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15 de setembro de 2004

AS REVISTAS DA SEMANA

Ontem (melhor; ante-ontem, segunda, 13, porque já é quarta quando escrevo isto) fui revistado à entrada do primeiro concerto de Madonna no Pavilhão Atlântico. Como a fila estava comprida para entrar, o agente da PSP que me revistou passou as mãos pela zona dos bolsos das calças e da camisa e deixou-me passar.

Hoje (melhor; ontem, terça, 14, porque já é quarta quando escrevo isto) fui revistado à entrada do segundo concerto de Madonna no Pavilhão Atlântico. Como não havia fila, o agente da PSP que me revistou (que não era o mesmo da véspera) pediu-me com firmeza mas muito educadamente para tirar tudo o que tivesse nos bolsos da camisa e das calças, deixou ficar o telemóvel na bolsa de cinto, pediu-me para levantar os braços e revistou-me rápida e pormenorizadamente, levantando até a bainha das calças à procura sabe-se lá do quê, e depois deixou-me passar desejando-me bom concerto.

É a isto que chamam o policiamento de proximidade?

12 de setembro de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #20

Marsupial.

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #17

Taxistas que nunca, mas nunca, sabem exactamente onde fica a rua para onde queremos ir.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #19

Ósculo.

A CHUVA EM ESPANHA

Há bocado, estava a dar na televisão a versão Filipe La Féria da imortal "My Fair Lady" de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, inspirada por George Bernard Shaw. E, no breve trailer que vi, percebi precisamente porque é que nunca me quis chegar perto de tal objecto; é que me é absolutamente impossível ouvir aquelas canções noutra língua que não o inglês impecável da "received pronunciation", tão sublimemente corporizado na performance truculenta de Rex Harrison, imortal no professor Higgins, primeiro na produção original da Broadway e depois no magnificente filme de George Cukor (que muitos, certamente monstros sem coração nem sensibilidade, teimam em menorizar inexplicavelmente). E, depois, toda a produção visual devia muito (passe o eufemismo minimizador) aos gloriosos cenografia e guarda-roupa de Cecil Beaton. E, por muito que se fechem os olhos e se imagine estar na Broadway sentado no Politeama, Anabela não é Julie Andrews (que criou originalmente o papel em palco) nem Audrey Hepburn (que o retomou no filme; e muito menos Marni Nixon, que dobrou a voz de Hepburn nas canções da versão cinematográfica), e Carlos Quintas muito decididamente não é Rex Harrison.

Nem podem, claro; mas tudo no pouco que vi invocou de tal maneira o filme de Cukor (o mais perto que nos chegámos da criação original da Broadway) que senti as minhas memórias de infância, se quiserem, violadas. Vi pela primeira vez "My Fair Lady" ainda adolescente no esplendoroso 70mm do defunto Monumental, numa das reprises de Verão em que a sala era fértil, como foi pensado para ser visto. Vi-o mais duas ou três vezes em sala — a última delas em meados dos anos 80, numa reprise de Verão no Castil, simpático e espaçoso cinema-estúdio burguês de arquitectura muito anos 70, onde fica hoje a sede do BBVA — e desde então fixou-se, provavelmente, como o filme da minha vida, chegando até a ser objecto de estudo na faculdade a propósito da língua e da linguística inglesa. "My Fair Lady", para mim, só existe falada e cantada em inglês — e quem conhece o original perceberá porque traduzi-lo para outra língua, sobretudo desta forma, é um contra-senso.

11 de setembro de 2004

you said I'm gonna buy this place and burn it down
I'm gonna put it six feet under ground
I said I'm gonna buy this place and watch it fall
stand here beside me baby in the crumbling walls
oh I'm gonna buy this place and start a fire
stand here until I fill all your heart's desires
because I'm gonna buy this place and see it burn
and do back the things they did to you in return

I said I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
oh and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head

honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
start as you need to go on

I said I'm gonna buy this place and see it go
stand here beside me baby watch the orange glow
some'll laugh and some just sit and cry
some just sit down there and you'll wonder why
so I'm gonna buy a gun and start a war
if you can tell me something worth fighting for
and I'm gonna buy this place is what I said
blame it upon a rush of blood to the head
to the head

honey
all the movements you're starting to make
see me crumble and fall on my face
and I know the mistakes that I've made
see it all disappear without a trace
and they call as they beckon you on
they say start as you need to go on
as you need to go on

so meet me by the bridge
or meet me by the lane
when am I gonna see
that pretty face again
and meet me on the road
or meet me where I said
blame it all upon
a rush of blood to the head.


— Coldplay, "A Rush of Blood to the Head" (in "A Rush of Blood to the Head", Parlophone/EMI 2002)

READ MY LIPS: NO FREE LUNCH

O ministro Bagão Félix diz, no Telejornal da RTP-1, que trabalhar mais (subentendendo-se pelo mesmo dinheiro) "não é um factor de sacrifício mas sim um factor de esperança". Mas será possível existir esperança sem sacrifício? Ou a afirmação é apenas atirar mais poeira para os olhos de um país iludido com a facilidade com que se concedem créditos a torto e a direito, até para o consumo; apenas sublinhar ainda mais que — ao contrário do que o próprio ministro diz — afinal há sempre alguma coisa que é mesmo grátis? Sonhar, é certo, não custa. Concretizar os sonhos já é mais complicado. Nada que impeça o IKEA de estar cheio num sábado de manhã, com filas assinaláveis nas caixas de saída, carrinhos cheios de móveis e utensílios mais ou menos necessários. A que preço?

Mais à frente, o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes exibe a sua magnífica táctica de drible e finta à pergunta do entrevistador, deixando toda a gente exactamente na mesma como antes. A única diferença entre o hoje e o antes é o aspecto claramente mais cansado do homem, como se tivesse percebido que, afinal, há mesmo um preço a pagar pela sua ambição de estatuto. Como quem percebe que ser primeiro-ministro não é exactamente o que ele pensava e não sabe muito bem como sair da camisa de onze varas em que se meteu.

7 de setembro de 2004

AINDA A PROPÓSITO DE "MOULIN ROUGE!"...

(filme que gera bastantes anti-corpos entre a blogosfera, pelo que já percebi, mas que, se a 1poucomais me permitir, acho longe de ser uma perda de tempo)

...irritou-me sobremaneira o estado da cópia que passou ontem na RTP-1. Rodado em scope (ou seja, écrã panorâmico às proporções 1:2.35), "Moulin Rouge!" surgiu truncado para o formato quadrado/rectangular do televisor pelo processo "pan & scan"; ou seja, reproduzindo apenas a parte da imagem que cabe na janela do televisor. O efeito é destruidor para um filme cuja composição visual é tão trabalhada como "Moulin Rouge!", mas é geralmente catastrófico para qualquer filme que aproveite minimamente o écrã panorâmico; a sensação que tive foi a de estar a ver outro filme que não aquele que vi no cinema e, mais tarde, no DVD que reproduzia fielmente o formato panorâmico (prefiro sempre as barrinhas pretas a enquadrar a imagem, pelo menos estou a ver o filme como o realizador o pensou). Geralmente, em "pan & scan" há planos e transições que parecem demasiado rápidas ou que não fazem sentido — porque o reenquadramento da imagem veio desequilibrar toda a composição visual e o próprio ritmo da montagem.

O DVD, felizmente, veio praticamente erradicar o "pan & scan", mas ontem percebi, infelizmente, que ainda não foi completamente erradicado.

6 de setembro de 2004

OS ANIMAIS SÃO NOSSOS AMIGOS

Acho o camelo um bicho muito fotogénico. Confirmar aqui em baixo (e, já agora, aqui também):



(thanks, mate!)

LOVE IS A MANY SPLENDORED THING

Em casa de um amigo no pós-jantar, o televisor ligado na RTP-1 arranca com "Moulin Rouge!", o desvairado musical revisionista de Baz Luhrmann que me recordo de ter visto, em projecção de imprensa, faz agora três anos, na ressaca do 11 de Setembro. A minha opinião sobre o filme não mudou, em nada: continuo a achá-lo uma obra de puro génio, a mais perfeita das traduções possíveis da montanha-russa de emoções que é o amor, a um tempo extraordinariamente classicista e convencional no seu recurso aos lugares-comuns narrativos do melodrama e provocantemente moderna e sofisticada no modo assumidamente desconstrutivista como os subverte e explora. Um equilíbrio barroco na corda-bamba entre verdades e fantasias onde, vá-se lá saber como, a emoção passa intacta.

Sempre disse que se se conseguir ultrapassar incólume os primeiros 15-20 minutos do filme, a aposta está ganha: quem se deixa seduzir por este universo já não o larga. "Moulin Rouge!" ama-se ou odeia-se, não há meio termo possível. É um dos filmes da minha vida.

5 de setembro de 2004

O RITUAL DO REITOR

Digam o que quiserem, os Smiths eram efectivamente uma grande banda e, sem Johnny Marr, Morrissey nunca mais voltou a ser o mesmo. E, por muito que eu goste de "How Soon Is Now?" ou de "That Joke Isn't Funny Anymore", este é, para mim, o pico dos picos — no álbum dos álbuns, "Meat Is Murder".

belligerent ghouls
run Manchester schools
spineless swines
cemented minds
Sir leads the troops
jealous of youth
same old suit since 1962
he does the military two-step
down the nape of my neck
I wanna go home
I don't want to stay
give up education
as a bad mistake
mid-week on the playing fields
Sir thwacks you on the knees
knees you in the groin
elbow in the face
bruises bigger than dinner plates
I wanna go home
I don't want to stay

belligerent ghouls
run Manchester schools
spineless bastards all
Sir leads the troops
jealous of youth
same old jokes since 1962
he does the military two-step
down the nape of my neck
I wanna go home
I don't want to stay
give up life
as a bad mistake
please excuse me from gym
I've got this terrible cold coming on
he grabs and devours
he kicks me in the showers
kicks me in the showers
and he grabs and devours
I wanna go home
I don't want to stay.


- The Smiths, "The Headmaster Ritual", in "Meat Is Murder" (Rough Trade, 1985)

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #16

Energúmeno.

(OK, mais uma batota)

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #15

Onanismo.

PURO VENENO

O post que se impunha: já vos disse que o Toblerone negro é provavelmente um dos chocolates mais pecaminosamente luxuriantes que me foi dado provar? Ao nível apenas dos fantásticos chocolates negros de degustação da Lindt, que tinham nomes tipo "Madagáscar"? (Agora já não os fazem assim: mas a ideia de um chocolate com cacau a 99%, como o Excellence Noirissime, deixa-me já a salivar abundantemente, como bom viciado que sou.)

