Sempre achei que as estações da linha do Oriente, dita "linha vermelha", eram estranhas — quase todas de tamanho monumental (cf. Olaias) e desproporcionadas à pouca utilização que sempre lhes vi, sem dúvida relacionada com a sua vocação de ramal quase suburbano e desconexo do grosso da rede (com a Alameda como única ligação, pelo menos até à concretização da extensão que a fará cruzar a "linha amarela" no Saldanha e a "linha azul" em S. Sebastião). A música das estações vai da muzak de flauta de pan a "Music" de Madonna.
Hoje, faço o percurso em "hora de ponta" matinal, acompanhando a "daily commute" de muita gente. Entre Oriente e Alameda, quase ninguém sai; a composição está já cheia quando parte do Oriente, vai apanhando alguns (mas não muitos) passageiros ao longo da linha, sobretudo em Olivais e Chelas (em Cabo Ruivo, espécie de desterro no meio de parques industriais, ninguém entra). Apesar de cheia, a carruagem vai silenciosa; toda a gente está a ler o novo jornal gratuito que começou agora a ser distribuido nas estações, e para além do ruído do comboio a percorrer os carris apenas se ouve a voz pré-gravada que anuncia regularmente a próxima paragem e o volume demasiado alto dos auscultadores de um jovem sentado no banco do lado.
À saída na Alameda, o fluir da gente engarrafa temporariamente na escada rolante que dá acesso ao corredor de ligação com o cais da "linha verde" que se dirige para o Cais do Sodré ou para Telheiras. Por entre o mar de gente agasalhada em camisolas e cachecóis multicores distingue-se um militar de casaco de cabedal verde, boina castanha e óculos escuros que transporta um saco ao ombro e duas malas leves nas mãos, as cores desmaiadas da farda realçadas pelas cores primárias que o rodeiam.
Contrasta com o adolescente que entra na Cidade Universitária com destino ao Marquês de Pombal, de cabelo negro com gel e madeixas alouradas no alto do cabelo, pêra minimal cuidadosamente recortada, barba feita para parecer desleixada, um ninho de borbulhas vermelhas na testa, vestindo uma camisola de futebol com as cores e o logótipo do Barcelona por cima de uma sweat-shirt verde-tropa largueirona e calças de ganga de cintura larga e pernas boca de sino, em azul-escuro forte e novo com costuras brancas visíveis, com ténis e mochila de marca. A incongruência da indumentária apenas se deve ao contraste com os casacos quentes, sobretudos de lã e agasalhos forrados que o rodeiam; ele não parece ter frio, mas a moda não se compadece com os seis graus centígrados que os termómetros espalhados por Lisboa anunciam.
Alguém que entra em Entre Campos traz consigo um cheiro intenso a tabaco.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
12 de janeiro de 2005
MAIS UMA PEQUENA QUESTÃO RETÓRICA
Porque carga d'água é que é precisamente nos dias em que tenho de me levantar mais cedo que me dá uma espertina filha da mãe?
11 de janeiro de 2005
O FIM JUSTIFICA O MEIO
Há coisas que eu não percebo necessariamente. Percebo a comodidade de um centro comercial, reunindo um sem-número de lojas sob um mesmo tecto. Não percebo porque é que isso torna um centro comercial no equivalente contemporâneo da passeata digestiva de domingo para muita gente.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
Hoje, por exemplo, tentei perceber o que é um "outlet". Aproveitando uns diazinhos de férias e uma tarde mais solta, fui ao Freeport de Alcochete (45 minutos de viagem para lá, 45 minutos de viagem para cá, da 24 de Julho a Alcochete e volta) tentar perceber o que é que atrai ali milhares de pessoas ao fim-de-semana. Estava um dia bonito, e num dia bonito admito que um espaço daqueles, ao ar livre, com arruamentos perfeitinhos a cheirar a novinho em folha, de cores alegres e esplanadas e bancos a cada esquina, possa ser mais agradável que um centro comercial, sobretudo se — como hoje — não estiver a abarrotar de gente.
Mas não será na realidade a obsessão portuguesa pela "pechincha" que atrairá ali as pessoas? Aquela sensação de estar a pagar abaixo do preço de custo, de estar a pagar mais barato do que elas custam, aquela mania de andar com roupas de marca caras e saber cá dentro que as comprámos por tuta e meia, como se isso fosse prova de uma inteligência superior, de uma esperteza acima da média? Mesmo que essa "tuta e meia" implique gastar exactamente o mesmo que se gastaria se se fizessem as compras em Lisboa, com a diferença de que, por causa do preço mais baixo, apenas se compram mais coisas para fazer vista — e, provavelmente, mais do que aquelas de que realmente precisamos?
Olho para o Freeport e vejo apenas Portugal a chegar-se aos Estados Unidos e ao conceito "Mall of America", em que a superfície comercial deixa de ser um meio para passar a ser o fim. Um símbolo do consumismo desregrado e do endividamento das famílias.
E não, não comprei nada.
10 de janeiro de 2005
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #52
Cacholada.
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
(com um obrigado ao Alexandre M., que me recordou dos tempos de miúdo em que eu ouvia o meu pai usá-la na praia)
9 de janeiro de 2005
LOGBOOK #21: O ELOGIO DA LOUCURA
Sesimbra: Baía da Armação, domingo 9 de Janeiro, 10h58: 11.7m, 57min, 13º C
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
Eu devo é ser maluco, penso para com os meus botões às 7h30 da manhã quando o alarme dispara ao som da TSF e ouço o jornalista de serviço falar da "forte ondulação" que levou ao fecho de barras acima do Cabo Carvoeiro, quando me meto debaixo do chuveiro e saio dele sem conseguir realmente aquecer, quando tomo o pequeno-almoço e me meto no carro com 6º C de temperatura ambiente para ir visitar os peixinhos ao largo de Sesimbra após três meses de ausência causada por uma combinação de trabalho, inércia e cansaço.
Eu devo é ser maluco, penso quando, animado pelo sol radioso e pelo azul forte do céu de inverno, atravesso a ponte 25 de Abril e dou com um espessíssimo banco de nevoeiro que me acompanha desde que passo a praça da portagem até Cotovia, mesmo à beirinha de Sesimbra. Quando chego, está tudo normal, o mar está bom para sair, mesmo que um pouco agitado, não há muita gente (como é normal aos domingos).
Eu devo é ser maluco, penso quando a curta viagem de barco até à Baía da Armação é feita com vento cortante e alguma onda pequena mas insistente que nos atira com água para cima — a mim e aos outros seis malucos que se lembraram de vir mergulhar neste domingo frio de Janeiro.
Mas não sou nada maluco — abaixo da superfície a agitação do mar desaparece, e a proximidade da costa rochosa enche o local de vida, cardumes enormes que passeiam despreocupadamente. Eu e o meu parceiro José — um rapaz atlético que parece ter pouco mais de 20 anos, que tem chapas militares ao pescoço e que está perfeitamente à vontade dentro de água — andamos por ali, a lanterna pesquisando cada recanto rochoso, cada cavidade onde se possam esconder animais, e somos recompensados por um enorme polvo que se esconde pachorrentamente e que, incomodado pela luz da minha lanterna, se retira para o mais dentro da rocha que pode, por vários peixes-pedra em posição de descanso, uma estrela do mar escura que se arrasta como quem não quer a coisa, uma serpentezinha de focinho cavalar em tons de verde e alga. Fotografamos: ele com uma digital devidamente protegida por uma caixa estanque, eu com uma descartável analógica estanque até 15 metros que trouxe por brincadeira para ver se vale a pena começar a pensar a sério na fotografia subaquática (calha bem, nunca desço abaixo dos 12 neste mergulho soft de reabituação).
Eu devo mesmo ser maluco, penso quando começo a sentir frio dos 13º C que o computador marca mas que não devem de todo ser, face ao frio que começo a rapar já perto do final da hora de mergulho, é capaz de não ser má ideia começar a pensar num semi-seco em vez de um húmido de duas peças (mesmo que de 7mm).
Não sou nada maluco, penso eu quando chego a casa e me retempero com uma sopinha quente enquanto penso na excelente manhã que passei ao largo de Sesimbra e na vontade que já tenho de a repetir. Três meses sem ir ao mar? Eu devo é ser maluco.
8 de janeiro de 2005
UMA PROFISSÃO DE FUTURO
Não, não é a marinha, nem a força aérea, nem nada que se pareça.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
Canalizador, meus meninos, canalizador é o que está a dar. Com o preço que eles cobram por 15 minutos de trabalho para desentupir uma retrete emanando um eflúvio infernal (coisa que eu nunca seria capaz de fazer sem a contribuição da maquineta hidráulica manual que o senhor trazia, mas que ele fez enquanto o diabo esfrega um olho), e assumindo que eles devem receber chamadas destas a toda a hora, não estou realmente a ver muitos contras.
7 de janeiro de 2005
VALHA-NOS SÃO ESTEVÃO MÉRITO
Ele e ele decidiram-se a voltar.
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
Em honra da ocasião vos recomendo fervorosamente dois filmes assombrosos que vi esta semana: "Saraband" de Ingmar Bergman (estreia a 13 de Janeiro, no Alvaláxia, em Lisboa), com Liv Ullmann e Erland Josephson; "Clean" de Olivier Assayas (estreia a 20 de Janeiro), com Maggie Cheung e Nick Nolte (e Béatrice Dalle e Jeanne Balibar).
POLAROID: BARBEIRO
O barbeiro fica inquieto quando entro no salão. Nenhum dos seus colaboradores está, sairam para tomar café, ele está a fazer arrumações e limpezas e procura-os por um instante antes de pôr as limpezas de lado algum tempo para me cortar o cabelo. A um canto do salão, a esposa, cabelo branco e óculos, retrato-robot de uma avozinha portuguesa de subúrbio clássico, entoa num tom paternalista e condescendente uma ladainha destinada a embalar o neto ainda bebé, que não deixa por isso de soltar exclamações pontuais e ameaçar choro. Por um momento, penso que ele está a protestar por ter de ouvir repetido durante tanto tempo "quem é o queridinho da avó", naquela linguagem palradora e perfeitamente irritante que os adultos fazem ideia (errada) que as crianças percebem. Por um instante pensei que era isso que o bebé estava a querer dizer — "cala-te, já estou farto de te ouvir com essa patetice, achas que eu não te topo?". O barbeiro também já parece farto de ouvir a ladainha, às tantas pergunta à mulher num tom ríspido porque não vê se o menino está sujo. Mas a senhora insiste.
E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.
E, quando a filha regressa, descobre-se que o bebé estava realmente sujo.
5 de janeiro de 2005
CÓDIGO DA ESTRADA
Muita gente fala — e com razão — da falta de civismo dos condutores portugueses, mas ninguém fala da falta de civismo dos peões, que atravessam "à Lagardère" pelo meio de faixas de rodagem rápidas, indiferentes ao volume de tráfego, indiferentes às passadeiras ou aos semáforos. Na avenida Infante Santo, na rua Conde Redondo, na avenida Álvares Cabral, é vê-los, até à noite, a atravessarem a avenida ou a pararem em cima do traço divisor como se fosse um passeio. Um pouco por toda a Lisboa, é vê-los a atravessarem intersecções turbulentas como se atravessassem um jardim público. Às vezes, acho que, entre a inconsciência dos condutores que não respeitam a velocidade máxima urbana, o traço contínuo ou as passadeiras, e a inconsciência dos transeuntes que atravessam a rua como se todos os carros tivessem de parar para os deixar passar (recordo-me das vacas sagradas hindus), é um milagre que não haja mais atropelamentos em Lisboa.
