"Aparelho Voador a Baixa Altitude", de Solveig Nordlund a partir de J. G. Ballard, cruzado com "O Estado das Coisas" e "Paris, Texas" de Wim Wenders.
les flamands roses s'en vont
sans se faire la moindre illusion
sur les hommes
les femmes
nus
la marée haute s'en vient
par sa grâce il ne reste rien
de la foule
infâme
nue
je t'attendrai sur la plage
ou le long des piscines
en fumant la résine
en trichant sur mon âge
je t'attendrai sur la plage
près d'un aérosol
au sixième sous-sol
ou un pied dans la marge
les nuages font et défont
des mirages de plumes de goudron
pour les hommes
les femmes
nus
les flamands roses reviennent
dans le vent de l'est d'Eden
et la foule
infâme
les tue
je t'attendrai sur la plage
ou le long des piscines
en fumant la résine
résignée sur mon âge
je t'attendrai sur la plage
près d'un aérosol
au sixième sous-sol
ou un pied dans la marge.
- Home (Chiara Mastroianni & Benjamin Biolay), "La Plage", in "Home" (Virgin, 2004)
(obrigado, João)
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
29 de junho de 2004
O MELHOR DO MUNDO
De vez em quando a minha mãe começa a recordar a minha infância com a ternura com que só uma mãe consegue recordar a infância dos filhos, pontuada regularmente pela frase, "ai filho tu foste muito mau de criar".
Não gosto de recordar a minha infância. Não por ter sido boa, má, assim-assim. Apenas porque já ficou para trás, e já não me é possível recuperar a dicotomia simples e ingénua que a norteou, a distinção branco/preto que a idade vai progressivamente erodindo.
Mas a minha mãe gosta muito de recordar a minha infância, de me dizer como aos três anos eu já sabia ler (pudera, crescendo à volta da infindável biblioteca dos meus pais onde Jorge Amado e a Colecção Vampiro coexistiam alegremente) e como uma professora quis falar comigo por eu poder ser um sobre-dotado e a minha mãe recusou-se porque não queria que eu fosse um menino diferente dos outros. Não faço ideia se era ou não sobre-dotado (tenho as minhas dúvidas) mas I have got news for you, mãezinha: falhaste redondamente. Por muito que tentasses, os outros meninos sempre preferiram ver-me como diferente: gordinho, metido consigo, com óculos. A vítima perfeita das brincadeiras cruéis de intervalo para o recreio.
Por isso é que eu não gosto quando tu recordas com ternura a minha infância: porque a passei à espera de crescer, para poder finalmente fugir à impotência de ser criança.
E, nos momentos mais escuros e solitários, tenho medo de nunca o ter conseguido.
Não gosto de recordar a minha infância. Não por ter sido boa, má, assim-assim. Apenas porque já ficou para trás, e já não me é possível recuperar a dicotomia simples e ingénua que a norteou, a distinção branco/preto que a idade vai progressivamente erodindo.
Mas a minha mãe gosta muito de recordar a minha infância, de me dizer como aos três anos eu já sabia ler (pudera, crescendo à volta da infindável biblioteca dos meus pais onde Jorge Amado e a Colecção Vampiro coexistiam alegremente) e como uma professora quis falar comigo por eu poder ser um sobre-dotado e a minha mãe recusou-se porque não queria que eu fosse um menino diferente dos outros. Não faço ideia se era ou não sobre-dotado (tenho as minhas dúvidas) mas I have got news for you, mãezinha: falhaste redondamente. Por muito que tentasses, os outros meninos sempre preferiram ver-me como diferente: gordinho, metido consigo, com óculos. A vítima perfeita das brincadeiras cruéis de intervalo para o recreio.
Por isso é que eu não gosto quando tu recordas com ternura a minha infância: porque a passei à espera de crescer, para poder finalmente fugir à impotência de ser criança.
E, nos momentos mais escuros e solitários, tenho medo de nunca o ter conseguido.
A HIPOCONDRIA É
Ver manchas acinzentadas no pulso, pensar que se tem algum tipo de envenenamento no sangue, sentir o pulso quente e dormente e só depois perceber que as manchas saem com água; são do cabedal novo das luvas do ginásio.
