Por razões que me ultrapassam, quando entro no Blogger sou recebido por uma página em... japonês. Eu sei que é uma língua exótica que me fascina, mas não era preciso levar a coisa tão longe.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
10 de dezembro de 2004
8 de dezembro de 2004
CESÁRIO BORGA VOLTA A ATACAR
Ou melhor, a minha mãe volta a atacar. Aparecendo Cesário Borga de novo na RTP-1 esta noite, a minha mãe lança a exclamação, "Ai! Coitada da mulher dele, que deve acordar assustada." Se ele fôr casado, insisto eu. "Claro que é. Naquela altura achas que ficava algum sem casar? E ele em novo sempre era com certeza menos feio."
POLAROID: METRO
Na estação do Marquês de Pombal, o ruído de uma criança em birra começa a ouvir-se vindo das escadas do átrio. Será um menino dos seus quatro, cinco anos, que chora e grita, indisposto por ter de viajar no metro. Resiste o mais que pode à mãe, que o tenta acalmar mas se vê obrigado a arrastá-lo contra vontade. O miúdo está quase em desespero por ser incapaz de impedir a decisão unilateral da mãe. Quando esta pára no cais, à espera do comboio, faz toda a força que tem para a empurrar em direcção às escadas de saída. Evidentemente, a mãe nem se mexe, e com um ar a um tempo divertido pela inanidade da situação e embaraçado pela fita que o filho está a fazer em público, vai tentando pacientemente acalmá-lo, explicar-lhe que não há problema, mas o miúdo insiste, grita embargado que quer ir de carro. Os protestos aumentam quando o comboio entra na estação, mas de nada serve.
Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.
Pensei que o miúdo se calasse uma vez dentro da carruagem, visto que a derrota da sua intenção era já total e lhe era já impossível fugir ao que não queria fazer, mas, para meu espanto e também da mãe, continua a protestar o mais que pode, recusando-se a sentar-se, agarrando a mãe com força e tentando arrastá-la para fora do assento, como se a viagem de metro não fosse já um facto consumado. Entre Parque e S. Sebastião, ouve-se o ruído de um estalo pregado com força no miúdo e o protesto por parte da mãe, "estás-me a aleijar", mas nem assim o miúdo deixa de protestar. Saio em S. Sebastião, lanço um olhar de relance à mãe, que está agora visivelmente envergonhada. E a birra continua.
7 de dezembro de 2004
6 de dezembro de 2004
A CULPA É DA VONTADE
Havia qualquer coisa de unificador em António Variações: o modo como nas suas canções se conjugavam a sabedoria ancestral passada de pais para filhos, um saber telúrico quase atávico, e a vontade de o levar mais além, de o tornar numa chave para o futuro em vez de um tesouro perdido no passado. A modernidade com que soube enfeitar a simplicidade popular dos seus bordões e a verdade da sua identidade portuguesa é algo de tanto mais notável quanto se percebe ser inteiramente intuitiva e nada calculada. Se outro mérito não tivesse (e tem muitos), "Humanos" valeria a pena pelo modo certeiro como resgata ao esquecimento algumas pérolas que concentram em duas, três frases de uma simplicidade de estarrecer mundos inteiros de emoções contraditórias — como esta, cantada por Manuela Azevedo com a medida exacta de sedução insegura, entrega abandonada, esperança louca e resignação melancólica. Porque não podemos fugir àquilo que somos.
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa não, não é do Sol
se o meu corpo se queimar
a culpa é da vontade
que eu tenho de te abraçar
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa não, não é da praia
se o meu corpo se ferir
a culpa é da vontade
que tenho de te sentir
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa não, não é do mar
se o meu olhar se perder
a culpa é da vontade
que eu tenho de te ver
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa não, não é do vento
se a minha voz se calar
a culpa é do lamento
que sufoca o meu cantar
a culpa é da vontade
que vive dentro de mim
e só morre com a idade
com a idade do meu fim
a culpa é da vontade.
