Desde que o turbilhão começou, vai fazer domingo duas semanas, que acho que esta deve ser a primeira noite sossegada que passo em casa, a ouvir música e a sentir-me minimamente útil enquanto arrumo mais uns discos e organizo algumas coisas no computador, sem ter a sensação de andar a fugir de mim mesmo ou de qualquer outra coisa, sem nenhum complexo de culpa por saber que pouco posso fazer.
Para os nostálgicos do tecno-pop dos anos 80, "Nightbird" dos Erasure (Mute/EMI, 2005) é um belo disco de pop orelhuda melancólica explorando as sonoridades vintage dos sintetizadores pioneiros. Para quem gosta de guitarras à solta, "Worlds Apart" dos ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead (Interscope/Universal, 2005), é um óptimo álbum de caos meticulosamente organizado, onde a melodia do emo e de recentes variações popificadas do punk encontram as ambições megalómanas do rock progressivo no meio de um maelstrom sónico perfeitamente delineado. E para toda a gente com ouvidos, há uma pérola chamada "Ulisses" (Emarcy Classics/Universal, 2005), pela assombrosa fadista-que-nunca-o-foi-e-agora-ainda-menos Cristina Branco, a descobrir com urgência. Pormenor importante: Cristina Branco não foi contratada por uma companhia portuguesa. Isto deve querer dizer qualquer coisa.
(Recado para o Rodrigo C.: paciência; lá chegaremos, mas gosto da canção dos Starlux, "Low Radiation", mesmo que o resto do EP não seja brilhante.)
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
27 de janeiro de 2005
26 de janeiro de 2005
PUBLICIDADE DESAVERGONHADA v2.0
Era só para dizer que, a partir de agora, o Irmão Escocês, João Macdonald, essa "figura ilustre do jornalismo tauromáquico" para fazer jus às suas sábias palavras e homem honrado a quem tenho a grata alegria de poder chamar amigo, se juntou à lista de intervenientes no sempre incontornável Barnabé.
Para além do João, também o mui estimado Nuno Sousa, alma gémea em algumas devoções sonoras, amigo virtual e apreciador de sumo de laranja, passou a barnabita full-time. O que já são, para quem nunca lá foi (ao Barnabé), duas óptimas razões para passar a ir e, para quem já conhece, duas ainda mais óptimas razões para continuar a ir.
Para além do João, também o mui estimado Nuno Sousa, alma gémea em algumas devoções sonoras, amigo virtual e apreciador de sumo de laranja, passou a barnabita full-time. O que já são, para quem nunca lá foi (ao Barnabé), duas óptimas razões para passar a ir e, para quem já conhece, duas ainda mais óptimas razões para continuar a ir.
POP CULTURA
Vi hoje, estacionado perto do meu carro, um automóvel de cuja existência nunca suspeitei: uma carrinha (ou station wagon, ou break, ou o que lhe quiserem chamar) da MG que responde pela identidade ZT-T. Será que Trevor Horn sabe?
25 de janeiro de 2005
OSCARES? QUAIS OSCARES?
Vamos lá a ver se entendemos uma coisa: qualquer cerimónia de entrega de prémios que faça as asneiras seguintes não pode ser levada a sério:
1. Mesmo nomeando Jamie Foxx para melhor actor por "Ray", de Taylor Hackford (estreia 10 de Fevereiro), nomeá-lo para melhor actor secundário por "Colateral", de Michael Mann. Quem viu o filme sabe que aquilo não é um papel secundário em lado nenhum do mundo.
2. Nomear Natalie Portman e Clive Owen para actriz e actor secundários em "Perto Demais", de Mike Nichols — filme onde não há papéis secundários, apenas quatro actores em igualdade de circunstâncias (no limite, todos eles seriam secundários, mas isso é falsear a verdade).
3. Nomear Thomas Haden Church e Virginia Madsen para as categorias secundárias em "Sideways", de Alexander Payne (estreia 3 de Março), e não fazer sequer menção a Paul Giamatti.
4. Nomear Kate Winslet para melhor actriz em "O Despertar da Mente", de Michel Gondry, e esquecer Jim Carrey e até Gondry.