4 de janeiro de 2005
VISÃO PERIFÉRICA
Existem coisas que nunca aprendemos realmente. Erros que insistimos em fazer. Armadilhas bem à nossa frente que persistimos em ignorar, como se fossem ilusões que criámos para nós próprios. Mas a única ilusão está em teimarmos que elas não estão lá, e em não percebermos que só nós é que não as vemos.
Chama-se ao processo crescer.
Chama-se ao processo crescer.
3 de janeiro de 2005
2 de janeiro de 2005
NOT EVERYONE CAN CARRY THE WEIGHT OF THE WORLD
Hoje, uma semana depois, todos os noticiários ocupam 30 minutos a esmiuçar os pormenores da tragédia da Ásia; a repetir até à exaustão os mesmos dados que já todos ouvimos esmiuçados nos últimos sete dias; a convocar os sobreviventes portugueses da tragédia para contarem as suas experiências (como se elas pudessem fornecer-nos um qualquer insight precioso sobre os desígnios insondáveis da natureza). Perturba-me esta exploração, quase pornográfica, da tragédia; perturbam-me os lugares comuns que ouço repetidos vezes sem conta ao dia, perturbam-me as pequenas histórias que todos os dias surgem do milagre da sobrevivência, perturbam-me as imagens de valas comuns e cadáveres que me entram pela sala dentro sem pedir licença.
Não estou a protestar contra a necessidade de informar, porque é urgente ajudar, é urgente tomarmos consciência que este é um só mundo e todos somos afectados por uma tragédia destas, é importante que não nos esqueçamos que as consequências da tragédia afectarão os países durante meses, anos. Mas onde se desenha a fronteira da informação? Quando é que a dignidade cede o lugar à exploração dos sentimentos de culpa ocidentais?
Quando vejo sobreviventes ingleses a chorarem convulsivamente face às câmaras de televisão, sinto-me um intruso num momento catártico que não é, não pode ser público, que tem de ser privado. Quando vejo cadáveres embrulhados em plástico a serem despejados numa vala comum, sinto-me um voyeur perverso, porque aquele é um momento demasiado impressionante para ser repetido ad infinitum num écrã de televisão, que não é para ser visto levianamente à mesa do jantar por entre discussões de futebol e política. E não quero com isto invocar preceitos morais ou éticos de qualquer espécie — apenas que há um respeito que estas incontáveis vítimas merecem que não se compadece com os horários rígidos dos telejornais, com a medição das audiências.
O sofrimento é, sempre foi, algo de privado, de pessoal. Não acredito na sua exibição pública. E há momentos em que o que me parece ver, na procissão de imagens televisivas, é uma mera exposição da dor. Para que os outros se possam considerar sortudos. E essa é a pior das razões para querermos ajudar.
Não estou a protestar contra a necessidade de informar, porque é urgente ajudar, é urgente tomarmos consciência que este é um só mundo e todos somos afectados por uma tragédia destas, é importante que não nos esqueçamos que as consequências da tragédia afectarão os países durante meses, anos. Mas onde se desenha a fronteira da informação? Quando é que a dignidade cede o lugar à exploração dos sentimentos de culpa ocidentais?
Quando vejo sobreviventes ingleses a chorarem convulsivamente face às câmaras de televisão, sinto-me um intruso num momento catártico que não é, não pode ser público, que tem de ser privado. Quando vejo cadáveres embrulhados em plástico a serem despejados numa vala comum, sinto-me um voyeur perverso, porque aquele é um momento demasiado impressionante para ser repetido ad infinitum num écrã de televisão, que não é para ser visto levianamente à mesa do jantar por entre discussões de futebol e política. E não quero com isto invocar preceitos morais ou éticos de qualquer espécie — apenas que há um respeito que estas incontáveis vítimas merecem que não se compadece com os horários rígidos dos telejornais, com a medição das audiências.
O sofrimento é, sempre foi, algo de privado, de pessoal. Não acredito na sua exibição pública. E há momentos em que o que me parece ver, na procissão de imagens televisivas, é uma mera exposição da dor. Para que os outros se possam considerar sortudos. E essa é a pior das razões para querermos ajudar.
1 de janeiro de 2005
IMPORTANTE COMUNICADO À NAÇÃO
Correndo o risco de cair no lugar-comum, bom 2005.
(E três palavras para descrever o meu réveillon: patê de atum.)
(E três palavras para descrever o meu réveillon: patê de atum.)
30 de dezembro de 2004
DISCOS DE 2004
(uma lista possível puramente alfabética, nada definitiva e muito idiossincrática)
1-UIK PROJECT, Strategies and Survival (Enchufada/Movieplay)
ADRIANA CALCANHOTTO, Adriana Partimpim (Ariola/BMG)
ALDINA DUARTE, Apenas o Amor (Virgin/EMI)
ANAMAR, Transfado (Companhia Nacional de Música/MVM)
ARNALDO ANTUNES, Saiba (Rosa Celeste/BMG)
BiD, Bambas & Biritas Vol. I (Soul City/Beleza/Universal)
BILL FRISELL, Unspeakable (Nonesuch/Warner)
The BLUE NILE, High (Epstein/Sanctuary/Som Livre)
CAETANO VELOSO, A Foreign Sound (Emarcy/Universal)
ELVIS COSTELLO & THE IMPOSTERS, The Delivery Man (Lost Highway/Universal)
CHULLAGE, Rapensar (Lisafonia)
DA WEASEL, Re-Definições (Virgin/EMI)
DAVID BYRNE, Grown Backwards (Nonesuch/Warner)
HÉLDER MOUTINHO, Luz de Lisboa (Ocarina)
HOME (Benjamin Biolay & Chiara Mastroianni, Home (Virgin/EMI)
HUMANOS, Humanos (Capitol/EMI)
JILL SCOTT, Beautifully Human: Words & Sounds vol. 2 (Hidden Beach/Sony)
JOSÉ MÁRIO BRANCO, Resistir É Vencer (Capitol/EMI)
k. d. lang, Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch/Warner)
The KILLERS, Hot Fuss (Island/Universal)
The MAGNETIC FIELDS, I (Nonesuch/Warner)
MARIA JOÃO MÁRIO LAGINHA, Tralha (Emarcy/Universal)
The MOUNTAIN GOATS, We Shall All Be Healed (4AD)
A NAIFA, Canções Subterrâneas (Columbia/Sony)
RODRIGO LEÃO, Cinema (Columbia/Sony)
STEVE EARLE, The Revolution Starts Now (Artemis/Edel)
TANYA DONELLY, Whiskey Tango Ghosts (4AD)
TOM WAITS, Real Gone (Anti-/Edel)
TV ON THE RADIO, Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (4AD)
U2, How to Dismantle an Atomic Bomb (Island/Universal)
VINICIUS CANTUÁRIA, Horse and Fish (Hannibal/Rykodisc/Edel)
1-UIK PROJECT, Strategies and Survival (Enchufada/Movieplay)
ADRIANA CALCANHOTTO, Adriana Partimpim (Ariola/BMG)
ALDINA DUARTE, Apenas o Amor (Virgin/EMI)
ANAMAR, Transfado (Companhia Nacional de Música/MVM)
ARNALDO ANTUNES, Saiba (Rosa Celeste/BMG)
BiD, Bambas & Biritas Vol. I (Soul City/Beleza/Universal)
BILL FRISELL, Unspeakable (Nonesuch/Warner)
The BLUE NILE, High (Epstein/Sanctuary/Som Livre)
CAETANO VELOSO, A Foreign Sound (Emarcy/Universal)
ELVIS COSTELLO & THE IMPOSTERS, The Delivery Man (Lost Highway/Universal)
CHULLAGE, Rapensar (Lisafonia)
DA WEASEL, Re-Definições (Virgin/EMI)
DAVID BYRNE, Grown Backwards (Nonesuch/Warner)
HÉLDER MOUTINHO, Luz de Lisboa (Ocarina)
HOME (Benjamin Biolay & Chiara Mastroianni, Home (Virgin/EMI)
HUMANOS, Humanos (Capitol/EMI)
JILL SCOTT, Beautifully Human: Words & Sounds vol. 2 (Hidden Beach/Sony)
JOSÉ MÁRIO BRANCO, Resistir É Vencer (Capitol/EMI)
k. d. lang, Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch/Warner)
The KILLERS, Hot Fuss (Island/Universal)
The MAGNETIC FIELDS, I (Nonesuch/Warner)
MARIA JOÃO MÁRIO LAGINHA, Tralha (Emarcy/Universal)
The MOUNTAIN GOATS, We Shall All Be Healed (4AD)
A NAIFA, Canções Subterrâneas (Columbia/Sony)
RODRIGO LEÃO, Cinema (Columbia/Sony)
STEVE EARLE, The Revolution Starts Now (Artemis/Edel)
TANYA DONELLY, Whiskey Tango Ghosts (4AD)
TOM WAITS, Real Gone (Anti-/Edel)
TV ON THE RADIO, Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (4AD)
U2, How to Dismantle an Atomic Bomb (Island/Universal)
VINICIUS CANTUÁRIA, Horse and Fish (Hannibal/Rykodisc/Edel)
29 de dezembro de 2004
28 de dezembro de 2004
COMENTÁRIO TÍPICO DE MARIDO DISTRAÍDO
O marido entretém-se a ver aquilo de que gosta enquanto a mulher, aborrecida, espreita a montra de roupa na loja do lado: "Vou ali e já venho". Comenta o marido, absorto: "Ali aonde?"
27 de dezembro de 2004
PARA QUE SERVEM OS PASSEIOS?
A matrona cinquentona desce a rua estreita mesmo pelo meio da estrada, apesar do passeio à direita, mesmo que estreito, estar desocupado. Não me apetece buzinar-lhe, e vou descendo devagar para ver se ela percebe. Ela percebe. Olha para trás. Chega-se ao passeio, mas não sobe para cima dele. Lança-me um olhar de desprezo, como quem diz "que impertinência a sua! Veja lá, querer andar de carro na rua!". Pelo retrovisor a senhora continua a descer pelo meio da rua como se não fosse nada com ela. Arrependi-me de não lhe ter buzinado.
25 de dezembro de 2004
PAREM O MUNDO
Gostei que a noite de Natal pouco tenha diferido de uma qualquer noite de fim-de-semana e que o dia de Natal tenha sido apenas um sábado como outro qualquer, passado entre quatro paredes com as janelas abertas ao céu azul acinzentado e ao sol frio de inverno, com o aquecedor ligado, a música a correr no CD, as revistas em cima do sofá. Parar o mundo assim pode ser bom.
24 de dezembro de 2004
árvorezinha
(ou: saudação natalícia alternativa menos mas ainda assim alternativa, descaradamente influenciada por um e-mail natalício de proveniência desconhecida mas que me parece assinalavelmente apropriada)
little tree
little silent Christmas tree
you are so little
you are more like a flower
who found you in the green forest
and were you very sorry to come away?
see i will comfort you
because you smell so sweetly
i will kiss your cool bark
and hug you safe and tight
just as your mother would,
only don't be afraid
look the spangles
that sleep all the year in a dark box
dreaming of being taken out and allowed to shine,
the balls the chains red and gold the fluffy threads,
put up your little arms
and i'll give them all to you to hold
every finger shall have its ring
and there won't be a single place dark or unhappy
then when you're quite dressed
you'll stand in the window for everyone to see
and how they'll stare!
oh but you'll be very proud
and my little sister and i will take hands
and looking up at our beautiful tree
we'll dance and sing
"Noel Noel"
- e. e. cummings
little tree
little silent Christmas tree
you are so little
you are more like a flower
who found you in the green forest
and were you very sorry to come away?
see i will comfort you
because you smell so sweetly
i will kiss your cool bark
and hug you safe and tight
just as your mother would,
only don't be afraid
look the spangles
that sleep all the year in a dark box
dreaming of being taken out and allowed to shine,
the balls the chains red and gold the fluffy threads,
put up your little arms
and i'll give them all to you to hold
every finger shall have its ring
and there won't be a single place dark or unhappy
then when you're quite dressed
you'll stand in the window for everyone to see
and how they'll stare!
oh but you'll be very proud
and my little sister and i will take hands
and looking up at our beautiful tree
we'll dance and sing
"Noel Noel"
- e. e. cummings
have yourself a mary little xmas
(ou: saudação natalícia alternativa)
já nasceu o Deus menino
e as vaquinhas vão mugindo
blim blom, blim blom
blim blom nylon
Mary, Mary, Mary Cristo
Cristo, Cristo, Mary, Mary
esta noite olham por nós
anjos cantam de lá do céu
carneirinho me dá lã, mé
passarinhos de manhã, né
cantam
tudo tão bom
Papai Noel
momo do céu.
- Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown/Marisa Monte, "Mary Cristo", in "Tribalistas" (Phonomotor/EMI, 2002)
já nasceu o Deus menino
e as vaquinhas vão mugindo
blim blom, blim blom
blim blom nylon
Mary, Mary, Mary Cristo
Cristo, Cristo, Mary, Mary
esta noite olham por nós
anjos cantam de lá do céu
carneirinho me dá lã, mé
passarinhos de manhã, né
cantam
tudo tão bom
Papai Noel
momo do céu.
- Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown/Marisa Monte, "Mary Cristo", in "Tribalistas" (Phonomotor/EMI, 2002)
23 de dezembro de 2004
AI AS FILHÓS
"MONSTRO FAZER MUITA FALTA" - sms de desespero de uma amiga que eu costumo ajudar a fazer doces natalícios.
22 de dezembro de 2004
ANGER MANAGEMENT
Sentir-me um boxeur que está a levar porrada por tudo quanto é sítio e, contudo, sem perceber bem porquê, insistir em levantar-me, insistir em cumprir cada longo e doloroso round, sabendo que cada segundo apenas aumenta as probabilidades estatísticas de ceder o combate. E, contudo, insistir. Resistir. Como se pudesse mudar algo que não depende de mim. E continuar a invocar, sei lá de onde, a força de vontade de acreditar que tudo isto é só um momento mau que em breve ficará para trás.
Nem sempre o inferno são os outros.
Nem sempre o inferno são os outros.
21 de dezembro de 2004
AFORISMO
Descobri que tenho todas as rotinas do típico chefe de família. Só que não tenho família da qual ser chefe.
20 de dezembro de 2004
TELEFONEMAS
Saber que não posso fazer nada, deixar a culpa a ferver em lume brando, lentamente, durante todo o dia, entrecortada por telefonemas indagando de evoluções. Sentir-me prisioneiro de uma qualquer jaula de cuja chave receio conhecer o paradeiro. Perguntar-me se a responsabilidade não assume sempre uma quota-parte de fuga, se a opção não é, no fundo, em vez de uma aceitação de algo a rejeição do outro. Sinto-me esgotado.
19 de dezembro de 2004
TELEJORNAL
É impressão minha, ou (à falta de congressos partidários, crises políticas e outros acontecimentos semelhantes) os noticiários de fim-de-semana estão cada vez mais virados para a exploração do "caso da vida", da reportagem sobre as injustiças, as iniquidades e as infelicidades que pululam pelo nosso país? Por vezes pergunto-me como é que um estrangeiro verá estes telejornais que, ao mesmo tempo que exibem políticos seguros de si e executivos que pintam imagens de amanhãs que cantam, remexem à procura das desgraças quotidianas, dos labirintos kafkianos em que a burocracia encerra as pessoas, da luta que por vezes é apenas sobreviver. Algures entre o folhetim do desgraçadinho e a ilusão de sucesso, está um Portugal normal que os telejornais raramente mostram, porque a imensa maioria nunca gosta de se ver ao espelho; gosta de se sentir melhor que os infelizes e de resmungar com aqueles que estão melhores que ela. Faz sentido. Ou talvez não.
18 de dezembro de 2004
POLAROID: BOMBEIROS
Como moro perto de S. Bento, estou habituado aos uivos das sirenes dos batedores da polícia que se ouvem pelo menos uma vez ao dia, escoltando as individualidades pelo meio do trânsito de Lisboa, e por vezes também à noite. Não costumo é ouvi-las na minha rua, e por isso fui à janela onde vi nada menos de três carros de bombeiros, strobes azuis a piscar, parados com poucos metros de intervalo, frente a uma das casas antigas da rua, mais abaixo. Mas da minha janela nem fumo nem fogo se via, apesar da movimentação de bombeiros à porta e das janelas acesas e mirones que vieram à rua perceber o que se passava. Em breve começou a desmobilização, com os bombeiros a regressar aos carros para se desequiparem, e confesso que não cheguei a perceber se houve realmente incêndio ou tudo não passou de um falso alarme. Tudo voltou à normalidade da qual, provavelmente, nunca se terá chegado a sair.
Creio que terá sido há dois anos que um episódio semelhante ocorreu no meu prédio, precisamente por alturas do Natal. Uma vela decorativa deixada acesa em cima do televisor durante o jantar pegou fogo ao televisor, cuja caixa plástica, ao derreter, criou uma fumarada e um cheiro nauseabundo que rapidamente se espalharam à caixa do elevador e das escadas — mas não havia fogo visível em lado nenhum, e só quando os bombeiros (em muito menos quantidade) vieram é que conseguimos perceber o que estava a acontecer. Durante os dias seguintes, todos os inquilinos do prédio deixavam os lenços negros das poeiras acumuladas no nariz sempre que se assoavam.
Creio que terá sido há dois anos que um episódio semelhante ocorreu no meu prédio, precisamente por alturas do Natal. Uma vela decorativa deixada acesa em cima do televisor durante o jantar pegou fogo ao televisor, cuja caixa plástica, ao derreter, criou uma fumarada e um cheiro nauseabundo que rapidamente se espalharam à caixa do elevador e das escadas — mas não havia fogo visível em lado nenhum, e só quando os bombeiros (em muito menos quantidade) vieram é que conseguimos perceber o que estava a acontecer. Durante os dias seguintes, todos os inquilinos do prédio deixavam os lenços negros das poeiras acumuladas no nariz sempre que se assoavam.
17 de dezembro de 2004
16 de dezembro de 2004
(adenda ao post anterior em forma de publicidade desavergonhada)
PS 1 — sem o saber, o Roda Livre partilha o aniversário com a minha querida amiga V., que geralmente "can't be bothered" (com o quê, isso caber-lhe-á a ela responder)
PS 2 — uma cunha desavergonhada ao "irmãozinho mais novo", ficheiro-arquivo a meu bel-prazer de textos sobre cinema que, por uma ou outra razão, não têm cabimento nem actualidade para serem mencionados nem aqui nem no meu day job. A Casa Encantada não é actualizado diariamente como o Roda Livre, mas todas as semanas (um pouco como as estreias de cinema...) lá vão caindo mais umas fichinhas
PS 2 — uma cunha desavergonhada ao "irmãozinho mais novo", ficheiro-arquivo a meu bel-prazer de textos sobre cinema que, por uma ou outra razão, não têm cabimento nem actualidade para serem mencionados nem aqui nem no meu day job. A Casa Encantada não é actualizado diariamente como o Roda Livre, mas todas as semanas (um pouco como as estreias de cinema...) lá vão caindo mais umas fichinhas
15 de dezembro de 2004
IT WAS A VERY GOOD YEAR (Sinatra dixit)
Vou-vos contar um segredo: o Roda Livre faz hoje um ano. Embora a data "oficial" seja amanhã, 16 de Dezembro, o facto é que os primeiros ensaios foram feitos a 15, ainda em modo "privado", e só a 16 é que entrou no "domínio público".
Há um ano, não fazia a mínima ideia quanto tempo é que me ia apetecer aguentar este pequeno manifesto diletante. Hoje, tornou-se num daqueles bons hábitos, como ler o jornal de manhã, comer um pastel de nata a seguir a um bom café, ficar no sofá enroscado com um bom livro.
Mas acho que os parabéns não são tanto para mim (não vejo que um "espelho" tão inclassificavelmente pessoal como este os justifique...) como para os mais de 25 mil visitantes que, para minha agradada mas estupefacta surpresa, por aqui passaram ao longo do ano. E para todos aqueles (muitos menos!) que, para lá disso, têm comentado, escrito, resmungado, apoiado, mandado vir, compreendido e enviado beijos e abraços ao longo deste ano. Enquanto estiverem desse lado, acho que vou continuar a ter (muito) gosto em estar deste lado.
Há um ano, não fazia a mínima ideia quanto tempo é que me ia apetecer aguentar este pequeno manifesto diletante. Hoje, tornou-se num daqueles bons hábitos, como ler o jornal de manhã, comer um pastel de nata a seguir a um bom café, ficar no sofá enroscado com um bom livro.
Mas acho que os parabéns não são tanto para mim (não vejo que um "espelho" tão inclassificavelmente pessoal como este os justifique...) como para os mais de 25 mil visitantes que, para minha agradada mas estupefacta surpresa, por aqui passaram ao longo do ano. E para todos aqueles (muitos menos!) que, para lá disso, têm comentado, escrito, resmungado, apoiado, mandado vir, compreendido e enviado beijos e abraços ao longo deste ano. Enquanto estiverem desse lado, acho que vou continuar a ter (muito) gosto em estar deste lado.
14 de dezembro de 2004
POLAROID: METRO
(domingo)
No Rato, o comboio leva mais tempo do que é costume a partir da estação. Chegados ao Marquês de Pombal, o comboio teima em ficar parado no cais. O sinal está verde, com a segunda luzinha vermelha a indicar que não é conveniente partir. O sistema sonoro da estação anuncia, primeiro, que o tráfego na linha amarela se encontra com "perturbações".
Sentada na carruagem, uma mulher loura dorme encostada ao banco, aparentemente a sono solto, de boca aberta. Veste um casaco tipo kispo, fino, calças de ganga, ténis brancos sujos, uma mala que não se distingue por baixo dos braços cruzados. O rosto envelhecido, a figura frágil e macilenta dão a entender alguém que caíu nos braços de um vício. Mexe-se. Curva-se e desfaz e refaz o nó do atacador de um dos ténis. Levanta-se. "Então isto não anda?", pergunta, numa voz arrastada, enrouquecida, para ninguém em especial. Sai da carruagem e pára em frente à porta aberta. Assobia várias vezes, como se o condutor do comboio a pudesse ouvir por entre o ruído de ar condicionado no máximo do motor eléctrico em ponto de embraiagem. Sem resposta, resmunga, volta para dentro, volta a sentar-se, encostando-se à janela com o cotovelo no parapeito.
O sistema sonoro da estação lança uma nova mensagem, diferente da anterior. Saio da carruagem, mas o ruído do motor não me permite fazer sentido do som abafado, roufenho da mensagem. Há pessoas que saem da carruagem e sobem as escadas em direcção à saída. Depois de não conseguir perceber a mensagem uma segunda vez, faço o mesmo; junto às bilheteiras, procuro compreender o que a voz diz — presumo que seja qualquer coisa do género "a circulação na linha amarela está interrompida" — mas não consigo perceber mais do que "pelo facto pedimos as nossas desculpas". Saio da estação e vou a pé até ao Saldanha.
No Rato, o comboio leva mais tempo do que é costume a partir da estação. Chegados ao Marquês de Pombal, o comboio teima em ficar parado no cais. O sinal está verde, com a segunda luzinha vermelha a indicar que não é conveniente partir. O sistema sonoro da estação anuncia, primeiro, que o tráfego na linha amarela se encontra com "perturbações".
