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10 de fevereiro de 2005

A LÍNGUA INGLESA É MUITO TRAIÇOEIRA

Na minha loja de conveniência, junto às caixas há aqueles expositores para pequenas gourmandises como chocolates e pastilhas elásticas. Hoje, enquanto esperava para pagar o jornal, reparei nas etiquetas feitas por computador que marcam os preços das pastilhas elásticas. "Chic Ice Canela", dizia uma. Logo ao lado, a etiqueta referente às equivalentes de "spearmint" (hortelã-pimenta, geralmente de cor verde) referia "Chic Ice Sperm".

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #29

A tendência de colocar nos DVDs de filmes citações positivas de críticos americanos de publicações que ninguém em Portugal lê ou vê ou ouve.

8 de fevereiro de 2005

POLAROID: FNAC

Tarde de terça-feira de Carnaval. Em pleno café da Fnac do Chiado, uma senhora de idade está sentada numa mesa, um chá à frente, uma série de sacos, casacos e mala numa das cadeiras. Fala ao telemóvel, muito alto, e a sua conversa é partilhada por todo o café, com várias mesas ocupadas, mas relativamente silenciosas. A senhora diz que "estamos aqui no Chiado, viemos dar uma volta. Ele está bastante constipado", e mais algumas afirmações de ocasião. Dois homens travestidos de mulher entram, pedem cafés e sentam-se noutra mesa, como se nada fosse. Um deles, com aspecto bastante feminino, está bastante produzido, com uma saia longa e um chapéu vermelho numa toilette que deixa entrar o frio; o outro, mais masculino, com uma peruca, tem um kispo branco que lhe tapa o grosso da toilette, deixando apenas ver as meias e as botas de fantasia brancas. Nas cadeiras dispostas frente ao palcozinho, está sentado um negro com várias camadas de roupa e um lenço a envolver a cabeça, vários sacos ao seu lado no chão; quando passa o segurança, ele faz-lhe sinal com um sorriso, como quem diz "estou quase a ir-me embora".

6 de fevereiro de 2005

POLAROID: AV. D. JOÃO V

Esquina com a rua das Amoreiras, sábado, quatro da tarde. Ouço um ruído seco. Uma carrinha Audi, nova, impecavelmente preta, acaba de chocar com o Mercedes de modelo antigo mas em boa conservação á sua frente. Aparentemente, o Audi arrancou à espera que o Mercedes fizesse o mesmo, que não fez. Vapor branco sai do motor do Audi, que ficou com a grelha e o pára-choques amolgados, com a capota do motor entreaberta; há pedaços de carroçaria no chão. O Mercedes arranca lentamente para parar fora da faixa de rodagem, escassos metros à frente, e não incomodar o trânsito, mas o Audi já não mexe dali, e o condutor, depois de avaliar os estragos com um aspecto desanimado mas resignado, abre a mala para tirar o triângulo de sinalização. O Mercedes não apresenta absolutamente nenhum estrago.

MARKETING POLITICO #3

Novo outdoor para o PS, agora de fundo branco e com a frase "O voto que vai mudar Portugal". Sócrates está melhor nesta foto no que nos outdoors de pré-campanha, mas continua a haver algo ao lado na imagem. A concentração de mensagem está mais afinada e conseguida aqui no que em outdoors anteriores, mas é mais funcional que inspirado; também não me parece que seja por aqui, ainda por cima com uma frase tão vazia, que se vai convencer alguém.

5 de fevereiro de 2005

TRÊS SEMANAS

Faz, amanhã, três semanas que a minha mãe sofreu um enfarte, uma coisa extensa mas sem gravidade de maior. A surpresa foi tanto mais desagradável quanto ela era a última pessoa da família que nós achávamos atreita a problemas cardíacos, ainda por cima quando o meu pai usa um pacemaker há alguns anos e o meu irmão mais velho também tem problemas de coração. Depois de um rápido cateterismo que desbloqueou a artéria e uma semana em observação no Hospital de Santa Marta, onde foi impecavelmente tratada, regressou a casa — e, hoje como há duas semanas, passa o dia na cama, apavorada que possa sofrer um segundo enfarte, paralisada pelo pânico.