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #9
Depois de algumas semanas em que a fachada esteve em obras, agora a fachada do "antigo" Jardim Cinema, na avenida Álvares Cabral, a meio caminho entre o largo do Rato e o jardim da Estrela, está finalmente de cara lavada, embora eu não saiba muito bem por obra e graça de quem. E quando digo a fachada do Jardim Cinema, não é só a fachada do que é hoje essencialmente um estúdio de televisão — é também a fachada de todo o prédio onde ele se insere, completada pelo Monumental Salão de Jogos e pela respectiva tabacaria. Está tudo resplandecentemente claro, o velho friso emoldurando a parede "cega" que encima a antiga porta de entrada do cinema recuperou a sua precisão apolínea neo-clássica, devolvendo à arquitectura do edifício a definição que esteve obscurecida durante muito tempo.
O interior, infelizmente, é que já há vinte anos deixou de ser um cinema, depois de ter durante muito tempo sido esse clássico da sala de bairro que era o Jardim Cinema e, durante menos de uma década, uma salinha de estreia do grupo Lusomundo chamada Monte Carlo, para onde eram desviadas estreias de segunda e terceira linha a fazer a semana da praxe. Depois disso, foi o Jardim Cinema Loucuras, uma das "event discos" da moda a meio da década de 80, antes de se tornar em estúdio de produção televisiva (onde ainda hoje decorrem, creio, os programas da manhã e da tarde da SIC), destino curiosamente partilhado por outras salas "de bairro" como o Europa, em Campo de Ourique (propriedade da RTP, embora hoje inactivo), ou o Berna, a meio caminho entre o Campo Pequeno e a Praça de Espanha (onde a TVI esteve durante muito tempo).
Não acredito que muita gente tenha saudades do velho Jardim Cinema ou sequer da derivação Monte Carlo; e, no fundo, é compreensível; nem todas as salas de cinema de Lisboa se alojaram de igual modo na memória colectiva dos cinéfilos lisboetas.
O interior, infelizmente, é que já há vinte anos deixou de ser um cinema, depois de ter durante muito tempo sido esse clássico da sala de bairro que era o Jardim Cinema e, durante menos de uma década, uma salinha de estreia do grupo Lusomundo chamada Monte Carlo, para onde eram desviadas estreias de segunda e terceira linha a fazer a semana da praxe. Depois disso, foi o Jardim Cinema Loucuras, uma das "event discos" da moda a meio da década de 80, antes de se tornar em estúdio de produção televisiva (onde ainda hoje decorrem, creio, os programas da manhã e da tarde da SIC), destino curiosamente partilhado por outras salas "de bairro" como o Europa, em Campo de Ourique (propriedade da RTP, embora hoje inactivo), ou o Berna, a meio caminho entre o Campo Pequeno e a Praça de Espanha (onde a TVI esteve durante muito tempo).
Não acredito que muita gente tenha saudades do velho Jardim Cinema ou sequer da derivação Monte Carlo; e, no fundo, é compreensível; nem todas as salas de cinema de Lisboa se alojaram de igual modo na memória colectiva dos cinéfilos lisboetas.
28 de junho de 2004
PARA QUE FIQUE REGISTADO
Embora tudo isto ainda esteja no reino das hipóteses (e como é divertido e entusiasmante ver o país, político e social, tomar posição a favor ou contra da possibilidade de uma dessas hipóteses se tornar em realidade), concordo com Manuela Ferreira Leite (coisa que nunca me passou pela cabeça vir a escrever, diga-se em abono da verdade).
E, independentemente de quem seja o nome que o PSD decida propôr para eventual sucessor de Durão Barroso caso este decida aceitar a Presidência do Conselho Europeu (pergunta aos semióticos: existirá alguma ironia neste condicional?), sou a favor de eleições antecipadas por uma simples razão: votar numa eleição legislativa não equivale a passar "cheques em branco" para o futuro. Quem votou no PS(D) em 2002 votou num PS(D) que não é necessariamente o PS(D) de 2004 (como todos sabemos, as forças políticas, com uma notória excepção, são também elas rios em constante movimento). Para além do precedente complicado que estes abandonos a meio do mandato (e já vamos em dois seguidos) se arriscam a configurar futuramente.
E estávamos nós a ter um Eurozinho tão sossegado. Estabilidade? Qual estabilidade?
E, independentemente de quem seja o nome que o PSD decida propôr para eventual sucessor de Durão Barroso caso este decida aceitar a Presidência do Conselho Europeu (pergunta aos semióticos: existirá alguma ironia neste condicional?), sou a favor de eleições antecipadas por uma simples razão: votar numa eleição legislativa não equivale a passar "cheques em branco" para o futuro. Quem votou no PS(D) em 2002 votou num PS(D) que não é necessariamente o PS(D) de 2004 (como todos sabemos, as forças políticas, com uma notória excepção, são também elas rios em constante movimento). Para além do precedente complicado que estes abandonos a meio do mandato (e já vamos em dois seguidos) se arriscam a configurar futuramente.
