foi tanto mais desagradável quanto ela era a última pessoa da família que nós achávamos atreita a problemas cardíacos, ainda por cima quando o meu pai usa um pacemaker há alguns anos e o meu irmão mais velho também tem problemas de coração. Depois de um rápido cateterismo que desbloqueou a artéria e uma semana em observação no Hospital de Santa Marta, onde foi impecavelmente tratada, regressou a casa — e, hoje como há duas semanas, passa o dia na cama, apavorada que possa sofrer um segundo enfarte, paralisada pelo pânico.

Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.

Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?

3 de fevereiro de 2005

DEBATE? QUAL DEBATE?

Sashimi de salmão. Need I say more?

MARKETING POLÍTICO #2

Novo outdoor, presumo que do PSD ou da JSD: algumas polémicas figuras socialistas atrás de José Sócrates com a legenda "Você quer que eles voltem?". Eles insistem num marketing negativo que pressupõe com confiança que a resposta do eleitorado é "Não", mas que não é capaz de admitir que a resposta do eleitorado pode ser "Sim". E, sobretudo, projecta uma imagem de quem, em vez de ter ideias para propôr ou uma atitude a defender, prefere atacar o adversário para desviar a atenção do que não tem para contrapor.

2 de fevereiro de 2005

POLÍTICA (slight return)

Dilema existencial: eu acho que a política que temos é absolutamente do pior e não merece que se lhe preste a mínima atenção, mas se não lhe prestarmos a mínima atenção não há a mínima possibilidade que ela possa melhorar, nem que seja só um bocadinho de nada.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #55

Escanzelada.

31 de janeiro de 2005

NINGUÉM GOSTA DO CINEMA PORTUGUÊS (NEM O PRÓPRIO)

O Diário de Notícias propõe hoje uma reflexão sobre o divórcio entre o público português e o cinema português, numa peça de Maria João Caetano que, apesar de dar voz a vários intervenientes na discussão, não é capaz de propor uma leitura diferente das coisas.

António-Pedro Vasconcellos fala da "má qualidade dos filmes" - falso, "O Milagre Segundo Salomé" é um bom filme que só fez 20 mil espectadores, "Balas e Bolinhos - O Regresso" é um péssimo filme que já vai em 45 mil, "Zona J" era um telefilme banal e fez 360 mil, "Pesadelo Cor de Rosa" não era bom e fez 185 mil. Está na altura de se abandonar a falácia da qualidade vs quantidade. Sintomático dessa falácia é o destino de "Sorte Nula", de Fernando Fragata, que nem sequer foi mostrado à imprensa, ter feito 46 mil espectadores com uma brutal campanha de marketing.

Mais sintomático ainda dessa falácia é o facto de 46 mil espectadores não ser sequer um número significativo. Um filme estrangeiro (ou seja: americano), lançado com toda a parangona publicitária da praxe, que faça 46 mil espectadores é um fracasso. Segundo os últimos números, "Ocean's Twelve" já vai nos 250 mil em apenas duas semanas: é mais do que o total de espectadores que foram ver filmes portugueses em 2004, segundo os números publicados no Diário de Notícias.

Está, por isso, na altura de nos deixarmos de merdas. João Mário Grilo aponta, com alguma razão, que não se sabe vender o cinema português (fala do caso da Atalanta, mas, francamente, a Atalanta também não sabe vender o cinema português fora do seu nicho), José Carlos Oliveira defende, com alguma razão, que é preciso incentivar o cinema mainstream em português, mas que, pela vossa saudinha, não se confunda uma definição do alvo que se quer atingir com qualidade. Se isso acontecer, óptimo, mas convém recordar que ter espectadores não é sinónimo de qualidade do filme, e ser um bom filme não é sinónimo de sucesso comercial instantâneo. E, acima de tudo, que o filme português de maior sucesso de 2004 só tenha feito 46 mil espectadores não é sinal de que seja um filme de sucesso, quando qualquer filmezinho de segunda linha que a Lusomundo lança no seu circuito faz facilmente 50 mil espectadores em fim de carreira. Convém relativizar.

30 de janeiro de 2005

MARKETING POLÍTICO (v3.0 revista)

Isto de apanhar com outdoors da campanha eleitoral para onde quer que se vá, e sobretudo durante viagens de carro sem mais em que pensar, dá direito a algumas cogitações sobre a adequação da mensagem que se quer fazer passar à forma escolhida para a fazer passar.

O PSD mostra um Pedro Santana Lopes em pose de estado com a mensagem "Contra ventos e marés, a favor de Portugal". Para não falar da deselegância da expressão face à recente tragédia asiática, a fotografia do líder projecta uma aura defensiva, de quem está a jogar pelo seguro e a conter a retórica para evitar que lhe caiam em cima. É um outdoor que, na sua pretendida sobriedade austera, recupera a carta da vitimização que o primeiro-ministro demissionário tem vindo a jogar em discursos. Quanto ao "a favor de Portugal", seria uma frase boa — se não tivesse havido tanta trapalhada nestes breves mas intermináveis meses de governo; se não tivesse havido as confusões dos assessores, as confusões dos impostos e as promessas demagógicas feitas para ganhar eleitorado; se o líder fosse outro, então, seria uma excelente frase, na sua conjugação de invocação patriótica e optimismo vago.

O cartaz da JSD, perguntando ao eleitorado se ele sabe realmente quem é José Sócrates, inaugura a tradição rasteira de atirar lama ao adversário que, por exemplo, se fez sentir na campanha eleitoral americana. Não compreendo como é possível tanta gente de direita indignar-se com o "ataque" de Francisco Louçã a Paulo Portas no célebre debate e deixarem passar com um sorriso beato um outdoor que está exactamente ao mesmo nível daquilo que condenam. Mas, já se sabe, isto do duplo standard...

A frase "Este sim, sabe quem é" do novo outdoor do PSD que entretanto surgiu (presumo que em articulação com o outdoor da JSD) é absolutamente desastrosa — sabendo Santana Lopes melhor que ninguém como está, neste momento, a ser observado com redobrada atenção, deixar que um cartaz daqueles saia (ainda por cima com o "remate" "Pedro Santana Lopes. Por amor a Portugal") é um convite ao desastre. A não ser que a ideia seja, precisamente, a negação de toda a incompetência, confusão e desorientação, tentar convencer o eleitorado de que vai tudo bem (mas haverá quem acredite ainda nisso?). O que, como política, não é exactamente o mais apropriado nesta altura do campeonato, em que as sondagens não auguram nada de bom. Ah, pois, já me esquecia, eles também acham que as sondagens não são de confiança...

Os outdoors do PS têm um problema: o sorriso confiante de José Sócrates transforma-se no ricto de quem está a ser encandeado pelo sol sem óculos escuros. A frase "Voltar a acreditar" é boa, mas levanta ambiguidades: "voltar a acreditar" no PS, acto de contrição pública depois do período negro com Ferro Rodrigues? "Voltar a acreditar em Portugal", reza outro outdoor, partindo do princípio que neste momento não acreditamos em Portugal. Mas é este PS quem vai conseguir tal milagre, incutindo confiança num eleitorado por natureza desconfiado? "Agora Portugal vai ter um rumo": é uma frase que, ao contrário do indefinido "contra ventos e marés" do PSD, inspira confiança e projecta certezas de que alguém sabe para onde conduzir o barco. Mas os outdoors tópicos — "inglês para todos", "plano tecnológico", "cartão único" — são um disparate liberal. Ninguém ganha eleições a prometer aulas de inglês nem desenvolvimento tecnológico.