5 de dezembro de 2004
PEQUENA CONSTATAÇÃO ILUMINADA
Por vezes, aquilo de que precisamos é, apenas, de alguém que nos salve de nós próprios.
POLAROID: AVENIDA
(descendo a rua do Salitre, em direcção à avenida da Liberdade)
Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.
(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)
Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.
(estação de correio dos Restauradores)
A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.
Um Peugeot 206 cinzento desce a rua estreita a toda a velocidade, seguido por um Mercedes branco ferrugento, daqueles modelos antigos, que buzina e parece estar a forçar a velocidade. Viram à esquerda para a rua Castilho e páram logo a seguir, no meio da rua, para trocar condutores.
(esquina da avenida da Liberdade com a praça da Alegria, junto à agência dos Wagons-Lits)
Três senhoras trintonas/quarentonas, gordas, com ar de quem apregoa víveres no mercado, descem calmamente a avenida, ocupando o passeio quase todo. Tento ultrapassá-las antes do poste, mas uma delas escolhe o momento para baixar o braço esquerdo, com o cigarro aceso quase a apagar, por um triz que não me queima as calças. A senhora pede desculpa. Continuam a conversa, "fiquei num hotel aqui perto da primeira vez que vim a Lisboa com a minha mãe", diz uma, de voz rouca. O sinal à nossa frente fica vermelho para os peões, mas isso não impede um homem com ar de emigrante de leste e uma senhora com ar de executiva apressada atravessarem a rua, porque a lateral que vai dar ao parque dos Restauradores está parada e há carros a impedirem a passagem do trânsito que desce da praça da Alegria. O primeiro carro no sinal é conduzido por uma senhora já de uma certa idade, que buzina desesperadamente como se isso fizesse andar o trânsito mais depressa. Entretanto, aproveitando a confusão, as trintonas/quarentonas fazem como se fossem também elas atravessar a rua, sem verem que se aproxima um carro no sentido oposto, vindo da rua das Pretas, atravessando a avenida para subir à praça da Alegria; o carro pára ao ver as senhoras a fazerem intenção de atravessar, mas uma delas apanha susto porque tinha estado a olhar para o outro lado.
(estação de correio dos Restauradores)
A estação está de cara lavada. Esteve fechada uns tempos para obras mas o novo plano é confuso, com uma zona à entrada para "serviços rápidos" que tem fila e mais gente para atender do que a zona de atendimento propriamente dita. Tento tirar senha mas a máquina está fora de serviço, o que não impede as empregadas, vestidas de vermelho, de carregarem desesperadamente nos seus computadores a chamar senhas que não são atendidas. Digo a uma das duas balconistas a atender nesta tarde fria de sábado que a máquina não está a dar senhas; a senhora, com aspecto de empregada de perfumaria, muito maquilhada, com o lenço regulamentar atado ao pescoço, faz o seu melhor ar de frete e dirige-se ao interior da estação a informar do sucedido e a pedir que reparem a máquina.
4 de dezembro de 2004
O REMÉDIO MILAGROSO
OK, sim, eu confesso: comprei "How to Dismantle an Atomic Bomb", o novo álbum dos U2. Fiz questão. U2 é uma daquelas bandinhas do coração, faz há muito parte do jardim secreto, é inamovível e inextraível e não é um trambolhão desastroso como "Pop" que os vai desalojar. O novo disco não é exactamente apenas mais do mesmo — sinto nele uma tentativa de largar lastro desnecessário, de reconcentrar no essencial — muito embora também não seja exactamente um grande álbum dos U2. É melhor (mas não por muito) que "All That You Can't Leave Behind" e não é o desastre absoluto que muitos andam por aí a apregoar. E, mais uma vez, andam por ali duas ou três canções clássicas direitinhas para o álbunzinho das memórias — o punch 1-2-3 de abertura com "Vertigo", "Miracle Drug" e "Sometimes You Can't Make It on Your Own" é devastador, pena que depois a coisa se disperse. Esta é o 2 do punch 1-2-3, com a guitarra estratosférica de The Edge (ainda e sempre em grande) a fazê-la descolar em direcção às estrelas.