E estávamos nós a ter um Eurozinho tão sossegado. Estabilidade? Qual estabilidade?
27 de junho de 2004
I WANT TO BELIEVE (SLIGHT RETURN)
A esse propósito (desculpem, não resisti), vale a pena citar o fantástico discurso com que Kevin Costner, no papel de um jogador de baseball que passou ao lado de uma grande carreira e acaba num clubezinho regional, seduz Susan Sarandon, a groupie local que faz ponto de honra em dormir com um novo jogador do clube todos os anos, em "Jogo a Três Mãos" (1988), um filmezinho simpático de Ron Shelton sobre a dignidade dos falhados da vida:
Well, I believe in the soul, the cock, the pussy, the small of a woman's back, the hanging curve ball, high fiber, good scotch, that the novels of Susan Sontag are self-indulgent, overrated crap. I believe Lee Harvey Oswald acted alone. I believe there ought to be a constitutional amendment outlawing Astroturf and the designated hitter. I believe in the sweet spot, soft-core pornography, opening your presents Christmas morning rather than Christmas Eve and I believe in long, slow, deep, soft, wet kisses that last three days.
Well, I believe in the soul, the cock, the pussy, the small of a woman's back, the hanging curve ball, high fiber, good scotch, that the novels of Susan Sontag are self-indulgent, overrated crap. I believe Lee Harvey Oswald acted alone. I believe there ought to be a constitutional amendment outlawing Astroturf and the designated hitter. I believe in the sweet spot, soft-core pornography, opening your presents Christmas morning rather than Christmas Eve and I believe in long, slow, deep, soft, wet kisses that last three days.
I WANT TO BELIEVE
26 de junho de 2004
QUERER É PODER
Não são precisos jogadores de futebol para nos erguerem o orgulho patriótico. Só é preciso acreditar que podemos fazer a diferença. E, se quisermos, podemos.
I
I will be king
and you
you will be queen
though nothing will
drive them away
we can beat them
just for one day
we can be heroes
just for one day
and you
you can be mean
and I
I'll drink all the time
'cause we're lovers
and that is a fact
yes we're lovers
and that is that
though nothing
will keep us together
we could only steal time
just for one day
we can be heroes
for ever and ever
what do you say
I wish you could swim
like the dolphins
like dolphins can swim
though nothing
though nothing will keep us together
we can beat them
for ever and ever
oh we can be heroes
just for one day
I will be king
and you
you will be queen
though nothing will drive them away
we can be heroes
just for one day
we can be us
just for one day
I remember
standing
by the wall
the guns
shot about our heads
and we kissed
as though nothing could fall
and the shame
was on the other side
oh we can beat them
for ever and ever
then we can be heroes
just for one day
we can be heroes
we can be heroes
we can be heroes
just for one day
we can be heroes
we're nothing
and nothing will help us
maybe we're lying
then you better not stay
but we could be safer
just for one day.
- David Bowie: "Heroes" (in "Heroes", RCA, 1977)
I
I will be king
and you
you will be queen
though nothing will
drive them away
we can beat them
just for one day
we can be heroes
just for one day
and you
you can be mean
and I
I'll drink all the time
'cause we're lovers
and that is a fact
yes we're lovers
and that is that
though nothing
will keep us together
we could only steal time
just for one day
we can be heroes
for ever and ever
what do you say
I wish you could swim
like the dolphins
like dolphins can swim
though nothing
though nothing will keep us together
we can beat them
for ever and ever
oh we can be heroes
just for one day
I will be king
and you
you will be queen
though nothing will drive them away
we can be heroes
just for one day
we can be us
just for one day
I remember
standing
by the wall
the guns
shot about our heads
and we kissed
as though nothing could fall
and the shame
was on the other side
oh we can beat them
for ever and ever
then we can be heroes
just for one day
we can be heroes
we can be heroes
we can be heroes
just for one day
we can be heroes
we're nothing
and nothing will help us
maybe we're lying
then you better not stay
but we could be safer
just for one day.
