Cosmopolita.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
27 de outubro de 2004
AUTO-CRÍPTICA
A questão, muitas vezes, não é tanto aquilo que eu sou e os outros não são, mas sim aquilo que os outros são que eu não sou.
25 de outubro de 2004
I DON'T WANT TO GROW UP
Lembrei-me desta canção de Tom Waits quando via, hoje, o novo episódio da minha telenovela preferida (calma, Ali, aguenta os cavais e não me venhas ainda às trombas). Porque é assim que o Big T se sentia hoje, a perguntar que mal fez ele a Deus para ter que aturar um mundo inteiro apostado em dar-lhe cabo da cabeça. É nestes dias que eu percebo porque é que "Os Sopranos" não é uma telenovela — porque, mafioso ou não, todos temos dias em que estamos "como à espera do comboio na paragem do autocarro". E as telenovelas nunca conseguem apanhar esses dias.
SOME MAY LIKE A SOFT BRAZILIAN SINGER
Caetano, sempre, admirável. Mesmo quando apropriando-se daquilo que não é seu. Mesmo quando é obrigado a apresentar um concerto feito de subtilezas e fragilidades num recinto tão cavernoso como o Pavilhão Atlântico. "A Foreign Sound" merecia um, dois, três Coliseus.
o pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
a Baía de Guanabara
o antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
pareceu-lhe uma boca banguela
e eu, menos a conhecera, mais a amara?
sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
o que é uma coisa bela?
o amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
uma arara?
mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
em que se passara passa passará um raro pesadelo
que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o Amaro
eu não sonhei:
a praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel
sob meus tênis
e o Pão de Açúcar menos óbvio possível
à minha frente
um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
à áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
do branco das areias e das espumas
que era tudo quanto havia então de aurora
estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
e uma menina ainda adolescente e muito linda
não olho pra trás mas sei de tudo
cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
mas eu não desejo ver o terno negro do velho
nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
essa coisa da luz nos brancos dente e onda
mas não pense surrealista que é outra onda)
e ouço as vozes
os dois me dizem
num duplo som
como que sampleados num Sinclavier:
"é chegada a hora da reeducação de alguém
do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
o certo é louco tomar eletrochoque
o certo é saber que o certo é certo
o macho adulto branco sempre no comando
e o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
riscar os índios, nada esperar dos pretos"
e eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
sigo mais sozinho caminhando contra o vento
e entendo o centro do que estão dizendo
aquele cara e aquela:
é um desmascaro
singelo grito:
"o rei está nu"
mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu
e eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
e entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
("some may like a soft brazilian singer
but I've given up all attempts at perfection").
- Caetano Veloso, "O Estrangeiro", in "Estrangeiro" (Philips, 1989)
Não Tem Tradução
Baby
Diana
So in Love
Something Good
Body and Soul
It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)
The Man I Love
Come as You Are
Feelings
We'll Take Manhattan
Manhatã
Diferentemente
Adeus Batucada
Brasil Pandeiro
Cucurrucucu Paloma
Love for Sale
Cry Me a River
Mora na Filosofia
Nature Boy
Detached
O Estrangeiro
The Carioca
encore
Love Me Tender
Manhã de Carnaval
Mamãe Eu Quero
o pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
a Baía de Guanabara
o antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
pareceu-lhe uma boca banguela
e eu, menos a conhecera, mais a amara?
sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
o que é uma coisa bela?
o amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
uma arara?
mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
em que se passara passa passará um raro pesadelo
que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o Amaro
eu não sonhei:
a praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel
sob meus tênis
e o Pão de Açúcar menos óbvio possível
à minha frente
um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
à áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
do branco das areias e das espumas
que era tudo quanto havia então de aurora
estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
e uma menina ainda adolescente e muito linda
não olho pra trás mas sei de tudo
cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
mas eu não desejo ver o terno negro do velho
nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
essa coisa da luz nos brancos dente e onda
mas não pense surrealista que é outra onda)
e ouço as vozes
os dois me dizem
num duplo som
como que sampleados num Sinclavier:
"é chegada a hora da reeducação de alguém
do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
o certo é louco tomar eletrochoque
o certo é saber que o certo é certo
o macho adulto branco sempre no comando
e o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
riscar os índios, nada esperar dos pretos"
e eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
sigo mais sozinho caminhando contra o vento
e entendo o centro do que estão dizendo
aquele cara e aquela:
é um desmascaro
singelo grito:
"o rei está nu"
mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu
e eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
e entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
("some may like a soft brazilian singer
but I've given up all attempts at perfection").
- Caetano Veloso, "O Estrangeiro", in "Estrangeiro" (Philips, 1989)
Não Tem Tradução
Baby
Diana
So in Love
Something Good
Body and Soul
It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)
The Man I Love
Come as You Are
Feelings
We'll Take Manhattan
Manhatã
Diferentemente
Adeus Batucada
Brasil Pandeiro
Cucurrucucu Paloma
Love for Sale
Cry Me a River
Mora na Filosofia
Nature Boy
Detached
O Estrangeiro
The Carioca
encore
Love Me Tender
Manhã de Carnaval
Mamãe Eu Quero
24 de outubro de 2004
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #39
Jactancioso.
(cortesia do Luís G.)
(cortesia do Luís G.)
23 de outubro de 2004
O CATACLISMO DO VESTUÁRIO
Descobri hoje, para grande surpresa minha, que embora a empregada da loja jure a pés juntos que não e que bem pelo contrário, a Levi's parece ter "desafunilado" os jeans 501 para eles descambarem no horror da "boca de sino". Embora isto não seja minimamente importante no esquema geral da felicidade mundial, é uma catástrofe para a minha pessoa. É que eu detesto; não, corrijo, eu abomino calças ditas "à boca de sino", e vejo-me agora com grandes dificuldades em encontrar uns jeans sérios de calças discretamente afuniladas. Vá lá, pelo menos ainda têm as tradicionais cores sólidas das calças de ganga.
22 de outubro de 2004
A HISTÓRIA DO REI QUE IA NU, E TAL
Meu Deus, como Miguel Sousa Tavares continua certeiro nas suas análises políticas. E, curiosamente, eu e alguns amigos tínhamos ontem aflorado estas questões ao almoço, a própósito daquilo que sentimos como uma baixa de nível alarmante na qualidade do jornalismo português. Mas, aqui entre nós, não é só a baixa do nível dos jornalistas acabadinhos de sair do forno das escolas de comunicação social que ensinam as teorias mas não preparam minimamente para o embate com a prática quotidiana — é também a queda brutal do nível de exigência de quem lê. Quando a tabloidização que começa já a alastrar às televisões (vide o triste episódio da menina algarvia) começa a ganhar terreno em substituição do que deveria ser uma ética minimamente contida, então começamos a perceber que a nossa mesquinhez sôfrega de emoções fortes por procuração não merece realmente mais que o baixo nível que recebe em troca.
E assim se perde um país — por um desgoverno que, não sendo de agora, está agora literalmente exposto. A nu, para quem o quiser ver em vez de fingir que o rei vai ricamente trajado.
E assim se perde um país — por um desgoverno que, não sendo de agora, está agora literalmente exposto. A nu, para quem o quiser ver em vez de fingir que o rei vai ricamente trajado.
21 de outubro de 2004
AN EVENING WITH THE MAGNETIC FIELDS
Mesmo que faças um único e mísero encore, desculpo-te tudo, Stephin Merritt, porque I love it when you sing to me/ and you/ you can sing me anything. E porque, mesmo que não tenhas tocado "The Luckiest Guy on the Lower East Side", nem "Busby Berkeley Dreams", nem "The Death of Ferdinand de Saussure", nem "Let's Pretend We're Bunny Rabbits", tocaste "Swinging London", e "All My Little Words", e "Papa Was a Rodeo" e "It's Only Time" uma a seguir à outra. E porque as canções de "I" ainda são melhores em palco. E porque, raios, és capaz de ser o maior songwriter americano vivo a aspirar ao trono de Cole Porter ou Irving Berlin — porque as tuas canções sobrevivem a tudo e ainda ganham com a mudança de formato, porque sabes que não há medalha sem reverso, bela sem senão, alegria sem tristeza. Se não tivesse havido Elvis Costello, terias feito o concerto do ano — frágil, delicado, improvavelmente erguendo-se de uma corda bamba onde arriscava cair a cada segundo. Vem mais vezes. Por favor.
I Was Born
I Don't Believe in the Sun
A Chicken with Its Head Cut Off
I Looked All Over Town
Come Back from San Francisco
I Don't Really Love You Anymore
All the Umbrellas in London
If You Don't Cry
Born on a Train
I Wish I Had an Evil Twin
One April Day
I Don't Believe in You
Suddenly There Is a Tidal Wave
All My Little Words
If There's Such a Thing as Love
I Thought You Were My Boyfriend
A Pretty Girl Is Like...
Swinging London
Smoke and Mirrors
The Book of Love
Reno Dakota
Papa Was a Rodeo
It's Only Time
encore
I Die
I Was Born
I Don't Believe in the Sun
A Chicken with Its Head Cut Off
I Looked All Over Town
Come Back from San Francisco
I Don't Really Love You Anymore
All the Umbrellas in London
If You Don't Cry
Born on a Train
I Wish I Had an Evil Twin
One April Day
I Don't Believe in You
Suddenly There Is a Tidal Wave
All My Little Words
If There's Such a Thing as Love
I Thought You Were My Boyfriend
A Pretty Girl Is Like...
Swinging London
Smoke and Mirrors
The Book of Love
Reno Dakota
Papa Was a Rodeo
It's Only Time
encore
I Die
20 de outubro de 2004
CABALAS DE CORRIDA
Lendo este elucidativo pedaço de prosa jornalística, surgiu no meu espírito a seguinte pergunta: se fôr a favor, uma cabala já será justificável? E o que é que a Madonna, essa estudiosa da cabala, tem a dizer sobre o assunto?
19 de outubro de 2004
FORD, MODELO ÚNICO
Embora isto pertença mais ao outro blog (lá chegaremos, em breve), não resisto. Sim, John Ford é qualquer coisa muito próxima de um Deus em termos cinematográficos, e a trilogia da cavalaria é das coisas mais sublimes que jamais engenho humano criou, Arte com A grande, e Ford é cineasta cá do coração. Só espero que o MacGuffin não vá buscar o Colt por eu ousar dizer que, à "Desaparecida", que é um belíssimo filme, prefiro de longe "Os Dominadores"...
A CASA ENCANTADA
Os arquivos entram online: na Casa Encantada vão estar, a partir de agora, as fichas e alguns comentários aos filmes que vi/vou vendo, colocando finalmente (e lentamente) disponível a base de dados (aleatória, pessoal e intransmissível) que fui construindo ao longo dos anos. Visitem sempre que quiserem.
18 de outubro de 2004
O "CLÁSSICO" (POST SNOB)
É precisamente por causa de jogos como o de ontem que me recuso a gostar de futebol: qualquer jogo que ponha milhares de pessoas a portarem-se como perfeitos anormais, como adolescentes imberbes que ainda nem entraram na puberdade, não merece realmente que nos interessemos por ele. Se aquilo é um "clássico", então o classicismo, claramente, já não é o que era.
17 de outubro de 2004
TÁXI AO DOMINGO
Sempre que apanha um táxi ao domingo, fico com a forte impressão que, ao domingo, os taxistas "habituais" estão de folga e deixam o campo livre aos "ocasionais" que procuram adicionar uns cobres extra ao seu rendimento regular fazendo um biscate de fim-de-semana.
E fico com esta forte impressão porque, falando estatisticamente da minha experiência pessoal, aos domingos há muito menos taxistas que sabem onde ficam os destinos que lhes pedem. Percebo perfeitamente que um taxista não conheça uma rua obscura como é a Luís Derouet, em Campo de Ourique (uma rua curta, de dois quarteirões e sentido único, paralela à Ferreira Borges) ou uma menos conhecida como a Triângulo Vermelho (transversal à Heliodoro Salgado que vai dar à Penha de França mais próximo de Sapadores).
