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29 de novembro de 2004

IDIOMATISMOS MATERNOS PECULIARES #1

Ouvido no sábado à minha mãe: "vai-te encher de moscas!".

David Cronenberg gostaria certamente da expressão.

28 de novembro de 2004

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #12

É curioso ver como o zapping funciona, às vezes, como um atalho para a nossa memória. Ainda agora passei pelo canal Hollywood e dei pelo carro voador de "Chitty Chitty Bang Bang", que me teleportou instantaneamente para o Verão quente de 1974 ou 1975, em que os meus pais me levaram a vê-lo ao cinema Vox. Curiosamente, a minha ideia do filme é mínima — tenho apenas memória de imagens soltas e do local onde o vi. O Vox era onde é hoje o King Triplex. Era uma sala única, aí de 500 lugares, que tinha umas cadeiras muito anos 60, sem costas, redondas. As actuais entradas dos King 1 e 2 eram as duas entradas principais para a sala (coxias esquerda e direita); o bar ficava onde é hoje a livraria, e o écran era onde é hoje o King 3 (as escadas que levam ao King 3 eram a velha saída de emergência do Vox). Tinha algo de cinema de bairro, mas tinha sempre umas estreias interessantes, muito cinema europeu. Lembro-me de estar de férias em Tavira, na velha casa que a d. Júlia nos alugava, e de ver no jornal do dia o anúncio da reposição do filme; esse tinha sido o primeiro Verão do cinema pornográfico, com salas "sérias" como o Politeama, o Cinebolso (à altura um cinema de "arte e ensaio") ou o Capitólio a exibirem filmes porno, e o Vox foi uma delas, substituindo "Chitty Chitty Bang Bang" por um porno ainda durante o mês que passámos em Tavira. Curiosamente, sei que vi o filme no Vox, mas não me recordo se foi nesse ano ou na temporada de reprises seguinte. Ou talvez a minha memória também esteja a fazer zapping.

Do filme não me recordo nada. Os poucos minutos que vi hoje no Hollywood deixaram-me a impressão de uma coisa enjoativa e datada.

EVGUENI MORAVITCH

A minha mãe tem um sentido muito apurado de como um pivot ou um repórter televisivo deve ser. É normal ouvi-la pronunciar-se em voz alta sobre a (falta de) beleza de quem aparece na televisão com a expressão "Se isto é cara que se apresente! Onde é que já se viu isto na televisão?". (Entre as habituais vítimas dos ataques de indignação da minha mãe contam-se Rosa Veloso, Sandra Felgueiras, Margarida Neves de Sousa, Marta Atalaya, João Ferreira, Luís Branco — enfim, talvez seja melhor dizer que quem NÂO costuma ser alvo de tais ataques são Judite de Sousa, Fátima Campos Ferreira, Manuela Moura Guedes, Rodrigo Guedes de Carvalho e José Alberto Carvalho, porque todos os outros, a dada altura, já por lá passaram ou potencialmente passarão).

Hoje coube a sorte de receber tal mimo a Evgueni Moravitch, o correspondente da RTP na ex-União Soviética, hoje a reportar da crise eleitoral na Ucrânia e que a minha mãe, muito mais directa ao assunto do que é habitual, descreveu logo como "muito feio" mas que apesar de tudo — e à semelhança de Cesário Borga há umas largas semanas atrás — também deve ser casado porque "elas querem é casar".

27 de novembro de 2004

DÚVIDAS EXISTENCIAIS

Não exactamente; mas, tal como as do Palma há uns dias, esta da Naifa (oh, como eu gosto da Naifa, e do seu belo álbum "Canções Subterrâneas" - Columbia/Sony, 2004 - e do seu dub-tecno-fado) resume bem as dúvidas recentes. Chama-se "Queixas de um Utente", poema de José Mário Silva.

pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros

já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum

UMA DE VÁRIAS PERGUNTAS QUE SE IMPÕEM

O problema reside no ser ou no parecer?

Ou, resumindo, o problema está naquilo que se é ou naquilo que se projecta ser? E em que medida aquilo que se projecta ser não é, também, aquilo que se é, em vez de uma fachada que se cria para atraír/sobreviver — ou, melhor, aquilo que se passou também a ser por um sem-número de circunstâncias?

25 de novembro de 2004

TINONI

A ambulância sai do quartel de bombeiros com os strobes luminosos a flashar a azul. O meu é o único carro que está à frente, mas a rua tem duas faixas no mesmo sentido e portanto ela pode-me ultrapassar se assim o desejar, mas não o faz; mantém a distância até nos aproximarmos da rotunda onde desagua o trânsito de três ruas distintas. Só à vista da rotunda a ambulância dispara o som e acelera a velocidade, ultrapassando-me rapidamente pela esquerda e deixando atrás de si o ruído estridente das sirenes.

23 de novembro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #46

Encarquilhado.

SINAIS

(Parental advisory: explicit content)

Andei às voltas com vontade de postar qualquer coisa à volta do «dia da memória» que teve lugar no domingo, à volta da questão dos portugueses serem no geral condutores irresponsáveis e de não haver realmente nenhuma campanha que resulte enquanto cada condutor português não deixar de estar convencido que ele e só ele é que guia bem (e como tal pode fazer todos os disparates que bem entender). E isso é uma coisa de educação, de consciência, de comportamento. As pessoas têm de perceber que é no seu próprio comportamento que as coisas começam a mudar. E sem isso (e como nós sabemos que os portugueses adoram ser do contra e atirar, sempre, as culpas para cima do outro!) nada feito.

Mas achei por bem não escrever nada. Parecia que estava a adivinhar, hoje pela primeira vez em seis anos de carta tive um pequeno acidente, felizmente sem consequências de maior. Uma paragem repentina à minha frente em cima de uma passadeira, uma travagem intempestiva, chiadeira de pneu, ai que eu não páro a tempo, ai que eu não páro a tempo, pára-choques contra pára-choques, barulheira infernal, merda, já está, tenho o carro todo fodido. Uma pessoa nem percebe o que aconteceu e pronto, já aconteceu. Afinal a coisa não passou do susto, de facto bateu-se mas o porta-bagagens do carro da frente abre normalmente, o pára-choques parece não ter problemas, o meu pára-choques também está intacto, trocam-se algumas palavras de circunstância, o condutor da frente irritado, eu dou-me por culpado, ele também, "que necessidade é que as pessoas têm de guiar em cima das outras", diz o outro senhor como quem fala para o ar, eu fico com cara de parvo, não me parecia que estivesse a guiar muito em cima dele, mas a percepção é uma coisa verdadeiramente subjectiva, se calhar até estava, distraído a pensar noutras coisas, é o problema de uma pessoa já conhecer bem o caminho que percorre duas vezes diariamente. Boa viagem, cada um para seu lado, algumas poucas centenas de metros até eu entrar no meu parque de estacionamento e o outro condutor arrumar o carro para analisar melhor eventuais estragos invisíveis.

Não percebi o que se passou, eu não costumo guiar a altas velocidades nem o meu carro velhote de cinco anos as aguenta muito tempo, mas a questão é precisamente essa, numa situação destas nunca se percebe. Olho para trás e tudo parece difuso, nem sei bem o que aconteceu, apenas a surpresa e a incapacidade de reagir ao que quer que seja. Felizmente não houve problemas, só agora, que escrevo, a situação me está a bater, mas quem sabe quão pior podia ter sido? Lembro-me do meu encontro físico, sem carro, com um sinal de trânsito, fez agora dois anos, um destes dias hei-de escrever sobre isso. Sinais. Não sei bem de quê, mas de alguma coisa certamente.

22 de novembro de 2004

PALMA, VEZES DOIS

Duas letras do Jorge Palma para definir, melhor ou pior, as amplitudes térmicas das últimas semanas. São as duas do desigual disco novo, "Norte" (Virgin/EMI).

Esta, "Passeio dos Prodígios", porque é pessoal e intransmissível.

vamos lá contar as armas
tu e eu, de braço dado
nesta estrada meio deserta
não sabemos quanto tempo as tréguas vão durar
há vitórias e derrotas apontadas em silêncio
no diário imaginário
onde empilhamos as razões para lutar
repreendo os meus fantasmas
ao virar de cada esquina
por espantarem a inocência
quantas vezes te odiei
com medo de te amar
vejo o fundo da garrafa
passando mais outro cigarro
tudo serve de cinzeiro
quando os deuses brincam
é para magoar
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses

entre o caos e o conflito
a vontade e a desordem
não podemos ver ao longe
e corremos sempre o risco de ir longe demais
somos meros transeuntes
no passeio dos prodígios
somos só sobreviventes
com carimbos falsos
nas credenciais
vamos enganar o tempo
saltar para o primeiro comboio
que arrancar da mais próxima estação
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
para quê fazer projectos
quando sai tudo ao contrário
pode ser que por milagre
troquemos as voltas aos deuses
troquemos as voltas aos deuses.