Sentada na carruagem, uma mulher loura dorme encostada ao banco, aparentemente a sono solto, de boca aberta. Veste um casaco tipo kispo, fino, calças de ganga, ténis brancos sujos, uma mala que não se distingue por baixo dos braços cruzados. O rosto envelhecido, a figura frágil e macilenta dão a entender alguém que caíu nos braços de um vício. Mexe-se. Curva-se e desfaz e refaz o nó do atacador de um dos ténis. Levanta-se. "Então isto não anda?", pergunta, numa voz arrastada, enrouquecida, para ninguém em especial. Sai da carruagem e pára em frente à porta aberta. Assobia várias vezes, como se o condutor do comboio a pudesse ouvir por entre o ruído de ar condicionado no máximo do motor eléctrico em ponto de embraiagem. Sem resposta, resmunga, volta para dentro, volta a sentar-se, encostando-se à janela com o cotovelo no parapeito.
O sistema sonoro da estação lança uma nova mensagem, diferente da anterior. Saio da carruagem, mas o ruído do motor não me permite fazer sentido do som abafado, roufenho da mensagem. Há pessoas que saem da carruagem e sobem as escadas em direcção à saída. Depois de não conseguir perceber a mensagem uma segunda vez, faço o mesmo; junto às bilheteiras, procuro compreender o que a voz diz — presumo que seja qualquer coisa do género "a circulação na linha amarela está interrompida" — mas não consigo perceber mais do que "pelo facto pedimos as nossas desculpas". Saio da estação e vou a pé até ao Saldanha.
ENCRYPTICA
tough, you think you've got the stuff
you're telling me and anyone
you're hard enough
you don't have to put up a fight
you don't have to always be right
let me take some of the punches
for you tonight
listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone
and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own
we fight all the time
you and I... that's alright
we're the same soul
I don't need... I don't need to hear you say
that if we weren't so alike
you'd like me a whole lot more
listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone
and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own
I know that we don't talk
I'm sick of it all
can you hear me when I
sing, you're the reason I sing
you're the reason why the opera is in me...
where are we now?
I've got to let you know
a house still doesn't make a home
don't leave me here alone...
and it's you when I look in the mirror
and it's you that makes it hard to let go
sometimes you can't make it on your own
sometimes you can't make it
the best you can do is to fake it
sometimes you can't make it on your own.
- Bono para U2, "Sometimes You Can't Make It on Your Own" (in "How to Dismantle an Atomic Bomb", Island/Universal 2004)
you're telling me and anyone
you're hard enough
you don't have to put up a fight
you don't have to always be right
let me take some of the punches
for you tonight
listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone
and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own
we fight all the time
you and I... that's alright
we're the same soul
I don't need... I don't need to hear you say
that if we weren't so alike
you'd like me a whole lot more
listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone
and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own
I know that we don't talk
I'm sick of it all
can you hear me when I
sing, you're the reason I sing
you're the reason why the opera is in me...
where are we now?
I've got to let you know
a house still doesn't make a home
don't leave me here alone...
and it's you when I look in the mirror
and it's you that makes it hard to let go
sometimes you can't make it on your own
sometimes you can't make it
the best you can do is to fake it
sometimes you can't make it on your own.
- Bono para U2, "Sometimes You Can't Make It on Your Own" (in "How to Dismantle an Atomic Bomb", Island/Universal 2004)
13 de dezembro de 2004
DESCONTEXTUALIZAÇÕES #2
"As mães devem ser as únicas pessoas do mundo que adoram ser exploradas indecentemente" - em conversa com um amigo no Messenger.
QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM (UPGRADE)
Afinal, qual acne qual carapuça. Depois de dar pelos vermelhuscos no pescoço, nos ombros e nas costas, e de começar a sentir uma leve comichão pelas áreas afectadas, chego à conclusão que é mesmo uma reacção alérgica, embora não faça a mínima ideia a quê.
12 de dezembro de 2004
QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM
Segundo me informou a minha estimada amiga Discípula de Avicena, Serva de Esculápio, etc., o arco de pequenos altinhos vermelhuscos que desenha uma linha curva de sobrancelha a sobrancelha, encostando à linha de cabelo da testa, parece ser um ataque de acne. Coisa que, aos 36 anos, me parece absolutamente idiota, sobretudo porque nunca tive nenhum. Mas pronto, antes acne que um ataque de estupidez.
JOSÉ MILHAZES
...foi hoje visto no jornal da noite da SIC. Foi a primeira vez que vi a imagem daquele cuja voz já conheço há largos anos da TSF. Tem ar de patriarca ortodoxo com sotaque das berças. A minha mãe acha que se cortasse a barba era um homem bonito, e que em qualquer caso é mais bonito que o Evgueni Moravitch.
11 de dezembro de 2004
TOLERÂNCIA DE PONTO
A minha mãe costuma dizer (e eu sei que ando a falar muito da minha mãe, mas prometo que isto não se vai tornar no blog daquilo que a minha mãe diz) que detesta injustiças e que é incapaz de se calar quando confrontada com uma. É um dos traços particulares de carácter que herdei dela, muito embora a noção de "injustiça" seja uma das coisas mais absurdamente relativas de que há memória. Porque, se a "justiça" se rege por leis supostamente iguais para todos, aquilo que se considera uma "injustiça" é geralmente a prova cabal de que essas leis não são realmente iguais para todos, nem nada que se pareça.
Aquilo que a minha mãe geralmente considera uma injustiça é quando nós não estamos de acordo com ela e contradizemos a sua versão dos acontecimentos. Há sempre dois lados para uma mesma questão; geralmente, um deles teima em ser bastante intolerante, seguro (quase até à arrogância) da certeza de ser a única versão aceitável e correcta, a única "de bem"; geralmente, o outro acaba por cansar-se e deixar o outro a falar sozinho, prisioneiro num circuito fechado, loop de feedback, pescadinha de rabo na boca satisfeita com a sua própria lógica aparentemente inatacável. Há quem não concorde, apresente argumentos civilizados, lance sugestões construtivas. Há quem não concorde e a única coisa que sabe fazer é negar de modo cego os argumentos do outro, sem sequer compreender que o edifício que propõe em substituição é um frágil castelo de areia. Mas a pergunta é: deixar o outro a falar sozinho pode ser um exemplo de tolerância, mas não estará apenas a alimentar a intolerância? Em vez de lhe contrapôr um obstáculo, deixá-la à solta?
As pessoas inflamam-se pelos motivos mais idiotas. Mas inflamam-se na mesma.
Aquilo que a minha mãe geralmente considera uma injustiça é quando nós não estamos de acordo com ela e contradizemos a sua versão dos acontecimentos. Há sempre dois lados para uma mesma questão; geralmente, um deles teima em ser bastante intolerante, seguro (quase até à arrogância) da certeza de ser a única versão aceitável e correcta, a única "de bem"; geralmente, o outro acaba por cansar-se e deixar o outro a falar sozinho, prisioneiro num circuito fechado, loop de feedback, pescadinha de rabo na boca satisfeita com a sua própria lógica aparentemente inatacável. Há quem não concorde, apresente argumentos civilizados, lance sugestões construtivas. Há quem não concorde e a única coisa que sabe fazer é negar de modo cego os argumentos do outro, sem sequer compreender que o edifício que propõe em substituição é um frágil castelo de areia. Mas a pergunta é: deixar o outro a falar sozinho pode ser um exemplo de tolerância, mas não estará apenas a alimentar a intolerância? Em vez de lhe contrapôr um obstáculo, deixá-la à solta?
As pessoas inflamam-se pelos motivos mais idiotas. Mas inflamam-se na mesma.
10 de dezembro de 2004
PERDIDO NA TRADUÇÃO
Por razões que me ultrapassam, quando entro no Blogger sou recebido por uma página em... japonês. Eu sei que é uma língua exótica que me fascina, mas não era preciso levar a coisa tão longe.
8 de dezembro de 2004
CESÁRIO BORGA VOLTA A ATACAR
Ou melhor, a minha mãe volta a atacar. Aparecendo Cesário Borga de novo na RTP-1 esta noite, a minha mãe lança a exclamação, "Ai! Coitada da mulher dele, que deve acordar assustada." Se ele fôr casado, insisto eu. "Claro que é. Naquela altura achas que ficava algum sem casar? E ele em novo sempre era com certeza menos feio."
POLAROID: METRO
Na estação do Marquês de Pombal, o ruído de uma criança em birra começa a ouvir-se vindo das escadas do átrio. Será um menino dos seus quatro, cinco anos, que chora e grita, indisposto por ter de viajar no metro. Resiste o mais que pode à mãe, que o tenta acalmar mas se vê obrigado a arrastá-lo contra vontade. O miúdo está quase em desespero por ser incapaz de impedir a decisão unilateral da mãe. Quando esta pára no cais, à espera do comboio, faz toda a força que tem para a empurrar em direcção às escadas de saída. Evidentemente, a mãe nem se mexe, e com um ar a um tempo divertido pela inanidade da situação e embaraçado pela fita que o filho está a fazer em público, vai tentando pacientemente acalmá-lo, explicar-lhe que não há problema, mas o miúdo insiste, grita embargado que quer ir de carro. Os protestos aumentam quando o comboio entra na estação, mas de nada serve.
Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.
Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.
7 de dezembro de 2004
6 de dezembro de 2004
A CULPA É DA VONTADE
Havia qualquer coisa de unificador em António Variações: o modo como nas suas canções se conjugavam a sabedoria ancestral passada de pais para filhos, um saber telúrico quase atávico, e a vontade de o levar mais além, de o tornar numa chave para o futuro em vez de um tesouro perdido no passado. A modernidade com que soube enfeitar a simplicidade popular dos seus bordões e a verdade da sua identidade portuguesa é algo de tanto mais notável quanto se percebe ser inteiramente intuitiva e nada calculada. Se outro mérito não tivesse (e tem muitos), "Humanos" valeria a pena pelo modo certeiro como resgata ao esquecimento algumas pérolas que concentram em duas, três frases de uma simplicidade de estarrecer mundos inteiros de emoções contraditórias — como esta, cantada por Manuela Azevedo com a medida exacta de sedução insegura, entrega abandonada, esperança louca e resignação melancólica. Porque não podemos fugir àquilo que somos.
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.
5 de dezembro de 2004
PEQUENA CONSTATAÇÃO ILUMINADA
Por vezes, aquilo de que precisamos é, apenas, de alguém que nos salve de nós próprios.
POLAROID: AVENIDA
(descendo a rua do Salitre, em direcção à avenida da Liberdade)
Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.
(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)
Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.
(estação de correio dos Restauradores)
A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.
Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.
(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)
Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.
(estação de correio dos Restauradores)
A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.
4 de dezembro de 2004
O REMÉDIO MILAGROSO
OK, sim, eu confesso: comprei "How to Dismantle an Atomic Bomb", o novo álbum dos U2. Fiz questão. U2 é uma daquelas bandinhas do coração, faz há muito parte do jardim secreto, é inamovível e inextraível e não é um trambolhão desastroso como "Pop" que os vai desalojar. O novo disco não é exactamente apenas mais do mesmo — sinto nele uma tentativa de largar lastro desnecessário, de reconcentrar no essencial — muito embora também não seja exactamente um grande álbum dos U2. É melhor (mas não por muito) que "All That You Can't Leave Behind" e não é o desastre absoluto que muitos andam por aí a apregoar. E, mais uma vez, andam por ali duas ou três canções clássicas direitinhas para o álbunzinho das memórias — o punch 1-2-3 de abertura com "Vertigo", "Miracle Drug" e "Sometimes You Can't Make It on Your Own" é devastador, pena que depois a coisa se disperse. Esta é o 2 do punch 1-2-3, com a guitarra estratosférica de The Edge (ainda e sempre em grande) a fazê-la descolar em direcção às estrelas.
I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see
I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out
freedom has a scent
like the top of a new born baby's head
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug
of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...
