Percevejo.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
19 de janeiro de 2005
18 de janeiro de 2005
TURBILHÃO
Entre um regresso ao trabalho após duas semanas de repouso e desagradável hospitalização surpresa da minha mãe (está tudo bem, obrigado por perguntarem), os últimos dias foram um remoínho de emoções complicadas de descrever. Vir para aqui manifestar o meu desagrado com a campanha vitimizatória de Pedro Santana Lopes (será que ainda alguém acredita quando ele faz aquela cara de beicinho, depois de todos os tiros no pé que andou a dar e, pelo que a imprensa vai dizendo, continua a dar?), por muito importante que seja em termos de cidadania, não tem absolutamente nenhuma importância ao pé do que realmente importa, que é ver a minha mãe outra vez em casa a resmungar connosco, em vez de a ver numa cama de hospital a resmungar connosco.
Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.
Se este blog andar um pouco às aranhas nos próximos tempos, não se surpreendam. Obrigado pela compreensão.
16 de janeiro de 2005
HCL
Porque é que os hospitais não podem ser sítios iluminados e com aspecto de funcionarem bem, com salas de espera agradáveis e acolhedoras, como nos filmes americanos (excepto o "Serviço de Urgência", entenda-se), em vez de serem prédios vetustos, labirintos kafkianos com iluminação escura e fria, paredes de tinta desmaiada descascada, salas de espera improvisadas num qualquer cantinho de passagem, portas trancadas com folhas de papel escritas a computador, obras de Santa Engrácia por tudo quanto é sítio?
15 de janeiro de 2005
POLÍTICA
"A política não interessa a ninguém", diz a minha mãe regularmente. Nunca percebi se ela o diz por absoluta crença na afirmação ou como justificaçao para o desinteresse tão tipicamente lusitano que ela tem pela política — na certeza de que ela não vai perder tempo a pensar no assunto, excepto se por alguma razão a afectar.
Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.
E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.
Mas, esta noite, vendo os telejornais a dissertar sobre a entrevista de Pedro Santana Lopes ao Jornal de Notícias, sobre o protesto de Miguel Relvas quanto às sondagens, sobre a acção de campanha de Pires de Lima colando um outdoor do PP, sobre a presença de José Sócrates no Forum Novas Fronteiras, sobre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa e Nuno Morais Sarmento atacando o PS, por um lado percebo-a muito bem. Esta política, digo eu da minha ignorância, não me parece política no sentido de preocupação com o bem público, mas sim um jogo de cadeiras musicais onde cada um tenta ganhar posição e espaço à custa do outro.
E, por outro lado, não posso estar mais em desacordo com ela. Porque, no que depender de mim, estes políticos, todos, sem excepção, não merecem estar onde estão, e cabe a cada um de nós mostrar esse desagrado e contribuir para que as coisas mudem. Enquanto continuarmos a achar que "a política não interessa a ninguém" e que cabe aos outros preocupar-se com isso, as coisas nunca mudarão nem melhorarão. Patti Smith (entre muitos outros) dizia, em tempos, que "people have the power". Deixar o poder nas mãos do povo não é necessariamente uma boa ideia (não é verdade, João?), mas deixá-lo nas mãos desta "elite" não é uma alternativa reconfortante.
14 de janeiro de 2005
SOCORRO! ESTOU-ME A VER GREGO
Tenho que agradecer ao meu amigo e vizinho António R. pelo sublime momento kitsch que me proporcionou ontem à noite, ao sacar o seu DVD com os melhores momentos de Demis Roussos e mostrar a figura corpulenta e barbuda do cantor grego, qual grunho novo-rico que se esqueceu de tomar banho, fazendo playback de "Goodbye My Love Goodbye" acompanhado por lacrimejantes movimentos de braços numa estação de comboio de Bruxelas, esforçando-se para não se desmanchar a rir, enquanto um ferroviário local fuma com ar de quem está no filme errado. Momento de rara beleza só ultrapassável por aquele em que ele faz playback de "Schönes Mädchen aus Arkadia" à beirinha do Parténon enquanto brinca com o horroroso logótipo do programa alemão para o qual o filmezinho foi gravado, com um ar de frete insuportável, incapaz de sequer aproximar os movimentos de lábios do que se está a ouvir; ou pelo ramo de oliveira que de repente aparece no enquadramento de Vangelis e Roussos encostados a estátuas gregas no teledisco de "Rain and Tears" dos Aphrodite's Child.