Esta, "Os Demitidos", porque raras vezes terei visto tão bem traduzida a mesquinhez de (do?) ser português.

estás demitido
obviamente demitido
tu nunca roubaste um beijo
e fazes pouco das emoções
és o espantalho dos amantes

estás demitido
obviamente demitido
evitas a competência
não reconheces o mérito
és um pilar da cepa torta

e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
temos preguiça de viver

estás demitido
obviamente demitido
subornas os próprios filhos
trocaste o tempo por máquinas
tu és um pai desnaturado

estás demitido
obviamente demitido
arrasas a obra alheia
às vezes usas pseudónimo
tu és um crítico de merda

e assim vamos vivendo na província dos obséquios
cedendo e pactuando enquanto der
filósofos sem arte
afugentamos o desejo
tanta preguiça de viver

estás demitido
obviamente demitido
encostas-te às convergências
nunca investiste num ideal

tu sempre foste um demitido
tu foste sempre um demitido
já nasceste
demitido.


O disco? É só meio disco — mas que grande meio disco.

20 de novembro de 2004

O ESTADO DAS COISAS

Esta forma nova — nem se pode mesmo dizer de fascismo, há demasiada distorção — que existe agora é bem pior, porque será bem mais irrevogável. Tudo será aparentemente agradável, as pessoas pensarão viver num país livre, etc. Acho a evolução actual muito mais deprimente, de certa maneira, porque já não se pode verdadeiramente fazer nada contra ela. Já não há grande diferença entre o vizinho da frente e o chanceler federal — é um homem mesquinho e medíocre, exactamente como o meu vizinho. Eles vão ficar cada vez mais parecidos e por isso as coisas vão-se tornar cada vez mais difíceis para nós, aves do paraíso.

É um excerto de uma entrevista dada pelo falecido cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder em 1978. Encontrei-a num artigo de Alain Bergala na edição de Outubro dos Cahiers du Cinéma, artigo esse escrito em forma de carta a um actor que voltou costas ao teatro "institucional" e arranjou emprego como destilador de whisky por recusar o "teatro de massas" que ele considerava ter substituído o "teatro popular" (interessante distinção) hoje em dia.

Mas, cá para mim, a afirmação — que Alain Bergala diz impressioná-lo pela "justeza da profecia, vivemos bem no centro deste futuro que Fassbinder predisse" — é uma radiografia incisiva do estado das coisas. Que, por acaso, também era um filme alemão.

18 de novembro de 2004

IF THE SHOE FITS...

De facto, tudo seria muito mais simpático, agradável e cultural se não tivéssemos de aturar gente estúpida, incompetente ou ignorante durante o dia.

Infelizmente, levando em consideração que a percentagem de gente estúpida, incompetente e/ou ignorante existente no mundo é bastante elevada, creio que se impõe um estudo apurado e aturado da arte zen de canalizar positivamente as nossas energias negativas.

Um par de tabefes poderá ser um bom princípio, Mestre?

17 de novembro de 2004

POLAROID: LOJA DE CONVENIÊNCIA

Cena a que acabei de assistir na minha loja de conveniência.

Adolescente com cabelo louro surf pede à empregada um cachorro quente e põe em cima da mesa uma lata de guaraná. Empregada responde que o guaraná não faz parte do menu cachorro. "Não faz?" "Não." E a empregada desfia a lista das bebidas que fazem parte do menu. "Então! É o mesmo preço", responde o adolescente. "Pois, mas não faz parte do menu," responde a empregada. "A senhora é nova aqui, não é?" diz-lhe o adolescente. "Não, não sou", respondeu a empregada. "Estou a ver que ainda tem de aprender umas coisas", diz-lhe o adolescente.

O senhor cinquentão que estava atrás de mim para pagar abriu a boca, chocado. Eu acho que a cena dispensa comentários.

16 de novembro de 2004

SO ESTOU BEM ONDE NÃO ESTOU, ETC.

Não sei nunca o quê, mas tenho sempre a sensação inescapável de que, faça o que fizer, escolha o que escolher, está-me sempre, mas sempre, a escapar alguma coisa.

O COMBOIO QUE LEVAVA SAUDADES

Passando há pouco no viaduto da avenida da Índia, um comboio em direcção a Lisboa apitou enquanto passava por baixo do viaduto. Um comboio é sempre uma promessa, pensei para mim. Fiz a ligação com um filme que não devo ver há 30 anos, ligeiramente menos, que vi só uma vez, numa daquelas sessões matinais, "manhãs infantis", que alguns cinemas de Lisboa continuaram a fazer durante os anos 70; acho que foi no Apolo 70, ali ao Campo Pequeno, que era então programado (pasme-se) por Lauro António como uma sala de prestígio, o equivalente anos 70 do King, com muita produção de arte e ensaio.

O filme chamava-se, em português, "O Comboio que Levava Saudades" e adoro o título perfeitamente evocativo de uma era que já passou em que a metáfora do título traduzido era uma arte levada a extremos. Lembro-me que era uma produção inglesa que se passava na transição do século XIX para o século XX, misto de Enid Blyton e James Ivory, com três crianças — três irmãos — e as suas aventuras à volta de uma linha de comboio que lhes passa nas traseiras de uma vivenda modesta ("as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha tão modesta que ela é") no campo inglês. Anos mais tarde, reencontrei as coordenadas do filme, nas enciclopédias de cinema: um filme inglês de 1970, dirigido por Lionel Jeffries e intitulado no original "The Railway Children", baseado num clássico da literatura infanto-juvenil britânica. Nunca mais voltei a apanhar com esse filme mas hoje, não sei porquê, o comboio que me passou ao lado trouxe-me saudades dele.

15 de novembro de 2004

PEQUENA AFIRMAÇÃO APENAS APARENTEMENTE MISÓGINA

O meu amigo António tem esta afirmação que me parece muito interessante: "todas" — e ele refere-se, verdadeiramente, a todas — "as mulheres são bonitas até prova em contrário".

Eu, pessoalmente, olho para algumas e, por excelentes pessoas, seres humanos extraordinários, óptimas profissionais, etc, que possam ser, penso logo que devem ser a prova em contrário.

14 de novembro de 2004

:TEN (descubra as diferenças)

(Descobri este fragmento nas minhas arrumações. Um e-mail que enviei em Fevereiro de 2000 a um amigo. É curioso, acho que há aqui muita coisa que ainda se aplica hoje. O que pode ser lido das duas maneiras.)

All I ever wanted was to be noticed.

I was brought up to be quiet, silent, away from my father's eyes so as not to disturb his all-important work at home. Raised among adults who had no time for a young boy with an overreaching imagination, a young boy who wanted to be just like all the other boys his age. But it was not to be. I never felt I belonged anywhere; except maybe at home, probably just because I shared a name and a blood kin to these people.

I still don't.

I still want to believe that discipline and hard work will make up for the friendship you don't have. Because, to be fairly honest, love never came into it. Love was something I never saw at home. Love was something — is something I can't quite get around my mind. I don't know what it is. Never did. What I'm looking for is not love. It's comfort. It's acceptance. It's feeling I belong somewhere; feeling I have people who care for me, who call me, who want me to be with them once in a while, who write to me, who know my many faults and still want to be with me.

But I have a knack for wanting to be friends with people who have more important things in their lives than me. Like a family of their own. Like a love of their own.

That leaves me back where I started, needing professional psychological advice once every six weeks, feeling lonely and lovelorn. And rather staying at home nursing my invisible wounds when I could, should be out there forgetting theem.

But, whichever way you look at it, isn't the result the same? They never go away anyway. They'll just linger around the darkest recesses of your mind, waiting for the chance to come back and settle again. All you can hope for is a brief respite of the anguish. An evening, a weekend, a week. Because nothing ever lasts forever. It all ebbs and flows, like the waves on the beach.

All I ever do is send out messages in bottles of different shapes and sizes. Everything I do is a cry for help. A call to notice. And people do. For a while. Then they've seen it all and move away. On to the next freak show.

13 de novembro de 2004

WELL I WONDER

Depois de ter assistido aos "highlights" da comunicação de Nuno Morais Sarmento no congresso do PSD, pergunto-me a quem se dirigiria o Ministro da Presidência realmente.

É SÓ ARRUMAÇÃO, ARRUMAÇÃO

Estar com a neura tem as suas vantagens. Uma delas é que, geralmente, me dá para arrumar a casa — e vocês não fazem ideia da quantidade de lixo (menu do dia: caixas de sapatos antigas e sacos de plástico que estavam a ganhar pó há anos numa pequena despensa que tenho em casa, entre outras coisas) que tenho andado a deitar fora nas últimas semanas. Já Thoreau dizia: "simplify, simplify". Para já não falar na questão que, uma vez as coisas limpas e o espaço ganho para arrumar outras coisas, passa a haver espaço para organizar. E eu gosto muito de organizar.

12 de novembro de 2004

ONDE ESTAVAS NO 25 DE DEZEMBRO DE 1974?