PEQUENO MISTÉRIO

Sempre que regresso de Sesimbra, reparo numa tabuleta colocada em Santana que indica "Comissão de Protecção de Crianças e Jovens".

Mas impõe-se a pergunta: o que é que uma "Comissão de Protecção de Crianças e Jovens" faz em Santana de Sesimbra? E, exactamente, protege as crianças e os jovens de quê?

4 de setembro de 2004

LOGBOOK #18: DE NOITE TODOS OS PEIXES TÊM COR E TODO O CÉU TEM ESTRELAS

Sesimbra: Pedra do Leão, sábado 4 de Setembro, 20h38: 12.6m, 36min, 16º C

(começo a achar que o meu computador está passado; todos os mergulhos que tenho feito têm a água a 16 graus)


O dia não havia amanhecido especialmente bom — chuva, trovoada, céu carregado. O desafio do mergulho nocturno prometido desde o curso avançado parecia ter de ficar para outro dia — mentira, com o céu a abrir depois de almoço, um telefonema resolveu a questão, ia haver sim senhor, o mar até nem estava nada mau apesar da visibilidade algo difusa. Trepidação e entusiasmo, ia finalmente fazer a experiência de mergulhar ao entardecer, enquadrado pelo Rui Santos, emparceirado com o fiel Vitorino.

Primeira constatação: os focos das lanternas cortam a escuridão numa explosão de cores vivas, desde o alaranjado das rochas pintalgadas de anémonas e incrustações, ao verde de algumas algas e ao prateado incandescente de alguns peixes. Segunda constatação: é muito fácil perder o sentido de direcção quando o raio de visão está limitado aos focos das lanternas, sobretudo quando — como o grupo percebeu quando desceu à baixa profundidade da Pedra do Leão, assim chamada pela forma aproximada de leão em repouso, ao largo da baía de Sesimbra — está mais corrente abaixo da superfície do que à superfície. À saída, toda a gente contava que teve de vir à superfície a meio do mergulho para perceber onde raio estava por relação à pedra. Terceira constatação: em condições menos que ideais, como as desta noite enganadoramente calma e estrelada, a tranquilidade que se pretende numa imersão nocturna é intervalada pela irritação de andar a ser empurrado de um lado para o outro pela corrente e pela estranheza de ter o profundímetro (e as borbulhas que se elevam do regulador em direcção à superfície) como única referência de posicionamento.

Gestão de stress: média mais, apesar da luta contra a corrente acabar por me ter feito gastar mais ar do que me é normal a esta profundidade (subi ainda com 70 bares, mas não cheguei aos 40 minutos), conseguindo manter um bom ritmo de respiração. O controle da flutuabilidade a profundidades intermédias continua a ser objecto de atenção especial. Como primeira experiência, algo decepcionante; a repetir em melhores condições de "temperatura e pressão".

Mas, à superfície, enquanto nadamos de regresso ao barco, ver o céu azul-negro repleto de estrelas brilhantes e luminosas, como é impossível de ver numa grande cidade, é uma das mais belas (talvez mesmo a mais bela) das recompensas da noite; mais talvez do que a garrafa (com tampa) precisamente colocada de pé dentro de uma cavidade entre dois blocos de pedra, do que o longilíneo peixe que ficou ali ao nosso lado alguns minutos, do que o cavaco que pachorrentamente passeava ao lado.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #14

Tonitruante.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #13

Esbirro.

3 de setembro de 2004

EDWARD HOPPER SONORO

A perfeição pode ser assim.

because of Toledo I got sober and stayed clean
the pick-ups and the wild prairies
the shadows dancing in between
a girl leans on the jukebox in a pair of old blue jeans
she says "I live here but I don't really live anywhere"
because of Toledo

Tuesday it's raining and I'm pulling on my shoes
I guess I quit believing in the early morning news
a boy orders coffee and he settles down to think
how the women that you love sometimes
are the water that you drink
then another faded waitress dressed in pink
cries for Toledo

the lipstick and the cocaine traces
one face in a thousand faces
I stumbled through so many places
because of Toledo

because of Toledo the highway looks so thin
I see another motel sign and I think of pulling in
I'd write your name up on the mirror there
the only secret that I know
but I guess I would be only chasing rainbows
back to Toledo

I think I'll go.


- The Blue Nile, "Because of Toledo", in "High" (Epstein/Sanctuary, 2004)

INTERVENÇÕES URBANAS SUBVERSIVAS

Apareceu agora aí pelas cabines telefónicas e outros locais lisboetas um autocolante que diz "Eu fiz um aborto" (para aproveitar toda a polémica do navio ao largo da Figueira -- experimentem cantar "o navio ao largo da Figueira" no refrão dos "Meninos de Huambo" de Paulo de Carvalho e verão como a métrica é interessante).

Adiante.Reparei nele pela primeira vez num outdoor publicitário em que o autocolante foi estrategicamente colocado entre as pernas abertas de um modelo. Até aqui tudo bem, a coisa resulta enquanto subversão. O problema é que toda a zona circundante estava carregada de autocolantes que diziam "eu fiz um aborto" em tudo quanto era sítio, desvirtuando completamente a mensagem. Fiquei a olhar para ali e a pensar que a "intervenção urbana subversiva" que resultava bem estrategicamente colocada em pontos cardeais perdeu todo o efeito-choque com aquela saturação inexplicável que, em vez de sensibilizar, apenas repele.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #12

Barregã.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #11

Torpe.

2 de setembro de 2004

O CANTO E O GELO

you only see what your eyes want to see
how can life be what you want it to be
you're frozen
when your heart's not open

you're so consumed with how much you get
you waste your time with hate and regret
you're broken
when your heart's not open

if I could melt your heart
we'd never be apart
give yourself to me
you are the key

now there's no point in placing the blame
and you should know I suffer the same
if I lose you
my heart will be broken

love is a bird she needs to fly
let all the hurt inside of you die
you're frozen
when your heart's not open

if I could melt your heart
we'd never be apart
give yourself to me
you are the key

you only see what your eyes want to see
how can life be what you want it to be
you're frozen
when your heart's not open

if I could melt your heart
we'd never be apart
give yourself to me
you are the key
if I could melt your heart
we'd never be apart
give yourself to me
you are the key.


- Madonna, «Frozen»

(something along these lines, P?)

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #10

Obstipação.

THE PERFECT RAINBOW

Esteve a chover. É fim de tarde. Saio do edifício para encontrar a perfeição de um arco-íris que "cai" em cima de uma casa "à antiga portuguesa", paredes caiadas e tecto de telha cor de tijolo, a luz refractada do pôr-do-sol de nuvens de algodão delicadamente tintadas a criar um espectro de cores difusas, quase gasosas.

31 de agosto de 2004

POLAROID: MARGINAL #4 (ALGÉS-BELÉM)

É, só, um daqueles momentos em que tudo se conjuga, sabe-se lá como: a cassete começa a tocar a versão majestosa dos Sétima Legião para "Longa Se Torna a Espera", dos Xutos & Pontapés, quando passo pela estação dos comboios de Algés e o comboio que se dirige para Lisboa arranca ao mesmo tempo, lentamente em direcção à curva por baixo do viaduto, e eu me elevo no viaduto ao mesmo tempo que o comboio o atravessa e a canção se eleva no refrão, com o sol a pôr-se por trás de mim. Há qualquer coisa na linha recta de um comboio que me fascina, no percurso perfeitamente definido e dirigido que ele faz mas que transporta consigo uma qualquer promessa de aventura; um aroma qualquer indefinível de romantismo ancestral e antiquado no seu movimento: um comboio sabe sempre para onde vai.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #9

Vil.

(OK, OK, esta é um bocado batota. Mas temos de admitir que não é realmente um adjectivo que se ouça todos os dias)

RELAX

Curiosa a peça da Economist desta semana sobre as implicações profissionais do stress — sobretudo por ir buscar exemplos de que o stress já existiria desde o século XIX (sob a designação "neurastenia") e que ele se manifesta muito mais em momentos de dúvida, de mudança, de exigência, do que devido a excesso de trabalho. E se o stress não fosse uma doença do foro laboral mas apenas um mal estar, não tanto na sua própria pele mas numa pele que se quer à viva força ter ou que os outros querem à viva força que se tenha?

30 de agosto de 2004

PAREM AS MÁQUINAS

Tenho a garganta inflamada. Argh.

Isto quer dizer que estou constipado, que vou andar insuportável o dia todo e que daqui por 24 horas vou começar a espirrar e a pingar do nariz. Detesto estar constipado.

29 de agosto de 2004

PEQUENO MOMENTO DE TERNURA ORIENTAL

...há pouco mais de uma hora, na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos (é verdade, não vi a abertura mas vi parte do encerramento). Em cima de um balão chinês, uma menina com um balão diz ou canta qq coisa e acena a despedir-se, tremendo logo em seguida quando fogo de artifício estoira à sua volta mas recuperando a compostura logo de seguida. A realização corta para plano de uma chinesa com um tambor e duas baquetas no piso do estádio, erguendo os braços, com um sorriso alegre, ao mesmo tempo cansado do esforço e entusiasmado por estar ali, esperançoso no que aí virá.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #8

Bardajona.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #7

Homúnculo.

(e, a propósito, isto parece estar a começar a espalhar-se; o L já entrou no jogo)

AI PORTUGAL, PORTUGAL

Esta questão dos irritantes é importante porque Portugal, como um todo, irrita-me.

Irrita-me por ser um país onde o governo arranja desculpas mal amanhadas para impedir a entrada do Barco do Aborto (e Isabel Meireles dizia, hoje — aliás ontem sábado — de manhã, na TSF, que era uma decisão que abria uma caixinha de Pandora em termos de legislação europeia, muito embora a reportagem da RTP-1 no Telejornal deixasse o comentário da especialista em assuntos europeus meio ambíguo). Irrita-me por ser um país onde o PCP põe a figura caricatural de Odete Santos a comentar o assunto — respeito a senhora, mas acho difícil levar a sério uma deputada que é actriz nas horas vagas. Irrita-me por ser um país onde há assessores de ministros a ganharem num mês o que outros ganham em quatro por não fazerem realmente nada de importante, e onde senhoras idosas pagam 30 euros de renda por um quinto andar sem elevador e, por só pagarem 30 euros, não pensam sequer em exigir que o senhorio faça as obras que lhe garantiriam uma qualidade mínima de vida. Irrita-me por ser um país onde se fala muito e se resmunga ainda mais mas, depois, se prefere devorar os jornais que publicam com grandes parangonas os esgotamentos do Zé Maria e o casamento da Fernanda Serrano com o Pedro Miguel Ramos, ou erguer a herói Francis Obikwelu, ou devotar espaço de informação às últimas vicissitudes futebolísticas. E, no interim, Portugal parece escorregar alegremente para um retorno a uma sociedade do antigamente onde a divisão não é em classes altas, médias e baixas mas apenas altas e baixas — porque as médias estão cada vez mais baixas e as altas cada vez mais altas.