5. Nomear "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater, para melhor argumento adaptado — adaptado de quê?... E, já agora, porquê sequer nomeá-lo?
1. Mesmo nomeando Jamie Foxx para melhor actor por "Ray", de Taylor Hackford (estreia 10 de Fevereiro), nomeá-lo para melhor actor secundário por "Colateral", de Michael Mann. Quem viu o filme sabe que aquilo não é um papel secundário em lado nenhum do mundo.
2. Nomear Natalie Portman e Clive Owen para actriz e actor secundários em "Perto Demais", de Mike Nichols — filme onde não há papéis secundários, apenas quatro actores em igualdade de circunstâncias (no limite, todos eles seriam secundários, mas isso é falsear a verdade).
3. Nomear Thomas Haden Church e Virginia Madsen para as categorias secundárias em "Sideways", de Alexander Payne (estreia 3 de Março), e não fazer sequer menção a Paul Giamatti.
4. Nomear Kate Winslet para melhor actriz em "O Despertar da Mente", de Michel Gondry, e esquecer Jim Carrey e até Gondry.
5. Nomear "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater, para melhor argumento adaptado — adaptado de quê?... E, já agora, porquê sequer nomeá-lo?
DEDICATÓRIA
For David D. — you'll understand why.
honey
it's been a long time coming
and I can't stop now
such a long time running
and I can't stop now
do you hear my heart beating?
can you hear the sound?
'cause I can't help thinking
and I don't look down
and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns for you and me
and then I looked up at the sky and saw the sun
and the way that gravity pulls on everyone
on everyone
baby it's been a long time waiting
such a long long time
and I can't stop smiling
no I can't stop now
do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?
'cause I can't help crying
and I won't look down
and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns on you and me
and then I looked up at the sun and saw the sky
and the way that gravity pulls on you and I
on you and I.
- Chris Martin para Embrace, "Gravity", in "Out of Nothing" (Independiente/Sony BMG, 2004)
honey
it's been a long time coming
and I can't stop now
such a long time running
and I can't stop now
do you hear my heart beating?
can you hear the sound?
'cause I can't help thinking
and I don't look down
and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns for you and me
and then I looked up at the sky and saw the sun
and the way that gravity pulls on everyone
on everyone
baby it's been a long time waiting
such a long long time
and I can't stop smiling
no I can't stop now
do you hear my heart beating?
oh can you hear that sound?
'cause I can't help crying
and I won't look down
and then I looked up at the sun and I could see
oh the way that gravity turns on you and me
and then I looked up at the sun and saw the sky
and the way that gravity pulls on you and I
on you and I.
- Chris Martin para Embrace, "Gravity", in "Out of Nothing" (Independiente/Sony BMG, 2004)
A QUINTA DAS CELEBRIDADES
now there's a lifestyle
with painted lips
now there's a lifestyle
everybody wants it
but it don't exist
and I said
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the TV
and the media
shame
we loved you
now there's a lifestyle
with fashion chic
now there's a lifestyle
everybody in it wants to be elite
and I said
"you with yer brand new shoes and
you with yer greasy hair and
you with yer mother's pride and poetry
don’t you want to feel the shame?"
in the dancehalls
can’t you feel the shame?
and the TV
can’t you feel the shame?
we loved you
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the tv
and the media
shame
we loved you
at the Lido
and the opera
shame
at the races
and the theatre
shame
we loved you
and they said all we need is love
all we need is love
with the Beatles and the Rolling Stones
day after day
day after day.
- Eurythmics, "Shame", in "Savage" (RCA, 1987)
with painted lips
now there's a lifestyle
everybody wants it
but it don't exist
and I said
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the TV
and the media
shame
we loved you
now there's a lifestyle
with fashion chic
now there's a lifestyle
everybody in it wants to be elite
and I said
"you with yer brand new shoes and
you with yer greasy hair and
you with yer mother's pride and poetry
don’t you want to feel the shame?"
in the dancehalls
can’t you feel the shame?
and the TV
can’t you feel the shame?
we loved you
shame
in the dancehalls
and the cinema
shame
on the tv
and the media
shame
we loved you
at the Lido
and the opera
shame
at the races
and the theatre
shame
we loved you
and they said all we need is love
all we need is love
with the Beatles and the Rolling Stones
day after day
day after day.