Deixei de acreditar definitivamente no Pai Natal numa véspera de Natal, em finais dos anos 70, quando eu tinha 10, 11 anos, em que, enquanto estava a dar "O Feiticeiro de Oz" na televisão, os meus pais desapareceram de repente da sala de jantar e eu fui à procura deles para os encontrar a arrumar os presentes na sala de estar. Eu já não acreditava muito no Pai Natal antes, acho eu, pelo menos do que me recordo, mas nesse ano percebi o esquema todo. E foi também nesse ano que percebi que a quantidade absurda de presentes que me davam era uma maneira dos meus pais compensarem outras coisas que não me sabiam dar.

É uma chatice perceber estas coisas tão novo. Dá-nos cabo da cabeça cedo demais.

11 de novembro de 2004

I STILL HAVEN'T FOUND WHAT I'M LOOKING FOR

No outro dia, falava da minha mãe viver no mundo fechado das suas quatro paredes. Às vezes, descubro que sou mais parecido com ela do que eu próprio penso: também eu vivo no meu mundo fechado. Porque o diâmetro ou a área não têm importância quando o percurso continua a ser um círculo que me leva do ponto A outra vez ao ponto A. Obviamente isto cria os seus problemas: a maior parte do que realmente interessa está lá fora.

A minha mãe sempre disse — geralmente qusndo está a mandar vir — uma coisa com uma certa piada: "nós sempre tivemos muito medo que o ar te chegasse". Parabéns, conseguiram.

10 de novembro de 2004

PEQUENO MOMENTO DE LUCIDEZ ILUMINADA

Percebi que sou um quarentão ressabiado. Isto é muito perturbante porque só tenho 36 anos.

9 de novembro de 2004

QUESTIONÁRIO DE ESCOLHA MÚLTIPLA

Dizia o teaser na caixa multibanco: Sabe qual é o seu nível de açúcar no sangue?. E, depois de levantar os 60 euros, lá veio a resposta: 14 de Novembro - Dia Mundial da Diabetes. X% de portugueses não sabe que sofre de diabetes.

Isto é suposto:
a) gerar sentimentos de culpa por comer doces?
b) assustar-me para ir ao médico já ver o açúcar no sangue?
c) lançar-me em depressão porque tudo o que faço e como pode ser potencialmente perigoso?
d) fazer-me sentir superior aos outros porque controlo o meu açúcar no sangue?

Como podem ver, a trip da culpa não tem escapatória possível. O que nos querem vender não é saúde nem cuidados por si próprios, é mesmo usar a culpa como um motivador. E sabem que mais? Bardamerda para a culpa. Venha daí esse quadradinho de chocolate negro amargo com 70% de cacau.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #44

Sabujo.

8 de novembro de 2004

DO FUNDO DOS TEMPOS

Na escola primária (terá sido na 3ª classe?), aprendi o que significa as pessoas não acreditarem em nós. Alguém deixou um "presente" desagradável debaixo da minha carteira. Levou-me tempo a perceber de onde vinha o mau cheiro e, quando dei pela sola da bota suja, disse ao professor. Todos pensaram que tinha sido eu. Até o professor. De nada serviram os meus protestos, o meu desespero; fui mandado para o recreio, de castigo. Lembro-me que o dia estava cinzento. Lembro-me que chorei, chorei muito, sozinho no recreio. Lembro-me que os meus pais acreditaram em mim porque me viram transtornado como nunca tinham visto.

Não me recordo como foram os dias seguintes, como ultrapassei o trauma de ninguém acreditar em mim. Talvez nunca o tenha ultrapassado; isto foi quase há trinta anos e recordo-me como se fosse ontem. Nesse dia aprendi a não confiar nas pessoas. Nesse dia aprendi que há amizades — talvez a maior parte delas — que são meros jogos de interesses (e, ao longo dos anos que se seguiram, no ciclo preparatório e grande parte do liceu, apenas o confirmei). Nesse dia aprendi o que é a cegueira dos outros.

Desse dia data a minha necessidade de ser aceite, de ser compreendido, de pertencer — e a minha certeza que, por mais que tente, isso nunca acontecerá.

O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

I had a kind of a not sad — well, maybe sad — but an acceptance of who I am as a woman and that maybe who I am as a woman isn't somebody that can be the great partner and wife and also do the things that I want to do (...). I've come to reaize there's a very strong possibility I might be raising my children by myself and have great lovers and friends, but not find that one great love. And that's sad, you know. But better that than hurt somebody or go through another divorce.

Quem diz isto é Angelina Jolie, na edição de Outubro da Première americana. E, transferindo o conteúdo para a minha própria experiência, estou como ela: será melhor partir em busca de um sonho distante (e, talvez, impossível) do que saber desfrutar do que tenho? As dúvidas estão sempre a dar cabo de mim. Acho que é uma herança materna.

7 de novembro de 2004

5 DE NOVEMBRO DE 1929

A minha mãe fez 75 anos na sexta-feira. Recordo-me que, quando o meu pai fez anos, em Março, coloquei aqui um post sobre a ocasião, mas não fiz o mesmo com a minha mãe. Provavelmente, para alguns isto equivalerá a ser um filho desnaturado, ou então será lido como uma manifestação freudiana da clássica preferência por um dos pais.

Lamento desiludi-los; entre o laconismo reservado e repetidamente silencioso do meu pai e os monólogos cada vez mais amargos e histriónicos da minha mãe, não prefiro nenhum. E gosto muito de ambos os meus pais, por muitas dificuldades de relacionamento que tenha com eles. Acontece, apenas, que a minha mãe é uma figura complicada. Uma mulher que cresceu no "obscurantismo" de um tempo onde a célula familiar era rigidamente estruturada e o lugar da mulher era em casa, a tomar conta dos filhos.

A minha mãe sempre se dividiu entre a vontade (em alguns casos, quase necessidade) de se revoltar contra o papel meramente utilitário que a sociedade lhe impunha e o medo de ser incapaz de se aguentar sozinha se mandasse tudo ás urtigas e se revoltasse efectivamente. A minha mãe sempre nos usou a nós, os três filhos que teve, como a sua desculpa para se resignar ao papel que lhe tinham destinado mas que ela nunca quis aceitar. A minha mãe sempre diz que, graças a Deus, criou três bons rapazinhos, honestos e trabalhadores — como se tudo isso fosse a única coisa que valesse a pena. Mas a minha mãe sempre viveu no mundo fechado das quatro paredes do apartamento do Bairro das Colónias onde nos criou, e nunca visitou o mundo fora dessas quatro paredes que tanto gostaria de ter visto. E criou-nos de acordo com valores e experiências de um outro tempo, que não era nem nunca foi o nosso.

A minha mãe fez 75 anos na sexta-feira e não celebrou a ocasião. Há vários anos que ela se recusa a celebrar o que quer que seja, nos diz sempre que não gastemos dinheiro com ela (embora fique ofendidíssima se não gastamos), que se calhar para o ano que vem já cá não está. A minha mãe está uma mulher amarga, que, chegada à velhice e à doença, lamenta tudo aquilo que nunca teve a coragem para fazer, sacudindo muito lusamente a água do capote como se não fosse culpa dela mas um conjunto de circunstâncias. Talvez seja a única maneira que ela tem de não sucumbir ao desespero mais absoluto de se ver uma mulher velha e doente confinada a quatro paredes. E, por isso, este fim-de-semana voltou a ser um fim-de-semana de jantares crispados, em que a palavra mais casual ou a afirmação dita em tom jocoso é virada contra nós para se transformar numa denúncia da santidade dela, numa defesa da sua ser a única verdade possível e existente. A minha mãe é possessiva, centralizadora, sábia (mesmo que inconsciente) manipuladora; daria uma óptima ditadora, mas infelizmente criou filhos libertários. E é por isso que eu não escrevi nada quando a minha mãe fez anos; porque gosto muito dela, mas há alturas em que é muito difícil estar com ela.

AI PORTUGAL, PORTUGAL

Incomoda-me aquela saloiice tipicamente portuguesa que nos faz dar palmadinhas nas nossas próprias costas sempre que há um português que triunfa algures no mundo, como se o seu triunfo fosse também um triunfo nosso, como se nós tivéssemos contribuido, nem que fosse só um pouquinho, para ele.

Tretas. Quem triunfa lá fora fá-lo porque arranjou a força de vontade necessária para partir e não voltar. Hoje, no Telejornal do canal 1 (que, garantidamente, eu cada vez mais só gosto de ver quando é apresentado por José Alberto Carvalho e positivamente detesto quando é feito por Judite de Sousa ou Fátima Campos Ferreira), uma elucidativa reportagem de Márcia Rodrigues sobre um cozinheiro de Viseu que trabalha no hotel Plaza de Nova Iorque, em que a certa altura se dizia com mal-escondido orgulho que tinha sido cumprimentado por Johnny Depp pela qualidade da refeição e que tinha servido Bill Clinton. Como se um cumprimento de um actor de cinema fosse o mais a que um cozinheiro português em Nova Iorque pudesse aspirar, como se esse cumprimento fosse mais significativo do que ter um cargo de responsabilidade num dos mais exigentes hotéis do mundo. Ou como uma coisa realmente digna de orgulho é reduzida à patetice comiserativa do portuguesinho no estrangeiro.