"Mais votos na CDU para mudar a sério", prometem os outdoors da CDU, encimados por Jerónimo de Sousa. A frase é infeliz: para mudar Portugal a sério, ou para mudar a CDU a sério, sobretudo face às muito noticiadas crises internas comunistas entre ortodoxos e renovadores? A frase significa uma vontade de mudar Portugal, uma vontade de mudar o Partido ou apenas uma frase sonora de candidatos que sabem não ter hipóteses de vencer as eleições? O azul, contudo, é uma boa escolha, nobre e marítimo.

O Bloco de Esquerda coloca a imagem do líder com a frase "Esquerda de confiança". À imagem do outdoor que já estava exposto de Portas e Santana Lopes com a legenda "Eles divertiram-se...", que marca uma posição e funciona bem enquanto marketing de denúncia, o Bloco sabe usar o outdoor para vender uma atitude e não uma mensagem; não promete nada, deixa que os acontecimentos falem por si, apresenta-se como uma alternativa sóbria e pragmática, ao mesmo tempo que recupera o vermelho que projecta os valores clássicos de esquerda. É um outdoor adequado, no género clássico funcional, mas falta um rasgo qualquer.

Mas a mais inteligente e conseguida das campanhas de outdoors que vi é mesmo a do PP. No outdoor "Voto útil", coabitam uma linguagem gráfica simples e imediatamente compreensível (votar no PP é votar útil) e uma imagem de confiança e segurança (a foto de um Paulo Portas sorridente). Não é surpresa, já todos percebemos que Paulo Portas é um mestre na utilização dos media de massas a seu favor, mas a simplicidade e eficácia do outdoor principal, sem ambiguidades nem falhas, é um exemplo de como fazer passar uma mensagem sem precisar de dizer absolutamente nada. Melhores são os outdoors mais pequenos, com frases como "A competência é útil a Portugal" ou "A convicção é útil a Portugal"; são absolutos que ninguém ousaria contestar e que, ainda por cima, numa primeira leitura nem sequer são afiliadas ao PP, visto que o logótipo do partido está em segundo plano. E assim se sabe fazer marketing político...

28 de janeiro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #28

Pimenteiros design que parecem não ter buraco, com o resultado desagradável de, à procura do dito cujo, entornar uma grande dose de pimenta preta no tagliatelle vegetariano, que ficou bastante picante e me perseguiu o paladar durante a tarde toda. (E, já agora, a minha estupidez ao não ver os buracos que, afinal, lá estavam escondidos.)

27 de janeiro de 2005

INTERVALO

Desde que o turbilhão começou, vai fazer domingo duas semanas, que acho que esta deve ser a primeira noite sossegada que passo em casa, a ouvir música e a sentir-me minimamente útil enquanto arrumo mais uns discos e organizo algumas coisas no computador, sem ter a sensação de andar a fugir de mim mesmo ou de qualquer outra coisa, sem nenhum complexo de culpa por saber que pouco posso fazer.

Para os nostálgicos do tecno-pop dos anos 80, "Nightbird" dos Erasure (Mute/EMI, 2005) é um belo disco de pop orelhuda melancólica explorando as sonoridades vintage dos sintetizadores pioneiros. Para quem gosta de guitarras à solta, "Worlds Apart" dos ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead (Interscope/Universal, 2005), é um óptimo álbum de caos meticulosamente organizado, onde a melodia do emo e de recentes variações popificadas do punk encontram as ambições megalómanas do rock progressivo no meio de um maelstrom sónico perfeitamente delineado. E para toda a gente com ouvidos, há uma pérola chamada "Ulisses" (Emarcy Classics/Universal, 2005), pela assombrosa fadista-que-nunca-o-foi-e-agora-ainda-menos Cristina Branco, a descobrir com urgência. Pormenor importante: Cristina Branco não foi contratada por uma companhia portuguesa. Isto deve querer dizer qualquer coisa.

(Recado para o Rodrigo C.: paciência; lá chegaremos, mas gosto da canção dos Starlux, "Low Radiation", mesmo que o resto do EP não seja brilhante.)

26 de janeiro de 2005

PUBLICIDADE DESAVERGONHADA v2.0

Era só para dizer que, a partir de agora, o Irmão Escocês, João Macdonald, essa "figura ilustre do jornalismo tauromáquico" para fazer jus às suas sábias palavras e homem honrado a quem tenho a grata alegria de poder chamar amigo, se juntou à lista de intervenientes no sempre incontornável Barnabé.

Para além do João, também o mui estimado Nuno Sousa, alma gémea em algumas devoções sonoras, amigo virtual e apreciador de sumo de laranja, passou a barnabita full-time. O que já são, para quem nunca lá foi (ao Barnabé), duas óptimas razões para passar a ir e, para quem já conhece, duas ainda mais óptimas razões para continuar a ir.

POP CULTURA

Vi hoje, estacionado perto do meu carro, um automóvel de cuja existência nunca suspeitei: uma carrinha (ou station wagon, ou break, ou o que lhe quiserem chamar) da MG que responde pela identidade ZT-T. Será que Trevor Horn sabe?

25 de janeiro de 2005

OSCARES? QUAIS OSCARES?

Vamos lá a ver se entendemos uma coisa: qualquer cerimónia de entrega de prémios que faça as asneiras seguintes não pode ser levada a sério:

1. Mesmo nomeando Jamie Foxx para melhor actor por "Ray", de Taylor Hackford (estreia 10 de Fevereiro), nomeá-lo para melhor actor secundário por "Colateral", de Michael Mann. Quem viu o filme sabe que aquilo não é um papel secundário em lado nenhum do mundo.

2. Nomear Natalie Portman e Clive Owen para actriz e actor secundários em "Perto Demais", de Mike Nichols — filme onde não há papéis secundários, apenas quatro actores em igualdade de circunstâncias (no limite, todos eles seriam secundários, mas isso é falsear a verdade).

3. Nomear Thomas Haden Church e Virginia Madsen para as categorias secundárias em "Sideways", de Alexander Payne (estreia 3 de Março), e não fazer sequer menção a Paul Giamatti.

4. Nomear Kate Winslet para melhor actriz em "O Despertar da Mente", de Michel Gondry, e esquecer Jim Carrey e até Gondry.

5. Nomear "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater, para melhor argumento adaptado — adaptado de quê?... E, já agora, porquê sequer nomeá-lo?

DEDICATÓRIA

For David D. — you'll understand why.

honey
it's been a long time coming
and I can't stop now
such a long time running
and I can't stop now
do you hear my heart beating?
can you hear the sound?
'cause I can't help thinking
and I don't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns for you and me
and then I looked up at the sky and saw the sun
and the way that gravity pulls on everyone
on everyone

baby it's been a long time waiting
such a long long time
and I can't stop smiling
no I can't stop now
do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?
'cause I can't help crying
and I won't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns on you and me
and then I looked up at the sun and saw the sky
and the way that gravity pulls on you and I
on you and I.


- Chris Martin para Embrace, "Gravity", in "Out of Nothing" (Independiente/Sony BMG, 2004)

A QUINTA DAS CELEBRIDADES

now there's a lifestyle
with painted lips
now there's a lifestyle
everybody wants it
but it don't exist
and I said
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the TV
and the media
shame
we loved you

now there's a lifestyle
with fashion chic
now there's a lifestyle
everybody in it wants to be elite
and I said
"you with yer brand new shoes and
you with yer greasy hair and
you with yer mother's pride and poetry
don’t you want to feel the shame?"
in the dancehalls
can’t you feel the shame?
and the TV
can’t you feel the shame?
we loved you

shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the tv
and the media
shame
we loved you
at the Lido
and the opera
shame
at the races
and the theatre
shame
we loved you

and they said all we need is love
all we need is love
with the Beatles and the Rolling Stones
day after day
day after day.