Antes do enfarte, era uma senhora frágil que se movia com dificuldade devido aos seus problemas reumáticos e de ossos, mas que fazia um esforço titânico para não ficar confinada às quatro paredes do seu quarto e, sobretudo, que mantinha a força de vontade que lhe permitia resmungar e refilar com a família toda como se fosse a dona da razão. Depois, é uma senhora frágil e abalada que não sai da cama, lamenta a sua "pouca sorte" e a sua dificuldade de restabelecimento, que desistiu de fazer qualquer tipo de esforço. Cada visita minha equivale a meia hora, uma hora em que faço a minha melhor cara de refilão bem disposto e lhe digo que aquilo não é vida, que ela está outra vez como nova (o que, segundo o cardiologista, é verdade) e que não há razão para se agarrar à cama, mas ela moita carrasco, e sou eu que regresso a casa bem menos bem disposto do que entrei.

Mas também é verdade que a minha mãe sempre foi uma casmurra de primeira apanha e nunca fez aquilo que nós achávamos melhor para ela mas sim aquilo que ELA achava melhor. Porque haveria esta vez de ser diferente? Será que é só uma questão de tempo até ela se capacitar ela própria da pasmaceira em que se está a enterrar, cada vez mais próxima da minha avó materna que passou os seus últimos anos sentada numa cadeira em casa da minha tia?

3 de fevereiro de 2005

DEBATE? QUAL DEBATE?

Sashimi de salmão. Need I say more?

MARKETING POLÍTICO #2

Novo outdoor, presumo que do PSD ou da JSD: algumas polémicas figuras socialistas atrás de José Sócrates com a legenda "Você quer que eles voltem?". Eles insistem num marketing negativo que pressupõe com confiança que a resposta do eleitorado é "Não", mas que não é capaz de admitir que a resposta do eleitorado pode ser "Sim". E, sobretudo, projecta uma imagem de quem, em vez de ter ideias para propôr ou uma atitude a defender, prefere atacar o adversário para desviar a atenção do que não tem para contrapor.

2 de fevereiro de 2005

POLÍTICA (slight return)

Dilema existencial: eu acho que a política que temos é absolutamente do pior e não merece que se lhe preste a mínima atenção, mas se não lhe prestarmos a mínima atenção não há a mínima possibilidade que ela possa melhorar, nem que seja só um bocadinho de nada.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #55

Escanzelada.

31 de janeiro de 2005

NINGUÉM GOSTA DO CINEMA PORTUGUÊS (NEM O PRÓPRIO)

O Diário de Notícias propõe hoje uma reflexão sobre o divórcio entre o público português e o cinema português, numa peça de Maria João Caetano que, apesar de dar voz a vários intervenientes na discussão, não é capaz de propor uma leitura diferente das coisas.

António-Pedro Vasconcellos fala da "má qualidade dos filmes" - falso, "O Milagre Segundo Salomé" é um bom filme que só fez 20 mil espectadores, "Balas e Bolinhos - O Regresso" é um péssimo filme que já vai em 45 mil, "Zona J" era um telefilme banal e fez 360 mil, "Pesadelo Cor de Rosa" não era bom e fez 185 mil. Está na altura de se abandonar a falácia da qualidade vs quantidade. Sintomático dessa falácia é o destino de "Sorte Nula", de Fernando Fragata, que nem sequer foi mostrado à imprensa, ter feito 46 mil espectadores com uma brutal campanha de marketing.

Mais sintomático ainda dessa falácia é o facto de 46 mil espectadores não ser sequer um número significativo. Um filme estrangeiro (ou seja: americano), lançado com toda a parangona publicitária da praxe, que faça 46 mil espectadores é um fracasso. Segundo os últimos números, "Ocean's Twelve" já vai nos 250 mil em apenas duas semanas: é mais do que o total de espectadores que foram ver filmes portugueses em 2004, segundo os números publicados no Diário de Notícias.

Está, por isso, na altura de nos deixarmos de merdas. João Mário Grilo aponta, com alguma razão, que não se sabe vender o cinema português (fala do caso da Atalanta, mas, francamente, a Atalanta também não sabe vender o cinema português fora do seu nicho), José Carlos Oliveira defende, com alguma razão, que é preciso incentivar o cinema mainstream em português, mas que, pela vossa saudinha, não se confunda uma definição do alvo que se quer atingir com qualidade. Se isso acontecer, óptimo, mas convém recordar que ter espectadores não é sinónimo de qualidade do filme, e ser um bom filme não é sinónimo de sucesso comercial instantâneo. E, acima de tudo, que o filme português de maior sucesso de 2004 só tenha feito 46 mil espectadores não é sinal de que seja um filme de sucesso, quando qualquer filmezinho de segunda linha que a Lusomundo lança no seu circuito faz facilmente 50 mil espectadores em fim de carreira. Convém relativizar.