É por estas e por outras que o temperamento português me irrita solenemente.

4 de novembro de 2004

IT'S ONLY A MOVIE



Presumo que muito boa gente vá ficar a toa com a fantasia retro, propositadamente ingénua, de "Sky Captain e o Mundo de Amanhã" (estreia hoje). É normal que assim seja: o filme de Kerry Conran é um misto de ode a e elegia por um cinema clássico que parece irrecuperavelmente fora do nosso alcance, um retorno a tempos mais simples, menos matizados, mais preto-no-branco, de um cinema genuinamente popular. Por isso mesmo, é um filme que só quem muito ama o cinema, e sobretudo os anos dourados dos estúdios de Hollywood, saberá amar, porque nele reconhecerá o deslumbramento maravilhoso e inocente dos tempos em que o cinema era o futuro. E, por 105 minutos, volta a sê-lo — mesmo que esse futuro esteja solidamente ancorado no passado. Mas que futuro nunca o está?

3 de novembro de 2004

PEQUENA MEDITAÇÃO ELEITORAL

Parece-me que todos os cidadãos portugueses que se sentem decepcionados com a vitória de George W. Bush, independentemente de estarem no seu pleno direito, se esquecem fundamentalmente de uma coisa que poderá servir de consolação, mesmo que fraca: também não votaram em Pedro Santana Lopes e levaram com ele na mesma.

Pronto. Mais animadinhos?

O MISTÉRIO DO AUTO-RÁDIO TEMPERAMENTAL

O meu auto-rádio deu em interromper a cassete (ontem: "High", dos Blue Nile; hoje: "The Capitol Years", de Frank Sinatra) quando a TSF acciona o RDIS das indicações de trânsito, o que é uma chatice (imaginem "I Would Never" ou "Because of Toledo"; ou "I Get a Kick Out of You" ou "Young at Heart" interrompidos pelo acidente na A8 ou na fila nas portagens de Vila Franca e tirem as vossas conclusões).

O que eu só não percebo, mesmo, é porque só agora, ao fim de cinco anos, é que isto acontece.

MUNDO LIVRE S/A

I sit at my table and wage war on myself
it seems like it's all...it's all for nothing
I know the barricades, and
I know the mortar in the wall breaks
I recognize the weapons, I used them well

this is my mistake. let me make it good
I raised the wall, and I will be the one to knock it down

I've a rich understanding of my finest defenses
I proclaim that claims are left unstated,
I demand a rematch
I decree a stalemate
I divine my deeper motives
I recognize the weapons
I've practiced them well. I fitted them myself

it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down

reach out for me and hold me tight. hold that memory
let my machine talk to me. let my machine talk to me

this is my world
and I am the world leader pretend
this is my life
and this is my time
I have been given the freedom
to do as I see fit
it's high time I've razed the walls
that I've constructed

it's amazing what devices you can sympathize... empathize
this is my mistake. let me make it good
I raised the walls, and I will be the one to knock it down

you fill in the mortar. you fill in the harmony
you fill in the mortar. I raised the walls
and I'm the only one
I will be the one to knock it down.


- Michael Stipe para R. E. M., "World Leader Pretend", in "Green" (Warner Bros., 1989)

2 de novembro de 2004

FUGAS PARA A FRENTE

É, realmente, verdade: mesmo aquilo de que mais gostamos no mundo, quando o temos de fazer todos os dias, se pode banalizar e tornar em "apenas" mais uma coisa. Nessas alturas, é preciso arranjar estratégias para manter o entusiasmo. O problema é quando arranjar essas estratégias é, em si próprio, uma tarefa banal.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #42

Ignóbil.

1 de novembro de 2004

POLAROID: TÁXI

Cheiro intenso a fumo, como se o táxi estivesse fechado 24/7 numa tabaqueira. Janela do condutor aberta, com o resultado da deslocação a velocidades habitualmente excessivas para o trânsito lisboeta criar uma rapidíssima circulação de ar frio do anoitecer no interior do veículo. Rádio em altíssimos berros na Orbital, que transmite uma qualquer melopeia disco na melhor tradição Village People. Rádio CB dos Rádio Taxis emitindo as habituais mensagens roufenhas "...táxi ao número tal e tal da rua não sei quantos...". E o taxista, de cabelo ralo espicaçado pelo gel, a dissertar com propriedade sobre ser espantoso como, quando ele precisou de ir à garagem mudar não sei o quê, só lhe saírem serviços para o outro lado da cidade e, desde que veio da garagem, todos os serviços o levarem à rua da dita cuja garagem.

O CONSUMIDOR RECLAMA

Ocorreu-me hoje que andamos todos à busca de qualquer coisa para preencher as nossas solidões — uns chamam-lhe amor, outros chamam-lhe amizade, outros ainda desejo. Mas, seja ela o que for, conheçamo-la nós por que nome, quando a encontramos ela nunca corresponde na realidade àquilo que nos foi prometido. Àquilo a que temos direito. Talvez devêssemos exigir o livro de reclamações.

30 de outubro de 2004

PEQUENO AFORISMO OBSERVACIONAL

O traje académico é muito pouco prático quando está a chover a potes.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #41

Adstringência.

ONDE ESTÁS?

it feels like my thoughts
could run into your mind
and say the things that I can't say

and all of this time
I'm thinking to myself
the only thing I see
is you
my life
runs through
your heart
will be
a place
for me

and night speeds so fast
it's easy now
I cut myself
on these thoughts of you
and I hear your voice
I'm running now into your world
that takes me near the edge
of real
my mind
to steal
each night
with you
makes everything seem new

and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through

nothing changes now my heart stands still
you could part my will
to live

and thoughts run so free
you've changed me now
you've changed the way I see myself to be
and I can't relate
just how it feels
you haunt my days and soar above my dreams
it seems
this life is cheap
eternal sleep
my soul to keep

and it feels like I'm
spending all my time
chasing dreams I wish so would come true
if you held the knife
I would take my life
I want to be with you
I want to be with you
until the light shines through

until the light shines through.


- The Devlins, "Until the Light Shines Through", in "Drift" (Capitol, 1993)

27 de outubro de 2004

A PROPÓSITO DA PALAVRA DE QUE GOSTO MUITO ETC #40

Cosmopolita é uma coisa que o Portugal dos pequeninos em que vivemos me parece cada vez menos — se é que alguma vez o foi realmente. Marcelo Rebelo de Sousa relança a confusão, devolvendo a bola a Miguel Paes do Amaral, Rui Gomes da Silva e Pedro Santana Lopes, Durão Barroso vê-se em riscos de ser chumbado na Comissão Europeia, Carlos Carvalhas parece ir deixar o PCP nas mãos de Jerónimo de Sousa, o Serviço Nacional de Protecção Civil faz alertas de temporal (que pelo menos aqui não me pareceram concretizar-se)... E eu que pensava que a silly season era só de Verão. Ah, Eça, Eça, que falta nos andas a fazer, homem, para desatar às bengaladas a esta corja que nos governa — e não só!...

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #40

Cosmopolita.

AUTO-CRÍPTICA

A questão, muitas vezes, não é tanto aquilo que eu sou e os outros não são, mas sim aquilo que os outros são que eu não sou.

25 de outubro de 2004

ESTÃO A VER A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

Ups... O túnel acaba de fechar para obras.

I DON'T WANT TO GROW UP

Lembrei-me desta canção de Tom Waits quando via, hoje, o novo episódio da minha telenovela preferida (calma, Ali, aguenta os cavais e não me venhas ainda às trombas). Porque é assim que o Big T se sentia hoje, a perguntar que mal fez ele a Deus para ter que aturar um mundo inteiro apostado em dar-lhe cabo da cabeça. É nestes dias que eu percebo porque é que "Os Sopranos" não é uma telenovela — porque, mafioso ou não, todos temos dias em que estamos "como à espera do comboio na paragem do autocarro". E as telenovelas nunca conseguem apanhar esses dias.

SOME MAY LIKE A SOFT BRAZILIAN SINGER

Caetano, sempre, admirável. Mesmo quando apropriando-se daquilo que não é seu. Mesmo quando é obrigado a apresentar um concerto feito de subtilezas e fragilidades num recinto tão cavernoso como o Pavilhão Atlântico. "A Foreign Sound" merecia um, dois, três Coliseus.

o pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
a Baía de Guanabara
o antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
pareceu-lhe uma boca banguela
e eu, menos a conhecera, mais a amara?
sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
o que é uma coisa bela?
o amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
uma arara?
mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
em que se passara passa passará um raro pesadelo
que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o Amaro
eu não sonhei:
a praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel
sob meus tênis
e o Pão de Açúcar menos óbvio possível
à minha frente
um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
à áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
do branco das areias e das espumas
que era tudo quanto havia então de aurora
estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
e uma menina ainda adolescente e muito linda
não olho pra trás mas sei de tudo
cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
mas eu não desejo ver o terno negro do velho
nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
essa coisa da luz nos brancos dente e onda
mas não pense surrealista que é outra onda)
e ouço as vozes
os dois me dizem
num duplo som
como que sampleados num Sinclavier:
"é chegada a hora da reeducação de alguém
do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
o certo é louco tomar eletrochoque
o certo é saber que o certo é certo
o macho adulto branco sempre no comando
e o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
riscar os índios, nada esperar dos pretos"
e eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
sigo mais sozinho caminhando contra o vento
e entendo o centro do que estão dizendo
aquele cara e aquela:
é um desmascaro
singelo grito:
"o rei está nu"
mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu
e eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
e entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
("some may like a soft brazilian singer
but I've given up all attempts at perfection").