I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug
God I need your help tonight
beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.
I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see
I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out
freedom has a scent
like the top of a new born baby's head
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug
of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...
I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug
God I need your help tonight
beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.
3 de dezembro de 2004
IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #2
Eu e a minha mãe temos neste momento um pequeno diferencial de opinião relativamente a Ana Moura. Eu acho que ela tem uma voz bonita mas pouca personalidade e, sobretudo, pouca alma a cantar fado. Levei à minha mãe o novo disco da cantora, "Aconteceu" (Mercury/Universal, 2004), e na nossa conversa telefónica seguinte ela choca-me dizendo que acha que Ana Moura canta muito bem o fado. Então e aquele momento em que ela se esganiça toda e não chega lá, contraponho eu? "Ai, tu não foste sair a mim, não consegues perceber quem canta bem e quem canta mal. Vê mas é se aprendes a ter ouvidos".
2 de dezembro de 2004
POSSO PEDIR UM DISCO?
A parte aborrecida das arrumações é perceber, de repente, a bagagem que já se transporta connosco. Quando, no Verão, comprei estantes para acomodar a sempre em crescimento colecção de discos, comprei-as já a contar com os velhos vinis que estavam arrumados a um canto (o gira-discos já há muito tempo que não sei onde está, perdido em alguma mudança, e há outro tanto que vou adiando a aquisição de um novo). E, de repente, no outro dia, passeando pelos velhos singles de vinil dos meus 15, 20 anos, dei por uma série de canções que nunca mais apanhei em CD (muitas delas descatalogadas). Não as considero clássicos absolutos, são apenas canções que por uma razão ou outra me bateram na altura e que, hoje, ao ouvi-las, me transportam, como máquinas do tempo instantâneas, para momentos específicos da minha vida.
Algumas, vim a perceber entretanto, nem nunca cheguei a possuir fisicamente em disco, tive-as apenas em cassete, esse formato "pirata" que tanto usei para gravar discos de amigos ou da rádio durante os anos 80. Como "Laß mich dein Pirat sein", baladinha oceânica com citação de Sondheim no solo de saxofone final, cantado muito suavemente pela mocinha Nena dos "99 Luftballons" que teve a dúbia honra de ser a única cantora alemã a atingir os primeiros lugares dos topes anglófonos na sua língua natal (1984). Como "Like Flames", uma cavalgada louca em formato de rock épico de guitarras propulsionado a sequenciador electrónico desvairado ambicionando a Jim Steinman dos pobrezinhos que é a única coisa decente jamais gravada pelos Berlin desse pesadelo chamado "Take My Breath Away" (1987, 1988? a memória falha-me e não estou para ir à procura do single). Prazeres culpados, certamente, mas prazeres ainda assim. E prazeres que não enjeito e ainda hoje me dão grande gozo a ouvir.
Como eu deve haver milhares, milhões de pessoas em todo o mundo à procura de memórias como estas, canções que perderam de vista e nunca mais reencontraram. E é nestas alturas em que me pergunto porque é que as editoras discográficas têm tão pouca vontade de abraçar as novas tecnologias digitais. Num belo artigo na Wired de Outubro, Chris Anderson explica que, no novo mundo dos downloads digitais, tudo — literalmente tudo — pode ter procura. Aquela canção que se tornava incomportável para a editora ter disponível porque a procura mínima e a rotação inexistente não o possibilitava pode, agora, estar disponivel 24 horas sobre 24 para todos aqueles que a quiserem. E todos ganham.
Claro que, até isso acontecer, as leis do mercado continuarão a impossibilitar-me de me recordar até que ponto as coisas de que gostava há 20 anos me parecerão ridículas hoje — ou, pelo contrário, me continuarão a seduzir.
Algumas, vim a perceber entretanto, nem nunca cheguei a possuir fisicamente em disco, tive-as apenas em cassete, esse formato "pirata" que tanto usei para gravar discos de amigos ou da rádio durante os anos 80. Como "Laß mich dein Pirat sein", baladinha oceânica com citação de Sondheim no solo de saxofone final, cantado muito suavemente pela mocinha Nena dos "99 Luftballons" que teve a dúbia honra de ser a única cantora alemã a atingir os primeiros lugares dos topes anglófonos na sua língua natal (1984). Como "Like Flames", uma cavalgada louca em formato de rock épico de guitarras propulsionado a sequenciador electrónico desvairado ambicionando a Jim Steinman dos pobrezinhos que é a única coisa decente jamais gravada pelos Berlin desse pesadelo chamado "Take My Breath Away" (1987, 1988? a memória falha-me e não estou para ir à procura do single). Prazeres culpados, certamente, mas prazeres ainda assim. E prazeres que não enjeito e ainda hoje me dão grande gozo a ouvir.
Como eu deve haver milhares, milhões de pessoas em todo o mundo à procura de memórias como estas, canções que perderam de vista e nunca mais reencontraram. E é nestas alturas em que me pergunto porque é que as editoras discográficas têm tão pouca vontade de abraçar as novas tecnologias digitais. Num belo artigo na Wired de Outubro, Chris Anderson explica que, no novo mundo dos downloads digitais, tudo — literalmente tudo — pode ter procura. Aquela canção que se tornava incomportável para a editora ter disponível porque a procura mínima e a rotação inexistente não o possibilitava pode, agora, estar disponivel 24 horas sobre 24 para todos aqueles que a quiserem. E todos ganham.
Claro que, até isso acontecer, as leis do mercado continuarão a impossibilitar-me de me recordar até que ponto as coisas de que gostava há 20 anos me parecerão ridículas hoje — ou, pelo contrário, me continuarão a seduzir.
1 de dezembro de 2004
LINGUÍSTICA AVANÇADA
Depois de ouvir Paulo Portas a perorar perante o prime-time televisivo de feriado, esta noite, em mais uma das suas magistrais demonstrações de como, em política, tudo é maleável e flexível ao ponto de querer significar aquilo que quisermos que signifique; depois de ouvir as múltiplas interpretações e análises dos acontecimentos dos últimos dias; concluo que a política é apenas uma questão de escolher um modo de ver o mundo, convencermo-nos da sua veracidade, fecharmo-nos a tudo o resto que a ameace e tentarmos convencer os outros de que nós é que temos razão.
Aqui para nós, ainda bem que não sou eu a fazê-lo, porque não convenceria ninguém. Mas, por muito bem que Paulo Portas o faça, também não me convence. Em quem residirá o ónus da crença, então?
Aqui para nós, ainda bem que não sou eu a fazê-lo, porque não convenceria ninguém. Mas, por muito bem que Paulo Portas o faça, também não me convence. Em quem residirá o ónus da crença, então?
29 de novembro de 2004
IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #1
Ouvido no sábado à minha mãe: "vai-te encher de moscas!".
David Cronenberg gostaria certamente da expressão.
David Cronenberg gostaria certamente da expressão.
28 de novembro de 2004
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #12
É curioso ver como o zapping funciona, às vezes, como um atalho para a nossa memória. Ainda agora passei pelo canal Hollywood e dei pelo carro voador de "Chitty Chitty Bang Bang", que me teleportou instantaneamente para o Verão quente de 1974 ou 1975, em que os meus pais me levaram a vê-lo ao cinema Vox. Curiosamente, a minha ideia do filme é mínima — tenho apenas memória de imagens soltas e do local onde o vi. O Vox era onde é hoje o King Triplex. Era uma sala única, aí de 500 lugares, que tinha umas cadeiras muito anos 60, sem costas, redondas. As actuais entradas dos King 1 e 2 eram as duas entradas principais para a sala (coxias esquerda e direita); o bar ficava onde é hoje a livraria, e o écran era onde é hoje o King 3 (as escadas que levam ao King 3 eram a velha saída de emergência do Vox). Tinha algo de cinema de bairro, mas tinha sempre umas estreias interessantes, muito cinema europeu. Lembro-me de estar de férias em Tavira, na velha casa que a d. Júlia nos alugava, e de ver no jornal do dia o anúncio da reposição do filme; esse tinha sido o primeiro Verão do cinema pornográfico, com salas "sérias" como o Politeama, o Cinebolso (à altura um cinema de "arte e ensaio") ou o Capitólio a exibirem filmes porno, e o Vox foi uma delas, substituindo "Chitty Chitty Bang Bang" por um porno ainda durante o mês que passámos em Tavira. Curiosamente, sei que vi o filme no Vox, mas não me recordo se foi nesse ano ou na temporada de reprises seguinte. Ou talvez a minha memória também esteja a fazer zapping.
Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.
Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.
EVGUENI MORAVITCH
A minha mãe tem um sentido muito apurado de como um pivot ou um repórter televisivo deve ser. É normal ouvi-la pronunciar-se em voz alta sobre a (falta de) beleza de quem aparece na televisão com a expressão "Se isto é cara que se apresente! Onde é que já se viu isto na televisão?". (Entre as habituais vítimas dos ataques de indignação da minha mãe contam-se Rosa Veloso, Sandra Felgueiras, Margarida Neves de Sousa, Marta Atalaya, João Ferreira, Luís Branco — enfim, talvez seja melhor dizer que quem NÂO costuma ser alvo de tais ataques são Judite de Sousa, Fátima Campos Ferreira, Manuela Moura Guedes, Rodrigo Guedes de Carvalho e José Alberto Carvalho, porque todos os outros, a dada altura, já por lá passaram ou potencialmente passarão).
Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".
Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".
27 de novembro de 2004
DÚVIDAS EXISTENCIAIS
Não exactamente; mas, tal como as do Palma há uns dias, esta da Naifa (oh, como eu gosto da Naifa, e do seu belo álbum "Canções Subterrâneas" - Columbia/Sony, 2004 - e do seu dub-tecno-fado) resume bem as dúvidas recentes. Chama-se "Queixas de um Utente", poema de José Mário Silva.
pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros
já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum
pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros
já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum
UMA DE VÁRIAS PERGUNTAS QUE SE IMPÕEM
O problema reside no ser ou no parecer?
Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?
Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?
25 de novembro de 2004
TINONI
A ambulância sai do quartel de bombeiros com os strobes luminosos a flashar a azul. O meu é o único carro que está à frente, mas a rua tem duas faixas no mesmo sentido e portanto ela pode-me ultrapassar se assim o desejar, mas não o faz; mantém a distância até nos aproximarmos da rotunda onde desagua o trânsito de três ruas distintas. Só à vista da rotunda a ambulância dispara o som e acelera a velocidade, ultrapassando-me rapidamente pela esquerda e deixando atrás de si o ruído estridente das sirenes.
23 de novembro de 2004
SINAIS
(Parental advisory: explicit content)
Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.
Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.
Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.
Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.
Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.
Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.
22 de novembro de 2004
PALMA, VEZES DOIS
Duas letras do Jorge Palma para definir, melhor ou pior, as amplitudes térmicas das últimas semanas. São as duas do desigual disco novo, "Norte" (Virgin/EMI).
Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.
vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.
Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.
estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes
estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado
estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal
tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.
O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.
Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.
vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.
Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.
estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes
estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado
estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal
tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.
O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.
21 de novembro de 2004
PEDIMOS DESCULPA POR ESTA INTERRUPÇÃO
A Casa Encantada tem estado meio abandonada, espero a partir de hoje conseguir retomar posts mais regulares no blog irmão.
20 de novembro de 2004
O ESTADO DAS COISAS
Esta forma nova — nem se pode mesmo dizer de fascismo, há demasiada distorção — que existe agora é bem pior, porque será bem mais irrevogável. Tudo será aparentemente agradável, as pessoas pensarão viver num país livre, etc. Acho a evolução actual muito mais deprimente, de certa maneira, porque já não se pode verdadeiramente fazer nada contra ela. Já não há grande diferença entre o vizinho da frente e o chanceler federal — é um homem mesquinho e medíocre, exactamente como o meu vizinho. Eles vão ficar cada vez mais parecidos e por isso as coisas vão-se tornar cada vez mais difíceis para nós, aves do paraíso.