28 de agosto de 2004

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #16

O meu bom amigo Luís Guerra propôs no Forum Sons um muito hilariante tópico sob o genérico Ódios Incondicionais Avulsos. Sob a égide dos pequenos irritantes quotidianos, gostaria de propôr mais um: senhores de meia idade ou idosos que se recusam terminantemente a atravessar nas passadeiras ou nos sinais, preferindo andar pelo meio da rua como se estivessem no passeio, ou que atravessam na passadeira quando o sinal está aberto para os carros, e ainda descompõem os condutores por não pararem para suas altezas atravessarem a rua (estou à vontade para mandar vir porque, enquanto peão, respeito escrupulosamente os sinais, excepto se a estrada estiver obviamente vazia de carros, e não uso a estrada como passeio público). Ainda há pouco, na rua dos meus pais, com os passeios livres, uma família inteira, com um bebé num carrinho, descia a rua pelo meio da estrada e nem se desviou para o trânsito passar.

Há coisas que eu não compreendo mesmo.

COITADO DO JORGE

É verdade que o DNA já teve melhores dias (e é, claramente, ainda mais verdade que o próprio Diário de Notícias já não é o que era). É verdade que há algo nas entrevistas de Anabela Mota Ribeiro que me confunde (será o tom aspiracional, desesperadamente precioso, que elas manifestam, de alguém que quer ir mais longe do que aquilo que pode?). Mas, ontem, a entrevista de Jorge Silva Melo é uma daquelas pérolas que nos obrigam a pensar nas coisas, de uma serenidade delicadamente magoada, de uma solidão orgulhosa mas desencantadamente assumida, de uma tranquilidade inquieta. E, por uma vez, o essencial é logo dito no início. Magnificamente.

É uma daquelas hesitações que tenho sempre: porque é que vim parar a esta minha vida?, que escolhas fui fazendo?, não terei falhado as escolhas principais? Quando fundei a Cornucópia com o Luís Miguel e desisti de trabalhar no cinema, terei feito a escolha certa? (...) Essa vida que não vivi é a vida que me preocupa (...).

Tudo o resto vem daqui. E é raro uma conversa conseguir articular com tamanha lucidez o tanto (e, paradoxalmente, tão pouco) que uma vida é e pode ser.

LE NOUVEL OBSERVATEUR

Gosto de observar. Durante muito tempo não fiz mais nada. A pergunta: como transpôr a frieza desse exterior para a urgência da acção?

A AVE RARA

Anoitecer em Paço d'Arcos — e, de súbito, alguém repara que uma arara (ou será um papagaio?) se procura agarrar ao parapeito quase inexistente das janelas do edifício, ora pelo bico curvo e pontiagudo, ora pela garra da pata direita. Mas não há na vertical do edifício parapeitos onde uma ave se possa empoleirar, apenas painéis de vidro, caixilhos de aço praticamente alinhados com a vertical dos materiais. Curioso é ver a aparente placidez externa do bicho, virando a cabeça pachorrentamente enquanto procura um poiso, sem trair a angústia que o deve estar a atravessar. Como chegou ali, não faço ideia. Nem como saíu.

25 de agosto de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #4

Emplastro.

POLAROID: PRÍNCIPE REAL

Um palmier recheado, intacto, depositado em cima de uma caixa de derivação eléctrica na rua da Escola Politécnica. Perfeitamente centrado.

Uma senhora de meia-idade, baixa, de cabelo louro, calças pretas justas abaixo do joelho, sandálias douradas de salto alto, atravessa a rua a correr com a carteira na mão, em direcção ao jardim.

Três polícias guardam uma fachada de um falso quiosque erigido na esquina com a rua do Século para efeitos de uma filmagem, menos de dois metros à frente do verdadeiro quiosque do Príncipe Real, enquanto a equipa se afadiga à sua volta.

24 de agosto de 2004

POLAROID: CONSULTÓRIOS

Consulta de rotina no médico de família: saio com a habitual prescrição semestral de análise e electrocardiograma e como de costume faço-os logo de manhãzinha, seguidos, no mesmo dia.

No laboratório de análises, observo os gestos perfeitamente automatizados da médica que vai tirar as análises, o modo como pegar numa seringa e numa agulha novas, marcar os tubos e as lamelas onde depois irá guardar a amostra, é encadeado com uma velocidade impensável para quem não domina a técnica. São escassos segundos de preparação até ela introduzir a agulha na pele, nem cinco minutos leva todo o processo. Penso que a médica fará aquilo dezenas de vezes ao dia, centenas à semana. Penso que, se calhar, é tão cansativo e maçador tirar análises o dia inteiro como estar a um computador a introduzir dados ou ao telefone a receber chamadas.

No consultório onde faço os meus electrocardiogramas, há uma nova enfermeira (curiosamente, também de óculos) ao serviço e, ao contrário da anterior, esta mete conversa; vê-me no interior do cotovelo o pequeno algodão preso com um penso rápido que a médica sempre coloca depois das análises, diz-me que "esteve a fazer análises..." e conta-me do seu horror por fazer análises enquanto me passa no peito e nos tornozelos o gel condutor onde vai prender os contactos da máquina. Respondo-lhe que houve uma altura em que era incapaz de ver enquanto me faziam análises. Penso na vez que me pediram uma análise à glicémia (é assim que se diz?), que obriga a duas tiragens de sangue entrecortadas por um pequeno-almoço com um galão com açúcar e um bolo com creme estupidamente doce — dessa vez pedi um duchesse com chantilly, o bolo mais enjoativo que consegui imaginar, e fiz um esforço titânico para o comer todo porque odeio o raio do bolo.

Enquanto ela liga a máquina, quase adormeço nos breves minutos que estou deitado na marquesa de cabedal negro coberta com um qualquer protector de papel translúcido, mas a dolência é interrompida pela enfermeira a perguntar-me se estou a respirar fundo e a pedir-me para respirar normalmente para não afectar o exame.

23 de agosto de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #3

Troglodita.

POLAROID: MARGINAL #3 (MADRUGADA)

O sol levanta-se a Leste, no retrovisor do carro, tintando o céu de um rosa alaranjado. Mas, como o tenho por trás, apenas vejo o azul em progressão a Oeste; a ponte 25 de Abril iluminada com os carros mantendo uma surpreendente igualdade de velocidade, como carrinhos numa pista eléctrica. O ar é fresco e limpo, aqui, onde a beira-rio encontra a beira-mar; há uma sensação de possibilidade, de esperança, de confiança.

21 de agosto de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #1

Lambisgóia.

OS TRÊS TÓPICOS RECORRENTES DAS CONVERSAS COM A MINHA MÃE

1: "O quê? Foste outra vez cortar o cabelo? Que horror! Quem te manda cortar o cabelo dessa maneira?"

2: "Ai filho, já se conhecem os dias."

3: "Ai filho, já é noite. Olha, estive a ver uns álbuns de fotografias, tu com 12 anos..."

19 de agosto de 2004

O MEU SONHO É CHEGAR À MINHA TERRA DE CAMISOLA AMARELA #2

Sérgio Paulinho regressou hoje de Atenas com a prata olímpica e foi recebido efusivamente pela população de Manique, o subúrbio de Cascais onde cresceu. Assim se prova que Cascais não é exclusivamente uma terra de tios e de tias.

Sérgio Paulinho parecia absolutamente banzado, como se não percebesse muito bem o que lhe estava a acontecer ou porquê a ele. E, de facto, também não percebo porque é que todos os vizinhos, até os que costumavam resmungar com as brincadeiras do ciclista em rapaz, querem agora ser amigos dele.

Espero que isso, e o rumor da US Postal, não ponham a cabeça do rapaz às voltas. Não queremos uma repetição do triste episódio do Zé Maria, que, quando recuperar a sanidade, há-de se perguntar porque carga d'água alguma vez teve a triste ideia de concorrer ao Big Brother.

POLAROID: SALA DE ESPERA

Espero a minha vez no consultório do médico. Quando entro na sala de espera, está a saír um casal idoso, ela de vestido floral e mala ao ombro, ele de canadianas, que resmungam por causa do ar condicionado estar ligado mas, assim que saem, entram directamente para a consulta. Fico sozinho na sala com um outro senhor dos seus 50 anos, que tem um telemóvel suspenso do colete cru multi-usos que usa. Pergunto-lhe se é para o mesmo médico; diz-me que sim. Pergunto-lhe se sabe em que número vai; o casal que saiu é o número 6. Eu sou o 7 e ele o 10. Leio uma revista enquanto ele está ali sentado calado a olhar para o televisor sintonizado na RTP-1, onde duas pacóvias intermutáveis apresentam um talk-show para donas de casa e emigrantes onde está a ser entrevistado um moço alto, louro e espadaúdo que deve ser cantor ligeiro (daqueles que nunca ninguém sabe como se chama) e a cantora Alexandra (mais gorda do que me recordava dela).

Passados alguns minutos chega um outro senhor de meia idade, com uma pasta na mão. Senta-se na sala em silêncio depois de dar as boas tardes, enquanto o número 10 começa a passear pela sala. Alguns minutos mais tarde, inicia-se o diálogo da praxe e o recém-chegado diz que é o número 12; o último da consulta ou "o primeiro a contar do fim".

Passados mais alguns minutos — já ali estou há cerca de 20 minutos à espera de vez — os dois senhores começam a protestar por os doentes que estão em consulta nunca mais se despacharem. "Pois é, começam na conversa e depois ficam para ali a falar e esquecem-se de que há gente à espera". O número 10 chega até a ir até à porta do consultório e regressar, dizendo que "estão para ali a falar, ouvi a voz da senhora. Deve estar a contar a vidinha toda".

Passados mais alguns minutos, o casal sai, o senhor de canadianas à frente. Cansado da conversa de compadres, apresso-me a entrar no consultório.