- David Bowie: "Heroes" (in "Heroes", RCA, 1977)
LOGBOOK #12: DEVAGAR SE VAI AO LONGE
Sesimbra: Cabo Afonso, sábado 26 de Junho, 11h18: 9.8m, 70min, 20º C
Do outro lado do Cabo Afonso, em dia de mar chão e brisa leve, a água terá uma visibilidade aí de quatro metros, não mais, perturbada por suspensão esverdeada e, aqui e ali, por o que parece areia em gravidade zero. Tudo à volta está repleto de enormes laminárias, ondulando ao sabor da corrente, escondendo a vida que se agarra às rochas. A cinco metros, enormes cardumes prateados rodopiam como nuvens. Estendo a mão para me afastar de uma rocha da qual estou demasiado próximo, incomodo sem reparar um polvo que dispara imediatamente para o fundo, escondendo-se por entre as laminárias.
É o meu recorde de permanência debaixo de água — 70 minutos e ainda trouxe 50 bares de ar para cima — muito ajudado pela fraca profundidade e pelo parceiro: o Luís (um divemaster certificado que trouxe ainda 70 bares para cima) parece-se com Michael Moore mas em mais magro, mora em Espanha, apenas mergulha em Portugal quando vem de férias uma vez por ano, e tem a idiossincrasia de não levar tradicional fato de duas peças ou semi-seco, mas sim dois fatos térmicos de 2mm sobrepostos, sem capuz (e eu é que ainda acabei o mergulho a começar a ter frio...).
Desconhecendo o rapaz o Cabo Afonso, aproveitei a ocasião para lhe fazer uma "visita guiada" onde pratiquei, titubeantemente mas com algum sucesso, algumas das técnicas de orientação que aprendi no nível avançado, e aproveitei para afinar a minha flutuabilidade (a ver se da próxima vez já consigo tirar um peso aos chumbos).
À saída, a expressão de felicidade do Luís, que não ia ao mar há ano e meio e entrava hoje de férias, resume na perfeição porque é que eu gosto tanto disto. E não só sou eu.
Do outro lado do Cabo Afonso, em dia de mar chão e brisa leve, a água terá uma visibilidade aí de quatro metros, não mais, perturbada por suspensão esverdeada e, aqui e ali, por o que parece areia em gravidade zero. Tudo à volta está repleto de enormes laminárias, ondulando ao sabor da corrente, escondendo a vida que se agarra às rochas. A cinco metros, enormes cardumes prateados rodopiam como nuvens. Estendo a mão para me afastar de uma rocha da qual estou demasiado próximo, incomodo sem reparar um polvo que dispara imediatamente para o fundo, escondendo-se por entre as laminárias.
É o meu recorde de permanência debaixo de água — 70 minutos e ainda trouxe 50 bares de ar para cima — muito ajudado pela fraca profundidade e pelo parceiro: o Luís (um divemaster certificado que trouxe ainda 70 bares para cima) parece-se com Michael Moore mas em mais magro, mora em Espanha, apenas mergulha em Portugal quando vem de férias uma vez por ano, e tem a idiossincrasia de não levar tradicional fato de duas peças ou semi-seco, mas sim dois fatos térmicos de 2mm sobrepostos, sem capuz (e eu é que ainda acabei o mergulho a começar a ter frio...).
Desconhecendo o rapaz o Cabo Afonso, aproveitei a ocasião para lhe fazer uma "visita guiada" onde pratiquei, titubeantemente mas com algum sucesso, algumas das técnicas de orientação que aprendi no nível avançado, e aproveitei para afinar a minha flutuabilidade (a ver se da próxima vez já consigo tirar um peso aos chumbos).
À saída, a expressão de felicidade do Luís, que não ia ao mar há ano e meio e entrava hoje de férias, resume na perfeição porque é que eu gosto tanto disto. E não só sou eu.
25 de junho de 2004
E AO INTERVALO...
De facto, só mesmo uma troca de primeiro-ministro poderia desalojar o futebol das aberturas de telejornais, o que não deixa de ser refrescante e agradável quando há quinze dias que os noticiários não falam de outra coisa que não seja o "beautiful game". Pese embora a surpresa com que tudo se revela, enquanto está tudo a olhar "para o outro lado", quer seja as emoções fortes do Europeu de futebol ou as inaugurações consumistas da semana.
O modo como a coisa acontece, contudo, não deixa de ser assaz futebolístico, reminiscente de uma substituição ao meio-tempo, com os treinadores de bancada já a lançarem os seus bitaites sobre quem será o jogador escolhido para render Durão Barroso, aparentemente a caminho do Parlamento Europeu. No fundo, no fundo, a táctica é a mesma; só muda o relvado.