12 de janeiro de 2005
POLAROID: METRO
Sempre achei que as estações da linha do Oriente, dita "linha vermelha", eram estranhas — quase todas de tamanho monumental (cf. Olaias) e desproporcionadas à pouca utilização que sempre lhes vi, sem dúvida relacionada com a sua vocação de ramal quase suburbano e desconexo do grosso da rede (com a Alameda como única ligação, pelo menos até à concretização da extensão que a fará cruzar a "linha amarela" no Saldanha e a "linha azul" em S. Sebastião). A música das estações vai da muzak de flauta de pan a "Music" de Madonna.
Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.
À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.
Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.
Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.
Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.
À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.
Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.
Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.
MAIS UMA PEQUENA QUESTÃO RETÓRICA
Porque carga d'água é que é precisamente nos dias em que tenho de me levantar mais cedo que me dá uma espertina filha da mãe?
11 de janeiro de 2005
O FIM JUSTIFICA O MEIO
Há coisas que eu não percebo necessariamente. Percebo a comodidade de um centro comercial, reunindo um sem-número de lojas sob um mesmo tecto. Não percebo porque é que isso torna um centro comercial no equivalente contemporâneo da passeata digestiva de domingo para muita gente.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
10 de janeiro de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #52
Cacholada.
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
9 de janeiro de 2005
LOGBOOK #21: O ELOGIO DA LOUCURA
Sesimbra: Baía da Armação, domingo 9 de Janeiro, 10h58: 11.7m, 57min, 13º C
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
8 de janeiro de 2005
UMA PROFISSÃO DE FUTURO
Não, não é a marinha, nem a força aérea, nem nada que se pareça.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
7 de janeiro de 2005
VALHA-NOS SÃO ESTEVÃO MÉRITO
Ele e ele decidiram-se a voltar.
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
POLAROID: BARBEIRO
O barbeiro fica inquieto quando entro no salão. Nenhum dos seus colaboradores está, sairam para tomar café, ele está a fazer arrumações e limpezas e procura-os por um instante antes de pôr as limpezas de lado algum tempo para me cortar o cabelo. A um canto do salão, a esposa, cabelo branco e óculos, retrato-robot de uma avozinha portuguesa de subúrbio clássico, entoa num tom paternalista e condescendente uma ladainha destinada a embalar o neto ainda bebé, que não deixa por isso de soltar exclamações pontuais e ameaçar choro. Por um momento, penso que ele está a protestar por ter de ouvir repetido durante tanto tempo "quem é o queridinho da avó", naquela linguagem palradora e perfeitamente irritante que os adultos fazem ideia (errada) que as crianças percebem. Por um instante pensei que era isso que o bebé estava a querer dizer — "cala-te, já estou farto de te ouvir com essa patetice, achas que eu não te topo?". O barbeiro também já parece farto de ouvir a ladainha, às tantas pergunta à mulher num tom ríspido porque não vê se o menino está sujo. Mas a senhora insiste.
E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.
E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.
5 de janeiro de 2005
CÓDIGO DA ESTRADA
Muita gente fala — e com razão — da falta de civismo dos condutores portugueses, mas ninguém fala da falta de civismo dos peões, que atravessam "à Lagardère" pelo meio de faixas de rodagem rápidas, indiferentes ao volume de tráfego, indiferentes às passadeiras ou aos semáforos. Na avenida Infante Santo, na rua Conde Redondo, na avenida Álvares Cabral, é vê-los, até à noite, a atravessarem a avenida ou a pararem em cima do traço divisor como se fosse um passeio. Um pouco por toda a Lisboa, é vê-los a atravessarem intersecções turbulentas como se atravessassem um jardim público. Às vezes, acho que, entre a inconsciência dos condutores que não respeitam a velocidade máxima urbana, o traço contínuo ou as passadeiras, e a inconsciência dos transeuntes que atravessam a rua como se todos os carros tivessem de parar para os deixar passar (recordo-me das vacas sagradas hindus), é um milagre que não haja mais atropelamentos em Lisboa.