- Eurythmics, "Shame", in "Savage" (RCA, 1987)

23 de janeiro de 2005

POLAROID: HCL

As horas das visitas dos hospitais aos dias de semana parecem ser sempre populadas pelo mesmo tipo de pessoas: mulheres de meia-idade, sozinhas ou acompanhadas por outras como elas, de cabelo grisalho ou branco, óculos claros ou tintados, sacos de plástico na mão e mala a tiracolo, prontas a conversar com o primeiro que apareça sobre o atraso da visita, as doenças da vizinha, o motivo porque ali está, o motivo porque ali estamos. Arrastam consigo um cheiro bafiento de vidas tristes e rotineiras, de futuro que nunca aconteceu, uma amargura surda de quem nunca concretizou aquilo que sonhou em nova e, resignada à mediocridade (sub-)urbana em que se acomodou, se delicia com os escândalos e coscuvilhices das revistas de televisão e sociedade e não consegue imaginar a existência de coisas mais importantes.

Mas é verdade que o ambiente dos hospitais, por mais asseado, asséptico, neutro, iluminado que possa ser, predispõe ao tipo de lamentos resignados e cinzentos em que os portugueses são pródigos. O "cá estamos", o "é assim", o "é só chatices" e outro tipo de interjeições que não dizem rigorosamente nada mas são entendidas pelos conversantes como se fossem verdades universai, como se contivessem em si um qualquer segredo que só eles partilham. Uma espécie de vírus da resignação negativista, que proclama como única certeza a morte anunciada e o vale de lágrimas em que a vida se gasta até lá, e a futilidade de procurar lutar contra tão negro e fatalista destino.

Portugal no seu melhor, em suma: velho, gasto, claustrofóbico, sufocante, cinzento, resignado, incapaz de se erguer do lamaçal em que voluntariamente se deixa prender.

20 de janeiro de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #54

Pitosga.

(por causa dos outdoors da Swatch do hipopótamo pitosga a chamar pelos pais; que me lembraram dos velhos cartoons da UPA do Mr. Magoo, que em português era conhecido pelo Sr. Pitosga)

18 de janeiro de 2005

TURBILHÃO

Entre um regresso ao trabalho após duas semanas de repouso e desagradável hospitalização surpresa da minha mãe (está tudo bem, obrigado por perguntarem), os últimos dias foram um remoínho de emoções complicadas de descrever. Vir para aqui manifestar o meu desagrado com a campanha vitimizatória de Pedro Santana Lopes (será que ainda alguém acredita quando ele faz aquela cara de beicinho, depois de todos os tiros no pé que andou a dar e, pelo que a imprensa vai dizendo, continua a dar?), por muito importante que seja em termos de cidadania, não tem absolutamente nenhuma importância ao pé do que realmente importa, que é ver a minha mãe outra vez em casa a resmungar connosco, em vez de a ver numa cama de hospital a resmungar connosco.

Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.

16 de janeiro de 2005

HCL

Porque é que os hospitais não podem ser sítios iluminados e com aspecto de funcionarem bem, com salas de espera agradáveis e acolhedoras, como nos filmes americanos (excepto o "Serviço de Urgência", entenda-se), em vez de serem prédios vetustos, labirintos kafkianos com iluminação escura e fria, paredes de tinta desmaiada descascada, salas de espera improvisadas num qualquer cantinho de passagem, portas trancadas com folhas de papel escritas a computador, obras de Santa Engrácia por tudo quanto é sítio?

15 de janeiro de 2005

POLÍTICA

"A política não interessa a ninguém", diz a minha mãe regularmente. Nunca percebi se ela o diz por absoluta crença na afirmação ou como justificaçao para o desinteresse tão tipicamente lusitano que ela tem pela política — na certeza de que ela não vai perder tempo a pensar no assunto, excepto se por alguma razão a afectar.

Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.

E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.

14 de janeiro de 2005

SOCORRO! ESTOU-ME A VER GREGO

Tenho que agradecer ao meu amigo e vizinho António R. pelo sublime momento kitsch que me proporcionou ontem à noite, ao sacar o seu DVD com os melhores momentos de Demis Roussos e mostrar a figura corpulenta e barbuda do cantor grego, qual grunho novo-rico que se esqueceu de tomar banho, fazendo playback de "Goodbye My Love Goodbye" acompanhado por lacrimejantes movimentos de braços numa estação de comboio de Bruxelas, esforçando-se para não se desmanchar a rir, enquanto um ferroviário local fuma com ar de quem está no filme errado. Momento de rara beleza só ultrapassável por aquele em que ele faz playback de "Schönes Mädchen aus Arkadia" à beirinha do Parténon enquanto brinca com o horroroso logótipo do programa alemão para o qual o filmezinho foi gravado, com um ar de frete insuportável, incapaz de sequer aproximar os movimentos de lábios do que se está a ouvir; ou pelo ramo de oliveira que de repente aparece no enquadramento de Vangelis e Roussos encostados a estátuas gregas no teledisco de "Rain and Tears" dos Aphrodite's Child.

12 de janeiro de 2005

POLAROID: METRO

Sempre achei que as estações da linha do Oriente, dita "linha vermelha", eram estranhas — quase todas de tamanho monumental (cf. Olaias) e desproporcionadas à pouca utilização que sempre lhes vi, sem dúvida relacionada com a sua vocação de ramal quase suburbano e desconexo do grosso da rede (com a Alameda como única ligação, pelo menos até à concretização da extensão que a fará cruzar a "linha amarela" no Saldanha e a "linha azul" em S. Sebastião). A música das estações vai da muzak de flauta de pan a "Music" de Madonna.

Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.

À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.

Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.

Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.

MAIS UMA PEQUENA QUESTÃO RETÓRICA

Porque carga d'água é que é precisamente nos dias em que tenho de me levantar mais cedo que me dá uma espertina filha da mãe?

11 de janeiro de 2005

O FIM JUSTIFICA O MEIO

Há coisas que eu não percebo necessariamente. Percebo a comodidade de um centro comercial, reunindo um sem-número de lojas sob um mesmo tecto. Não percebo porque é que isso torna um centro comercial no equivalente contemporâneo da passeata digestiva de domingo para muita gente.

Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.

Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?

Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.

E não, não comprei nada.

10 de janeiro de 2005

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #52

Cacholada.

(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)

9 de janeiro de 2005

LOGBOOK #21: O ELOGIO DA LOUCURA

Sesimbra: Baía da Armação, domingo 9 de Janeiro, 10h58: 11.7m, 57min, 13º C

Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.

Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).

Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.

Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).

Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).

Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.

8 de janeiro de 2005

UMA PROFISSÃO DE FUTURO

Não, não é a marinha, nem a força aérea, nem nada que se pareça.

Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.

7 de janeiro de 2005

VALHA-NOS SÃO ESTEVÃO MÉRITO

Ele e ele decidiram-se a voltar.

Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).

POLAROID: BARBEIRO

O barbeiro fica inquieto quando entro no salão. Nenhum dos seus colaboradores está, sairam para tomar café, ele está a fazer arrumações e limpezas e procura-os por um instante antes de pôr as limpezas de lado algum tempo para me cortar o cabelo. A um canto do salão, a esposa, cabelo branco e óculos, retrato-robot de uma avozinha portuguesa de subúrbio clássico, entoa num tom paternalista e condescendente uma ladainha destinada a embalar o neto ainda bebé, que não deixa por isso de soltar exclamações pontuais e ameaçar choro. Por um momento, penso que ele está a protestar por ter de ouvir repetido durante tanto tempo "quem é o queridinho da avó", naquela linguagem palradora e perfeitamente irritante que os adultos fazem ideia (errada) que as crianças percebem. Por um instante pensei que era isso que o bebé estava a querer dizer — "cala-te, já estou farto de te ouvir com essa patetice, achas que eu não te topo?". O barbeiro também já parece farto de ouvir a ladainha, às tantas pergunta à mulher num tom ríspido porque não vê se o menino está sujo. Mas a senhora insiste.