O modo como a coisa acontece, contudo, não deixa de ser assaz futebolístico, reminiscente de uma substituição ao meio-tempo, com os treinadores de bancada já a lançarem os seus bitaites sobre quem será o jogador escolhido para render Durão Barroso, aparentemente a caminho do Parlamento Europeu. No fundo, no fundo, a táctica é a mesma; só muda o relvado.
EFUSIVA PARABENIZAÇÃO À REFERÊNCIA (E NÃO SÓ)
O Arame faz hoje um ano. Acho que já disse algures aqui (até mais que uma vez) que o Arame foi um dos impulsos para o arranque do Roda Livre, e continua a ser uma das minhas visitas diárias obrigatórias. Impõe-se, por isso, felicitar efusivamente o Alexandre Monteiro: sempre ecléctico, esquizofrénico, encantatório, elíptico, excêntrico, e muitas vezes extraordinário, o Arame é um dos meus blogues de referência e, se lhe derem algum tempo, pode ser também que venha a ser dos vossos. Há uma alma de escritor escondida ali dentro; e no dia em que o Alexandre finalmente escrever o seu livro, Bruce Chatwin poderá ter encontrado o seu gémeo português.
Parabéns, e que contes muitos.
(Por acaso — ou talvez não? — o Arame faz anos no mesmo dia de Sua Lisboeza de Benfica e de Ma Très, Très Chère Marta, que merecem igualmente, mas de outro modo, ser efusivamente parabenizados.)
Parabéns, e que contes muitos.
(Por acaso — ou talvez não? — o Arame faz anos no mesmo dia de Sua Lisboeza de Benfica e de Ma Très, Très Chère Marta, que merecem igualmente, mas de outro modo, ser efusivamente parabenizados.)
24 de junho de 2004
PEQUENO POST CELEBRATÓRIO DA VITÓRIA IMPRÓPRIA PARA CARDÍACOS
(que, diga-se em abono da verdade, não era preciso ver, porque a ruidosa manifestação da vizinhança servia perfeitamente como descrição da acção; e com dedicatória a todos aqueles que entraram em hipertensão ou arriscaram o ataque cardíaco com as emoções fortes da noite):
time stands still
all I can feel is the time standing still
as you put down the keys
and say don't call me please
while the radio plays
"I Think I Need a New Heart"
Como de costume, Stephin Merritt sabe o que diz. (E, a despropósito, a música de "Pieces of April", o filme de que falo aqui em baixo, é dele: um instrumental, uma canção inédita e uma escolha de reportório pré-existente dos Magnetic Fields e dos 6ths.)
time stands still
all I can feel is the time standing still
as you put down the keys
and say don't call me please
while the radio plays
"I Think I Need a New Heart"
Como de costume, Stephin Merritt sabe o que diz. (E, a despropósito, a música de "Pieces of April", o filme de que falo aqui em baixo, é dele: um instrumental, uma canção inédita e uma escolha de reportório pré-existente dos Magnetic Fields e dos 6ths.)
O PATINHO FEIO
"Pedaços de uma Vida" é um título muito idiota. O António Rodrigues diz hoje no Diário de Notícias que parece título de telefilme e tem toda a razão, mas o filme de Peter Hedges (estreia hoje: Alvaláxia, Corte Inglés, Quarteto, AMC e Freeport Alcochete) é tudo menos um "caso da vida". Rodado em câmara digital à mão, quase como um documentário-"vérité", é uma desconstrução inteligente do que significa (não) pertencer a uma família.
April, a "ovelha ranhosa", rebelde e iconoclasta, de uma burguesa e conformada família suburbana, convida-os para o almoço do Dia de Acção de Graças em sua casa, como gesto de boa vontade para "fazer as pazes" com a mãe que tem um cancro em fase terminal. Mas tudo conspira para o desastre: April é tão mal vista que a viagem até Nova Iorque mais parece um sacrifício insuportável, isto enquanto o fogão da miúda se decide a avariar na pior altura.
"Pieces of April" (excelente e subtil título original) parece ser uma comédia do desastre, mas é na realidade uma meditação sobre os laços do sangue, onde o essencial é mostrado quase de passagem, de modo elíptico, em duas, três cenas onde a intensidade dos actores e a inteligência da realização afastam todas as fachadas que não são mais do que preconceitos, obstáculos facilmente ultrapassáveis; um estudo sobre o que significa precisar de alguém. Doce-amargo, como sempre é qualquer filme que acerte na mouche do que é viver em família.