4 de janeiro de 2005
VISÃO PERIFÉRICA
Existem coisas que nunca aprendemos realmente. Erros que insistimos em fazer. Armadilhas bem à nossa frente que persistimos em ignorar, como se fossem ilusões que criámos para nós próprios. Mas a única ilusão está em teimarmos que elas não estão lá, e em não percebermos que só nós é que não as vemos.
Chama-se ao processo crescer.
Chama-se ao processo crescer.
3 de janeiro de 2005
2 de janeiro de 2005
NOT EVERYONE CAN CARRY THE WEIGHT OF THE WORLD
Hoje, uma semana depois, todos os noticiários ocupam 30 minutos a esmiuçar os pormenores da tragédia da Ásia; a repetir até à exaustão os mesmos dados que já todos ouvimos esmiuçados nos últimos sete dias; a convocar os sobreviventes portugueses da tragédia para contarem as suas experiências (como se elas pudessem fornecer-nos um qualquer insight precioso sobre os desígnios insondáveis da natureza). Perturba-me esta exploração, quase pornográfica, da tragédia; perturbam-me os lugares comuns que ouço repetidos vezes sem conta ao dia, perturbam-me as pequenas histórias que todos os dias surgem do milagre da sobrevivência, perturbam-me as imagens de valas comuns e cadáveres que me entram pela sala dentro sem pedir licença.
Não estou a protestar contra a necessidade de informar, porque é urgente ajudar, é urgente tomarmos consciência que este é um só mundo e todos somos afectados por uma tragédia destas, é importante que não nos esqueçamos que as consequências da tragédia afectarão os países durante meses, anos. Mas onde se desenha a fronteira da informação? Quando é que a dignidade cede o lugar à exploração dos sentimentos de culpa ocidentais?
Quando vejo sobreviventes ingleses a chorarem convulsivamente face às câmaras de televisão, sinto-me um intruso num momento catártico que não é, não pode ser público, que tem de ser privado. Quando vejo cadáveres embrulhados em plástico a serem despejados numa vala comum, sinto-me um voyeur perverso, porque aquele é um momento demasiado impressionante para ser repetido ad infinitum num écrã de televisão, que não é para ser visto levianamente à mesa do jantar por entre discussões de futebol e política. E não quero com isto invocar preceitos morais ou éticos de qualquer espécie — apenas que há um respeito que estas incontáveis vítimas merecem que não se compadece com os horários rígidos dos telejornais, com a medição das audiências.
O sofrimento é, sempre foi, algo de privado, de pessoal. Não acredito na sua exibição pública. E há momentos em que o que me parece ver, na procissão de imagens televisivas, é uma mera exposição da dor. Para que os outros se possam considerar sortudos. E essa é a pior das razões para querermos ajudar.
Não estou a protestar contra a necessidade de informar, porque é urgente ajudar, é urgente tomarmos consciência que este é um só mundo e todos somos afectados por uma tragédia destas, é importante que não nos esqueçamos que as consequências da tragédia afectarão os países durante meses, anos. Mas onde se desenha a fronteira da informação? Quando é que a dignidade cede o lugar à exploração dos sentimentos de culpa ocidentais?
Quando vejo sobreviventes ingleses a chorarem convulsivamente face às câmaras de televisão, sinto-me um intruso num momento catártico que não é, não pode ser público, que tem de ser privado. Quando vejo cadáveres embrulhados em plástico a serem despejados numa vala comum, sinto-me um voyeur perverso, porque aquele é um momento demasiado impressionante para ser repetido ad infinitum num écrã de televisão, que não é para ser visto levianamente à mesa do jantar por entre discussões de futebol e política. E não quero com isto invocar preceitos morais ou éticos de qualquer espécie — apenas que há um respeito que estas incontáveis vítimas merecem que não se compadece com os horários rígidos dos telejornais, com a medição das audiências.
O sofrimento é, sempre foi, algo de privado, de pessoal. Não acredito na sua exibição pública. E há momentos em que o que me parece ver, na procissão de imagens televisivas, é uma mera exposição da dor. Para que os outros se possam considerar sortudos. E essa é a pior das razões para querermos ajudar.
1 de janeiro de 2005
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