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15 de dezembro de 2004

IT WAS A VERY GOOD YEAR (Sinatra dixit)

Vou-vos contar um segredo: o Roda Livre faz hoje um ano. Embora a data "oficial" seja amanhã, 16 de Dezembro, o facto é que os primeiros ensaios foram feitos a 15, ainda em modo "privado", e só a 16 é que entrou no "domínio público".

Há um ano, não fazia a mínima ideia quanto tempo é que me ia apetecer aguentar este pequeno manifesto diletante. Hoje, tornou-se num daqueles bons hábitos, como ler o jornal de manhã, comer um pastel de nata a seguir a um bom café, ficar no sofá enroscado com um bom livro.

Mas acho que os parabéns não são tanto para mim (não vejo que um "espelho" tão inclassificavelmente pessoal como este os justifique...) como para os mais de 25 mil visitantes que, para minha agradada mas estupefacta surpresa, por aqui passaram ao longo do ano. E para todos aqueles (muitos menos!) que, para lá disso, têm comentado, escrito, resmungado, apoiado, mandado vir, compreendido e enviado beijos e abraços ao longo deste ano. Enquanto estiverem desse lado, acho que vou continuar a ter (muito) gosto em estar deste lado.

14 de dezembro de 2004

POLAROID: METRO

(domingo)

No Rato, o comboio leva mais tempo do que é costume a partir da estação. Chegados ao Marquês de Pombal, o comboio teima em ficar parado no cais. O sinal está verde, com a segunda luzinha vermelha a indicar que não é conveniente partir. O sistema sonoro da estação anuncia, primeiro, que o tráfego na linha amarela se encontra com "perturbações".

Sentada na carruagem, uma mulher loura dorme encostada ao banco, aparentemente a sono solto, de boca aberta. Veste um casaco tipo kispo, fino, calças de ganga, ténis brancos sujos, uma mala que não se distingue por baixo dos braços cruzados. O rosto envelhecido, a figura frágil e macilenta dão a entender alguém que caíu nos braços de um vício. Mexe-se. Curva-se e desfaz e refaz o nó do atacador de um dos ténis. Levanta-se. "Então isto não anda?", pergunta, numa voz arrastada, enrouquecida, para ninguém em especial. Sai da carruagem e pára em frente à porta aberta. Assobia várias vezes, como se o condutor do comboio a pudesse ouvir por entre o ruído de ar condicionado no máximo do motor eléctrico em ponto de embraiagem. Sem resposta, resmunga, volta para dentro, volta a sentar-se, encostando-se à janela com o cotovelo no parapeito.

O sistema sonoro da estação lança uma nova mensagem, diferente da anterior. Saio da carruagem, mas o ruído do motor não me permite fazer sentido do som abafado, roufenho da mensagem. Há pessoas que saem da carruagem e sobem as escadas em direcção à saída. Depois de não conseguir perceber a mensagem uma segunda vez, faço o mesmo; junto às bilheteiras, procuro compreender o que a voz diz — presumo que seja qualquer coisa do género "a circulação na linha amarela está interrompida" — mas não consigo perceber mais do que "pelo facto pedimos as nossas desculpas". Saio da estação e vou a pé até ao Saldanha.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #48

Pruriginoso.

ENCRYPTICA

tough, you think you've got the stuff
you're telling me and anyone
you're hard enough

you don't have to put up a fight
you don't have to always be right
let me take some of the punches
for you tonight

listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone

and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own

we fight all the time
you and I... that's alright
we're the same soul
I don't need... I don't need to hear you say
that if we weren't so alike
you'd like me a whole lot more

listen to me now
I need to let you know
you don't have to go it alone

and it's you when I look in the mirror
and it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own

I know that we don't talk
I'm sick of it all
can you hear me when I
sing, you're the reason I sing
you're the reason why the opera is in me...

where are we now?
I've got to let you know
a house still doesn't make a home
don't leave me here alone...

and it's you when I look in the mirror
and it's you that makes it hard to let go
sometimes you can't make it on your own
sometimes you can't make it
the best you can do is to fake it
sometimes you can't make it on your own.