18 de agosto de 2004

OS TEMPOS QUE CORREM

Um dia acordamos e olhamos para as coisas que nos rodeiam de outra maneira, e quase não reconhecemos o que ali está. No outro dia, quando fui jantar a casa dos meus pais, olhei para o bairro onde cresci e dei por mim a estranhar muitas das lojas com as quais cresci já lá não estarem. Como a loja dos 300 que, depois de várias encarnações diferentes, veio substituir a velha Grande Feira do Disco, na rua Forno do Tijolo, que era dirigida pelo letrista de Marco Paulo e que acabou, ingloriamente, por encerrar as portas no final dos anos 80 (ou princípio dos 90?). Muito disco em promoção lá comprei eu entre 1984 e 1988, ainda do vinil que agora puxei finalmente para o escritório enquanto não arranjo um gira-discos que funcione.

Mas a Grande Feira do Disco já lá não está há quase dez anos e só agora é que a notícia me bateu. Como, ontem, a passar pela 5 de Outubro, ver que o Nimas já não tem aquele "alpendre" (que, no fundo, era uma caixa de luz) que me habituei a ver, substituido por uma placa modernaça mas sem o mínimo cachet.

Não estou a ser velho do Restelo — duvido que a Grande Feira do Disco ainda tivesse viabilidade nos nossos dias, tal como estava. Mas, por vezes, há coisas em que não vale a pena mexer; como, por exemplo, as sistemáticas mudanças de logotipo que algumas marcas de discos foram fazendo ao longo dos anos para finalmente admitirem que o logotipo original, muitas vezes dos anos 50, é que era o bom (não é caso único, mas assim de repente lembro-me da RCA. E da Epic. E da Mercury). Porque se percebe quando o design se faz a pensar numa vida inteira e não no que está a dar agora.

(com desculpas ao Miguel Vale de Almeida por lhe ter "usurpado" o nome do blog para este post)

16 de agosto de 2004

POLAROID: MARGINAL #2

Sentido Cascais-Lisboa, pouco depois das seis e meia da tarde — com nesgas de céu azul a intrometerem-se por entre as nuvens que emolduram o céu, a ponte 25 de Abril ao longe contra um fundo de algodão branco e cinzento. E, a acompanhar a linha da costa, uma nuvem de nevoeiro suspensa, em declive suave, sobre o acesso à auto-estrada na zona da Cruz Quebrada/Estádio Nacional, como uma tira de algodão doce que acompanhasse o recorte da paisagem.

15 de agosto de 2004

GAIVOTAS

Está muito vento nas docas de Belém, mas é um vento quente e seco. Sento-me no Op Art a tomar um café e uma água sob o sol, a olhar para o rio a escassos metros da esplanada, a água batida da maré cheia a fazer vagas curtas e incessantes nas quais as gaivotas mergulham subitamente em busca de comida para se erguerem com a mesma velocidade e pairarem a poucos metros da superfície, batendo as asas sem que se mexam um único milímetro. Em movimento e contudo sem sairem do mesmo sítio, enquanto o vento continua a rugir à volta delas.

14 de agosto de 2004

O MEU SONHO É CHEGAR À MINHA TERRA DE CAMISOLA AMARELA

Em vez disso, tivemos uma prata olímpica. Menos mal. Explorem-na ao máximo porque, se se mantiver o padrão, não vamos ter muitas mais medalhas.

É TERÇA-FEIRA (APESAR DE SER SÁBADO)

Há largos meses que ja não vinha à Feira da Ladra. Já é tarde para os padrões do mercado — a longa rua de entrada está vazia de feirantes, há muitos espaços vazios de gente que já foi embora, fechou para almoço, não está (será que estes feirantes também tiram férias em Agosto?). Numa mesma banca improvisada podemos ver máquinas fotográficas, insígnias militares, roupas que já não servem a ninguém, gira-discos ou gravadores de cassettes de modelos antigos, livros e revistas amarelecidos pelo tempo, bibelots, discos.

Pergunto-me sobre a proveniência destes objectos perdidos e achados, descartados ou esquecidos, romances que talvez nunca tenham sido lidos, livros práticos que o tempo tornou irremediavelmente obsoletos, camisas e calças de cortes e cores que provavelmente nunca mais voltarão à moda. Olho para quem está atrás das bancas e não consigo tirar um azimute — à imagem da frequênbcia, a conjugação habitual de turistas em busca do pitoresco local, emigrantes em busca de roupas baratas ou utensílios em segunda mão que lhes são vedados em primeira mão pelo preço, coleccionadores que buscam raridades a preço de pechincha, transeuntes que gostam de passear por entre a esquizofrenia de bric-à-brac que ali partilha espaço com bancas temáticas de moedas, discos, livros, calçado, artigos militares, ferragens, roupas.

Não consigo impedir-me de pensar que muita dessa esquizofrenia corresponde ao recheio de vidas que o tempo, a doença, a morte esvaziaram. Pergunto-me se os nossos livros, os nossos discos, os nossos bibelots também acabarão na Feira da Ladra, levados por algum descendente com esperanças de poder ganhar uns trocos com as velharias poeirentas que já ninguém quer na família, irrelevantes porque obsoletas. E, contudo, por vezes esse pó tem uma patine que lhe dá consistência e peso; houve gente para quem aquele objecto significou alguma coisa.

A Feira da Ladra é um enorme armazém de passados à espera de serem reimaginados.

13 de agosto de 2004

POLAROID MARGINAL

Gosto de subir o viaduto da avenida da Índia, junto ao monumento aos Combatentes; gosto do jogo de movimentos entre os carros que percorrem a estrada, que descem a rampa e os comboios que passam por baixo do viaduto, dividindo as faixas de rodagem. Estar no topo do viaduto e apanhar o relance do dinamismo dos carros e dos comboios em movimento lembra-me daqueles livros juvenis feitos por ilustradores ingleses que mostravam o funcionamento das máquinas ou dos edifícios em cortes diagonais que faziam as delícias da minha infância e adolescência. Só que em imagem real, a cores e ao vivo. Gosto destas vistas panorâmicas de cima. Mas não demasiado de cima.

12 de agosto de 2004

CONSTATAÇÃO AZAMBUADA

Afinal, não me tinha esquecido do que era ter horários de trabalho. Nem do que era trabalhar a sério.

Esqueci-me foi da força centrífuga que as coisas que gosto, mesmo, de fazer impõem a tudo o que me rodeia. E da força centrífuga adicional que eu lhes dou quase sem dar por isso.

QUATRO LIVROS PARA FÉRIAS #2: YOU CAN GO HOME AGAIN

Termino "O Cemitério dos Barcos sem Nome", de Arturo Pérez-Reverte. O que aqui se encontra é, pura e simplesmente, uma carta de amor às séries B de aventuras, aos filmes negros, às mulheres fatais — e que espantosa mulher fatal ele criou em Tánger Soto, a historiadora obcecada por um naufrágio misterioso, e que fantástico herói de romance negro em Manuel Coy, o marinheiro sem barco seduzido pela historiadora mais do que pela sua história. No fundo, o marinheiro sonhador que busca uma ilusão e a mulher fatal que parece fria e intocável têm afinal muito em comum, ambos procuram recuperar um qualquer paraíso perdido nas páginas de um livro que leram em crianças. Esta é, afinal, uma aventura proustiana, buscando algo que já não existe e talvez nunca tenha existido.

É um grande romance romântico, onde se persegue de modo a um tempo clássico e moderno, sábio e ingénuo, uma inocência narrativa já há muito perdida; onde se recuperam fórmulas que a contemporaneidade literária e narrativa tornou fora de moda. Pérez-Reverte reivindica estar fora de moda, quer recuperar o charme pioneiro das narrativas iniciáticas do romance de aventuras; mas fá-lo introduzindo sinais (igualmente fora de moda) do desencanto e da lucidez magoada do noir. Este "Cemitério" é um romance de aventuras consciente do seu estatuto singular, fora de tempo, e não hesita em transformar essa singularidade num ponto a seu favor; essa consciência de ser uma criança tardia, desajustada no mundo que o rodeia, em vez de sublinhar a sua diferença vem apenas colocá-lo na linhagem dos grandes romances sobre o mar, ergue-o a digno e nobre herdeiro de um Conrad.

À imagem do seu herói, "O Cemitério dos Barcos sem Nome" é um romance que quer acreditar ainda ser possível um regresso a um romantismo pré-aldeia global; essa crença dá-lhe cartas de nobreza e alforria dignas dos grandes. E toda a ironia está em que, precisamente por ser impossível, Arturo Pérez-Reverte consegue-o. Não lia nenhum romance que mexesse tanto comigo há anos. A sério. You can go home again, after all.

com um agradecimento ao Elvis — e, não sei porquê, Alexandre, acho que ias gostar de o ler; e tu também, 1poucomais, embora por outras razões

10 de agosto de 2004

RECADO PARA O JC

Tenho saudades das nossas conversas de sábado à tarde. Gostava de as voltar a ter. Um sábado destes.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O NOSSO CANTINHO À BEIRA-MAR PLANTADO

Por vezes — e são mais do que seria correcto — não gosto de Portugal. Não gosto de viver num país onde estou cansado de ouvir promessas para mudar coisas que depois nunca mudam, onde (como dizia o poeta Godinho) tudo muda para que tudo fique igual, onde as pessoas estão mais interessadas em erguerem-se a si próprias do que a erguer coisas com futuro, onde se prefer ouvir os bajuladores que bajulam em vez das vozes lúcidas que vêem as coisas como elas são (mas verão realmente?). Por vezes, olho para este cantinho onde vivo; percorro a Marginal e vejo o mar a bater na praia de Santo Amaro, o comboio a saír do túnel quando começo a descer na curva que leva aos semáforos da Cruz Quebrada, e pergunto-me como é possível que Portugal tenha sido bafejado por sítios tão bonitos habitados por gente tão baixa, que diz (como hoje ouvi a uma senhora numa reportagem sobre atendimento demorado nas repartições de finanças de Bragança) que se está hoje pior do que no tempo do Salazar; e depois mudo o canal e vejo figuras públicas (Ferreira do Amaral, Mário Tomé, Carvalho da Silva) a recordarem episódios do seu tempo de guerra colonial, emocionados, com uma dor inexplicável a transparecer nas suas palavras. E pergunto-me como é possível. E penso um pouco e depois deixo de me perguntar; porque não vale a pena. Fica só uma tristeza funda, surda, cá dentro; um atavismo resignado de saber que há coisas que, por mais que se queira, por mais que se tente, não mudam.

Só nos podemos mudar a nós próprios, cada um de nós por si. Os outros não são — não podem ser — problema nosso; já é tão difícil mudarmo-nos a nós que não é certo que haja energias para o resto.