23 de junho de 2004
POLAROID 23 DE JUNHO
No Campo Grande, ouve-se a voz do condutor: "estação terminal, é favor abandonar o comboio". Um senhor de meia-idade que viaja ao meu lado pergunta-me se o comboio não segue para Odivelas; explico-lhe que este não, que são comboios alternados e o seguinte prosseguirá caminho.
A estação de Alvalade, que está em obras de ampliação, é uma das poucas estações que ainda não foi renovada (quase todas estão na linha verde, de Telheiras ao Cais do Sodré). Quando o metro se estendeu a Alvalade, aquele bairro era considerado "fora de mão", quase um subúrbio da cidade; a estação tinha a peculiaridade de ter não duas mas três linhas, com uma para os comboios que terminavam em Alvalade, e duas para os comboios que partiam de Alvalade — uma para Entre Campos, outra para Sete Rios, embora à saída da estação a linha dupla se transformasse numa única.
Hoje, o terceiro cais está tapado por chapas metálicas enquanto lá atrás se ouve o ruído de obras. No cais, contudo, continuam os velhos bancos de ripas de madeira castanhas-escuras, estilo jardim, os velhos azulejos azul e cinza, o chão e o tecto de cimento armado gris. Precocemente envelhecido.
Ao meu lado no comboio para a Baixa-Chiado, uma jovem escreve num caderno de argolas enquanto preenche afincadamente um livro de exercícios gramaticais de russo.
O metro está cheio de adeptos alemães e checos, No caso dos alemães, não seria preciso as camisolas brancas da selecção para percebermos que são alemães. No caso dos checos, não seria difícil perceber que não eram portugueses, mas como vêm quase todos com camisolas da selecção a identificação é facilitada. À saída do metro, no Rossio e nos Restauradores, o número de adeptos aumenta exponencialmente, sobretudo em esplanadas, com canecas de cerveja à frente, mas tudo ordeiro e civilizado.
Alguns jogadores da selecção grega passeiam sozinhos, sem serem notados, pela Avenida da Liberdade, traídos apenas pelas T-shirts que trazem vestidas.
A estação de Alvalade, que está em obras de ampliação, é uma das poucas estações que ainda não foi renovada (quase todas estão na linha verde, de Telheiras ao Cais do Sodré). Quando o metro se estendeu a Alvalade, aquele bairro era considerado "fora de mão", quase um subúrbio da cidade; a estação tinha a peculiaridade de ter não duas mas três linhas, com uma para os comboios que terminavam em Alvalade, e duas para os comboios que partiam de Alvalade — uma para Entre Campos, outra para Sete Rios, embora à saída da estação a linha dupla se transformasse numa única.
Hoje, o terceiro cais está tapado por chapas metálicas enquanto lá atrás se ouve o ruído de obras. No cais, contudo, continuam os velhos bancos de ripas de madeira castanhas-escuras, estilo jardim, os velhos azulejos azul e cinza, o chão e o tecto de cimento armado gris. Precocemente envelhecido.
Ao meu lado no comboio para a Baixa-Chiado, uma jovem escreve num caderno de argolas enquanto preenche afincadamente um livro de exercícios gramaticais de russo.
O metro está cheio de adeptos alemães e checos, No caso dos alemães, não seria preciso as camisolas brancas da selecção para percebermos que são alemães. No caso dos checos, não seria difícil perceber que não eram portugueses, mas como vêm quase todos com camisolas da selecção a identificação é facilitada. À saída do metro, no Rossio e nos Restauradores, o número de adeptos aumenta exponencialmente, sobretudo em esplanadas, com canecas de cerveja à frente, mas tudo ordeiro e civilizado.
Alguns jogadores da selecção grega passeiam sozinhos, sem serem notados, pela Avenida da Liberdade, traídos apenas pelas T-shirts que trazem vestidas.
22 de junho de 2004
O DÉSPOTA ILUMINADO PRONUNCIA-SE
Porque é que, geralmente, os fãs de artistas ou bandas medianos, sofríveis ou mesmo maus têm tanta tendência para defender apaixonadamente os artistas ou bandas de que gostam, para lá de toda e qualquer razão e relevância? Porque é que lhes é tão difícil aceitar que possa haver opiniões contrárias e insistem tanto em que a sua opinião é a única válida, e são tão intransigentes para com aqueles que não concordam com eles?