I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see
I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out
freedom has a scent
like the top of a new born baby's head
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug
of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...
I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug
God I need your help tonight
beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.
I want to trip inside your head
spend the day there...
to hear the things you haven't said
and see what you might see
I want to hear you when you call
do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
and walk right out
freedom has a scent
like the top of a new born baby's head
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough I'm not giving up
on a miracle drug
of science and the human heart
there is no limit
there is no failure here sweetheart
just when you quit...
I am you and you are mine
love makes nonsense of space
and time... will disappear
love and logic keep us clear
reason is on our side, love...
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, a miracle drug, a miracle drug
God I need your help tonight
beneath the noise
below the din
I hear a voice
it's whispering
in science and in medicine
"I was a stranger
you took me in"
the songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
for a miracle, miracle drug.
3 de dezembro de 2004
IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #2
Eu e a minha mãe temos neste momento um pequeno diferencial de opinião relativamente a Ana Moura. Eu acho que ela tem uma voz bonita mas pouca personalidade e, sobretudo, pouca alma a cantar fado. Levei à minha mãe o novo disco da cantora, "Aconteceu" (Mercury/Universal, 2004), e na nossa conversa telefónica seguinte ela choca-me dizendo que acha que Ana Moura canta muito bem o fado. Então e aquele momento em que ela se esganiça toda e não chega lá, contraponho eu? "Ai, tu não foste sair a mim, não consegues perceber quem canta bem e quem canta mal. Vê mas é se aprendes a ter ouvidos".
2 de dezembro de 2004
POSSO PEDIR UM DISCO?
A parte aborrecida das arrumações é perceber, de repente, a bagagem que já se transporta connosco. Quando, no Verão, comprei estantes para acomodar a sempre em crescimento colecção de discos, comprei-as já a contar com os velhos vinis que estavam arrumados a um canto (o gira-discos já há muito tempo que não sei onde está, perdido em alguma mudança, e há outro tanto que vou adiando a aquisição de um novo). E, de repente, no outro dia, passeando pelos velhos singles de vinil dos meus 15, 20 anos, dei por uma série de canções que nunca mais apanhei em CD (muitas delas descatalogadas). Não as considero clássicos absolutos, são apenas canções que por uma razão ou outra me bateram na altura e que, hoje, ao ouvi-las, me transportam, como máquinas do tempo instantâneas, para momentos específicos da minha vida.
Algumas, vim a perceber entretanto, nem nunca cheguei a possuir fisicamente em disco, tive-as apenas em cassete, esse formato "pirata" que tanto usei para gravar discos de amigos ou da rádio durante os anos 80. Como "Laß mich dein Pirat sein", baladinha oceânica com citação de Sondheim no solo de saxofone final, cantado muito suavemente pela mocinha Nena dos "99 Luftballons" que teve a dúbia honra de ser a única cantora alemã a atingir os primeiros lugares dos topes anglófonos na sua língua natal (1984). Como "Like Flames", uma cavalgada louca em formato de rock épico de guitarras propulsionado a sequenciador electrónico desvairado ambicionando a Jim Steinman dos pobrezinhos que é a única coisa decente jamais gravada pelos Berlin desse pesadelo chamado "Take My Breath Away" (1987, 1988? a memória falha-me e não estou para ir à procura do single). Prazeres culpados, certamente, mas prazeres ainda assim. E prazeres que não enjeito e ainda hoje me dão grande gozo a ouvir.
Como eu deve haver milhares, milhões de pessoas em todo o mundo à procura de memórias como estas, canções que perderam de vista e nunca mais reencontraram. E é nestas alturas em que me pergunto porque é que as editoras discográficas têm tão pouca vontade de abraçar as novas tecnologias digitais. Num belo artigo na Wired de Outubro, Chris Anderson explica que, no novo mundo dos downloads digitais, tudo — literalmente tudo — pode ter procura. Aquela canção que se tornava incomportável para a editora ter disponível porque a procura mínima e a rotação inexistente não o possibilitava pode, agora, estar disponivel 24 horas sobre 24 para todos aqueles que a quiserem. E todos ganham.