9 de agosto de 2004

LOGBOOK #16/17: NO REINO DO PEIXE-PEDRA

Portimão: Castelo de Neptuno, quinta-feira 29 de Julho, 11h00: 14m, 55min, 16º C
Portimão: Pedra dos Caneiros, quinta-feira 29 de Julho, 13h00: 9m, 60min, 16º C


Ao contrário do que eu pensava, mergulhar no Algarve não apresenta absolutamente nenhuma diferença em relação a mergulhar em Sesimbra. A temperatura da água é exactamente a mesma (e eu com medo de que o meu fato de 7mm fosse demasiado quente!), o tipo de água e de visibilidade idem aspas: a água tem aquele tom verde turquesa opaco cheio de suspensão dada pela estação das algas.

Marquei saida com Stefan Fend, um instrutor alemão radicado em Portugal com um centro no Carvoeiro - ou melhor, na Quinta do Paraíso, um dos empreendimentos turístico-habitacionais circundantes de ar vagamente confidencial. Apesar da proximidade do centro, a saída, de barco, faz-se da Marina de Portimão, com direito a transporte de equipamento em carrinha própria, a cerca de 20-25 minutos de viagem. Stefan não tem grande aspecto de alemão - deve ser do ar bronzeado e do corpo seco, quase sem carnes. Foi mergulhador militar na marinha alemã e está aqui instalado há doze anos, é igualmente mergulhador profissional e tem o centro aberto todo o ano. Conversamos durante o trajecto para Portimão e ele diz-me que o negócio não está grande coisa este ano, numa conbinação de crise económica e desvios para eventos como o Euro 2004. Daí que, em estação alta de Verão, só haja dois mergulhadores a sair nesta quinta-feira (para além de mim, François Moesen, um jovem belga com dois anos de experiência em águas frias que, apesar de estar à espera de água mais transparente e quente, diz que isto para ele parece a Polinésia).

O primeiro dos dois spots de mergulho, uma milha ao largo de Portimão, é o Castelo de Neptuno, uma rocha baixa entre os 8 e os 14 metros rodeada de vida. Muito peixe-pedra, um ou outro peixe-porco, o nudibrânquio casual e muitas anémonas - nem aqui as coisas diferem de Sesimbra. Cerca de 50 minutos de mergulho sempre a seguir as indicações de Felix, o divemaster também alemão. Depois de subirmos, com o mar de vaga curta e carneirinho, vento de Nordeste a criar ondulação, Stefan, que está a conduzir o barco de chapa de alumínio, muda-nos para o próximo spot antes de desempacotarmos as sandes. É a rocha dos Caneiros, em frente à praia do mesmo nome, um spot baixo com dez metros de máximo junto ao qual, enquanto comemos, um barco larga dois mergulhadores com os quais nunca nos cruzaremos. O spot é um percurso básico - dar a volta à larga rocha enquanto espreitamos para tudo o que é buraco, com cardumes a rodearem-na pachorrentamente e nudibrânquios por todo o lado, mas para quem esperava do Algarve algo de mais tropical e colorido a decepção impõe-se. François considera o mergulho "longo" - os 60 minutos são muito para quem está habituado a mergulhar fundo e pouco tempo, e não ficamos mais tempo porque estou a ficar com frio e vontade de aliviar a bexiga.

A esse propósito: alguém que me explique porque é que agora dei em escarrar debaixo de água.

8 de agosto de 2004

POLAROID: R. ALEXANDRE HERCULANO

Um Fiat Uno grená, modelo antigo, emite música hip-hop em altos berros. Está parado no semáforo que, na rua Alexandre Herculano proveniente da rua Conde Redondo, dá acesso à avenida da Liberdade. Ao som da música, o condutor faz o carro andar alguns centímetros e deixá-lo cair de novo para trás; no movimento quase de dança, aproxima-se perigosamente do pára-choques do carro da frente, um Opel Corsa último modelo. Ao perceber o que se passa, o condutor do Corsa, bastante afastado do semáforo, avança um pouco mais enquanto o condutor do Uno continua a mover o carro ao som da música. Quando o semáforo abre, o Corsa avança e passa para a faixa da direita o mais depressa possível enquanto o Uno acelera ruidosamente, com fumo a sair do escape.

7 de agosto de 2004

DISLEXIA VISUAL

Na barra em movimento do noticiário da hora do jantar da RTP-1, falava-se da lesão do futebolista do Benfica Pedro Mantorras, mas por alguma razão obscura e opaca eu li "tesão" em vez de "lesão". Experimentem agora reler todas as notícias sobre o infortunado jogador com esta troca de letras e perceberão o surrealismo anedótico mas revigorante que uma simples gralha pode de repente introduzir no quotidiano.

POLAROID: CCB

Um casal jovem com um filho ainda menino senta-se uma mesa à minha frente no self-service do CCB. Alguns minutos são necessários para sentar o menino e instalar as bandejas do almoço na mesa. Como seria de esperar, o menino não pára quieto enquanto os pais tentam almoçar descansadamente (sem sucesso) e dar-lhe o almoço a ele (com ainda menos sucesso). A certa altura, o miúdo ajoelha-se em cima da cadeira com o telemóvel do pai, os braços apoiados no recosto, e deixa-o cair no chão. As poucas tentativas de o fazer comer são infrutíferas. Acabam por deixá-lo levantar-se e ele começa imediatamente a correr de um lado para o outro da sala, que não está muito cheia, gritando muito alto, como se fosse um avião ou uma motocicleta em princípio de corrida. Pára junto aos pais; a mãe dá-lhe uma colher de sopa enquanto lhe diz "gasolina, Duarte". O miúdo retoma a correria. Mais tarde, um menino da mesma idade atravessa-se à frente dele enquanto sai para a esplanada e o miúdo grita-lhe enquanto faz pose de wrestler americano — ou de Hulk, não sei bem qual o mais adequado.

6 de agosto de 2004

A INTERMUTABILIDADE DOS TAMANHOS DE EMBALAGENS



Não percebo porque é que o consenso da comunidade crítica portuguesa caiu em cima de "Para Onde o Vento Sopra", de Tom Barman (em exibição no King, em Lisboa), e o corre a notas do género bola preta. (Kathleen, por favor, reconsidera. Não traias a confiança que deposito em ti.) Até dou de barato que eu gosto mais do filme do que ele merece. Mas aquilo que quase toda a gente vê como defeito nesta estreia na realização do cantor e compositor dos dEUS é precisamente aquilo que eu vejo como vantagem: o facto de ser um filme fluido, sem forma, espécie de corrida de estafetas que a meio caminho se descobre não ter verdadeiramente meta. É um filme que se constrói enquanto a projecção decorre, que nunca sabemos para onde nos leva realmente; que exige disponibilidade para ser descoberto. Que se desvenda aos poucos a partir de uma frase aparentemente banal ou desconexa.

Como: "Estar apaixonado é uma ameaça disfarçada de convite".

Ou: "Brincar com o futuro é uma forma de conformismo".

Ou ainda: "A crítica é para o artista o que a ornitologia é para a ave".

Ou ainda: "As pessoas da minha idade têm de citar filmes".

"Para Onde o Vento Sopra" é um dos poucos filmes que vi este ano que me agarrou logo à primeira e me deslumbrou sem eu estar à espera. Serei um iluminado ou apenas um iludido? Não me deixem nesta indecisão.

ADORO CROISSANTS

E, a propósito deste pequeno fait-divers, remeto os francófonos de entre vocês para a história do croissant.

MOLESKINE DO CARVOEIRO: POLAROID #5

quarta-feira

Dois adolescentes ingleses de tipo gandulo algarvio sentam-se na areia, sem toalha nem T-shirt. Apenas, num caso, uma bermuda azul longa, no outro uma bermuda de camuflado com um cinto de fantasia tipo militar, uma fita na testa, tatuagens pelo corpo todo, piercings à volta do umbigo, com uma lata de Guinness na mão que fica ali, vazia, quando partem para outras freguesias, engatar miúdas à beira-mar.

sexta-feira

Os mesmos putos ingleses do outro dia puxam pela língua de um nadador-salvador que lhes diz, em inglês passável, que é capaz de emborcar vinte canecas ou dez copos de vinho sem ficar bêbado. Depois, encontram um casal já conhecido com quem combinam uma noitada de shots e trocam dicas de tatuagens - afinal, o tatuado explica que as fizeram em Albufeira, com desconto de quantidade.

WEIRD SCENES INSIDE THE GOLDMINE

Os sonhos são uma coisa muito estranha. Quando estou muito cansado, não me costumo lembrar deles; apenas da sensação que eles deixam, de urgência ou angústia, apreensão ou receio. E é só desses que me recordo; são raros os "bons sonhos" que me ficam na memória. Como aquela vez em que - morando ainda em casa dos meus pais - acordei sobressaltado a meio da noite, com a janela de vidro fosco e a bandeira da porta a deixar ver o vermelho vivo de labaredas que não existiam a não ser na minha cabeça, como compreendi depois de ter semi-gritado enquanto me soerguia na cama e de ter acostumado os meus olhos ao que era apenas a ténue claridade do nascer do sol.

Não me recordo já do que sonhei hoje. Recordo que acordei às 7h40 com uma vaga sensação de apreensão e já não voltei a adormecer. Também é normal que isto me aconteça: quando acordo assim, acordo desperto e perdi o sono.

5 de agosto de 2004

QUATRO LIVROS PARA FÉRIAS #1: A VERDADE ESCONDIDA

Eram, de facto, quatro, mas só consegui ler dois e encetar o terceiro, não por falta de vontade mas porque já não leio com a velocidade devoradora de outros tempos; agora, prefiro saborear as palavras com descontracção. "A Caverna das Ideias", de José Carlos Somoza, psiquiatra cubana radicado em Espanha, é um policial metafísico que se desdobra em tratado filosófico e exercício de "mse en abîme". O primeiro, primordial e mais conseguido nível de leitura é uma investigação policial na Atenas da Antiguidade Clássica, onde o "decifrador de enigmas" Heracles Pontor investiga a misteriosa morte de um jovem da Academia de Platão, instigado pelo tutor do jovem. O texto vai sendo comentado em notas de rodapé por um tradutor sem nome que nele descobre marcas de uma fórmula literária conhecida por eidese — ocultação de imagens pelo meio de um texto literário com o fim de transmitir uma imagem ou uma ideia secreta que não tem necessariamente a ver com a narrativa central do livro.

A história policial é uma curiosa e perspicaz transposição para a Antiguidade Clássica dos lugares-comuns instaurados por Agatha Christie (ou achavam que a aliteração do nome Hercules Poirot era meramente casual). Subtilmente, Somoza constrói igualmente a história como uma sucessão de diálogos socráticos cujo fito é aqui distorcido — não tanto ampliar o conhecimento e iluminar a mente, antes criar um nevoeiro opaco que oculte a verdade, como em qualquer bom romance de mistério. Mas será que a verdade existe realmente?