Mas qualquer coisa está mal quando, esta noite, entro num táxi junto ao Banco de Portugal, peço ao condutor para me levar à avenida Álvares Cabral e ele, com sotaque brasileiro, me diz que "não sabe onde fica".
Sem dizer uma palavra, saí do táxi e mandei parar outro. Ele ainda voltou para trás, dizendo "senhor, entre que eu levo". Mas recuso-me a ser conduzido por um taxista que, literalmente, não sabe para onde vai.
E fico com esta forte impressão porque, falando estatisticamente da minha experiência pessoal, aos domingos há muito menos taxistas que sabem onde ficam os destinos que lhes pedem. Percebo perfeitamente que um taxista não conheça uma rua obscura como é a Luís Derouet, em Campo de Ourique (uma rua curta, de dois quarteirões e sentido único, paralela à Ferreira Borges) ou uma menos conhecida como a Triângulo Vermelho (transversal à Heliodoro Salgado que vai dar à Penha de França mais próximo de Sapadores).
Mas qualquer coisa está mal quando, esta noite, entro num táxi junto ao Banco de Portugal, peço ao condutor para me levar à avenida Álvares Cabral e ele, com sotaque brasileiro, me diz que "não sabe onde fica".
Sem dizer uma palavra, saí do táxi e mandei parar outro. Ele ainda voltou para trás, dizendo "senhor, entre que eu levo". Mas recuso-me a ser conduzido por um taxista que, literalmente, não sabe para onde vai.
16 de outubro de 2004
PEQUENA RECEITA PARA AFASTAR O MAU FEITIO
Naan de alho e um bagia de cebola com chutney de menta e um pouco de picante diluído, frango tikka com arroz pilau, duas colas, um descafeinado, três amigos de ambos os sexos e um restaurante indiano de confiança à sexta à noite. Animação garantida.
15 de outubro de 2004
EM RESPOSTA À PERGUNTA QUE SE IMPÕE
Hoje sou cínico. Amanhã, não sei.
(ver o Y de hoje para a pergunta)
(ver o Y de hoje para a pergunta)
14 de outubro de 2004
OS AMANHÃS QUE CANTAM (MAS ALGUÉM SE ESQUECEU DE LIGAR O MICROFONE)
Estou com Luiz Felipe Scolari, que já se deve andar há uns largos meses a perguntar em que raio de país pré-histórico veio parar: vão-se foder. Todos.
E vais-me desculpar, Alexandre, mas cada vez mais me convenço que Portugal não merece a gente boa que ainda vai tendo. E que é cada vez menos e tem cada vez menos paciência para o país que lhe calhou em sorte. Começo a concordar com o meu amigo João: anexe-se isto a Espanha, depressa e em força, e bardamerda para a "nação imortal" e para outras patetices nacionalistas de quem ainda acredita em sonhos de impérios desfeitos que talvez só tenham existido na cabeça de quem os sonhou.
A verdade é só uma: somos um cantinho da Europa que não tem dinheiro para mandar cantar um cego, entregue ao Deus dará, e que anda aqui emproado armado em aristocrata decadente quando não passa de saloio novo-rico que se finge grande senhor.
Portugal não interessa nem ao menino Jesus. Aliás, esse desinteresse nota-se.
Scolari é que tem razão: de que vale uma pessoa ser o único a ralar-se? Qual é a recompensa do bom samaritano? (E não estou com isto a dizer que Scolari é um bom samaritano. Não façam interpretações literais.)
E vais-me desculpar, Alexandre, mas cada vez mais me convenço que Portugal não merece a gente boa que ainda vai tendo. E que é cada vez menos e tem cada vez menos paciência para o país que lhe calhou em sorte. Começo a concordar com o meu amigo João: anexe-se isto a Espanha, depressa e em força, e bardamerda para a "nação imortal" e para outras patetices nacionalistas de quem ainda acredita em sonhos de impérios desfeitos que talvez só tenham existido na cabeça de quem os sonhou.
A verdade é só uma: somos um cantinho da Europa que não tem dinheiro para mandar cantar um cego, entregue ao Deus dará, e que anda aqui emproado armado em aristocrata decadente quando não passa de saloio novo-rico que se finge grande senhor.
Portugal não interessa nem ao menino Jesus. Aliás, esse desinteresse nota-se.
Scolari é que tem razão: de que vale uma pessoa ser o único a ralar-se? Qual é a recompensa do bom samaritano? (E não estou com isto a dizer que Scolari é um bom samaritano. Não façam interpretações literais.)
13 de outubro de 2004
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #25
Pessoas que aproveitam as «pessoas amigas» que estavam na fila para o que quer que seja para passarem à frente do resto da fila. Como ontem, no atendimento ao cliente da Fnac do Chiado, quando uma terceira jovem chega no exacto momento em que as duas amigas se estavam a levantar e ocupa o lugar delas e, displicentemente, quando lhe é chamada a atenção, diz que «eu estava com elas e é rápido», ignorando o meu comentário «a senhora não estava na fila e eu não a vi aí sentada». Contei sete minutos de atendimento.
MALDITOS HEADPHONES
Isto parece-me uma questão interessante. Pessoalmente, acho de uma falta de educação gritante deixar que o nosso comunicador pessoal incomode a plateia no meio de um espectáculo, qualquer que ele seja (no limite, deixá-lo ligado mas em modo silêncio ou vibração, ou seja, sem incomodar os outros parece-me aceitável). Mas aí vem a célebre questão da liberdade pessoal...
PEQUENO AFORISMO MATINAL
O mundo seria tão mais interessante se não houvesse sempre "coisas a fazer".
A DESPROPÓSITO
No outro dia, o maradona protestou comigo por ter sido excluído do meu top-5 de blogs. Ao que lhe retorqui que um top-5 só pode ter cinco e que ausências de 15 dias na Flandres não ajudam à sua manutenção entre os cinco mais visitados. Folgo, por isso, em saber do retorno da 1poucomais de Roma (que inveja) e do Alexandre lá de onde quer que seja que esteve. Ter um top-5 de blogs mais visitados onde dois não são actualizados durante uma semana não abona em favor do bom gosto de ninguém e, passando à frente do chiste (ora aqui está uma bela palavra para a lista), andava-me a fazer falta ler-vos. Mesmo. Não façam isso muitas vezes para eu não ficar com mais stress do que o que já tenho s. f. f.
12 de outubro de 2004
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #24
Pessoas que vão a ante-estreias de filmes sem saber o que vão ver e, quando começam a compreender que não estão a apreciar o filme que estão a ver (assumindo que têm capacidade intelectual para apreciar), começam a perturbar o normal andamento da sessão, rindo, cochichando, atendendo telemóveis. Miguel Sousa Tavares dizia há umas semanas atrás na sua coluna do Público, com alguma presciência, que andam a fazer falta elites; subscrevendo parte dos argumentos que ele utilizou — nomeadamente o facto de as pessoas precisarem de aspirar a algo como motivação para o seu desenvolvimento enquanto pessoas — penso que o que anda realmente a fazer falta é boa educação. Um cházinho nunca fez mal a ninguém. (O meu é de tília, ou então de camomila s. f. f., que o meu médico diz-me que tenho muito stress.)
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #23
O clima de desinformação e mal-estar que se cria nas salas de espera dos consultórios médicos dos centros de saúde quando as velhotes, velhotas, senhoras e senhores de meia-idade e outros representantes do proletariado português decidem começar a desconfiar de que o médico não está a chamar os pacientes, não está a chamar os pacientes que devia, ou está a chamar pela ordem errada.
11 de outubro de 2004
O BOMBEIRO VOLUNTÁRIO
A notícia do Público de hoje sobre os bons esforços do ministro da Defesa para incentivar a mancebia contemporânea a encarar as forças armadas como carreira profissional, punindo os faltosos (que, presume-se, não estão ainda no mercado laboral e, logo, não têm exactamente fonte de rendimento próprio) ao Dia da Defesa Nacional com uma multa que pode ir aos mil euros, faz-me lembrar aquela célebre história de Raul Solnado que começa com o desígnio paternal "Meu filho, quer queiras, quer não queiras, hás-de ser bombeiro voluntário".
10 de outubro de 2004
POLAROID XUTOS
Um contingente de adolescentes betas (futuras tias), mascando pastilha elástica, cheirando a perfume caro, invadem o meu espaço vital (ler: as cadeiras vazias na fila da frente e ao meu lado), uma ou duas canções depois do concerto ter começado. Uma delas pergunta-me "desculpe, sabe onde é que se bebe aqui?" e respondo-lhe que não. Durante o concerto, dançam muito, gritam como se estivessem a ver qualquer ídolo adolescente (Britney Spears, Justin Timberlake), e quando não reconhecem as canções sacam do telemóvel e desatam a trocar mensagens. Duas delas escolhem um momento mais calmo para refazerem impossivelmente longamente o rabo de cavalo. Quando o concerto embarca na fase final dançam freneticamente na fila, de braços no ar, indiferentes a pisarem ou empurrarem quem está ao seu lado.
9 de outubro de 2004
CHAMA-ME TARZAN
A tal canção do teledisco do Chevy Chase é uma das mais aterradoras polaroides da encruzilhada da meia-idade que já li. Bem-humorada? Uma ova. Precisar de preencher um vazio, de tapar uma solidão, dê lá por onde der, não é, nunca, divertido. Falo por experiência. E para quem quiser ler nas entrelinhas, Paul Simon dá as pistas todas.
a man walks down the street
he says why am I soft in the middle now
why am I soft in the middle
the rest of my life is so hard
I need a photo opportunity
I want a shot at redemption
don't want to end up a cartoon
in a cartoon graveyard
bonedigger, bonedigger
dogs in the moonlight
far away my well-lit door
mr. beerbelly, beerbelly
get these mutts away from me
you know I don't find this stuff amusing anymore
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al
a man walks down the street
he says why am I short of attention
got a short little span of attention
and wo my nights are so long
where's my wife and family
what if I die here
who'll be my role model
now that my role model is
gone, gone
he ducked back down the alley
with some roly-poly little bat-faced girl
all along along
there were incidents and accidents
there were hints and allegations
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al
call me Al
a man walks down the street
it's a street in a strange world
maybe it's the third world
maybe it's his first time around
he doesn't speak the language
he holds no currency
he is a foreign man
he is surrounded by the sound
the sound
cattle in the marketplace
scatterlings and orphanages
he looks around, around
he sees angels in the architecture
spinning in infinity
he says amen! and hallelujah!
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al.
- Paul Simon, "You Can Call Me Al", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)
a man walks down the street
he says why am I soft in the middle now
why am I soft in the middle
the rest of my life is so hard
I need a photo opportunity
I want a shot at redemption
don't want to end up a cartoon
in a cartoon graveyard
bonedigger, bonedigger
dogs in the moonlight
far away my well-lit door
mr. beerbelly, beerbelly
get these mutts away from me
you know I don't find this stuff amusing anymore
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al
a man walks down the street
he says why am I short of attention
got a short little span of attention
and wo my nights are so long
where's my wife and family
what if I die here
who'll be my role model
now that my role model is
gone, gone
he ducked back down the alley
with some roly-poly little bat-faced girl
all along along
there were incidents and accidents
there were hints and allegations
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al
call me Al
a man walks down the street
it's a street in a strange world
maybe it's the third world
maybe it's his first time around
he doesn't speak the language
he holds no currency
he is a foreign man
he is surrounded by the sound
the sound
cattle in the marketplace
scatterlings and orphanages
he looks around, around
he sees angels in the architecture
spinning in infinity
he says amen! and hallelujah!
if you'll be my bodyguard
I can be your long lost pal
I can call you Betty
and Betty when you call me
you can call me Al.
- Paul Simon, "You Can Call Me Al", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)
8 de outubro de 2004
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #34
Hirsuto.
(cortesia do António P.)
(cortesia do António P.)