E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.

5 de janeiro de 2005

CÓDIGO DA ESTRADA

Muita gente fala — e com razão — da falta de civismo dos condutores portugueses, mas ninguém fala da falta de civismo dos peões, que atravessam "à Lagardère" pelo meio de faixas de rodagem rápidas, indiferentes ao volume de tráfego, indiferentes às passadeiras ou aos semáforos. Na avenida Infante Santo, na rua Conde Redondo, na avenida Álvares Cabral, é vê-los, até à noite, a atravessarem a avenida ou a pararem em cima do traço divisor como se fosse um passeio. Um pouco por toda a Lisboa, é vê-los a atravessarem intersecções turbulentas como se atravessassem um jardim público. Às vezes, acho que, entre a inconsciência dos condutores que não respeitam a velocidade máxima urbana, o traço contínuo ou as passadeiras, e a inconsciência dos transeuntes que atravessam a rua como se todos os carros tivessem de parar para os deixar passar (recordo-me das vacas sagradas hindus), é um milagre que não haja mais atropelamentos em Lisboa.

PÔNCIO, PILATES

Algo me diz que Pedro Santana Lopes ainda não terminou o seu annus horribilis.

4 de janeiro de 2005

BEM VINDO SR. PRESIDENTE DO CONSENSO CAPICUA

Cada vez tenho mais respeito por Aníbal Cavaco Silva.

VISÃO PERIFÉRICA

Existem coisas que nunca aprendemos realmente. Erros que insistimos em fazer. Armadilhas bem à nossa frente que persistimos em ignorar, como se fossem ilusões que criámos para nós próprios. Mas a única ilusão está em teimarmos que elas não estão lá, e em não percebermos que só nós é que não as vemos.

Chama-se ao processo crescer.

2 de janeiro de 2005

NOT EVERYONE CAN CARRY THE WEIGHT OF THE WORLD

Hoje, uma semana depois, todos os noticiários ocupam 30 minutos a esmiuçar os pormenores da tragédia da Ásia; a repetir até à exaustão os mesmos dados que já todos ouvimos esmiuçados nos últimos sete dias; a convocar os sobreviventes portugueses da tragédia para contarem as suas experiências (como se elas pudessem fornecer-nos um qualquer insight precioso sobre os desígnios insondáveis da natureza). Perturba-me esta exploração, quase pornográfica, da tragédia; perturbam-me os lugares comuns que ouço repetidos vezes sem conta ao dia, perturbam-me as pequenas histórias que todos os dias surgem do milagre da sobrevivência, perturbam-me as imagens de valas comuns e cadáveres que me entram pela sala dentro sem pedir licença.

Não estou a protestar contra a necessidade de informar, porque é urgente ajudar, é urgente tomarmos consciência que este é um só mundo e todos somos afectados por uma tragédia destas, é importante que não nos esqueçamos que as consequências da tragédia afectarão os países durante meses, anos. Mas onde se desenha a fronteira da informação? Quando é que a dignidade cede o lugar à exploração dos sentimentos de culpa ocidentais?

Quando vejo sobreviventes ingleses a chorarem convulsivamente face às câmaras de televisão, sinto-me um intruso num momento catártico que não é, não pode ser público, que tem de ser privado. Quando vejo cadáveres embrulhados em plástico a serem despejados numa vala comum, sinto-me um voyeur perverso, porque aquele é um momento demasiado impressionante para ser repetido ad infinitum num écrã de televisão, que não é para ser visto levianamente à mesa do jantar por entre discussões de futebol e política. E não quero com isto invocar preceitos morais ou éticos de qualquer espécie — apenas que há um respeito que estas incontáveis vítimas merecem que não se compadece com os horários rígidos dos telejornais, com a medição das audiências.

O sofrimento é, sempre foi, algo de privado, de pessoal. Não acredito na sua exibição pública. E há momentos em que o que me parece ver, na procissão de imagens televisivas, é uma mera exposição da dor. Para que os outros se possam considerar sortudos. E essa é a pior das razões para querermos ajudar.

30 de dezembro de 2004

DISCOS DE 2004

(uma lista possível puramente alfabética, nada definitiva e muito idiossincrática)

1-UIK PROJECT, Strategies and Survival (Enchufada/Movieplay)
ADRIANA CALCANHOTTO, Adriana Partimpim (Ariola/BMG)
ALDINA DUARTE, Apenas o Amor (Virgin/EMI)
ANAMAR, Transfado (Companhia Nacional de Música/MVM)
ARNALDO ANTUNES, Saiba (Rosa Celeste/BMG)
BiD, Bambas & Biritas Vol. I (Soul City/Beleza/Universal)
BILL FRISELL, Unspeakable (Nonesuch/Warner)
The BLUE NILE, High (Epstein/Sanctuary/Som Livre)
CAETANO VELOSO, A Foreign Sound (Emarcy/Universal)
ELVIS COSTELLO & THE IMPOSTERS, The Delivery Man (Lost Highway/Universal)
CHULLAGE, Rapensar (Lisafonia)
DA WEASEL, Re-Definições (Virgin/EMI)
DAVID BYRNE, Grown Backwards (Nonesuch/Warner)
HÉLDER MOUTINHO, Luz de Lisboa (Ocarina)
HOME (Benjamin Biolay & Chiara Mastroianni, Home (Virgin/EMI)
HUMANOS, Humanos (Capitol/EMI)
JILL SCOTT, Beautifully Human: Words & Sounds vol. 2 (Hidden Beach/Sony)
JOSÉ MÁRIO BRANCO, Resistir É Vencer (Capitol/EMI)
k. d. lang, Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch/Warner)
The KILLERS, Hot Fuss (Island/Universal)
The MAGNETIC FIELDS, I (Nonesuch/Warner)
MARIA JOÃO MÁRIO LAGINHA, Tralha (Emarcy/Universal)
The MOUNTAIN GOATS, We Shall All Be Healed (4AD)
A NAIFA, Canções Subterrâneas (Columbia/Sony)
RODRIGO LEÃO, Cinema (Columbia/Sony)
STEVE EARLE, The Revolution Starts Now (Artemis/Edel)
TANYA DONELLY, Whiskey Tango Ghosts (4AD)
TOM WAITS, Real Gone (Anti-/Edel)
TV ON THE RADIO, Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (4AD)
U2, How to Dismantle an Atomic Bomb (Island/Universal)
VINICIUS CANTUÁRIA, Horse and Fish (Hannibal/Rykodisc/Edel)

29 de dezembro de 2004

ÁSIA

Depois disto, não há nada que se possa dizer sobre a tragédia da Ásia que não soe a falso.

28 de dezembro de 2004

COMENTÁRIO TÍPICO DE MARIDO DISTRAÍDO

O marido entretém-se a ver aquilo de que gosta enquanto a mulher, aborrecida, espreita a montra de roupa na loja do lado: "Vou ali e já venho". Comenta o marido, absorto: "Ali aonde?"

27 de dezembro de 2004

PARA QUE SERVEM OS PASSEIOS?