É um excerto de uma entrevista dada pelo falecido cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder em 1978. Encontrei-a num artigo de Alain Bergala na edição de Outubro dos Cahiers du Cinéma, artigo esse escrito em forma de carta a um actor que voltou costas ao teatro "institucional" e arranjou emprego como destilador de whisky por recusar o "teatro de massas" que ele considerava ter substituído o "teatro popular" (interessante distinção) hoje em dia.
Mas, cá para mim, a afirmação — que Alain Bergala diz impressioná-lo pela "justeza da profecia, vivemos bem no centro deste futuro que Fassbinder predisse" — é uma radiografia incisiva do estado das coisas. Que, por acaso, também era um filme alemão.
É um excerto de uma entrevista dada pelo falecido cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder em 1978. Encontrei-a num artigo de Alain Bergala na edição de Outubro dos Cahiers du Cinéma, artigo esse escrito em forma de carta a um actor que voltou costas ao teatro "institucional" e arranjou emprego como destilador de whisky por recusar o "teatro de massas" que ele considerava ter substituído o "teatro popular" (interessante distinção) hoje em dia.
Mas, cá para mim, a afirmação — que Alain Bergala diz impressioná-lo pela "justeza da profecia, vivemos bem no centro deste futuro que Fassbinder predisse" — é uma radiografia incisiva do estado das coisas. Que, por acaso, também era um filme alemão.
18 de novembro de 2004
IF THE SHOE FITS...
De facto, tudo seria muito mais simpático, agradável e cultural se não tivéssemos de aturar gente estúpida, incompetente ou ignorante durante o dia.
Infelizmente, levando em consideração que a percentagem de gente estúpida, incompetente e/ou ignorante existente no mundo é bastante elevada, creio que se impõe um estudo apurado e aturado da arte zen de canalizar positivamente as nossas energias negativas.
Um par de tabefes poderá ser um bom princípio, Mestre?
Infelizmente, levando em consideração que a percentagem de gente estúpida, incompetente e/ou ignorante existente no mundo é bastante elevada, creio que se impõe um estudo apurado e aturado da arte zen de canalizar positivamente as nossas energias negativas.
Um par de tabefes poderá ser um bom princípio, Mestre?
17 de novembro de 2004
POLAROID: LOJA DE CONVENIÊNCIA
Cena a que acabei de assistir na minha loja de conveniência.
Adolescente com cabelo louro surf pede à empregada um cachorro quente e põe em cima da mesa uma lata de guaraná. Empregada responde que o guaraná não faz parte do menu cachorro. "Não faz?" "Não." E a empregada desfia a lista das bebidas que fazem parte do menu. "Então! É o mesmo preço", responde o adolescente. "Pois, mas não faz parte do menu," responde a empregada. "A senhora é nova aqui, não é?" diz-lhe o adolescente. "Não, não sou", respondeu a empregada. "Estou a ver que ainda tem de aprender umas coisas", diz-lhe o adolescente.
O senhor cinquentão que estava atrás de mim para pagar abriu a boca, chocado. Eu acho que a cena dispensa comentários.
Adolescente com cabelo louro surf pede à empregada um cachorro quente e põe em cima da mesa uma lata de guaraná. Empregada responde que o guaraná não faz parte do menu cachorro. "Não faz?" "Não." E a empregada desfia a lista das bebidas que fazem parte do menu. "Então! É o mesmo preço", responde o adolescente. "Pois, mas não faz parte do menu," responde a empregada. "A senhora é nova aqui, não é?" diz-lhe o adolescente. "Não, não sou", respondeu a empregada. "Estou a ver que ainda tem de aprender umas coisas", diz-lhe o adolescente.
O senhor cinquentão que estava atrás de mim para pagar abriu a boca, chocado. Eu acho que a cena dispensa comentários.
16 de novembro de 2004
SO ESTOU BEM ONDE NÃO ESTOU, ETC.
Não sei nunca o quê, mas tenho sempre a sensação inescapável de que, faça o que fizer, escolha o que escolher, está-me sempre, mas sempre, a escapar alguma coisa.
O COMBOIO QUE LEVAVA SAUDADES
Passando há pouco no viaduto da avenida da Índia, um comboio em direcção a Lisboa apitou enquanto passava por baixo do viaduto. Um comboio é sempre uma promessa, pensei para mim. Fiz a ligação com um filme que não devo ver há 30 anos, ligeiramente menos, que vi só uma vez, numa daquelas sessões matinais, "manhãs infantis", que alguns cinemas de Lisboa continuaram a fazer durante os anos 70; acho que foi no Apolo 70, ali ao Campo Pequeno, que era então programado (pasme-se) por Lauro António como uma sala de prestígio, o equivalente anos 70 do King, com muita produção de arte e ensaio.
O filme chamava-se, em português, "O Comboio que Levava Saudades" e adoro o título perfeitamente evocativo de uma era que já passou em que a metáfora do título traduzido era uma arte levada a extremos. Lembro-me que era uma produção inglesa que se passava na transição do século XIX para o século XX, misto de Enid Blyton e James Ivory, com três crianças — três irmãos — e as suas aventuras à volta de uma linha de comboio que lhes passa nas traseiras de uma vivenda modesta ("as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha tão modesta que ela é") no campo inglês. Anos mais tarde, reencontrei as coordenadas do filme, nas enciclopédias de cinema: um filme inglês de 1970, dirigido por Lionel Jeffries e intitulado no original "The Railway Children", baseado num clássico da literatura infanto-juvenil britânica. Nunca mais voltei a apanhar com esse filme mas hoje, não sei porquê, o comboio que me passou ao lado trouxe-me saudades dele.
O filme chamava-se, em português, "O Comboio que Levava Saudades" e adoro o título perfeitamente evocativo de uma era que já passou em que a metáfora do título traduzido era uma arte levada a extremos. Lembro-me que era uma produção inglesa que se passava na transição do século XIX para o século XX, misto de Enid Blyton e James Ivory, com três crianças — três irmãos — e as suas aventuras à volta de uma linha de comboio que lhes passa nas traseiras de uma vivenda modesta ("as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha tão modesta que ela é") no campo inglês. Anos mais tarde, reencontrei as coordenadas do filme, nas enciclopédias de cinema: um filme inglês de 1970, dirigido por Lionel Jeffries e intitulado no original "The Railway Children", baseado num clássico da literatura infanto-juvenil britânica. Nunca mais voltei a apanhar com esse filme mas hoje, não sei porquê, o comboio que me passou ao lado trouxe-me saudades dele.
15 de novembro de 2004
PEQUENA AFIRMAÇÃO APENAS APARENTEMENTE MISÓGINA
O meu amigo António tem esta afirmação que me parece muito interessante: "todas" — e ele refere-se, verdadeiramente, a todas — "as mulheres são bonitas até prova em contrário".
Eu, pessoalmente, olho para algumas e, por excelentes pessoas, seres humanos extraordinários, óptimas profissionais, etc, que possam ser, penso logo que devem ser a prova em contrário.
Eu, pessoalmente, olho para algumas e, por excelentes pessoas, seres humanos extraordinários, óptimas profissionais, etc, que possam ser, penso logo que devem ser a prova em contrário.
14 de novembro de 2004
:TEN (descubra as diferenças)
(Descobri este fragmento nas minhas arrumações. Um e-mail que enviei em Fevereiro de 2000 a um amigo. É curioso, acho que há aqui muita coisa que ainda se aplica hoje. O que pode ser lido das duas maneiras.)
All I ever wanted was to be noticed.
I was brought up to be quiet, silent, away from my father's eyes so as not to disturb his all-important work at home. Raised among adults who had no time for a young boy with an overreaching imagination, a young boy who wanted to be just like all the other boys his age. But it was not to be. I never felt I belonged anywhere; except maybe at home, probably just because I shared a name and a blood kin to these people.
I still don't.
I still want to believe that discipline and hard work will make up for the friendship you don't have. Because, to be fairly honest, love never came into it. Love was something I never saw at home. Love was something — is something I can't quite get around my mind. I don't know what it is. Never did. What I'm looking for is not love. It's comfort. It's acceptance. It's feeling I belong somewhere; feeling I have people who care for me, who call me, who want me to be with them once in a while, who write to me, who know my many faults and still want to be with me.
But I have a knack for wanting to be friends with people who have more important things in their lives than me. Like a family of their own. Like a love of their own.
That leaves me back where I started, needing professional psychological advice once every six weeks, feeling lonely and lovelorn. And rather staying at home nursing my invisible wounds when I could, should be out there forgetting theem.
But, whichever way you look at it, isn't the result the same? They never go away anyway. They'll just linger around the darkest recesses of your mind, waiting for the chance to come back and settle again. All you can hope for is a brief respite of the anguish. An evening, a weekend, a week. Because nothing ever lasts forever. It all ebbs and flows, like the waves on the beach.
All I ever do is send out messages in bottles of different shapes and sizes. Everything I do is a cry for help. A call to notice. And people do. For a while. Then they've seen it all and move away. On to the next freak show.
All I ever wanted was to be noticed.
I was brought up to be quiet, silent, away from my father's eyes so as not to disturb his all-important work at home. Raised among adults who had no time for a young boy with an overreaching imagination, a young boy who wanted to be just like all the other boys his age. But it was not to be. I never felt I belonged anywhere; except maybe at home, probably just because I shared a name and a blood kin to these people.
I still don't.
I still want to believe that discipline and hard work will make up for the friendship you don't have. Because, to be fairly honest, love never came into it. Love was something I never saw at home. Love was something — is something I can't quite get around my mind. I don't know what it is. Never did. What I'm looking for is not love. It's comfort. It's acceptance. It's feeling I belong somewhere; feeling I have people who care for me, who call me, who want me to be with them once in a while, who write to me, who know my many faults and still want to be with me.
But I have a knack for wanting to be friends with people who have more important things in their lives than me. Like a family of their own. Like a love of their own.
That leaves me back where I started, needing professional psychological advice once every six weeks, feeling lonely and lovelorn. And rather staying at home nursing my invisible wounds when I could, should be out there forgetting theem.
But, whichever way you look at it, isn't the result the same? They never go away anyway. They'll just linger around the darkest recesses of your mind, waiting for the chance to come back and settle again. All you can hope for is a brief respite of the anguish. An evening, a weekend, a week. Because nothing ever lasts forever. It all ebbs and flows, like the waves on the beach.
All I ever do is send out messages in bottles of different shapes and sizes. Everything I do is a cry for help. A call to notice. And people do. For a while. Then they've seen it all and move away. On to the next freak show.
13 de novembro de 2004
WELL I WONDER
Depois de ter assistido aos "highlights" da comunicação de Nuno Morais Sarmento no congresso do PSD, pergunto-me a quem se dirigiria o Ministro da Presidência realmente.
É SÓ ARRUMAÇÃO, ARRUMAÇÃO
Estar com a neura tem as suas vantagens. Uma delas é que, geralmente, me dá para arrumar a casa — e vocês não fazem ideia da quantidade de lixo (menu do dia: caixas de sapatos antigas e sacos de plástico que estavam a ganhar pó há anos numa pequena despensa que tenho em casa, entre outras coisas) que tenho andado a deitar fora nas últimas semanas. Já Thoreau dizia: "simplify, simplify". Para já não falar na questão que, uma vez as coisas limpas e o espaço ganho para arrumar outras coisas, passa a haver espaço para organizar. E eu gosto muito de organizar.
12 de novembro de 2004
ONDE ESTAVAS NO 25 DE DEZEMBRO DE 1974?