30 de janeiro de 2005

MARKETING POLÍTICO (v3.0 revista)

Isto de apanhar com outdoors da campanha eleitoral para onde quer que se vá, e sobretudo durante viagens de carro sem mais em que pensar, dá direito a algumas cogitações sobre a adequação da mensagem que se quer fazer passar à forma escolhida para a fazer passar.

O PSD mostra um Pedro Santana Lopes em pose de estado com a mensagem "Contra ventos e marés, a favor de Portugal". Para não falar da deselegância da expressão face à recente tragédia asiática, a fotografia do líder projecta uma aura defensiva, de quem está a jogar pelo seguro e a conter a retórica para evitar que lhe caiam em cima. É um outdoor que, na sua pretendida sobriedade austera, recupera a carta da vitimização que o primeiro-ministro demissionário tem vindo a jogar em discursos. Quanto ao "a favor de Portugal", seria uma frase boa — se não tivesse havido tanta trapalhada nestes breves mas intermináveis meses de governo; se não tivesse havido as confusões dos assessores, as confusões dos impostos e as promessas demagógicas feitas para ganhar eleitorado; se o líder fosse outro, então, seria uma excelente frase, na sua conjugação de invocação patriótica e optimismo vago.

O cartaz da JSD, perguntando ao eleitorado se ele sabe realmente quem é José Sócrates, inaugura a tradição rasteira de atirar lama ao adversário que, por exemplo, se fez sentir na campanha eleitoral americana. Não compreendo como é possível tanta gente de direita indignar-se com o "ataque" de Francisco Louçã a Paulo Portas no célebre debate e deixarem passar com um sorriso beato um outdoor que está exactamente ao mesmo nível daquilo que condenam. Mas, já se sabe, isto do duplo standard...

A frase "Este sim, sabe quem é" do novo outdoor do PSD que entretanto surgiu (presumo que em articulação com o outdoor da JSD) é absolutamente desastrosa — sabendo Santana Lopes melhor que ninguém como está, neste momento, a ser observado com redobrada atenção, deixar que um cartaz daqueles saia (ainda por cima com o "remate" "Pedro Santana Lopes. Por amor a Portugal") é um convite ao desastre. A não ser que a ideia seja, precisamente, a negação de toda a incompetência, confusão e desorientação, tentar convencer o eleitorado de que vai tudo bem (mas haverá quem acredite ainda nisso?). O que, como política, não é exactamente o mais apropriado nesta altura do campeonato, em que as sondagens não auguram nada de bom. Ah, pois, já me esquecia, eles também acham que as sondagens não são de confiança...

Os outdoors do PS têm um problema: o sorriso confiante de José Sócrates transforma-se no ricto de quem está a ser encandeado pelo sol sem óculos escuros. A frase "Voltar a acreditar" é boa, mas levanta ambiguidades: "voltar a acreditar" no PS, acto de contrição pública depois do período negro com Ferro Rodrigues? "Voltar a acreditar em Portugal", reza outro outdoor, partindo do princípio que neste momento não acreditamos em Portugal. Mas é este PS quem vai conseguir tal milagre, incutindo confiança num eleitorado por natureza desconfiado? "Agora Portugal vai ter um rumo": é uma frase que, ao contrário do indefinido "contra ventos e marés" do PSD, inspira confiança e projecta certezas de que alguém sabe para onde conduzir o barco. Mas os outdoors tópicos — "inglês para todos", "plano tecnológico", "cartão único" — são um disparate liberal. Ninguém ganha eleições a prometer aulas de inglês nem desenvolvimento tecnológico.

"Mais votos na CDU para mudar a sério", prometem os outdoors da CDU, encimados por Jerónimo de Sousa. A frase é infeliz: para mudar Portugal a sério, ou para mudar a CDU a sério, sobretudo face às muito noticiadas crises internas comunistas entre ortodoxos e renovadores? A frase significa uma vontade de mudar Portugal, uma vontade de mudar o Partido ou apenas uma frase sonora de candidatos que sabem não ter hipóteses de vencer as eleições? O azul, contudo, é uma boa escolha, nobre e marítimo.