Claro que, até isso acontecer, as leis do mercado continuarão a impossibilitar-me de me recordar até que ponto as coisas de que gostava há 20 anos me parecerão ridículas hoje — ou, pelo contrário, me continuarão a seduzir.
Algumas, vim a perceber entretanto, nem nunca cheguei a possuir fisicamente em disco, tive-as apenas em cassete, esse formato "pirata" que tanto usei para gravar discos de amigos ou da rádio durante os anos 80. Como "Laß mich dein Pirat sein", baladinha oceânica com citação de Sondheim no solo de saxofone final, cantado muito suavemente pela mocinha Nena dos "99 Luftballons" que teve a dúbia honra de ser a única cantora alemã a atingir os primeiros lugares dos topes anglófonos na sua língua natal (1984). Como "Like Flames", uma cavalgada louca em formato de rock épico de guitarras propulsionado a sequenciador electrónico desvairado ambicionando a Jim Steinman dos pobrezinhos que é a única coisa decente jamais gravada pelos Berlin desse pesadelo chamado "Take My Breath Away" (1987, 1988? a memória falha-me e não estou para ir à procura do single). Prazeres culpados, certamente, mas prazeres ainda assim. E prazeres que não enjeito e ainda hoje me dão grande gozo a ouvir.
Como eu deve haver milhares, milhões de pessoas em todo o mundo à procura de memórias como estas, canções que perderam de vista e nunca mais reencontraram. E é nestas alturas em que me pergunto porque é que as editoras discográficas têm tão pouca vontade de abraçar as novas tecnologias digitais. Num belo artigo na Wired de Outubro, Chris Anderson explica que, no novo mundo dos downloads digitais, tudo — literalmente tudo — pode ter procura. Aquela canção que se tornava incomportável para a editora ter disponível porque a procura mínima e a rotação inexistente não o possibilitava pode, agora, estar disponivel 24 horas sobre 24 para todos aqueles que a quiserem. E todos ganham.
Claro que, até isso acontecer, as leis do mercado continuarão a impossibilitar-me de me recordar até que ponto as coisas de que gostava há 20 anos me parecerão ridículas hoje — ou, pelo contrário, me continuarão a seduzir.
1 de dezembro de 2004
LINGUÍSTICA AVANÇADA
Depois de ouvir Paulo Portas a perorar perante o prime-time televisivo de feriado, esta noite, em mais uma das suas magistrais demonstrações de como, em política, tudo é maleável e flexível ao ponto de querer significar aquilo que quisermos que signifique; depois de ouvir as múltiplas interpretações e análises dos acontecimentos dos últimos dias; concluo que a política é apenas uma questão de escolher um modo de ver o mundo, convencermo-nos da sua veracidade, fecharmo-nos a tudo o resto que a ameace e tentarmos convencer os outros de que nós é que temos razão.
Aqui para nós, ainda bem que não sou eu a fazê-lo, porque não convenceria ninguém. Mas, por muito bem que Paulo Portas o faça, também não me convence. Em quem residirá o ónus da crença, então?
Aqui para nós, ainda bem que não sou eu a fazê-lo, porque não convenceria ninguém. Mas, por muito bem que Paulo Portas o faça, também não me convence. Em quem residirá o ónus da crença, então?
29 de novembro de 2004
IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #1
Ouvido no sábado à minha mãe: "vai-te encher de moscas!".
David Cronenberg gostaria certamente da expressão.
David Cronenberg gostaria certamente da expressão.