- Bono para U2, "Sometimes You Can't Make It on Your Own" (in "How to Dismantle an Atomic Bomb", Island/Universal 2004)

13 de dezembro de 2004

DESCONTEXTUALIZAÇÕES #2

"As mães devem ser as únicas pessoas do mundo que adoram ser exploradas indecentemente" - em conversa com um amigo no Messenger.

QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM (UPGRADE)

Afinal, qual acne qual carapuça. Depois de dar pelos vermelhuscos no pescoço, nos ombros e nas costas, e de começar a sentir uma leve comichão pelas áreas afectadas, chego à conclusão que é mesmo uma reacção alérgica, embora não faça a mínima ideia a quê.

12 de dezembro de 2004

QUANDO AS HORMONAS SE ENFURECEM

Segundo me informou a minha estimada amiga Discípula de Avicena, Serva de Esculápio, etc., o arco de pequenos altinhos vermelhuscos que desenha uma linha curva de sobrancelha a sobrancelha, encostando à linha de cabelo da testa, parece ser um ataque de acne. Coisa que, aos 36 anos, me parece absolutamente idiota, sobretudo porque nunca tive nenhum. Mas pronto, antes acne que um ataque de estupidez.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #47

Esfíncter.

JOSÉ MILHAZES

...foi hoje visto no jornal da noite da SIC. Foi a primeira vez que vi a imagem daquele cuja voz já conheço há largos anos da TSF. Tem ar de patriarca ortodoxo com sotaque das berças. A minha mãe acha que se cortasse a barba era um homem bonito, e que em qualquer caso é mais bonito que o Evgueni Moravitch.

11 de dezembro de 2004

TOLERÂNCIA DE PONTO

A minha mãe costuma dizer (e eu sei que ando a falar muito da minha mãe, mas prometo que isto não se vai tornar no blog daquilo que a minha mãe diz) que detesta injustiças e que é incapaz de se calar quando confrontada com uma. É um dos traços particulares de carácter que herdei dela, muito embora a noção de "injustiça" seja uma das coisas mais absurdamente relativas de que há memória. Porque, se a "justiça" se rege por leis supostamente iguais para todos, aquilo que se considera uma "injustiça" é geralmente a prova cabal de que essas leis não são realmente iguais para todos, nem nada que se pareça.

Aquilo que a minha mãe geralmente considera uma injustiça é quando nós não estamos de acordo com ela e contradizemos a sua versão dos acontecimentos. Há sempre dois lados para uma mesma questão; geralmente, um deles teima em ser bastante intolerante, seguro (quase até à arrogância) da certeza de ser a única versão aceitável e correcta, a única "de bem"; geralmente, o outro acaba por cansar-se e deixar o outro a falar sozinho, prisioneiro num circuito fechado, loop de feedback, pescadinha de rabo na boca satisfeita com a sua própria lógica aparentemente inatacável. Há quem não concorde, apresente argumentos civilizados, lance sugestões construtivas. Há quem não concorde e a única coisa que sabe fazer é negar de modo cego os argumentos do outro, sem sequer compreender que o edifício que propõe em substituição é um frágil castelo de areia. Mas a pergunta é: deixar o outro a falar sozinho pode ser um exemplo de tolerância, mas não estará apenas a alimentar a intolerância? Em vez de lhe contrapôr um obstáculo, deixá-la à solta?

As pessoas inflamam-se pelos motivos mais idiotas. Mas inflamam-se na mesma.

10 de dezembro de 2004

DESCONTEXTUALIZAÇÕES #1

"Espermatozóides fervem com portátil" - título no Correio da Manhã de hoje

PERDIDO NA TRADUÇÃO

Por razões que me ultrapassam, quando entro no Blogger sou recebido por uma página em... japonês. Eu sei que é uma língua exótica que me fascina, mas não era preciso levar a coisa tão longe.

8 de dezembro de 2004

CESÁRIO BORGA VOLTA A ATACAR

Ou melhor, a minha mãe volta a atacar. Aparecendo Cesário Borga de novo na RTP-1 esta noite, a minha mãe lança a exclamação, "Ai! Coitada da mulher dele, que deve acordar assustada." Se ele fôr casado, insisto eu. "Claro que é. Naquela altura achas que ficava algum sem casar? E ele em novo sempre era com certeza menos feio."