O mérito de Somoza é navegar com destreza por entre os múltiplos níveis da narrativa sem que o conceito de "roman à clef" nem o engenho com que as varias estruturas são duplicadas nesses níveis chegue a macular o prazer básico da intriga policial. Mas a revelação final que esclarece as dúvidas da "mise en abîme" auto-referencial acaba por ser um pouco decepcionante, tanto mais que a solução é relativamente previsível; o subtexto filosófico parece sugerir um acrescento "a posteriori" para validar e emprestar à narrativa uma consistência intelectual que é na realidade desnecessária neste contexto.

QUanto à ideia de que o livro é uma entidade aberta e que é impossível fixar-lhe uma única definição... é assim que as coisas são. Está longe de ser uma descoberta estonteante, e Somoza não a explora de modo assim tão original. Mas "A Caverna das Ideias" é muito mais do que leitura descartável de Verão. Deve dar uma abada no "Código Da Vinci" (que, esclareça-se, não li).

4 de agosto de 2004

MOLESKINE DO CARVOEIRO: HIGHLIGHTS #2

quarta-feira

Sento-me numa das esplanadas do largo principal. A sombra aqui é muito agradável, mas também é verdade que o calor abrandou hoje. À minha esquerda acabam de se sentar duas inglesas com duas crianças — uma das quais, vestida de cor-de-rosa, me olha muito fixamente enquanto escrevo no caderno. Quase lhe pergunto se a mãe não a ensinou que era mal-educado olhar para as pessoas daquela maneira, mas não digo nada; já sei como estes ingleses têm a mania das educações.

"Re-Tratamento" dos Da Weasel ouve-se na aparelhagem do café e um dos empregados — pela frente, impecáveis de camisa e aventual bordeaux com monograma, pelas costas o avental deixa ver as pernas nuas por baixo de calções e as sandálias confortáveis — canta em voz alta o refrão.

Um caça militar sobrevoa a praia. Depois, passa uma avioneta que arrasta painéis publicitários.

Numa das casinhas caiadas de branco à entrada da vila, ainda há um daqueles painéis de azulejos à moda antiga, publicidade de época, a dizer "O Algarve é Schweppes". Não sei se o painel é mesmo de época, envelhecido pelo tempo, ou apenas uma reprodução moderna, mas a patine que dá é inevitável.

E ASSIM VAI A EDUCAÇÃO EM PORTUGAL

E assim se descobre (confirma?) que as raparigas são melhores alunas que os rapazes. O que, para quem conhece minimamente o sexo feminino, não é exactamente uma surpresa. Aliás, Arturo Pérez Reverte explica tudo no "Cemitério dos Barcos sem Nome", quando fala das mulheres que parecem transportar consigo séculos de intuição e de sabedoria acumulada... para o bem e para o mal. (E não, não estou a ser misógino.)

3 de agosto de 2004

MOLESKINE DO CARVOEIRO: POLAROID #4

quarta-feira

Há na praia três meninas — três irmãs? — que se comportam com o desembaraço do privilégio, de quem está (mal) habituado a ver os seus desejos cumpridos. O pai tem aspecto de ser gestor, de BMW e camisa de colarinho branco e gel no cabelo escorrdo e puxado para trás. A mãe usa um bikini verde às bolinhas e um panamá creme a tapar-lhe os cabelos louros; quando vai ao banho — como muitas mulheres portuguesas — não tira nunca o panamá e só se molha até aos ombros. As três filhas estão de bikinis iguais em cores diferentes de tonalidade fluorescente (azul, rosa, verde). Uma chama-se Filipa e as outras chamam-lhe Pipa. Embirram muito umas com as outras. Estão deitadas sobre as toalhas, viradas umas para as outras em triângulo, cantando melodias que não conheço mas que desconfio serem da novela da noite da TVI.

2 de agosto de 2004

MOLESKINE DO CARVOEIRO: POLAROID #3

segunda-feira

Assim que pouso a toalha na areia sou abordado por um inglês negro, alto e gordo, que me pergunta se falo a língua de um bando de crianças que corre à beira-mar, salpicando toda a gente à volta e atirando mãos-cheias de areia uns aos outros como pequenos vândalos. Olho para eles e respondo ao inglês que não vale a pena: com aquela idade eles não ligam nenhuma e de qualquer maneira depressa se cansarão da brincadeira. A esposa, inglesa tipica, branquíssima, parece concordar comigo, mas o inglês vai lá, irritado, e fala com eles. Eles páram com a brincadeira. Não percebi se eram ingleses ou não.

MOLESKINE DO CARVOEIRO: POLAROID #2

terça-feira

Um casal sentado à minha frente com dois filhos pequenos; ele chama-se Gonçalo, ela Soraia. O miúdo fala com um evidente sotaque do Norte que não se sente nos pais. A certa altura, a mãe não vê a filha; sobressaltada, chama-a, mas acaba por vê-la a brincar à beira-mar. Não passa muito tempo antes de ela voltar para cima, com uma lata de Fanta cheia de água do mar. Entretanto, o miúdo tanto deu cabo da cabeça ao pai para ir ao banho, quase fazendo beicinho, querendo levar a toda a força as braçadeiras e o colete de plástico com bolsas de ar que, a meio do banho, traz de novo à mãe por estar a magoá-lo. Saem da praia alguns minutos antes de mim mas, quando me dirijo para casa através da passadeira de madeira, a família inteira regressa à praia, o pai à frente, resmungando de mau modo qualquer coisa sobre estar farto das fitas do miúdo.

1 de agosto de 2004

E ASSIM VAI O JORNALISMO TELEVISIVO EM PORTUGAL

Durante a semana no Carvoeiro, segui com atenção os noticiários da SIC (não gosto do estilo TVI, e a RTP-1 apanhava-se com deficiências). Excelentes reportagens de Helena Figueiras, no noticiário da SIC, seguindo os fogos; mais à frente, no noticiário de segunda-feira (26), Frederico Roque de Pinho corta a palavra às palavras de circunstância do Secretário de Estado do Ministério da Administração Interna, presente na Arrábida, sem problemas.

Pena que, mais à frente na semana, Roque de Pinho tenha metido os pés pelas mãos a cobrir o incêndio do Algarve, levado pela emoção que já não desculpa as muletas que foi usando. Num directo caricato, entrevista um habitante de Barranco do Velho, muito angustiado, e um mirone que foi para ali passear de bicicleta; fala do "paraíso ecológico" que é a Serra do Caldeirão e do "bonito que é" a aldeia juntar-se toda na igreja para rezar como se a fé fosse a única coisa que pudesse afastar as chamas. Não nego a sinceridade das emoções do jornalista; mas é estranho como, ao ser transmitida, essa sinceridade ganha uma inesperada patine de desacerto, de desajuste.

Entretanto, ontem à noite a RTP-1 apresenta uma reportagem sobre o jovem de Cova da Muda que ficou sozinho a defender a aldeia do fogo; a SIC já o tinha feito na véspera, a reportagem soou a refugo para encher alinhamento. Hoje à noite, Daniela Santiago falou dos blogs de políticos pela rama, à beira de tratar essa entidade misteriosa que é a "blogosfera" como uma excentricidade ou uma bizarria; que pena não ter sido possível falar com os bloguistas...

TUDO EM FAMÍLIA

Acabo de assistir, antes do jantar, a uma pequena altercação telefónica entre o meu pai e o meu irmão mais velho.

E chego à conclusão de que, efectivamente, somos mesmo todos iguais, todos diferentes — mesmo no mau feitio.

MOLESKINE DO CARVOEIRO: POLAROID #1

domingo

Duas estrangeiras na praia, acompanhadas por dois estrangeiros. Mais tarde, percebo que elas são holandesas e falam entre si em holandês, mas eles são ingleses (flirt de férias?). Uma delas tem uma voz "de aguardente", como diria a minha mãe; um certo ar desleixado e rasca, misto de provocação ingénua e sensualidade banal; e, de cinco em cinco minutos, canta. O êxito romeno do momento (o tal "numa numa iei" que é insuportavelmente orelhudo), "When Doves Cry" de Prince, o que mais aparecer; não se cala, e entre canções ri-se com uma gargalhada rouca; Debra Winger sem a classe.

À beira-mar, famílias inteiras tomam banho na água de um azul-verde translúcido, manchada aqui e ali por tapetes de algas trazidos e levados pelo movimento das ondas, até o sol se começar a pôr a Oeste, escondendo-se por trás da falésia.

Uma página solta de um jornal inglês é arrastada pela brisa quente. Pouco depois, um chapéu de sol também, parando praticamente em cima de uma família que pacatamente goza o sol.

Um casal jovem chega e começa a procurar sítio para pousar o chapéu de sol, com os seus quatro filhos muito novinhos a travar-lhes a busca. Atrás de mim, três adolescentes magros e bronzeados afadigam-se a tentar encontrar a T-shirt de um e o telemóvel de outro que eles dizem terem sido roubados. Um trintão que não fez a barba, de pele branca e longos calções azuis, coxeia até à agua; está sózinho, tem um ar pensativo, tem uma tatuagem dos pára-quedistas no braço direito; cruza um outro homem, calvo e quarentão, que parece ter a mesma tatuagem no mesmo sítio. Um trintão pesado com um colar branco justo ao pescoço e ar de gigolo algarvio, de tanga vermelha que mal esconde um assinalável bojo, acompanha uma miúda com idade para ser filha ou, pelo menos, sua sobrinha.

31 de julho de 2004

MOLESKINE DO CARVOEIRO: HIGHLIGHTS #1

Há já alguns anos que não vinha fazer estes dias inquietos e preguiçosos a "torrar" ao sol do Verão encadeante da província mais a sul. Já me esquecera do cansaço de guiar em auto-estrada, mesmo que os 270km desde Lisboa se façam agora num tiro (a minha última visita ao Algarve data, ainda, de antes do completar da A2).

No percurso, vejo as tricas habituais dos condutores portugueses: três carros entram nas proverbiais picardias de ultrapassagem, forçando-se mutuamente a velocidades insanes acima dos 140 à hora (e não estamos a falar de BMWs ou Mercedes topo de gama, a não ser talvez na imaginação de quem os conduz). Mais à frente, dois carros parados na berma e um agente da BT a multar o condutor, apanhado em plena infracção por um dos carros sem marcas da brigada; mais à frente ainda, um carro caído na vala separadora central, o carro da BT num sentido, o reboque no outro, os agentes a atravessarem a auto-estrada como quem atravessa a rua.