28 de novembro de 2004
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #12
É curioso ver como o zapping funciona, às vezes, como um atalho para a nossa memória. Ainda agora passei pelo canal Hollywood e dei pelo carro voador de "Chitty Chitty Bang Bang", que me teleportou instantaneamente para o Verão quente de 1974 ou 1975, em que os meus pais me levaram a vê-lo ao cinema Vox. Curiosamente, a minha ideia do filme é mínima — tenho apenas memória de imagens soltas e do local onde o vi. O Vox era onde é hoje o King Triplex. Era uma sala única, aí de 500 lugares, que tinha umas cadeiras muito anos 60, sem costas, redondas. As actuais entradas dos King 1 e 2 eram as duas entradas principais para a sala (coxias esquerda e direita); o bar ficava onde é hoje a livraria, e o écran era onde é hoje o King 3 (as escadas que levam ao King 3 eram a velha saída de emergência do Vox). Tinha algo de cinema de bairro, mas tinha sempre umas estreias interessantes, muito cinema europeu. Lembro-me de estar de férias em Tavira, na velha casa que a d. Júlia nos alugava, e de ver no jornal do dia o anúncio da reposição do filme; esse tinha sido o primeiro Verão do cinema pornográfico, com salas "sérias" como o Politeama, o Cinebolso (à altura um cinema de "arte e ensaio") ou o Capitólio a exibirem filmes porno, e o Vox foi uma delas, substituindo "Chitty Chitty Bang Bang" por um porno ainda durante o mês que passámos em Tavira. Curiosamente, sei que vi o filme no Vox, mas não me recordo se foi nesse ano ou na temporada de reprises seguinte. Ou talvez a minha memória também esteja a fazer zapping.
Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.
Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.
EVGUENI MORAVITCH
A minha mãe tem um sentido muito apurado de como um pivot ou um repórter televisivo deve ser. É normal ouvi-la pronunciar-se em voz alta sobre a (falta de) beleza de quem aparece na televisão com a expressão "Se isto é cara que se apresente! Onde é que já se viu isto na televisão?". (Entre as habituais vítimas dos ataques de indignação da minha mãe contam-se Rosa Veloso, Sandra Felgueiras, Margarida Neves de Sousa, Marta Atalaya, João Ferreira, Luís Branco — enfim, talvez seja melhor dizer que quem NÂO costuma ser alvo de tais ataques são Judite de Sousa, Fátima Campos Ferreira, Manuela Moura Guedes, Rodrigo Guedes de Carvalho e José Alberto Carvalho, porque todos os outros, a dada altura, já por lá passaram ou potencialmente passarão).
Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".
Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".
27 de novembro de 2004
DÚVIDAS EXISTENCIAIS
Não exactamente; mas, tal como as do Palma há uns dias, esta da Naifa (oh, como eu gosto da Naifa, e do seu belo álbum "Canções Subterrâneas" - Columbia/Sony, 2004 - e do seu dub-tecno-fado) resume bem as dúvidas recentes. Chama-se "Queixas de um Utente", poema de José Mário Silva.
pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros
já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum
pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros
já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum
UMA DE VÁRIAS PERGUNTAS QUE SE IMPÕEM
O problema reside no ser ou no parecer?
Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?
Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?
25 de novembro de 2004
TINONI
A ambulância sai do quartel de bombeiros com os strobes luminosos a flashar a azul. O meu é o único carro que está à frente, mas a rua tem duas faixas no mesmo sentido e portanto ela pode-me ultrapassar se assim o desejar, mas não o faz; mantém a distância até nos aproximarmos da rotunda onde desagua o trânsito de três ruas distintas. Só à vista da rotunda a ambulância dispara o som e acelera a velocidade, ultrapassando-me rapidamente pela esquerda e deixando atrás de si o ruído estridente das sirenes.
23 de novembro de 2004
SINAIS
(Parental advisory: explicit content)
Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.
Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.
Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.
Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.
Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.
Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.
22 de novembro de 2004
PALMA, VEZES DOIS
Duas letras do Jorge Palma para definir, melhor ou pior, as amplitudes térmicas das últimas semanas. São as duas do desigual disco novo, "Norte" (Virgin/EMI).
Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.
vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.
Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.
estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes
estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado
estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal
tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.
O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.
Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.
vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.
Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.
estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes
estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado
estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda
e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver
estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal
tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.
O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.
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