POLAROID: METRO

Na estação do Marquês de Pombal, o ruído de uma criança em birra começa a ouvir-se vindo das escadas do átrio. Será um menino dos seus quatro, cinco anos, que chora e grita, indisposto por ter de viajar no metro. Resiste o mais que pode à mãe, que o tenta acalmar mas se vê obrigado a arrastá-lo contra vontade. O miúdo está quase em desespero por ser incapaz de impedir a decisão unilateral da mãe. Quando esta pára no cais, à espera do comboio, faz toda a força que tem para a empurrar em direcção às escadas de saída. Evidentemente, a mãe nem se mexe, e com um ar a um tempo divertido pela inanidade da situação e embaraçado pela fita que o filho está a fazer em público, vai tentando pacientemente acalmá-lo, explicar-lhe que não há problema, mas o miúdo insiste, grita embargado que quer ir de carro. Os protestos aumentam quando o comboio entra na estação, mas de nada serve.

Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.

6 de dezembro de 2004

A CULPA É DA VONTADE

Havia qualquer coisa de unificador em António Variações: o modo como nas suas canções se conjugavam a sabedoria ancestral passada de pais para filhos, um saber telúrico quase atávico, e a vontade de o levar mais além, de o tornar numa chave para o futuro em vez de um tesouro perdido no passado. A modernidade com que soube enfeitar a simplicidade popular dos seus bordões e a verdade da sua identidade portuguesa é algo de tanto mais notável quanto se percebe ser inteiramente intuitiva e nada calculada. Se outro mérito não tivesse (e tem muitos), "Humanos" valeria a pena pelo modo certeiro como resgata ao esquecimento algumas pérolas que concentram em duas, três frases de uma simplicidade de estarrecer mundos inteiros de emoções contraditórias — como esta, cantada por Manuela Azevedo com a medida exacta de sedução insegura, entrega abandonada, esperança louca e resignação melancólica. Porque não podemos fugir àquilo que somos.

a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar

a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir

a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade

a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver

a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar

a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.

5 de dezembro de 2004

PEQUENA CONSTATAÇÃO ILUMINADA

Por vezes, aquilo de que precisamos é, apenas, de alguém que nos salve de nós próprios.

POLAROID: AVENIDA

(descendo a rua do Salitre, em direcção à avenida da Liberdade)

Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.

(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)

Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.

(estação de correio dos Restauradores)

A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.

4 de dezembro de 2004

O REMÉDIO MILAGROSO

OK, sim, eu confesso: comprei "How to Dismantle an Atomic Bomb", o novo álbum dos U2. Fiz questão. U2 é uma daquelas bandinhas do coração, faz há muito parte do jardim secreto, é inamovível e inextraível e não é um trambolhão desastroso como "Pop" que os vai desalojar. O novo disco não é exactamente apenas mais do mesmo — sinto nele uma tentativa de largar lastro desnecessário, de reconcentrar no essencial — muito embora também não seja exactamente um grande álbum dos U2. É melhor (mas não por muito) que "All That You Can't Leave Behind" e não é o desastre absoluto que muitos andam por aí a apregoar. E, mais uma vez, andam por ali duas ou três canções clássicas direitinhas para o álbunzinho das memórias — o punch 1-2-3 de abertura com "Vertigo", "Miracle Drug" e "Sometimes You Can't Make It on Your Own" é devastador, pena que depois a coisa se disperse. Esta é o 2 do punch 1-2-3, com a guitarra estratosférica de The Edge (ainda e sempre em grande) a fazê-la descolar em direcção às estrelas.

I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see

I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out

freedom has a scent
like the top of a new born baby's head

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug

of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...

I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug

God I need your help tonight

beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"

the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.

3 de dezembro de 2004

IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #2

Eu e a minha mãe temos neste momento um pequeno diferencial de opinião relativamente a Ana Moura. Eu acho que ela tem uma voz bonita mas pouca personalidade e, sobretudo, pouca alma a cantar fado. Levei à minha mãe o novo disco da cantora, "Aconteceu" (Mercury/Universal, 2004), e na nossa conversa telefónica seguinte ela choca-me dizendo que acha que Ana Moura canta muito bem o fado. Então e aquele momento em que ela se esganiça toda e não chega lá, contraponho eu? "Ai, tu não foste sair a mim, não consegues perceber quem canta bem e quem canta mal. Vê mas é se aprendes a ter ouvidos".