- Caetano Veloso, "O Estrangeiro", in "Estrangeiro" (Philips, 1989)

Não Tem Tradução
Baby
Diana
So in Love
Something Good
Body and Soul
It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)
The Man I Love
Come as You Are
Feelings
We'll Take Manhattan
Manhatã
Diferentemente
Adeus Batucada
Brasil Pandeiro
Cucurrucucu Paloma
Love for Sale
Cry Me a River
Mora na Filosofia
Nature Boy
Detached
O Estrangeiro
The Carioca
encore
Love Me Tender
Manhã de Carnaval
Mamãe Eu Quero

23 de outubro de 2004

O CATACLISMO DO VESTUÁRIO

Descobri hoje, para grande surpresa minha, que embora a empregada da loja jure a pés juntos que não e que bem pelo contrário, a Levi's parece ter "desafunilado" os jeans 501 para eles descambarem no horror da "boca de sino". Embora isto não seja minimamente importante no esquema geral da felicidade mundial, é uma catástrofe para a minha pessoa. É que eu detesto; não, corrijo, eu abomino calças ditas "à boca de sino", e vejo-me agora com grandes dificuldades em encontrar uns jeans sérios de calças discretamente afuniladas. Vá lá, pelo menos ainda têm as tradicionais cores sólidas das calças de ganga.

22 de outubro de 2004

A HISTÓRIA DO REI QUE IA NU, E TAL

Meu Deus, como Miguel Sousa Tavares continua certeiro nas suas análises políticas. E, curiosamente, eu e alguns amigos tínhamos ontem aflorado estas questões ao almoço, a própósito daquilo que sentimos como uma baixa de nível alarmante na qualidade do jornalismo português. Mas, aqui entre nós, não é só a baixa do nível dos jornalistas acabadinhos de sair do forno das escolas de comunicação social que ensinam as teorias mas não preparam minimamente para o embate com a prática quotidiana — é também a queda brutal do nível de exigência de quem lê. Quando a tabloidização que começa já a alastrar às televisões (vide o triste episódio da menina algarvia) começa a ganhar terreno em substituição do que deveria ser uma ética minimamente contida, então começamos a perceber que a nossa mesquinhez sôfrega de emoções fortes por procuração não merece realmente mais que o baixo nível que recebe em troca.

E assim se perde um país — por um desgoverno que, não sendo de agora, está agora literalmente exposto. A nu, para quem o quiser ver em vez de fingir que o rei vai ricamente trajado.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #38

Patusco.

21 de outubro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #37

Atávico.

AN EVENING WITH THE MAGNETIC FIELDS

Mesmo que faças um único e mísero encore, desculpo-te tudo, Stephin Merritt, porque I love it when you sing to me/ and you/ you can sing me anything. E porque, mesmo que não tenhas tocado "The Luckiest Guy on the Lower East Side", nem "Busby Berkeley Dreams", nem "The Death of Ferdinand de Saussure", nem "Let's Pretend We're Bunny Rabbits", tocaste "Swinging London", e "All My Little Words", e "Papa Was a Rodeo" e "It's Only Time" uma a seguir à outra. E porque as canções de "I" ainda são melhores em palco. E porque, raios, és capaz de ser o maior songwriter americano vivo a aspirar ao trono de Cole Porter ou Irving Berlin — porque as tuas canções sobrevivem a tudo e ainda ganham com a mudança de formato, porque sabes que não há medalha sem reverso, bela sem senão, alegria sem tristeza. Se não tivesse havido Elvis Costello, terias feito o concerto do ano — frágil, delicado, improvavelmente erguendo-se de uma corda bamba onde arriscava cair a cada segundo. Vem mais vezes. Por favor.

I Was Born
I Don't Believe in the Sun
A Chicken with Its Head Cut Off
I Looked All Over Town
Come Back from San Francisco
I Don't Really Love You Anymore
All the Umbrellas in London
If You Don't Cry
Born on a Train
I Wish I Had an Evil Twin
One April Day
I Don't Believe in You
Suddenly There Is a Tidal Wave
All My Little Words
If There's Such a Thing as Love
I Thought You Were My Boyfriend
A Pretty Girl Is Like...
Swinging London
Smoke and Mirrors
The Book of Love
Reno Dakota
Papa Was a Rodeo
It's Only Time
encore
I Die

20 de outubro de 2004

CABALAS DE CORRIDA

Lendo este elucidativo pedaço de prosa jornalística, surgiu no meu espírito a seguinte pergunta: se fôr a favor, uma cabala já será justificável? E o que é que a Madonna, essa estudiosa da cabala, tem a dizer sobre o assunto?

19 de outubro de 2004

FORD, MODELO ÚNICO

Embora isto pertença mais ao outro blog (lá chegaremos, em breve), não resisto. Sim, John Ford é qualquer coisa muito próxima de um Deus em termos cinematográficos, e a trilogia da cavalaria é das coisas mais sublimes que jamais engenho humano criou, Arte com A grande, e Ford é cineasta cá do coração. Só espero que o MacGuffin não vá buscar o Colt por eu ousar dizer que, à "Desaparecida", que é um belíssimo filme, prefiro de longe "Os Dominadores"...

CAPISCE?

Tenho de vos dizer que já não consigo passar sem ver isto todas as semanas. É a chamada "offer you can't refuse". Mas admito perfeitamente que a diferença entre isto e uma telenovela (para além, evidentemente, do nível médio bastante mais elevado) é meramente superficial e circunstancial.

A CASA ENCANTADA

Os arquivos entram online: na Casa Encantada vão estar, a partir de agora, as fichas e alguns comentários aos filmes que vi/vou vendo, colocando finalmente (e lentamente) disponível a base de dados (aleatória, pessoal e intransmissível) que fui construindo ao longo dos anos. Visitem sempre que quiserem.

18 de outubro de 2004

O "CLÁSSICO" (POST SNOB)

É precisamente por causa de jogos como o de ontem que me recuso a gostar de futebol: qualquer jogo que ponha milhares de pessoas a portarem-se como perfeitos anormais, como adolescentes imberbes que ainda nem entraram na puberdade, não merece realmente que nos interessemos por ele. Se aquilo é um "clássico", então o classicismo, claramente, já não é o que era.

17 de outubro de 2004

TÁXI AO DOMINGO

Sempre que apanha um táxi ao domingo, fico com a forte impressão que, ao domingo, os taxistas "habituais" estão de folga e deixam o campo livre aos "ocasionais" que procuram adicionar uns cobres extra ao seu rendimento regular fazendo um biscate de fim-de-semana.

E fico com esta forte impressão porque, falando estatisticamente da minha experiência pessoal, aos domingos há muito menos taxistas que sabem onde ficam os destinos que lhes pedem. Percebo perfeitamente que um taxista não conheça uma rua obscura como é a Luís Derouet, em Campo de Ourique (uma rua curta, de dois quarteirões e sentido único, paralela à Ferreira Borges) ou uma menos conhecida como a Triângulo Vermelho (transversal à Heliodoro Salgado que vai dar à Penha de França mais próximo de Sapadores).

Mas qualquer coisa está mal quando, esta noite, entro num táxi junto ao Banco de Portugal, peço ao condutor para me levar à avenida Álvares Cabral e ele, com sotaque brasileiro, me diz que "não sabe onde fica".

Sem dizer uma palavra, saí do táxi e mandei parar outro. Ele ainda voltou para trás, dizendo "senhor, entre que eu levo". Mas recuso-me a ser conduzido por um taxista que, literalmente, não sabe para onde vai.

PEQUENA INTERROGAÇÃO RECORRENTE

A minha mãe está a estranhar ainda não ter mudado a hora.

16 de outubro de 2004

PEQUENA RECEITA PARA AFASTAR O MAU FEITIO

Naan de alho e um bagia de cebola com chutney de menta e um pouco de picante diluído, frango tikka com arroz pilau, duas colas, um descafeinado, três amigos de ambos os sexos e um restaurante indiano de confiança à sexta à noite. Animação garantida.

14 de outubro de 2004

OS AMANHÃS QUE CANTAM (MAS ALGUÉM SE ESQUECEU DE LIGAR O MICROFONE)

Estou com Luiz Felipe Scolari, que já se deve andar há uns largos meses a perguntar em que raio de país pré-histórico veio parar: vão-se foder. Todos.

E vais-me desculpar, Alexandre, mas cada vez mais me convenço que Portugal não merece a gente boa que ainda vai tendo. E que é cada vez menos e tem cada vez menos paciência para o país que lhe calhou em sorte. Começo a concordar com o meu amigo João: anexe-se isto a Espanha, depressa e em força, e bardamerda para a "nação imortal" e para outras patetices nacionalistas de quem ainda acredita em sonhos de impérios desfeitos que talvez só tenham existido na cabeça de quem os sonhou.