A matrona cinquentona desce a rua estreita mesmo pelo meio da estrada, apesar do passeio à direita, mesmo que estreito, estar desocupado. Não me apetece buzinar-lhe, e vou descendo devagar para ver se ela percebe. Ela percebe. Olha para trás. Chega-se ao passeio, mas não sobe para cima dele. Lança-me um olhar de desprezo, como quem diz "que impertinência a sua! Veja lá, querer andar de carro na rua!". Pelo retrovisor a senhora continua a descer pelo meio da rua como se não fosse nada com ela. Arrependi-me de não lhe ter buzinado.

25 de dezembro de 2004

PAREM O MUNDO

Gostei que a noite de Natal pouco tenha diferido de uma qualquer noite de fim-de-semana e que o dia de Natal tenha sido apenas um sábado como outro qualquer, passado entre quatro paredes com as janelas abertas ao céu azul acinzentado e ao sol frio de inverno, com o aquecedor ligado, a música a correr no CD, as revistas em cima do sofá. Parar o mundo assim pode ser bom.

24 de dezembro de 2004

árvorezinha

(ou: saudação natalícia alternativa menos mas ainda assim alternativa, descaradamente influenciada por um e-mail natalício de proveniência desconhecida mas que me parece assinalavelmente apropriada)

little tree
little silent Christmas tree
you are so little
you are more like a flower

who found you in the green forest
and were you very sorry to come away?
see i will comfort you
because you smell so sweetly

i will kiss your cool bark
and hug you safe and tight
just as your mother would,
only don't be afraid

look the spangles
that sleep all the year in a dark box
dreaming of being taken out and allowed to shine,
the balls the chains red and gold the fluffy threads,

put up your little arms
and i'll give them all to you to hold
every finger shall have its ring
and there won't be a single place dark or unhappy

then when you're quite dressed
you'll stand in the window for everyone to see
and how they'll stare!
oh but you'll be very proud

and my little sister and i will take hands
and looking up at our beautiful tree
we'll dance and sing
"Noel Noel"


- e. e. cummings

have yourself a mary little xmas

(ou: saudação natalícia alternativa)

já nasceu o Deus menino
e as vaquinhas vão mugindo
blim blom, blim blom
blim blom nylon

Mary, Mary, Mary Cristo
Cristo, Cristo, Mary, Mary
esta noite olham por nós
anjos cantam de lá do céu

carneirinho me dá lã, mé
passarinhos de manhã, né
cantam
tudo tão bom

Papai Noel
momo do céu.


- Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown/Marisa Monte, "Mary Cristo", in "Tribalistas" (Phonomotor/EMI, 2002)

22 de dezembro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #48

Autóctone.

ANGER MANAGEMENT

Sentir-me um boxeur que está a levar porrada por tudo quanto é sítio e, contudo, sem perceber bem porquê, insistir em levantar-me, insistir em cumprir cada longo e doloroso round, sabendo que cada segundo apenas aumenta as probabilidades estatísticas de ceder o combate. E, contudo, insistir. Resistir. Como se pudesse mudar algo que não depende de mim. E continuar a invocar, sei lá de onde, a força de vontade de acreditar que tudo isto é só um momento mau que em breve ficará para trás.

Nem sempre o inferno são os outros.

21 de dezembro de 2004

AFORISMO

Descobri que tenho todas as rotinas do típico chefe de família. Só que não tenho família da qual ser chefe.

20 de dezembro de 2004

TELEFONEMAS

Saber que não posso fazer nada, deixar a culpa a ferver em lume brando, lentamente, durante todo o dia, entrecortada por telefonemas indagando de evoluções. Sentir-me prisioneiro de uma qualquer jaula de cuja chave receio conhecer o paradeiro. Perguntar-me se a responsabilidade não assume sempre uma quota-parte de fuga, se a opção não é, no fundo, em vez de uma aceitação de algo a rejeição do outro. Sinto-me esgotado.

19 de dezembro de 2004

TELEJORNAL

É impressão minha, ou (à falta de congressos partidários, crises políticas e outros acontecimentos semelhantes) os noticiários de fim-de-semana estão cada vez mais virados para a exploração do "caso da vida", da reportagem sobre as injustiças, as iniquidades e as infelicidades que pululam pelo nosso país? Por vezes pergunto-me como é que um estrangeiro verá estes telejornais que, ao mesmo tempo que exibem políticos seguros de si e executivos que pintam imagens de amanhãs que cantam, remexem à procura das desgraças quotidianas, dos labirintos kafkianos em que a burocracia encerra as pessoas, da luta que por vezes é apenas sobreviver. Algures entre o folhetim do desgraçadinho e a ilusão de sucesso, está um Portugal normal que os telejornais raramente mostram, porque a imensa maioria nunca gosta de se ver ao espelho; gosta de se sentir melhor que os infelizes e de resmungar com aqueles que estão melhores que ela. Faz sentido. Ou talvez não.

18 de dezembro de 2004

POLAROID: BOMBEIROS

Como moro perto de S. Bento, estou habituado aos uivos das sirenes dos batedores da polícia que se ouvem pelo menos uma vez ao dia, escoltando as individualidades pelo meio do trânsito de Lisboa, e por vezes também à noite. Não costumo é ouvi-las na minha rua, e por isso fui à janela onde vi nada menos de três carros de bombeiros, strobes azuis a piscar, parados com poucos metros de intervalo, frente a uma das casas antigas da rua, mais abaixo. Mas da minha janela nem fumo nem fogo se via, apesar da movimentação de bombeiros à porta e das janelas acesas e mirones que vieram à rua perceber o que se passava. Em breve começou a desmobilização, com os bombeiros a regressar aos carros para se desequiparem, e confesso que não cheguei a perceber se houve realmente incêndio ou tudo não passou de um falso alarme. Tudo voltou à normalidade da qual, provavelmente, nunca se terá chegado a sair.

Creio que terá sido há dois anos que um episódio semelhante ocorreu no meu prédio, precisamente por alturas do Natal. Uma vela decorativa deixada acesa em cima do televisor durante o jantar pegou fogo ao televisor, cuja caixa plástica, ao derreter, criou uma fumarada e um cheiro nauseabundo que rapidamente se espalharam à caixa do elevador e das escadas — mas não havia fogo visível em lado nenhum, e só quando os bombeiros (em muito menos quantidade) vieram é que conseguimos perceber o que estava a acontecer. Durante os dias seguintes, todos os inquilinos do prédio deixavam os lenços negros das poeiras acumuladas no nariz sempre que se assoavam.

16 de dezembro de 2004

(adenda ao post anterior em forma de publicidade desavergonhada)

PS 1 — sem o saber, o Roda Livre partilha o aniversário com a minha querida amiga V., que geralmente "can't be bothered" (com o quê, isso caber-lhe-á a ela responder)

PS 2 — uma cunha desavergonhada ao "irmãozinho mais novo", ficheiro-arquivo a meu bel-prazer de textos sobre cinema que, por uma ou outra razão, não têm cabimento nem actualidade para serem mencionados nem aqui nem no meu day job. A Casa Encantada não é actualizado diariamente como o Roda Livre, mas todas as semanas (um pouco como as estreias de cinema...) lá vão caindo mais umas fichinhas

15 de dezembro de 2004

IT WAS A VERY GOOD YEAR (Sinatra dixit)

Vou-vos contar um segredo: o Roda Livre faz hoje um ano. Embora a data "oficial" seja amanhã, 16 de Dezembro, o facto é que os primeiros ensaios foram feitos a 15, ainda em modo "privado", e só a 16 é que entrou no "domínio público".