Deixei de acreditar definitivamente no Pai Natal numa véspera de Natal, em finais dos anos 70, quando eu tinha 10, 11 anos, em que, enquanto estava a dar "O Feiticeiro de Oz" na televisão, os meus pais desapareceram de repente da sala de jantar e eu fui à procura deles para os encontrar a arrumar os presentes na sala de estar. Eu já não acreditava muito no Pai Natal antes, acho eu, pelo menos do que me recordo, mas nesse ano percebi o esquema todo. E foi também nesse ano que percebi que a quantidade absurda de presentes que me davam era uma maneira dos meus pais compensarem outras coisas que não me sabiam dar.
É uma chatice perceber estas coisas tão novo. Dá-nos cabo da cabeça cedo demais.
É uma chatice perceber estas coisas tão novo. Dá-nos cabo da cabeça cedo demais.
11 de novembro de 2004
I STILL HAVEN'T FOUND WHAT I'M LOOKING FOR
No outro dia, falava da minha mãe viver no mundo fechado das suas quatro paredes. Às vezes, descubro que sou mais parecido com ela do que eu próprio penso: também eu vivo no meu mundo fechado. Porque o diâmetro ou a área não têm importância quando o percurso continua a ser um círculo que me leva do ponto A outra vez ao ponto A. Obviamente isto cria os seus problemas: a maior parte do que realmente interessa está lá fora.
A minha mãe sempre disse — geralmente qusndo está a mandar vir — uma coisa com uma certa piada: "nós sempre tivemos muito medo que o ar te chegasse". Parabéns, conseguiram.
A minha mãe sempre disse — geralmente qusndo está a mandar vir — uma coisa com uma certa piada: "nós sempre tivemos muito medo que o ar te chegasse". Parabéns, conseguiram.
10 de novembro de 2004
PEQUENO MOMENTO DE LUCIDEZ ILUMINADA
Percebi que sou um quarentão ressabiado. Isto é muito perturbante porque só tenho 36 anos.
9 de novembro de 2004
QUESTIONÁRIO DE ESCOLHA MÚLTIPLA
Dizia o teaser na caixa multibanco: Sabe qual é o seu nível de açúcar no sangue?. E, depois de levantar os 60 euros, lá veio a resposta: 14 de Novembro - Dia Mundial da Diabetes. X% de portugueses não sabe que sofre de diabetes.
Isto é suposto:
a) gerar sentimentos de culpa por comer doces?
b) assustar-me para ir ao médico já ver o açúcar no sangue?
c) lançar-me em depressão porque tudo o que faço e como pode ser potencialmente perigoso?
d) fazer-me sentir superior aos outros porque controlo o meu açúcar no sangue?
Como podem ver, a trip da culpa não tem escapatória possível. O que nos querem vender não é saúde nem cuidados por si próprios, é mesmo usar a culpa como um motivador. E sabem que mais? Bardamerda para a culpa. Venha daí esse quadradinho de chocolate negro amargo com 70% de cacau.
Isto é suposto:
a) gerar sentimentos de culpa por comer doces?
b) assustar-me para ir ao médico já ver o açúcar no sangue?
c) lançar-me em depressão porque tudo o que faço e como pode ser potencialmente perigoso?
d) fazer-me sentir superior aos outros porque controlo o meu açúcar no sangue?
Como podem ver, a trip da culpa não tem escapatória possível. O que nos querem vender não é saúde nem cuidados por si próprios, é mesmo usar a culpa como um motivador. E sabem que mais? Bardamerda para a culpa. Venha daí esse quadradinho de chocolate negro amargo com 70% de cacau.
8 de novembro de 2004
DO FUNDO DOS TEMPOS
Na escola primária (terá sido na 3ª classe?), aprendi o que significa as pessoas não acreditarem em nós. Alguém deixou um "presente" desagradável debaixo da minha carteira. Levou-me tempo a perceber de onde vinha o mau cheiro e, quando dei pela sola da bota suja, disse ao professor. Todos pensaram que tinha sido eu. Até o professor. De nada serviram os meus protestos, o meu desespero; fui mandado para o recreio, de castigo. Lembro-me que o dia estava cinzento. Lembro-me que chorei, chorei muito, sozinho no recreio. Lembro-me que os meus pais acreditaram em mim porque me viram transtornado como nunca tinham visto.
Não me recordo como foram os dias seguintes, como ultrapassei o trauma de ninguém acreditar em mim. Talvez nunca o tenha ultrapassado; isto foi quase há trinta anos e recordo-me como se fosse ontem. Nesse dia aprendi a não confiar nas pessoas. Nesse dia aprendi que há amizades — talvez a maior parte delas — que são meros jogos de interesses (e, ao longo dos anos que se seguiram, no ciclo preparatório e grande parte do liceu, apenas o confirmei). Nesse dia aprendi o que é a cegueira dos outros.
Desse dia data a minha necessidade de ser aceite, de ser compreendido, de pertencer — e a minha certeza que, por mais que tente, isso nunca acontecerá.
Não me recordo como foram os dias seguintes, como ultrapassei o trauma de ninguém acreditar em mim. Talvez nunca o tenha ultrapassado; isto foi quase há trinta anos e recordo-me como se fosse ontem. Nesse dia aprendi a não confiar nas pessoas. Nesse dia aprendi que há amizades — talvez a maior parte delas — que são meros jogos de interesses (e, ao longo dos anos que se seguiram, no ciclo preparatório e grande parte do liceu, apenas o confirmei). Nesse dia aprendi o que é a cegueira dos outros.
Desse dia data a minha necessidade de ser aceite, de ser compreendido, de pertencer — e a minha certeza que, por mais que tente, isso nunca acontecerá.
O BENEFÍCIO DA DÚVIDA
I had a kind of a not sad — well, maybe sad — but an acceptance of who I am as a woman and that maybe who I am as a woman isn't somebody that can be the great partner and wife and also do the things that I want to do (...). I've come to reaize there's a very strong possibility I might be raising my children by myself and have great lovers and friends, but not find that one great love. And that's sad, you know. But better that than hurt somebody or go through another divorce.
Quem diz isto é Angelina Jolie, na edição de Outubro da Première americana. E, transferindo o conteúdo para a minha própria experiência, estou como ela: será melhor partir em busca de um sonho distante (e, talvez, impossível) do que saber desfrutar do que tenho? As dúvidas estão sempre a dar cabo de mim. Acho que é uma herança materna.
Quem diz isto é Angelina Jolie, na edição de Outubro da Première americana. E, transferindo o conteúdo para a minha própria experiência, estou como ela: será melhor partir em busca de um sonho distante (e, talvez, impossível) do que saber desfrutar do que tenho? As dúvidas estão sempre a dar cabo de mim. Acho que é uma herança materna.
7 de novembro de 2004
5 DE NOVEMBRO DE 1929
A minha mãe fez 75 anos na sexta-feira. Recordo-me que, quando o meu pai fez anos, em Março, coloquei aqui um post sobre a ocasião, mas não fiz o mesmo com a minha mãe. Provavelmente, para alguns isto equivalerá a ser um filho desnaturado, ou então será lido como uma manifestação freudiana da clássica preferência por um dos pais.
Lamento desiludi-los; entre o laconismo reservado e repetidamente silencioso do meu pai e os monólogos cada vez mais amargos e histriónicos da minha mãe, não prefiro nenhum. E gosto muito de ambos os meus pais, por muitas dificuldades de relacionamento que tenha com eles. Acontece, apenas, que a minha mãe é uma figura complicada. Uma mulher que cresceu no "obscurantismo" de um tempo onde a célula familiar era rigidamente estruturada e o lugar da mulher era em casa, a tomar conta dos filhos.
A minha mãe sempre se dividiu entre a vontade (em alguns casos, quase necessidade) de se revoltar contra o papel meramente utilitário que a sociedade lhe impunha e o medo de ser incapaz de se aguentar sozinha se mandasse tudo ás urtigas e se revoltasse efectivamente. A minha mãe sempre nos usou a nós, os três filhos que teve, como a sua desculpa para se resignar ao papel que lhe tinham destinado mas que ela nunca quis aceitar. A minha mãe sempre diz que, graças a Deus, criou três bons rapazinhos, honestos e trabalhadores — como se tudo isso fosse a única coisa que valesse a pena. Mas a minha mãe sempre viveu no mundo fechado das quatro paredes do apartamento do Bairro das Colónias onde nos criou, e nunca visitou o mundo fora dessas quatro paredes que tanto gostaria de ter visto. E criou-nos de acordo com valores e experiências de um outro tempo, que não era nem nunca foi o nosso.
A minha mãe fez 75 anos na sexta-feira e não celebrou a ocasião. Há vários anos que ela se recusa a celebrar o que quer que seja, nos diz sempre que não gastemos dinheiro com ela (embora fique ofendidíssima se não gastamos), que se calhar para o ano que vem já cá não está. A minha mãe está uma mulher amarga, que, chegada à velhice e à doença, lamenta tudo aquilo que nunca teve a coragem para fazer, sacudindo muito lusamente a água do capote como se não fosse culpa dela mas um conjunto de circunstâncias. Talvez seja a única maneira que ela tem de não sucumbir ao desespero mais absoluto de se ver uma mulher velha e doente confinada a quatro paredes. E, por isso, este fim-de-semana voltou a ser um fim-de-semana de jantares crispados, em que a palavra mais casual ou a afirmação dita em tom jocoso é virada contra nós para se transformar numa denúncia da santidade dela, numa defesa da sua ser a única verdade possível e existente. A minha mãe é possessiva, centralizadora, sábia (mesmo que inconsciente) manipuladora; daria uma óptima ditadora, mas infelizmente criou filhos libertários. E é por isso que eu não escrevi nada quando a minha mãe fez anos; porque gosto muito dela, mas há alturas em que é muito difícil estar com ela.
Lamento desiludi-los; entre o laconismo reservado e repetidamente silencioso do meu pai e os monólogos cada vez mais amargos e histriónicos da minha mãe, não prefiro nenhum. E gosto muito de ambos os meus pais, por muitas dificuldades de relacionamento que tenha com eles. Acontece, apenas, que a minha mãe é uma figura complicada. Uma mulher que cresceu no "obscurantismo" de um tempo onde a célula familiar era rigidamente estruturada e o lugar da mulher era em casa, a tomar conta dos filhos.
A minha mãe sempre se dividiu entre a vontade (em alguns casos, quase necessidade) de se revoltar contra o papel meramente utilitário que a sociedade lhe impunha e o medo de ser incapaz de se aguentar sozinha se mandasse tudo ás urtigas e se revoltasse efectivamente. A minha mãe sempre nos usou a nós, os três filhos que teve, como a sua desculpa para se resignar ao papel que lhe tinham destinado mas que ela nunca quis aceitar. A minha mãe sempre diz que, graças a Deus, criou três bons rapazinhos, honestos e trabalhadores — como se tudo isso fosse a única coisa que valesse a pena. Mas a minha mãe sempre viveu no mundo fechado das quatro paredes do apartamento do Bairro das Colónias onde nos criou, e nunca visitou o mundo fora dessas quatro paredes que tanto gostaria de ter visto. E criou-nos de acordo com valores e experiências de um outro tempo, que não era nem nunca foi o nosso.