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #22
Pessoas que vão às ante-estreias e depois contam detalhadamente a história do filme a quem as queira ouvir, independentemente de elas quererem ou não ir ver o filme.
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #21
Pessoas que, inexplicavelmente, preferem andar pelo meio da rua, independentemente do trânsito, quando os passeios estão perfeitamente vazios.
6 de outubro de 2004
A ANEDOTA
Telejornal: Marcelo já não comenta na TVI e, enquanto isso, no Parlamento trocam-se dichotes sobre o teleponto de Sócrates.
Se Portugal é a anedota que tudo isto dá a entender, porque raio é que eu não tenho a mínima vontade de rir?
Se Portugal é a anedota que tudo isto dá a entender, porque raio é que eu não tenho a mínima vontade de rir?
A DÚVIDA METÓDICA
O meu irmão é um céptico em relação ao amor e à solidão e acha que a solidão é o estado natural do homo sapiens. Diz ele que estamos sempre sozinhos e, no fim de tudo, morremos sozinhos; porque o romance é uma coisa que, na visão dele, se desmorona muito rapidamente quando a doença e a decadência entram em jogo. O meu irmão é um realista pragmaticamente lúcido mas, aqui, gostava de acreditar que ele não tem razão; muito embora, confesso-vos, hoje seja um daqueles dias em que, como já dizia o outro, eu preciso de acreditar em qualquer coisa que faça sentido e que me faça sentir, porque lá fora as coisas são feias demais e tristes demais para ser verdade.
A contra-luz do pôr do sol, à entrada de Paço d'Arcos para a Marginal, torna as nuvens suspensas em algodão doce, papelão pintado de cenário de teatro. A metáfora é banal mas nem por isso menos potente: voltámos ao Portugal do cá-vamos-cantando-e-rindo que mascara uma angústia de não saber o que o amanhã traz, a dúvida metódica de tentar fazer sentido de uma burocracia tentacular em que tudo se perde na necessidade de cumprir quotas, preencher formulários, encaixar no sítio. E, desculpem lá a franqueza, há momentos em que as pessoas não querem enfrentar esses dragões sozinhos. Mas, como o meu irmão muito bem diz, não temos outro remédio. E é aí que reside o desafio — e também a dúvida.
A contra-luz do pôr do sol, à entrada de Paço d'Arcos para a Marginal, torna as nuvens suspensas em algodão doce, papelão pintado de cenário de teatro. A metáfora é banal mas nem por isso menos potente: voltámos ao Portugal do cá-vamos-cantando-e-rindo que mascara uma angústia de não saber o que o amanhã traz, a dúvida metódica de tentar fazer sentido de uma burocracia tentacular em que tudo se perde na necessidade de cumprir quotas, preencher formulários, encaixar no sítio. E, desculpem lá a franqueza, há momentos em que as pessoas não querem enfrentar esses dragões sozinhos. Mas, como o meu irmão muito bem diz, não temos outro remédio. E é aí que reside o desafio — e também a dúvida.
5 de outubro de 2004
A INSUSTENTÁVEL MELANCOLIA
Ainda não digeri devidamente o novo "Around the Sun", mas cada vez mais me parece que os R. E. M. desviaram a sua mira do rock de guitarras urgente e enérgico que fez o seu nome para uma espécie de tradução sonora do que é ser, hoje, um ser humano médio num mundo onde os pontos de referência estão cada vez mais difusos. Esse existencialismo burguês e urbano mas nem por isso menos válido estava inteirinho no fim-de-Verão de "Reveal" e reencontra-se agora nas melopeias maioritariamente elegíacas de "Around the Sun" que, para já para já, me parece sofrer de uma excessiva uniformidade de tom que não favorece canções individuais. Mas, quanto mais vejo o belíssimo teledisco e ouço a canção, mais me convenço que "Leaving New York" é uma jóiazinha melódica de infinita nostalgia, que traduz na perfeição o que é dizer adeus ao amor que se foi embora, perguntarmo-nos os infinitos "e se?..." que ficaram por dizer e fazer. (E não, Pedro, não lembra nada Phil Collins. Nem de longe.)
it's quiet now
and what it brings
is everything
comes calling back
a brilliant night
I'm still awake
I looked ahead, I'm sure I saw you there
you don't need me to tell you now
that nothing can compare
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out
now life is sweet
and what it brings
I try to take
but loneliness
it wears me out
it lies in wait
and all not lost still in my eye
the shadow of necklace across your thigh.
I might've lived my life in a dream but I swear it.
this is real.
memory fuses and shatters like glass.
mercurial future. forget the past
it's you
it's what I feel
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out
you find it in your heart.
it's pulling me apart.
you find it in your heart.
change
I told you, forever
I love you forever.
I told you I love you
I love you forever
you never, you never
you told me forever...
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out.
- Michael Stipe para R. E. M., "Leaving New York", in "Around the Sun" (Warner Bros., 2004)
it's quiet now
and what it brings
is everything
comes calling back
a brilliant night
I'm still awake
I looked ahead, I'm sure I saw you there
you don't need me to tell you now
that nothing can compare
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out
now life is sweet
and what it brings
I try to take
but loneliness
it wears me out
it lies in wait
and all not lost still in my eye
the shadow of necklace across your thigh.
I might've lived my life in a dream but I swear it.
this is real.
memory fuses and shatters like glass.
mercurial future. forget the past
it's you
it's what I feel
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud.
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out
you find it in your heart.
it's pulling me apart.
you find it in your heart.
change
I told you, forever
I love you forever.
I told you I love you
I love you forever
you never, you never
you told me forever...
you might have laughed if I told you
you might have hidden a frown.
you might have succeeded in changing me
I might have been turned around.
it's easier to leave than to be left behind
leaving was never my proud
leaving New York, never easy.
I saw the light fading out.
- Michael Stipe para R. E. M., "Leaving New York", in "Around the Sun" (Warner Bros., 2004)
A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA
Uma breve passagem pelos noticiários de hoje, dia 5 de Outubro:
— o Ministro dos Assuntos Parlamentares apela à Alta Autoridade para a Comunicação Social para que esta se pronuncie sobre o teor dos comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa na TVI (subentendendo-se que ele apela para que esta se pronuncie contra o mefistofélico professor, para usar a deliciosa alcunha posta pela "Contra-Informação"), e, num discurso em Viseu, põe em dúvida as capacidades intelectuais do novo Secretário-Geral do PS, José Sócrates
— a população de Canas de Senhorim acorrenta-se à porta do Palácio de Belém para que o Presidente da República (que, àquela hora, deveria estar a caminho das cerimónias comemorativas do 5 de Outubro) resolva o seu problema de identidade que, há uns anitos atrás, se manifestou ruidosamente à porta do Centro Vasco da Gama numa parada do 25 de Abril; e uma das senhoras de Canas de Senhorim vem à câmara dizer que houve quem fosse espancada pela polícia como nos tempos do fascismo
— o anúncio de que Carlos Carvalhas vai resignar como Secretário-Geral do PCP, não existindo ainda um sucessor nomeado, tem honras de abertura nos noticiários
— o Presidente da República dá um raspanete ao Primeiro-Ministro e por extensão ao Governo no seu discurso do 5 de Outubro
— o Primeiro-Ministro não comenta o discurso do Presidente da República no momento, apressando-se a sair dos Paços do Concelho (no que um jornalista da RTP-1 definiu, à hora do almoço, como "uma grande confusão, com cadeiras pelo chão") mas, mais tarde, comenta que o discurso era "a pedra que faltava" para o Governo realizar as reformas necessárias
E foi para isto que se implantou a República há 94 anos.
— o Ministro dos Assuntos Parlamentares apela à Alta Autoridade para a Comunicação Social para que esta se pronuncie sobre o teor dos comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa na TVI (subentendendo-se que ele apela para que esta se pronuncie contra o mefistofélico professor, para usar a deliciosa alcunha posta pela "Contra-Informação"), e, num discurso em Viseu, põe em dúvida as capacidades intelectuais do novo Secretário-Geral do PS, José Sócrates
— a população de Canas de Senhorim acorrenta-se à porta do Palácio de Belém para que o Presidente da República (que, àquela hora, deveria estar a caminho das cerimónias comemorativas do 5 de Outubro) resolva o seu problema de identidade que, há uns anitos atrás, se manifestou ruidosamente à porta do Centro Vasco da Gama numa parada do 25 de Abril; e uma das senhoras de Canas de Senhorim vem à câmara dizer que houve quem fosse espancada pela polícia como nos tempos do fascismo
— o anúncio de que Carlos Carvalhas vai resignar como Secretário-Geral do PCP, não existindo ainda um sucessor nomeado, tem honras de abertura nos noticiários
— o Presidente da República dá um raspanete ao Primeiro-Ministro e por extensão ao Governo no seu discurso do 5 de Outubro
— o Primeiro-Ministro não comenta o discurso do Presidente da República no momento, apressando-se a sair dos Paços do Concelho (no que um jornalista da RTP-1 definiu, à hora do almoço, como "uma grande confusão, com cadeiras pelo chão") mas, mais tarde, comenta que o discurso era "a pedra que faltava" para o Governo realizar as reformas necessárias
E foi para isto que se implantou a República há 94 anos.
4 de outubro de 2004
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #20
É espantoso como as pessoas são capazes de colocarem tanto de malévolo numa simples buzinadela de automóvel, através da simples modulação de intensidade e ritmo do toque, sem terem a mínima razão para o fazer. Para que conste, essa buzinadela agastada deveria ir, isso sim, para o irresponsável estacionado na rotunda do Jardim da Estrela. Mas claro que quem tem de se desviar é que leva com ela.
3 de outubro de 2004
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #33
Prolegómeno.
(cortesia da Ana P.)
(cortesia da Ana P.)
LOGBOOK #20: EM GRUPO
Sesimbra: Ponta da Passagem, domingo 3 de Outubro, 11h31: 13.5m, 55min, 16º C
Do mergulho em si não há muito a dizer, a não ser que a suspensão da água, agitada pela fola progressivamente maior mesmo junto à costa e que criava efeitos de corrente dentro da passagem propriamente dita, acabou por confirmar as minhas primeiras suspeitas quando largámos ferro junto à Ponta: ia ser uma boa oportunidade para treinar a orientação e a flutuabilidade, como foi. O que eu não suspeitava de todo é que ia servir de "guia turístico" da Ponta — ou, enfim, do que estava visível pelo meio da água indiferente — de um grupo de sete outros mergulhadores "orientado" pelo Carlos Pereira, menos conhecedores da zona, entre os quais três "estreantes" (ao que me pareceu) em tempo de primeiro mergulho pós-curso.
É curioso ver, então, as dinâmicas que se criam dentro de um grupo de amigos. Descontemos os "juniores" Daniel e Gonçalo, bastante à-vontade para quem está apenas a começar (o Daniel, que foi meu parceiro num sistema de pares que acabou por nunca se distanciar do grupo, chegou à superfície com mais ou menos o mesmo ar na garrafa que eu). A Maria João, fotógrafa oficial, manteve-se discreta, o Fernando e o Pedro fizeram o número dos compinchas truculentos mas sempre atentos ao que se passa à volta (a começar pela precinta da barbatana que rebenta logo antes de entrar na água), o Carlos à vontade mas a controlar como quem não quer a coisa, e sempre todos à espreita uns dos outros para garantir que tudo corria bem. Até quando o sétimo elemento e terceiro "estreante", o Rui, que descera enjoado da ondulação persistente à superfície enquanto se equipava no barco e ansioso da longa espera antes de se meter à água, volta sozinho à superfície a pouco tempo do início do mergulho; o Carlos, que não era sequer o parceiro "oficial" , quando dá pela falta, pára tudo e vai à procura dele.
Apesar dos pequenos contratempos — a meia-hora na água à espera que o grupo se reúna para descer, a confusão que às vezes reina lá em baixo quando se está mais em grupo do que em pares — se todos se entendem, como hoje, mergulhar com um grupo de amigos que partilham a paixão e o bom humor é uma experiência realmente divertida. Enriquecedora, até.