Há um ano, não fazia a mínima ideia quanto tempo é que me ia apetecer aguentar este pequeno manifesto diletante. Hoje, tornou-se num daqueles bons hábitos, como ler o jornal de manhã, comer um pastel de nata a seguir a um bom café, ficar no sofá enroscado com um bom livro.

Mas acho que os parabéns não são tanto para mim (não vejo que um "espelho" tão inclassificavelmente pessoal como este os justifique...) como para os mais de 25 mil visitantes que, para minha agradada mas estupefacta surpresa, por aqui passaram ao longo do ano. E para todos aqueles (muitos menos!) que, para lá disso, têm comentado, escrito, resmungado, apoiado, mandado vir, compreendido e enviado beijos e abraços ao longo deste ano. Enquanto estiverem desse lado, acho que vou continuar a ter (muito) gosto em estar deste lado.

14 de dezembro de 2004

POLAROID: METRO

(domingo)

No Rato, o comboio leva mais tempo do que é costume a partir da estação. Chegados ao Marquês de Pombal, o comboio teima em ficar parado no cais. O sinal está verde, com a segunda luzinha vermelha a indicar que não é conveniente partir. O sistema sonoro da estação anuncia, primeiro, que o tráfego na linha amarela se encontra com "perturbações".

Sentada na carruagem, uma mulher loura dorme encostada ao banco, aparentemente a sono solto, de boca aberta. Veste um casaco tipo kispo, fino, calças de ganga, ténis brancos sujos, uma mala que não se distingue por baixo dos braços cruzados. O rosto envelhecido, a figura frágil e macilenta dão a entender alguém que caíu nos braços de um vício. Mexe-se. Curva-se e desfaz e refaz o nó do atacador de um dos ténis. Levanta-se. "Então isto não anda?", pergunta, numa voz arrastada, enrouquecida, para ninguém em especial. Sai da carruagem e pára em frente à porta aberta. Assobia várias vezes, como se o condutor do comboio a pudesse ouvir por entre o ruído de ar condicionado no máximo do motor eléctrico em ponto de embraiagem. Sem resposta, resmunga, volta para dentro, volta a sentar-se, encostando-se à janela com o cotovelo no parapeito.

O sistema sonoro da estação lança uma nova mensagem, diferente da anterior. Saio da carruagem, mas o ruído do motor não me permite fazer sentido do som abafado, roufenho da mensagem. Há pessoas que saem da carruagem e sobem as escadas em direcção à saída. Depois de não conseguir perceber a mensagem uma segunda vez, faço o mesmo; junto às bilheteiras, procuro compreender o que a voz diz — presumo que seja qualquer coisa do género "a circulação na linha amarela está interrompida" — mas não consigo perceber mais do que "pelo facto pedimos as nossas desculpas". Saio da estação e vou a pé até ao Saldanha.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #48

Pruriginoso.

ENCRYPTICA

tough, you think you've got the stuff
you're telling me and anyone
you're hard enough

you don't have to put up a fight
you don't have to always be right
let me take some of the punches
for you tonight

listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone

and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own

we fight all the time
you and I... that's alright
we're the same soul
I don't need... I don't need to hear you say
that if we weren't so alike
you'd like me a whole lot more

listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone

and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own

I know that we don't talk
I'm sick of it all
can you hear me when I
sing, you're the reason I sing
you're the reason why the opera is in me...

where are we now?
I've got to let you know
a house still doesn't make a home
don't leave me here alone...

and it's you when I look in the mirror
and it's you that makes it hard to let go
sometimes you can't make it on your own
sometimes you can't make it
the best you can do is to fake it
sometimes you can't make it on your own.


- Bono para U2, "Sometimes You Can't Make It on Your Own" (in "How to Dismantle an Atomic Bomb", Island/Universal 2004)

13 de dezembro de 2004

DESCONTEXTUALIZAÇÕES #2

"As mães devem ser as únicas pessoas do mundo que adoram ser exploradas indecentemente" - em conversa com um amigo no Messenger.

QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM (UPGRADE)

Afinal, qual acne qual carapuça. Depois de dar pelos vermelhuscos no pescoço, nos ombros e nas costas, e de começar a sentir uma leve comichão pelas áreas afectadas, chego à conclusão que é mesmo uma reacção alérgica, embora não faça a mínima ideia a quê.

12 de dezembro de 2004

QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM

Segundo me informou a minha estimada amiga Discípula de Avicena, Serva de Esculápio, etc., o arco de pequenos altinhos vermelhuscos que desenha uma linha curva de sobrancelha a sobrancelha, encostando à linha de cabelo da testa, parece ser um ataque de acne. Coisa que, aos 36 anos, me parece absolutamente idiota, sobretudo porque nunca tive nenhum. Mas pronto, antes acne que um ataque de estupidez.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #47

Esfíncter.

JOSÉ MILHAZES

...foi hoje visto no jornal da noite da SIC. Foi a primeira vez que vi a imagem daquele cuja voz já conheço há largos anos da TSF. Tem ar de patriarca ortodoxo com sotaque das berças. A minha mãe acha que se cortasse a barba era um homem bonito, e que em qualquer caso é mais bonito que o Evgueni Moravitch.

11 de dezembro de 2004

TOLERÂNCIA DE PONTO

A minha mãe costuma dizer (e eu sei que ando a falar muito da minha mãe, mas prometo que isto não se vai tornar no blog daquilo que a minha mãe diz) que detesta injustiças e que é incapaz de se calar quando confrontada com uma. É um dos traços particulares de carácter que herdei dela, muito embora a noção de "injustiça" seja uma das coisas mais absurdamente relativas de que há memória. Porque, se a "justiça" se rege por leis supostamente iguais para todos, aquilo que se considera uma "injustiça" é geralmente a prova cabal de que essas leis não são realmente iguais para todos, nem nada que se pareça.

Aquilo que a minha mãe geralmente considera uma injustiça é quando nós não estamos de acordo com ela e contradizemos a sua versão dos acontecimentos. Há sempre dois lados para uma mesma questão; geralmente, um deles teima em ser bastante intolerante, seguro (quase até à arrogância) da certeza de ser a única versão aceitável e correcta, a única "de bem"; geralmente, o outro acaba por cansar-se e deixar o outro a falar sozinho, prisioneiro num circuito fechado, loop de feedback, pescadinha de rabo na boca satisfeita com a sua própria lógica aparentemente inatacável. Há quem não concorde, apresente argumentos civilizados, lance sugestões construtivas. Há quem não concorde e a única coisa que sabe fazer é negar de modo cego os argumentos do outro, sem sequer compreender que o edifício que propõe em substituição é um frágil castelo de areia. Mas a pergunta é: deixar o outro a falar sozinho pode ser um exemplo de tolerância, mas não estará apenas a alimentar a intolerância? Em vez de lhe contrapôr um obstáculo, deixá-la à solta?

As pessoas inflamam-se pelos motivos mais idiotas. Mas inflamam-se na mesma.

10 de dezembro de 2004

DESCONTEXTUALIZAÇÕES #1

"Espermatozóides fervem com portátil" - título no Correio da Manhã de hoje

PERDIDO NA TRADUÇÃO

Por razões que me ultrapassam, quando entro no Blogger sou recebido por uma página em... japonês. Eu sei que é uma língua exótica que me fascina, mas não era preciso levar a coisa tão longe.

8 de dezembro de 2004

CESÁRIO BORGA VOLTA A ATACAR

Ou melhor, a minha mãe volta a atacar. Aparecendo Cesário Borga de novo na RTP-1 esta noite, a minha mãe lança a exclamação, "Ai! Coitada da mulher dele, que deve acordar assustada." Se ele fôr casado, insisto eu. "Claro que é. Naquela altura achas que ficava algum sem casar? E ele em novo sempre era com certeza menos feio."