O Bloco de Esquerda coloca a imagem do líder com a frase "Esquerda de confiança". À imagem do outdoor que já estava exposto de Portas e Santana Lopes com a legenda "Eles divertiram-se...", que marca uma posição e funciona bem enquanto marketing de denúncia, o Bloco sabe usar o outdoor para vender uma atitude e não uma mensagem; não promete nada, deixa que os acontecimentos falem por si, apresenta-se como uma alternativa sóbria e pragmática, ao mesmo tempo que recupera o vermelho que projecta os valores clássicos de esquerda. É um outdoor adequado, no género clássico funcional, mas falta um rasgo qualquer.

Mas a mais inteligente e conseguida das campanhas de outdoors que vi é mesmo a do PP. No outdoor "Voto útil", coabitam uma linguagem gráfica simples e imediatamente compreensível (votar no PP é votar útil) e uma imagem de confiança e segurança (a foto de um Paulo Portas sorridente). Não é surpresa, já todos percebemos que Paulo Portas é um mestre na utilização dos media de massas a seu favor, mas a simplicidade e eficácia do outdoor principal, sem ambiguidades nem falhas, é um exemplo de como fazer passar uma mensagem sem precisar de dizer absolutamente nada. Melhores são os outdoors mais pequenos, com frases como "A competência é útil a Portugal" ou "A convicção é útil a Portugal"; são absolutos que ninguém ousaria contestar e que, ainda por cima, numa primeira leitura nem sequer são afiliadas ao PP, visto que o logótipo do partido está em segundo plano. E assim se sabe fazer marketing político...

28 de janeiro de 2005

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #28

Pimenteiros design que parecem não ter buraco, com o resultado desagradável de, à procura do dito cujo, entornar uma grande dose de pimenta preta no tagliatelle vegetariano, que ficou bastante picante e me perseguiu o paladar durante a tarde toda. (E, já agora, a minha estupidez ao não ver os buracos que, afinal, lá estavam escondidos.)

27 de janeiro de 2005

INTERVALO

Desde que o turbilhão começou, vai fazer domingo duas semanas, que acho que esta deve ser a primeira noite sossegada que passo em casa, a ouvir música e a sentir-me minimamente útil enquanto arrumo mais uns discos e organizo algumas coisas no computador, sem ter a sensação de andar a fugir de mim mesmo ou de qualquer outra coisa, sem nenhum complexo de culpa por saber que pouco posso fazer.

Para os nostálgicos do tecno-pop dos anos 80, "Nightbird" dos Erasure (Mute/EMI, 2005) é um belo disco de pop orelhuda melancólica explorando as sonoridades vintage dos sintetizadores pioneiros. Para quem gosta de guitarras à solta, "Worlds Apart" dos ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead (Interscope/Universal, 2005), é um óptimo álbum de caos meticulosamente organizado, onde a melodia do emo e de recentes variações popificadas do punk encontram as ambições megalómanas do rock progressivo no meio de um maelstrom sónico perfeitamente delineado. E para toda a gente com ouvidos, há uma pérola chamada "Ulisses" (Emarcy Classics/Universal, 2005), pela assombrosa fadista-que-nunca-o-foi-e-agora-ainda-menos Cristina Branco, a descobrir com urgência. Pormenor importante: Cristina Branco não foi contratada por uma companhia portuguesa. Isto deve querer dizer qualquer coisa.

(Recado para o Rodrigo C.: paciência; lá chegaremos, mas gosto da canção dos Starlux, "Low Radiation", mesmo que o resto do EP não seja brilhante.)

26 de janeiro de 2005

PUBLICIDADE DESAVERGONHADA v2.0

Era só para dizer que, a partir de agora, o Irmão Escocês, João Macdonald, essa "figura ilustre do jornalismo tauromáquico" para fazer jus às suas sábias palavras e homem honrado a quem tenho a grata alegria de poder chamar amigo, se juntou à lista de intervenientes no sempre incontornável Barnabé.

Para além do João, também o mui estimado Nuno Sousa, alma gémea em algumas devoções sonoras, amigo virtual e apreciador de sumo de laranja, passou a barnabita full-time. O que já são, para quem nunca lá foi (ao Barnabé), duas óptimas razões para passar a ir e, para quem já conhece, duas ainda mais óptimas razões para continuar a ir.

POP CULTURA

Vi hoje, estacionado perto do meu carro, um automóvel de cuja existência nunca suspeitei: uma carrinha (ou station wagon, ou break, ou o que lhe quiserem chamar) da MG que responde pela identidade ZT-T. Será que Trevor Horn sabe?

25 de janeiro de 2005

OSCARES? QUAIS OSCARES?