Do mergulho em si não há muito a dizer, a não ser que a suspensão da água, agitada pela fola progressivamente maior mesmo junto à costa e que criava efeitos de corrente dentro da passagem propriamente dita, acabou por confirmar as minhas primeiras suspeitas quando largámos ferro junto à Ponta: ia ser uma boa oportunidade para treinar a orientação e a flutuabilidade, como foi. O que eu não suspeitava de todo é que ia servir de "guia turístico" da Ponta — ou, enfim, do que estava visível pelo meio da água indiferente — de um grupo de sete outros mergulhadores "orientado" pelo Carlos Pereira, menos conhecedores da zona, entre os quais três "estreantes" (ao que me pareceu) em tempo de primeiro mergulho pós-curso.
É curioso ver, então, as dinâmicas que se criam dentro de um grupo de amigos. Descontemos os "juniores" Daniel e Gonçalo, bastante à-vontade para quem está apenas a começar (o Daniel, que foi meu parceiro num sistema de pares que acabou por nunca se distanciar do grupo, chegou à superfície com mais ou menos o mesmo ar na garrafa que eu). A Maria João, fotógrafa oficial, manteve-se discreta, o Fernando e o Pedro fizeram o número dos compinchas truculentos mas sempre atentos ao que se passa à volta (a começar pela precinta da barbatana que rebenta logo antes de entrar na água), o Carlos à vontade mas a controlar como quem não quer a coisa, e sempre todos à espreita uns dos outros para garantir que tudo corria bem. Até quando o sétimo elemento e terceiro "estreante", o Rui, que descera enjoado da ondulação persistente à superfície enquanto se equipava no barco e ansioso da longa espera antes de se meter à água, volta sozinho à superfície a pouco tempo do início do mergulho; o Carlos, que não era sequer o parceiro "oficial" , quando dá pela falta, pára tudo e vai à procura dele.
Apesar dos pequenos contratempos — a meia-hora na água à espera que o grupo se reúna para descer, a confusão que às vezes reina lá em baixo quando se está mais em grupo do que em pares — se todos se entendem, como hoje, mergulhar com um grupo de amigos que partilham a paixão e o bom humor é uma experiência realmente divertida. Enriquecedora, até.
2 de outubro de 2004
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #11
Não tenho idade para me lembrar do "Zip Zip"; tinha um ano de idade quando o mais mítico dos programas da televisão portuguesa foi para o ar, e as memórias que dele tenho são aquelas mediadas pelas imagens de arquivo com que fui crescendo e pelo estatuto que foi crescendo à volta do programa na memória colectiva. Porque as minhas memórias de infância, as minhas imagens de infância repartem-se, em partes iguais, pela tela gigante do cinema e pelo grande écrã a preto e branco da velha Grundig que dominava a sala de estar de casa dos meus pais, colocada a um canto a fazer pendant com a cristaleira de mogno que enquadrava o outro canto e, anos mais tarde, já na década de 80, substituida primeiro por um receptor "marca anzol" a cores e só depois por outra Grundig.
As minhas memórias são as da primeira encarnação da TV Guia — uma revistinha grossa de formato "bolso", tipo Crónica Feminina ou Selecções do Reader's Digest, cujo primeiro ano, algures em 1975? ou 1976?, eu guardei religiosamente durante anos numa gaveta da estante que ainda existe em casa dos meus pais. São as dos Festivais da Canção e da Eurovisão que, antes da conversão ao gravador de cassetes em 1976/77, gravávamos em bobines de fita magnética no "magnetophone" de bobines da BASF que ainda existe em casa dos meus pais. São as da "Visita da Cornélia", do "Écran Mágico" (concurso sobre cinema que Rui Mendes apresentava, às terças à noite, no canal 2), são as dos "Jovens Heróis de Shaolin" ou do "Kung-Fu" nas tardes de sábado do canal 1, numa altura em que ainda existiam apenas dois canais públicos.
As minhas memórias são as de uma televisão que era pobrezinha mas honrada e, contudo, dava muitas vezes lições ao que hoje se faz passar por aí como entretenimento televisivo e não passa de formatação calibrada por consultores para apelar ao que de mais básico há em nós. E não consigo deixar de pensar que, com a morte de José Fialho Gouveia, hoje, é também muito dessa televisão carola mas apaixonada que durante tantos anos foi a RTP que morre; talvez porque, ao contrário de outros, Gouveia tenha ficado teimosamente ligado a uma era clássica de TV portuguesa e não tenha sido reaproveitado nem redescoberto para formatos contemporâneos. Com Fialho Gouveia morreu "the real thing", não os ersatz ou recuperações fora de tempo posteriores.
As minhas memórias são as da primeira encarnação da TV Guia — uma revistinha grossa de formato "bolso", tipo Crónica Feminina ou Selecções do Reader's Digest, cujo primeiro ano, algures em 1975? ou 1976?, eu guardei religiosamente durante anos numa gaveta da estante que ainda existe em casa dos meus pais. São as dos Festivais da Canção e da Eurovisão que, antes da conversão ao gravador de cassetes em 1976/77, gravávamos em bobines de fita magnética no "magnetophone" de bobines da BASF que ainda existe em casa dos meus pais. São as da "Visita da Cornélia", do "Écran Mágico" (concurso sobre cinema que Rui Mendes apresentava, às terças à noite, no canal 2), são as dos "Jovens Heróis de Shaolin" ou do "Kung-Fu" nas tardes de sábado do canal 1, numa altura em que ainda existiam apenas dois canais públicos.
As minhas memórias são as de uma televisão que era pobrezinha mas honrada e, contudo, dava muitas vezes lições ao que hoje se faz passar por aí como entretenimento televisivo e não passa de formatação calibrada por consultores para apelar ao que de mais básico há em nós. E não consigo deixar de pensar que, com a morte de José Fialho Gouveia, hoje, é também muito dessa televisão carola mas apaixonada que durante tantos anos foi a RTP que morre; talvez porque, ao contrário de outros, Gouveia tenha ficado teimosamente ligado a uma era clássica de TV portuguesa e não tenha sido reaproveitado nem redescoberto para formatos contemporâneos. Com Fialho Gouveia morreu "the real thing", não os ersatz ou recuperações fora de tempo posteriores.
1 de outubro de 2004
VIVA O FIM-DE-SEMANA PROLONGADO
O Governo decidiu-se a dar tolerância de ponto aos funcionários públicos na segunda-feira. É espantoso como, dentro de uma mesma orientação ideológica de centro-direita, até dentro de um mesmo partido, é possível dois líderes terem atitudes tão diferentes: com Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite, era preciso era trabalhar, aumentar a produtividade, etc; Santana Lopes, ainda nem há três meses está no poder e já está a desfazer o que os anteriores fizeram.
Nada tenho contra as pontes (pelo contrário, adoraria poder fazê-las se fosse funcionário público, coisa que não sou), o que me choca apenas nesta situação particular é a inconstância de critérios, os sinais errados que se enviam; a vida das pessoas como catavento ao sabor das marés políticas. Há seis meses pedia-se contenção, trabalho e sacrifício; agora faz de conta que ninguém disse nada disso e vamos voltar a como era antes.
Só que, já dizia o outro, "you can't go home again".
Nada tenho contra as pontes (pelo contrário, adoraria poder fazê-las se fosse funcionário público, coisa que não sou), o que me choca apenas nesta situação particular é a inconstância de critérios, os sinais errados que se enviam; a vida das pessoas como catavento ao sabor das marés políticas. Há seis meses pedia-se contenção, trabalho e sacrifício; agora faz de conta que ninguém disse nada disso e vamos voltar a como era antes.
Só que, já dizia o outro, "you can't go home again".
30 de setembro de 2004
DIVINA EMMYLOU
Ouça-se o que a divina Emmylou Harris faz de "Orphan Girl", de Gillian Welch, na obra-prima "Wrecking Ball" (Asylum/Elektra, 1995): aquilo que noutras mãos seria azeite puro, a história da órfãzinha desgraçada que lamenta o seu triste fado e sonha com o dia em que Deus a leve para junto de si e da família que nunca conheceu, é elevado pela entrega transcendente da cantora, arrancada do fundo da alma, numa das mais puras e extraordinárias manifestações de fé e esperança que já ouvi, suficiente para arrancar uma emoção comovida enquanto, lá atrás, Daniel Lanois encena um carrocel aspiracional de cordas metálicas pontuado por percussões esparsas e tribais (Malcolm Burn, Larry Mullen Jr., Tony Hall).
Composto por canções de Lanois, Neil Young, Steve Earle, Gillian Welch, Bob Dylan, Jimi Hendrix (uma estratosférica reinvenção de "May This Be Love" para tarola seca e tempestade de guitarras eléctricas em descarga brutal), Rodney Crowell ou Julie Miller, "Wrecking Ball" é um álbum assombroso e assombrado, uma série de litanias texturadas que expressam uma religiosidade a um tempo paredes meias com o fundamentalismo e com uma qualquer espiritualidade pagã, entre os pântanos de New Orleans e as florestas do Vermont. Nele Emmylou redescobre uma voz pessoal que reinventa a linguagem da country music como mera matriz composicional, usando as estilizações atmosféricas trazidas pelas texturas das guitarras trabalhadas do produtor Daniel Lanois para transcender as regras e fronteiras de géneros e criar algo que, muito decididamente, não é exactamente rock e também já há muito que deixou de ser country, mas é certamente alternativo a ambos. Que Emmylou tenha sido capaz de se reinventar de modo tão radical numa altura em que muitos outros já arrumaram as botas a um canto e se preferem refastelar nos confortos burgueses é apenas mais uma razão para a venerarmos.
As sequelas, "Red Dirt Girl" (Nonesuch, 2000) e "Stumble Into Grace" (Nonesuch, 2003), sem Lanois mas com Malcolm Burn na produção, são magníficas. Mas "Wrecking Ball" tem lugar cativo como um dos discos da minha vida. E é daqueles álbuns que só devemos partilhar com aqueles que nos são mais queridos e mais próximos. Porque Música destas não se explica; sente-se, apenas.
29 de setembro de 2004
DIAS DE MILAGRES E MARAVILHAS
Já não a ouvia há uns anos valentes, mas hoje percebi que é uma canção que resume muito bem o mundo em que vivemos, ou não fosse Paul Simon um letrista inspirado e um daqueles songwriters assombrosos de que nunca ninguém se recorda (vês, MacGuffin, não é só do Elvis que ninguém se lembra...). Pormenor: foi escrita há 18 anos. Mas parece que é hoje.
it was a slow day
and the sun was beating
on the soldiers by the side of the road
there was a bright light
a shattering of shop windows
the bomb in the baby carriage was wired to the radio
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry
it was a dry wind
and it swept across the desert and it curled into the circle of birth
and the dead sand
falling on the children
the mothers and the fathers and the automatic earth
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry
it's a turn-around jump shot
it's everybody jump start
it's every generation throws a hero up the pop charts
medicine is magical and magical is art
the boy in the bubble and the baby with the baboon heart
and I believe these are the days of lasers in the jungle
lasers in the jungle somewhere
staccato signals of constant information
a loose affiliation of millionaires and billionaires and baby
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry.
- Paul Simon, "The Boy in the Bubble", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)
it was a slow day
and the sun was beating
on the soldiers by the side of the road
there was a bright light
a shattering of shop windows
the bomb in the baby carriage was wired to the radio
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry
it was a dry wind
and it swept across the desert and it curled into the circle of birth
and the dead sand
falling on the children
the mothers and the fathers and the automatic earth
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry
it's a turn-around jump shot
it's everybody jump start
it's every generation throws a hero up the pop charts
medicine is magical and magical is art
the boy in the bubble and the baby with the baboon heart
and I believe these are the days of lasers in the jungle
lasers in the jungle somewhere
staccato signals of constant information
a loose affiliation of millionaires and billionaires and baby
these are the days of miracle and wonder
this is the long distance call
the way the camera follows us in slo-mo
the way we look to us all
the way we look to a distant constellation that's dying in a corner of the sky
these are the days of miracle and wonder and don't cry baby, don't cry
don't cry.