POLAROID: METRO

Na estação do Marquês de Pombal, o ruído de uma criança em birra começa a ouvir-se vindo das escadas do átrio. Será um menino dos seus quatro, cinco anos, que chora e grita, indisposto por ter de viajar no metro. Resiste o mais que pode à mãe, que o tenta acalmar mas se vê obrigado a arrastá-lo contra vontade. O miúdo está quase em desespero por ser incapaz de impedir a decisão unilateral da mãe. Quando esta pára no cais, à espera do comboio, faz toda a força que tem para a empurrar em direcção às escadas de saída. Evidentemente, a mãe nem se mexe, e com um ar a um tempo divertido pela inanidade da situação e embaraçado pela fita que o filho está a fazer em público, vai tentando pacientemente acalmá-lo, explicar-lhe que não há problema, mas o miúdo insiste, grita embargado que quer ir de carro. Os protestos aumentam quando o comboio entra na estação, mas de nada serve.

Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.

6 de dezembro de 2004

A CULPA É DA VONTADE

Havia qualquer coisa de unificador em António Variações: o modo como nas suas canções se conjugavam a sabedoria ancestral passada de pais para filhos, um saber telúrico quase atávico, e a vontade de o levar mais além, de o tornar numa chave para o futuro em vez de um tesouro perdido no passado. A modernidade com que soube enfeitar a simplicidade popular dos seus bordões e a verdade da sua identidade portuguesa é algo de tanto mais notável quanto se percebe ser inteiramente intuitiva e nada calculada. Se outro mérito não tivesse (e tem muitos), "Humanos" valeria a pena pelo modo certeiro como resgata ao esquecimento algumas pérolas que concentram em duas, três frases de uma simplicidade de estarrecer mundos inteiros de emoções contraditórias — como esta, cantada por Manuela Azevedo com a medida exacta de sedução insegura, entrega abandonada, esperança louca e resignação melancólica. Porque não podemos fugir àquilo que somos.

a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar

a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir

a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade

a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver

a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar

a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.

5 de dezembro de 2004

PEQUENA CONSTATAÇÃO ILUMINADA

Por vezes, aquilo de que precisamos é, apenas, de alguém que nos salve de nós próprios.

POLAROID: AVENIDA

(descendo a rua do Salitre, em direcção à avenida da Liberdade)

Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.

(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)

Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.

(estação de correio dos Restauradores)

A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.

4 de dezembro de 2004

O REMÉDIO MILAGROSO

OK, sim, eu confesso: comprei "How to Dismantle an Atomic Bomb", o novo álbum dos U2. Fiz questão. U2 é uma daquelas bandinhas do coração, faz há muito parte do jardim secreto, é inamovível e inextraível e não é um trambolhão desastroso como "Pop" que os vai desalojar. O novo disco não é exactamente apenas mais do mesmo — sinto nele uma tentativa de largar lastro desnecessário, de reconcentrar no essencial — muito embora também não seja exactamente um grande álbum dos U2. É melhor (mas não por muito) que "All That You Can't Leave Behind" e não é o desastre absoluto que muitos andam por aí a apregoar. E, mais uma vez, andam por ali duas ou três canções clássicas direitinhas para o álbunzinho das memórias — o punch 1-2-3 de abertura com "Vertigo", "Miracle Drug" e "Sometimes You Can't Make It on Your Own" é devastador, pena que depois a coisa se disperse. Esta é o 2 do punch 1-2-3, com a guitarra estratosférica de The Edge (ainda e sempre em grande) a fazê-la descolar em direcção às estrelas.

I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see

I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out

freedom has a scent
like the top of a new born baby's head

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug

of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...

I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug

God I need your help tonight

beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.

3 de dezembro de 2004

IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #2

Eu e a minha mãe temos neste momento um pequeno diferencial de opinião relativamente a Ana Moura. Eu acho que ela tem uma voz bonita mas pouca personalidade e, sobretudo, pouca alma a cantar fado. Levei à minha mãe o novo disco da cantora, "Aconteceu" (Mercury/Universal, 2004), e na nossa conversa telefónica seguinte ela choca-me dizendo que acha que Ana Moura canta muito bem o fado. Então e aquele momento em que ela se esganiça toda e não chega lá, contraponho eu? "Ai, tu não foste sair a mim, não consegues perceber quem canta bem e quem canta mal. Vê mas é se aprendes a ter ouvidos".

2 de dezembro de 2004

POSSO PEDIR UM DISCO?

A parte aborrecida das arrumações é perceber, de repente, a bagagem que já se transporta connosco. Quando, no Verão, comprei estantes para acomodar a sempre em crescimento colecção de discos, comprei-as já a contar com os velhos vinis que estavam arrumados a um canto (o gira-discos já há muito tempo que não sei onde está, perdido em alguma mudança, e há outro tanto que vou adiando a aquisição de um novo). E, de repente, no outro dia, passeando pelos velhos singles de vinil dos meus 15, 20 anos, dei por uma série de canções que nunca mais apanhei em CD (muitas delas descatalogadas). Não as considero clássicos absolutos, são apenas canções que por uma razão ou outra me bateram na altura e que, hoje, ao ouvi-las, me transportam, como máquinas do tempo instantâneas, para momentos específicos da minha vida.

Algumas, vim a perceber entretanto, nem nunca cheguei a possuir fisicamente em disco, tive-as apenas em cassete, esse formato "pirata" que tanto usei para gravar discos de amigos ou da rádio durante os anos 80. Como "Laß mich dein Pirat sein", baladinha oceânica com citação de Sondheim no solo de saxofone final, cantado muito suavemente pela mocinha Nena dos "99 Luftballons" que teve a dúbia honra de ser a única cantora alemã a atingir os primeiros lugares dos topes anglófonos na sua língua natal (1984). Como "Like Flames", uma cavalgada louca em formato de rock épico de guitarras propulsionado a sequenciador electrónico desvairado ambicionando a Jim Steinman dos pobrezinhos que é a única coisa decente jamais gravada pelos Berlin desse pesadelo chamado "Take My Breath Away" (1987, 1988? a memória falha-me e não estou para ir à procura do single). Prazeres culpados, certamente, mas prazeres ainda assim. E prazeres que não enjeito e ainda hoje me dão grande gozo a ouvir.

Como eu deve haver milhares, milhões de pessoas em todo o mundo à procura de memórias como estas, canções que perderam de vista e nunca mais reencontraram. E é nestas alturas em que me pergunto porque é que as editoras discográficas têm tão pouca vontade de abraçar as novas tecnologias digitais. Num belo artigo na Wired de Outubro, Chris Anderson explica que, no novo mundo dos downloads digitais, tudo — literalmente tudo — pode ter procura. Aquela canção que se tornava incomportável para a editora ter disponível porque a procura mínima e a rotação inexistente não o possibilitava pode, agora, estar disponivel 24 horas sobre 24 para todos aqueles que a quiserem. E todos ganham.

Claro que, até isso acontecer, as leis do mercado continuarão a impossibilitar-me de me recordar até que ponto as coisas de que gostava há 20 anos me parecerão ridículas hoje — ou, pelo contrário, me continuarão a seduzir.

1 de dezembro de 2004

LINGUÍSTICA AVANÇADA

Depois de ouvir Paulo Portas a perorar perante o prime-time televisivo de feriado, esta noite, em mais uma das suas magistrais demonstrações de como, em política, tudo é maleável e flexível ao ponto de querer significar aquilo que quisermos que signifique; depois de ouvir as múltiplas interpretações e análises dos acontecimentos dos últimos dias; concluo que a política é apenas uma questão de escolher um modo de ver o mundo, convencermo-nos da sua veracidade, fecharmo-nos a tudo o resto que a ameace e tentarmos convencer os outros de que nós é que temos razão.