- Eurythmics, "Shame", in "Savage" (RCA, 1987)
23 de janeiro de 2005
POLAROID: HCL
As horas das visitas dos hospitais aos dias de semana parecem ser sempre populadas pelo mesmo tipo de pessoas: mulheres de meia-idade, sozinhas ou acompanhadas por outras como elas, de cabelo grisalho ou branco, óculos claros ou tintados, sacos de plástico na mão e mala a tiracolo, prontas a conversar com o primeiro que apareça sobre o atraso da visita, as doenças da vizinha, o motivo porque ali está, o motivo porque ali estamos. Arrastam consigo um cheiro bafiento de vidas tristes e rotineiras, de futuro que nunca aconteceu, uma amargura surda de quem nunca concretizou aquilo que sonhou em nova e, resignada à mediocridade (sub-)urbana em que se acomodou, se delicia com os escândalos e coscuvilhices das revistas de televisão e sociedade e não consegue imaginar a existência de coisas mais importantes.
Mas é verdade que o ambiente dos hospitais, por mais asseado, asséptico, neutro, iluminado que possa ser, predispõe ao tipo de lamentos resignados e cinzentos em que os portugueses são pródigos. O "cá estamos", o "é assim", o "é só chatices" e outro tipo de interjeições que não dizem rigorosamente nada mas são entendidas pelos conversantes como se fossem verdades universai, como se contivessem em si um qualquer segredo que só eles partilham. Uma espécie de vírus da resignação negativista, que proclama como única certeza a morte anunciada e o vale de lágrimas em que a vida se gasta até lá, e a futilidade de procurar lutar contra tão negro e fatalista destino.
Portugal no seu melhor, em suma: velho, gasto, claustrofóbico, sufocante, cinzento, resignado, incapaz de se erguer do lamaçal em que voluntariamente se deixa prender.
Mas é verdade que o ambiente dos hospitais, por mais asseado, asséptico, neutro, iluminado que possa ser, predispõe ao tipo de lamentos resignados e cinzentos em que os portugueses são pródigos. O "cá estamos", o "é assim", o "é só chatices" e outro tipo de interjeições que não dizem rigorosamente nada mas são entendidas pelos conversantes como se fossem verdades universai, como se contivessem em si um qualquer segredo que só eles partilham. Uma espécie de vírus da resignação negativista, que proclama como única certeza a morte anunciada e o vale de lágrimas em que a vida se gasta até lá, e a futilidade de procurar lutar contra tão negro e fatalista destino.
Portugal no seu melhor, em suma: velho, gasto, claustrofóbico, sufocante, cinzento, resignado, incapaz de se erguer do lamaçal em que voluntariamente se deixa prender.
20 de janeiro de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #54
Pitosga.
(por causa dos outdoors da Swatch do hipopótamo pitosga a chamar pelos pais; que me lembraram dos velhos cartoons da UPA do Mr. Magoo, que em português era conhecido pelo Sr. Pitosga)
(por causa dos outdoors da Swatch do hipopótamo pitosga a chamar pelos pais; que me lembraram dos velhos cartoons da UPA do Mr. Magoo, que em português era conhecido pelo Sr. Pitosga)
19 de janeiro de 2005
18 de janeiro de 2005
TURBILHÃO
Entre um regresso ao trabalho após duas semanas de repouso e desagradável hospitalização surpresa da minha mãe (está tudo bem, obrigado por perguntarem), os últimos dias foram um remoínho de emoções complicadas de descrever. Vir para aqui manifestar o meu desagrado com a campanha vitimizatória de Pedro Santana Lopes (será que ainda alguém acredita quando ele faz aquela cara de beicinho, depois de todos os tiros no pé que andou a dar e, pelo que a imprensa vai dizendo, continua a dar?), por muito importante que seja em termos de cidadania, não tem absolutamente nenhuma importância ao pé do que realmente importa, que é ver a minha mãe outra vez em casa a resmungar connosco, em vez de a ver numa cama de hospital a resmungar connosco.
Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.
Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.
16 de janeiro de 2005
HCL
Porque é que os hospitais não podem ser sítios iluminados e com aspecto de funcionarem bem, com salas de espera agradáveis e acolhedoras, como nos filmes americanos (excepto o "Serviço de Urgência", entenda-se), em vez de serem prédios vetustos, labirintos kafkianos com iluminação escura e fria, paredes de tinta desmaiada descascada, salas de espera improvisadas num qualquer cantinho de passagem, portas trancadas com folhas de papel escritas a computador, obras de Santa Engrácia por tudo quanto é sítio?
15 de janeiro de 2005
POLÍTICA
"A política não interessa a ninguém", diz a minha mãe regularmente. Nunca percebi se ela o diz por absoluta crença na afirmação ou como justificaçao para o desinteresse tão tipicamente lusitano que ela tem pela política — na certeza de que ela não vai perder tempo a pensar no assunto, excepto se por alguma razão a afectar.
Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.
E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.
Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.
E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.
14 de janeiro de 2005
SOCORRO! ESTOU-ME A VER GREGO
Tenho que agradecer ao meu amigo e vizinho António R. pelo sublime momento kitsch que me proporcionou ontem à noite, ao sacar o seu DVD com os melhores momentos de Demis Roussos e mostrar a figura corpulenta e barbuda do cantor grego, qual grunho novo-rico que se esqueceu de tomar banho, fazendo playback de "Goodbye My Love Goodbye" acompanhado por lacrimejantes movimentos de braços numa estação de comboio de Bruxelas, esforçando-se para não se desmanchar a rir, enquanto um ferroviário local fuma com ar de quem está no filme errado. Momento de rara beleza só ultrapassável por aquele em que ele faz playback de "Schönes Mädchen aus Arkadia" à beirinha do Parténon enquanto brinca com o horroroso logótipo do programa alemão para o qual o filmezinho foi gravado, com um ar de frete insuportável, incapaz de sequer aproximar os movimentos de lábios do que se está a ouvir; ou pelo ramo de oliveira que de repente aparece no enquadramento de Vangelis e Roussos encostados a estátuas gregas no teledisco de "Rain and Tears" dos Aphrodite's Child.
12 de janeiro de 2005
POLAROID: METRO
Sempre achei que as estações da linha do Oriente, dita "linha vermelha", eram estranhas — quase todas de tamanho monumental (cf. Olaias) e desproporcionadas à pouca utilização que sempre lhes vi, sem dúvida relacionada com a sua vocação de ramal quase suburbano e desconexo do grosso da rede (com a Alameda como única ligação, pelo menos até à concretização da extensão que a fará cruzar a "linha amarela" no Saldanha e a "linha azul" em S. Sebastião). A música das estações vai da muzak de flauta de pan a "Music" de Madonna.
Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.
À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.
Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.
Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.
Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.
À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.
Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.
Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.
MAIS UMA PEQUENA QUESTÃO RETÓRICA
Porque carga d'água é que é precisamente nos dias em que tenho de me levantar mais cedo que me dá uma espertina filha da mãe?
11 de janeiro de 2005
O FIM JUSTIFICA O MEIO
Há coisas que eu não percebo necessariamente. Percebo a comodidade de um centro comercial, reunindo um sem-número de lojas sob um mesmo tecto. Não percebo porque é que isso torna um centro comercial no equivalente contemporâneo da passeata digestiva de domingo para muita gente.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
10 de janeiro de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #52
Cacholada.
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
9 de janeiro de 2005
LOGBOOK #21: O ELOGIO DA LOUCURA
Sesimbra: Baía da Armação, domingo 9 de Janeiro, 10h58: 11.7m, 57min, 13º C
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
8 de janeiro de 2005
UMA PROFISSÃO DE FUTURO
Não, não é a marinha, nem a força aérea, nem nada que se pareça.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
7 de janeiro de 2005
VALHA-NOS SÃO ESTEVÃO MÉRITO
Ele e ele decidiram-se a voltar.
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
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