- Paul Simon, "The Boy in the Bubble", in "Graceland" (Warner Bros., 1986)
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #10
A caminho do consultório do dentista, que fica em Campo de Ourique, passo sempre pelo cinema Europa, à esquina entre a Almeida e Sousa e Francisco Metrass, à vista do Jardim da Parada; uma daquelas salas de bairro clássicas que murcharam e desapareceram depois do 25 de Abril. Algures nos anos 80, o Europa, com a estrutura que sempre identifico com o cinema Roma (hoje Forum Lisboa; balcão em rampa erguendo-se do fim da plateia), passou a estúdio de televisão da RTP, de onde era emitido o célebre "Um Dois Três". Agora, o Europa está encerrado, a fachada suja, as portas enferrujadas, as poucas lojas embutidas em espaços vazios da frontaria fechadas, vidraças tapadas com papel pardo. A fachada já não tem o enorme letreiro suspenso da esquina com a palavra "Europa" em queda vertical, e nem o nome em letras de metal sobre a fachada cega de frisos modulares anos 50 subsiste. Arquitectonicamente, sempre gostei muito destas fachadas cegas com o nome da sala iluminada de dentro em contra-luz (outras eram a do Avis, no Arco do Cego, hoje demolido, ou a do Pathé-ex-Imperial, à Praça do Chile, encerrado há quase 20 anos). Há qualquer coisa de nostálgico nisto, eu sei.
NO CONSULTÓRIO DO DENTISTA
No consultório do meu dentista, o televisor está sempre ligado na SIC, sempre com o som relativamente alto. Mas se o televisor ligado tem tudo a ver com o ambiente de casa de habitação antiga transformada em consultório improvisado, os frequentadores do consultório raramente me parecem o tipo de pessoa que estaria em casa à tarde a ver televisão. E nunca está realmente assim tanta gente que justifique estar um televisor na SIC com o som alto. Já pensei se não seriam as enfermeiras que querem ter ali o televisor — mas elas, aqui, estão a servir de assistente ao médico e, portanto, nunca estão ao pé do televisor.
28 de setembro de 2004
27 de setembro de 2004
ESQUECIMENTO
Comecei por gostar da energia e do embalo da canção. Anteontem, por alguma razão, parei na letra, polaroid trava-línguas de algo que não devo ser só eu a sentir, mas também muito boa gente aí por essa comunidade de solidões a que chamamos cidade fora. Agora, ainda gosto mais da canção (e do disco). Alterem o género da primeira pessoa a vosso bel-prazer.
esta é sobre ti. tem amor e ódio
é para ires ouvindo nas tuas horas de ócio.
ínfima parte de um sonho perdido,
libertei-o já o tinha esquecido.
é o sinal.
espero um momento na sombra da rua
ouço uma voz que me lembra a tua.
passei pelo risco de sofrer
por não ler os teus sinais.
é o sinal
para recomeçar.
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
leva-me às areias quentes,
que mastigam os sentimentos
e me deixam nua perante os elementos.
ensina-me a escavar
objectos sem estragar
para que sorrir seja sempre vulgar.
dá-me de beber
finas gotas desse mel
para que o meu saber
não esteja só no papel.
incita-me a lembrar
do teu gosto pelo mar
para que um dia eu fique pronta a zarpar.
espero que amanhã tudo seja diferente
e que tu possas estar presente
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
incita-me a atirar os dados sem soprar
para que te vencer seja vulgar
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
incita-me a atirar
para recomeçar.
- João Pedro Coimbra para Mesa, "Esquecimento", in "Mesa" (Zona 2003; reed. Virgin/EMI 2004)
esta é sobre ti. tem amor e ódio
é para ires ouvindo nas tuas horas de ócio.
ínfima parte de um sonho perdido,
libertei-o já o tinha esquecido.
é o sinal.
espero um momento na sombra da rua
ouço uma voz que me lembra a tua.
passei pelo risco de sofrer
por não ler os teus sinais.
é o sinal
para recomeçar.
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
leva-me às areias quentes,
que mastigam os sentimentos
e me deixam nua perante os elementos.
ensina-me a escavar
objectos sem estragar
para que sorrir seja sempre vulgar.
dá-me de beber
finas gotas desse mel
para que o meu saber
não esteja só no papel.
incita-me a lembrar
do teu gosto pelo mar
para que um dia eu fique pronta a zarpar.
espero que amanhã tudo seja diferente
e que tu possas estar presente
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
incita-me a atirar os dados sem soprar
para que te vencer seja vulgar
quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera
quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
incita-me a atirar
para recomeçar.
- João Pedro Coimbra para Mesa, "Esquecimento", in "Mesa" (Zona 2003; reed. Virgin/EMI 2004)
SIM, É VERDADE
Se estavam a guiar pela Marginal, entre Paço d'Arcos e Lisboa, hoje entre as 18h30 e as 19h00 e deram por um maluco que vinha a ouvir o sublime "Wrecking Ball" de Emmylou Harris à força toda com as janelas do carro abertas, não procurem mais longe: era eu.
26 de setembro de 2004
NA VIDA REAL #2
Continua o folclore: hoje, na reportagem da RTP-1, perguntava-se aos mirones que estavam na aldeia da Figueira o que pensavam do caso. Uma senhora sai-se com esta resposta magnífica: "eu não sei! Eu sou da Figueira da Foz!".
Antes, algumas imagens das "investigações por conta própria" de um grupo de populares que andavam a levantar as tampas dos esgotos todos, a ver se lá estaria o corpo que ninguém encontra, como se a polícia não estivesse a fazer o seu trabalho ou o estivesse a fazer mal (estará tão por baixo a opinião popular das instituições?).
Antes, algumas imagens das "investigações por conta própria" de um grupo de populares que andavam a levantar as tampas dos esgotos todos, a ver se lá estaria o corpo que ninguém encontra, como se a polícia não estivesse a fazer o seu trabalho ou o estivesse a fazer mal (estará tão por baixo a opinião popular das instituições?).
LOGBOOK #19: PALMEIRAS BRAVIAS
Sesimbra: Pedra da Faneca, domingo 26 de Setembro, 10h55: 12.9m, 56min, 17º C
Há fola, e não é pouca, na Ponta da Passagem, como se vê pela espuma branca que se vê da superfície; mudança de rumo, voltamos atrás e lançamos o ferro algumas milhas antes da ponta, num spot à entrada da Baleeira onde a quantidade de rocha e alga dá espaço para manobrar. Aqui também há fala, mas mantemo-nos mais afastados da costa — a profundidade (média nove metros) permite andarmos ali a brincar uma hora (o João volta para cima ainda com 90 bares, mas é certo que a garrafa dele tem 15 litros contra os 12 da minha).
Concentro-me em não me cansar, em não resistir contra a fola que a espaços no percurso nos arrasta para lá e para cá e cria a minha ilusão de óptica subaquática favorita — o deslizar das rochas sobre a areia, quando afinal são os espessos tufos de algas que, levados e trazidos pela corrente, se movem por cima das rochas. Mas é divertido ver os próprios peixes serem arrastados sem resistir até encontrarem uma zona mais calma.
E há muitos peixes, desde cardumes a exemplares solitários; e há também linhas de pesca emaranhadas em rochas, camisolas ou chapéus no fundo; e a visibilidade é suficientemente boa para ganhar o mergulho. E há uma imagem indelével: a certa altura, de entre um fundo meio arenoso, meio rochoso, erguem-se caules de algas castanhos, grossos, com grandes folhas de aspecto de alcatifa, batidas pela ondulação como se fossem palmeiras ondulando ao vento. Uma floresta tropical subaquática.
Há fola, e não é pouca, na Ponta da Passagem, como se vê pela espuma branca que se vê da superfície; mudança de rumo, voltamos atrás e lançamos o ferro algumas milhas antes da ponta, num spot à entrada da Baleeira onde a quantidade de rocha e alga dá espaço para manobrar. Aqui também há fala, mas mantemo-nos mais afastados da costa — a profundidade (média nove metros) permite andarmos ali a brincar uma hora (o João volta para cima ainda com 90 bares, mas é certo que a garrafa dele tem 15 litros contra os 12 da minha).
Concentro-me em não me cansar, em não resistir contra a fola que a espaços no percurso nos arrasta para lá e para cá e cria a minha ilusão de óptica subaquática favorita — o deslizar das rochas sobre a areia, quando afinal são os espessos tufos de algas que, levados e trazidos pela corrente, se movem por cima das rochas. Mas é divertido ver os próprios peixes serem arrastados sem resistir até encontrarem uma zona mais calma.
E há muitos peixes, desde cardumes a exemplares solitários; e há também linhas de pesca emaranhadas em rochas, camisolas ou chapéus no fundo; e a visibilidade é suficientemente boa para ganhar o mergulho. E há uma imagem indelével: a certa altura, de entre um fundo meio arenoso, meio rochoso, erguem-se caules de algas castanhos, grossos, com grandes folhas de aspecto de alcatifa, batidas pela ondulação como se fossem palmeiras ondulando ao vento. Uma floresta tropical subaquática.
25 de setembro de 2004
NA VIDA REAL
Francamente, já não sei o que é pior nesta história da menina desaparecida que parece ter sido morta pela própria mãe: se o horror indizível do crime em si, se o horror indizível do circo mediático que se montou à sua volta. Ou melhor: o crime em si é certamente o indesculpável e irredimível pior de tudo, mas é um acto único, isolado (ou assim, pelo menos, a nossa consciência nos leva a pensar). Tudo o que o tem rodeado, contudo, levanta-me seriíssimas questões sobre o país e a sociedade em que vivemos.
Como, por exemplo, sobre a moralidade que rodeia os mirones que, acompanhados às vezes pela família toda, fazem esperas à porta dos tribunais, dos postos policiais, até da zona onde a família habitava, à espera de ver não se sabe exactamente o quê, talvez apenas pela vontade de estarem num sítio onde aconteceu qualquer coisa, por mais horrível que seja. Sobre o espírito de matilha que leva a populaça a acossar os criminosos, a insultá-los publicamente, a agruparem-se à sua volta como se quisessem fazer justiça pela suas próprias mãos. Sobre a justificação de os telejornais perderem 15, 20, 25 minutos com reportagens que nada trazem de novo e apenas aumentam a especulação e o mistério que rodeia o caso, numa espécie de pescadinha de rabo na boca. Como, há pouco, na RTP-1, quando se mostravam imagens da deslocação dos investigadores, acompanhados por um dos suspeitos, à zona de residência da família, para logo a seguir se verem os populares (um dos quais de calções e camisa aberta) a seguirem os investigadores, a mandarem "bitaites" sobre a situação, a fazerem ameaças até a GNR chegar.
Tudo isto me parece patético, uma tragédia (que o é, realmente) distorcida e exagerada até ao melodramatismo mais rasteiro e boçal pela sofreguidão de procurar desvalorizar o cinzentismo acabrunhado da vida em Portugal pensando que há sempre alguém pior do que nós. E o mais triste é que este Portugal provinciano é muito mais o país real do que o Portugal dinâmico e cosmopolita que os políticos querem fazer passar e em que muitos de nós preferimos acreditar.
Como, por exemplo, sobre a moralidade que rodeia os mirones que, acompanhados às vezes pela família toda, fazem esperas à porta dos tribunais, dos postos policiais, até da zona onde a família habitava, à espera de ver não se sabe exactamente o quê, talvez apenas pela vontade de estarem num sítio onde aconteceu qualquer coisa, por mais horrível que seja. Sobre o espírito de matilha que leva a populaça a acossar os criminosos, a insultá-los publicamente, a agruparem-se à sua volta como se quisessem fazer justiça pela suas próprias mãos. Sobre a justificação de os telejornais perderem 15, 20, 25 minutos com reportagens que nada trazem de novo e apenas aumentam a especulação e o mistério que rodeia o caso, numa espécie de pescadinha de rabo na boca. Como, há pouco, na RTP-1, quando se mostravam imagens da deslocação dos investigadores, acompanhados por um dos suspeitos, à zona de residência da família, para logo a seguir se verem os populares (um dos quais de calções e camisa aberta) a seguirem os investigadores, a mandarem "bitaites" sobre a situação, a fazerem ameaças até a GNR chegar.