O calor cola-se ao corpo, parece tolher os movimentos e a capacidade de pensar. Apenas apetece ficar prostrado na cama, no sofá, na areia da praia (por entre mergulhos refrescantes na água), com um livro ou uma revista nas mãos. Não há muito mais a fazer, nesta pequenina praia de pescadores, uma língua de areia encaixada entre duas falésias à frente de um pequeno largo cheio de restaurantes e bares pró turista onde desembocam duas ruas paralelas de sentidos de trânsito opostos. Em ambas a paisagem é monótona: cafés, restaurantes, artesanato, imobiliárias, papelarias, cafés, restaurantes, imobiliárias, supermercados, sempre em casas de pedra caiadas de branco, algumas com telha algarvia cor de tijolo. Tudo igual a todas as vilas e aldeias turísticas do Algarve — de que viverá esta gente na estação baixa, quando não há magotes de turistas ingleses ou alemães vermelho-lagosta das queimaduras solares, emborcando caneca de cerveja atrás de caneca de cerveja, gastando sem problemas as libras ou os euros que recebem semanalmente em economias com níveis de vida mais desafogados que os nossos? Será que estes sítios "fecham" durante o Inverno?

TÔ VOLTANDO

Sal em pó, destilado da água do mar que secou na minha pele ao sol algarvio do fim de tarde.

Famílias inglesas que não procuram outra coisa que não um ersatz do seu conforto de classe média baixa com sol e mar.

Fumo de incêndios (não tão) distantes a sujar o céu azul límpido e luminoso.

Seis dias de livros ao sol e jornais & revistas à sombra em que o único "cordão umbilical" ao mundo normal foram os noticiários da SIC às oito da noite. (E como é tão melhor mergulhar em Arturo Pérez-Reverte — raios. Elvis, acertaste em cheio no livro, "O Cemitério dos Barcos sem Nome" tem os meus fétiches literários todos, e ainda por cima bem geridos.)

Mil polaroides de tudo isto e de muito mais no Moleskine do Carvoeiro... next, on Roda Livre!

(mas não já, já, já; há uma refeição opípara para degustar antes)

24 de julho de 2004

PEDIMOS DESCULPA POR ESTA INTERRUPÇÃO

A roda livre vai a olear por uns dias. Este post é o proverbial "vou ali e já venho", recomposto, recarregado e com a máquina cheia de polaroides. Até já.

LOGBOOK #15: A LINHA CLARA FRANCO-BELGA

Sesimbra: Ponta da Passagem, sábado 24 de Julho, 11h20: 14m, 45min, 18º C

Hoje o Riva devia estar bom: com o calor abafado que está, a água ao largo de Sesimbra parecia estanho, e as vezes que eu ouço o pessoal do centro a dizer que o Riva é uma questão de sorte do tempo deram para perceber que eles hoje achariam o dia ideal para ir ao naufrágio. Mas fomos antes à Ponta da Passagem, algumas milhas atrás, de profundidade mais em conta para o grupo reunido, da qual faziam parte dois franceses — o Patrick, "estacionado" em Portugal em trabalho durante alguns meses, a fazer o circuito dos centros de mergulho de Lisboa, e o François, monitor de férias cá com a esposa portuguesa que já mal fala a língua — e um belga — o Philippe, também de férias, que estava com medo da água fria pois só estava habituado a mergulhos em água quente (Martinica, Guadalupe, etc, viva a democratização do turismo de mergulho).

Parece que é difícil encontrar quem fale francês fluentemente e como o português é uma língua bárbara, fui erguido a "guia-intérprete" dos rapazes, que tiveram sorte com a temperatura da água (relativamente pouco fria para o que é habitual na zona — pudera, com o calor que estava) e pouco mais: apenas cardumes escondidos em reentrâncias das paredes rochosas, um ou outro nudibrânquio abandonado, a certa altura um peixinho em decomposição no fundo arenoso. E algas. Muitas algas. "C'était bien", disse o Patrick no fim. "Une petite promenade", disse o François — mais habituado a mergulhos mais exigentes como bom instrutor que é — no fim. "C'était super"; disse o Philippe que não mergulhava há seis meses. É bom saber o que os outros acham dos sítios que já conhecemos de cor.

23 de julho de 2004

EARTHQUAKE WEATHER

Santana Lopes debita banalidades preparadas pelos assessores sobre Carlos Paredes na Basílica da Estrela. Vítor Baía quer que Scolari lhe explique porque é que não fez falta na selecção de futebol. Será do calor?

INSOMNIAC (escrita automática)

chamemos-lhe insónia, se quisermos; inquietação também é possível (no sentido da "restlessness" inglesa);

é típico de alguns períodos: são várias semanas em que tudo se arrasta sem adiantar nem atrasar, de repente tudo se precipita e os referentes mudam de coordenadas,

escrever o quê, então, nesses dias em que de repente corremos de um lado para o outro a tentar deixar coisas prontas porque tem de ser, porque há responsabilidades a cumprir; e basta sentarmo-nos com um amigo e conversarmos dez minutos para as coisas regressarem todas à sua prioridade natural; mas depois, afinal, olhamos e vemos que não é por isso que as coisas que têm de ser se foram embora;

esta semana jantei com um amigo que não via há mais de um ano e que, neste período em que não nos vimos, decidiu "travar"; já não faz a vida profissional louca que fazia antes, percebeu por "motivos de força maior" que se andarmos a tentar andar tão depressa como o mundo mais tarde ou mais cedo o motor gripa por excesso de esforço; está com um ar muito mais feliz e saudável;

num comentário aqui há uns posts atrás alguém definia a opção entre o dinheiro e a alma; a coisa não se coloca exactamente nessa dicotomia radical — mais na opção entre sermos quem nós queremos ser e sermos quem esperam que nós sejamos;

andamos todos à procura de algo e quando o podemos ter encontrado fugimos; porque temos medo de estarmos enganados, ou porque temos medo de estar certos?

21 de julho de 2004

NÃO TENTEM ISTO EM CASA #2

Seis horas a desarrumar o escritório, desfazer embalagens, montar estantes, trocar aparelhagens, livros e discos e outras minudências de lugar, e ainda assim deixar o escritório semi-incompleto já não é frustrante como era há uns anos atrás porque já não tenho idade para me auto-flagelar. Sempre foram sete estantes, é verdade. Também, ninguém me manda querer comprar tudo de uma só vez — mas é para estas coisas que serve o "subsídio de férias" e é nestas alturas de disponibilidade mental que estas tarefas necessárias se devem fazer.

Apesar de tudo, o pior (melhor?) ainda está para vir: (re)organizar a discoteca.

20 de julho de 2004

NAO TENTEM ISTO EM CASA

Pequena adivinha do dia: como encaixar sete embalagens do IKEA com um comprimento de 2 metros cada e duas pessoas de estatura normal num Honda H-RV de duas portas sem perturbar a condução?

Pista: da próxima vez que me passar pela cabeça ir ao IKEA comprar estantes vou combinar com meia-dúzia de amigos que precisem de lá ir e alugamos uma camioneta para trazer tudo. Para condução radical já basta o quotidiano das radiais da capital.

18 de julho de 2004

POLAROID: PRAIA DO GUINCHO

O menino terá três, quatro anos; brinca sózinho, de sandálias calçadas e T-shirt vestida para proteger do sol, sob o olhar embevecido da mãe que está de bikini debaixo do chapéu de so, na tira da areia que o separa do declive rochoso que leva aos balneários para surfistas embutidos perto da estalagem do Muxaxo. A certa altura, trava-se de amizade com um menino mais novo que ele, o que cria uma cena digna de uma tragédia grega quando os pais do outro menino vêm buscá-lo para irem comer. Nos cinco minutos seguintes, o outro menino, chamado Guilherme, recusa-se teimosamente a ir comer para continuar a brincar com o menino, que a mãe chama Diogo, muito embora os pais insistam teimosamente que o menino não se vai embora e também vai papar. O chavascal feito pela conversa dos pais é maior do que a birra das crianças. Alguns minutos mais tarde, já com o Guilherme & cª ausentes a almoçar, chega o pai do Diogo com a prancha de surf e, depois de despir o fato de borracha, leva o Diogo e a mãe para comer num dos bares de terraço.

Não faço ideia como terá ficado a história das brincadeiras entre o Guilherme e o Diogo porque entretanto chega um grupo espanhol mais ruidoso do que seria possível imaginar, composto por dois pais de trinta e muitos e quatro filhos na casa dos dez anos (onde estariam as mães?). Em vez de se sentarem na areia dourada, preferem sentar-se no declive rochoso, e mantêm-se vestidos e calçados, à excepção de dois dos rapazes, que ficam só de calções e correm para o mar com uma prancha de bodyboard. Durante os vinte minutos seguintes os dois rapazes espanhóis que ficam conversam ruidosamente, queixam-se da areia, comem baguetes que trouxeram de uma loja de fast food, discutem os estados da matéria, enquanto o pai grita "José Maria" para aqui e "Felix" para ali, para delícia de um casal deitado ao meu lado que contempla toda a pantomima com francos sorrisos de alegria. Quando saio da praia eles ainda para ali estão a fazer um chavascal impressionante num castelhano perfeito.

NÃO SEJAS SILLY, NÃO SEJAS SILLY, NÃO SEJAS SILICONE

Portanto:

— Pedro Santana Lopes diz que procurará baixar os impostos e pensar nas famílias mais carenciadas;
— Paulo Portas compra uma guerra com Alberto João Jardim;
— João Soares vai ao congresso da Juventude Socialista porque acha que o futuro Secretário-Geral do PS deve mostrar ao seu apoio aos jovens;
— a capa de uma das revistas "people" que por aí pululam adianta que Cinha Jardim daria uma óptima esposa para o novo Primeiro-Ministro;
— um outdoor propagandeando revistas como a "Amiga" (da qual nunca tinha ouvido falar) é encimado pela expressão "Leia com Orgulho".

É oficial: entrámos na silly season. SOCORRO!

17 de julho de 2004

POLAROID: SALÃO PAIS

(dia da visita bimestral ao barbeiro para traumatizar a mãe)

Há sempre mais alguém no barbeiro quando entro para cortar o cabelo, mas hoje o sr. Pais, a filha e o jovem empregado estão sentados no banco corrido onde os clientes costumam esperar, a ler o jornal, a olhar para ontem. Quando eu entro, pelas dez e meia, sou o único cliente. É a filha que se levanta para me cortar o cabelo. Não há muito tempo (um ano? talvez mais?) o empregado estava na tropa e ouvia-o contar histórias de caserna ao sr. Pais enquanto cortavam o cabelo aos clientes; hoje uma barriga bem à portuguesa (de cerveja ou de fast food?) começa a ver-se por baixo do pólo azul-bebé. Sai para ir tomar café, volta pouco antes de eu sair.