A minha mãe fez 75 anos na sexta-feira e não celebrou a ocasião. Há vários anos que ela se recusa a celebrar o que quer que seja, nos diz sempre que não gastemos dinheiro com ela (embora fique ofendidíssima se não gastamos), que se calhar para o ano que vem já cá não está. A minha mãe está uma mulher amarga, que, chegada à velhice e à doença, lamenta tudo aquilo que nunca teve a coragem para fazer, sacudindo muito lusamente a água do capote como se não fosse culpa dela mas um conjunto de circunstâncias. Talvez seja a única maneira que ela tem de não sucumbir ao desespero mais absoluto de se ver uma mulher velha e doente confinada a quatro paredes. E, por isso, este fim-de-semana voltou a ser um fim-de-semana de jantares crispados, em que a palavra mais casual ou a afirmação dita em tom jocoso é virada contra nós para se transformar numa denúncia da santidade dela, numa defesa da sua ser a única verdade possível e existente. A minha mãe é possessiva, centralizadora, sábia (mesmo que inconsciente) manipuladora; daria uma óptima ditadora, mas infelizmente criou filhos libertários. E é por isso que eu não escrevi nada quando a minha mãe fez anos; porque gosto muito dela, mas há alturas em que é muito difícil estar com ela.
AI PORTUGAL, PORTUGAL
Incomoda-me aquela saloiice tipicamente portuguesa que nos faz dar palmadinhas nas nossas próprias costas sempre que há um português que triunfa algures no mundo, como se o seu triunfo fosse também um triunfo nosso, como se nós tivéssemos contribuido, nem que fosse só um pouquinho, para ele.
Tretas. Quem triunfa lá fora fá-lo porque arranjou a força de vontade necessária para partir e não voltar. Hoje, no Telejornal do canal 1 (que, garantidamente, eu cada vez mais só gosto de ver quando é apresentado por José Alberto Carvalho e positivamente detesto quando é feito por Judite de Sousa ou Fátima Campos Ferreira), uma elucidativa reportagem de Márcia Rodrigues sobre um cozinheiro de Viseu que trabalha no hotel Plaza de Nova Iorque, em que a certa altura se dizia com mal-escondido orgulho que tinha sido cumprimentado por Johnny Depp pela qualidade da refeição e que tinha servido Bill Clinton. Como se um cumprimento de um actor de cinema fosse o mais a que um cozinheiro português em Nova Iorque pudesse aspirar, como se esse cumprimento fosse mais significativo do que ter um cargo de responsabilidade num dos mais exigentes hotéis do mundo. Ou como uma coisa realmente digna de orgulho é reduzida à patetice comiserativa do portuguesinho no estrangeiro.
É por estas e por outras que o temperamento português me irrita solenemente.
Tretas. Quem triunfa lá fora fá-lo porque arranjou a força de vontade necessária para partir e não voltar. Hoje, no Telejornal do canal 1 (que, garantidamente, eu cada vez mais só gosto de ver quando é apresentado por José Alberto Carvalho e positivamente detesto quando é feito por Judite de Sousa ou Fátima Campos Ferreira), uma elucidativa reportagem de Márcia Rodrigues sobre um cozinheiro de Viseu que trabalha no hotel Plaza de Nova Iorque, em que a certa altura se dizia com mal-escondido orgulho que tinha sido cumprimentado por Johnny Depp pela qualidade da refeição e que tinha servido Bill Clinton. Como se um cumprimento de um actor de cinema fosse o mais a que um cozinheiro português em Nova Iorque pudesse aspirar, como se esse cumprimento fosse mais significativo do que ter um cargo de responsabilidade num dos mais exigentes hotéis do mundo. Ou como uma coisa realmente digna de orgulho é reduzida à patetice comiserativa do portuguesinho no estrangeiro.
É por estas e por outras que o temperamento português me irrita solenemente.
6 de novembro de 2004
4 de novembro de 2004
IT'S ONLY A MOVIE
Presumo que muito boa gente vá ficar a toa com a fantasia retro, propositadamente ingénua, de "Sky Captain e o Mundo de Amanhã" (estreia hoje). É normal que assim seja: o filme de Kerry Conran é um misto de ode a e elegia por um cinema clássico que parece irrecuperavelmente fora do nosso alcance, um retorno a tempos mais simples, menos matizados, mais preto-no-branco, de um cinema genuinamente popular. Por isso mesmo, é um filme que só quem muito ama o cinema, e sobretudo os anos dourados dos estúdios de Hollywood, saberá amar, porque nele reconhecerá o deslumbramento maravilhoso e inocente dos tempos em que o cinema era o futuro. E, por 105 minutos, volta a sê-lo — mesmo que esse futuro esteja solidamente ancorado no passado. Mas que futuro nunca o está?
3 de novembro de 2004
PEQUENA MEDITAÇÃO ELEITORAL
Parece-me que todos os cidadãos portugueses que se sentem decepcionados com a vitória de George W. Bush, independentemente de estarem no seu pleno direito, se esquecem fundamentalmente de uma coisa que poderá servir de consolação, mesmo que fraca: também não votaram em Pedro Santana Lopes e levaram com ele na mesma.
Pronto. Mais animadinhos?
Pronto. Mais animadinhos?
O MISTÉRIO DO AUTO-RÁDIO TEMPERAMENTAL
O meu auto-rádio deu em interromper a cassete (ontem: "High", dos Blue Nile; hoje: "The Capitol Years", de Frank Sinatra) quando a TSF acciona o RDIS das indicações de trânsito, o que é uma chatice (imaginem "I Would Never" ou "Because of Toledo"; ou "I Get a Kick Out of You" ou "Young at Heart" interrompidos pelo acidente na A8 ou na fila nas portagens de Vila Franca e tirem as vossas conclusões).
O que eu só não percebo, mesmo, é porque só agora, ao fim de cinco anos, é que isto acontece.
O que eu só não percebo, mesmo, é porque só agora, ao fim de cinco anos, é que isto acontece.
MUNDO LIVRE S/A
I sit at my table and wage war on myself
it seems like it's all...it's all for nothing
I know the barricades, and
I know the mortar in the wall breaks
I recognize the weapons, I used them well
this is my mistake. let me make it good
I raised the wall, and I will be the one to knock it down
I've a rich understanding of my finest defenses
I proclaim that claims are left unstated,
I demand a rematch
I decree a stalemate
I divine my deeper motives
I recognize the weapons
I've practiced them well. I fitted them myself
it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down
reach out for me and hold me tight. hold that memory
let my machine talk to me. let my machine talk to me
this is my world
and I am the world leader pretend
this is my life
and this is my time
I have been given the freedom
to do as I see fit
it's high time I've razed the walls
that I've constructed
it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down
you fill in the mortar. you fill in the harmony
you fill in the mortar. I raised the walls
and I'm the only one
I will be the one to knock it down.
- Michael Stipe para R. E. M., "World Leader Pretend", in "Green" (Warner Bros., 1989)
it seems like it's all...it's all for nothing
I know the barricades, and
I know the mortar in the wall breaks
I recognize the weapons, I used them well
this is my mistake. let me make it good
I raised the wall, and I will be the one to knock it down
I've a rich understanding of my finest defenses
I proclaim that claims are left unstated,
I demand a rematch
I decree a stalemate
I divine my deeper motives
I recognize the weapons
I've practiced them well. I fitted them myself
it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down
reach out for me and hold me tight. hold that memory
let my machine talk to me. let my machine talk to me
this is my world
and I am the world leader pretend
this is my life
and this is my time
I have been given the freedom
to do as I see fit
it's high time I've razed the walls
that I've constructed
it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down
you fill in the mortar. you fill in the harmony
you fill in the mortar. I raised the walls
and I'm the only one
I will be the one to knock it down.
- Michael Stipe para R. E. M., "World Leader Pretend", in "Green" (Warner Bros., 1989)
2 de novembro de 2004
FUGAS PARA A FRENTE
É, realmente, verdade: mesmo aquilo de que mais gostamos no mundo, quando o temos de fazer todos os dias, se pode banalizar e tornar em "apenas" mais uma coisa. Nessas alturas, é preciso arranjar estratégias para manter o entusiasmo. O problema é quando arranjar essas estratégias é, em si próprio, uma tarefa banal.
1 de novembro de 2004
POLAROID: TÁXI
Cheiro intenso a fumo, como se o táxi estivesse fechado 24/7 numa tabaqueira. Janela do condutor aberta, com o resultado da deslocação a velocidades habitualmente excessivas para o trânsito lisboeta criar uma rapidíssima circulação de ar frio do anoitecer no interior do veículo. Rádio em altíssimos berros na Orbital, que transmite uma qualquer melopeia disco na melhor tradição Village People. Rádio CB dos Rádio Taxis emitindo as habituais mensagens roufenhas "...táxi ao número tal e tal da rua não sei quantos...". E o taxista, de cabelo ralo espicaçado pelo gel, a dissertar com propriedade sobre ser espantoso como, quando ele precisou de ir à garagem mudar não sei o quê, só lhe saírem serviços para o outro lado da cidade e, desde que veio da garagem, todos os serviços o levarem à rua da dita cuja garagem.
O CONSUMIDOR RECLAMA
Ocorreu-me hoje que andamos todos à busca de qualquer coisa para preencher as nossas solidões — uns chamam-lhe amor, outros chamam-lhe amizade, outros ainda desejo. Mas, seja ela o que for, conheçamo-la nós por que nome, quando a encontramos ela nunca corresponde na realidade àquilo que nos foi prometido. Àquilo a que temos direito. Talvez devêssemos exigir o livro de reclamações.
30 de outubro de 2004
PEQUENO AFORISMO OBSERVACIONAL
O traje académico é muito pouco prático quando está a chover a potes.
ONDE ESTÁS?
it feels like my thoughts
could run into your mind
and say the things that I can't say
and all of this time
I'm thinking to myself
the only thing I see
is you
my life
runs through
your heart
will be
a place
for me
and night speeds so fast
it's easy now
I cut myself
on these thoughts of you
and I hear your voice
I'm running now into your world
that takes me near the edge
of real
my mind
to steal
each night
with you
makes everything seem new
and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through
nothing changes now my heart stands still
you could part my will
to live
and thoughts run so free
you've changed me now
you've changed the way I see myself to be
and I can't relate
just how it feels
you haunt my days and soar above my dreams
it seems
this life is cheap
eternal sleep
my soul to keep
and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through
until the light shines through.
- The Devlins, "Until the Light Shines Through", in "Drift" (Capitol, 1993)
could run into your mind
and say the things that I can't say
and all of this time
I'm thinking to myself
the only thing I see
is you
my life
runs through
your heart
will be
a place
for me
and night speeds so fast
it's easy now
I cut myself
on these thoughts of you
and I hear your voice
I'm running now into your world
that takes me near the edge
of real
my mind
to steal
each night
with you
makes everything seem new
and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through
nothing changes now my heart stands still
you could part my will
to live
and thoughts run so free
you've changed me now
you've changed the way I see myself to be
and I can't relate
just how it feels
you haunt my days and soar above my dreams
it seems
this life is cheap
eternal sleep
my soul to keep
and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through
until the light shines through.
- The Devlins, "Until the Light Shines Through", in "Drift" (Capitol, 1993)
28 de outubro de 2004
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #26
Já repararam que, em parques de estacionamento de centros comerciais, as regras básicas da condução deixam de existir assim que se passa a cancela de entrada?
27 de outubro de 2004
A PROPÓSITO DA PALAVRA DE QUE GOSTO MUITO ETC #40
Cosmopolita é uma coisa que o Portugal dos pequeninos em que vivemos me parece cada vez menos — se é que alguma vez o foi realmente. Marcelo Rebelo de Sousa relança a confusão, devolvendo a bola a Miguel Paes do Amaral, Rui Gomes da Silva e Pedro Santana Lopes, Durão Barroso vê-se em riscos de ser chumbado na Comissão Europeia, Carlos Carvalhas parece ir deixar o PCP nas mãos de Jerónimo de Sousa, o Serviço Nacional de Protecção Civil faz alertas de temporal (que pelo menos aqui não me pareceram concretizar-se)... E eu que pensava que a silly season era só de Verão. Ah, Eça, Eça, que falta nos andas a fazer, homem, para desatar às bengaladas a esta corja que nos governa — e não só!...
Subscrever:
Mensagens (Atom)