Aqui para nós, ainda bem que não sou eu a fazê-lo, porque não convenceria ninguém. Mas, por muito bem que Paulo Portas o faça, também não me convence. Em quem residirá o ónus da crença, então?

29 de novembro de 2004

IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #1

Ouvido no sábado à minha mãe: "vai-te encher de moscas!".

David Cronenberg gostaria certamente da expressão.

28 de novembro de 2004

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #12

É curioso ver como o zapping funciona, às vezes, como um atalho para a nossa memória. Ainda agora passei pelo canal Hollywood e dei pelo carro voador de "Chitty Chitty Bang Bang", que me teleportou instantaneamente para o Verão quente de 1974 ou 1975, em que os meus pais me levaram a vê-lo ao cinema Vox. Curiosamente, a minha ideia do filme é mínima — tenho apenas memória de imagens soltas e do local onde o vi. O Vox era onde é hoje o King Triplex. Era uma sala única, aí de 500 lugares, que tinha umas cadeiras muito anos 60, sem costas, redondas. As actuais entradas dos King 1 e 2 eram as duas entradas principais para a sala (coxias esquerda e direita); o bar ficava onde é hoje a livraria, e o écran era onde é hoje o King 3 (as escadas que levam ao King 3 eram a velha saída de emergência do Vox). Tinha algo de cinema de bairro, mas tinha sempre umas estreias interessantes, muito cinema europeu. Lembro-me de estar de férias em Tavira, na velha casa que a d. Júlia nos alugava, e de ver no jornal do dia o anúncio da reposição do filme; esse tinha sido o primeiro Verão do cinema pornográfico, com salas "sérias" como o Politeama, o Cinebolso (à altura um cinema de "arte e ensaio") ou o Capitólio a exibirem filmes porno, e o Vox foi uma delas, substituindo "Chitty Chitty Bang Bang" por um porno ainda durante o mês que passámos em Tavira. Curiosamente, sei que vi o filme no Vox, mas não me recordo se foi nesse ano ou na temporada de reprises seguinte. Ou talvez a minha memória também esteja a fazer zapping.

Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.

EVGUENI MORAVITCH

A minha mãe tem um sentido muito apurado de como um pivot ou um repórter televisivo deve ser. É normal ouvi-la pronunciar-se em voz alta sobre a (falta de) beleza de quem aparece na televisão com a expressão "Se isto é cara que se apresente! Onde é que já se viu isto na televisão?". (Entre as habituais vítimas dos ataques de indignação da minha mãe contam-se Rosa Veloso, Sandra Felgueiras, Margarida Neves de Sousa, Marta Atalaya, João Ferreira, Luís Branco — enfim, talvez seja melhor dizer que quem NÂO costuma ser alvo de tais ataques são Judite de Sousa, Fátima Campos Ferreira, Manuela Moura Guedes, Rodrigo Guedes de Carvalho e José Alberto Carvalho, porque todos os outros, a dada altura, já por lá passaram ou potencialmente passarão).

Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".

27 de novembro de 2004

DÚVIDAS EXISTENCIAIS

Não exactamente; mas, tal como as do Palma há uns dias, esta da Naifa (oh, como eu gosto da Naifa, e do seu belo álbum "Canções Subterrâneas" - Columbia/Sony, 2004 - e do seu dub-tecno-fado) resume bem as dúvidas recentes. Chama-se "Queixas de um Utente", poema de José Mário Silva.

pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros

já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum

UMA DE VÁRIAS PERGUNTAS QUE SE IMPÕEM

O problema reside no ser ou no parecer?

Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?

25 de novembro de 2004

TINONI

A ambulância sai do quartel de bombeiros com os strobes luminosos a flashar a azul. O meu é o único carro que está à frente, mas a rua tem duas faixas no mesmo sentido e portanto ela pode-me ultrapassar se assim o desejar, mas não o faz; mantém a distância até nos aproximarmos da rotunda onde desagua o trânsito de três ruas distintas. Só à vista da rotunda a ambulância dispara o som e acelera a velocidade, ultrapassando-me rapidamente pela esquerda e deixando atrás de si o ruído estridente das sirenes.

23 de novembro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #46

Encarquilhado.

SINAIS

(Parental advisory: explicit content)

Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.

Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.

Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.

22 de novembro de 2004

PALMA, VEZES DOIS

Duas letras do Jorge Palma para definir, melhor ou pior, as amplitudes térmicas das últimas semanas. São as duas do desigual disco novo, "Norte" (Virgin/EMI).

Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.

vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses

entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.


Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.

estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes

estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta

e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver

estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado

estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda

e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver

estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal

tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.


O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.

20 de novembro de 2004

O ESTADO DAS COISAS

Esta forma nova — nem se pode mesmo dizer de fascismo, há demasiada distorção — que existe agora é bem pior, porque será bem mais irrevogável. Tudo será aparentemente agradável, as pessoas pensarão viver num país livre, etc. Acho a evolução actual muito mais deprimente, de certa maneira, porque já não se pode verdadeiramente fazer nada contra ela. Já não há grande diferença entre o vizinho da frente e o chanceler federal — é um homem mesquinho e medíocre, exactamente como o meu vizinho. Eles vão ficar cada vez mais parecidos e por isso as coisas vão-se tornar cada vez mais difíceis para nós, aves do paraíso.

É um excerto de uma entrevista dada pelo falecido cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder em 1978. Encontrei-a num artigo de Alain Bergala na edição de Outubro dos Cahiers du Cinéma, artigo esse escrito em forma de carta a um actor que voltou costas ao teatro "institucional" e arranjou emprego como destilador de whisky por recusar o "teatro de massas" que ele considerava ter substituído o "teatro popular" (interessante distinção) hoje em dia.

Mas, cá para mim, a afirmação — que Alain Bergala diz impressioná-lo pela "justeza da profecia, vivemos bem no centro deste futuro que Fassbinder predisse" — é uma radiografia incisiva do estado das coisas. Que, por acaso, também era um filme alemão.

18 de novembro de 2004

IF THE SHOE FITS...

De facto, tudo seria muito mais simpático, agradável e cultural se não tivéssemos de aturar gente estúpida, incompetente ou ignorante durante o dia.

Infelizmente, levando em consideração que a percentagem de gente estúpida, incompetente e/ou ignorante existente no mundo é bastante elevada, creio que se impõe um estudo apurado e aturado da arte zen de canalizar positivamente as nossas energias negativas.

Um par de tabefes poderá ser um bom princípio, Mestre?

17 de novembro de 2004

POLAROID: LOJA DE CONVENIÊNCIA

Cena a que acabei de assistir na minha loja de conveniência.

Adolescente com cabelo louro surf pede à empregada um cachorro quente e põe em cima da mesa uma lata de guaraná. Empregada responde que o guaraná não faz parte do menu cachorro. "Não faz?" "Não." E a empregada desfia a lista das bebidas que fazem parte do menu. "Então! É o mesmo preço", responde o adolescente. "Pois, mas não faz parte do menu," responde a empregada. "A senhora é nova aqui, não é?" diz-lhe o adolescente. "Não, não sou", respondeu a empregada. "Estou a ver que ainda tem de aprender umas coisas", diz-lhe o adolescente.

O senhor cinquentão que estava atrás de mim para pagar abriu a boca, chocado. Eu acho que a cena dispensa comentários.