A verdade é só uma: somos um cantinho da Europa que não tem dinheiro para mandar cantar um cego, entregue ao Deus dará, e que anda aqui emproado armado em aristocrata decadente quando não passa de saloio novo-rico que se finge grande senhor.

Portugal não interessa nem ao menino Jesus. Aliás, esse desinteresse nota-se.

Scolari é que tem razão: de que vale uma pessoa ser o único a ralar-se? Qual é a recompensa do bom samaritano? (E não estou com isto a dizer que Scolari é um bom samaritano. Não façam interpretações literais.)


PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #35

Despautério.

13 de outubro de 2004

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #25

Pessoas que aproveitam as «pessoas amigas» que estavam na fila para o que quer que seja para passarem à frente do resto da fila. Como ontem, no atendimento ao cliente da Fnac do Chiado, quando uma terceira jovem chega no exacto momento em que as duas amigas se estavam a levantar e ocupa o lugar delas e, displicentemente, quando lhe é chamada a atenção, diz que «eu estava com elas e é rápido», ignorando o meu comentário «a senhora não estava na fila e eu não a vi aí sentada». Contei sete minutos de atendimento.

MALDITOS HEADPHONES

Isto parece-me uma questão interessante. Pessoalmente, acho de uma falta de educação gritante deixar que o nosso comunicador pessoal incomode a plateia no meio de um espectáculo, qualquer que ele seja (no limite, deixá-lo ligado mas em modo silêncio ou vibração, ou seja, sem incomodar os outros parece-me aceitável). Mas aí vem a célebre questão da liberdade pessoal...

PEQUENO AFORISMO MATINAL

O mundo seria tão mais interessante se não houvesse sempre "coisas a fazer".

A DESPROPÓSITO

No outro dia, o maradona protestou comigo por ter sido excluído do meu top-5 de blogs. Ao que lhe retorqui que um top-5 só pode ter cinco e que ausências de 15 dias na Flandres não ajudam à sua manutenção entre os cinco mais visitados. Folgo, por isso, em saber do retorno da 1poucomais de Roma (que inveja) e do Alexandre lá de onde quer que seja que esteve. Ter um top-5 de blogs mais visitados onde dois não são actualizados durante uma semana não abona em favor do bom gosto de ninguém e, passando à frente do chiste (ora aqui está uma bela palavra para a lista), andava-me a fazer falta ler-vos. Mesmo. Não façam isso muitas vezes para eu não ficar com mais stress do que o que já tenho s. f. f.

12 de outubro de 2004

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #24

Pessoas que vão a ante-estreias de filmes sem saber o que vão ver e, quando começam a compreender que não estão a apreciar o filme que estão a ver (assumindo que têm capacidade intelectual para apreciar), começam a perturbar o normal andamento da sessão, rindo, cochichando, atendendo telemóveis. Miguel Sousa Tavares dizia há umas semanas atrás na sua coluna do Público, com alguma presciência, que andam a fazer falta elites; subscrevendo parte dos argumentos que ele utilizou — nomeadamente o facto de as pessoas precisarem de aspirar a algo como motivação para o seu desenvolvimento enquanto pessoas — penso que o que anda realmente a fazer falta é boa educação. Um cházinho nunca fez mal a ninguém. (O meu é de tília, ou então de camomila s. f. f., que o meu médico diz-me que tenho muito stress.)

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #23

O clima de desinformação e mal-estar que se cria nas salas de espera dos consultórios médicos dos centros de saúde quando as velhotes, velhotas, senhoras e senhores de meia-idade e outros representantes do proletariado português decidem começar a desconfiar de que o médico não está a chamar os pacientes, não está a chamar os pacientes que devia, ou está a chamar pela ordem errada.

11 de outubro de 2004

O BOMBEIRO VOLUNTÁRIO

A notícia do Público de hoje sobre os bons esforços do ministro da Defesa para incentivar a mancebia contemporânea a encarar as forças armadas como carreira profissional, punindo os faltosos (que, presume-se, não estão ainda no mercado laboral e, logo, não têm exactamente fonte de rendimento próprio) ao Dia da Defesa Nacional com uma multa que pode ir aos mil euros, faz-me lembrar aquela célebre história de Raul Solnado que começa com o desígnio paternal "Meu filho, quer queiras, quer não queiras, hás-de ser bombeiro voluntário".

10 de outubro de 2004

POLAROID XUTOS

Um contingente de adolescentes betas (futuras tias), mascando pastilha elástica, cheirando a perfume caro, invadem o meu espaço vital (ler: as cadeiras vazias na fila da frente e ao meu lado), uma ou duas canções depois do concerto ter começado. Uma delas pergunta-me "desculpe, sabe onde é que se bebe aqui?" e respondo-lhe que não. Durante o concerto, dançam muito, gritam como se estivessem a ver qualquer ídolo adolescente (Britney Spears, Justin Timberlake), e quando não reconhecem as canções sacam do telemóvel e desatam a trocar mensagens. Duas delas escolhem um momento mais calmo para refazerem impossivelmente longamente o rabo de cavalo. Quando o concerto embarca na fase final dançam freneticamente na fila, de braços no ar, indiferentes a pisarem ou empurrarem quem está ao seu lado.

COMENTÁRIO AO COMENTÁRIO

Uma "midlife crisis" é quando um homem quiser.

9 de outubro de 2004

CHAMA-ME TARZAN

A tal canção do teledisco do Chevy Chase é uma das mais aterradoras polaroides da encruzilhada da meia-idade que já li. Bem-humorada? Uma ova. Precisar de preencher um vazio, de tapar uma solidão, dê lá por onde der, não é, nunca, divertido. Falo por experiência. E para quem quiser ler nas entrelinhas, Paul Simon dá as pistas todas.

a man walks down the street
he says why am I soft in the middle now
why am I soft in the middle
the rest of my life is so hard
I need a photo opportunity
I want a shot at redemption
don't want to end up a cartoon
in a cartoon graveyard
bonedigger, bonedigger
dogs in the moonlight
far away my well-lit door
mr. beerbelly, beerbelly
get these mutts away from me
you know I don't find this stuff amusing anymore

if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al

a man walks down the street
he says why am I short of attention
got a short little span of attention
and wo my nights are so long
where's my wife and family
what if I die here
who'll be my role model
now that my role model is
gone, gone
he ducked back down the alley
with some roly-poly little bat-faced girl
all along along
there were incidents and accidents
there were hints and allegations

if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al
call me Al

a man walks down the street
it's a street in a strange world
maybe it's the third world
maybe it's his first time around
he doesn't speak the language
he holds no currency
he is a foreign man
he is surrounded by the sound
the sound
cattle in the marketplace
scatterlings and orphanages
he looks around, around
he sees angels in the architecture
spinning in infinity
he says amen! and hallelujah!

if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al.


- Paul Simon, "You Can Call Me Al", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)

8 de outubro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #34

Hirsuto.

(cortesia do António P.)

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #22

Pessoas que vão às ante-estreias e depois contam detalhadamente a história do filme a quem as queira ouvir, independentemente de elas quererem ou não ir ver o filme.

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #21

Pessoas que, inexplicavelmente, preferem andar pelo meio da rua, independentemente do trânsito, quando os passeios estão perfeitamente vazios.

6 de outubro de 2004

A ANEDOTA

Telejornal: Marcelo já não comenta na TVI e, enquanto isso, no Parlamento trocam-se dichotes sobre o teleponto de Sócrates.

Se Portugal é a anedota que tudo isto dá a entender, porque raio é que eu não tenho a mínima vontade de rir?

A DÚVIDA METÓDICA

O meu irmão é um céptico em relação ao amor e à solidão e acha que a solidão é o estado natural do homo sapiens. Diz ele que estamos sempre sozinhos e, no fim de tudo, morremos sozinhos; porque o romance é uma coisa que, na visão dele, se desmorona muito rapidamente quando a doença e a decadência entram em jogo. O meu irmão é um realista pragmaticamente lúcido mas, aqui, gostava de acreditar que ele não tem razão; muito embora, confesso-vos, hoje seja um daqueles dias em que, como já dizia o outro, eu preciso de acreditar em qualquer coisa que faça sentido e que me faça sentir, porque lá fora as coisas são feias demais e tristes demais para ser verdade.

A contra-luz do pôr do sol, à entrada de Paço d'Arcos para a Marginal, torna as nuvens suspensas em algodão doce, papelão pintado de cenário de teatro. A metáfora é banal mas nem por isso menos potente: voltámos ao Portugal do cá-vamos-cantando-e-rindo que mascara uma angústia de não saber o que o amanhã traz, a dúvida metódica de tentar fazer sentido de uma burocracia tentacular em que tudo se perde na necessidade de cumprir quotas, preencher formulários, encaixar no sítio. E, desculpem lá a franqueza, há momentos em que as pessoas não querem enfrentar esses dragões sozinhos. Mas, como o meu irmão muito bem diz, não temos outro remédio. E é aí que reside o desafio — e também a dúvida.