Tudo isto me parece patético, uma tragédia (que o é, realmente) distorcida e exagerada até ao melodramatismo mais rasteiro e boçal pela sofreguidão de procurar desvalorizar o cinzentismo acabrunhado da vida em Portugal pensando que há sempre alguém pior do que nós. E o mais triste é que este Portugal provinciano é muito mais o país real do que o Portugal dinâmico e cosmopolita que os políticos querem fazer passar e em que muitos de nós preferimos acreditar.
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #19
Programar canais no televisor, porque as sintonizações dos televisores nunca são "user-friendly". E parece que a TVCabo vai alterar as sintonias todas...
24 de setembro de 2004
NEVOEIRO
Estava eu ao jantar a conversar sobre insónias com os meus amigos Rui (um verdadeiro expert na matéria) e Paulo e estava longe de adivinhar que, nessa mesma noite, lá ia eu ter a mais monumental insónia de que tenho memória: até às quatro e meia da manhã sem dormir, apenas passando aqui e ali pelas brasas, composta pelo calor opressivo da noite, pelo som de uma melga que insistia em passear displicentemente à volta do quarto (animal irritante), pela ansiedade de não conseguir dormir. Nem o Valdispert da praxe serviu de alívio e só já perto das cinco da manhã consegui finalmente render-me ao sono, para me levantar às oito e meia.
Não conseguir dormir é o pior que me podem fazer. No dia a seguir a não dormir, literalmente, mordo; passo o dia numa espécie de limbo difuso, ao lado do mundo, meio fora meio dentro, a cabeça imersa no nevoeiro que, hoje de manhã, me recebeu ao entrar na Marginal vindo da Cruz Quebrada, um algodão opaco do qual os edifícios e os carros e os sinais emergem lentamente, como se se materializassem vindos do nada.
Não conseguir dormir é o pior que me podem fazer. No dia a seguir a não dormir, literalmente, mordo; passo o dia numa espécie de limbo difuso, ao lado do mundo, meio fora meio dentro, a cabeça imersa no nevoeiro que, hoje de manhã, me recebeu ao entrar na Marginal vindo da Cruz Quebrada, um algodão opaco do qual os edifícios e os carros e os sinais emergem lentamente, como se se materializassem vindos do nada.
23 de setembro de 2004
ETIMOLOGIA DAS EMOÇÕES #1
Em conversa casual com um amigo, descobri uma coisa curiosa: de entre as muitas expressões de carinho existentes, há uma que os meus pais nunca usaram e que, quando alguém a usa, me deixa infinitamente triste.
22 de setembro de 2004
O MEU PEQUENO CONTRIBUTO PARA A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO
O meu 12º ano, nos idos de 1985/86 na escola secundária Luísa de Gusmão, na Penha de França, foi talvez o mais estimulante de todos os meus anos lectivos: tinha apenas três cadeiras, de preparação para a minha opção universitária que tinha sido Letras; no caso das línguas estrangeiras, tratava-se de um misto de reciclagem/retrospectiva de conhecimentos e preparação para o ambiente universitário.
Tinha Português, com uma professora extraordinária que me ensinou a gostar de Fernando Pessoa e que detectou em mim um qualquer jeito, um qualquer dom para escrever. Foi uma das professoras que mais me marcou em todo o meu percurso escolar, porque se percebia que ela gostava genuinamente do que fazia, porque estava ali com prazer e garra. Não conseguiu que eu gostasse de Agustina Bessa-Luís. E acabei por ter um 12 no exame final do ano. Não fiquei preocupado, porque o meu curso não incluia o Português, mas fiquei triste, porque gostava de ter tido melhor nota, porque a professora merecia que eu tivesse tirado melhor nota. Aprendi essa lição.
Tinha Francês, com uma professora da "velha guarda", uma senhora idosa com ar de Avenidas Novas, que chegava à aula, sentava-se por trás da secretária e lia do manual e entrava em diálogo connosco a partir do manual. As aulas eram maçadoras e repetitivas e não havia ali nenhuma individualização dos alunos; não era provável que quem já soubesse francês viesse a aprender mais alguma coisa e que quem ainda não soubesse o suficiente conseguisse colmatar as lacunas. Tirei um 18 no exame final, mas não porque a professora tivesse feito alguma coisa para isso.
Tinha Inglês, com uma professora de meia-idade que parecia uma balconista de retrosaria da Baixa a falar inglês, com o pior sotaque inglês que eu achava que existia em Portugal (no que me enganava, quando percebi, mais tarde, no 2º ano da faculdade, que havia professoras universitárias que tinham pior sotaque). A senhora era bem-intencionada e esforçada, mas era dramaticamente desajustada do lugar — eu falava melhor inglês (e com melhor sotaque) do que ela. Para meu grande espanto tirei 20 no exame final, o que me levou a concluir que ou o grau de exigência era muito baixo ou o meu inglês era melhor do que eu achava. Em qualquer dos casos, soube mais tarde que a professora tinha ficado eufórica que um aluno dela tinha tirado um 20 — mesmo que, na prática, ela tivesse tido pouco a ver com a nota.
Tinha Português, com uma professora extraordinária que me ensinou a gostar de Fernando Pessoa e que detectou em mim um qualquer jeito, um qualquer dom para escrever. Foi uma das professoras que mais me marcou em todo o meu percurso escolar, porque se percebia que ela gostava genuinamente do que fazia, porque estava ali com prazer e garra. Não conseguiu que eu gostasse de Agustina Bessa-Luís. E acabei por ter um 12 no exame final do ano. Não fiquei preocupado, porque o meu curso não incluia o Português, mas fiquei triste, porque gostava de ter tido melhor nota, porque a professora merecia que eu tivesse tirado melhor nota. Aprendi essa lição.
Tinha Francês, com uma professora da "velha guarda", uma senhora idosa com ar de Avenidas Novas, que chegava à aula, sentava-se por trás da secretária e lia do manual e entrava em diálogo connosco a partir do manual. As aulas eram maçadoras e repetitivas e não havia ali nenhuma individualização dos alunos; não era provável que quem já soubesse francês viesse a aprender mais alguma coisa e que quem ainda não soubesse o suficiente conseguisse colmatar as lacunas. Tirei um 18 no exame final, mas não porque a professora tivesse feito alguma coisa para isso.
Tinha Inglês, com uma professora de meia-idade que parecia uma balconista de retrosaria da Baixa a falar inglês, com o pior sotaque inglês que eu achava que existia em Portugal (no que me enganava, quando percebi, mais tarde, no 2º ano da faculdade, que havia professoras universitárias que tinham pior sotaque). A senhora era bem-intencionada e esforçada, mas era dramaticamente desajustada do lugar — eu falava melhor inglês (e com melhor sotaque) do que ela. Para meu grande espanto tirei 20 no exame final, o que me levou a concluir que ou o grau de exigência era muito baixo ou o meu inglês era melhor do que eu achava. Em qualquer dos casos, soube mais tarde que a professora tinha ficado eufórica que um aluno dela tinha tirado um 20 — mesmo que, na prática, ela tivesse tido pouco a ver com a nota.
THE HARSH TRUTH OF THE CAMERA EYE
Já alguém reparou na foto da capa do Público de hoje, em que Nuno Morais Sarmento parece estar a fulminar Maria do Carmo Seabra com o seu olhar?
21 de setembro de 2004
LINGUÍSTICA ROMENA
Por causa do oto-verme dos O-Zone, "Dragostea Din Tei", está tudo em paroxismos de delírio a tentar decifrar os mistérios da linguística romena... sobretudo em versão Lego.
20 de setembro de 2004
CAÇADORES DE DESTROÇOS
Era o título do documentário que passou ontem no "Bombordo", produzido pela equipa do lendário magazine francês do mar "Thalassa" (que, de certa maneira, foi o modelo e a matriz do "Bombordo" quando este, inicialmente, produzia a maior parte das reportagens localmente antes de se transformar no "despachante de enlatados" que é agora). Repete no próximo sábado às 13h00 na 2: e segue o trabalho de uma equipa de arqueólogos subaquáticos franceses em serviço na Bretanha. Perto de fim, Michel L'Hour, o director da equipa, diz que encontrar um naufrágio debaixo de água nunca equivale à imagem romanceada que muitos à superfície fazem — e as imagens do programa, com as águas batidas, de corrente forte e visibilidade sofrível, explicam muito melhor as dificuldades do que qualquer discurso — mas que, devido á proximidade física, devido à presença dos destroços, acaba por ser uma emoção muito mais forte e poderosa, melhor do que qualquer fantasia romântica.
(Agora começo a perceber melhor esse fascinio, A.. Não tudo; o suficiente para perceber onde reside a sedução.)
(Agora começo a perceber melhor esse fascinio, A.. Não tudo; o suficiente para perceber onde reside a sedução.)
AUTO-RETRATO POR INTERPOSTA PESSOA EM MODO OBSERVACIONAL GERACIONAL
Lloyd sabe. Lloyd sabe sempre.
just another bunch of torn down college graduates
trying to find a place to set down for a while
too pumped up to fake it
too belligerent to take it sitting down
early town
just another bunch of would be desperadoes
failing to pace themselves against the grain
strung out on semantics
Holiday Inn vigilantes
late night
early town
oh Los Angeles
how do you sleep?
you seem so full of cocaine
and self-belief
if I could get me some
I'd take it and I'd run
oh, but it's just another
late night
early town
is it too late to be post-modern lovers?
is it too late to straighten out the show?
the sky is turning grey
and now the after-party fades
we're coming down
on an early town
oh Los Angeles
how do you sleep?
you seem so full of cocaine
and self-belief
if I could get me some
I'd take it and I'd run
oh, but it's just another
late night
early town
late night
early town
am I supposed to sleep
here all alone?
in the shadow of the mini-bar
with the promise of a Spectravision girl
a Spectravision girl
oh those Spectravision girls...
- Lloyd Cole, "Late Night, Early Town", in "Music in a Foreign Language" (Sanctuary 2003)
just another bunch of torn down college graduates
trying to find a place to set down for a while
too pumped up to fake it
too belligerent to take it sitting down
early town
just another bunch of would be desperadoes
failing to pace themselves against the grain
strung out on semantics
Holiday Inn vigilantes
late night
early town
oh Los Angeles
how do you sleep?
you seem so full of cocaine
and self-belief
if I could get me some
I'd take it and I'd run
oh, but it's just another
late night
early town
is it too late to be post-modern lovers?
is it too late to straighten out the show?
the sky is turning grey
and now the after-party fades
we're coming down
on an early town
oh Los Angeles
how do you sleep?
you seem so full of cocaine
and self-belief
if I could get me some
I'd take it and I'd run
oh, but it's just another
late night
early town
late night
early town
am I supposed to sleep
here all alone?
in the shadow of the mini-bar
with the promise of a Spectravision girl
a Spectravision girl
oh those Spectravision girls...
- Lloyd Cole, "Late Night, Early Town", in "Music in a Foreign Language" (Sanctuary 2003)
19 de setembro de 2004
LOURA MADEIXA AO VENTO
O ministro da Defesa, Paulo Portas, esteve hoje em directo no Telejornal da RTP-1. Ele tinha o cabelo realmente alourado (será dos submarinos? dos barcos ao largo da Figueira?) ou era um efeito da iluminação?
E, a esse propósito, alguém viu esta semana a "Contra-Informação" a usar o insuportável oto-verme romeno dos O-Zone, "Dragostea Din Tei", com uma letra inspirada (e inspirada!) pelo caso do "barco do aborto"?