Juro-vos: quando leio cartas de leitores irados ou posts de fãs magoados em jornais, chats, sites e afins, apetece-me parar de escrever sobre música. Se a única coisa que querem é subserviência, confirmação do seu gosto pessoal, fanatismo cego, textos de fanzine adolescente, então vão bater a outra porta. Eu não escrevo para quem fecha os olhos ao que não lhe interessa. Eu escrevo para quem tem paixão, mas aceita ouvir o outro lado da moeda e admite que há outras maneiras de ver o mundo; para quem não sente que o seu gosto é posto em causa por outros não concordarem. Eu escrevo contra o nivelamento por baixo, contra o corporativismo, contra o pré-mastigado, pré-congelado, pré-formatado. Gosto, não gosto, e procuro defender a minha dama o melhor que sei, com a ajuda dos 25 anos que levo a ouvir música.
Infelizmente, para os jovens punks que amam (hoje) os Evanescence (e amanhã outros gajos quaisquer) isso torna-me num cota irrelevante.
É fodido ser um cota irrelevante.
a despropósito: as três primeiras canções que a Best Rock FM tocou hoje depois das 10 da manhã: uma qualquer dos Evanescence; "Someone that Cannot Love" de David Fonseca; "Behind Blue Eyes" dos Limp Bizkit. Ainda bem que sou um cota irrelevante (mesmo que não desgoste do David Fonseca)
Juro-vos: quando leio cartas de leitores irados ou posts de fãs magoados em jornais, chats, sites e afins, apetece-me parar de escrever sobre música. Se a única coisa que querem é subserviência, confirmação do seu gosto pessoal, fanatismo cego, textos de fanzine adolescente, então vão bater a outra porta. Eu não escrevo para quem fecha os olhos ao que não lhe interessa. Eu escrevo para quem tem paixão, mas aceita ouvir o outro lado da moeda e admite que há outras maneiras de ver o mundo; para quem não sente que o seu gosto é posto em causa por outros não concordarem. Eu escrevo contra o nivelamento por baixo, contra o corporativismo, contra o pré-mastigado, pré-congelado, pré-formatado. Gosto, não gosto, e procuro defender a minha dama o melhor que sei, com a ajuda dos 25 anos que levo a ouvir música.
Infelizmente, para os jovens punks que amam (hoje) os Evanescence (e amanhã outros gajos quaisquer) isso torna-me num cota irrelevante.
É fodido ser um cota irrelevante.
a despropósito: as três primeiras canções que a Best Rock FM tocou hoje depois das 10 da manhã: uma qualquer dos Evanescence; "Someone that Cannot Love" de David Fonseca; "Behind Blue Eyes" dos Limp Bizkit. Ainda bem que sou um cota irrelevante (mesmo que não desgoste do David Fonseca)
21 de junho de 2004
POR FALAR EM OBRAS
Agora que tenho a casa de retorno a um semblante de normalidade, o elevador do prédio está avariado, na sequência de uma falha de energia no poço das escadas na sexta-feira. Não me posso queixar, apesar de tudo; quem mora no quarto andar está com certeza bastante mais irritado com a situação.
20 de junho de 2004
OLHA QUE NÃO SEI
Não, Sara, não és a única obsessiva-compulsiva a ver genéricos até ao fim. Eu também sou; fico sozinho no cinema até o genérico acabar.
(E tenho o grato privilégio de poder chamar amigo ao Elvis Veiguinha, que é uma jóia de pessoa, mesmo que só nos vejamos, oh, para aí de ano a ano.)
(E tenho o grato privilégio de poder chamar amigo ao Elvis Veiguinha, que é uma jóia de pessoa, mesmo que só nos vejamos, oh, para aí de ano a ano.)
A FLEUMA NECESSÁRIA
Sim, eu sei, nós ganhámos, 1-0, à Espanha, que andavam a fazer guerra psicológica e tudo, etc, etc, etc. Ora ainda bem. Mas não é preciso festejar como se já tivéssemos ganho o Europeu — ainda só passámos aos quartos-de-final. (Ou será que Portugal estava tão descrente da selecção que não punha a hipótese de ir aos quartos-de-final e a celebração resulta de ter sido apanhada de surpresa?)
Como dizia o outro, "it ain't over 'till the fat lady sings", e eu cá ainda não vi nenhuma diva gorda a aproximar-se do palco.