5 de outubro de 2004

A INSUSTENTÁVEL MELANCOLIA

Ainda não digeri devidamente o novo "Around the Sun", mas cada vez mais me parece que os R. E. M. desviaram a sua mira do rock de guitarras urgente e enérgico que fez o seu nome para uma espécie de tradução sonora do que é ser, hoje, um ser humano médio num mundo onde os pontos de referência estão cada vez mais difusos. Esse existencialismo burguês e urbano mas nem por isso menos válido estava inteirinho no fim-de-Verão de "Reveal" e reencontra-se agora nas melopeias maioritariamente elegíacas de "Around the Sun" que, para já para já, me parece sofrer de uma excessiva uniformidade de tom que não favorece canções individuais. Mas, quanto mais vejo o belíssimo teledisco e ouço a canção, mais me convenço que "Leaving New York" é uma jóiazinha melódica de infinita nostalgia, que traduz na perfeição o que é dizer adeus ao amor que se foi embora, perguntarmo-nos os infinitos "e se?..." que ficaram por dizer e fazer. (E não, Pedro, não lembra nada Phil Collins. Nem de longe.)

it's quiet now
and what it brings
is everything

comes calling back
a brilliant night
I'm still awake

I looked ahead, I'm sure I saw you there

you don't need me to tell you now
that nothing can compare

you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out

now life is sweet
and what it brings
I try to take

but loneliness
it wears me out
it lies in wait

and all not lost still in my eye
the shadow of necklace across your thigh.
I might've lived my life in a dream but I swear it.
this is real.
memory fuses and shatters like glass.
mercurial future. forget the past
it's you
it's what I feel

you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out

you find it in your heart.
it's pulling me apart.
you find it in your heart.
change

I told you, forever
I love you forever.
I told you I love you
I love you forever
you never, you never
you told me forever...

you might have laughed if I told you

you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out.


- Michael Stipe para R. E. M., "Leaving New York", in "Around the Sun" (Warner Bros., 2004)

A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA

Uma breve passagem pelos noticiários de hoje, dia 5 de Outubro:

— o Ministro dos Assuntos Parlamentares apela à Alta Autoridade para a Comunicação Social para que esta se pronuncie sobre o teor dos comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa na TVI (subentendendo-se que ele apela para que esta se pronuncie contra o mefistofélico professor, para usar a deliciosa alcunha posta pela "Contra-Informação"), e, num discurso em Viseu, põe em dúvida as capacidades intelectuais do novo Secretário-Geral do PS, José Sócrates

— a população de Canas de Senhorim acorrenta-se à porta do Palácio de Belém para que o Presidente da República (que, àquela hora, deveria estar a caminho das cerimónias comemorativas do 5 de Outubro) resolva o seu problema de identidade que, há uns anitos atrás, se manifestou ruidosamente à porta do Centro Vasco da Gama numa parada do 25 de Abril; e uma das senhoras de Canas de Senhorim vem à câmara dizer que houve quem fosse espancada pela polícia como nos tempos do fascismo

— o anúncio de que Carlos Carvalhas vai resignar como Secretário-Geral do PCP, não existindo ainda um sucessor nomeado, tem honras de abertura nos noticiários

— o Presidente da República dá um raspanete ao Primeiro-Ministro e por extensão ao Governo no seu discurso do 5 de Outubro

— o Primeiro-Ministro não comenta o discurso do Presidente da República no momento, apressando-se a sair dos Paços do Concelho (no que um jornalista da RTP-1 definiu, à hora do almoço, como "uma grande confusão, com cadeiras pelo chão") mas, mais tarde, comenta que o discurso era "a pedra que faltava" para o Governo realizar as reformas necessárias

E foi para isto que se implantou a República há 94 anos.

4 de outubro de 2004

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #20

É espantoso como as pessoas são capazes de colocarem tanto de malévolo numa simples buzinadela de automóvel, através da simples modulação de intensidade e ritmo do toque, sem terem a mínima razão para o fazer. Para que conste, essa buzinadela agastada deveria ir, isso sim, para o irresponsável estacionado na rotunda do Jardim da Estrela. Mas claro que quem tem de se desviar é que leva com ela.

3 de outubro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #33

Prolegómeno.

(cortesia da Ana P.)

LOGBOOK #20: EM GRUPO

Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 3 de Outubro, 11h31: 13.5m, 55min, 16º C

Do mergulho em si não há muito a dizer, a não ser que a suspensão da água, agitada pela fola progressivamente maior mesmo junto à costa e que criava efeitos de corrente dentro da passagem propriamente dita, acabou por confirmar as minhas primeiras suspeitas quando largámos ferro junto à Ponta: ia ser uma boa oportunidade para treinar a orientação e a flutuabilidade, como foi. O que eu não suspeitava de todo é que ia servir de "guia turístico" da Ponta — ou, enfim, do que estava visível pelo meio da água indiferente — de um grupo de sete outros mergulhadores "orientado" pelo Carlos Pereira, menos conhecedores da zona, entre os quais três "estreantes" (ao que me pareceu) em tempo de primeiro mergulho pós-curso.

É curioso ver, então, as dinâmicas que se criam dentro de um grupo de amigos. Descontemos os "juniores" Daniel e Gonçalo, bastante à-vontade para quem está apenas a começar (o Daniel, que foi meu parceiro num sistema de pares que acabou por nunca se distanciar do grupo, chegou à superfície com mais ou menos o mesmo ar na garrafa que eu). A Maria João, fotógrafa oficial, manteve-se discreta, o Fernando e o Pedro fizeram o número dos compinchas truculentos mas sempre atentos ao que se passa à volta (a começar pela precinta da barbatana que rebenta logo antes de entrar na água), o Carlos à vontade mas a controlar como quem não quer a coisa, e sempre todos à espreita uns dos outros para garantir que tudo corria bem. Até quando o sétimo elemento e terceiro "estreante", o Rui, que descera enjoado da ondulação persistente à superfície enquanto se equipava no barco e ansioso da longa espera antes de se meter à água, volta sozinho à superfície a pouco tempo do início do mergulho; o Carlos, que não era sequer o parceiro "oficial" , quando dá pela falta, pára tudo e vai à procura dele.

Apesar dos pequenos contratempos — a meia-hora na água à espera que o grupo se reúna para descer, a confusão que às vezes reina lá em baixo quando se está mais em grupo do que em pares — se todos se entendem, como hoje, mergulhar com um grupo de amigos que partilham a paixão e o bom humor é uma experiência realmente divertida. Enriquecedora, até.

2 de outubro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #32

Solípede.

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #11

Não tenho idade para me lembrar do "Zip Zip"; tinha um ano de idade quando o mais mítico dos programas da televisão portuguesa foi para o ar, e as memórias que dele tenho são aquelas mediadas pelas imagens de arquivo com que fui crescendo e pelo estatuto que foi crescendo à volta do programa na memória colectiva. Porque as minhas memórias de infância, as minhas imagens de infância repartem-se, em partes iguais, pela tela gigante do cinema e pelo grande écrã a preto e branco da velha Grundig que dominava a sala de estar de casa dos meus pais, colocada a um canto a fazer pendant com a cristaleira de mogno que enquadrava o outro canto e, anos mais tarde, já na década de 80, substituida primeiro por um receptor "marca anzol" a cores e só depois por outra Grundig.

As minhas memórias são as da primeira encarnação da TV Guia — uma revistinha grossa de formato "bolso", tipo Crónica Feminina ou Selecções do Reader's Digest, cujo primeiro ano, algures em 1975? ou 1976?, eu guardei religiosamente durante anos numa gaveta da estante que ainda existe em casa dos meus pais. São as dos Festivais da Canção e da Eurovisão que, antes da conversão ao gravador de cassetes em 1976/77, gravávamos em bobines de fita magnética no "magnetophone" de bobines da BASF que ainda existe em casa dos meus pais. São as da "Visita da Cornélia", do "Écran Mágico" (concurso sobre cinema que Rui Mendes apresentava, às terças à noite, no canal 2), são as dos "Jovens Heróis de Shaolin" ou do "Kung-Fu" nas tardes de sábado do canal 1, numa altura em que ainda existiam apenas dois canais públicos.

As minhas memórias são as de uma televisão que era pobrezinha mas honrada e, contudo, dava muitas vezes lições ao que hoje se faz passar por aí como entretenimento televisivo e não passa de formatação calibrada por consultores para apelar ao que de mais básico há em nós. E não consigo deixar de pensar que, com a morte de José Fialho Gouveia, hoje, é também muito dessa televisão carola mas apaixonada que durante tantos anos foi a RTP que morre; talvez porque, ao contrário de outros, Gouveia tenha ficado teimosamente ligado a uma era clássica de TV portuguesa e não tenha sido reaproveitado nem redescoberto para formatos contemporâneos. Com Fialho Gouveia morreu "the real thing", não os ersatz ou recuperações fora de tempo posteriores.