E, a esse propósito, alguém viu esta semana a "Contra-Informação" a usar o insuportável oto-verme romeno dos O-Zone, "Dragostea Din Tei", com uma letra inspirada (e inspirada!) pelo caso do "barco do aborto"?
DENTRO DA GARANTIA
Pequena meditação existencial provocante: deviam poder-se devolver à procedência as pessoas que vamos conhecendo que trazem defeitos estruturais de fabrico (tipo: mau feitio, egoísmo, incompatibilidade, etc — eu incluido, evidentemente) dentro de um prazo de 15 dias à experiência, como as enciclopédias.
Imaginem o diálogo:
- Boa tarde, vinha devolver esta senhora com quem comecei a namorar há 15 dias. Somos incompatíveis, ela gasta mais do que o meu ordenado permite.
- Com certeza. Trouxe a garantia?
- Aqui está.
Imaginem o diálogo:
- Boa tarde, vinha devolver esta senhora com quem comecei a namorar há 15 dias. Somos incompatíveis, ela gasta mais do que o meu ordenado permite.
- Com certeza. Trouxe a garantia?
- Aqui está.
OS ANIMAIS SÃO NOSSOS AMIGOS
Aqui há uns tempos (talvez ano e meio, dois anos) participei nos foruns do Público numa discussão sobre o boicote ao sublime "Fala com Ela", de Pedro Almodóvar, por parte de alguns espectadores indignados pelo facto do filme incluir uma cena de tourada (o que seria natural, visto que uma das personagens é toureira) na qual o touro lidado teria sido morto (como, creio, é habitual em Espanha). No filme não se via nada disso; apenas breves cenas de lide e certamente nenhum touro a ser morto, mas os "boicotistas" insistiam em recusar-se a ir ver o filme por da sua rodagem ter resultado a morte de um animal.
(Aparentemente, segundo me recordo, Almodóvar ter-se-á limitado a aproveitar uma tourada verídica, ou seja, não propositadamente organizada para o filme, para aí captar as imagens necessárias — mas posso estar enganado. Meses mais tarde, soube que uma das contribuintes mais apaixonadas para a discussão continuava sem ter visto "Fala com Ela", mas não resistira a ir ver "Apocalypse Now Redux", onde um animal é sacrificado graficamente perto do final.)
Em qualquer dos casos, tirei as devidas ilações dessa discussão que se prolongou durante semanas: nos direitos dos animais, tal como na religião e no futebol, qualquer troca de opiniões corre o risco de descambar muito rapidamente para um surpreendente fundamentalismo peremptório que, muitas vezes, pura e simplesmente não reconhece a existência de opiniões discordantes.
Isto vem a propósito da manifestação ontem realizada em Lisboa contra as touradas, da qual vi algumas imagens nos noticiários da noite, e de uma outra de caçadores realizada hoje à porta da residência oficial do primeiro ministro, da qual vi algumas imagens nos noticiários do almoço. Também não gosto de touradas, e respeito quem não gosta do acto; a caça passa-me completamente ao lado (embora não me choque que, se os recursos cinegéticos puderem ser aproveitados como fonte de receita e mais-valia económica para o país, como uma querida amiga minha defendeu agora na sua tese de mestrado sobre turismo cinegético, ela deva existir); mas confesso que, com Portugal no estado em que está, com os políticos que temos, estas manifestações me pareceram puro folclore, meras distracções.
Haverá, certamente, coisas mais importantes para o bem-estar geral dos portugueses do que o protesto contra a ética das touradas e a defesa da caça. Mas isso é típico de um país que, em plena recessão económica, continua a encher as lojas e a comprar a crédito como se tudo estivesse normal; Portugal tem uma especial atracção pelo acessório em detrimento do essencial.
(Aparentemente, segundo me recordo, Almodóvar ter-se-á limitado a aproveitar uma tourada verídica, ou seja, não propositadamente organizada para o filme, para aí captar as imagens necessárias — mas posso estar enganado. Meses mais tarde, soube que uma das contribuintes mais apaixonadas para a discussão continuava sem ter visto "Fala com Ela", mas não resistira a ir ver "Apocalypse Now Redux", onde um animal é sacrificado graficamente perto do final.)
Em qualquer dos casos, tirei as devidas ilações dessa discussão que se prolongou durante semanas: nos direitos dos animais, tal como na religião e no futebol, qualquer troca de opiniões corre o risco de descambar muito rapidamente para um surpreendente fundamentalismo peremptório que, muitas vezes, pura e simplesmente não reconhece a existência de opiniões discordantes.
Isto vem a propósito da manifestação ontem realizada em Lisboa contra as touradas, da qual vi algumas imagens nos noticiários da noite, e de uma outra de caçadores realizada hoje à porta da residência oficial do primeiro ministro, da qual vi algumas imagens nos noticiários do almoço. Também não gosto de touradas, e respeito quem não gosta do acto; a caça passa-me completamente ao lado (embora não me choque que, se os recursos cinegéticos puderem ser aproveitados como fonte de receita e mais-valia económica para o país, como uma querida amiga minha defendeu agora na sua tese de mestrado sobre turismo cinegético, ela deva existir); mas confesso que, com Portugal no estado em que está, com os políticos que temos, estas manifestações me pareceram puro folclore, meras distracções.
Haverá, certamente, coisas mais importantes para o bem-estar geral dos portugueses do que o protesto contra a ética das touradas e a defesa da caça. Mas isso é típico de um país que, em plena recessão económica, continua a encher as lojas e a comprar a crédito como se tudo estivesse normal; Portugal tem uma especial atracção pelo acessório em detrimento do essencial.
18 de setembro de 2004
SRA. EXISTÊNCIA
je voudrais m'acheter
une démocratie
je voudrais m'acheter
le meilleur d'une vie
je voudrais m'acheter
de la liberté
et puis un peu
de fraternité
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
je voudrais m'acheter
des petits bonheurs
je voudrais m'acheter
des contre-malheurs
je voudrais m'acheter
un peu de vérité
et puis aussi
quelque chose
pour rêver
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
je voudrais m'acheter
un morceau d'avenir
je voudrais m'acheter
des envies de sourire
je voudrais m'acheter
un très très grand amour
et pouvoir
l'aimer
35 heures tous les jours
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
avez-vous quelque chose
contre la misère?
contre la misère
on a des cache-misère
contre la misère
on a de la poudre aux yeux
et puis encore
un peu de ciel bleu
merci merci
madame l'Existence
je vais donc changer de boutique
aller voir si la République
ne vend pas ce genre d'article.
- Jacques Dutronc, "Madame l'Existence", in "Madame l'Existence" (Columbia 2003)
une démocratie
je voudrais m'acheter
le meilleur d'une vie
je voudrais m'acheter
de la liberté
et puis un peu
de fraternité
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
je voudrais m'acheter
des petits bonheurs
je voudrais m'acheter
des contre-malheurs
je voudrais m'acheter
un peu de vérité
et puis aussi
quelque chose
pour rêver
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
je voudrais m'acheter
un morceau d'avenir
je voudrais m'acheter
des envies de sourire
je voudrais m'acheter
un très très grand amour
et pouvoir
l'aimer
35 heures tous les jours
on n'a pas ce genre d'articles
vous vous trompez de boutique
ici c'est pas la République
avez-vous quelque chose
contre la misère?
contre la misère
on a des cache-misère
contre la misère
on a de la poudre aux yeux
et puis encore
un peu de ciel bleu
merci merci
madame l'Existence
je vais donc changer de boutique
aller voir si la République
ne vend pas ce genre d'article.
- Jacques Dutronc, "Madame l'Existence", in "Madame l'Existence" (Columbia 2003)
POLAROID: METRO
No cais da estação de Saldanha, descubro que o átrio que dá acesso à avenida da República e à avenida Duque de Ávila está fechado; quando volto para trás, o sistema de som emite em volume alto avisos sobre a linha amarela, entrecortados pelo ruído daqueles medonhos painéis publicitários suspensos do tecto.
No átrio da estação de S. Sebastião, frente às bilheteiras, uma senhora desorientada pergunta-me por onde se sai para a rua — apesar da saída estar perfeitamente sinalizada atrás de si.
No cais da estação do Marquês de Pombal, sentido Rato, um homem de meia-idade, bem vestido mas com aspecto ligeiramente alheio, ouve um ruído que parece de comboio vindo do túnel e pergunta, em voz alta e para ninguém em particular, onde é que já se viu isto, já passaram dois comboios para lá e continua sem passar nenhum para cá. Mas o ruído de comboio é um falso alarme.
No átrio da estação de S. Sebastião, frente às bilheteiras, uma senhora desorientada pergunta-me por onde se sai para a rua — apesar da saída estar perfeitamente sinalizada atrás de si.
No cais da estação do Marquês de Pombal, sentido Rato, um homem de meia-idade, bem vestido mas com aspecto ligeiramente alheio, ouve um ruído que parece de comboio vindo do túnel e pergunta, em voz alta e para ninguém em particular, onde é que já se viu isto, já passaram dois comboios para lá e continua sem passar nenhum para cá. Mas o ruído de comboio é um falso alarme.
17 de setembro de 2004
AVISO À NAVEGAÇÃO
Fiz uma "limpeza" aos links aqui do lado. A lista tinha inchado bastante e, se agradeço sinceramente a cortesia de todos aqueles que reenviam para aqui, para já prefiro recomendar só aquilo que visito com um mínimo de regularidade pelo meio da aceleração brutal que assumir a editoria do Blitz imprimiu à minha vida a partir de 1 de Agosto. Prometo que, assim que o tempo o permitir, voltará uma lista mais completa.
POLAROID: PETER'S
O Moleskine (agora já não) do Carvoeiro parece-me particularmente apropriado para o ambiente - Peter's Café Sport no Parque das Nações, paredes-meias com o Pavilhão Atlântico na noite de terça, véspera do segundo concerto de Madonna. Aqui, apesar dos "recuerdos" náuticos que pontuam as paredes de madeira, das citações suspensas do tecto, não se respira ambiente nenhum que não seja o da aspiração - este Peter's vende um ersatz do original para quem sonha mas não faz.
Hoje não estou com pressa nenhuma. Pelas janelas vejo as cabines do teleférico da Expo percorrendo os últimos resquícios azul claro em gradual dégradé para violeta-lilása ntes de atingir o azul-cinzento que anuncia a chegada da noite. Chega a tosta mista. Vejo os grupos que se formam naturalmente em antecipação do concerto - o trio que jantava na mesa ao lado incha para noneto, com três homens e cinco mulheres louras e aparentadas, eles com as camisas e as gangas desbotadas da ordem, carteira inchada e telemóvel em cima da mesa, elas de camisas vaporosas, conversando como se fossem amigas desde sempre.
O meu Moleskine tem agora nódoas de descafeinado, o que me parece significativamente chique para dar alguma patine, um certo ar vivido. Tem a ver com o ambiente: está tudo em parecer.
Hoje não estou com pressa nenhuma. Pelas janelas vejo as cabines do teleférico da Expo percorrendo os últimos resquícios azul claro em gradual dégradé para violeta-lilása ntes de atingir o azul-cinzento que anuncia a chegada da noite. Chega a tosta mista. Vejo os grupos que se formam naturalmente em antecipação do concerto - o trio que jantava na mesa ao lado incha para noneto, com três homens e cinco mulheres louras e aparentadas, eles com as camisas e as gangas desbotadas da ordem, carteira inchada e telemóvel em cima da mesa, elas de camisas vaporosas, conversando como se fossem amigas desde sempre.
O meu Moleskine tem agora nódoas de descafeinado, o que me parece significativamente chique para dar alguma patine, um certo ar vivido. Tem a ver com o ambiente: está tudo em parecer.