Vamos lá a ver se entendemos uma coisa: qualquer cerimónia de entrega de prémios que faça as asneiras seguintes não pode ser levada a sério:

1. Mesmo nomeando Jamie Foxx para melhor actor por "Ray", de Taylor Hackford (estreia 10 de Fevereiro), nomeá-lo para melhor actor secundário por "Colateral", de Michael Mann. Quem viu o filme sabe que aquilo não é um papel secundário em lado nenhum do mundo.

2. Nomear Natalie Portman e Clive Owen para actriz e actor secundários em "Perto Demais", de Mike Nichols — filme onde não há papéis secundários, apenas quatro actores em igualdade de circunstâncias (no limite, todos eles seriam secundários, mas isso é falsear a verdade).

3. Nomear Thomas Haden Church e Virginia Madsen para as categorias secundárias em "Sideways", de Alexander Payne (estreia 3 de Março), e não fazer sequer menção a Paul Giamatti.

4. Nomear Kate Winslet para melhor actriz em "O Despertar da Mente", de Michel Gondry, e esquecer Jim Carrey e até Gondry.

5. Nomear "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater, para melhor argumento adaptado — adaptado de quê?... E, já agora, porquê sequer nomeá-lo?

DEDICATÓRIA

For David D. — you'll understand why.

honey
it's been a long time coming
and I can't stop now
such a long time running
and I can't stop now
do you hear my heart beating?
can you hear the sound?
'cause I can't help thinking
and I don't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns for you and me
and then I looked up at the sky and saw the sun
and the way that gravity pulls on everyone
on everyone

baby it's been a long time waiting
such a long long time
and I can't stop smiling
no I can't stop now
do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?
'cause I can't help crying
and I won't look down

and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns on you and me
and then I looked up at the sun and saw the sky
and the way that gravity pulls on you and I
on you and I.


- Chris Martin para Embrace, "Gravity", in "Out of Nothing" (Independiente/Sony BMG, 2004)

A QUINTA DAS CELEBRIDADES

now there's a lifestyle
with painted lips
now there's a lifestyle
everybody wants it
but it don't exist
and I said
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the TV
and the media
shame
we loved you

now there's a lifestyle
with fashion chic
now there's a lifestyle
everybody in it wants to be elite
and I said
"you with yer brand new shoes and
you with yer greasy hair and
you with yer mother's pride and poetry
don’t you want to feel the shame?"
in the dancehalls
can’t you feel the shame?
and the TV
can’t you feel the shame?
we loved you

shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the tv
and the media
shame
we loved you
at the Lido
and the opera
shame
at the races
and the theatre
shame
we loved you

and they said all we need is love
all we need is love
with the Beatles and the Rolling Stones
day after day
day after day.


- Eurythmics, "Shame", in "Savage" (RCA, 1987)

23 de janeiro de 2005

POLAROID: HCL

As horas das visitas dos hospitais aos dias de semana parecem ser sempre populadas pelo mesmo tipo de pessoas: mulheres de meia-idade, sozinhas ou acompanhadas por outras como elas, de cabelo grisalho ou branco, óculos claros ou tintados, sacos de plástico na mão e mala a tiracolo, prontas a conversar com o primeiro que apareça sobre o atraso da visita, as doenças da vizinha, o motivo porque ali está, o motivo porque ali estamos. Arrastam consigo um cheiro bafiento de vidas tristes e rotineiras, de futuro que nunca aconteceu, uma amargura surda de quem nunca concretizou aquilo que sonhou em nova e, resignada à mediocridade (sub-)urbana em que se acomodou, se delicia com os escândalos e coscuvilhices das revistas de televisão e sociedade e não consegue imaginar a existência de coisas mais importantes.

Mas é verdade que o ambiente dos hospitais, por mais asseado, asséptico, neutro, iluminado que possa ser, predispõe ao tipo de lamentos resignados e cinzentos em que os portugueses são pródigos. O "cá estamos", o "é assim", o "é só chatices" e outro tipo de interjeições que não dizem rigorosamente nada mas são entendidas pelos conversantes como se fossem verdades universai, como se contivessem em si um qualquer segredo que só eles partilham. Uma espécie de vírus da resignação negativista, que proclama como única certeza a morte anunciada e o vale de lágrimas em que a vida se gasta até lá, e a futilidade de procurar lutar contra tão negro e fatalista destino.

Portugal no seu melhor, em suma: velho, gasto, claustrofóbico, sufocante, cinzento, resignado, incapaz de se erguer do lamaçal em que voluntariamente se deixa prender.