1 de outubro de 2004

VIVA O FIM-DE-SEMANA PROLONGADO

O Governo decidiu-se a dar tolerância de ponto aos funcionários públicos na segunda-feira. É espantoso como, dentro de uma mesma orientação ideológica de centro-direita, até dentro de um mesmo partido, é possível dois líderes terem atitudes tão diferentes: com Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite, era preciso era trabalhar, aumentar a produtividade, etc; Santana Lopes, ainda nem há três meses está no poder e já está a desfazer o que os anteriores fizeram.

Nada tenho contra as pontes (pelo contrário, adoraria poder fazê-las se fosse funcionário público, coisa que não sou), o que me choca apenas nesta situação particular é a inconstância de critérios, os sinais errados que se enviam; a vida das pessoas como catavento ao sabor das marés políticas. Há seis meses pedia-se contenção, trabalho e sacrifício; agora faz de conta que ninguém disse nada disso e vamos voltar a como era antes.

Só que, já dizia o outro, "you can't go home again".

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #31

Dispéptico.

30 de setembro de 2004

DIVINA EMMYLOU



Ouça-se o que a divina Emmylou Harris faz de "Orphan Girl", de Gillian Welch, na obra-prima "Wrecking Ball" (Asylum/Elektra, 1995): aquilo que noutras mãos seria azeite puro, a história da órfãzinha desgraçada que lamenta o seu triste fado e sonha com o dia em que Deus a leve para junto de si e da família que nunca conheceu, é elevado pela entrega transcendente da cantora, arrancada do fundo da alma, numa das mais puras e extraordinárias manifestações de fé e esperança que já ouvi, suficiente para arrancar uma emoção comovida enquanto, lá atrás, Daniel Lanois encena um carrocel aspiracional de cordas metálicas pontuado por percussões esparsas e tribais (Malcolm Burn, Larry Mullen Jr., Tony Hall).

Composto por canções de Lanois, Neil Young, Steve Earle, Gillian Welch, Bob Dylan, Jimi Hendrix (uma estratosférica reinvenção de "May This Be Love" para tarola seca e tempestade de guitarras eléctricas em descarga brutal), Rodney Crowell ou Julie Miller, "Wrecking Ball" é um álbum assombroso e assombrado, uma série de litanias texturadas que expressam uma religiosidade a um tempo paredes meias com o fundamentalismo e com uma qualquer espiritualidade pagã, entre os pântanos de New Orleans e as florestas do Vermont. Nele Emmylou redescobre uma voz pessoal que reinventa a linguagem da country music como mera matriz composicional, usando as estilizações atmosféricas trazidas pelas texturas das guitarras trabalhadas do produtor Daniel Lanois para transcender as regras e fronteiras de géneros e criar algo que, muito decididamente, não é exactamente rock e também já há muito que deixou de ser country, mas é certamente alternativo a ambos. Que Emmylou tenha sido capaz de se reinventar de modo tão radical numa altura em que muitos outros já arrumaram as botas a um canto e se preferem refastelar nos confortos burgueses é apenas mais uma razão para a venerarmos.

As sequelas, "Red Dirt Girl" (Nonesuch, 2000) e "Stumble Into Grace" (Nonesuch, 2003), sem Lanois mas com Malcolm Burn na produção, são magníficas. Mas "Wrecking Ball" tem lugar cativo como um dos discos da minha vida. E é daqueles álbuns que só devemos partilhar com aqueles que nos são mais queridos e mais próximos. Porque Música destas não se explica; sente-se, apenas.

29 de setembro de 2004

DIAS DE MILAGRES E MARAVILHAS

Já não a ouvia há uns anos valentes, mas hoje percebi que é uma canção que resume muito bem o mundo em que vivemos, ou não fosse Paul Simon um letrista inspirado e um daqueles songwriters assombrosos de que nunca ninguém se recorda (vês, MacGuffin, não é só do Elvis que ninguém se lembra...). Pormenor: foi escrita há 18 anos. Mas parece que é hoje.

it was a slow day
and the sun was beating
on the soldiers by the side of the road
there was a bright light
a shattering of shop windows
the bomb in the baby carriage was wired to the radio

these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry

it was a dry wind
and it swept across the desert and it curled into the circle of birth
and the dead sand
falling on the children
the mothers and the fathers and the automatic earth

these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry

it's a turn-around jump shot
it's everybody jump start
it's every generation throws a hero up the pop charts
medicine is magical and magical is art
the boy in the bubble and the baby with the baboon heart

and I believe these are the days of lasers in the jungle
lasers in the jungle somewhere
staccato signals of constant information
a loose affiliation of millionaires and billionaires and baby
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry.


- Paul Simon, "The Boy in the Bubble", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #10

A caminho do consultório do dentista, que fica em Campo de Ourique, passo sempre pelo cinema Europa, à esquina entre a Almeida e Sousa e Francisco Metrass, à vista do Jardim da Parada; uma daquelas salas de bairro clássicas que murcharam e desapareceram depois do 25 de Abril. Algures nos anos 80, o Europa, com a estrutura que sempre identifico com o cinema Roma (hoje Forum Lisboa; balcão em rampa erguendo-se do fim da plateia), passou a estúdio de televisão da RTP, de onde era emitido o célebre "Um Dois Três". Agora, o Europa está encerrado, a fachada suja, as portas enferrujadas, as poucas lojas embutidas em espaços vazios da frontaria fechadas, vidraças tapadas com papel pardo. A fachada já não tem o enorme letreiro suspenso da esquina com a palavra "Europa" em queda vertical, e nem o nome em letras de metal sobre a fachada cega de frisos modulares anos 50 subsiste. Arquitectonicamente, sempre gostei muito destas fachadas cegas com o nome da sala iluminada de dentro em contra-luz (outras eram a do Avis, no Arco do Cego, hoje demolido, ou a do Pathé-ex-Imperial, à Praça do Chile, encerrado há quase 20 anos). Há qualquer coisa de nostálgico nisto, eu sei.

NO CONSULTÓRIO DO DENTISTA

No consultório do meu dentista, o televisor está sempre ligado na SIC, sempre com o som relativamente alto. Mas se o televisor ligado tem tudo a ver com o ambiente de casa de habitação antiga transformada em consultório improvisado, os frequentadores do consultório raramente me parecem o tipo de pessoa que estaria em casa à tarde a ver televisão. E nunca está realmente assim tanta gente que justifique estar um televisor na SIC com o som alto. Já pensei se não seriam as enfermeiras que querem ter ali o televisor — mas elas, aqui, estão a servir de assistente ao médico e, portanto, nunca estão ao pé do televisor.

27 de setembro de 2004

ESQUECIMENTO

Comecei por gostar da energia e do embalo da canção. Anteontem, por alguma razão, parei na letra, polaroid trava-línguas de algo que não devo ser só eu a sentir, mas também muito boa gente aí por essa comunidade de solidões a que chamamos cidade fora. Agora, ainda gosto mais da canção (e do disco). Alterem o género da primeira pessoa a vosso bel-prazer.

esta é sobre ti. tem amor e ódio
é para ires ouvindo nas tuas horas de ócio.
ínfima parte de um sonho perdido,
libertei-o já o tinha esquecido.
é o sinal.

espero um momento na sombra da rua
ouço uma voz que me lembra a tua.
passei pelo risco de sofrer
por não ler os teus sinais.
é o sinal
para recomeçar.

quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera

leva-me às areias quentes,
que mastigam os sentimentos
e me deixam nua perante os elementos.
ensina-me a escavar
objectos sem estragar
para que sorrir seja sempre vulgar.
dá-me de beber
finas gotas desse mel
para que o meu saber
não esteja só no papel.
incita-me a lembrar
do teu gosto pelo mar
para que um dia eu fique pronta a zarpar.

espero que amanhã tudo seja diferente
e que tu possas estar presente

quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera

incita-me a atirar os dados sem soprar
para que te vencer seja vulgar

quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera

incita-me a atirar
para recomeçar.


- João Pedro Coimbra para Mesa, "Esquecimento", in "Mesa" (Zona 2003; reed. Virgin/EMI 2004)

SIM, É VERDADE

Se estavam a guiar pela Marginal, entre Paço d'Arcos e Lisboa, hoje entre as 18h30 e as 19h00 e deram por um maluco que vinha a ouvir o sublime "Wrecking Ball" de Emmylou Harris à força toda com as janelas do carro abertas, não procurem mais longe: era eu.

26 de setembro de 2004

NA VIDA REAL #2

Continua o folclore: hoje, na reportagem da RTP-1, perguntava-se aos mirones que estavam na aldeia da Figueira o que pensavam do caso. Uma senhora sai-se com esta resposta magnífica: "eu não sei! Eu sou da Figueira da Foz!".

Antes, algumas imagens das "investigações por conta própria" de um grupo de populares que andavam a levantar as tampas dos esgotos todos, a ver se lá estaria o corpo que ninguém encontra, como se a polícia não estivesse a fazer o seu trabalho ou o estivesse a fazer mal (estará tão por baixo a opinião popular das instituições?).