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #18
Os apressadinhos que, no trânsito urbano, guiam mesmo em cima da traseira do nosso carro, forçando-nos a acelerar ou a mudar de faixa para os deixar passar. O mais curioso é que nem sempre são os condutores de BMW, Audi ou Mercedes topo de gama ou de carrinhas ou camionetes de transporte; são muitas vezes compactos urbanos tipo Ford Fiesta, Renault Clio ou Peugeot 306.
15 de setembro de 2004
ELA
E sim, Madonna sabe muitíssimo bem as linhas com que se cose. A Re-Invention World Tour é definitivamente bem capaz de merecer o epíteto de "biggest show on Earth" com que o meu amigo João Macdonald a presenteava no final do concerto. Mas, gaja, custava assim tanto teres cantado o "Ray of Light"? Fez lá falta.
AS REVISTAS DA SEMANA
Ontem (melhor; ante-ontem, segunda, 13, porque já é quarta quando escrevo isto) fui revistado à entrada do primeiro concerto de Madonna no Pavilhão Atlântico. Como a fila estava comprida para entrar, o agente da PSP que me revistou passou as mãos pela zona dos bolsos das calças e da camisa e deixou-me passar.
Hoje (melhor; ontem, terça, 14, porque já é quarta quando escrevo isto) fui revistado à entrada do segundo concerto de Madonna no Pavilhão Atlântico. Como não havia fila, o agente da PSP que me revistou (que não era o mesmo da véspera) pediu-me com firmeza mas muito educadamente para tirar tudo o que tivesse nos bolsos da camisa e das calças, deixou ficar o telemóvel na bolsa de cinto, pediu-me para levantar os braços e revistou-me rápida e pormenorizadamente, levantando até a bainha das calças à procura sabe-se lá do quê, e depois deixou-me passar desejando-me bom concerto.
É a isto que chamam o policiamento de proximidade?
Hoje (melhor; ontem, terça, 14, porque já é quarta quando escrevo isto) fui revistado à entrada do segundo concerto de Madonna no Pavilhão Atlântico. Como não havia fila, o agente da PSP que me revistou (que não era o mesmo da véspera) pediu-me com firmeza mas muito educadamente para tirar tudo o que tivesse nos bolsos da camisa e das calças, deixou ficar o telemóvel na bolsa de cinto, pediu-me para levantar os braços e revistou-me rápida e pormenorizadamente, levantando até a bainha das calças à procura sabe-se lá do quê, e depois deixou-me passar desejando-me bom concerto.
É a isto que chamam o policiamento de proximidade?
14 de setembro de 2004
12 de setembro de 2004
PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #17
Taxistas que nunca, mas nunca, sabem exactamente onde fica a rua para onde queremos ir.
A CHUVA EM ESPANHA
Há bocado, estava a dar na televisão a versão Filipe La Féria da imortal "My Fair Lady" de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, inspirada por George Bernard Shaw. E, no breve trailer que vi, percebi precisamente porque é que nunca me quis chegar perto de tal objecto; é que me é absolutamente impossível ouvir aquelas canções noutra língua que não o inglês impecável da "received pronunciation", tão sublimemente corporizado na performance truculenta de Rex Harrison, imortal no professor Higgins, primeiro na produção original da Broadway e depois no magnificente filme de George Cukor (que muitos, certamente monstros sem coração nem sensibilidade, teimam em menorizar inexplicavelmente). E, depois, toda a produção visual devia muito (passe o eufemismo minimizador) aos gloriosos cenografia e guarda-roupa de Cecil Beaton. E, por muito que se fechem os olhos e se imagine estar na Broadway sentado no Politeama, Anabela não é Julie Andrews (que criou originalmente o papel em palco) nem Audrey Hepburn (que o retomou no filme; e muito menos Marni Nixon, que dobrou a voz de Hepburn nas canções da versão cinematográfica), e Carlos Quintas muito decididamente não é Rex Harrison.
Nem podem, claro; mas tudo no pouco que vi invocou de tal maneira o filme de Cukor (o mais perto que nos chegámos da criação original da Broadway) que senti as minhas memórias de infância, se quiserem, violadas. Vi pela primeira vez "My Fair Lady" ainda adolescente no esplendoroso 70mm do defunto Monumental, numa das reprises de Verão em que a sala era fértil, como foi pensado para ser visto. Vi-o mais duas ou três vezes em sala — a última delas em meados dos anos 80, numa reprise de Verão no Castil, simpático e espaçoso cinema-estúdio burguês de arquitectura muito anos 70, onde fica hoje a sede do BBVA — e desde então fixou-se, provavelmente, como o filme da minha vida, chegando até a ser objecto de estudo na faculdade a propósito da língua e da linguística inglesa. "My Fair Lady", para mim, só existe falada e cantada em inglês — e quem conhece o original perceberá porque traduzi-lo para outra língua, sobretudo desta forma, é um contra-senso.
Nem podem, claro; mas tudo no pouco que vi invocou de tal maneira o filme de Cukor (o mais perto que nos chegámos da criação original da Broadway) que senti as minhas memórias de infância, se quiserem, violadas. Vi pela primeira vez "My Fair Lady" ainda adolescente no esplendoroso 70mm do defunto Monumental, numa das reprises de Verão em que a sala era fértil, como foi pensado para ser visto. Vi-o mais duas ou três vezes em sala — a última delas em meados dos anos 80, numa reprise de Verão no Castil, simpático e espaçoso cinema-estúdio burguês de arquitectura muito anos 70, onde fica hoje a sede do BBVA — e desde então fixou-se, provavelmente, como o filme da minha vida, chegando até a ser objecto de estudo na faculdade a propósito da língua e da linguística inglesa. "My Fair Lady", para mim, só existe falada e cantada em inglês — e quem conhece o original perceberá porque traduzi-lo para outra língua, sobretudo desta forma, é um contra-senso.
11 de setembro de 2004
you said I'm gonna buy this place and burn it down
I'm gonna put it six feet under ground
I said I'm gonna buy this place and watch it fall
stand here beside me baby in the crumbling walls
oh I'm gonna buy this place and start a fire
stand here until I fill all your heart's desires
because I'm gonna buy this place and see it burn
and do back the things they did to you in return
I said I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
oh and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head
honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
start as you need to go on
I said I'm gonna buy this place and see it go
stand here beside me baby watch the orange glow
some'll laugh and some just sit and cry
some just sit down there and you'll wonder why
so I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head
to the head
honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
as you need to go on
so meet me by the bridge
or meet me by the lane
when am I gonna see
that pretty face again
and meet me on the road
or meet me where I said
blame it all upon
a rush of blood to the head.
— Coldplay, "A Rush of Blood to the Head" (in "A Rush of Blood to the Head", Parlophone/EMI 2002)
I'm gonna put it six feet under ground
I said I'm gonna buy this place and watch it fall
stand here beside me baby in the crumbling walls
oh I'm gonna buy this place and start a fire
stand here until I fill all your heart's desires
because I'm gonna buy this place and see it burn
and do back the things they did to you in return
I said I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
oh and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head
honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
start as you need to go on
I said I'm gonna buy this place and see it go
stand here beside me baby watch the orange glow
some'll laugh and some just sit and cry
some just sit down there and you'll wonder why
so I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head
to the head
honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
as you need to go on
so meet me by the bridge
or meet me by the lane
when am I gonna see
that pretty face again
and meet me on the road
or meet me where I said
blame it all upon
a rush of blood to the head.
— Coldplay, "A Rush of Blood to the Head" (in "A Rush of Blood to the Head", Parlophone/EMI 2002)
READ MY LIPS: NO FREE LUNCH
O ministro Bagão Félix diz, no Telejornal da RTP-1, que trabalhar mais (subentendendo-se pelo mesmo dinheiro) "não é um factor de sacrifício mas sim um factor de esperança". Mas será possível existir esperança sem sacrifício? Ou a afirmação é apenas atirar mais poeira para os olhos de um país iludido com a facilidade com que se concedem créditos a torto e a direito, até para o consumo; apenas sublinhar ainda mais que — ao contrário do que o próprio ministro diz — afinal há sempre alguma coisa que é mesmo grátis? Sonhar, é certo, não custa. Concretizar os sonhos já é mais complicado. Nada que impeça o IKEA de estar cheio num sábado de manhã, com filas assinaláveis nas caixas de saída, carrinhos cheios de móveis e utensílios mais ou menos necessários. A que preço?
Mais à frente, o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes exibe a sua magnífica táctica de drible e finta à pergunta do entrevistador, deixando toda a gente exactamente na mesma como antes. A única diferença entre o hoje e o antes é o aspecto claramente mais cansado do homem, como se tivesse percebido que, afinal, há mesmo um preço a pagar pela sua ambição de estatuto. Como quem percebe que ser primeiro-ministro não é exactamente o que ele pensava e não sabe muito bem como sair da camisa de onze varas em que se meteu.
Mais à frente, o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes exibe a sua magnífica táctica de drible e finta à pergunta do entrevistador, deixando toda a gente exactamente na mesma como antes. A única diferença entre o hoje e o antes é o aspecto claramente mais cansado do homem, como se tivesse percebido que, afinal, há mesmo um preço a pagar pela sua ambição de estatuto. Como quem percebe que ser primeiro-ministro não é exactamente o que ele pensava e não sabe muito bem como sair da camisa de onze varas em que se meteu.
10 de setembro de 2004
9 de setembro de 2004
7 de setembro de 2004
AINDA A PROPÓSITO DE "MOULIN ROUGE!"...
(filme que gera bastantes anti-corpos entre a blogosfera, pelo que já percebi, mas que, se a 1poucomais me permitir, acho longe de ser uma perda de tempo)
...irritou-me sobremaneira o estado da cópia que passou ontem na RTP-1. Rodado em scope (ou seja, écrã panorâmico às proporções 1:2.35), "Moulin Rouge!" surgiu truncado para o formato quadrado/rectangular do televisor pelo processo "pan & scan"; ou seja, reproduzindo apenas a parte da imagem que cabe na janela do televisor. O efeito é destruidor para um filme cuja composição visual é tão trabalhada como "Moulin Rouge!", mas é geralmente catastrófico para qualquer filme que aproveite minimamente o écrã panorâmico; a sensação que tive foi a de estar a ver outro filme que não aquele que vi no cinema e, mais tarde, no DVD que reproduzia fielmente o formato panorâmico (prefiro sempre as barrinhas pretas a enquadrar a imagem, pelo menos estou a ver o filme como o realizador o pensou). Geralmente, em "pan & scan" há planos e transições que parecem demasiado rápidas ou que não fazem sentido — porque o reenquadramento da imagem veio desequilibrar toda a composição visual e o próprio ritmo da montagem.
O DVD, felizmente, veio praticamente erradicar o "pan & scan", mas ontem percebi, infelizmente, que ainda não foi completamente erradicado.
...irritou-me sobremaneira o estado da cópia que passou ontem na RTP-1. Rodado em scope (ou seja, écrã panorâmico às proporções 1:2.35), "Moulin Rouge!" surgiu truncado para o formato quadrado/rectangular do televisor pelo processo "pan & scan"; ou seja, reproduzindo apenas a parte da imagem que cabe na janela do televisor. O efeito é destruidor para um filme cuja composição visual é tão trabalhada como "Moulin Rouge!", mas é geralmente catastrófico para qualquer filme que aproveite minimamente o écrã panorâmico; a sensação que tive foi a de estar a ver outro filme que não aquele que vi no cinema e, mais tarde, no DVD que reproduzia fielmente o formato panorâmico (prefiro sempre as barrinhas pretas a enquadrar a imagem, pelo menos estou a ver o filme como o realizador o pensou). Geralmente, em "pan & scan" há planos e transições que parecem demasiado rápidas ou que não fazem sentido — porque o reenquadramento da imagem veio desequilibrar toda a composição visual e o próprio ritmo da montagem.
O DVD, felizmente, veio praticamente erradicar o "pan & scan", mas ontem percebi, infelizmente, que ainda não foi completamente erradicado.
6 de setembro de 2004
OS ANIMAIS SÃO NOSSOS AMIGOS
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