A filha do sr. Pais pergunta-me o proverbial "como vai ser" e puxa da máquina para cortar o cabelo. Geralmente nunca leva mais de 15 minutos a fazê-lo; hoje leva 10 minutos se tanto (será que entrei com o cabelo mais curto do que habitualmente? será que ela levou menos tempo para poder voltar ao não-fazer-nada?). Nenhum cliente entra enquanto lá estou. Nem o rádio está aceso (costuma estar no Rádio Clube Português). Sente-se o Verão bairrista lisboeta, com os regulares ausentes de férias, o ritmo geral das coisas significativamente mais lento do que é habitual.

16 de julho de 2004

PENSAR O CINEMA

Numa dicotomia básica e evidentemente redutora, costumo diferenciar o raciocínio anglo-americano do raciocínio francês ou francófono pela construção linguística. À imagem da língua, a expressão do pensamento teórico inglês (ou americano) é de uma simplicidade flexível e pragmática, directa ao assunto, de estilo que expressa facilmente a substância, enquanto que a expressão do pensamento teórico francês se perde nos rococós rebuscados e elegantes de uma língua onde a função é tão importante quanto a forma. Basta, aliás, ver como a noção de "crítica cinematográfica" difere de um universo para o outro; ou como a ideia de "cinema de autor" parece quase ser um exclusivo francês.

Isto tudo a propósito de uma simpática e, por uma vez, particularmente pragmática antologia publicada há uns anos pelos Cahiers du Cinéma, intitulada "La Politique des Auteurs — Les Textes". Como toda a gente sabe, o principal contributo francês para a crítica cinematográfica foi a "política dos autores" lançada naquela revista em finais dos anos 50 por uma geração de críticos que ergueram a apreciação cinematográfica ao nível do ensaísmo universitário: François Truffaut, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, Eric Rohmer. Essa mesma geração (a par de contemporâneos como Alain Resnais ou Claude Chabrol) viria a distinguir-se no cinema sob o genérico Nouvelle Vague — praticantes de um "cinema novo" que, paradoxalmente, nada ou muito pouco tinha a ver na prática com os autores e com o cinema americano que os inspirara, e que procurava trilhar novos caminhos.

A frescura da Nouvelle Vague acabaria por contagiar grande parte do cinema mundial não-americano e a política dos autores, estabelecendo o realizador como autor principal do filme, onde se reconheceriam marcas e sinais de um universo próprio que se sobrepunha a quaisquer condicionantes de produção, tornar-se-ia numa espécie de dogma crítico, levando à criação da expressão "cinema de autor" para designar a produção cinematográfica não-"mainstream" ou com pretensões a arte mais elevada e nobre.

O interessante do pequeno volume de bolso onde se reunem alguns dos textos teóricos mais estimulantes publicados nos Cahiers du Cinéma entre 1953 e 1997 e assinados pelos críticos que se foram revezando na veneranda revista é verificar como a própria teoria da política dos autores sofreu alterações com o correr do tempo; depois da sua formulação nos anos 50 assistimos à sua dogmatização, à sua transformação em instituição de referência (e ao nascimento de uma oposição interna nos anos 60 onde a "política dos autores" é renegada pela nova geração de críticos como tendo-se tornado no sistema contra a qual foi criada), e finalmente à sua entronização como modo de linguagem crítica e ao debate sobre a sua relevância contemporânea.

Particularmente notável a esse nível é um ensaio de Olivier Assayas (mais tarde também ele realizador e, actualmente, ex-marido de Maggie Cheung), publicado em 1983 sob o título "Que d'Auteurs, Que d'Auteurs! Sur une Politique" ("Tantos Autores, Tantos Autores! Sobre uma Política" em tradução livre minha), onde Assayas explora elegantemente as contradições que o tempo foi revelando na teoria dos autores, nomeadamente o efeito perverso de circuito fechado que ela veio criar nos cineastas.

De facto, aquilo que nasceu como necessidade de emprestar estatuto a uma arte menor erguendo-a ao nível das artes clássicas como a literatura ou a pintura e como reconhecimento da existência de sensibilidades e qualidades peculiares e específicas dentro de um sistema de produção estandardizado, acabou por criar uma lógica perversa na qual o cineasta se reivindica automaticamente autor e lançar um sistema de produção alternativa em circuito fechado, definindo o célebre "cinema de autor" como um objecto incapaz de comunicar com um público que não aquele que se revê nele.

De uma presciência rara (sobretudo quando se repara que foi escrito há 20 anos), o ensaio de Assayas põe o dedo na ferida de muita da produção cinematográfica europeia contemporânea e revela as limitações de uma política originalmente bem-intencionada que o tempo se encarregou de cristalizar num conjunto de regras de seguimento obrigatório para quem quer ser reconhecido como cineasta. O cinema português quase todo, e não só, continua a segui-las fielmente, incapaz de perceber que novos tempos exigem novos modos de ver e pensar o cinema.

O que este volumezinho prova é que é sensato rever as nossas posições ao longo dos tempos, para garantir que não ficamos presos em passados poeirentos nem fechamos os olhos a futuros intrigantes.

15 de julho de 2004

POLAROID: REMEMBER MUSIC FOREVER

A jovem está sentada à minha frente na carruagem de metro em direcção ao Marquês de Pombal. Loura, cabelos compridos, com o rosto luzidio e circular que caracteriza um tipo eslavo ou então suburbano de origem rural. Tem um saco de papel suspenso da mão, entre as pernas. Calça sandálias e veste uma T-shirt branca com a frase "Remember Music Forever" escrita à mão; por cima de algumas letras estão cosidos quadrados de pano que têm retratos de artistas do momento, a preto e branco e cinzento, com um tratamento tipo lápis de cera claramente feito em computador; reconheço Eminem e Britney Spears (ou será Celine Dion? O efeito não permite distinguir).

Passa um vendedor da Cais, vestido com a tradicional T-shirt e boné amarelo. Não fala, mostra a revista aos passageiros a ver se eles querem. Faço sinal que não, a senhora que viaja ao lado da jovem também, mas a jovem acena com a cabeça, pega na revista que ele estende, pergunta quanto é (o vendedor diz-lhe o preço com os dedos da mão) e folheia-a com alguma atenção. No fim devolve-a ao vendedor, dizendo "não, obrigado". O vendedor estende-lha de novo e a jovem, levantando-se enquanto o comboio abranda e entra na próxima estação, diz-lhe: "não, obrigado. Não traz nada de jeito."

Na mesma estação em que a jovem sai, entra uma senhora que folheia uma revista feminina, de pequeno formato e cores garridas, devorando avidamente um artigo do qual apenas leio os títulos: "Marlon Brando - Sex-Symbol Morreu na Miséria".

14 de julho de 2004

I DON'T LIKE WEDNESDAYS

(é mentira, a quarta-feira sempre foi o meu dia preferido da semana por estar no meio)

Detesto os dias em que sinto que perdi tempo a fazer coisas que não contribuem em nada para a evolução da minha conta bancária ou da minha educação pessoal enquanto ser humano.

Os únicos dias que detesto mais do que esses são aqueles em que sinto que perdi tempo a fazer coisas que não contribuem em nada para a evolução da minha conta bancária ou da minha educação pessoal enquanto ser humano, quando tinha para fazer coisas que contribuiam para um desses dois objectivos.

Contudo, quem me garante que os dias em que sinto que perdi tempo a fazer coisas que não contribuem em nada para a evolução da minha conta bancária não contribuiram para a evolução da minha educação pessoal enquanto ser humano?

13 de julho de 2004

DO THE SASHIMI

O meu amigo António, que foi quem primeiro me quis converter às delícias da comida japonesa, gosta de contar a história daquela vez em que, num restaurante japonês em Paris, pediu sushi e a empregada achou por bem avisá-lo do conteúdo do prato: "poisson clu! poisson clu!". A parte mais divertida para o leigo como eu foi perceber que o "peixe cru" não é tanto o sushi — que ainda assim é um prato preparado, já que o "peixe cru" vem envolvido num rolo de arroz fechado com uma fina fatia de alga — mas sim o sashimi, que é um pequeno filete do peixe cru propriamente dito, cortado com infinita delicadeza para se poder levar um pedaço inteiro à boca sem alarvar, sem nenhuma fuga possível à estranheza do objecto: é mesmo peixe, é mesmo cru, e não há nada que o esconda.

A minha primeira experiência mais séria, num restaurante japonês digno, foi-me proporcionada pelo meu estimado amigo e vizinho Paulo, e embora o sushi não me tenha convencido grandemente e os pauzinhos levem uma certa habituação a usar, logo à primeira fiquei rendido ao paladar delicadíssimo do sashimi. Hoje, repetindo o manjar com a minha querida amiga Helena, voltei a salivar com o tenríssimo filete de peixe (não exactamente) cru (porque marinado previamente), que depois de devidamente passado pelo salgado molho de soja onde se diluiu previamente um pouco de wasabi (a pirómana mostarda verde pouco recomendada a paladares sensíveis), quase se derrete na boca.

É um prazer gustativo como há poucos, misto de simplicidade zen em levitação e requinte gastronómico de luxo. Pena que os restaurantes japoneses sejam estupidamente caros.

BROKEN ENGLISH

A expressão não foi inventada por Marianne Faithfull que dela fez o título de um álbum em 1979 e define, latamente, o inglês "desastrado" ou incorrecto falado por um não-nativo que domina a língua com falhas. É uma expressão feliz, porque define sem preconceitos o caminho a percorrer entre compreender e comunicar — o "broken" está lá a sugerir que algo se perdeu ou se quebrou durante o processo de comunicação, sem que isso a interrompa necessariamente. Quando ouço, por exemplo, Mariza a falar inglês no DVD da Union Chapel agora editado, a construção de algumas frases denuncia que a cantora não domina o inglês na perfeição, mas a correcção global da gramática e o contexto compensam as dificuldades de comunicação que uma ou outra palavra usada incorrectamente possam ter, explicando na perfeição o conceito de "broken English".

Alguns bons exemplos de "broken English" podem ser tirados do japonês (cf "Lost in Translation" e o delicioso momento "lip my stocking! lip my stocking!"), ou, por exemplo, do letreiro luminoso de um dos clubes nocturnos da avenida Duque de Loulé, em Lisboa, que anuncia em néon "Super Maybe Club" — definição que me parece superiormente nipónica de tão incompreensivelmente luminosa e perfeita que é.

Estejam à vontade para sugerir mais.