Como dizia o outro, "it ain't over 'till the fat lady sings", e eu cá ainda não vi nenhuma diva gorda a aproximar-se do palco.
RUMINAÇÕES MUITO CÁ DE CASA
Há sempre qualquer coisa que fica por arranjar depois das obras — agora que já tenho tectos novos e paredes pintadas na casa de banho, na cozinha e na marquise, faltam-me os candeeiros para as iluminar devidamente. Na casa de banho, "esqueceram-se" de me recolocar o aplique que lá estava e o camarão que ancora a barra em L do cortinado do chuveiro (coisas que, infelizmente, exigem duas pessoas para serem feitas em segurança); na cozinha, vou finalmente poder substituir a raquítica lâmpada que estava lá à espera que o tecto fosse arranjado por um candeeiro fluorescente. No resto, passei a manhã a fazer as limpezas mínimas essenciais necessárias para devolver as partes de casa a um estado, enfim, não pristino (porque a tinta, infelizmente, ainda mancha os azulejos do chão) mas asseado, higiénico e habitável.
E, enquanto finalmente libertava o quarto e a sala de tudo aquilo que tinha sido temporariamente transplantado de uma para outra divisória, reparei como é muito mais fácil arrumar do que desarrumar e como, uma vez afastado tudo aquilo que não está efectivamente ali a fazer falta nenhuma, é surpreendente como tão pouca coisa é efectivamente necessária, desde que haja sítio para a arrumar — coisa que o escritório começa a não ter, e o IKEA está a abrir. Estou bem arranjado.
E, enquanto finalmente libertava o quarto e a sala de tudo aquilo que tinha sido temporariamente transplantado de uma para outra divisória, reparei como é muito mais fácil arrumar do que desarrumar e como, uma vez afastado tudo aquilo que não está efectivamente ali a fazer falta nenhuma, é surpreendente como tão pouca coisa é efectivamente necessária, desde que haja sítio para a arrumar — coisa que o escritório começa a não ter, e o IKEA está a abrir. Estou bem arranjado.
19 de junho de 2004
LOGBOOK #11: O BODIÃO EQUILIBRISTA
Sesimbra: Ponta da Passagem, sábado 19 de Junho, 11h48: 13.3m, 54min, 16º C
À volta da passagem propriamente dita que dá nome à Ponta, há uma série de "carreiros", "desfiladeiros" naturais por onde podemos passear olhando para a vida que se afixa às "paredes" de rocha. Num desses, que sobe dos doze aos cinco metros, com fundo arenoso coberto por laminárias de um castanho translúcido, há a meio uma rocha redonda onde um bodião granjola parece fazer equilibrismo, virando a sua barriga esbranquiçada, deixando ver as guelras enquanto as suas barbatanazinhas, quais asinhas, o mantêm em posição perfeitamente vertical. A visão foi certificada por uma fotografia do Pedro.
É curioso mergulhar em "acompanhamento" de um fotógrafo: a velocidade do mergulho trava imediatamente, devido à atenção redobrada que se presta à máquina, ao enquadramento, ao assunto. Numa zona em que não haja nada para ver, o parceiro está bem arranjado; na Ponta da Passagem, onde há tanta coisa para ver, é um prazer. Ainda por cima, a baixa profundidade (o grosso do mergulho faz-se sempre acima dos dez metros) prolonga a estadia e redobra o prazer.
À volta da passagem propriamente dita que dá nome à Ponta, há uma série de "carreiros", "desfiladeiros" naturais por onde podemos passear olhando para a vida que se afixa às "paredes" de rocha. Num desses, que sobe dos doze aos cinco metros, com fundo arenoso coberto por laminárias de um castanho translúcido, há a meio uma rocha redonda onde um bodião granjola parece fazer equilibrismo, virando a sua barriga esbranquiçada, deixando ver as guelras enquanto as suas barbatanazinhas, quais asinhas, o mantêm em posição perfeitamente vertical. A visão foi certificada por uma fotografia do Pedro.
É curioso mergulhar em "acompanhamento" de um fotógrafo: a velocidade do mergulho trava imediatamente, devido à atenção redobrada que se presta à máquina, ao enquadramento, ao assunto. Numa zona em que não haja nada para ver, o parceiro está bem arranjado; na Ponta da Passagem, onde há tanta coisa para ver, é um prazer. Ainda por cima, a baixa profundidade (o grosso do mergulho faz-se sempre acima dos dez metros) prolonga a estadia e redobra o prazer.
Subscrever:
Mensagens (Atom)